Contra as três mentiras

Em revisitação ao tema abordado recentemente das três chaves da vida espiritual, convém reforçar as três mentiras essenciais que bloqueiam a experiência consciente e responsável da vida espiritual.

Não se deve confundir esta lista com uma outra que trata especificamente das três renúncias da Humildade, isto é, do reconhecimento de Maldade, Fraqueza e Ignorância.

Aqui estamos falando do caminho desde a vida apartada do Espírito Santo, do típico ser psíquico que não conhece as coisas de Deus, para a descoberta da verdade da essência humana, na linha já explicada neste blog e no meu canal no Youtube: que a Humildade é a chave do Coração, o Coração é a chave do Amor, e o Amor é a chave da Vida.

Essa libertação espiritual corresponde à destruição de três mentiras que dominam o ser humano psíquico, quais sejam:

  1. Que sabemos o que cremos;
  2. Que não podemos não crer no que cremos;
  3. Que alguma crença é melhor que a do Amor.

A primeira mentira é a de que sabemos o que cremos. Curiosamente, esta é uma realidade intelectualmente reconhecível até que com certa facilidade, desde que se pretenda levar as coisas a sério. O que o ser humano possui de domínio intelectual de fato se refere a poucas coisas, objetos ideais cuja pureza corresponde a um nível de abstração perfeito, como os princípios da metafísica, da lógica, etc. Estas poucas coisas podem ser multiplicadas no seu próprio domínio, como nos estudos matemáticos e geométricos, mas explorando apenas o território daqueles primeiros princípios autoevidentes. Por empolgantes que sejam tais reconhecimentos de uma verdade indestrutível (aletheia apodeixis), é necessário assumir que os campos da experiência humana que podem ser entendidos com esse grau de domínio são muito poucos, restando para a maior parte da experiência da nossa vida o nosso poder de crer no que seja conveniente, desde o que é possível até o que é provável. A opinião (Doxa: Eikasia e Pistis) alimenta o conhecimento (Episteme: Dianoia e Noesis) como a terra sustenta uma árvore. Um crescimento cognitivo é sempre possível, mas nem sempre garantido. O que é garantido é o elemento básico da experiência humana, que é a crença numa verdade antes possível, verossímil e provável, para só então, eventualmente, ser certa como domínio do intelecto humano. A nossa questão aqui não se trata de negar o que sabemos. Ao contrário: afirmar que sabemos poucas coisas, menos do que gostaríamos de admitir, entre as quais esta mesma verdade, uma conquista do espírito humano pelo menos desde Sócrates, mesmo antes de Jesus decretar o exemplo da Humildade. A queda da primeira mentira nos permite parar de fingir que temos um domínio que nos escapa.

A segunda mentira é a de que não podemos não crer no que cremos. Isso se dá pela observação do dom da Soberania do espírito humano concedido pelo Altíssimo que nos criou à sua imagem e semelhança. O que quer dizer que por maiores que sejam as pressões ambientais e circunstanciais, nenhuma força externa pode forçar o movimento interior da alma humana. Uma mônada só pode ser movida por si mesma, na perfeição da sua esseidade, singularidade e individuação. Deus fez assim para que nossa felicidade fosse a mais plena na Eternidade, com total voluntariedade. O reconhecimento desta forma de ser nos liberta da ilusão de que qualquer outra mônada, mesmo a divina, possa condicionar o nosso movimento interior, isto é, a crença livre. Embora outros seres possam causar uma impressão em nós, esse condicionamento é sempre analógico, mesmo quando os corpos são forçados por violência ou sedução, já que a fraqueza não muda o desígnio interior onde impera a liberdade de negar até a ação concretizada por sucumbência (como o atestou brilhantemente e claramente o Apóstolo). Aqui a mentira vencida é a da inviolabilidade das causas quando o objeto final é a liberdade humana, como por exemplo se faz nas práticas da Astrologia, da Psicologia, etc., tipicamente cheias de psiquismo.

A terceira mentira é a de que alguma crença é melhor do que a no Amor. Restando a alma humana reconhecer que crê livremente no que quiser, sobra a consideração daquilo que é mais conveniente dada a própria forma do Ser, seja a do Ser divino como amante, ou a do ser contingente como amado. Antes que se diga que esta consideração só pode resultar de um processo intelectual, é preciso apontar para a transcendência do princípio do Bem como imediato e autoevidente, necessário como premissa e anterior a qualquer raciocínio abstrativo. É verdade que o intelecto deve ser movido para a reflexão a respeito do princípio, mas este movimento da mente só pode partir da forma suprema do Bem como princípio fundamental acima de qualquer questionamento. O Bem, ou o Amor divino que o causa e que se identifica com ele, é forma mais essencial que constitui a substância de todos os seres. Tudo o que existe tem como causa final o Bem, ou Amor, que é o seu princípio e o seu fim. A última mentira que deve cair para a liberação completa da vida espiritual é a de que qualquer outra crença seja mais conveniente para quaisquer seres possíveis do que a do Bem, ou do Amor que causa o bem próprio de cada ente.

É o Espírito Santo de Deus quem nos fortalece na luta contra essas três mentiras fundamentais do psiquismo humano, levando-nos a renunciar à presunção de sabedoria, à suposta escravidão à exterioridade, e à falsidade de qualquer outro bem acima do próprio Bem e Amor divinos.

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