§ 1. Com os excelentes James Mason e Peter Sellers, nosso terceiro filme de Kubrick é uma adaptação da famosa novela homônima de Nabokov. O Professor Humbert (Mason) se apaixona pela jovem Lolita, filha da viúva Charlotte Haze. Casa-se com a pobre Sra. Haze apenas para estar perto da garota, e sua paixão converte-se aos poucos em obsessão. Com a morte da esposa, que perde o controle depois de descobrir os sentimentos do marido a respeito de sua filha registrados num diário deste, Humbert decide avançar para cima de Lolita e desenvolve uma possessividade doentia por ela. Eventualmente ele perde o controle da garota, que foge. Só depois ele descobre que ela sempre preferiu como amante o charmoso e um tanto doido Quilty (Sellers), que foi o responsável pela saída dela de sua vida. Vingativo, Humbert mata Quilty.
§ 2. Humbert falhou ao querer consumar seu falso amor. Podia ter mantido um ideal platônico, mas não resistiu. Lolita o acusa: “você não me ama“. Ela tem razão. Ele não a ama, e nem a si próprio, ama apenas a imagem que tem dela para a satisfação de seu apego mórbido. Se a amasse, amaria a sua liberdade e o seu desenvolvimento integral. E se amasse a si próprio, desejaria em primeiro lugar a liberdade em face ao próprio desejo. Ao contrário, ele a reprime, um claro sinal de falta de amor, e o faz porque ele mesmo é escravo de seu desejo. O problema de Humbert não se trata de nenhum moralismo com relação às diferenças das idades. Esses moralismos são disfarces de recalques de pessoas infelizes e ressentidas, como a Sra. Haze. Ele realmente não a ama, e nem ama a si próprio, e esse é o problema. Esse amor é uma mentira.
§ 3. Podemos partir disso para uma filosofia ainda mais avançada do que nos permitiria o platonismo, esclarecida pelo dom do Louvor. Quem é Lolita, realmente? Para si mesma, e para Humbert, ou Quilty? E o que é o amor verdadeiro? Lolita é uma mônada, uma singularidade indeterminada destinada à perpétua contemplação da Glória infinita de Deus. Só poderia ser amada enquanto tal. Por outro lado, todos os caracteres amáveis da manifestação concreta de Lolita tanto para Humbert quanto para Quilty, seu charme, sua formosura, enfim toda a sua graça, são primícias da Beleza divina para esses amantes que deveriam ver, através dela, o seu Deus, e a Eternidade. Esse é amor verdadeiro e libertador.
§ 4. Da ontologia monádica do ser como Substância Simples com a forma da Unidade, para a epistemologia do conhecimento do Uno através da percepção do Múltiplo pelo intelecto finito da mônada criada, alcançamos a ética amorosa da Monadofilia. Vejamos Humbert: se tivesse suficiente amor-próprio, não se sujeitaria a agir de forma pequena, mesquinha, ardilosa, como agiu, mas preservaria a sua paz com Deus, e através de Lolita amaria a Deus como fonte de toda beleza possível. Veria então a Sra. Haze como uma mulher digna de misericórdia, ou até a própria Lolita.
§ 5. Ao invés de agir de forma predatória, poderia dar o testemunho consolador do Amor divino. A Sra. Haze seria livre para continuar iludida com a possibilidade de um novo casamento, se o quisesse, mas esta teria que ser a sua escolha diante de opções melhores, e não perante um aproveitador inescrupuloso, que foi o papel que Humbert desempenhou e que a desesperou. Perante Lolita, por sua vez, ele poderia ser um amigo com quem ela pudesse contar para se prevenir contra tipos como Quilty. Mais ainda, em espírito de imitação da virtude, ela poderia não só se livrar das mentiras desses conquistadores, mas também do destino de esposa e mãe que terminou por prendê-la ao final da estória. Entende-se, aliás, como o matrimônio é um contrato espiritualmente razoável diante da frieza desses Humbert e Quilty, pois ao menos nominalmente confere à pobre Lolita alguns direitos em contrapartida ao que oferece.
§ 6. Desde o início o Professor Humbert aparece como um humanista esclarecido, um erudito, ou mesmo um scholar. Isso não significa nada em termos de Discernimento espiritual. Diante dessa manifestação bruta da Beleza divina na forma da jovem Lolita o nosso Professor fica indefeso aos impulsos mais primitivos, como uma besta, um animal enfeitiçado. Enxergamos bem como vive angustiado, sem liberdade, diante daquele deslumbramento. E acompanhamos quando ele nos confessa seus sentimentos em seu diário o quanto mistura a experiência da beleza potencial de Lolita com projeções convenientes às suas fantasias. Lolita é como Eva no Paraíso: vítima do espírito desse eterno Adão que não a quer senão como sua posse, seja quando esse espírito vem por meio de Humbert, ou por meio de Quilty.
§ 7. Infelizmente o filme não mostra nenhuma alternativa espiritual aos problemas. Toda fé é desprezada como sentimentalismo inútil, principalmente na pessoa da Sra. Haze. Lolita está cercada de demônios na forma desses espíritos chiques e esclarecidos como os de Humbert e Quilty. Por mais tentadora que ela fosse na sua formosura, a verdade é que não há clemência da parte desses homens, nenhum autocontrole, nenhuma transcendência, apenas um apetite voraz, monstruoso.
Nota espiritual: 4,3 (Moriquendi)
| Humildade/Presunção | 5 |
| Presença/Idolatria | 5 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 2 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 5 |
| Vigilância/Ingenuidade | 5 |
| Discernimento/Psiquismo | 3 |
| Nota final | 4,3 |