O que a Sinagoga de Satanás ainda não entendeu

Olhando a história sob a perspectiva vantajosa da noção de Revelação contínua da vontade deliberada de um Deus Todo-Poderoso (Pantokrator Theos) que governa sobre todas as coisas, não é difícil enxergar a perspectiva judaizada de um Maimônides que viu, com o crescimento do movimento cristão, uma indicação da confirmação da profecia em favor do “seu lado da história”, por assim dizer.

O que a Sinagoga de Satanás ainda não entendeu, porém, é que a profecia pode ser vista dos dois modos, o antigo e o novo. Se a velha Aliança perdeu efeito com a flagrante desobediência dos seus subscritores, e as profecias apontaram para Jesus Cristo como o cumpridor perfeito da nova Aliança, as profecias não podem ser vistas justamente do modo novo, cristão?

Assim, Mashiach ben Yoseph e Mashiach ben David (respectivamente, Messias filho de José e Messias filho de David) não são pessoas diferentes com funções diferentes, mas são a mesma pessoa em posições diferentes no tempo, realizando aquilo que é designado pela providência divina de acordo com o componente fundamental do livre-arbítrio humano.

A visão de certo rabinato instruído pelas luzes de Maimônides é que a função de Jesus Cristo foi a de servir, como Mashiach ben Yoseph, para que através do seu sofrimento as nações fossem preparadas, convertidas ao messianismo a ser plenamente realizado pelo Maschiach ben David, para aceitar a revelação final da supremacia da Torá e do povo eleito para ensiná-la às nações. O sucesso da religião cristã indicaria a razão dessa interpretação, mostrando a revelação, através da História, da vontade de Deus.

Acontece que se as profecias de Isaías forem interpretadas de acordo com a Nova Aliança, o Filho de Deus se revela consecutivamente primeiro como o Messias sofredor, rejeitado pelo seu povo, para depois retornar como o Messias triunfante, conquistador do mundo.

Revelado primeiro como Cordeiro para os seus, convertidos pelo perdão e pela misericórdia, Jesus Cristo se revelaria então, ao Fim dos Tempos, como Leão para os que lhe rejeitaram, convertidos pela plena Revelação (ou Apocalipse).

Do mesmo modo, aqueles entre os gentios que interpretam o Cristianismo unicamente como uma conspiração para a destruição da independência das nações devem responder, em primeiro lugar, pela evidência da supremacia de tal projeto vitorioso, concedendo que se Deus não está com os judeus, pelo menos eles merecem vencer por sua grande capacidade; e então, em segundo lugar, devem responder pela hipótese de que a interpretação de Maimônides desde a validade da Antiga Aliança pode estar equivocada se, justamente como foi revelado pelo Evangelho, o que tem valor atual e que explica o sentido da História é a validade da Nova Aliança realizada pelo Filho de Deus.

Ou seja, incapazes de atribuir ao mero desígnio humano a consecução de tamanho projeto de conversão de boa parte dos povos do mundo, podemos aceitar a perspectiva de interpretação histórica de Maimônides, enxergando a História como plano de realização da vontade divina, porém deixando em aberto a dupla interpretação possível da validade da Antiga ou da Nova Aliança, conforme aceitamos ou não a validade da revelação evangélica.

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