Spartacus, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Não só Spartacus não conseguiu libertar-se de Roma, como não pôde se libertar da condição humana. Gerado pelo desejo de poder de Spartacus, e também de seu desejo declarado pela Gnose (“quero saber tudo“), seu filho supostamente livre poderia a qualquer momento se tornar um cidadão proprietário de escravos, ou um novo escravo ele próprio. Dependeria que sua mãe lhe testemunhasse as origens e certos valores, mas essa transmissão sempre poderia falhar, ou simplesmente ser rejeitada pela pressão muito mais imediata e inclemente das necessidades e circunstâncias da vida humana. Esses mesmos elementos que geraram a prática da escravidão em primeiro lugar. Essa é a falha dos rebeldes: não percebem que são como os romanos, apenas desde um outro ponto de vista. Qual é, enfim, a natureza real da escravidão, e da própria liberdade? Isso é apenas muito levemente tocado por esta história de luta contra a opressão romana.

§ 2. O próprio Spartacus assume as suas incertezas. Está consciente, pela liberdade conquistada, da indeterminação moral da sua recém adquirida condição de homem livre. Ser livre é ser responsável, mas quem sabe o que é o Bem? Nosso protagonista tem um conhecimento intuitivo do que é viver como escravo, e já antecipa a solução da morde nesta condição, ainda que não conheça a promessa da Ressurreição. Mas já tem metade do Caminho da Salvação. Diz: “um escravo, ao morrer, perde a sua dor“. Já sabe que a morte é uma espécie e libertação. Mais tarde, no seu grande discurso ao exército dos escravos libertos, ele afirma: “talvez não haja paz neste mundo, nem para nós nem para ninguém“. É um testemunho espiritual contra a grande ilusão do Paraíso terrestre, embora ainda esteja bastante inconsciente desse sentido mais profundo. E confessa finalmente para sua esposa, Varínia, que está grávida de seu filho, antes da última grande batalha em que será derrotado: “sinto que começamos uma coisa que não acabará nunca“. Exato. Ele já ouviu o galo cantar, mas ainda não sabe onde. Spartacus diz para a mulher que sente-se sozinho, mesmo ao lado dela, e que reza para um Deus desconhecido, o Deus dos escravos, e lhe pede apenas que lhe dê um filho que seja livre. Uma grande ironia cheia de simbolismo. Querendo produzir a liberdade, só reproduziu a escravidão. Ainda assim, sua confissão de ignorância dá-nos um toque suficientemente inspirador no sentido do dom da Humildade.

§ 3. Sem a renúncia voluntária e consciente ao Pacto Ouroboros não pode haver o fim da verdadeira escravidão, que é a do Pecado Original, da Pretensão e da Idolatria da vida sem Deus. Todas as revoluções políticas são apenas giros da roda da história em torno do eixo fixo do Pecado Original, movimentos internos da Dialética do Ouroboros. Solve et coagula, ordo ab chaos. A verdadeira liberdade não é uma conquista humana, mas uma concessão divina. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará“. A conquista humana é a do sacrifício do Orgulho, um sacrifício de comunhão que é agradável à Deus. E a verdade libertadora é a do Evangelho, dos dons de Presença e os demais, inclusive o da Vigilância através do qual o Espírito Santo nos denuncia as mentiras do espírito do mundo, especialmente a perversidade do Pacto Ouroboros.

§ 4. O que Spartacus encontra enquanto liberto no mundo? A Queda e a Maldição. Em outros termos, reencontra Roma na sua forma mais primária: fome, sede, frio, doença, guerra e morte, mas também os riscos das riquezas, da opulência, e de todas as fraquezas morais decorrentes do domínio da natureza. O que é Roma? É um sistema de vida no estado da Mistura. Se a escravidão é, certamente, um mal, igual certeza temos de que não é o único, e mais ainda, devemos saber que não é o primeiro dos males. Primeiro vem a soberba, o orgulho, a Pretensão. Depois vem a Idolatria. E o resto vêm a reboque. Ignorando isso, o que Spartacus e sua comunidade de libertos estão fadados a fazer é a refundação de Roma sob outra forma, Roma que por seu próprio turno foi uma refundação de Babel, a cidade da Idolatria e da usurpação, capital dos traidores do Amor divino. Toda a humanidade que põe suas esperanças em si mesma quer a falsa paz e segurança de uma Roma, de uma Babel.

§ 5. Se queremos ser revolucionários de fato, não podemos aceitar o fim da marcha da liberdade: depois dos escravos, as mulheres também precisam ser libertas, e finalmente os filhos. Esse seria o caminho da Melhor Geração, da Última Geração, uma humanidade totalmente reconciliada com Deus. Já vimos que as profecias contem uma outra história. E a vemos se desdobrando ao nosso redor todos os dias, na direção do Anticristo. Por outro lado, uma outra falsa liberdade, com o sabor do esoterismo gnóstico, prospera espalhando sua própria reserva de mentiras pelo mundo.

§ 6. Spartacus não possui, ainda, a verdadeira liberdade. Quando nosso protagonista diz rezar para o Deus dos escravos, já fala do Jesus Cristo que ele ainda não conhece. Mas ainda não entende que a escravidão não é de Roma, e sim do Pecado Original. Seu desejo e sua luta pela liberdade são admiráveis, mas a essência dessa Salvação só poderá ser conhecida através do Evangelho. Não é maravilhoso como tudo aponta para Jesus?

Nota espiritual: 4,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,4

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