Kataonami

Nada é mais característico da rebelião contra o Amor divino do que o fatalismo derrotista que tenta compensar a sua impotência espiritual com atos de efeito moral numa dimensão inferior, com o objetivo de escandalizar e aterrorizar.

A antiga Serpente do Mundo sabe muito bem que nada pode contra a supremacia divina. Resta-lhe, assim, contar com a fraqueza humana que abre uma brecha através da anuência espiritual da rejeição do Amor. Todo ataque espiritual contra os seres humanos tem sempre o mesmo objetivo final, infalivelmente: abalar a confiança no Amor divino, isto é, a Fé. Sem essa confiança, o ser humano está espiritualmente desarmado, vulnerável e perdido, errante num cosmos hostil e caótico.

Devemos dar um panorama estratégico ao nosso semelhante, compartilhando um pouco do que é a perspectiva do outro lado da frente de batalha, para que se tenha uma idéia do grau de desespero do inimigo. Sobretudo não podemos perder de vista que a agressividade do Mal deriva de sua profunda angústia, e de seu grande e elementar medo de Deus.

O próprio tempo simboliza a inevitabilidade da execução da sentença divina. Por isso podemos dizer, com firmeza, que o tempo é nosso aliado, isto é, se somos buscadores de Deus e amantes de seu Amor. O tempo sempre nos ajuda. Sua passagem garante a contínua consecução de um plano providencial, e a chegada de grandes e importantes determinações nas vidas de todos nós.

O tempo revela que o Amor é sempre vitorioso, mesmo neste mundo decaído, seja como consequência do progresso humano ou da falta deste.

Quando há progresso, fica evidente o abuso contra a crescente liberdade humana permitida pelas conquistas materiais da civilização, o que tende a pressionar na direção da emancipação dos escravos, então das mulheres, e finalmente dos filhos. É o protesto do Amor contra o Poder.

Quando não há progresso por qualquer razão, fica evidente a absurdidade de uma existência amaldiçoada, o que levará a uma negação a esse estado de coisas, sob quaisquer formas, seja pelo processo direto de liberação da descendência, ou indiretamente pela autodestruição, ou pela perseguição da emancipação através de alguma revolução, o que leva de volta ao progresso. É o protesto do Amor contra a Maldição.

De qualquer modo, é o Amor quem dá o Norte a todos os seres, mesmo quando estes estão pervertidos por alguma mentira profunda, como ocorreu com este mundo em particular, submetido à malícia do Pacto Ouroboros. Reparem que o ser humano não teria nenhuma energia para perseguir qualquer alvo, se este ao menos não se assemelhasse ao ideal do Amor verdadeiro, que é o que o leva à busca da liberdade revolucionária, ainda que esta seja desviada para a realidade exterior do homem, o que é evidentemente um erro. O alvo pontual é errado, mas o alvo espiritual é mais ou menos sempre o análogo mais próximo do plano divino. É assim que o diabo e seus auxiliares servem inescapavelmente ao plano do Criador de todas as coisas, levando mesmo o ser humano decaído e corrompido a um final onde o Amor será revelado como a verdadeira meta espiritual. Nosso Deus, que é o único, o verdadeiro, governa sobre todas as coisas com absoluta supremacia. Esquecer isso é descumprir o mandamento do Amor a Deus.

Muitos “cristãos” são confundidos por essa quadrilha de traidores que são os chefes religiosos, levados a crer exatamente no contrário: que o mundo fatalmente jaz no maligno como se algo de errado tivesse acontecido e nós estivéssemos rendidos, entregues ao poder do Inimigo. Nenhuma visão poderia ser mais falsa. Isso é Gnosticismo, a crença no demônio como demiurgo que nos prendeu numa realidade distante da verdadeira divindade. Ora, para o ser humano isso poderia ser verdade, desde o seu miserável ponto de vista. Mas para Deus toda essa configuração é irrelevante, e não há quem possa limitar o seu gesto de salvação no mínimo que seja. Quem pode nos afastar do Amor do nosso Pai? Ninguém a não ser nós mesmos, aprendizes da desconfiança luciferina, da dúvida infernal, da malícia das trevas. Tudo isso é uma questão de escolha.

Entendam, irmãos: até com as mais avançadas técnicas e planejamentos, com o engano mais elaborado e sutil, em tudo isso os Avari e os Moriquendi apenas servem ao nosso Senhor. E quanto mais acham que vencem e crescem em poder, mais se submetem a uma Providência poderosa que os submete.

Toda essa rebelião é passageira e, no devido tempo, observaremos como não passou de um aborrecimento para a história de nossas almas destinadas à imortalidade. O Altíssimo mesmo prometeu que tudo isso será em breve esquecido. Não se deixem intimidar por nada.

O mundo da usurpação felizmente está perdido e tem seus dias contados. Negue o mundo em seu coração e deixe-o para trás, e assim estará deixando toda a Perdição também para trás.

Questão: Essa visão parecerá impraticável e idealista demais aos olhos mundanos, não é?

Isso sempre foi assim e sempre vai ser assim até o fim do mundo. Nossa entrega espiritual ao Amor divino é insuportável aos que já pactuaram com o espírito do mundo. Deixe que os presunçosos se julguem sábios na sua maturidade fingida. Já desprezaram faz tempo toda a dignidade de suas próprias almas, toda Consciência, toda Responsabilidade. Falando francamente, são quase animais, e se identificam profundamente com essa animalidade, embora se julguem detentores de grandes direitos “humanos”, todos esses fundados no pó, é claro, ao qual não vão escapar se não encontrarem logo a santidade da desistência. É curioso que os humanistas são os que mais desprezam a verdadeira dignidade humana, que é o privilégio sagrado da eleição do Amor divino.

Questão: Sobre a questão do progresso, a luta do Conservadorismo contra a Revolução Permanente não conseguiria sair, portanto, dessa dialética?

Claro que não. É uma questão básica de princípios. O que há para ser conservado, se este mundo humano foi fundado numa mentira, no roubo, na traição, na usurpação? É isto o que queremos conservar? O legado de rebelião dos nossos pais contra o Amor divino? Não faz o menor sentido, espiritualmente. Mas faz sentido do ponto de vista do poder, já que a Conservação é necessária como defesa contra o absurdo da Revolução Exterior. É daí que a reação parece ser verdadeira, porque luta contra uma grande ameaça de desordem. Esse esquema é infalível. Poucos seres humanos conseguem superar essa dialética. O escândalo e o terror servem para isso: para consolidar mais profundamente o Grande Pacto Primordial. Toda energia responsiva que poderia ser legítima é desviada e canalizada para essas revoluções inúteis, a impotente tentativa de reforma do homem decaído.

O problema do progresso material, do ponto de vista do adversário, é que ele trará inevitavelmente maior progresso moral na forma da descoberta e do desenvolvimento da individuação humana. É um fato que no começo isso é lento, para poucas almas de cada vez. Mas aos poucos a liberdade contagia e se impregna. E em tempo o inimigo teria diante de si, mesmo que por meios não-teístas, um Antinatalismo naturalista e evolucionista, que apesar de não ser espiritualmente esclarecido poderia ser o suficiente para explicar, por exemplo, o Paradoxo de Fermi, e encaminhar a humanidade nesta direção como uma conclusão espontânea e impecável da sua racionalidade, em resposta à questão da Antropodisséia.

Questão: Isto parece estar tão distante do mundo em que vivemos. Será possível que as coisas chegassem a esse ponto?

Sim, basta refletir com alguma frieza e distanciamento. Ajuda nisso a lembrança da grandeza da Criação, no sentido do Omniverso. Vivemos oprimidos pela mesquinharia deste mundo, e dessa gente que acha que o seu destino mundano é uma grande coisa. Nossos líderes são cegos e mentirosos. Todos eles! Quem é que se levanta para dar o testemunho da pureza do Amor do Eterno? Quem é que revela que o Amor Dele nos basta? Esse testemunho é muito raro, e praticamente inexistente entre aqueles que devem satisfações ao respeito humano, esses escravos cujo deus é o ventre.

Esqueça tudo isso. Verifique a realidade em que vivemos. Onde o progresso já foi suficiente, a mulher já está emancipada. Um ser humano já tem o direito de escolher a mendicância no lugar da participação no Sistema da Besta. Sua escravidão não é nem justificada, e nem recomendada. E a mulher já pode viver uma vida inteira livre dos papéis de esposa e mãe, se quiser, sem que isso lhe seja imputado como crime. Ainda que haja ainda uma cultura de rejeição a essa liberdade, aos poucos as novas gerações abandonam os grilhões dos seus pais, precisamente porque a liberdade custa cada vez menos, materialmente falando. O próximo passo, já antevisto por uma cultura antinatalista embrionária, é a libertação dos filhos.

Isso é algo que os Avari não podem permitir, é claro. Mas a tentação de ter gerações de pessoas submetidas ao seu Sistema, já que isso é uma condição dessa emancipação através do progresso material, é grande demais e irresistível. Nenhum demônio pode abrir mão desse grau de controle, ainda que isso signifique a abertura de um espaço para a liberdade humana. Confiam na sua capacidade de condicionar essa humanidade emancipada numa forma mais sofisticada de escravidão. E não deixa de ser verdade que têm sucesso nisso. A questão é que cada cristão verdadeiro pode tirar proveito dessas condições de progresso material e moral para avançar no seu relacionamento com Deus às expensas desse plano demoníaco.

Questão: Mas isso não chegaria a um ponto em que já não seria possível viver a liberdade verdadeira dentro do Sistema?

Os cristãos espirituais jamais terão problemas com esse tipo de coisa. Porque Deus garante o sucesso da nossa busca espiritual, quando o seu Amor é o alvo. Isso é infalível, mais certo que qualquer conta aritmética ou proposição geométrica. No coração do fiel, ele sabe que é assim.

Se você precisar de uma afirmação disso, reflita sobre como o fim da liberdade já representa uma maior definição espiritual, justamente o tempo da Marca da Besta, quando o Inimigo vai ter que se expor à luz do dia. Não é uma grande ironia? O momento de maior triunfo para o mal será também o momento da sua maior vulnerabilidade. Porque sua subsistência era permitida enquanto ele servia justamente a um desígnio superior. Conforme consolidar-se a armadilha contra toda a liberdade humana, é verdade que os que ainda estiverem neste mundo serão perseguidos, exilados ou exterminados, mas isso só lhes deixará clara a opção espiritual de todas as partes envolvidas.

Entendam: quando o inimigo age nas sombras, ele age ambiguamente, e desse modo está a serviço do Criador que pode converter os meios diabólicos em instrumentos da sua Providência em favor dos seus amantes. Quando finalmente os Avari agirem às claras, não servirão mais da mesma forma, mas porque sua ambiguidade desaparecerá eles servirão no sentido da clareza do testemunho da escolha pela confiança no Amor divino, já que a rejeição do Sistema representará, ipso facto, a rejeição do mal.

Em suma, quem tem que se preocupar com a passagem e com os sinais dos tempos é o outro lado que quer disputar poder com Deus, ou aqueles que servem a esse mal, ou ainda os que preferem a ignorância e a ingenuidade. Deixe que estes se apavorem, porque de fato eles têm motivo.

Questão: Mudando o assunto, o que se pode dizer da idéia de que os poderes infernais querem reclamar a alma humana como sua propriedade, através dos pecados e da revolta contra a autoridade divina?

Não existe Direito onde não há Justiça, e não há Justiça onde não há Misericórdia. O inimigo não age a serviço porque quer, mas porque não tem escolha. O diabo não é um servidor da Justiça. Ele é um mentiroso, ladrão e assassino. Suas reclamações podem ser desprezadas. A Serpente não tem direito a nada. O Acusador foi acusado por Jesus, o véu foi rasgado e a verdade foi revelada, a quem tiver desejado o discernimento.

O pecado humano é a recusa do Amor. Quem recusa o Amor recusa a Misericórdia, e quem recusa a Misericórdia recusa a Justiça. Estes que fazem isso estão nas mãos do diabo não porque este tenha direito a alguma coisa, mas porque são espiritualmente alinhados, porque combinam bem uns com os outros.

Por isso digo que não há maior colaboração com o mal do que a acusação do semelhante através do serviço religioso. Os acusadores são funcionários do inferno. E a religião é uma proposta gnóstica, inescapavelmente, atribuindo poder ao diabo e a salvação ao conhecimento de Deus, como se a santidade fosse um mérito humano.

Isso tudo é assim para que a Obra de Deus seja reconhecida como a mais perfeita possível, mostrando a salvação somente a quem tem a humildade de crer na pureza do seu Amor.

Questão: Quer dizer, esta reclamação dos Avari funciona no máximo como analogia?

Nem como analogia funciona direito.

Se eu minto para você dizendo que uma pessoa deseja o seu mal, e você acredita em mim sem verificar a verdade do que eu disse, e então você colhe como resultado uma grande desgraça porque abriu mão do maior benefício que poderia ter obtido na vida através da relação com aquela pessoa de quem desconfiou e se afastou, eu estou “reclamando” a sua alma?

Não estou reclamando nada. Sou um mentiroso cujo mérito foi espalhar a minha mentira enganando outras pessoas. Diante do benfeitor, que é a única perspectiva que interessa, não estou fazendo nenhuma justiça. No máximo estou colaborando para que uma decisão livre seja tomada por uma pessoa que precisa decidir-se realmente sobre a questão da confiança no benfeitor. Mas não sirvo por amor à justiça, e sim por ódio ao bem.

O diabo não tem o direito de reclamar nada. Ele é escravizado pela sua própria malícia, se você pensar bem, porque através dela é forçado a servir à Justiça que ele mesmo odeia. Serve por mal, contra a sua vontade, e tentando enganar até o fim, inclusive com esse papo de que tem direitos.

Questão: Como é possível que os Avari enganem os cristãos com essa visão?

Eles não enganam os cristãos. Enganam os religiosos, que são os mesmos que vão dar as boas vindas ao Anticristo.

A informação da vontade na fecundação como analogia da criatividade monádica

Ocorreu-me recentemente lembrar de um episódio no qual contribuí na discussão da negação de Galileu Galilei a respeito da transubstanciação das espécies eucarísticas, por ocasião de uma leitura que venho fazendo para o meu Livro das Tendências, do livro Discurso sobre el nombre de Dios, por Arnau de Vilanova.

Este filósofo do século XIII apontou para a diferença que há, no processo de fecundação, entre o papel da semente masculina e da semente feminina, de modo que ficasse explicada a razão pela qual nas pessoas divinas há uma relação entre Pai e Filho, e não entre Mãe e Filho.

Seu argumento me fez lembrar-me do meu próprio de anos atrás, na época daquela discussão na internet, quando tentei ajudar certos católicos a resolver o problema da negação da transubstanciação por Galileu. Aquele pensador negava a realidade da presença real na eucaristia em virtude da ausência de diferença de peso entre as espécies antes e depois da consagração. Em minha visão isso se devia ao fato de que a transubstanciação era análoga à realidade da Encarnação, onde justamente toda a substância extensa foi fornecida pelo corpo da Virgem, enquanto a substância anímica foi encarnada pela ação do Espírito Santo em substituição à ação da semente masculina que tem como função apenas a introdução de informação genética no processo de concepção. Deste modo não seria adequado esperar por qualquer alteridade na medição dos pesos das espécies eucarísticas, já que a transubstanciação, tal como a Encarnação, não modificou a substância extensa em nada, mas apenas informou-a, como a semente masculina informa a feminina que concede, de sua parte, a base material da formação do corpo.

Minha contribuição, se me lembro bem, foi ignorada. Possivelmente porque eu não fazia parte da panela que discutia o tema, e dou graças a Deus por isso. Não me é tão incomum assim sentir-me mais próximo de um autor de oito séculos atrás (alguém que aliás não temia acusações de heresia na sua pesquisa) do que com qualquer grupinho de militantes católicos, geralmente uns bons pentelhos.

Voltando ao nosso tema, é interessante notar como a composição de corpos pela união das causas formal e material se realiza diversamente em dependência da vontade primária de Deus ou, secundariamente, das criaturas decaídas que tomam o lugar de Deus na formação dos compostos.

Idealmente, a forma sempre determina a substância da matéria, como elemento ativo que domina o passivo. A matéria sem forma sempre equivale ao nada, ou possibilidade (a materia-prima anterior a matéria secundum quid), e a forma sem a matéria sempre equivale a uma força de realização, ou atualização. A substância, ou ser concreto, só pode existir pela combinação da forma e da matéria, a primeira “informando” a segunda, para usar uma linguagem computacional, e isto significa que a forma é o elemento ordenador que estrutura a matéria de acordo com a sua razão interna, seu logos.

Nos processos de reprodução natural alguma analogia se realiza com este princípio da criação das coisas, porque é um processo subsidiário ao princípio que determina a concreção de qualquer substância. O mesmo se dá até em produtos artificiais, onde por exemplo um escultor informa a matéria da sua obra a respeito da forma ideal que pretende realizar.

Dito isso, reconhecemos que não há causa formal mais excelente do que a própria vontade divina, em todos os casos possíveis.

É assim que entendemos a superioridade absoluta que há entre a criação de Adão ou a Encarnação do Filho de Deus, e a concepção de Caim e Abel, por exemplo.

Na primeira comparação, uma matéria até mais rudimentar e caótica, como o barro, pôde ser informada pela ação divina para a produção de um Corpo de Graça, aquele de Adão antes da Queda, superior em tudo aos Corpos de Queda gerados por Adão e Eva através do Pecado Original, apesar de estes serem feitos a partir de um material muito mais nobre e ordenado do que aquele barro primordial.

Na segunda comparação, a santidade de Deus realizou a encarnação do Filho de Deus tornando a matéria da semente de Maria um veículo para a Revelação do Amor do Pai ao mundo, enquanto a soberba de Adão realizou a proliferação do pecado de desobediência na geração de Caim e Abel, tornando a matéria da semente de Eva um veículo para a encarnação do mal no mundo.

O que mais nos interessa aqui é entender como o elemento ativo, ou formal, determina o ser da substância gerada, e é por isso que qualquer produto originado do Pecado Original refletirá apenas aquela rebelião ancestral de Adão, ao tomar novamente o lugar de Deus como o único e legítimo Criador de todas as coisas.

E isto é o que eu chamo de informação da vontade na fecundação, quando o agente ativo formal realiza a sua própria vontade livre e deste modo se torna sujeito moral de uma ação de sentido espiritual.

Ora, somente Deus tem uma vontade perfeita, pura e santa.

Daí que quando o homem quer tomar o lugar de Deus e pretende conhecer o bem e o mal por si mesmo, torna-se um rebelde, traidor e usurpador da autoridade divina, e desde a sua vontade autodestrutiva só pode gerar substâncias fadadas ao mal que lhe é peculiar, razão esta pela qual o Criador fez por bem amaldiçoar a sua própria Criação, de modo a limitar os efeitos da desobediência da sua criatura.

Desde toda essa raça de filhos da traição contra o Amor de Deus só pôde nascer a decadência e a corrupção, até que pela obediência de Maria, que rejeitou o acordo com a Serpente, contrariando o costume de Eva, Jesus Cristo encarnasse como Filho de Deus e se tornasse, como Filho do Homem, o que Adão nunca pôde ser, isto é, perfeitamente fiel ao Pai.

A Encarnação de Jesus Cristo, Filho de Deus, demonstra tanto que a matéria é dócil à forma (isto é, mostrou que o mal é sempre espiritual, formal), redimindo uma realidade decaída ao tomar posse da matéria de Maria, como que somente a vontade de Deus é boa o suficiente para a formação de qualquer substância.

O que Adão quis fazer, no entanto, assim como qualquer pessoa que queira casar, ter filhos, enriquecer, crescer em fama e prestígio, etc., foi explorar a promessa divina da Vida Eterna, embora tenha errado ao querer fazer isso por si mesmo, desejando obter a felicidade emancipado do Amor divino.

Assim podemos compreender como o processo de informação da vontade na fecundação, quando ocorre por iniciativa humana, é análogo à manifestação da criatividade monádica, isto é, é um sucedâneo ou substituto do verdadeiro poder que só poderá ser liberado com a total comunhão com o Espírito Santo na Vida Eterna (o que chamei de “Coruscância”).

Há uma imensa promessa de felicidade no coração de todos os seres humanos, correspondente à expectativa justa da concessão da Graça divina, porém é preciso que cada ser humano responda pessoalmente pelo seu desejo do bem: se quer ser amado ou quer ter poder por si próprio.

Só se pode realizar perfeitamente o desígnio divino em total alinhamento com a vontade do Criador, que é a única vontade santa, pura e perfeita. É em comunhão com Espírito Santo que o ser humano poderá realizar a sua criatividade monádica, em analogia limitada ao ser divino, consubstanciando todos os seres que desejar produzir desde a sua forma tornada perfeita pelo seu estado glorificado.

Qualquer fecundação reprodutiva na carne funciona apenas como uma sombra, como uma imitação ou farsa, mentira e ilusão, em analogia com aquela verdadeira perfeição da criatividade monádica.

A chave da felicidade reside no casamento do Poder com o Amor, de toda matéria ilimitada com uma forma santa, realidade que só se realiza no ser humano quando ele ajusta a sua vontade à obediência e esperança em Deus, de modo que a comunhão com o Espírito Santo seja voluntária e perfeita.

Podemos nos perguntar sobre qual foi o olhar com que, no mito do Éden, Adão viu Eva, que lhe fez vê-la como carne da sua carne, como propriedade sua e como objeto do seu poder. Adão viu Eva com vontade de poder, e por isso ela se tornou sua esposa e mãe de seus filhos. Se a visse com vontade de amor, renunciaria a qualquer ambição de poder e ela restaria livre, como sua irmã, para desejar o Amor de Deus tanto quanto ele.

A informação da vontade de poder de Adão na fecundação de Eva operou, em analogia com a criatividade monádica que só era possível pela virtude divina, a realização da Queda, produzindo corrupção e decadência.

Já a informação da vontade de Amor do Espírito Santo na fecundação de Maria operou a realização da Redenção, produzindo o testemunho do Amor do Pai na Revelação perfeita do Filho.

Transhumanismo: a troca da herança divina por um prato de lentilhas

Um dos pensamentos que me ocorreu enquanto eu trabalhava na avaliação do livro O fim da infância para o Livro das Tendências foi o de que Stormgren, o Secretário-Geral da ONU, encarnou perfeitamente o espírito de Esaú quando defendeu a política de Karellen pelo motivo de que agora a humanidade tinha o seu pão garantido.

Não é disso que se trata toda a tradição ancestral contra Deus? Em buscar garantias contra a necessidade da dependência do Amor do Criador?

Esaú é, assim, o sucessor espiritual de Adão, assim como Stormgren. Por outro lado, Jacó foi o antecessor espiritual do segundo Adão, Jesus Cristo, por confiar na herança do verdadeiro Pai.

Esaú confiou na virtude de Isaac, mas o valor deste sempre esteve na bênção divina. O primogênito falhou ao confiar na força da carne e do sangue, crendo-se superior ao caçula por ser popular com seu povo, um grande guerreiro, um caçador, enquanto o caçula Jacó secretamente era um adorador mais perfeito da verdadeira fonte de toda a força, o Amor de Deus. Quando Esaú vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, creu que lhe valia muito mais o seu poder pessoal do que a justiça da eleição divina. Justificou-se, assim, a sucumbência do mais velho diante do mais novo.

Voltando ao livro e indo mais além, a promessa do progresso transhumanista é justamente a realização daquela emancipação desejada por Adão e Esaú, para conquistar uma suposta vida independente e emancipada do Amor de Deus. É o ser humano disposto a vender a sua herança como criatura feita à imagem e semelhança de Deus para obter a ilusão de uma libertação através de garantias e seguranças falsas.

Por esta razão é que devemos fazer um elogio do maravilhoso dom da Paixão (v. Capítulo 12 de Monadofilia). Com a Vigilância que nos permite entender o fundamento espiritual do Sistema da Besta, e com o Discernimento que nos deixa distinguir entre as opções espirituais, podemos aceitar os pesados decretos decorrentes da Maldição de Gen 3 de tal modo que quando um Karellen vier nos oferecer algo como a transcendência da condição humana amaldiçoada, nós saberemos honrar o Eterno recusando essa suposta “salvação”.

A eminente natureza econômica e psicológica da descendência

Quando as famílias migram do meio rural para o urbano e decidem ter menos filhos, isso evidencia que a anterior elevada taxa de natalidade não se justificava por razões altruístas e espirituais, mas meramente por um cálculo de conveniência econômica: os filhos que antes eram contabilizados como ativos (mão-de-obra) que garantiriam um envelhecimento com maior conforto e segurança, agora se tornaram passivos geradores de despesas.

Do mesmo modo, se há algum resíduo na natalidade urbana, esta se deve ainda em parte a uma preocupação com a velhice desamparada da parte dos progenitores, e em parte ao novo problema urbano do vazio existencial pela falta de objetos externos de devoção e sacrifício imanentes, ou seja, por uma conveniência psicológica.

Nunca foi Deus. Sempre foi o homem.

Sem a Esperança no Amor do Pai, este ser decaído e amaldiçoado tenta realizar a promessa da Serpente no Éden. E assim pula da frigideira para o fogo: do medo da miséria ao medo da falta de sentido numa vida espiritualmente vazia.

Todo o sentimentalismo que já conhecemos muito bem sempre foi e continua sendo uma superestrutura que cobria com um véu de autoengano a realidade da infraestrutura econômica e psicológica.

Em suma, a especialidade humana é a criação de um disfarce mentiroso que sirva para cobrir a sua nudez espiritual.

Essa nudez espiritual não só foi herdada dos costumes da cultura de cativeiro, mas continua sendo confirmada pela recusa a uma vida entregue à Graça divina.

Da nulidade espiritual dos falsos deveres de estado

Irmãos, cada um permaneça diante de Deus na condição em que estava quando Deus o chamou.” (I Corínthios 7:24)

A invenção de falsos deveres de estado como defesa contra a falta de sentido de uma vida sem Fé apenas multiplica os sofrimentos a que o homem já está submetido por nascimento.

É sem mentira que se cumprirá toda a Justiça. Quando mente, o homem apenas fala do que lhe é próprio e reflete as suas trevas interiores, tentando encontrar no reflexo das boas intenções da sua alma algo que nunca esteve lá, porque somente a Deus pertence o Amor.

A grande beleza dos verdadeiros deveres de estado consiste justamente na sua integridade espiritual, já que certamente eles derivam da vontade ou da permissão divina.

Toda a visão de confiança na Providência divina por trás de cada circunstância da vida nos permite alcançar o verdadeiro repouso, a paz do Senhor que é confiado como o nosso Bom Pastor.

O homem foi criado reto, porém procura complicações sem conta.

Pior, esse mentiroso quer ser respeitado na sua escolha de desprezar o Amor do Pai. É claro que esses nossos irmãos e irmãs devem ser amados. Mas que amor pode existir na confirmação da ilusão? Se respeitamos como legítima qualquer decisão autodestrutiva, não estamos encorajando a mentira e incentivando o afastamento de Deus?

Devemos, portanto, ter todo o cuidado para que nossa compaixão e caridade não sofra sequestro para o serviço da mentira. Quando o próximo carece de Discernimento, devemos compensar isso com a nossa própria prudência, mesmo que ao preço de desagradar.

A salvação das indeterminações particulares para a Eternidade

O Reino de Deus está dentro de vós.” (Lc 17:21)

Provavelmente não existe assunto mais excelente do que o Amor de Deus, e nem maior alegria do que contemplar a promessa divina para as criaturas feitas à imagem e semelhança de seu Criador.

Ocorre que os vários expedientes de dispersão distraem o ser humano e o afastam de si mesmo, sendo que é no seu interior que ele pode encontrar tanto a confirmação da supremacia do Amor, quanto a validade da sua promessa.

O que é um ídolo? É um objeto externo de culto que leva o homem a procurar a verdade e a salvação fora de si mesmo, quando o Deus verdadeiro se revela na intimidade do coração contrito, humilde e “esmagado” pela majestade do Eterno. Um ídolo é uma mentira, uma ilusão, um vazio.

Quem puder ter apreciado o que disse a respeito da Coruscância, ou da Eleuteriodiceia, já pode ter entendido do que se trata toda a experiência humana, isto é, a causa final da nossa vida.

Entendeu o Espírito Santo do Criador que não haveria maior felicidade que lhe glorificasse na Eternidade do que a de seres criados à sua imagem e semelhança para o usufruto da mais plena liberdade possível a qualquer criatura. Isto é a salvação: levar as almas a aceitarem espontaneamente a individuação das suas singularidades como indeterminações particulares tornadas infalíveis pela comunhão voluntária com o Espírito Santo.

Por outro lado, a Perdição nada mais é do que o desvio de uma alma que rejeitou a infalibilidade que lhe permitisse a individuação na Eternidade.

O fardo levíssimo dos Eunucos

Penso que se algum tipo de preexistência fosse possível (no que aliás não acredito), eu escolheria a vida mais fácil possível em que, ao mesmo tempo, toda a dificuldade que eu tivesse que viver seria experimentada logo de uma vez no começo da vida, de modo que me bastasse aguentar a pior parte de início para daí viver um melhoramento contínuo até o momento de partir deste mundo.

Talvez essa seja a realidade dos Eunucos em geral, e aqui falo num sentido estritamente espiritual daqueles que não casam e não têm filhos por quaisquer razões imediatas e que relacionam providencialmente essa realidade ao desígnio do Amor divino.

Ou seja, Eunuco é aqui entendido como alguém que por qualquer razão não casou e não teve filhos e que decidiu relacionar esse fato com um desejo de Deus que tornou a sua vida diferenciada por esta razão especial, obedecendo àquela instrução divina que ensinou: em tudo e o tempo todo dai glória a Deus.

Ora, o cristão já é convidado por Jesus a viver sob um fardo leve, livre da taxação do diabo através da mentira das religiões que reproduzem o Culto do Ouroboros da Tradição Primordial.

O Eunuco, entre os cristãos, é assim convidado para um fardo mais leve ainda, imitando não só o próprio Filho de Deus quando este encarnou como Filho do Homem, mas também os mais excelentes entre os Profetas e Apóstolos, tornando assim a sua vida desembaraçada das várias formas de ônus carnal que obstruem a clareza de consciência e devoção da vida espiritual.

Um Eunuco, afinal, é alguém liberado da participação na perpetuação carnal do Pacto Ouroboros, que é o veículo da manutenção do poder da Antiga Serpente sobre este mundo.

Obviamente, não casar e não ter filhos não são fatos que constituem uma virtude por si mesmos, já que a participação no Pacto Ouroboros é sempre uma adesão espiritual a uma traição contra o Amor de Deus sob quaisquer formas. Já dei até, em outra oportunidade, o exemplo de um Padre ou Pastor que recomenda e celebra tanto o casamento quanto a reprodução e que assim, mesmo sendo solteiro, participa com grande profundidade no Pacto Ouroboros, atuando como o Bispo no Sistema da Besta.

Ser Eunuco não constitui virtude automática, mas facilita o caminho para quem busca o Amor de Deus, e por isso fiz alusão a um fardo mais leve ainda àqueles que decidirem viver na aceitação desse fato por motivos exclusivamente espirituais.

Temos evidências escriturais da preferência divina pela renúncia às Obras da Carne, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

Vejamos uma referência do AT:

Aos Eunucos que viverem na minha Presença, que escolherem o que me é agradável e se afeiçoarem à minha Aliança, eu darei na minha casa e dentro de minhas muralhas um monumento e um nome de maior valor que filhos e filhas; eu lhes darei um nome que jamais perecerá.” (Isaías 56:4-5)

E uma do NT:

Seus discípulos disseram-lhe: ‘Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!’ Respondeu Jesus: ‘Nem todos são capazes de compreender o sentido dessa palavra, mas somente aqueles a quem foi dado compreender. Porque há Eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há Eunucos tornados tais pelas mãos dos homens, e há Eunucos que a si mesmos se fizeram assim por amor ao Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.’ Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: ‘Deixei vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos Céus é para aqueles que se lhes assemelham.'” (Mateus 19:10-14)

Se eu precisasse deixar as coisas ainda mais claras depois de tudo isso, acho que não conseguiria.

O que nos importa é a clareza com tranquilidade e serenidade que se baseia na experiência humana que nós já temos das coisas do mundo e das coisas de Deus. Não é preciso muito misticismo, ao contrário do que alguns possam pensar, para concluir, com pura lógica amparada na confiança plena no Amor de Deus, que o homem cria para si todos os seus problemas, e que a nossa salvação consiste na renúncia às nossas mentiras e à uma entrega total ao amparo do Pai.

Ser Eunuco não garante nada, mas facilita certamente, e quem se viu nesta condição pelo império de forças maiores pode ter mais confiança ainda de que isto se dá por um recurso extraordinário da Misericórdia divina.

Correção do idealismo imanentista pela Reflexão YX

Já pudemos verificar antes o quanto o idealismo imanentista é pernicioso por esvaziar o poder da imaginação humana, um dom concedido para o Louvor a Deus, para objetos entrópicos de todo tipo de idolatria e causar, com isso, a dispersão das almas em direção ao Vazio.

Convém ampliar esse entendimento com o desenvolvimento de uma ferramenta espiritual e psicológica que corrija o idealismo do erro imanentista ao acerto transcendentalista, a Reflexão YX.

Esta experiência implica na estimativa da realização da nossa Esperança na Vida Eterna pelo encontro de uma subjetividade perfeita (X) com uma objetividade perfeita (Y).

O Eixo X se desenvolve observando a pureza da animação espiritual que Deus concede graciosamente para o aproveitamento de qualquer circunstância externa para a produção da melhor experiência ou, em termos simples, a comunhão com o Espírito Santo que nos torna infalíveis para a felicidade plena a que fomos designados pela Providência.

O Eixo Y se desenvolve observando quaisquer cenas ideais que podem ser acreditadas como manifestações da perfeição da vida, refletindo a expectativa do que seria a criatividade monádica em sua plena capacidade, orientada para a melhor felicidade esperada.

O foco da imaginação se dá no Eixo Y, já que aí é que se encontra o poder de produção de imagens da felicidade, e tal ação deve ser sempre desimpedida de quaisquer elementos da presente experiência de vida decaída e amaldiçoada, principalmente: a) a necessidade da escassez, b) a inviolabilidade das causas, e c) a irreversibilidade dos efeitos.

Já o Eixo X serve para o reconhecimento da total dependência ao Amor de Deus para a realização da imagem projetada no Eixo Y, de vez que não temos nem o poder de desejar o bem, nem o de aceitá-lo na sua perfeição, e nem o de criá-lo. A comunhão com Espírito Santo, representada por este Eixo X, implica tanto na infalibilidade dos nossos desejos e da capacidade de fruição dos mesmos, quanto no poder de atualizar aquela criatividade monádica que no Eixo Y é refletida apenas como virtualidade.

Em outras palavras: devemos imaginar justamente o que nos é impossível realizar, seja por pureza e bondade de intenção, ou por capacidade de criação ou experiência, mas que constitui justamente o objeto mais excelente como reflexo da maior felicidade que possamos intuir (Eixo Y), de modo que fique óbvio que apenas o Amor de Deus graciosamente concedido ao nosso ser nos permitirá experimentar a felicidade mais plena, tanto pela perfeição da nossa subjetividade, quanto pela perfeição da objetividade realizada pelo poder divino concedido para a realização da nossa criatividade monádica (Eixo X).

Qualquer pessoa que queira viver bem com Deus tem à sua disposição esse recurso de um idealismo sadio que não leva a nenhuma frustração com a vida no mundo presente, já que a experiência presente é secundada pela expectativa do ideal justificado pela crença mais perfeita que é a que se ampara no Amor divino.

Ao contrário, esse tipo de idealismo transcendental, bem ajustado ao seu objeto mais justo, que é a vida paradisíaca com Deus, permite um relaxamento mais pleno com a aceitação das limitações atuais, bem como um convívio mais caridoso e paciente com o próximo que pode ser a qualquer momento reconhecido como uma alma convidada à mesma promessa que recebemos.

É com o dom da Esperança plena que nos reconciliamos com Deus e com o Próximo, atentos ao que se prepara para o futuro, às expensas das imperfeições presentes que nos foram impostas por seres desarmoniosos e infelizes que rejeitaram a promessa do Amor divino.

Se atentarmos bem, veremos que o Apóstolo, em suas grandes exortações a favor do Amor e da Salvação, estava falando exatamente deste poder que temos de nos conectarmos imediatamente à perfeição do destino designado pelo Altíssimo. Igualmente, entendemos porque o Eterno é chamado de “A Rocha” por sobre a qual podemos finalmente repousar, desiludidos e desenganados a respeito da realidade do mundo em que nascemos. E assim tudo fica bem para quem confia no Bem, usando de recursos já disponíveis para a finalidade dessa Esperança.

Livra-me do cativeiro e livrai de mim os meus cativos

Entre as mais interessantes idéias da exploração de 2017 encontrei três delas boas o suficiente para uma reciclagem atual, a saber:

  1. Que a Humildade é a chave do Coração, o Coração é a chave do Amor, e o Amor é a chave da Vida, assunto já tratado tanto neste blog quanto no meu canal do Youtube;
  2. Que esta vida é uma grande lição de Humildade, cujo exame final é a velhice, um assunto ainda pendente de reciclagem;
  3. Que a prece mais importante que eu aprendi além da Prece do Senhor foi aquela em que disse “livra-me do cativeiro e livrai de mim os meus cativos“, assunto que desejo trabalhar agora.

Convém-nos lembrar em primeiro lugar que nenhuma ação de prece pode mover a Deus que, em sua perfeição, não pode ser movido a qualquer disposição melhor do que a já informada pela santidade da sua própria Vontade.

Em segundo lugar que a realidade da prece é a da vida de oração, isto é, da consciência da vida na Presença de modo que qualquer movimento exterior da boca ou dos joelhos são apenas índices do movimento interior da alma, e que este tipo de movimento e não aquele é o que importa espiritualmente, de modo que a verdadeira boca e o verdadeiro joelho estão sempre no coração diante de Deus, a quem as aparências não podem enganar a realidade das substâncias.

Assim, toda e qualquer prece tem apenas duas outras duas funções possíveis, descartado o impossível melhoramento da disposição divina: (1) servir para o aumento da consciência humana a respeito da excelência divina, uma legítima função espiritual para a realização da vida na Presença e para o desenvolvimento do dom do Discernimento, e (2) servir para uma prática idolátrica, seja na tentativa de se ter poder sobre o Deus verdadeiro (antropolatria), ou na tentativa de se relacionar com qualquer entidade que usurpe o lugar de Deus, como para obter favores (a idolatria dos Avari).

Dito isso, aprendi em 2017 a pedir a Deus que me libertasse do cativeiro no qual vim a nascer, e isso de todas as formas possíveis (econômica, política, intelectual, e principalmente espiritual), ao mesmo tempo em que reconheci a validade simétrica do meu correspondente dever de libertar quaisquer vítimas que sofram em virtude de uma ambição de poder de minha parte, quer fosse de vontade de poder sobre elas, ou de poder sobre outro objeto que implicasse no uso delas como meios para uma conquista.

A qualidade dessa prece consiste, em primeiro lugar, da observação de que Deus não teve jamais a vontade de me ver nascido num mundo decaído e amaldiçoado, tanto que posso contar com a sua Graça para me libertar de tal estado, no mínimo através do decreto da morte deste Corpo de Queda.

Em segundo lugar, consiste na identificação da origem do mal no mundo na ambição humana de poder. E, nesta linha, na desproporção que há entre a luta contra o mal fora de mim, que resulta na impotência da Revolução Exterior, a utopia de reformar o mundo, e a luta contra o mal dentro de mim, que resulta na verdadeira vitória do Amor através da Revolução Interior, a reforma do homem.

Reconhece-se, assim, através desta prece, que apenas Deus tem a autoridade e o poder de derrotar o mal, cabendo-nos desejar uma salvação que parte sempre da sua Graça, e então negar a participação voluntária nas Obras da Carne através da renúncia de toda forma de poder originada da nossa ambição pretensiosa.

Essa prece nos permite viver de forma mais relaxada e dócil, aceitando e confiando na Providência com a segurança de quem já se desarmou interiormente de todo espírito de rebelião e de desejo desregulado de poder, isto é, de querer atuar para além do que é determinado pelo estado de coisas ditado pela circunstância governada pela mesma Providência na qual se decidiu confiar.

Essa é a justiça que os Noldor, os Príncipes, fazem ao reinado espiritual do Rei dos Reis, fiéis à promessa da sua eleição para um reinado junto ao seu soberano, no tempo e no modo corretos, conforme a pureza do desejo do Espírito Santo de Deus.

A Sagrada Família que a religião adora louvar e odeia imitar

Já falamos antes da grande diferença que há entre as Obras da Carne, personificadas no mito por Adão e Eva, e as Obras do Espírito, personificadas por Jesus e Maria. E já falamos que pelos frutos se conhecerá a árvore: quem segue Adão e Eva os imita e produz o mesmo que eles produziram, e quem segue Jesus e Maria os imita e produz o mesmo que eles produziram.

Essa diferença dos dois tipos de destino humano já mostra tudo o que precisamos saber sobre a essência da vida espiritual: a escolha humana se dá entre a obediência e a rebelião, entre a dependência do Amor divino e a busca do Poder de emancipação. De um lado aceita-se a exclusividade da santidade divina de criar, e do outro presume-se poder criar vida por procuração, e não qualquer vida, mas o tipo mais sagrado que pode haver na corporeidade da carne e do sangue.

A decisão humana de tomar o lugar de Deus sempre me parecerá assombrosa, por todos os lados em que eu a possa considerar. Não só espiritualmente, aliás, mas também psicologicamente: cá entre nós, como pode uma personalidade livre de qualquer narcisismo se achar boa o suficiente para criar uma vida humana? Eu SEI que não sou competente nem para cuidar de um cachorro, e que vou fazer injustiça ao animal. Mas de algum modo presume-se que eu deveria ter grandes pretensões, do contrário a minha vida não serviria para nada, afinal, de que vale uma alma fraca que é apenas capaz de glorificar o santo Nome do Eterno e confiar na sua Providência? Isso parece pouco.

Mas voltemos ao tema central.

Um fato igualmente impressionante, e que novamente corrobora a opinião muito razoável de que a nossa raça é cheia de traição e mentira, é o quanto se dissocia a virtude da Sagrada Família dos fatos que a sustentam espiritualmente. Será que toda a religião cristã é uma forma de esquizofrenia?

Senão vejamos: a religião cristã parece adorar o valor simbólico e totêmico, ou fetichista, da Sagrada Família, e ao mesmo tempo detestar a imitação do seu exemplo.

Pensemos nesta época do ano. É difícil entrar em uma galeria comercial, ou um shopping center, neste período natalino, e não encontrar presépios montados para mostrar a reunião da Sagrada Família. Nas escolas e em várias comunidades encena-se a Natividade, com o mesmo cenário e os mesmos personagens de sempre. E, é claro, nas igrejas celebra-se de várias maneiras o Advento, seguindo o calendário das festas. Tudo muito tocante, e não fosse o fato de que provavelmente Jesus não nasceu nesta época do ano (talvez tenha sido em Setembro, e há quem diga Março), já que a data de 25 de Dezembro foi uma escolha romana para substituir as festas pagãs com a mitologia cristã, não teríamos muito o que observar a respeito.

Mas eis que tudo o que a cena do nascimento de Jesus aponta espiritualmente é diretamente desprezado pelas massas religiosas.

Aquela Sagrada Família é composta de pessoas obedientes a Deus de uma maneira bastante peculiar e não acidental.

Em primeiro lugar temos José e Maria, que renunciam à realidade de um casamento ao modo convencional (a Tradição de Adão e Eva ensinada pelo Ouroboros) para obedecer a um desígnio divino. A tão venerada (ou até adorada?) Virgem Maria é, afinal, e não casualmente, uma virgem, e isso por alguma razão especialíssima. Maria faz o que Eva jamais quis ou conseguiu fazer: renunciar à sedução do Pacto Ouroboros, ao poder das Obras da Carne. Maria aceitou viver somente pela Graça do Altíssimo. Eva quis poder sobre o seu marido e sobre os seus filhos. Não lhe bastava amar a Deus como Pai e a Adão como seu irmão. Não, ela precisava ser esposa e mãe, e tudo por “amor”, claro. E pelos frutos conhecereis a árvore: da obediência e virgindade de Maria nasceu Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus encarnado Filho do Homem; já de Eva nasceu a traição e o assassinato. E antes que digam que de Eva não nasceu apenas isso, atentem para a realidade de que a cada geração é o Espírito Santo quem converte as almas à adoração do Deus verdadeiro, e não o costume da carne, como Jesus mesmo declarou a Pedro quando este o reconheceu com o Filho de Deus, bendizendo-o porque somente o Espírito Santo do Pai o poderia ter revelado, e não a carne e o sangue.

Em segundo lugar, mas não por último, temos o próprio Jesus Cristo que viveu para realizar o crescimento e a multiplicação do Espírito, e não da Carne: ensinou, curou, perdoou, amou plenamente. E nos ensinou a amarmos uns aos outros como ele nos amou, como IRMÃOS que somos uns dos outros, e não como instrumentos de Poder. Jesus nunca casou e nunca teve filhos, mas cresceu e multiplicou no Espírito, e sendo o Caminho, abriu as portas da filiação espiritual ao Pai, a quem veio revelar. Ele dizia: a minha família são estes que acreditam em mim. E desprezou diretamente todos os méritos da carne e do sangue, humilhando os judeus ao afirmar que até de pedras Deus pode fazer filhos de Abraão. Jesus fez o que Adão jamais quis ou pôde fazer: renunciou a todo o poder sobre o mundo quando resistiu à última tentação da Serpente, poder o qual aliás ele tinha a autoridade real de reivindicar, bem ao contrário de Adão que fez pacto com a Serpente e traiu o Amor de Deus. A religião de Jesus era perfeita: não deixou viúva ou órfão, e amou até o fim quando deu à sua mãe o Apóstolo Amado como filho, e a este àquela como mãe.

Eis a Sagrada Família na sua virtude: Jesus, Maria e José, amantes verdadeiros e cheios do espírito de renúncia ao Poder ilegítimo.

Essa Sagrada Família é muito venerada na sua IMAGEM, já que como em qualquer religião, também na religião cristã o que se pratica é idolatria. Muitos “cristãos” louvam não o exemplo de virtude e santidade da Sagrada Família, mas a sua imagem de virtude e santidade, e para isso produzem todo tipo de arte humana que sustenta o poder da Tradição Primordial: esculpem, pintam, compõem músicas, cantam, atuam, etc.

Fazem tudo, tudo menos imitar a Sagrada Família.

O que importa é desprezado, isto é, a substância da vida espiritual, o viver na Presença de Deus com confiança na exclusividade do Amor divino.

Enquanto isso tudo o que tem a aparência e a imagem da santidade é adorado, venerado e louvado, como se por efeito mágico a conexão com esses ícones produzisse um efeito espiritual independentemente do sentido real da vida do crente, exatamente como ocorre com qualquer tipo de idolatria pagã, como com o totemismo, o fetichismo, etc., na total ignorância da realidade espiritual humana que diz respeito exclusivamente à crença livre no interior dos corações, independentemente das aparências das coisas.

Se aparecer uma pessoa pronta a viver de acordo com o exemplo real da Sagrada Família, enquanto desprezar o culto religioso de imagens, esta será considerada no mínimo estranha, senão mesmo como antagonista da vida cristã.

O que nos resta é amar a verdade e buscá-la incessantemente, desprezando as aparências e ligando-nos à realidade do sentido espiritual de tudo o que vivemos. Este é o meu conselho: saiamos dessa coletividade, desse grupo de mentirosos. Não temamos pela solidão.

Reparem bem: não estamos sozinhos quando confiamos no nosso Deus e nos movemos por amor à verdade. Os enganados são aqueles que se aglomeram, achando que sua imitação ao costume lhes empresta virtude por osmose. Estes estão muito mais sozinhos do que imaginam, e talvez suspeitem disso no fundo de suas almas, isto é, se não acreditam totalmente em sua própria mentira.