Ameaça ou esperança? O teste do inquilinato espiritual no Fim do Mundo

Gosto de soltar frases perigosas por aí, com o deleite de fazer uma provocação aliada a um testemunho verdadeiro.

Uma delas é:

“Amo o ser humano no varejo, mas odeio no atacado. Gosto de pessoas, mas detesto gente.”

Outra, mais relacionada com o nosso tema aqui, é a seguinte:

“Meu problema não é que o mundo acabe. É que ele continue, comigo dentro dele.”

Qualquer exilado espiritual que se sinta suficientemente despertencido vai desejar a mesma coisa, principalmente se confiar numa Providência transcendente que lhe garanta a confiança numa existência alheia à presente. O repouso na esperança em Deus deve chegar a tal ponto que toda a nossa vida atual possa ser considerada uma mera experiência passageira, de modo que tudo o que é desagradável se torna mais tolerável (Paixão), e tudo o que é desejável se torna mais resistível (Louvor). Somos como hóspedes temporários neste mundo. E, nesse espírito, não só a hipótese do Fim do Mundo se torna aceitável, como é algo francamente desejável na proporção da força do chamado daquela esperança. Este é um teste do nosso inquilinato espiritual: a possibilidade do fim de todas essas coisas é algo que nos soa como uma ameaça, ou como uma promessa?

Os moradores da Terra se identificam com ela. Não confiam muito em qualquer possibilidade que esteja para além. A aposta numa esperança que supere esta realidade parece ser algo muito arriscado. Ou até mesmo um tipo de loucura. Na idolatria das coisas presentes, não temem desprezar as ausentes. Ignorantes de sua própria dignidade espiritual, e do tamanho da herança que se lhes é oferecida, não imaginam como viveriam em maior liberdade e leveza se simplesmente confiassem num Amor superior que lhes deseja salvar. Preferem fazer todo tipo de acordo, concessão, compromisso, pacto ou tratado para tornar a sua vida aqui e agora o alvo de todos os seus anseios.

Os inquilinos, já acostumados com que a loucura do mundo julgue como louca a sabedoria fundada na pureza mais perfeita do Amor divino, longe de temerem o Fim do Mundo, anseiam por ele. E o mesmo decreto que estabeleceu a morte dos corpos produzidos em desobediência, o que aterroriza os moradores, é uma realidade aceita como verdadeira consolação divina, como um ato de Misericórdia, pelos inquilinos.

Inquilinos estes para quem muito mais próxima do que aquele evento único está a própria extinção de suas carcaças mortais, completando o ato de generosidade do Criador para com os seus amantes o fato de que este mundo sempre acaba para quem nele morre.

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