A SÉTIMA Alegação é a de que Jesus é a Alegria dos Homens pela sua revelação da verdadeira natureza amorosa de Deus e, consequentemente, da salvação humana através da confiança exclusiva na Graça, de modo que qualquer outra alegria é secundária diante desta realidade espiritual fundamental.
A QUINTA Alegação é a de que quanto mais infalível qualquer texto sagrado ou interpretação for considerado, menos pode ser usado como uma interface espiritual pela consciência individual em seu relacionamento com o Criador, de modo que a verdadeira autoridade é desprezada em face da proeza da virtude ou do intelecto humano, e assim o Entendimento como um presente gratuito é recusado ou diminuído.
A QUARTA Alegação é a de que a Bíblia certamente contém: (a) partes adulteradas, (b) partes incluídas para além da intenção de seus autores originais, (c) partes traduzidas incorretamente, (d) afirmações equivocadas baseadas na falibilidade humana, assim como não inclui partes originalmente escritas e posteriormente removidas, todos estes fatos pela razão tanto de erro humano não intencional quanto por razão de intenção maliciosa, sem nenhum prejuízo ao poder do Espírito Santo para usá-la efetivamente e eficientemente para os seus propósitos.
A TERCEIRA Alegação é a de que a única Autoridade irrecusável é a que nunca pode ser provada, portando qualquer alegação baseada em uma prova absoluta é vazia de substância, de modo que a Verdade nunca é uma propriedade de criaturas relativas e criadas sob formas limitadas por natureza, não obstante criaturas racionais possam ter acesso a abstrações ideais que podem ser submetidas a demonstrações não confundidas com alegações sobre realidades concretas.
A SEGUNDA Alegação é a de que todos os assim considerados Textos Sagrados estão sujeitos à aceitação e interpretação da instância final de julgamento da consciência individual como o único poder capaz de tomar qualquer afirmação como verdadeira, incluindo toda a interpretação tradicional a respeito da suposta garantia de validação de qualquer parte de um texto, incluindo todas as chaves de sentido das traduções escolásticas e dos conteúdos etimológicos.
A PRIMEIRA Alegação é a de que a Bíblia, também referida como Sagradas Escrituras, é uma obra humana, originalmente e eventualmente inspirada, mas não confundida, com a Palavra de Deus, e que não deve ser considerada como fonte de autoridade para além da consciência individual do crente que é espiritualmente informado pela verdadeira autoritativa e nunca provada fonte de toda a verdade, i.e. o próprio Espírito Santo de Deus.
Para alguém que é muito rápido, o Flash infelizmente ainda foi muito lerdo para entender o sentido do que viveu em seu último filme (The Flash, por Andy Muschietti).
O único super-herói que faz sentido é aquele que disse de si mesmo: “aprendei comigo que sou manso e humilde de coração“. Mas lá vamos nós assistir gente vestida de palhaço fingindo que são capazes de salvar alguma coisa.
Por que as pessoas ainda têm paciência para assistir filmes como este?
Esta é uma boa pergunta, mas não é o nosso assunto imediato. Deve ser mais fácil eu dizer qual foi o meu próprio motivo: matar aquele que me mata, o tempo. E seria uma felicidade descobrir que o meu semelhante assistiu o filme mais ou menos pela mesma razão, o que não deve estar muito longe da verdade.
The Flash é mediano, não inspira grandes coisas além do tradicional arroz-com-feijão do sentimentalismo em torno da família, já que o personagem, Barry Allen, tem toda a sua vida definida por uma tragédia familiar que o fez perder a vida ordenada e feliz que ele achava que tinha, e que o faz imaginar a perda também de uma suposta boa vida que ele teria em tese perdido para sempre.
Barry trabalha como um remediador, e o tema do filme é a valorização dessa busca com o respeito a uma limitação final que o personagem deve descobrir à duras penas. Já que viaja no tempo, poderíamos imaginar que o herói esbarraria em algum paradoxo típico desse tipo de narrativa, mas ele encontra algo mais sólido e simples, que é a limitação ordenada por um Destino de origem desconhecida. Há coisas que Barry não pode mudar, por mais que tente de novo e de novo no pleno uso de seus poderes. A tentativa de forçar um resultado pessoalmente favorável leva o sujeito a reconhecer a sua própria transformação num vilão ou monstro, o que poderia ser melhor explorado pela desmoralização do juízo arbitrário desde um ponto de vista tão limitado, mas o filme não poderia chegar lá, sendo uma historinha de superhéroi. No fim Barry aceita a limitação e trabalha ao redor dela para remediar os fatos que conseguir dentro da sua competência, mas não percebe que ainda age naquele mesmo espírito de arbítrio, e portanto ignora qualquer design superior que tenha imposto aquelas limitações. Neste sentido, o inalterável é espiritualmente semelhante a qualquer outro paradoxo de filme de ficção científica: uma lei sem um legislador.
Não podemos recusar o desejo de justiça da parte de Barry, mas também não podemos ultrapassar a nossa própria noção definitiva de ignorância.
O filme acertaria, do ponto de vista espiritual, reconhecendo por trás da fraca (mas presente) noção de Destino uma maior deliberação divina na forma da Providência. Mas isso diminuiria a importância dos super-heróis, o que seria obviamente contraditório, para não dizer impopular com a proliferação da apostasia, talvez principalmente da parte do tipo de público que este produto cultural atinge. O Flash poderia ser humilde, mas continuou no seu papelzinho mequetrefe de mero remediador. Com toda sua velocidade parece não ter sido rápido o suficiente para chegar nas conclusões que lhe trariam a verdadeira paz e alegria.
Notas (de 0 a 10):
Valor EMD
Hipótese: P&A 3,0 (Sugestão Demoníaca)
M. Maior – Gratidão/Soberba
3
M. Maior – Obediência/Rebelião
2
M. Menor – Perdão/Julgamento
5
M. Menor – Libertação/Sadismo
5
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo
5
Ataques Avari-Moriquendi
2
Testemunho ES-Calaquendi
5
Nota EMD
3
Valor Espiritual
Humildade/Presunção (heroísmo)
3
Presença/Idolatria (família/vida familiar)
2
Louvor/Sedução
5
Paixão/Terror (ameaça da injustiça terminal)
3
Soberania/Gnosticismo
5
Vigilância/Ingenuidade (expectativa de felicidade mundana)
4
Discernimento/Psiquismo (crença na tragédia como causa)
O propósito primário deste Livro das Alegações é o de compartilhar a mais simples, clara e assertiva versão das minhas idéias e crenças expressas através das obras publicadas nos últimos três anos, em consonância com o conceito de que uma das mais preciosas atividades humanas além do louvor à Glória de Deus é o testemunho da bondade divina e da nossa correspondente necessidade humana de salvação.
Além disso, um propósito secundário pode ser encontrado no incentivo à consideração das alegações espirituais como realidades garantidas nos corações de todos os seres humanos, sendo assim uma forma de serviço a provocação da consciência dessa realidade através da expressão da minha própria coleção de crenças, mesmo que isso funcione apenas para a clarificação de crenças alheias que estejam em total oposição às minhas próprias.
Finalmente, um terceiro propósito consiste no trabalho para prover a mais apropriada e completa resposta para a preparação à condição amaldiçoada da vida humana na forma específica do seu mais drástico efeito, i.e. a morte das pessoas ao nosso redor e a nossa própria.
Sócrates recebe a notícia do sofrimento de seu amigo, à beira da morte, e vai ter com ele para descobrir porque este teria mudado de posição: parecia ser uma pessoa muito preparada para receber o fim desta vida, e agora estranhamente lutava contra o seu destino.
Eventualmente Sócrates consegue fazer o amigo recuperar o senso das coisas, o que podemos entender, espiritualmente, como o sucesso do Espírito Santo em persuadir a alma do sofredor com um testemunho contrário aos espíritos de Sedução e de Terror, que são os que mais nos fazem nos apegar à esta vida (o desejo de conservar supostos bens que dependem desta vida para serem gozados, e o medo de sofrimentos ou até o desconhecido).
Poucas realidades definem tão bem e rapidamente a qualidade espiritual de uma alma quanto a morte: coloque um ser humano diante da inevitabilidade deste fato, e você descobre facilmente quem ele é diante de Deus. Isso não impede que os espíritos malignos tentem uma alma neste momento peculiar e único, razão pela qual os testemunhos como os de Sócrates são sempre preciosos e bem-vindos. Mas, se pensarmos bem, a grande loucura da humanidade é viver o seu teatro que finge que a morte não existe, ou que não é relevante, ou que é superada pela imortalidade simbólica da descendência, porque toda essa recusa de uma realidade tão fundamental é o que afasta a consciência da paz e serenidade de considerar as coisas tais como elas são, sob o prisma mais universal possível. Em suma: se não existisse a cultura de cativeiro e de mentira, seria muito mais fácil e acessível a contemplação da vida e da morte, e os seres humanos poderiam viver de forma mais pacífica e ordeira, porque deixariam de disputar muitas tolices e mesquinharias pelas quais se deixam perder. É do interesse dos espíritos infernais que a contemplação do sentido da morte não entre nas almas humanas, pois assim se tornam mais persuasivos nas suas várias ilusões.
Voltando ao Axíoco, vale a pena rever partes do argumento socrático, no que esta vida miserável é condenada, quase que fazendo um espelho de Gênesis 3 e descrevendo esta experiência como decaída e amaldiçoada, de tal modo que a morte decretada por Deus se torna uma solução, uma verdadeira bênção:
Esse testemunho de Sócrates espelha não só a sabedoria do Gênesis, mas também de tantos outros testemunhos em ambos os Testamentos que refletem a realidade da vida humana sob esta condição. É nesta concordância que podemos repousar e reconhecer que não existe uma sabedoria pagã, ou judaica, ou mesmo cristã, mas divina e universal: e é pela condição humana poder ser universalmente compreendida que podemos, aí sim, receber a Graça do Evangelho, a particularidade do testemunho cristão, que é a promessa da salvação total desta condição. Esses gregos antigos podiam não ter a melhor parte, que nós guardamos hoje, graças a Jesus Cristo, mas eles já tinham o território preparado para o recebimento da Boa Notícia.
Outra contribuição socrática à reflexão a respeito da morte vem de um discurso que lembra que a morte por si não pode ser temível de forma alguma, e que na verdade só o que podemos temer é algum tipo de vida pela qual certas sensações nos são possíveis:
Esta reflexão é invencível. O único medo que a morte pode nos proporcionar, legitimamente, é o de uma passagem para outra condição de vida que seria negativa por tais e quais razões. Daí a importância muito maior da discussão da natureza de Deus (Quem Ele É?) do que a da morte em si: muito mais vale entender quem é que nos coloca nesta vida, ou em qualquer outra após a passagem desta, e porque o faz, do que temer o mero cessar da experiência de qualquer vida, já que o fim da atividade da alma não apresenta perigo de nenhuma espécie, e nem a privação dos bens e nem o temor dos males pode ser sofrido por quem não vive para experimentar essas coisas.
Tendo isto em vista, a força do Evangelho ganha toda a sua majestade. Porque se trata de receber a revelação de Quem Ele É, e do motivo de nossa passagem por esta existência atual, e do destino eterno de nossas almas com a confiança na melhor das notícias que se poderia ter a esse respeito: a que o Filho de Deus nos trouxe, de que Deus é nosso Pai.
Por outro lado, o próprio sentido da Ressurreição se esclarece totalmente, como destino imediato aos crentes que não relutam, e até como destino final aos relutantes que serão vencidos pelo Amor divino naquele Juízo Final.
Converte-se, assim, o que era motivo para temor ou até desespero, em alegria e esperança. A morte das Obras da Carne é a promessa de libertação para quem ama a Deus verdadeiramente, e quer se ver livre da mentira da Mistura. Não há nem drama e nem tragédia, resta apenas a apreciação de uma comédia divina.
Neste breve suspeito/apócrifo platônico, o elemento principal que tem alto valor espiritual para nós é a correção do antropocentrismo, dessa ousadia de determinar a causalidade absoluta a partir da relativíssima posição da experiência humana:
Lembro-me de que na introdução da minha Monadofilia fiz questão de apontar a correção desse tipo de engano. Faz parte dos três questionamentos que precisei notar logo de início: sobre a escassez, a causalidade e a irreversibilidade. A psique humana, condicionada pela experiência da Queda e da Maldição, tenta conceber que qualquer realidade possível seja estruturada de acordo com as leis que regem esta sua experiência contingente, vazando para uma metafísica aquilo que é uma disposição tão somente física e, ainda assim, nessa sua qualidade, suficientemente misteriosa para que mesmo assim se pretendesse postular os limites do possível, como estes próprios interlocutores do Hálcion observam ao fim desta passagem, ao se referir ao universo das coisas observáveis como um todo.
Aqui tratou-se do problema da causalidade, e com fácil resposta: se os poderes divinos já produziram grandezas e complexidades maiores, qual seria a dificuldade de realizar uma transformação menor dentro do escopo desta mesma natureza criada?
Em outro diálogo subsequente, entitulado Erixias, sobre o qual não faremos uma análise específica, o tema será o da escassez, concluindo que os mais ricos de bens materiais são os mais miseráveis por serem mais dependentes, ou determinados, pela sua escassez relativa desse tipo de bens.
Fico feliz ao observar que a relativização do condicionamento psíquico do homem no seu estado presente fez parte de uma filosofia antiga como esta platônica (ou pseudo-platônica), e não é difícil entender como esse é um requisito para se conceber a Possibilidade Universal, um conceito filosófico, ou a Onipotência, um conceito teológico, sem o prejuízo da mesquinharia do ponto de vista humano típico.