“É muito fácil considerar qualquer coisa que vai mal como sendo culpa de alguém.”

Citação L0036-C01, em Os Intelectuais e a Sociedade, livro por Thomas SOWELL.

Uma importante categoria de pensamento do autor é essa da “visão trágica”, que ele propõe como realista, em contraste com a visão dos intelectuais ungidos que na opinião de Sowell são idealistas irresponsáveis.

Eu estaria totalmente disposto a concordar com Sowell, se ele somente apontasse o erro da mentalidade progressista. Porém, o autor quer nos fazer optar por um lado da dialética do Ouroboros: o da Tradição. Nos liberta do idealismo imanentista do homem do futuro, mas nos aprisiona no idealismo imanentista do homem do passado. O costume é a sua Lei, como se nós fôssemos descendentes de pessoas que, na sua maioria, eram sensatas e responsáveis. Isso jamais foi, e jamais será, provado. É uma pura crença.

É evidente que a “certa apreciação” de Sowell contém uma premissa embutida, já dada como pressuposta e evidenciada, uma falácia chamada petitio principii, uma petição de princípio que dá por concluída a idéia que deveria demonstrar em primeiro lugar. Caso contrário, Sowell se daria ao trabalho de recomendar uma apreciação da condição humana de forma geral, ao invés de declarar que ela é trágica de forma sumária, como faz. E por que os leitores de Sowell não vão questionar essa premissa? Porque eles estão muito ocupados, distraídos com os vários argumentos anti-progressistas e anti-revolucionários, ou seja, com a sua obsessão na participação no teatro da Dialética do Ouroboros.

Mas é fácil questionar a posição de Sowell, restituir a sanidade do verdadeiro realismo, e de quebra demolir toda a estrutura do seu argumento liberal-conservador: uma tragédia se caracteriza por ser um drama sem culpa. A condição humana só seria trágica, portanto, se o seu drama (que economicamente é determinado pelo fenômeno da Escassez) se realizasse sem nenhuma culpa, ou seja, sem nenhum condicionamento moralmente livre, como se esse estado de coisas fosse integralmente condicionado por um fator de força maior fora do controle humano. Acontece que o ser humano surge na sua condição não como um vegetal que brota do chão, como uma beterraba ou um repolho, e nem como um animal que brota do instinto reprodutivo, como os filhotes das vacas e das porcas, mas de uma ação humana, ou seja, como um produto da comissão ou da omissão da agência moral de um ser livre e responsável. Isto quer dizer que a condição humana é produzida pelo arbítrio humano. E tanto isso é verdade que qualquer ser humano pode contrariar o seu instinto animal e impedir, de livre e espontânea vontade, a produção da condição humana na sua descendência direta. Se podemos aceitar ou negar o instinto animal, isto quer dizer que temos a responsabilidade moral pela decisão de fazê-lo. Em suma: a condição humana, inclusive a da existência sob a contingência da Escassez, é produzida pelo arbítrio humano que decide pela sua continuidade, ou que no mínimo se omite quando poderia arbitrar, o que caracteriza negligência.

Não, a condição humana não é trágica. Isso é uma mentira. Uma grande mentira. A Grande Mentira. A Mentira Primordial, também chamado de Pecado Original, ou, como gosto de chamar, Pacto Ouroboros.

A incapacidade ou, mais provavelmente, o desinteresse em identificar a realidade dos fatos da condição humana, é o que alia, surpreendentemente, liberais e socialistas, conservadores e revolucionários: todos eles são escravos do Ouroboros, e todos esses intelectuais, de direita ou de esquerda, trabalham como Bispos no Sistema da Besta, normalizando a mistura de Luz e Trevas e legitimando a escravidão da raça humana.

A solução para a morte e o sofrimento não é política, mas é espiritual.

A solução não é de direita nem de esquerda, mas de Cima, e vem de Deus: os filhos dos santos não passam fome, não adoecem, não temem o mal e não morrem, porque são poupados desse tipo de existência, ao menos no que depende do arbítrio de seus potenciais pais e mães, isto é, sem prejuízo da necessidade arbitrada pela sua RSMM. Podem até vir a sofrer, em alguma realidade, porque precisam dessa experiência por si mesmos, mas não vão sofrer porque seus pais quiseram.

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