Napoleão, filme por Ridley SCOTT

O homem não pode salvar a si próprio.

Os revolucionários são iguais à nobreza, na sua essência humana, divergindo apenas no lado que ocupam na Dialética Histórica.

A função da Revolução é apenas a de mudar o Poder das mãos de um grupo para o outro, produzindo a imagem da mudança, mas apenas com o intuito de não mudar realmente a continuidade da história do Pacto Ouroboros.

Ordem, dissolução, estabilização, e uma nova ordem.

Sal velho, mercúrio, enxofre, e um novo cristal.

Não há nada de novo sob o sol. Napoleão foi apenas um escolhido para liderar parte desse processo histórico, e apenas por um breve período.

Neste sentido o filme Napoleão mostra, em contraste com a grandeza histórica do ponto de vista humanista, a pequenez do fenômeno real, mas isso não é oferecido claramente, é uma oportunidade só para quem a busca.

Por si, no máximo o filme continua a dar a impressão de importância e valor àquilo que não tem.

Nota espiritual: 4,3 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,3

Eutidemo, livro por PLATÃO

O diálogo cujo assunto é a erística, ou seja, a arte da discussão como fim em si mesmo, é aberto com a exibição da capacidade de jogar com palavras ignorando-se a verdade de seus sentidos particulares e qualificados, um expediente que obviamente não impressiona Sócrates, e na verdade só pode nos irritar, principalmente a reação de riso debochado e escarnecedor da plateia ao ver um amante de discussões perturbar a paz e “vencer” um amante da sabedoria. De todo modo esse tipo de ensino propunha tornar virtuosos os seus aprendizes, e Sócrates não deixa de querer investigar essa possibilidade.

Mas então, depois de algumas falas sem sentido da parte dos sofistas, Sócrates assume o comando da situação com sua própria proposta de exortação da virtude (a Filosofia, ou amor pela sabedoria), iniciando pela demonstração que acima de todos os bens mundanos, como a saúde, a riqueza, a beleza, etc., está a sabedoria, pois sem ela todos esses bens tornam-se potencialmente males, pelo seu mau uso, de modo que a sabedoria é o principal dos bens, já que permite ao ser humano o usufruto adequado de todos os demais. Essa concepção clássica é irrefutável enquanto ideal de conhecimento, mas é inviável enquanto realidade pela limitação constitutiva da sabedoria humana. É no limiar dessa fronteira que encontramos a distinção dos territórios de Sócrates e Platão, o primeiro mais satisfeito com a condição humana, e o segundo mais pretensioso em seu Gnosticismo.

Em seguida, porém, os sofistas Eutidemo e Dionisodoro continuam produzindo seus truques verbais no intuito de causar perplexidade e paralisia. Um adversário deles, Ctesipo, chega ao cúmulo da irritação, mas é apaziguado por Sócrates, que oferece a muito mais digna e sólida posição de se levar a sério o discurso alheio até o fim, uma deliberação que é na verdade invencível, embora seja muitas vezes difícil de se manter, se não se possuir a necessária frieza.

Até o fim deste diálogo parece que Sócrates apenas ironiza a suposta sabedoria dos adversários, mas há que se considerar uma outra possibilidade. Quando dizem grandes e óbvios absurdos, como que o conhecimento de uma coisa constituiria o conhecimento de todas (e desde sempre), bem como que a paternidade de um ser significaria a paternidade de todos, etc., a prática desconstrucionista dos sofistas não deixa de ser um reflexo dos limites da linguagem humana, e de todo discurso no fim das contas: não é possível produzir um testemunho completo a respeito de nada, porque as predicações e qualificações tenderiam ao infinito e nunca bastariam. Tanto a premissa quanto a conclusão de um argumento encontram-se numa realidade que transcende a linguagem necessariamente. A prática erística apenas evidencia que a comunicação humana é um jogo que depende da credulidade dos participantes, e embora evidencie isso com exemplos muito exagerados, nos dá o que pensar a respeito dos casos menos óbvios e mais sutis, sobre o quanto também não são efetivos com base na mesma lógica de crença numa suficiência que nunca é esgotada no discurso. Isto quer dizer que, mesmo que indiretamente, a erística favorece a recepção dos dons de Humildade e de Soberania.

Gnosiologicamente, compreendemos isso pelo limite da Percepção da mônada criada, determinada pela sua forma substancial. A linguagem humana, afinal de contas, repercute apenas parte do que é objeto de sua Percepção, mas esta própria experiência de perceber só realiza, de cada vez, uma ínfima parte daquilo que é possível de ser percebido, no infinito escopo da Possibilidade Universal. Assim sendo, apenas o Intelecto da Mônada Incriada possui em si a satisfação da plenitude da sua Percepção, enquanto a mônada criada, por seu turno, se realiza na satisfação determinada pela sua forma limitada de ser, em que cada Percepção é sempre parcial e finita, e só precisa atender também a uma Apetição igualmente parcial e finita. Filosoficamente, isso implica na admissão dos limites do conhecimento humano com espírito de contentamento e gratidão, o espírito exatamente contrário ao Gnosticismo luciferino. O objetivo da linguagem humana nunca deve ser o da Pretensão, isto é, o de desejar o domínio da verdade, já que aquilo que é verdadeiro o é tão mais quanto é divino, isto é, o quanto escape do nosso controle e nos transcenda. Há, na postura de Sócrates, em contraste com a de Platão, um aceite muito mais adequado a essa condição humana. E, bem tratado, sem preconceitos, o testemunho a respeito das provocações de Eutidemo e Dionisodoro, vemos que esses irresponsáveis acabam tendo sua função na desmoralização da falsa veracidade de alguns responsáveis, mais ou menos como desempenham seus papéis os bobos da côrte ao ridicularizar aqueles que não podem perder a pose de suas supostas seriedades.

Note-se que Platão, mesmo sendo tão empolgado com as perspectivas gnósticas da Filosofia, não deixa de ser fiel em seu testemunho, nos permitindo ligar pontos que ele talvez não pudesse, ou não quisesse ligar. Onde os sofistas parecem argumentar com a mesma lógica dos eleatas, há um rastro de investigação da Unidade do Ser e, portanto, da forma da mônada. Senão vejamos: quando afirmam que o conhecimento de uma coisa é o mesmo que o conhecimento de todas, não estão falando da Percepção potencial? Embora apenas em Deus a atualidade da Percepção seja total, ela não é virtualmente total também na mônada criada, que apenas passa de uma Percepção para a próxima, mas sempre o tendo podido fazer diversamente, ou seja, sempre tendo podido de fato conhecer qualquer coisa? Essa possibilidade não é simultânea? E mesmo não sendo conhecimento em ato, não é em potência? O conhecimento de uma coisa não implica, por definição, a potência de conhecer todas as demais? E essa potência não é imediata? Platão mesmo, de certo modo, não vai poder escapar disso mais tarde, quando apelar para a Reminiscência, já que o problema existe: como algo pode vir a ser conhecido, isto é, reconhecido na sua idéia ou forma, se antes não fosse conhecido de algum modo antes de maneira que permitisse o seu reconhecimento depois? Pois bem, esse antes e depois que separam, no tempo, as diversas Percepções da mônada criada nada mais são do que funções da realização do Intelecto limitado: não existe, de fato, separação na Unidade da própria Substância Simples. De modo que o Intelecto apenas reconhece na sua intuição aquilo que é sucessivamente percebido de forma distinta e múltipla, mas que possui substância unificada e singular. Dito de outro modo: apenas em Deus o Intelecto apreende a Unidade, porque é infinito. Nas criaturas, o Intelecto finito só pode apreender representações parciais do seu ser. O ser da mônada criada continua sendo a Unidade da Substância Simples, mas a Percepção é a da representação da sua Multiplicidade. É deste modo, então, que o conhecimento de uma coisa pode ser o conhecimento de todas, na possibilidade virtual do Intelecto, já que a Unidade do Ser contém, de maneira simultânea, todas as potências intuitivas. Se, obviamente, tanto a Apercepção humana quanto a linguagem do seu testemunho não podem produzir essa Unidade, isso não se dá por um defeito, mas por um limite. É claro que estes sofistas não quiseram dizer nada disso. Mas, brincando com as palavras, nos forçaram a reconhecer esses limites da linguagem humana não como defeitos, mas como realidades constitutivas, assim como os Céticos o farão no futuro. Porque o impulso na direção contrária, da Pretensão de um discurso terminativo com todas as distinções de todas as predicações possíveis, mostrar-se-á tão ou mais absurdo ainda quanto esta lógica erística. É nisso que vai dar o Gnosticismo filosófico: na crítica e finalmente na desistência da filosofia moderna contra a sabedoria medieval dos “contadores de fios de cabelo”, e dos “lenhadores da lógica”. Mesmo quando os sofistas afirmam, no Eutidemo, mais absurdamente ainda, que a paternidade de um significaria a paternidade de todos, todo o erro dessa proposição está contido na Pretensão da atribuição de veracidade a uma relação historicamente condicionada por uma causalidade particular. Sendo a paternidade contingente tão restrita e condicionada, com que direito o ser humano pode chamar isso de paternidade no sentido de uma verdade plena? Com nenhum direito. E se o pudesse, então as proposições dos sofistas teriam que ser admitidas, o que resultaria numa redução ao absurdo. Uma verdade parcial, temporalmente condicionada, causalmente contingenciada, não deixa de ser uma verdade, mas o é tanto quanto qualquer outra na vasta manifestação da Multiplicidade, isto é, não tem a força unificante da verdade apodíctica. Isso não é um detalhe filosófico. Na verdade é essencial e repercute a sabedoria do dom da Presença. Quando Jesus mesmo, pessoalmente, nos ensina a não chamar a ninguém de “pai”, mas apenas a Deus, ele está dizendo a mesma coisa: a paternidade no sentido verdadeiro e transcendente, só pode ser uma qualidade divina. E aí entendemos como a verdadeira paternidade é exatamente como a que estes sofistas do Eutidemo apregoam: o verdadeiro Pai é de tudo e de todos. É claro que eles não produziram essa consciência, e nem sequer uma Filosofia digna desse nome, e ficam restritos ao trabalho mais negativo, destruidor. Mas isso tem a sua função na história das idéias.

Por fim, mas não por último, encontramos um curioso testemunho do interlocutor original de Sócrates em Eutidemo, Críton, que pode ser bastante significativo para nós:

Críton percebe que a forma convencional que o seu desejo pelo bem dos filhos costuma tomar perde o sentido diante da atividade socrática, já que todo o bem que é mundanamente considerado se torna no mínimo relativo, ou mesmo fútil, diante da busca filosófica. Uma prova disso pode ser obtida com facilidade no próprio conteúdo do Eutidemo, quando Sócrates afirma que a Sabedoria é o maior dos bens, já que sem ela todos os outros se tornam inúteis. Críton entende, assim, que na busca do bem de seus filhos negligenciou a parte mais importante, que é a educação deles. Porém, quando se dirige àqueles seres humanos que se propõe a realizar a educação, principalmente no sentido do ensino da virtude, verifica que eles não são capazes de fazer o que prometem. Críton, enfim, não sabe como persuadir seu filho a ser filósofo.

A resposta de Sócrates é bem convencional: faça o melhor que pode, e fique alerta, mesmo contra os filósofos.

Mas podemos e devemos explorar o testemunho de Críton. Ele está perto de admitir que o maior bem para seus filhos seria que os estimulasse a buscarem a Sabedoria, ou seja, a serem filósofos. Porém, a verdadeira Filosofia não é uma atividade que confirmará as pretensões iniciais do próprio Críton: não servirá para validar a razão das instituições do casamento, da paternidade, do comércio, da guerra, ou da educação cívica (política). Isso é o que o transtorna. Para amar verdadeiramente seus filhos, Críton teria que os ver completamente livres e desimpedidos para perseguir a Sabedoria que transcende todas essas instituições e costumes que parecem concentrar os bens humanos, mas que no fim são parciais ou até mesmo falsos. Ora, para fazer isso, Críton teria que ser capaz de um ato extremamente liberal e altruísta, bem difícil: o de estimular seu filho a buscar um bem que transcende os falsos bens nos quais ele mesmo acreditou até a véspera.

Amar o próximo, inclusive um filho, é desejar, afinal, a liberdade deste inclusive contra o próprio interesse paterno, quando for descabido. Amar é desejar a liberdade do amado.

Nota espiritual: 5,7 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,7

Metropolis, filme por Fritz LANG

Análise do título F0020, Metropolis, filme por Fritz LANG.

O filme começa facilitando a nossa vida com o seguinte Epigrama: “o mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!” A película terminará com um final feliz, repetindo a mesma idéia.

O coração, porém, é enganador e traiçoeiro, e pode nos fazer iludir e mentir para nós mesmos e para os outros. O amor, que é o desejo do bem, por outro lado, é infalível, desde que seja dirigido ao seu objeto mais adequado, isto é, a um Bem transcendente que só pode ser concebido idealmente na presente condição humana.

O filme não quer saber de nada disso, porém. O problema do ser humano é presente, mundano, temporal, terreno. Apesar disso, não nos engana muito com relação à qualidade dessa experiência. É um retrato fiel do Sistema da Besta e do Pacto Sadomasoquista, embora omita que esse mecanismo seja alimentado pela grande falta do povo, o Pecado Original.

Por exemplo, quem é Moloch, que recebe os sacrifícios das vidas humanas para a manutenção do sistema? É a máquina social, política e econômica? Não. É um operador do Ouroboros que depende diretamente da continuidade da Tradição Primordial. O sofrimento humano é congênito, ou melhor, herdado como condição adjacente à continuidade do costume.

O filme gosta de trabalhar simbolismos profundos, como o da imagem da Besta do Apocalipse que ganha vida, e que se torna a própria Grande Prostituta. Esta representaria, inicialmente, a vitória contra o Decreto de Gênesis 3. Mas esse homem-máquina, por fim, levará a humanidade à beira da destruição, culminando o processo mais ou menos natural da dialética histórica na luta de classes.

O herói, Freder, apaixona-se por Maria, a heroína que profetizará a vinda do Mediador (Mittler) para conciliar a Cabeça com as Mãos, isto é, a classe dos capitalistas com a classe dos trabalhadores. Ela conta o mito de uma Torre de Babel em que os homens se desentendem por conflitos de interesses (de classes), o que impede a consecução de um projeto de triunfo da humanidade. O lema dessa civilização é o de que “grande é o mundo e seu criador, e grande é o homem“. O verdadeiro Criador de todas as coisas não disputa lugar e nem qualidade com o que quer que seja. Logo, esse “criador” é na verdade o Usurpador, o Ouroboros.

O filme parece ter antecipado um tema que será muito comum na cultura cinematográfica mais tarde, que é a idéia do cancelamento do fim do mundo.

No fim o herói intermedia a cabeça e o coração, isto é, as partes da luta de classes. Isto pode representar a intelligentsia como um todo, inclusive e especialmente os artistas, que é o papel do Bispo no Sistema da Besta: normalizar e legitimar a Mistura.

É preciso nos aprofundarmos mais para explicar a qualidade espiritual de um roteiro que reconhece e embeleza o projeto da Torre de Babel?

Nota espiritual: 2,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção2
Presença/Idolatria1
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo2
Nota final2,4

Os Intelectuais e a Sociedade, livro por Thomas SOWELL

No mundo de Sowell o ser humano vive sob uma condição trágica inescapável, diante da qual a solução mais responsável se dá através da observação da experiência e do costume, e da preservação da liberdade individual de atuação em defesa dos interesses próprios. É, assim, um autor conservador e liberal, uma combinação típica nos quadros da direita moderada.

Se nós estivéssemos presos a esta realidade que Sowell descreve, dificilmente haveria uma solução política e social melhor do que a que ele descreve.

Acontece que nós não estamos estamos presos, porque a perpetuidade dessa condição é fruto da volição humana.

Toda a discussão do mérito dos argumentos de Sowell, portanto, é posterior e, na verdade, desqualificada por esta questão prévia que sustenta a validade da sua posição: o ser humano vive, de fato, numa condição trágica?

Não posso, ao mesmo tempo, invalidar a premissa da visão trágica de Sowell, e aprovar a solução que ele propõe como corretas desde que esta mesma premissa fosse válida.

Toda a discussão econômica, seja do ponto de vista socialista ou liberal, gira em torno do fenômeno da Escassez. Esta, por sua vez, é gerada pela condição humana que combina recursos limitados com desejos ilimitados. Quando enxergamos a Escassez como um fato inescapável e incontornável, dirigimo-nos às respectivas soluções econômicas para esse problema humano. Porém, se a Escassez é produzida por uma condição arbitrada pela vontade humana, cabe àqueles que legitimam e aprovam a produção dessa condição o dever de solucionar o problema que foi produzido pela ação ou pelo aval do seu arbítrio.

É claro que, já dado o nosso nascimento nessa condição, convém organizarmos a sociedade e a economia do melhor modo, e a partir deste ponto podemos concordar indefinidamente com Sowell, bem como com qualquer outro pensador dos problemas sociais e econômicos, sobre quaisquer pontos que entendermos convenientes.

Mas essa discussão jamais deve superar a importância da premissa básica, que é a da discussão da responsabilidade humana pela perpetuação da condição que gera o fenômeno da Escassez.

Espiritualmente, pouco importa como decidimos carregar a nossa cruz na contingência desta vida limitada, se de um modo mais liberal ou socialista, mas importa muito entender como viemos parar nessa condição e, principalmente, saber que somos responsáveis pela continuidade ou pelo rompimento com o costume que gerou essa realidade, ou seja, o Pecado Original.

Quem quiser entender a prioridade desse entendimento da origem da condição humana na Maldição de Gênesis 3, leia a Introdução ao meu livro Monadofilia, especialmente onde explico como nós nos acostumamos, sendo criados em cativeiro, a entender como normais e legítimas as condições de Causalidade, Irreversibilidade e Escassez.

Onde o autor mais acerta, no contexto da sua lógica da visão trágica, é na observação de que toda concentração de poder gera mais corrupção e injustiça, bem como na constatação da assimetria entre o poder de influência dos intelectuais e a sua responsabilização profissional.

Outro acerto de Sowell é a denúncia da Presunção dos intelectuais de forma geral, pela sua incapacidade de reconhecer que há uma massa enorme de conhecimentos particulares distribuídos dentro de uma sociedade e que são totalmente ignorados pela intelligentsia.

É um livro aproveitável no contexto particular da sua discussão, mas preso na Dialética do Ouroboros desde uma perspectiva mais ampla. E diante disto eu lhes pergunto: que interesse temos em soluções particulares que constituem a continuidade de um problema geral muito maior?

O autor denuncia o empreendimento dos intelectuais ungidos contra a coesão, a unidade e a integração social. Talvez deseje solucionar o problema de Babel? Estaria Sowell ciente de que Deus mesmo instalou a discórdia para impedir a consecução dos planos dos Usurpadores? Estaria ele na posse do testemunho de Jesus que disse que não veio trazer a paz, mas a espada, e que os inimigos do homem estão na sua própria casa? Estaria Sowell lembrando da profecia apocalíptica que declara que a Grande Tribulação tem início justamente com a declaração de “paz e segurança”, ao que no entanto se seguirá uma “repentina destruição”? É claro que não. Sowell não dá o testemunho do amor a Deus em primeiro lugar, porque é um humanista. O homem em primeiro lugar, e Deus, se tem algum valor, só pode ser porque criou o homem, é claro.

Por que Sowell não admite o ônus da parte dos proponentes da bondade do status quo? O ser humano sendo um animal simbólico que busca o sentido, precisaria e poderia ser satisfeito na sua carência de significado pela demonstração do grande mérito dessa maravilhosa ordem social e histórica que Sowell defende.

O que vemos aqui é a manifestação de um dos lados da disputa na dinâmica da Dialética do Ouroboros: Sowell, tomando o lado do Behemoth, acusa a loucura do Leviathan. Tem suas razões, mas não tem razão. A vitória do seu argumento depende da restrição da visão de mundo fatalista que ele defende. Vencida essa escolha, que afinal de contas não passa de uma crença entre tantas outras, todo o seu empreendimento cai por terra.

Nota espiritual: 4,0 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,0

Hípias Maior, livro por PLATÃO

A primeira questão relevante neste diálogo, proposta por Sócrates, é a pergunta do motivo pelo qual os sábios de antigamente, como Tales de Mileto, não se envolviam em questões de Estado, ou seja, com a política.

Hípias afirma, aceitando uma sugestão de Sócrates, que isto se dava por uma limitação da capacidade desses sábios, já que a virtude política ainda seria desenvolvida futuramente. Mas Sócrates apenas criou uma armadilha para fazer Hípias revelar a sua pretensão de sofista.

O diálogo então chegará no seu objeto principal, que é a investigação sobre o que é o Belo. Lembremos que esse Belo é o kálos grego, um conceito mais amplo do que aquilo que entendemos como valor estético.

Hípias escapará da definição do Belo buscando refúgio na predicação da beleza, dizendo que isto ou aquilo pode ser belo, mas sem afirmar o que é o Belo em si. Sócrates, mais à serviço de Platão do que de si mesmo, defenderá a idéia superior do Belo, embora sem definições satisfatórias. Assim como para Hípias o Belo é o que agrada, para Sócrates (Platão) o Belo é o que torna aquilo que de si participa algo agradável, isto é, situam o Belo nas coisas ou as transcendendo, sem uma identificação suficiente.

E esta provavelmente jamais nos seria possível, dado o limite de nosso intelecto. Monadofilicamente, o mais próximo que podemos chegar da verdade é o que segue: o Belo é a propriedade do Ser que satisfaz a Apetição da Vontade, tanto quanto a Verdade é a propriedade do Ser que satisfaz a Percepção do Intelecto. Em melhores termos, enquanto a Verdade é o aspecto do Ser que atende ao Logos, o Belo é o aspecto do Ser que atende ao Telos. O Verdadeiro mostra a forma, o Belo mostra a finalidade. Aletheia para o Logos, Kálos para o Telos. Porém, a Unidade do Ser é suprema, porque o Ser é a Mônada, e sua forma de Substância Simples é a Unidade. O Ser é Belo e Verdadeiro. O Belo é a Glória de Deus que nos apetece. Se pudéssemos definir o Belo para além desse nível, com a precisão do conhecimento dos contingentes, nós teríamos o domínio intelectual do que nos transcende, o que é impossível. Não existem definições precisas nem do Belo, e nem do Verdadeiro, mas apenas aproximações por critérios de reconhecimento.

A investigação socrático-platônica não é improdutiva, porém, porque serve para mostrar o limite do nosso Intelecto, e para a admiração contemplativa do Transcendente. Auxilia, assim, na recepção dos dons de Humildade e Presença. E Platão, cá entre nós, chegou muito longe, praticamente pronto para afirmar o que precisamos para chegar no ponto de que a Verdade é o Bem do Ser de acordo com o Intelecto, tanto quanto o Belo é o Bem do Ser de acordo com a Vontade.

Outros detalhes são dignos de nota.

Por exemplo, quando Sócrates insiste na diferença entre o ser belo e o parecer belo, na pista da diferença entre episteme e doxa, entre opinião e conhecimento, como aplicação da metafísica ao problema do Belo, é Platão quem nos leva ao dualismo gnóstico que cria novos problemas. Entre a evidência do que é aparente e do que é real, qual é a distinção senão entre uma Percepção e outra? Como se pode afirmar que o que é tido como realmente belo agora não será entendido como aparente mais tarde? Não se pode. Diante disso só se pode ter uma solução idealista, isto é, se não queremos perder o mínimo Princípio de Identidade, que é o poder de afirmar as coisas. Porém, existem dois tipos de idealismo. O platônico é imanentista quando propõe que o conhecimento pode ser dominado pelo Filósofo, a Pretenção gnóstica. Já o idealismo transcendental propõe a Unidade do Ser pela sua forma de Substância Simples: ou seja, somente o Intelecto divino possui a Percepção plena, sem nenhuma “aparência”, enquanto os intelectos criados só podem possuir a Percepção limitada do Belo, ou o acesso a uma “aparência” do Ser integral. Dito isso, Platão não perde o seu grande mérito de apontar para a necessidade metafísica dessa Unidade do Ser. Não seria possível alcançarmos as alturas plotinianas, scotianas, e leibnizianas, sem antes sermos erguidos pela potência platônica.

Uma outra observação que pode ser feita a partir das indagações socráticas é a da questão da diferença entre o que parece ser belo para sujeitos diferentes. Essa questão está obviamente ligada à anterior (e tudo isso não passa de uma tentativa de resolver o problema parmenídico da permanência da Unidade do Ser). O tal do Belo em si mesmo precisa ser o mesmo para todos, é claro. Mas ele não pode ser conhecido como o mesmo, porque os intelectos criados possuem uma Percepção parcial e relativa da Unidade do Ser. A experiência real dos intelectos criados é tão particular e determinada pela sucessividade, que não só o que parece belo para um difere do que parece belo para outro, mas até o que parece belo para alguém agora já pode não parecer mais tão belo depois para o mesmo sujeito. E isso não constitui defeito, ao contrário, é uma condição da satisfação humana. Até mesmo sob a Coruscância, embora não haja alternância no contexto da Mistura, há movimento entre o que equivale à passagem do que parece “menos belo” ao que parece “mais belo” na forma da satisfação da sucessão das Percepções, porque a nova experiência é sempre apetecida para completar a anterior. A visão gnóstica, porém, diverge radicalmente.

Transhumanista, contrária à forma substancial da mônada criada, a crença gnóstica propõe a plenitude divina para todos, ou seja, que o Belo seja conhecido enquanto tal por todos os intelectos criados, o que por ser impossível implica que o Gnosticismo seja um culto de morte, inclusive, e de modo escandaloso, nos cultos religiosos cristãos, que deveriam dar o testemunho da Ressurreição mas propõem não a Comunhão do Homem com Deus, mas a transformação do Homem em Deus (uma mentira), com idéias de “visão beatífica”, “união mística”, etc., o objeto da promessa da Serpente no Paraíso.

Vejamos uma citação do diálogo:

Sócrates chega perto da identificação do Belo com o Bem, mas empaca no problema da diferenciação pela causalidade, quando é proposto que o Belo é a causa do Bem. Esse problema é interessante porque ilustra a dificuldade comum com o entendimento das relações de identidade e diferença entre as Pessoas da Santíssima Trindade. E até convenientemente, Sócrates mesmo usa como exemplo a relação entre as figuras de pai e filho. Ele resolve por abolir a identidade, ou negar a causalidade, ou seja, não é possível o Belo e o Bem serem Um e ao mesmo tempo o primeiro causar o segundo. Toda a dificuldade está na distinção entre causalidade contingente e processão hipostática, ou seja, tomar o que é divino e transcendente sob o entendimento das coisas criadas e imanentes.

Mas Platão não é Plotino, e o desenvolvimento das idéias de Unidade e de Analogia ainda dependiam de muitos séculos para alcançarem seu ápice histórico.

O Ser é Bom, Belo e Verdadeiro, sendo a Beleza a bondade do Ser enquanto objeto da Apetição, e a Verdade a bondade do Ser enquanto objeto do Intelecto. Porém, mesmo essas qualificações não exprimem bem a simplicidade nem da realidade nos seus termos, e nem da nossa experiência dela. Porque refletem um certo abstracionismo filosófico, isto é, reconhece uma separação na mente que não existe nas coisas. O Intelecto que percebe as formas é o mesmo que se satisfaz com as suas qualidades. Só existe uma Percepção. A multiplicação das abstrações pode servir para um entendimento mais extenso, mas não deve ser usada para a ruptura da Unidade do Ser. Fico feliz com que esta leitura do Hípias Maior tenha servido para essa reflexão. Não se deve ter a falsa impressão de que o Belo, enquanto bondade do Ser como objeto da Apetição, não o seja também do Intelecto, algo que seria absurdo, pois a Apetição é o desejo de uma boa Percepção, o que quer dizer concretamente o Belo é sempre objeto do Intelecto, e é bom para o Intelecto, e é por isso que satisfaz a Apetição da Vontade. Dito de outro modo, Beleza e Verdade não são duas coisas diferentes, mas dois aspectos do mesmo Ser.

Ao fim do diálogo, depois de debaterem sobre como o que é belo pode ser tanto percebido pela visão quanto audição, Sócrates avança novamente na direção do entendimento do problema de como algo pode ter unidade e distinção ao mesmo tempo, isto é, o problema do Múltiplo a partir do Um, mas Hípias desiste. Reafirma a razão sofista dos discursos com finalidades tangíveis e debocha da filosofia, ao que Sócrates reage com resignação irônica, ao citar um adágio que diz “tudo que é belo é difícil”, obviamente cientificando a limitação de Hípias, pela sua desistência, e não a sua própria.

Nota espiritual: 5,1 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo4
Nota final5,1

Santa Maud, filme por Rose GLASS

Análise F0021, Santa Maud, filme por Rose GLASS.

Este filme conta a história de uma enfermeira confusa e sobrecarregada com o espírito de Terror, por conta de algum episódio obscuro de seu passado sobre o qual não sabemos os detalhes.

Vinda desse trauma, e também de uma vida mais ou menos desregrada sobre a qual também não temos maiores detalhes, Maud aceitou a culpa advinda da tentação desse espírito de Terror e buscou refúgio no abrigo da experiência da superficialidade da Religião. É claro que isso não vai dar certo. Ao invés de se apoiar na firmeza deontológica da condição humana, cuidando da sua vida da melhor forma que pudesse, ela se arrisca nas ilusões dessa mistura indigesta que a doença mental da Religião oferece de moralismo, superstição e sentimentalismo. Imediatamente após se condenar nas suas ações, é óbvio que a recém-convertida buscará o mais rápido possível alojar-se no conforto da situação de julgar e condenar os outros desde a sua suposta santidade justificada pelas suas patéticas penitências. A Religião é a mais eminente escola do Orgulho, embora não seja a única, e o Ateísmo não fique muito atrás.

Ela passa a atuar como empregada particular para uma senhora com um perfil artístico e liberal que passará, naturalmente, a questionar e até a zombar da fé de Maud. A enfermeira, porém, também não ajuda muito ao presume-se chamada a um destino especial que a faz se colocar em situações moralmente arriscadas, como quando tenta ser a salvadora de sua patroa. Tendo subido, por si, a um patamar que nunca lhe foi devido, é evidente que depois sofrerá uma queda doída.

Incapaz de se recolher à interioridade onde poderia obter os verdadeiros dons espirituais que só podem advir de uma legítima contrição, Maud tenta forçar sua comunicação com a divindade, o que abre as portas para enganos profundos, com sugestões e influências demoníacas que eventualmente a levarão ao assassinato e ao suicídio.

A loucura da protagonista é de sua inteira responsabilidade. Se não pretendesse ser a santa e salvadora, poderia aprender a se contentar com o Deus verdadeiro, e receber um consolo poderoso de fato. Por sua soberba crescente, encontra-se forçada a assumir cada vez mais profundamente todos os contornos da sua insanidade como um sentido verídico, e finalmente cruza a última linha da qual não terá mais volta.

Apesar do tom sombrio do filme, a sua mensagem espiritual é legítima, no mínimo por três razões:

1- Maud poderia e deveria ancorar-se nos seus deveres de estado e, sendo humilde, aceitar todas as tentações e provocações com firmeza e perseverança. Sua fé é falsa, religiosa, superficial e supersticiosa, e isso é sua responsabilidade. Ela não busca um aprofundamento para fora de seu próprio sentimentalismo;

2- Quando sua ex-colega Joy lhe procura, logo antes que dê os próximos passos em direção à sua loucura sem retorno, isso consiste num recurso de misericórdia da parte de Deus, que nunca fechou a porta para Maud. Ela é que teria que acreditar na verdadeira bondade divina, cheia de perdão, misericórdia e compaixão. Mas o deus dela é o Diabo, o Acusador que se alimenta de suas culpas e punições, e lhe impinge um senso de missão absurdo (julgar, condenar, punir, etc.);

3- Quando o próprio diabo, seja verdadeiramente ou em alucinação, lhe acusa de ser fraca na fé por não ser suficiente a confiança em Deus, isto é no mínimo um alerta legítimo de sua própria subconsciência, ou uma intervenção divina fazendo uso do impulso acusatório do demônio para revelar uma verdade.

Crer em Deus é o mesmo que confiar Nele.

Se desejamos ver ou conhecer Deus para diminuir, no mínimo que seja, a pureza do nosso amor a Ele, estamos jogando no campo adversário e imitando Lúcifer, esse grande desconfiado que ensinou sua malícia para a humanidade.

Como a história acaba muito mal para Maud, o filme surpreendentemente tem um sentido espiritualmente positivo. Talvez este nem tenha sido o objetivo dos criadores do filme, mas a coisa é o que ela é.

Se a protagonista fosse uma heroína, o sentido seria o contrário.

Mas, como vítima de si mesma, Maud serve de exemplo para não tomarmos levianamente o dom da vida na Presença.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo7
Nota final5,6

“Tomados da velha perspectiva imediatista.”

Citação L0036-C02, em Os Intelectuais e a Sociedade, livro por Thomas SOWELL.

Os líderes e representantes do Sistema da Besta vivem de explorar o sofrimento com promessas de falsas soluções, e em nenhum momento a premissa da perpetuidade é questionada seja por socialistas ou por liberais.

Sowell questiona, com razão, as políticas imediatistas que reinstauram uma situação que poderia (e deveria) ser imediatamente constatada como de alto risco. Os mesmos líderes políticos que gastam o dinheiro público com o resgate de populações que vivem em áreas de risco de desastres naturais mais tarde usam de seu poder e dos recursos estatais para reinstalar essas populações nas mesmas áreas, ou seja, perpetuam a condição problemática que justifica a sua existência como agentes públicos.

Lula, por exemplo, aqui no Brasil, deu graças a Deus pela “pandemia”, porque isso reabilitaria a visão pública da necessidade de um Governo e um Estado forte. Estamos muito perto de uma confissão de que certos problemas públicos são necessários para se justificar certas soluções públicas.

O que Sowell não assume, porém, é que não há nenhuma condição “com um histórico definido e cujo futuro pode ser previsto” mais antecipável do que a da escravidão de uma humanidade que deve servir ao ideal de progresso civilizacional, como aqueles antigos escravos do Faraó. Por que Sowell não questiona a validade desse projeto? Porque ele serve a esse projeto, como liberal, tanto quanto qualquer outro intelectual socialistas também serve, apenas com sinais trocados. Se não servisse, Sowell poderia imediatamente questionar a conveniência dessa perspectiva.

É óbvio que os amantes do projeto, como Sowell, vão afirmar que nunca antes na história da humanidade os seres humanos foram tão capazes de garantir uma qualidade de vida tão elevada, com os confortos promovidos pelo progresso tecnológico, econômico, etc., comparando-se com os dados históricos.

Isso pode até ser verdade, mas não muda os fatos mais brutais da equação:

1- Que nenhuma alma jamais foi encarnada com seu consentimento, ou seja, a participação no projeto do progresso da humanidade é tratada como compulsória, produzida por um fait accompli;

2- Que nenhum progresso tecnológico e econômico pode evitar as dores, traumas e sofrimentos humanos, mas apenas produzir uma condição de remediação e compensação, no espírito da legitimação da Mistura de Luz e Trevas. Por outro lado, existem novas formas de sofrimento geradas pelo mesmo progresso, e que não podem ser desconsideradas nesta equação;

3- Que mesmo que o projeto seja justificado por um progresso futuro que alcance a solução de todos os problemas humanos num futuro distante, além dessa promessa não ter nenhuma garantia de cumprimento, qualquer um ainda terá sempre o poder e o direito de crer que este projeto não convém à verdadeira finalidade da forma substancial do ser humano, e até ao contrário, pode-se crer que este projeto signifique exatamente aquilo que é relatado como empreendimento contrário, por exemplo, ao desígnio divino, como se vê nos relatos a respeito do Dilúvio, da Torre de Babel, e nas profecias a respeito do Apocalipse.

Talvez quem esteja tomado da velha perspectiva imediatista seja o próprio Sowell, já que mesmo sem nenhuma consideração espiritual que releve o desígnio divino, também opta por ignorar a possibilidade de um progresso moral concomitante ao progresso material e tecnológico da humanidade, o que leva por exemplo à queda generalizada das taxas de natalidade.

Sowell serve ao pensamento econômico que traduz o crescimento do PIB como uma benfeitoria social, sempre relativizando o status quo mediante a ameaça de uma miséria muito maior que em nenhum momento ele imagina que possa ser impedida pela mera ruptura do costume do Pecado Original.

É claro que é melhor ter acesso à uma rede de eletricidade, ou de água encanada, do que não ter.

Mas melhor ainda é não precisar de nada disso, considerada a simples hipótese de uma dispensação mais favorável pela provisão de um poder superior cuja autoridade foi usurpada.

Sowell, exatamente do mesmo modo que qualquer socialista que se encontrasse no exato ponto oposto no quadro geral das ideologias do mundo, deixa subentendido que os seres humanos não possuem nenhuma escolha com relação à continuidade da condição humana tal como ela é, por ser um crente naquilo que ele chama de “visão trágica”. Isto é mentira.

Nós temos o poder de fazer uma escolha melhor, e essa escolha foi abundantemente atestada e realizada por vários modelos de santidade, seja no oriente ou no ocidente, e em especial, no quadro da cultura cristã, por ninguém menos que Jesus Cristo, e também pela Virgem Maria.

Não estamos presos à imitação de Adão e Eva, e do Pecado Original.

Mas é claro que o deus deste mundo, a Serpente que se alimenta da perpetuação da Mistura de Luz e Trevas, jamais aprovará que seu Pacto seja denunciado, e tentará de toda forma que a liberdade do Evangelho seja reprimida e deturpada tanto quanto possa, por todos os recursos de que dispõe, entre os quais e especialmente o recurso do domínio da própria Religião Cristã.

“É muito fácil considerar qualquer coisa que vai mal como sendo culpa de alguém.”

Citação L0036-C01, em Os Intelectuais e a Sociedade, livro por Thomas SOWELL.

Uma importante categoria de pensamento do autor é essa da “visão trágica”, que ele propõe como realista, em contraste com a visão dos intelectuais ungidos que na opinião de Sowell são idealistas irresponsáveis.

Eu estaria totalmente disposto a concordar com Sowell, se ele somente apontasse o erro da mentalidade progressista. Porém, o autor quer nos fazer optar por um lado da dialética do Ouroboros: o da Tradição. Nos liberta do idealismo imanentista do homem do futuro, mas nos aprisiona no idealismo imanentista do homem do passado. O costume é a sua Lei, como se nós fôssemos descendentes de pessoas que, na sua maioria, eram sensatas e responsáveis. Isso jamais foi, e jamais será, provado. É uma pura crença.

É evidente que a “certa apreciação” de Sowell contém uma premissa embutida, já dada como pressuposta e evidenciada, uma falácia chamada petitio principii, uma petição de princípio que dá por concluída a idéia que deveria demonstrar em primeiro lugar. Caso contrário, Sowell se daria ao trabalho de recomendar uma apreciação da condição humana de forma geral, ao invés de declarar que ela é trágica de forma sumária, como faz. E por que os leitores de Sowell não vão questionar essa premissa? Porque eles estão muito ocupados, distraídos com os vários argumentos anti-progressistas e anti-revolucionários, ou seja, com a sua obsessão na participação no teatro da Dialética do Ouroboros.

Mas é fácil questionar a posição de Sowell, restituir a sanidade do verdadeiro realismo, e de quebra demolir toda a estrutura do seu argumento liberal-conservador: uma tragédia se caracteriza por ser um drama sem culpa. A condição humana só seria trágica, portanto, se o seu drama (que economicamente é determinado pelo fenômeno da Escassez) se realizasse sem nenhuma culpa, ou seja, sem nenhum condicionamento moralmente livre, como se esse estado de coisas fosse integralmente condicionado por um fator de força maior fora do controle humano. Acontece que o ser humano surge na sua condição não como um vegetal que brota do chão, como uma beterraba ou um repolho, e nem como um animal que brota do instinto reprodutivo, como os filhotes das vacas e das porcas, mas de uma ação humana, ou seja, como um produto da comissão ou da omissão da agência moral de um ser livre e responsável. Isto quer dizer que a condição humana é produzida pelo arbítrio humano. E tanto isso é verdade que qualquer ser humano pode contrariar o seu instinto animal e impedir, de livre e espontânea vontade, a produção da condição humana na sua descendência direta. Se podemos aceitar ou negar o instinto animal, isto quer dizer que temos a responsabilidade moral pela decisão de fazê-lo. Em suma: a condição humana, inclusive a da existência sob a contingência da Escassez, é produzida pelo arbítrio humano que decide pela sua continuidade, ou que no mínimo se omite quando poderia arbitrar, o que caracteriza negligência.

Não, a condição humana não é trágica. Isso é uma mentira. Uma grande mentira. A Grande Mentira. A Mentira Primordial, também chamado de Pecado Original, ou, como gosto de chamar, Pacto Ouroboros.

A incapacidade ou, mais provavelmente, o desinteresse em identificar a realidade dos fatos da condição humana, é o que alia, surpreendentemente, liberais e socialistas, conservadores e revolucionários: todos eles são escravos do Ouroboros, e todos esses intelectuais, de direita ou de esquerda, trabalham como Bispos no Sistema da Besta, normalizando a mistura de Luz e Trevas e legitimando a escravidão da raça humana.

A solução para a morte e o sofrimento não é política, mas é espiritual.

A solução não é de direita nem de esquerda, mas de Cima, e vem de Deus: os filhos dos santos não passam fome, não adoecem, não temem o mal e não morrem, porque são poupados desse tipo de existência, ao menos no que depende do arbítrio de seus potenciais pais e mães, isto é, sem prejuízo da necessidade arbitrada pela sua RSMM. Podem até vir a sofrer, em alguma realidade, porque precisam dessa experiência por si mesmos, mas não vão sofrer porque seus pais quiseram.

Band of Brothers, série por Erik JENDRESEN

Análise S-0009, Band of Brothers, série por Erik JENDRESEN.

A série conta a história da Companhia E, do Batalhão S-2, do 506º Regimento, da 101ª Divisão de Paraquedistas do Exército Americano durante a Segunda Guerra Mundial.

O roteiro se desenrola quase como que narrando um documentário, de modo que não há muita margem, devido ao realismo pretendido, para grandes conclusões de teor espiritual a partir do material.

O horror e o absurdo da guerra são compensados pelo elogio da bravura individual, por eventuais atos de heroísmo, e por fim por uma certa narrativa de correção ideológica, embora neste último caso com bastante cautela. Esse procedimento não deixa de compor, porém, uma narrativa de legitimação da mistura de Luz e Trevas. Exceto por alguns personagens aqui e ali que parecem perceber a verdadeira insanidade da guerra, o restante encontra-se seguramente ancorado na proteção de seus deveres de estado, inclusive e principalmente Winters, que é o nosso protagonista.

Vejamos um resumo do que encontramos nos episódios:

1- “Currahee“: Treinamento da Companhia Easy em Tacoma, no estado da Geórgia. O capitão Sobel é um bom disciplinador, mas o tenente Winters é um líder tático competente. Os sargentos fazem um motim contra o comando de Sobel, e como resultado ele é enviado para uma escola militar, e Winters é enviado para o combate na Europa.

2- “Day of Days“: Operação Overlord, um empreendimento militar de complexidade admirável, mas com impacto militar menos relevante do que se imagina, no contexto da derrota da Alemanha. A importância do Dia D ainda é enaltecida até hoje como um eco da propaganda Aliada.

3- “Carentan“: O soldado Blithe sofre de cegueira histérica, e aprendemos com o tenente Speirs a vantagem da aceitação da morte no contexto da luta armada. Ele elogia a ação “sem misericórdia, sem compaixão, sem remorso”, e diz que “toda a guerra depende disso”. De fato, como você vai fazer um ser humano matar o outro, se ele não se tornar mais ou menos inescrupuloso? Curioso foi já ter visto um padre brasileiro elogiar o discurso de Speirs, inclusive comparando essa virtude militar com a vocação sacerdotal, com o uso da batina como se fosse uma mortalha, etc. Quer dizer, a fraqueza de Blithe não tem nenhuma legitimidade, só a força de Speirs.

4- “Replacements“: Operação Market Garden. Os Aliados dão os alemães por vencidos, se arriscam demais, e tomam uma surra.

5- “Crossroads“: Winters protege os prisioneiros alemães da vingança de Leibgott. É um líder completo, com estofo moral.

6- “Bastogne“: Operação Wacht am Rhein. Sem as vantagens logísticas e de suporte aéreo, os americanos são triturados em Bastogne. O médico Eugene testemunha a insanidade da guerra.

7- “The Breaking Point“: Estresse máximo, e a importância do sacrifício para determinar o sagrado. O sofrimento é a moeda de compra do que é humanamente valorizado.

8- “The Last Patrol“: Winters faz um relatório falso para evitar a perda desnecessária de vidas. Um heroísmo mais discreto, mas não menos potente.

9- “Why We Fight“: A liberação de um campo de prisioneiros na Bavária afeta todos os soldados. O valor moral da atuação Aliada é afirmado como acima de todos os interesses e ideologias, o que nunca é verdade exceto quando a ação é de renúncia espiritual aos poderes do mundo e de testemunho do Amor divino, o que obviamente não tem nada a ver com a participação numa guerra.

10- “Points“: A paz veio, mas a condição humana continua sendo precária, e sem o foco da guerra muitos homens ficam mais perdidos do que quando carregavam deveres de estado mais pesados.

Exceto pelo testemunho da miséria da condição humana através da percepção de personagens como Welsh, Blithe, Compton e Nixon, em geral a série apenas reforça a legitimação da mistura de Luz e Trevas, ainda que de forma atenuada, dado o caráter de quase documentário desta obra.

Nota espiritual: 3,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota final3,9

“Talvez aquele que seja verdadeiramente homem devesse parar de pensar quanto tempo viverá.”

Citação L0035-C05, em Górgias, livro por PLATÃO.

Aqui Sócrates já começou sua resposta às idéias temerárias de Cálicles.

Começamos pela obviedade de que a ambição máxima de preservação daquilo que já está destinado à dissolução só pode ser uma irracionalidade. Porém, ainda que a destinação dos corpos humanos, individualmente considerados, nos permitisse considerar esse nível de liberdade, ainda há que se tratar da ambição da preservação coletiva, isto é, do problema da imortalidade simbólica que constitui alternativa que poderia, para alguns, justificar algum tipo de preservação no nível da civilização, ou da espécie.

Aqui temos uma ambiguidade, porque Sócrates não propõe nenhuma visão que ultrapasse a consciência coletiva da alma grega, especificamente ateniense. É por isso que se pode elogiar a preservação do Estado por vários meios, inclusive através da guerra. E o que é ambíguo é o sentido do destino a que Sócrates se refere: é a legislação dos homens, ou a divina? Esta deveria ser considerada como a mesma, ou eventualmente elas divergem, ou até mesmo podem se opôr?

Não podemos pedir muito de Platão. Ele já nos deu, afinal, muita coisa. Com sua idéia do “homem verdadeiro”, alethôs ándra, ao menos a mesquinhez da dimensão da vida individual é superada por considerações superiores, seja a da perenidade sob uma lei estatal ou natural que implica na perpetuação do Estado ou da espécie, seja a da Eternidade sob o governo divino.

A forma de governo sob a qual vivemos, como já afirmei, constitui uma idéia ambígua: é uma lei natural, humana ou divina, ou uma mistura de tudo isto?

Mas a escolha do melhor depois da submissão ao dado inescapável da nossa mortalidade individual já nos permite adquirir uma perspectiva superior, mesmo que nos embrenhássemos em outros enganos. Podemos (e devemos) fazer uma escolha melhor entre os vários idealismos, mas tudo isso já supera a luta inútil contra o Decreto divino de Gênesis 3.

Por fim, cabe-nos recomendar, algo em linha com algumas distinções sugeridas pela visão de gênero de Weininger, que o idealismo talvez seja uma virtude mais masculina, afinal de contas, já que o realismo tende a ser a virtude mais feminina, e isso obviamente só aumenta a responsabilidade do homem de reconhecer o que transcende a experiência imediata da vida humana no sentido animal. O cultivo das coisas corporais ou espirituais é uma responsabilidade de quem pode se dispor a fazer essa escolha.