Preâmbulo ao React do vídeo dos padres sobre a Guerra Espiritual

Não pude deixar de lado um vídeo sugerido por um seguidor do meu Canal, onde dois padres discutem o tema da Guerra Espiritual. Vou ter que comentar ponto a ponto, e prefiro fazer isso através de um React. Porém, cabe um preâmbulo a esta tarefa, com três itens:

1- Imitação de Cristo e renúncia ao Pacto Ouroboros: todo exorcismo é posterior ao Pecado Original e opera como um remédio que não seria necessário se esta prática fosse renunciada desde o início. Ou seja, quem imita a virtude cristã de Jesus e da Virgem Maria simplesmente impede que existam as condições mínimas para qualquer ação infernal de sugestão, influência ou possessão demoníaca. Dito isso, de certo modo, toda vez que a cultura do exorcismo ignora esses exemplos maiores de virtude e de sua solução mais perfeita e recomenda apenas o remédio como se o Pecado Original fosse um fait accompli inevitável, ela se torna uma cultura de Legitimação da Mistura. Algo típico da Religião para manter o seu poder de escravidão sobre os ignorantes e para viver do seu pecado.

2- Principais armas espirituais além da imitação da virtude cristã: já considerada a renúncia ao Pacto Ouroboros, restam como excelentes armas espirituais os dons de Vigilância e Discernimento, o primeiro para afastar a Ingenuidade e reconhecer a realidade espiritual de decaimento do mundo e da humanidade, e o segundo para se reconhecer as influências espirituais no seu modus operandi, afastando o perigo do Psiquismo. Mais forte do que o paliativo do exorcismo já posterior à ação maligna sobre as almas ingênuas e psíquicas, é a ação dos dons divinos de liberdade contra esses agressores.

3- Mateus 10-28: como se diz no ditado, “do chão não passa”, isto é, no pior caso o possuído pode ser atormentado e causar males a si e a terceiros, mas com o decreto da morte do corpo o alcance dos poderes demoníacos é limitado, de modo que não devemos temer esses poderes que assolam os corpos humanos, mas o poder daquele que pode nos cortar da Vida Eterna, isto é, Deus. Em outras passagens Jesus é extremamente enfático: não temam, tudo está sob o controle do Pai, não temei e não deixei se intimidar por ameaças vazias de quem não pode nos cortar da relação com Deus. A prescrição do exorcismo se inclui no rol daquelas medidas que aliviam os sofrimentos humanos de uma forma geral, todos importantes até certo ponto, mas menos valiosos que os dons preventivos já citados (Vigilância e Discernimento) e, mais ainda, muito menos valiosos que a própria imitação de Cristo e a renúncia à participação no Pecado Original. Se isto é assim, porque a Religião enfatiza tanto o Exorcismo? Porque isso confere autoridade e poder ao Exorcista. A imitação de Cristo e a recepção dos dons do Espírito Santo não dão audiência, prestígio nem lucro para as Religiões. Neste sentido, como já enfatizado no Capítulo 10 da Monadofilia, o líder religioso é tão dependente da perpetuação do mal quanto o líder político, pois o seu poder requer a continuidade do status quo da escravidão da humanidade ao pecado, que é o que mantém o Sistema da Besta. E assim estas lideranças humanas imitam os próprios demônios cujo poder também depende da perpetuidade da traição contra Deus, como um parasita depende de um hospedeiro.

Nuremberg, filme por James VANDERBILT

Eu já assisti uns dois ou três filmes com esta temática. E conheço algo da História o suficiente para ir além do roteiro imediato, inserindo a narrativa num contexto maior.

Qual é o cenário?

O ano é 1946. Os vencedores da Segunda Guerra Mundial se ocupam com a construção da História que será lida no futuro: não querem que seja reconhecida apenas a sua supremacia econômica e militar, mas sobretudo querem ser moralmente justificados. Além disso, particularmente no contexto do plano dos Aliados para a Alemanha, é necessário fazer algo que sirva como uma cerimônia de purgação coletiva para fortalecer o processo de desnazificação e a reinserção daquela nação no contexto da Guerra Fria. As lideranças decidem promover uma série de julgamentos das lideranças do Terceiro Reich, dentre os quais o principal será promovido contra a elite nazista. As principais acusações são de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Os principais réus são Goering, Hess, Ribbentrop e Speer.

Este filme foca principalmente em Goering, interpretado por Russell Crowe, que faz um trabalho decente. Talvez em alguns aspectos a performance de Brian Cox num filme anterior tenha sido superior. Mas a função social e espiritual do filme repete a de todos os outros: a reiteração desse mito de que os vencedores são sempre os melhores e que mereciam ganhar. Quanto mais longínquo fica um período histórico, mais fácil é a revisão dessa mitologia. No caso desse tipo de História mais recente, como ainda existem muitos interesses dependentes desse alicerce propagandístico, a revisão fica mais difícil ou mesmo impossível. Mas é fácil verificar as vulnerabilidades do Processo, afinal os acusadores não foram personagens neutros, como ETs marcianos, mas as próprias nações vitoriosas. Seja na questão da conspiração para promover a guerra, o que não é difícil demonstrar com os bloqueios navais seja da Alemanha ou do Japão, ou na prática de crimes contra a humanidade, na qual por exemplo os Aliados derem exemplos insuperáveis nos seus bombardeios de terror, não seria difícil relativizar muito ou até mesmo ignorar completamente a validade desses julgamentos.

Supostamente o Julgamento de Nuremberg também deveria servir como jurisprudência precedente para a fundação de um Direito Internacional. O problema disso é que, como de praxe, a força vem antes da suposta justiça dos homens. Assim como é necessário primeiro a polícia prender um bandido para que os tribunais possam depois julgá-lo, o tal do Direito Internacional depende de que algumas nações tenham poder suficiente sobre outras a ponto de serem capazes de administrar essa tal justiça. Quando uma nação vitoriosa julga moralmente o vencido, quem tem o poder real de garantir que o acusado possa ser absolvido? E pior, quem tem a capacidade de acusar, julgar e executar sentenças contra uma liderança criminosa quando esta governa os Estados que concentram o maior poder? Que eu saiba o tal do Direito Internacional já condenou personalidades como Putin e Netanyahu, mas quem pode prender essas pessoas que são protegidas pelas grandes nações da Rússia e dos EUA? Ou seja, o Direito Internacional só funciona quando é usado pelos poderosos, exatamente como um instrumento teatral.

Foi mais ou menos isso que a liderança nazista respondeu de imediato ao tomar conhecimento do processo judicial. Diziam que era um teatro, e que era mais fácil e justo que simplesmente fossem fuzilados. Alguns, como Speer, jogaram com essa teatralidade a seu favor, fazendo-se de “bons alemães” como tática colaboracionista, no espírito do que seria a parceria no contexto da Guerra Fria. Outros, como Goering, bem cientes de que seriam os bodes expiatórios para a purgação da nação alemã, já decidiram ocupar voluntariamente o outro lado do teatro, assumindo suas convicções e defendendo a posição nazista.

Este filme em particular possui algumas omissões e inexatidões que são previsíveis. Goering teve que ser isolado dos demais réus, porque sua presença era suficiente para influenciar negativamente no sentido indesejado pelo Tribunal, isto é, na direção da defesa do regime nazista. Isto não é evidenciado pelo filme, pela simples razão de que esse tipo de medida faria notar o quanto o empreendimento como um todo era mais uma ação de propaganda do que realmente uma questão de prática da justiça.

Além disso, o filme não dá uma informação importante, de que Goering havia pedido para que sua execução fosse feita por um pelotão de fuzilamento, o que é o mais adequado para um réu militar. Somente quando teve a certeza de que seria enforcado como um criminoso comum é que Goering resolveu se suicidar. Ou seja, ele não estava muito animado com alguma ilusão de vencer o processo, e neste sentido era realista e resignado, mas não aceitou particularmente o método da execução da sua sentença de morte. Quis ele também mostrar que até o fim era o senhor do seu destino particular? Talvez, mas isso não é historicamente evidenciado.

Um dos pontos mais fracos do filme foi a absurda exposição do Juiz Jackson, dos EUA, que neste Julgamento atuou como Promotor, quando ele pede a ajuda do psicólogo dos prisioneiros para obter informações privilegiadas quanto às fragilidades e segredos de Goering. Vejam bem, eu nem duvido que isto tenha acontecido, mas não faz sentido inserir esta cena num filme que quer defender o procedimento como um todo. Esse tipo de prática serviria, e com facilidade, para a anulação de qualquer processo judicial. Qual é o efeito desta cena no filme como um todo? É uma exibição de audácia, de confiança abusiva na superioridade moral dos acusadores. Mas seria hybris do roteirista, ou a idéia seria gerar esse sentimento na audiência, no sentido de normalizar as injustiças menores em prol das supostas justiças maiores? Os fins devem justificar os meios? Algo me diz que essa é uma tendência de Hollywood com as gerações mais novas, uma fábrica de monstrinhos.

O filme como um todo é cheio do espírito do mundo, do espírito de mentira, e não porque os réus fossem inocentes, mas porque os acusadores em sua maioria deveriam ser igualmente lançados na lata de lixo da História.

Nota espiritual: 3,0 (Moriquendi)

Humildade/Presunção2
Presença/Idolatria2
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo3
Vigilância/Ingenuidade1
Discernimento/Psiquismo4
NOTA FINAL3,0