O heroísmo da desistência

Não é tão difícil assim conceber a hipótese de que num mundo decaído a desistência da participação no mesmo é um tipo de nobreza heróica.

Todos os que sempre se divertiram com a suposta absurdidade da filosofia cínica de Diógenes estão antes muito engajados com sua própria participação no esquema do mundo, principalmente em suas mentiras.

Uma grande obsessão de Diógenes era a de encontrar um homem honesto. Como cristãos, sabemos a quem ele buscava. Mas se Diógenes, ainda pagão, simplesmente ignorante, podia se frustrar na sua busca, embora se mantivesse fiel a ela até o fim, que direito temos nós, cientes da Revelação de Jesus, de sermos menos fiéis à verdade da vida humana neste mundo?

O que quero dizer é que com a Revelação Cristã nós temos tudo o que é necessário para completar o gesto de renúncia à mentira do mundo que se iniciou com a filosofia moral de Sócrates e de Diógenes. Temos hoje o que eles ainda não tinham: a decisão humana de rejeitar a Verdade plenamente. Isso nos permite rejeitar ao mundo também plenamente. A decisão dos Moriquendi está tomada. Os Calaquendi estão desembaraçados da mentira, libertos pelo Filho de Deus que se fez Filho do Homem.

O heroísmo da desistência é ensinado por Diógenes, que elogia a capacidade humana de rejeitar sua própria pretensão ao desistir de seus planos de poder e conquista. É uma atitude Noldor, pois honra o que podemos chamar de Princípio de Indeterminação das Mônadas. Este Princípio, que também podemos chamar de Singularidade Monádica (ou, ainda, de Inquilinato Espiritual), é o que revela que o ser humano aliado ao Amor de Deus reconhece imediatamente a escravidão dos papéis sociais de poder num mundo decaído. A um amante e amado de Deus, buscar o poder neste mundo (“sou isto”, “sou aquilo”, “fiz isto”, “fiz aquilo”) significa uma diminuição da sua substância, pois a promessa divina para cada mônada livre é muito superior a qualquer possibilidade de realização neste mundo decaído. O único poder legítimo é aquele determinado pela Providência divina que, por ser perfeitamente amorosa, é infalível. Toda perseguição de poder por parte das mônadas criadas implica na traição contra essa verdadeira autoridade.

Simbolicamente, este é o mistério da Lua Nova: na presença do Sol, o papel da Lua é o de se apagar para que brilhe a luz verdadeira. Quando cresce, por sua vez, a Lua Cheia não está plena de si mesma, mas da memória do Sol, grávida da luz verdadeira ela cumpre sua função de lembrar da verdade que não é sua propriedade, e então brilha dando testemunho dessa verdade que lhe transcende.

O heroísmo da desistência, postura da nobreza e da sabedoria Noldor, cumpre o que está dito: “fugir do mal, eis a inteligência”. Trata-se de clamar pelo dom divino da Vigilância, que nos permite enxergar sem medo a verdade deste mundo decaído e ter todas as forças não só para recusar a participação em seus crimes, mas também para dar o testemunho de sua corrupção e da alternativa de fidelidade ao Amor divino.

Alexandre, esse anticristo educado dentro da Filosofia consagrada, foi derrotado pelo testemunho de Diógenes, esse “filósofo menor”, que diante da pretensiosa e falsa majestade humana só viu o eclipse da majestade divina.

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