O subcriacionismo em Tolkien como legitimação da Mistura

Em Êxodo, Capítulo 20, na descrição do conteúdo do Primeiro Mandamento, Deus diz a Moisés que este não deve ter outros deuses diante Dele, e que Ele é um Deus ciumento.

Esse termo já causou alvoroço por causa de interpretações equivocadas, antropomórficas, que subverteram um sentido teológico bem mais preciso e na verdade inquestionável: Deus não divide a sua Glória com ninguém. Se dividisse Ele não seria Deus Criador, mas um mero participante na Criação, ainda que o mais eminente entre todos os criadores. Isso serve para desfazer a mentira luciferina de que exista uma cocriação, ou subcriação, de modo que Deus não seja um Criador Absoluto. Metafisicamente entendemos que mesmo numa série causal total, onde se consideram todos os elementos do primeiro ao último e onde se entreposicionem o que chamamos de causas intermediárias, a Causa Primeira é suficiente e exclusiva no seu movimento criativo. Isto quer dizer que em qualquer série completa de movimentos nenhum efeito pode ser atribuído a nenhuma causa exclusivamente senão ao Único Criador, o Absoluto, e que todas causas parciais podem ser partícipes sob aspectos, mas nunca condicionantes de qualquer efeito, como se Deus dependesse de algo. Um Deus dependente não é o Deus de Êxodo 20. Mas pode ser o “deus” dos satanistas, por exemplo.

Não vou nem falar da metafísica monadofílica, onde todos os agentes intermediários são na verdade partes do objeto da Percepção, e a única causa é a intelecção pura provinda do Logos divino. Isso não é necessário, e poderia soar estravagante demais para certas mentalidades. Êxodo 20 deveria ser suficiente.

Infelizmente muitos cristãos parecem perder essa noção mais básica, se é que essa noção da exclusividade da Substância divina ainda faz parte da mentalidade cristã. Para a vergonha dessas religiões ocidentais, parece-me que ao menos nesse aspecto até mesmo o Islam possui uma teologia superior. Grande vergonha!

Mas essa minha reflexão saiu de uma recente experiência de reassistir o filme O Retorno do Rei, o terceiro da trilogia de O Senhor dos Anéis.

Pude então observar muito claramente como a teoria subcriacionista de Tolkien, que afirma justamente uma divisão da glória da entidade que deveria representar o Deus único, Eru Iluvatar, dá o testemunho da legitimação da Mistura.

Não entrarei em maiores detalhes por enquanto, porque esta não é uma análise espiritual dos filmes, e nem dos livros. Isso pode ser deixado para depois.

Por enquanto basta-nos observar, precavidos, como o mero simbolismo das duas árvores no Silmarillion, Telperion e Laurelin, algo que é frequentemente lembrado nas mais diversas formas artísticas dentro da obra tolkeniana, representa a Dualidade da Mistura. E podemos catar, aqui e ali, exemplos claríssimos da legitimação da Mistura em partes do filme (e creio que podemos encontrar análogos nos livros), como quando Gandalf critica a elite de Gondor, ou quando Arwen diz a seu pai que além da morte, “também há vida”. Tudo isso deveria constituir evidência suficiente do papel de Tolkien como Bispo no Sistema da Besta, a quem tenha o mínimo da graça do dom da Vigilância.

Futuramente podemos nos aprofundar tanto nos livros quanto nos filmes, e checar tudo isso em maiores detalhes.

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