Eleuteriodiceia

Por que existe o mal no mundo?

A justificativa de Deus, ou Teodiceia, se dá pela incompatibilidade da natureza divina com qualquer ato criativo que viole a sua essência, ao mesmo tempo em que toda a razão limitada das criaturas contingentes deve ser entendida na sua posição de finitude como incapaz de produzir um juízo suficiente das razões que a transcendem.

Dado o rompimento da humanidade iluminista contra toda Metafísica que mantinha a segurança naquela noção da essência divina, restou à nossa época a desmoralização da Antropodiceia, ou a justificativa do homem por si mesmo.

Mas tudo que o ser humano encontra quando se enxerga no espelho é o pó que é por si mesmo e que nunca vai deixar de ser: uma arbitrariedade vaidosa e mentirosa. Sem Deus, seu caminho é o culto do Caos e do Nada, aquelas forças inferiores de que falavam os antigos quando se referiam ao tempo anterior ao Cosmos. Ou seja, esta humanidade tende à dissolução de uma entropia natural.

No entanto, podemos a qualquer momento romper com a própria ruptura. Maravilhosamente, ganhamos uma tal condição de distinção individual e de liberdade que conseguimos observar o resultado do movimento da história das ideias e julga-lo como insuficiente ou errôneo, ao ponto de nos movermos particularmente apartados da mentalidade da época. Isso sempre foi possível, é claro. Mas talvez nunca tenha sido tão fácil, ao menos para as almas mais desejosas que, em quantidade, podem ser inversamente as mais escassas de todos os tempos.

Voltamos, se quisermos, à justiça da Teodiceia, e ainda a qualificamos com uma crença cristã que torna a consciência ainda mais clara e pura na contemplação da majestade divina. E de tal ponto de vista privilegiado, com total confiança no Amor divino como causa fundamental, podemos avançar no que sempre foi mais interessante do que a disputa da legitimidade da Providência, isto é, o entendimento das razões mais profundas da realidade a partir da pacificação do tema da justiça maior do Ser.

Nesse intuito encontramos a Liberdade como eixo central, nas mônadas criadas à imagem e semelhança da Mônada Incriada, que explica a necessidade do mal realmente possível para que a escolha mais conveniente seja também uma possibilidade real e não mera intenção.

Entramos, assim, no território da Eleuteriodiceia, ou a justificativa da Liberdade.

Em Deus, a perfeição da sua Vontade já comunica a essência perfeitamente benéfica e amorosa para a total integridade do Arbítrio divino.

Mas na liberdade dos contingentes o mesmo não ocorre. Eles precisam receber uma justiça que lhes ultrapassa. Essa garantia transcendente é o próprio Amor divino que designa a perfeição das criaturas de acordo com a sua forma de ser desde a sua origem.

Há, de modo crítico, um ápice ou cume nas várias formas das mônadas possíveis, que consiste naquela semelhança com a essência divina e que permite por esse recurso extraordinário a satisfação de uma perfeição incomparavelmente maior que a das demais mônadas não livres. Isto é assim ao ponto de que uma mônada livre, como a de um anjo ou de um ser humano que viva num estado de Comunhão e Glória (Coruscância), pode ser reconhecida como divina diante das demais mônadas que lhes são inferiores.

Sendo essa forma de ser tão mais perfeita a mais conveniente para a felicidade divina e para a maior glória do Nome de Deus, ela deve ser realizada necessariamente, do contrário a Criação não restaria perfeita e acabada.

É assim que o mal deve ser permitido pois, contido pela Providência da Maldição, tem seus efeitos temporalmente limitados, o que compensa infinitamente a bem-aventurança daqueles que aceitarem a vida como Graça pelo Amor de Deus.

Convém por fim lembrar do totalitarismo espiritual do Paraíso, ou da vida em total comunhão com o Espírito Santo, onde o estado voluntário de participação na perfeição divina significa a sublimação da liberdade específica de negação da bondade de Deus, de modo que não poderíamos existir como almas livres num estado de perfeição imediato pois não teríamos o poder de rejeitar essa realidade, o que significa que não poderíamos ser quem somos, mas somente análogos, como criaturas menores do Omniverso Interior. Para que recebamos a Vida Eterna é preciso antes passar pela mediação de uma experiência temporal que nos permita aceitar ou rejeitar o Amor sem sermos oprimidos pela supremacia da sua perfeição paradisíaca.

Justifica-se, assim, com a Eleuteriodiceia, tanto a realidade atual de qualquer mal temporal, como a nossa presença num mundo que contenha esse tipo de realidade.

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