Top 6 diferenças entre a Vida Religiosa e a Vida Espiritual

Uma das maiores dificuldades –se não mesmo a maior de todas–, na apresentação da liberdade da vida espiritual do ponto de vista cristão, surge do conflito com a mentalidade religiosa que já capturou o imaginário das pessoas a respeito dos temas fundamentais.

Quando digo que o diabo inventou a religião, à parte de um mero desejo de causar algum espanto que gere uma reflexão, sou movido também por uma evidência muito forte de que o tema do sentido da vida humana foi totalmente dominado por uma visão institucional criada com a única finalidade de garantir que ninguém vai chegar a lugar nenhum, e que tudo continue mais ou menos como está.

É por isso que vale a pena analisar a questão com maior atenção, para chamar a atenção para estas diferenças, de modo que as pessoas entendam, de uma vez por todas, que quando falamos de vida espiritual nós não estamos falando de vida religiosa, embora estas tenham evidentemente pontos de convergência, ao menos nos temas de que tratam.

  1. Exterior vs. Interior: A Vida Religiosa é voltada a um resultado exterior, ao mundo das aparências, dos gestos e palavras corretos, para produzir a imagem de correção de acordo com o código religioso. Já a Vida Espiritual é voltada a um resultado interior, ao mundo dos significados, da consciência e da responsabilidade, para produzir um resultado que agrade a Deus em fidelidade ao seu Amor. Essa diferença é destacada por exemplo em Jo 2:23-25: “Enquanto estava em Jerusalém, para a festa da Páscoa, vendo os sinais que fazia, muitos creram em seu nome. Mas Jesus não tinha confiança neles, porque os conhecia a todos e não necessitava de que lhe dessem testemunho sobre o homem, porque ele conhecia o que havia no homem.”
  2. Templos mortos vs. Templos vivos: A Vida Religiosa é realizada com foco em templos de pedra, em locais onde o culto a Deus é supostamente preferido, e onde a comunidade pode se reunir para reafirmar a sua unidade cultural. A Vida Espiritual é realizada com foco no templo de carne e sangue, o próprio corpo do fiel que leva para onde vai o seu culto a Deus, e dá o testemunho da sua experiência espiritual a quem for conveniente, não precisando da participação numa comunidade para viver plenamente a sua crença;
  3. Ritos próprios vs. Vida comum: A Vida Religiosa requer a prática de determinados ritos próprios que reafirmam o conteúdo da sua crença, de tal maneira que sem essa ação específica a realização do sentido da fé fica prejudicado. A Vida Espiritual implica na experiência imediata do sentido de toda e cada experiência humana diante do Criador, de modo que tudo ganha valor espiritual e a força da fé depende apenas de um comprometimento interior de conectar todas as coisas ao plano do sentido transcendente;
  4. Calendário de Festas vs. Cotidiano: A Vida Religiosa faz a contagem dos dias para separar alguns para a prática da memória do culto e dos ritos. A Vida Espiritual considera que todos os dias são igualmente vividos diante de Deus, e mais ainda, que o que o ser humano vive no seu cotidiano tem maior valor espiritual do que o que ele representa em momentos separados no qual pode fingir que não é a pessoa que é quando leva a sua vida de cada dia;
  5. Conferência vs. Mistério: A Vida Religiosa é estruturada de tal forma que permite a contínua conferência da correção do comportamento alheio, o que favorece o julgamento do próximo, assim como permite o fingimento da correção própria. A Vida Espiritual é eminentemente uma realidade diante de Deus que não pode ser verificada exteriormente, senão indiretamente pelos frutos das crenças que se mostram com o tempo, o que significa que no fim das contas somente Deus sabe qual é a realidade no coração de cada ser humano, e cada um está livre e impedido, ao mesmo tempo, de julgar o próximo e de fingir que possui valor espiritual;
  6. Salvação como Conclusão vs. Salvação como Premissa: A Vida Religiosa entende que o Amor de Deus não é garantido e a Salvação só decorre como conclusão de um processo que pode eventualmente falhar à revelia da intenção do religioso, ou seja, a Vida Religiosa busca um o sucesso do Amor como resultado. A Vida Espiritual entende que o Amor de Deus é garantido pela própria infalibilidade da bondade divina, e que a Salvação é uma premissa para o relacionamento com Deus, desde que a vontade genuína pela salvação é a única exigência para a garantia dessa realidade, ou seja, a Vida Espiritual busca a glorificação do Amor como resultado.

Vale a pena lembrar que uma pessoa que vive uma vida religiosa pode também viver uma vida espiritual, aliás, por definição isso é necessário, já que o sentido espiritual da vida humana não pode ser “desligado”, só pode ser esquecido.

Sempre que falamos de vida espiritual, ao menos do ponto de vista cristão, estamos tratando do que foi exposto aqui, à revelia ou até mesmo em oposição com o que se entende como vida religiosa.

Se não soubermos fazer essa separação estaremos sempre expostos à confusão demoníaca que quer obrigar cada nova geração a submeter sua liberdade espiritual de relacionamento com o Criador aos protocolos e sistemas institucionais que foram justamente criados para impedir a verdadeira consciência e responsabilidade humana.

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