Follow the Blood: a dialética entre exoterismo e esoterismo gnóstico

Meus amigos, hoje eu vou complicar as suas vidas. Ou o contrário? Depende de vocês.

Vou trazer uma especulação difícil, mas inevitável, sobre a qual devemos meditar não porque nos seja agradável, mas porque não podemos nos furtar a conceber que as coisas possam ser assim.

Desde que se assuma que aquele livro chamado Bíblia Sagrada não possua a infalibilidade da qual um cristão verdadeiro, discípulo do Espírito Santo, não só prescinde como precisa prescindir, podemos entender como foi profunda a traição dos cabalistas, os amantes da Tradição, contra o testemunho da verdadeira Revelação de Deus. Sabemos que ambos os Testamentos já fizeram essa denúncia (“transformou-a em mentira o cálamo do escriba“, e “invalidastes a palavra por causa da vossa tradição“). Mas será que temos coragem de enxergar até onde essa traição possa ter chegado?

Ora, eu já rompi até com a teologia do sacrifício de sangue, como vemos em Hebreus 9. E essa ousadia que alguns classificariam como temerária me fez ir até os confins do Gênesis para tentar entender a origem dessa história.

Um investigador da corrupção política segue aquele princípio elementar da pesquisa criminal: follow the money (“siga o dinheiro”).

Sendo assim, um investigador da corrupção espiritual deveria seguir um princípio semelhante, um análogo, a que eu dou o nome de follow the blood (“siga o sangue”).

Isto porque o sangue é espiritualmente considerado como a matéria da vida, o elemento da substância vital, aquilo que circula e mantém vivo qualquer ser. Não por um acaso, todas as entidades espirituais que disputaram poder com o Criador sempre pediram pagamentos na forma de sacrifícios de sangue. E até mesmo o Deus verdadeiro, Criador de todas as coisas, aceitaria esse tipo de oferta como já vimos inúmeras vezes no Antigo Testamento (apesar de que há uma estranha passagem em que Deus pergunta quando foi que Ele pediu por essas coisas).

Mas e a traição da Tradição? Não poderia ter contado toda essa história de forma errada? Será que o sangue não foi sempre pedido não pelo Deus verdadeiro, mas pelo Mentiroso que quer se colocar no lugar de Deus desde o princípio dos tempos?

Isto é perfeitamente possível e essa reflexão é muito conveniente, por difícil que possa parecer. Quando mais uma pessoa é religiosa, mais isso será difícil, é claro. O preço que eu pago é barato porque eu não tributo mais no altar da Tradição Primordial, do Culto do Ouroboros que governa todas as religiões do mundo. Cada um faça a sua escolha.

Na minha investigação eu encontrei teses gnósticas a esse respeito, e foi justamente na avaliação das alegações desses outros traidores de Deus que eu pude contemplar a sinistríssima possibilidade de uma tal conspiração para dominar as mentes dos seres humanos, que só mesmo a confiança no Amor do Altíssimo me permitiu manter a sanidade suficiente para não temer o cálculo da arte do inimigo.

Ocorre que alguns gnósticos cultuam Caim como o primeiro deles, seu patriarca, justamente como o primeiro herói contra a mentira do falso deus que seria o Demiurgo. Mas, já ciente de que o gnosticismo é um erro por razões muito claras, pude então compreender como é que existe uma dialética secreta na própria Gnose, montada de tal modo que nenhuma criatura pudesse escapar senão por uma providência divina de salvação.

Vejam bem, não digo que o diabo tenha escrito a Bíblia, porque ele é incapaz de criar qualquer coisa, só sabe mentir, perverter e corromper. Mas, sendo capaz de influenciar a humanidade a produzir grandes e profundas mentiras, até onde Lúcifer teria ido?

Durante um certo tempo, enquanto fazia os meus estudos bíblicos, tive a impressão de que a Revelação era criptografada pelo Espírito Santo, escondida dentro de um livro que seria mais ou menos indiferente espiritualmente, uma mera coleção de textos. Assim, a vida espiritual permitiria ativar o sentido da verdadeira Palavra escondida no texto bíblico. Hoje, porém, sou obrigado a considerar a hipótese de que o texto não é tão indiferente assim em si mesmo, e que na verdade a criptografia espiritual vence uma camada espessa de mentiras tão sofisticadas e consolidadas com o passar dos séculos, que a consideração da hipótese dessa conspiração bíblica se torna quase impossível para quem queira se dar a uma análise sóbria das coisas.

Mas graças a Deus eu não tenho medo. E cheguei então numa hipótese que explica a dialética da Gnose, que teria uma Tradição Primordial (a matriz de todas as religiões) e uma Revolução Primordial (a matriz de todas as heresias), dominando assim praticamente todo o panorama da espiritualidade humana, não fosse a intervenção de Deus com a Revelação de Jesus Cristo, para efeito naqueles que tem olhos e ouvidos para isso, os “espirituais” de Agostinho, contra os demais “carnais”.

De um lado temos a Gnose exotérica, a Tradição Primordial, o Culto Ouroboros: o Behemoth.

De outro lado temos a Gnose esotérica, a Revolução Primordial, a Iniciação Luciferina: o Leviatã.

E é nessa teratologia que a forma mentis da humanidade está afundada até o pescoço, e da qual o Filho de Deus veio nos tirar, se tivermos a coragem de acreditar nele contra toda a idolatria praticada pelos nossos pais.

Tudo teria começado com a traição do primeiro casal contra o governo de Deus no Jardim do Éden: tendo desejado conhecer o Bem e o Mal por si mesmos, acreditaram na mentira da Serpente.

Ora, a partir daí a Serpente do Mundo, o Ouroboros, se tornou o deus de Adão e Eva, o objeto de seu culto. O Deus verdadeiro os amaldiçoou para que morressem.

Mas o diabo fez pacto com eles: os ajudaria a enfrentar a Maldição com suas luzes, a primeira Gnose, dominando a Terra e fazendo guerra contra o governo divino, desde que em troca o adorassem como seu deus.

Foi aí que se estabeleceu o Culto do Ouroboros, a Tradição Primordial, selada com o ritual do sacrifício de sangue à Serpente do Mundo como forma de adoração.

Na primeira geração subsequente temos Caim e Abel convidados por seus pais a participarem do Pacto Ouroboros. Ambos, porém, foram certamente tocados pelo Espírito Santo do Deus verdadeiro, que jamais abandonou nenhuma das gerações nascidas da traição. O primogênito Caim teria então ouvido e aceitado a correção de Deus, enquanto o caçula Abel teria ouvido e aceitado a orientação de seus pais. O primeiro ofertou ervas e incenso ao Deus verdadeiro, e o segundo ofertou o sangue de um animal sacrificado ao falso deus. A Serpente obviamente preferiu o sacrifício de Abel.

É aí que se inicia o esoterismo gnóstico: dizem que Caim, tendo descoberto a traição de seus pais contra o Deus verdadeiro, decidiu fazer guerra contra o irmão para impedir a perpetuação da mentira no mundo, razão pela qual teria sido um “herói” gnóstico ao matar Abel.

Mas não podemos descartar a idéia de que Abel era inocente apesar de sua obediência aos pais, e que Caim cometeu assassinato por não suportar o triunfo do irmão num mundo decaído e mentiroso, apesar de ter sido alertado pelo Deus verdadeiro que lhe tinha chamado à Aliança que seus pais traíram.

Aqui é preciso observar que quando a nossa Bíblia fala que Deus disse isso ou aquilo, sendo o diabo esse grande mentiroso, nós temos uma mistura do que é uma Revelação verdadeira do que Deus fez e disse, e o que é ação e discurso da Serpente do Mundo que sempre quis disputar o lugar de Deus diante do homem.

Como fazer então esse discernimento entre a verdade e a mentira? Parece-nos que isso é impossível.

E certamente é impossível para nós, mas não é impossível para o nosso Deus que pode nos dar Discernimento. E Jesus Cristo já deu a instrução mais poderosa de todas: pelos frutos conhecereis.

Se o derramamento de sangue é a forma mais evidente de prática da violência, a própria transformação do assassinato em prática ritual, quem então pediu sangue como forma de culto?

Se, por outro lado, o perdão e a misericórdia é a forma mais evidente de prática do Amor, quem foi que alertou Caim para que não caísse na tentação de matar o seu irmão?

Pelos frutos conhecereis.

Abel era inocente, mas seu irmão não resistiu à humilhação de ser diminuído pela mentira do mundo e o matou, querendo fazer justiça contra o Ouroboros, sendo incapaz de perdoar e aceitar a instrução do Deus verdadeiro, como seus pais também não puderam fazer.

A partir de Caim temos então a dialética gnóstica: o exoterismo vindo de Set, que imitou seus pais como Abel teria feito, e o esoterismo vindo de Caim, em luta contra a Serpente por outros meios iluministas que também acabam cultuando o mesmo Lúcifer por outros modos.

Com a regra do follow the blood podemos ir longe na revisão de todos os relatos das Sagradas Escrituras, culminando obviamente na perversão da religião cristã contra a pureza da salvação de Jesus Cristo como se a morte deste fosse um justo e bom pagamento de sangue exigido pelo Pai, quando na verdade quem quis matar Jesus foi a Serpente.

E até hoje a maioria dos cristãos religiosos pedem pelo sangue do Filho como se fosse isso que os salvasse de uma dívida, e não a Revelação do Pai como Amor puro.

Jesus veio para revelar o Amor do Pai e a mentira da Serpente, e fez isso na Cruz justamente porque não merecia a morte.

Jesus morreu para a satisfação dos que acreditam no Assassinato, e ressuscitou para a satisfação dos que acreditam no Amor.

E pelos frutos conhecereis: quem odeia pede sangue, e quem ama pede misericórdia.

Deixe um comentário