Tudo é feito para o bem daqueles que amam a Deus, desde que o bem próprio do Eterno é a realização do benefício da sua Criação, sendo Ele mesmo livre de qualquer carência e tendo restante toda a sua potência voltada para a perfeição das suas criaturas.
Igualmente, é preciso dizer que nada é feito senão pela atividade divina que é a única capaz de trazer ao ser quaisquer possibilidades que o próprio Altíssimo percebe em si como convenientes para a atualização do maior grau de felicidade possível.
Dadas essas duas premissas, já é tempo de resolvermos uma questão que eventualmente vive ressurgindo, a saber, a da razão de ser de um sistema reprodutor nos seres humanos que, sendo tido como instrumento fundamental da traição contra Deus através do Pacto Ouroboros, precisa ser explicado na sua origem e na sua finalidade a tal ponto que não nos reste dúvida da sua justificação.
Ajudando-nos o próprio Criador como sempre foi o caso, parece que a solução não difere muito daquela que encontramos ao lidar com a questão do Antinatalismo (v. “Contra o Antinatalismo” em A Coruscância), tendo aliás os dois temas uma conexão muito óbvia e até mesmo essencial.
Tendo o Todo-Poderoso antevisto a necessidade que certas almas tinham de determinada experiência do mal para que a sua escolha pelo bem fosse a mais plena e perfeita possível (uma realidade por sua vez justificada no nosso estudo da Eleuteriodiceia), foi apropriado permitir que estas almas explorassem aquilo que não lhes era benéfico a priori, mas que constituiria um bem secundário em virtude da fraqueza do seu caráter, um elemento fundado na razão suficiente de que é melhor para estas almas sofrerem e causarem algum sofrimento e, não obstante, obterem com isso a grande felicidade da Vida Eterna, do que dispensar essa experiência limitada do mal e com isso desperdiçar um bem muito superior, tão superior que a proporção da sua vantagem é incalculável e imediatamente recomendável.
Vejam bem: não foi Deus quem instituiu a necessidade do mal e de qualquer espécie de sofrimento para a salvação de qualquer criatura, mas foi a própria criatura, perdida e obstinada, soberba e pretensiosa, que se propôs um caminho mais difícil para que a sua escolha pelo Amor de Deus fosse suficientemente qualificada.
Ora, tudo isso de algum modo já compunha o entendimento anterior daquele juízo contrário ao Antinatalismo. Mas poderia se realizar a decisão humana de procriar e, com isso, de experimentar certa medida do mal como reflexo de suas trevas interiores, sem que tivesse ao seu dispor os recursos necessários ao desempenho da sua vontade? É claro que não. E é por isso que enxergamos com clareza a conveniência espiritual do sistema reprodutor do ser humano como mera concessão de Deus para a realização do propósito maior da sua Obra.
Não foi de bom grado, ou por desígnio originário, que Deus concedeu ao ser humano um sistema mais complexo do que aquele que poderia refletir mais fielmente a simplicidade do seu Ser, mas para que esta criatura levasse a termo os seus propósitos e experimentasse a sua carência do Amor, de modo que pudesse voltar-se do seu pecado para a reconciliação com o Pai.
Este é o sentido da parábola do Filho Pródigo, que tem que viver a sua rebeldia para conhecer sua própria fidelidade no fim. O coração do Pai se contorce com a dor de ver essa decisão de rompimento com o seu Amor, mas aceita e deixa estar, e até contribui com a distribuição de parte da sua herança, porque sabe que isto tudo será necessário para o melhor resultado ao fim.
Há uma teologia rasteira que entende o ser humano como co-criador eleito como veículo de uma absurda dependência divina, como a que diz que a função da história é a salvação dos eleitos e inclui nisso, obviamente, a reprodução de novas safras de escravos, como se Deus precisasse do mal para fazer o bem. Este é o ser humano que aprendeu a mentir com o seu tutor, o próprio diabo, e finge que está executando um mandamento divino quando na verdade está apenas fazendo a sua própria vontade.
Deus nunca desejou a degeneração da sua Criação no aumento da complexidade dos entes manifestados, mas o ser humano quis experimentar as trevas, e isso lhe foi permitido para a realização de uma escolha perfeita pela verdade da luz divina.
Sendo assim, dizemos que o sistema reprodutor do ser humano foi feito por Deus, como não poderia deixar de ser, e com o propósito benéfico da salvação daqueles que, realizando a sua rebelião, poderiam assim escolher o Amor como seu destino final. Convém entender que este sistema foi criado em latência, dependendo de uma ativação pela vontade humana que resolve atualizar essa possibilidade, de modo que os Corpos de Queda são particularmente definidos como produtos dessa atualização da liberdade do homem. Assim, os Vanyar, por exemplo, teriam um sistema análogo preservado em latência e jamais ativado, mais ou menos como uma pessoa nascida Sindar pode viver uma vida inteira sem sofrer de pericoronarite (a inflamação e infecção decorrente da erupção de dente do siso) ou de apendicite.
Resta-nos apontar brevemente que o mesmo se dá por analogia em todos os seres vivos que se reproduzem de acordo com processos submetidos ao Princípio de Geração e Corrupção, a partir do momento em que estes seres existem num modo de reflexão da experiência da liberdade humana e vivem igualmente uma queda da simplicidade originária da criatividade divina, e aguardam igualmente pela sua redenção para se verem livres de seus próprios processos complexos de reprodução (assim como os de nutrição). Um mundo Vanyar, portanto, é povoado por todo tipo de ser vivo que experimenta a multiplicação de suas espécies e a sustentação nutritiva de seus membros sem que em nada isso constitua complexidade e corrupção, e portanto sem nenhuma experiência de dor ou sofrimento (como se promete sobre a realidade redimida em Is 11:6-9).
Por fim, a conexão essencial entre a justificação da rejeição do Antinatalismo com a da realidade do sistema reprodutor se dá obviamente pelo entendimento de que este sistema foi criado para realizar, como causa eficiente, o desígnio que permitiu a procriação como causa final de salvação.
Tudo isso deve servir para o desarmamento das idolatrias naturalista e antropocentrista que disputavam autoridade com Deus, já que a verdade não está em nenhuma razão subsidiária à simplicidade do Amor divino. As resoluções morais dos seres humanos que não se submetem à supremacia do Amor divino são decadentes e pervertidas, e em consequência os processos naturais que introduziram maior complexidade na Criação não resultam de um reflexo da Sabedoria divina, mas da medida de concessão da bondade de Deus com vistas ao melhor resultado possível.