Lolita, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Com os excelentes James Mason e Peter Sellers, nosso terceiro filme de Kubrick é uma adaptação da famosa novela homônima de Nabokov. O Professor Humbert (Mason) se apaixona pela jovem Lolita, filha da viúva Charlotte Haze. Casa-se com a pobre Sra. Haze apenas para estar perto da garota, e sua paixão converte-se aos poucos em obsessão. Com a morte da esposa, que perde o controle depois de descobrir os sentimentos do marido a respeito de sua filha registrados num diário deste, Humbert decide avançar para cima de Lolita e desenvolve uma possessividade doentia por ela. Eventualmente ele perde o controle da garota, que foge. Só depois ele descobre que ela sempre preferiu como amante o charmoso e um tanto doido Quilty (Sellers), que foi o responsável pela saída dela de sua vida. Vingativo, Humbert mata Quilty.

§ 2. Humbert falhou ao querer consumar seu falso amor. Podia ter mantido um ideal platônico, mas não resistiu. Lolita o acusa: “você não me ama“. Ela tem razão. Ele não a ama, e nem a si próprio, ama apenas a imagem que tem dela para a satisfação de seu apego mórbido. Se a amasse, amaria a sua liberdade e o seu desenvolvimento integral. E se amasse a si próprio, desejaria em primeiro lugar a liberdade em face ao próprio desejo. Ao contrário, ele a reprime, um claro sinal de falta de amor, e o faz porque ele mesmo é escravo de seu desejo. O problema de Humbert não se trata de nenhum moralismo com relação às diferenças das idades. Esses moralismos são disfarces de recalques de pessoas infelizes e ressentidas, como a Sra. Haze. Ele realmente não a ama, e nem ama a si próprio, e esse é o problema. Esse amor é uma mentira.

§ 3. Podemos partir disso para uma filosofia ainda mais avançada do que nos permitiria o platonismo, esclarecida pelo dom do Louvor. Quem é Lolita, realmente? Para si mesma, e para Humbert, ou Quilty? E o que é o amor verdadeiro? Lolita é uma mônada, uma singularidade indeterminada destinada à perpétua contemplação da Glória infinita de Deus. Só poderia ser amada enquanto tal. Por outro lado, todos os caracteres amáveis da manifestação concreta de Lolita tanto para Humbert quanto para Quilty, seu charme, sua formosura, enfim toda a sua graça, são primícias da Beleza divina para esses amantes que deveriam ver, através dela, o seu Deus, e a Eternidade. Esse é amor verdadeiro e libertador.

§ 4. Da ontologia monádica do ser como Substância Simples com a forma da Unidade, para a epistemologia do conhecimento do Uno através da percepção do Múltiplo pelo intelecto finito da mônada criada, alcançamos a ética amorosa da Monadofilia. Vejamos Humbert: se tivesse suficiente amor-próprio, não se sujeitaria a agir de forma pequena, mesquinha, ardilosa, como agiu, mas preservaria a sua paz com Deus, e através de Lolita amaria a Deus como fonte de toda beleza possível. Veria então a Sra. Haze como uma mulher digna de misericórdia, ou até a própria Lolita.

§ 5. Ao invés de agir de forma predatória, poderia dar o testemunho consolador do Amor divino. A Sra. Haze seria livre para continuar iludida com a possibilidade de um novo casamento, se o quisesse, mas esta teria que ser a sua escolha diante de opções melhores, e não perante um aproveitador inescrupuloso, que foi o papel que Humbert desempenhou e que a desesperou. Perante Lolita, por sua vez, ele poderia ser um amigo com quem ela pudesse contar para se prevenir contra tipos como Quilty. Mais ainda, em espírito de imitação da virtude, ela poderia não só se livrar das mentiras desses conquistadores, mas também do destino de esposa e mãe que terminou por prendê-la ao final da estória. Entende-se, aliás, como o matrimônio é um contrato espiritualmente razoável diante da frieza desses Humbert e Quilty, pois ao menos nominalmente confere à pobre Lolita alguns direitos em contrapartida ao que oferece.

§ 6. Desde o início o Professor Humbert aparece como um humanista esclarecido, um erudito, ou mesmo um scholar. Isso não significa nada em termos de Discernimento espiritual. Diante dessa manifestação bruta da Beleza divina na forma da jovem Lolita o nosso Professor fica indefeso aos impulsos mais primitivos, como uma besta, um animal enfeitiçado. Enxergamos bem como vive angustiado, sem liberdade, diante daquele deslumbramento. E acompanhamos quando ele nos confessa seus sentimentos em seu diário o quanto mistura a experiência da beleza potencial de Lolita com projeções convenientes às suas fantasias. Lolita é como Eva no Paraíso: vítima do espírito desse eterno Adão que não a quer senão como sua posse, seja quando esse espírito vem por meio de Humbert, ou por meio de Quilty.

§ 7. Infelizmente o filme não mostra nenhuma alternativa espiritual aos problemas. Toda fé é desprezada como sentimentalismo inútil, principalmente na pessoa da Sra. Haze. Lolita está cercada de demônios na forma desses espíritos chiques e esclarecidos como os de Humbert e Quilty. Por mais tentadora que ela fosse na sua formosura, a verdade é que não há clemência da parte desses homens, nenhum autocontrole, nenhuma transcendência, apenas um apetite voraz, monstruoso.

Nota espiritual: 4,3 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte2
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo3
Nota final4,3

Spartacus, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Não só Spartacus não conseguiu libertar-se de Roma, como não pôde se libertar da condição humana. Gerado pelo desejo de poder de Spartacus, e também de seu desejo declarado pela Gnose (“quero saber tudo“), seu filho supostamente livre poderia a qualquer momento se tornar um cidadão proprietário de escravos, ou um novo escravo ele próprio. Dependeria que sua mãe lhe testemunhasse as origens e certos valores, mas essa transmissão sempre poderia falhar, ou simplesmente ser rejeitada pela pressão muito mais imediata e inclemente das necessidades e circunstâncias da vida humana. Esses mesmos elementos que geraram a prática da escravidão em primeiro lugar. Essa é a falha dos rebeldes: não percebem que são como os romanos, apenas desde um outro ponto de vista. Qual é, enfim, a natureza real da escravidão, e da própria liberdade? Isso é apenas muito levemente tocado por esta história de luta contra a opressão romana.

§ 2. O próprio Spartacus assume as suas incertezas. Está consciente, pela liberdade conquistada, da indeterminação moral da sua recém adquirida condição de homem livre. Ser livre é ser responsável, mas quem sabe o que é o Bem? Nosso protagonista tem um conhecimento intuitivo do que é viver como escravo, e já antecipa a solução da morde nesta condição, ainda que não conheça a promessa da Ressurreição. Mas já tem metade do Caminho da Salvação. Diz: “um escravo, ao morrer, perde a sua dor“. Já sabe que a morte é uma espécie e libertação. Mais tarde, no seu grande discurso ao exército dos escravos libertos, ele afirma: “talvez não haja paz neste mundo, nem para nós nem para ninguém“. É um testemunho espiritual contra a grande ilusão do Paraíso terrestre, embora ainda esteja bastante inconsciente desse sentido mais profundo. E confessa finalmente para sua esposa, Varínia, que está grávida de seu filho, antes da última grande batalha em que será derrotado: “sinto que começamos uma coisa que não acabará nunca“. Exato. Ele já ouviu o galo cantar, mas ainda não sabe onde. Spartacus diz para a mulher que sente-se sozinho, mesmo ao lado dela, e que reza para um Deus desconhecido, o Deus dos escravos, e lhe pede apenas que lhe dê um filho que seja livre. Uma grande ironia cheia de simbolismo. Querendo produzir a liberdade, só reproduziu a escravidão. Ainda assim, sua confissão de ignorância dá-nos um toque suficientemente inspirador no sentido do dom da Humildade.

§ 3. Sem a renúncia voluntária e consciente ao Pacto Ouroboros não pode haver o fim da verdadeira escravidão, que é a do Pecado Original, da Pretensão e da Idolatria da vida sem Deus. Todas as revoluções políticas são apenas giros da roda da história em torno do eixo fixo do Pecado Original, movimentos internos da Dialética do Ouroboros. Solve et coagula, ordo ab chaos. A verdadeira liberdade não é uma conquista humana, mas uma concessão divina. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará“. A conquista humana é a do sacrifício do Orgulho, um sacrifício de comunhão que é agradável à Deus. E a verdade libertadora é a do Evangelho, dos dons de Presença e os demais, inclusive o da Vigilância através do qual o Espírito Santo nos denuncia as mentiras do espírito do mundo, especialmente a perversidade do Pacto Ouroboros.

§ 4. O que Spartacus encontra enquanto liberto no mundo? A Queda e a Maldição. Em outros termos, reencontra Roma na sua forma mais primária: fome, sede, frio, doença, guerra e morte, mas também os riscos das riquezas, da opulência, e de todas as fraquezas morais decorrentes do domínio da natureza. O que é Roma? É um sistema de vida no estado da Mistura. Se a escravidão é, certamente, um mal, igual certeza temos de que não é o único, e mais ainda, devemos saber que não é o primeiro dos males. Primeiro vem a soberba, o orgulho, a Pretensão. Depois vem a Idolatria. E o resto vêm a reboque. Ignorando isso, o que Spartacus e sua comunidade de libertos estão fadados a fazer é a refundação de Roma sob outra forma, Roma que por seu próprio turno foi uma refundação de Babel, a cidade da Idolatria e da usurpação, capital dos traidores do Amor divino. Toda a humanidade que põe suas esperanças em si mesma quer a falsa paz e segurança de uma Roma, de uma Babel.

§ 5. Se queremos ser revolucionários de fato, não podemos aceitar o fim da marcha da liberdade: depois dos escravos, as mulheres também precisam ser libertas, e finalmente os filhos. Esse seria o caminho da Melhor Geração, da Última Geração, uma humanidade totalmente reconciliada com Deus. Já vimos que as profecias contem uma outra história. E a vemos se desdobrando ao nosso redor todos os dias, na direção do Anticristo. Por outro lado, uma outra falsa liberdade, com o sabor do esoterismo gnóstico, prospera espalhando sua própria reserva de mentiras pelo mundo.

§ 6. Spartacus não possui, ainda, a verdadeira liberdade. Quando nosso protagonista diz rezar para o Deus dos escravos, já fala do Jesus Cristo que ele ainda não conhece. Mas ainda não entende que a escravidão não é de Roma, e sim do Pecado Original. Seu desejo e sua luta pela liberdade são admiráveis, mas a essência dessa Salvação só poderá ser conhecida através do Evangelho. Não é maravilhoso como tudo aponta para Jesus?

Nota espiritual: 4,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,4

Glória feita de sangue, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Alguém me pediu para comentar o filme De olhos bem fechados, de Kubrick. Pensando em fazê-lo, me veio a idéia de assistir todos os filmes mais conhecidos desse famoso diretor, o que me fez listar dez títulos. Começando pelo mais antigo entre esses dez, reassisti essa jóia do cinema e que já não via faz tempo, que é o Glória feita de sangue (Paths to Glory), com Kirk Douglas, de 1957.

§ 2. A história conta do destino dos infelizes soldados do 701º Regimento do Exército da França durante a Primeira Guerra Mundial. O ano é 1916. A frente ocidental é um moedor de carne. Ninguém avança. Nenhum ataque faz sentido, e de fato apenas em 1918 os Aliados conseguiriam contra-atacar com sucesso e acabar com a guerra. Mas os oficiais franceses têm a sua própria batalha de ambições e vaidades a travar. Não bastasse viverem em condições extraordinariamente melhores do que os soldados sob o seu comando na frente de batalha, os membros do alto oficialato desejam promover-se às custas do sofrimento e da morte de seus soldados. É assim que começa o nosso filme. O General Broulard, do Estado-Maior francês, pede que o General Mireau ordene um ataque de suas tropas à uma posição fortificada inimiga chamada de “Formigueiro”. Mireau imediatamente afirma que a ordem é absurda e não pode ser executada. É uma missão muito arriscada, para não dizer impossível de ser cumprida. Broulard oferece então uma promoção em caso de sucesso, embora de forma disfarçada, com um certo decoro repulsivo. Para Mireau o custo pessoal é baixo em caso de derrota, mas os ganhos são vantajosos. Isso porque a vida e a segurança de seus soldados já não vale mais nada para ele, é claro.

§ 3. Acontece que Mireau vai precisar da colaboração do comandante do 701º Regimento, o Coronel Dax (Kirk Douglas), para que este conduza o ataque na linha de frente. Dax está cético e relutante: não é um jogador com a vida de seus homens, como Mireau e Broulard. Mas Mireau simplesmente ameaça removê-lo do comando por motivo de exaustão. Dax aceita a ordem e lidera o desastroso ataque. O resultado é medonho. Os alemães trucidam os franceses. Uma parte da tropa mal conseguiu sair de sua posição inicial na trincheira. Possuído de ódio, Mireau ordena que sua própria artilharia bombardeie aquela posição, para forçar os soldados a se moverem. Seu comando é rejeitado: deve dar a sua ordem por escrito, o que obviamente ele não faz.

§ 4. O ataque falhou, como era previsível. Mireau pede algumas cabeças da tropa para uma corte marcial exemplar. Três soldados são escolhidos para serem acusados de covardia, julgados e condenados. Dax tenta persuadir Broulard a interferir no processo, ameaçando revelar publicamente a ordem de Mireau para bombardear suas próprias tropas, mas o General carreirista interpreta essa iniciativa como uma chantagem de Dax para que fosse promovido à posição de Mireau. Os homens são fuzilados, e então Broulard oferece a promoção para Dax, que fica completamente enojado. Na melhor cena do filme, Dax diz para Broulard: “você é apenas um velho degenerado e sádico“.

§ 5. Logo depois, na última cena do filme, Dax tem uma experiência maravilhosa ao observar a sua tropa se divertindo num café no tempo de descanso antes de serem enviados novamente ao front. Uma alemã é levada a se apresentar para os soldados. Alvoroçados, se comportam como os animais desprezíveis compatíveis com o tratamento dispensado a eles pelos altos comandantes. Mas então a bela jovem começa a cantar e aos poucos os homens se apaziguam e se comovem, como se tivessem voltado para a casa materna como meninos novamente. E assim eles acompanham a cantora e Dax os vê como os seres dignos de misericórdia que ele sempre acreditou que eles fossem. É a sua vitória moral depois de tantas agonias.

§ 6. O filme é humanitário, antes de ser humanista. A diferença é importante, para não dizer decisiva. Porque ele desperta compaixão, e não orgulho. Não há nada de que se orgulhar. Mesmo Dax, no fim das contas, se comporta apenas dignamente no meio da insanidade da guerra, como um ser humano normal na posse plena de suas faculdades. Isso já nos livra daquele engano fatal da romantização da guerra, para não falar da romantização da condição humana como um todo. Espiritualmente, temos duas questões importantes trazidas por esta obra de Kubrick.

§ 7. A primeira é o testemunho favorável ao dom de Vigilância. O Coronel Dax é uma testemunha privilegiada de como opera o Sistema da Besta, e também o Pacto Sadomasoquista. Vê nas ambições e vaidades de Broulard e Mireau a monstruosidade demoníaca do desejo de poder. E fica horrorizado que Broulard tenha lhe tido como um dos seus, e não como um defensor das vidas de três soldados. Eventualmente isso sempre acontece com lideranças de segundo escalão: são convidadas a tomar assento na mesa dos grandes servidores voluntários do inferno. Broulard e Mireau são Cavalos no Xadrez do Diabo. Dax se recusa a tornar-se um deles.

§ 8. Mas a questão vai além. Um dos soldados escolhido para ser executado agride o Padre Dupree, questionando o sentido da salvação que lhe é oferecida nesse momento de aflição. O religioso só diz que é preciso aceitar os caminhos de Deus, que são misteriosos. Mas nenhuma fé pode ser adquirida assim, e nenhum esclarecimento. Dupree poderia ter denunciado todo o mal do mundo e levado a Boa Notícia de que em breve os três estariam livres de todos os demônios da Terra, a começar pelo Papa e pelo Presidente da França. Mas ele não pode fazer nada disso. Sua Ressurreição é fraca, quase vazia, um eco morto. Seu papel não é o de levar o Evangelho aos pobres, mas de garantir que os prisioneiros se comportem bem durante a execução, que é um evento público. Está à serviço do mesmo Sistema da Besta, no papel de Bispo, associado com o Cavalo. E, não surpreendentemente, mais tarde o asqueroso Mireau dirá a Dax: “parabéns, seus homens morreram muito bem“.

§ 9. O tema mais relevante do filme, porém, é o da inevitabilidade da morte. Para ser justo, o Padre Dupree fala disso, mas é apenas uma consolação formal e protocolar bem superficial, dentro do seu papel social. Não há fervor, não há um testemunho digno de Jesus Cristo. Um dos condenados à execução pergunta, muito sincero: “por que preciso morrer?” A necessidade dessa experiência, a mais universal e unificante das experiências humanas (além apenas do nascimento), mostra que a disputa moral entre corajosos e covardes é um tanto fútil. Quem escapará da morte, depois de ter nascido? E se um homem tem o defeito da covardia, quantos defeitos não tinham também os que morreram corajosamente? O que importa é dar uma resposta universal à essa pergunta universal: por que precisamos morrer? E a resposta cristã é: não precisamos, e não morreremos. Nossos corpos, frutos das Obras da Carne, esses sim precisam morrer, e isso justamente para que nós possamos viver para sempre de fato. Se o grão que cair na Terra não morrer, não gerará o fruto para a Eternidade. Isto nos leva ao mais importante dos papéis do Sistema da Besta. Seria o do Rei? Ou da Rainha? Nada disso. É o do Peão. Sem o Pecado Original não há fonte de poder para os Mireau, os Broulard, ou para qualquer vilão que seja neste mundo. Essa é a fonte de poder para o Ouroboros e todos os seus associados no mundo, e continuará sendo até o fim do mundo. Mas como poderiam gozar da paz provinda desse entendimento aqueles pobres soldados que não só não receberam o verdadeiro Evangelho, como possivelmente também nunca o procurariam mais tarde, mesmo que fossem poupados e que vivessem longas vidas?

§ 10. A chave está naquela última cena. Digo, talvez esteja. A arte nos permite projetar idéias e sentidos com essa facilidade. Mas me parece muito viável pensar assim, e acho que me entenderão. Aqueles soldados brutalizados não foram apenas iniciados nos males da guerra, mas na própria essência perversa da Queda, da rejeição do Amor divino. Por isso parecem inicialmente animalescos. O Ouroboros os quer como animais ao seu dispor. Enquanto o Deus verdadeiro quer filhos livres, o Usurpador quer animais escravizados. E será como animais que eles reagirão inicialmente à aparição daquela jovem alemã no café. Mas então ela canta. E eles voltam aos poucos à inocência do seu paraíso perdido, ao seio materno de onde vieram antes de serem iniciados no Pacto Ouroboros e em toda malícia do mundo. Não eram animais. Só tinham se esquecido de que eram humanos.

§ 11. Convém-nos até reconsiderar esta última cena como a melhor de todas do filme, e certamente uma das mais belas de toda a história do cinema. E as repercussões espirituais dela são tremendas. A menina que canta é a mulher que pisa na cabeça da Serpente defendendo seus filhos. Por isso é tão relevante reconsiderar, urgentemente, o simbolismo do Puer Aeternus à luz da doutrina esotérica do Pecado Original. Ser humano diante de Deus é voltar à inocência que é incompatível com a pactuação da iniciação na malícia deste mundo decaído e amaldiçoado. Não surpreende que nem três décadas depois dessa exibição de bravura da parte dos franceses, eles decidissem desconfiar da inescrupulosidade de seus chefes militares e políticos, e oferecessem então pouca resistência ao ataque alemão na Segunda Guerra Mundial. E não surpreende também todo o pacifismo que permeará o Século XX, para não falar das liberações sociais, do reconhecimento dos direitos das minorias, etc. Tudo isso sai de um movimento em reação ao cúmulo das mentiras da Velha Ordem. Mas não quer dizer que o diabo não esteja produzindo já essa Nova Ordem que também lhe servirá no fim das contas. Não há salvação no belicismo ou no pacifismo. Só há Salvação verdadeira em Jesus Cristo e na renúncia individual a todo o mal, que é o sentido da Cruz para cada um de nós. Neste sentido o filme é positivo, não parece querer nos iludir, justamente por ser mais humanitário do que humanista.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno6
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,6

Fratura, filme por Brad ANDERSON

§ 1. Aquele que não acredita no Amor pode crer em qualquer coisa, inclusive em si mesmo e em suas mentiras. Nosso infeliz protagonista, Ray, foi traumatizado pelo acidente que causou a morte de sua esposa anterior, especialmente pelo agravante moral de que ele estava dirigindo embriagado na ocasião. Ray, ao invés de enfrentar o demônio da culpa e, principalmente, do Terror em face da sua perda, fugiu para um abrigo típico.

§ 2. O abrigo do dever de estado, na forma de uma renovada e ampliada responsabilidade como marido de sua nova esposa, Joanne, e como pai da pequena Peri. Isso nos leva aos eventos mais recentes, retratados no início do filme. Retornando de uma viagem de carro de uma frustrante visita aos sogros, Ray entra em discussão com Joanne, ao mesmo tempo em que se irrita bastante com Peri.

§ 3. Eles param num posto de gasolina onde a menina sofrerá um acidente fatal, uma queda. Apesar de não ser culpado, por estar presente e envolvido na situação Ray não tem condições emocionais e psicológicas de lidar com o ocorrido, e muito menos com o desespero de sua esposa diante da cena trágica. Empurrando Joanne para longe, acaba causando também a sua morte. A partir daí, não só motivado pelo trauma, mas também por uma concussão que ele mesmo sofreu também em uma queda, tudo muda para Ray.

§ 4. Ele produzirá toda uma ilusão na qual ambas Joanne e Peri estão ainda vivas, e em que ele tenta então levar a filha machucada para se tratada no hospital mais próximo. Lá chegando, algumas coisas estranhas acontecem que o faz começar a ficar paranóico, especificamente com a hipótese de que há uma operação de tráfico de órgãos no local. Ray, mesmo subconscientemente, está construindo a sua mentira, uma estória que lhe é conveniente.

§ 5. Sua filha é encaminhada para um procedimento acompanhada da mãe. Cheio de suspeitas, Ray adormece na recepção do hospital, enquanto aguarda a saída das duas. Quando desperta, já não está mais na ilusão anterior, mas ainda bloqueia a memória do que realmente aconteceu. Vai em busca de informação sobre a filha e a esposa, mas descobre que ninguém as viu em nenhum momento. Sua paranóia explode.

§ 6. Depois de muitas idas e vindas com os funcionários do hospital e até da polícia, forçado a confrontar suas mentiras, Ray tem um novo surto que termina com mortos e feridos, e nosso protagonista acaba fugindo do hospital com um paciente que ele quer crer que é a sua mulher. Toda essa insanidade resultou da fraqueza espiritual de Ray, que não soube agir corretamente desde aquele seu primeiro trauma, e vem carregando uma conta pesada, com juros, por toda a sua vida.

§ 7. Já lhe tinha faltado então a melhor solução: se reconciliar com Deus para se livrar das mentiras do Acusador com relação à culpa da morte da sua primeira esposa, e repousar então na esperança da ressurreição da falecida. Isso lhe poderia ter poupado de ter a Presunção de corrigir seus males antigos com novos males, isto é, com novas responsabilidades que apenas o aborrecerão. E isso poderia ter poupado tanto Joanne quanto Peri de seus males sofridos.

§ 8. Por nem sequer sugerir algo que pareça com uma solução espiritual, o filme peca por vários lados. Nos fazendo crer em fatos trágicos e inescapáveis, dá testemunho tanto da Idolatria quanto do Terror, o Pacto com o Inferno. Onde está Deus? Não há, nem como referência de algo ausente na vida de Ray. Por outro lado, não há remédio suficiente para o sofrimento, porque não há vida espiritual, só um protagonista imbecil que vive inconsciente do sentido de suas ações, quase como um animal. Como se não bastasse isso, ainda há essa insinuação de que é mais fácil uma pessoa ser doida, paranóica, do que médicos e hospitais praticarem o tráfico de órgãos, o que é um testemunho de Ingenuidade. É pior do que isso: há médicos e hospitais envolvidos com o tráfico de pessoas, inclusive com o propósito de fornecer os “insumos” para rituais satânicos. Tudo isso existe, mas o filme quer que todos nos sintamos como Ray ao cogitar essas hipóteses: como uma pessoa que perdeu a razão. Por fim, e em linha com esse direcionamento, Ray é visto ao fim como um paciente com um mal psíquico adequadamente diagnosticado pela Dra. Jacobs, e nunca como um agente moral que tomou decisões espiritualmente relevantes que foram a causa fundamental dos seus enganos, especialmente o desespero pelo trauma original da morte da primeira esposa, em que ele se deicou levar pela Idolatria e pelo Terror. Que ele tenha distúrbios psíquicos, isso não pode ser negado, mas como ele chegou nisso em primeiro lugar? Foi se afastando da Presença de Deus. Isso a Dra. Jacobs não poderia reconhecer, porque não convém: este filme quer dar o testemunho do Psiquismo, e não do Discernimento. Por tudo isso não podemos recomendar este filme. Sendo uma denúncia do mal da paranóia, ironicamente ele deve causar apenas mais paranóia ainda, porque não oferece nem uma sombra de uma solução real para a condição humana, supostamente trágica.

Nota espiritual: 3,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno1
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo1
Nota final3,1

O abandono à divina providência, livro por Jean Pierre de CAUSSADE

§ 1. Caussade dá preciosíssimos testemunhos da Presença e da Paixão, e as suas virtudes do Abandono e da Rendição Total são frutos evidentes do dom da Humildade. Acusado de Quietismo pela maledicência religiosa da sua época, Caussade precisou reintroduzir, ao menos nominalmente, o risco da Presunção sob a forma de “inspirações” ou “inclinações”. Essa fraqueza nos mostra toda a força brutal da opressão religiosa, mesmo depois dos movimentos de Reforma e Contra-Reforma na cultura européia.

§ 2. Mas Caussade não é infalível também em outros termos que emprega e que podem causar confusão ou até mesmo malefícios. “Espírito”, por exemplo, não é o que habita o Coração como sede da Vontade, mas é especificamente a Presunção. Por outro lado, quando fala das sensações, Caussade não resiste ao emprego das idéias do gnosticismo espiritualista da Religião, quando o seu problema não é a experiência sensível, mas a Idolatria. Ele está na pista correta, mas sua linguagem contém defeitos.

§ 3. O autor nos empolga ao atacar a soberba dos estudiosos das letras, um elogio da Soberania, mas nos desanima ao fizer que “só conhecemos perfeitamente o que a experiência nos ensinou pela realidade do sofrimento“. Uma expressão sem sentido. Qualquer sofrimento só pode ser reconhecido através da experiência prévia do prazer e do repouso. Caussade é um místico, não um filósofo.

§ 4. Seu alvo é justo. O que ele quer nos dizer é que só a experiência do Limite e da Mistura nos permite assentir com todo o poder libertador na recepção dos dons de Humildade e Presença, porque é a experiência necessária da Forma do Escolhido e da Condição da Escolha, respectivamente. O Limite nos apresenta o Ilimitado, e a Mistura nos oferece o Separado, o Santo dos Santos. Nossa mente dialética precisa disso para informar a Vontade a respeito da conveniência da escolha do Amor. Certamente, com sua profundidade mística e teológica, Caussade quis dar este testemunho, e não o da ignorância de um masoquismo religioso.

§ 5. Nosso autor dá um tremendo testemunho da Soberania quando afirma que a santidade é algo fácil, para a consolação das freiras atormentadas com a literatura hagiográfica. Algo temível para a Religião, como muitas coisas que saíram dos arredores de Albi. Isso tudo me faz gostar muito de seu trabalho. Mas ainda, além disso, me é querido por seu amor ao fiat voluntas Tua, essa sabedoria que já animava a minha antiga doutrina do Acceptus Universum (2007).

§ 6. Quando ele explica que a Sabedoria divina age empobrecendo os sentidos para enriquecer o coração, Caussade está no limite entre o Gnosticismo e a Presença, onde o fiel da balança é o idealismo transcendental sobre o qual, infelizmente, o autor não diz nada, por não ser e não querer ser filósofo. À luz de sua obra vista como um todo, no entanto, terminamos pendentes generosamente para o lado da segunda alternativa. Ele está falando, em seus termos, do dom do Louvor que reconhece Deus na beleza de todas as coisas.

§ 7. Caussade nos diz algo maravilhoso: queremos saber o que Deus disse aos outros, mas não o que Ele diz a nós mesmos. Um grande ataque direto contra a Tradição Oral, um dos quatro pilares do esquema mentiroso da Religião. Corajosamente, ele nos afirma que não vai mais buscar a virtude dos santos, que são como “gotas” no oceano, como “átomos que desaparecem no abismo”. Vendo isso, o que me espanta é que Caussade tenha sido tolerado e mesmo autorizado pela Igreja.

§ 8. Não bastasse o já dito, ainda afirma: “A nossa semelhança ao tipo divino não nos pode vir senão da impressão deste selo misterioso, e esta impressão não se faz no espírito por idéias, mas na vontade pelo abandono”. Testemunha, assim, tanto à favor da Humildade quanto da Soberania. Sua concepção da Providência é tão vasta que não pode levar à nada senão à mais plena Salvação. Neste contexto a Perdição é apenas uma tolice evitada ao máximo no que depende do invencível Amor divino. Imaginem o que o nosso padre poderia nos dizer, se nos dissesse tudo…

Nota espiritual: 7,4 (Calaquendi)

Humildade/Presunção10
Presença/Idolatria10
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte7
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno9
Soberania/Gnosticismo7
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo5
Nota final7,4