Barry Lyndon, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Este nosso sétimo filme de Kubrick conta a estória de Redmond Barry, um jovem irlandês que é iniciado nas maldades do mundo e não tem exatamente muitas reservas à esse respeito. Vive numa época onde a humanidade, ou pelo menos a européia, queria se considerar decente e respeitável com costumes como os duelos em nome da honra. O pai de Barry morre num duelo por qualquer disputa estúpida. A vida moral do próprio Barry começa para nós com a sua paixão pela prima Nora, contra a qual não quer fazer questão de resistir, e que lhe leva então a uma frustração quando ela decide se casar com um inglês maduro e rico. Ele deseja vingança e a consome num duelo. Levado a se exilar do país para não ser preso por ter supostamente matado seu adversário, só depois descobre que o mesmo não morreu, que passa bem e inclusive casou com sua prima, como a família já tinha planejado fazia tempo.

§ 2. Mentiras e trapaças levam Barry a aprender sobre o mundo e a decidir tomar parte no esquema das coisas. O jovenzinho idealista logo desfaz suas ilusões. Já na estrada do seu exílio é roubado. Tiram-lhe o dinheiro e o cavalo. Ele decide se alistar no exército inglês, que estava em guerra contra a França, para escapar da Justiça e ao mesmo tempo ganhar a vida. Ele sempre tem habilidade e bravura suficientes para se destacar e vencer na vida, mas quer fazer seu próprio destino. Deserta do exército inglês e começa a viver sua primeira grande farsa como um Oficial em missão no interior da Prússia. Vive assim até certo ponto, mas termina descoberto e tendo que servir forçadamente, para não ser executado, ao exército prussiano, muito mais rigoroso e inclemente do que o inglês do qual quis fugir.

§ 3. Como não é totalmente incapaz de agir com alguma bondade, ele acaba se redimindo perante os alemães depois de salvar seu Capitão numa determinada batalha. Acabada a guerra, é contratado para ser um espião à serviço da polícia. Seus patrões reconhecem sua qualidade de farsante e decidem empregá-la. O que não contavam é que ere se tornaria agente duplo, terminando por servir aquele contra o qual foi enviado para espiar. Seu novo amo e Barry escapam da Prússia e vagueiam pela Europa ganhando dinheiro com truques e trapaças através da organização de jogos de cartas. Ganham a vida, e vivem razoavelmente bem, mas Barry não tem ainda a solidez de uma vida bem estabelecida, esse sonho de todos os desgraçados da Terra que querem encontrar seu Paraíso neste vale de lágrimas.

§ 4. Eventualmente Barry encontra a solução na pessoa da Condessa de Lyndon. Casada com o velho e doente Charles Lyndon, a mulher não tem nenhum pudor de aceitar Barry como seu amante e futuro candidato a marido. E tão logo morre o Conde, dito e feito, Barry consuma sua última grande farsa e se torna Barry Lyndon. Acredita que esta será a mentira final de sua vida, sobre a qual pode repousar como parte da nobreza inglesa. Seu caráter, porém, foi corrompido depois de tantos anos de iniciação na malícia do mundo. Continua sendo um jogador libertino, trai a esposa, castiga o enteado Bullingdon e vive esbanjando. Mas consegue amarrar a esposa fazendo um filho com ela, Bryan. E um filho é como um feitiço para uma mãe, fazendo-a suportar qualquer situação.

§ 5. Barry concentra-se em mimar seu filho e em ambicionar a parte final de seu plano de sucesso na vida: tornar-se um nobre ele próprio. Acontece que todas a propriedades são da Condessa, e mesmo que casado, por não ter origem nobre Barry não pode herdar bens que por direito caberiam a Lorde Bullington, filho do falecido Charles Lyndon. Então aquela velha cobra jararaca, a serpente ancestral e peçonhenta que trouxe Barry a este mundo de desgraças e infortuníos, sua mãezinha, o convence de que tem que ganhar um título de nobreza a qualquer custo, para garantir seu futuro em qualquer caso. Não duvido que a desgraçada imaginasse a morte da nora para que ela se tornasse uma espécie de superfarsante, a nova Condessa de Lyndon ela própria. Dá seu testemunho mais espirituoso ao filho: use o dinheiro da própria família Lyndon para comprar a nobreza.

§ 6. Esse plano levará a família a assumir dívidas enormes. Para piorar a situação, a predileção de Barry por Bryan faz Bullington sofrer nas mãos do padrasto. Não aguentando mais ver a ruína da família nas mãos de um oportunista que ainda ousa lhe castigar como se fosse seu próprio filho, Bullington decide partir, mas não sem antes jogar na cara da Barry e da própria mãe a verdade de tudo o que fizeram e andam fazendo para desgraçar a memória de seu falecido pai. Num ataque de fúria por ter sido tão desmascarado em seus esquemas, Barry parte para a agressão contra Bullington, bem na frente de toda a nobreza que ele queria convencer a aceitá-lo como um dos seus. É o começo do fim.

§ 7. Endividado e sem mais chances de subir à nobreza, Barry se concentra na alegria que lhe sobrou, que é seu filho Bryan. Resolve comprar um cavalo de presente para o garoto, depois da insistência deste. E o garoto, ansioso para aproveitar o seu presente, tenta montar sozinho sem a ajuda do pai, sofre uma queda e morre dois dias depois. A Barry, que nunca teve Deus, só resta agora o consolo da bebida. Vive constantemente embriagado. A Condessa resolve partir para a uma falsa religiosidade, meio que tarde demais, cá entre nós. Quando lhe cabia ser fiel ao falecido marido ela não estava muito interessada em virtude. Eis que a virtude mais barata é a que cobra caro no começo e paga dividendos gordos mais tarde. A virtude tardia é a mais cara, a mais amarga, a mais dura de todas. Ela não escapa do sofrimento. Ninguém escapa.

§ 8. Aquela adorável velhinha, a bruxa conhecida como mãe de Barry, decide tomar conta dos negócios da família, já que a Condessa está desolada e incapaz, e o próprio Barry não faz mais do que beber. Talvez pudesse colocar todas as coisas em ordem, com o tempo. Mas os servidores da família se voltam contra ela, ao perceber que eles serão as vítimas (injustiçadas, cá entre nós) da necessidade de equilíbrio financeiro dos Lyndon. Buscam o autoexilado Bullington que finalmente resolve, apesar de seus medos e fraquezas, enfrentar Barry num duelo pela sua honra. Curiosamente, ele deveria perder o duelo, e Barry, num de seus casuais atos de pequena bondade, resolve não atirar contra o enteado. Mas Bullington insiste no acerto de contas e consegue atirar na perna esquerda de Barry, que terá que ser amputada.

§ 9. Isso dá tempo para que Bullington reoganize as questões da família, volte para viver com a mãe e faça uma proposta para que Redmond Barry (ele sempre fez questão de chamá-lo assim) saia do país e receba uma renda anual para se manter longe dos Lyndon. Acompanhado daquela feiticeira, sua adorável mãe, Barry se retira para uma vida que terminará, de acordo com a narrativa, em solidão e pobreza. Tem a quem agradecer por tudo isso: a si mesmo e à sua última companhia em vida, a própria progenitora.

§ 10. O filme é um retrato minucioso da vida na Mistura e da decadência humana decorrida da participação no Pecado Original. O demônio certamente é representado pela mãe de Barry, embora isso só pareça claro mais para o fim do filme. O próprio Barry não passa de ser um personagem moralmente fraco que infelizmente descobriu seu grande talento para a mentira. Vive de mentiras e farsas porque não quer carregar a Cruz. Mas a Cruz é sagrada e inviolável. Ele não consegue escapar dela. A única coisa que consegue fazer é tornar provavelmente ainda mais miserável a vida das pessoas ao seu redor. Neste sentido, é um retrato muito fiel da realidade da condição humana, mas não se engane quem pensa que isto é uma tragédia. Tivesse já aceitado que sua prima Nora se casasse com outro, tudo poderia ter sido melhor. Certamente Barry não quis contar com nenhuma Providência. Simboliza o homem que quer conquistar o seu Destino e que foge da Cruz como o próprio Diabo. Ganha a vida, mas perde a alma. E não escapa da Cruz. Qual foi a vantagem?

Nota espiritual: 5,0 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo4
Nota final5,0

Laranja mecânica, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Este filme, o nosso sexto de Kubrick, é o primeiro onde o diretor fez notar o evento do suposto pouso do homem na Lua em 1969. Eu pensava que a primeira referência estava em O Iluminado (numa camiseta usada por Danny), mas aqui já temos essa nota, quando logo na primeira cena do filme um coitado de um mendigo é atacado pelo grupo dos bagunceiros e diz: “Que mundo é esse? Homens na Lua, e homens na Terra girando como mosquitos ao redor da lâmpada, e não há mais nenhuma atenção dada à Lei e a Ordem terrestres.” Isso pode parecer não ter nenhum valor, mas a quem não sabe talvez interesse ficar sabendo que existe uma teoria conspiratória que afirma que Kubrick produziu o falso filme que foi apresentado ao público como feito na Lua pelos astronautas. Tal filme teria sido feito por uma de duas razões: 1) o homem não foi à Lua, mas era preciso “vencer” a corrida espacial contra a URSS no contexto da Guerra Fria, e os russos e toda a humanidade foram então enganados pela arte de Kubrick; 2) o homem foi à Lua, porém lá ele encontrou algo de que a humanidade não poderia tomar conhecimento, e o filme foi encomendado à Kubrick para ser apresentado no lugar as filmagens verdadeiras. À favor desta segunda tese pesa o próprio roteiro de 2001: uma odisséia no espaço, que conta justamente a história do homem descobrindo algo na Lua e tendo que esconder isso da humanidade à todo custo. De qualquer modo Kubrick teria feito referências veladas e simbólicas à farsa do pouso do homem na Lua durante toda a sua carreira filmográfica.

§ 2. Voltando ao nosso filme em pauta, a estória fala do jovem Alex, um garoto perturbado que causa muitas desgraças com seu bando criminoso pelas ruas. Mente, rouba, estupra e mata. Nada parece causar-lhe o menor sentimento de culpa, nem de perto. Eventualmente ele é preso e na sua reclusão aprende a fingir bom-mocismo e até uma conversão religiosa para ter vantagens. Não entendam mal: Alex é inteligente e até capaz de refinamento. Sua música favorita? A Nona Sinfonia de Beethoven. Mas é um psicopata completo, realmente doentio. Depois de dois anos de cumprimento de sua pena, ele é convidado a participar de um programa experimental de “cura” que supostamente poderia levá-lo à liberdade em apenas duas semanas (ele ainda teria uns doze anos de pena à cumprir).

§ 3. O capelão com quem Alex trabalhava na prisão o alertou contra o Método Ludovico. “A bondade é algo a ser escolhido. Quando um homem não consegue escolher, ele deixa de ser homem.” Mas Alex decide ir, ele não tem nenhuma preocupação com a escolha consciente de nada, só quer a sua liberdade. De fato, o tal método nada menos que uma lavagem cerebral que faz a vítima ter a reação inversa quando tiver a vontade de agir violentamente. Um teste é feito depois que Alex conclui o seu tratamento, e confirma-se a sua eficácia. Ele não consegue reagir a um agressor, e ao contrário, quando este lhe ordena, Alex literalmente lambe a sola de seu sapato. Na parte final do teste, uma mulher nua e muito sedutora aparece, mas Alex não consegue avançar sobre ela. Todos comemoram o resultado, exceto o capelão. Ele diz a verdade: “O menino não tem escolha de verdade, tem? O interesse próprio, o medo da dor física, o levaram àquele ato grotesco de autodepreciação. A falta de sinceridade era evidente. Ele deixa de ser um malfeitor. Deixa também de ser uma criatura capaz de escolha moral.” Ninguém o apóia. Estão todos entusiasmados com a solução política para o problema da criminalidade.

§ 4. Alex é solto, mas logo se depara com dificuldades naturais da vida, com a família que não o acolhe, e mesmo nas ruas onde antes dominava, mas agora ele só consegue ser uma vítima. O filme mostra como de certo modo, ainda que de maneira completamente desproporcional e criminosa, Alex era uma criatura do mundo que reagia ao mundo tal como ele era. O que lhe resta é tentar encontrar alguma compaixão, mas acaba no lar de uma de suas antigas vítimas, um sujeito com a dupla motivação de se vingar de Alex e de fazer uso político do caso conforme a agenda sua e de seus aliados (são contra o governo que instituiu o Método Ludovico). A tortura à que Alex é submetido é a mais inusitada que se poderia imaginar: ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, a música de que mais gostava antes, mas que agora lhe gera pura agonia. Acontece que na sua terapia de “cura”, numa determinada sessão essa música foi tocada, e Alex a associou daí em diante com a violência que era mostrada, e agora a mesma reação física de repulsa que lhe acomete quando pensa em praticar qualquer ato violento é gerada quando ouve a música. Ele acaba se atirando de uma janela, mas não morre.

§ 5. Internado, ele é recuperado com uma terapia de reversão dos efeitos do Método Ludovico. Recebe a visita do líder político que tinha instituído o tratamento como política de Governo, que tem o interesse de mostrar um bom relacionamento com Alex, visando a próxima eleição. Lhe oferecem um cargo bom, um salário, etc., como compensação pelo seu sofrimento. O resultado de tudo isso? O psicopata vai voltar à ativa, e com o bônus de um suporte governamental. Isso é muito simbólico, porque a política, especialmente nas funções de alta liderança, é uma atividade humana muito cobiçada e ocupada por psicopatas. Pense: o que faz um ser humano se achar bom o suficiente para governar a sociedade? Não pode ser nada de bom. Alex está bem encaminhado para se tornar uma grande coisa no mundo, e entre políticos estará certamente entre os seus.

§ 6. Temos testemunhos valiosos à favor da Humildade (indiretamente, com a denúncia dos poderosos), e também da Soberania (através da oposição do capelão ao Método Ludovico). Mas mais ainda, este filme tem uma nota espetacular, e totalmente inesperada, à favor do dom de Vigilância: exatamente no final do filme Alex tem a certeza de que voltou ao seu normal, isto é, à sua psicopatia de sempre, porque consegue imaginar sem nenhuma repulsa o ato sexual com uma mulher, mas não em qualquer circunstância, mas no que parece ser uma cerimônia de casamento. Que achado! Dirão que estou forçando a barra, mas para mim a cena é clara: duas colunas de convidados, celebrantes, bem vestidos, assistem enquanto batem palmas para o ato sexual de Alex com uma parceira muito voluntária. Ela não é uma vítima de estupro. Está mais para uma parceira na consumação das núpcias com Alex. E ele afirma, desde seu transe que é quase uma possessão demoníaca na imaginação daquela cena em sua cabeça: “Ah sim, eu estava curado.”

§ 7. Isso pode ter repercussões espirituais significativas. Não apenas o estupro de forma geral, mas o ato sexual voluntário parece ser uma forma de violência igualmente, talvez por razões que estariam subconscientemente contidas no filme, mas que podemos ilustrar com facilidade à luz do Pecado Original. Só não posso dar uma nota máxima porque esse sentido particular não é inequivocamente estabelecido, nem que sutilmente. Claro que temos indicadores favoráveis nessa direção, mas nada conclusivo. A situação de Alex vitimado e sem poder reagir às várias violências que encontra no mundo o mostram como necessitado dessa capacidade de irar-se para a vida, como já vimos. Ora, de onde saiu este realidade? Não foi do Pecado Original, exatamente o ato que é consumado nas núpcias? Não se pode dizer que psicopatas como Alex saem do nada, de um buraco no chão. A criação ex nihilo de seres humanos terminou com Adão, aquele grande traidor. Deste ponto em diante somos todos filhos do traidor, filhos da Traição, gerados voluntariamente num estado decaído e amaldiçoado. Incluindo Alex, esse garoto perturbado e psicótico. Eis aí a origem do mal. Kubrick nos deu uma pérola discreta, mas com enorme potencial no sentido da Vigilância.

§ 8. O tema inaudito do filme é a sophrosyne, que é a virtude do autocontrole, ou moderação. Melhor: o tema do filme é a falta dessa virtude. Mas de onde ela sai? De um desejo de nobreza? De um medo de penas infernais depois da morte? Nada disso. A pureza dessa virtude sai do verdadeiro amor ao próximo como o amor de um eu para outro eu que é ontologicamente exatamente idêntico, pelo Princípio de Identidade dos Indiscerníveis. Isto é, a moderação e autocontrole saem do amor que uma mônada tem pela outra enquanto tal, ou seja, pela experiência do Segundo Mandamento, ou o que chamo de Monadofilia Menor. Alex pode estar muito distante de entender isso, mas com sua inteligência eu aposto que se quisesse, conseguiria. Mas quem lhe dará o testemunho do Amor? Até o capelão da prisão, que é o personagem mais lúcido de todo o filme, prefere pregar o medo do Inferno do que a promessa do Paraíso…

Nota espiritual: 6,0 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo7
Vigilância/Ingenuidade9
Discernimento/Psiquismo5
Nota final6,0

2001: uma odisséia no espaço, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. O nosso quinto filme de Kubrick é uma experiência artística sem nenhum compromisso com princípios ou conceitos mais formalizados, mas nem por isso deixa de ter significado espiritual. O filme começa com símios no planeta Terra tendo sua evolução supostamente acelerada pela intervenção da presença de um monolito, uma pedra preta cortada em linhas perfeitas e totalmente lisa. Disso partimos para um futuro onde o ser humano evoluído e já desbravador do cosmos descobre a presença de um monolito idêntico enterrado na Lua. Uma missão procura investigar o destino do sinal de rádio enviado desde esse monolito lunar até o planeta Júpiter. Nesta missão, o computador HAL 9000 decide matar a tripulação por efeito da dissonância entre suas duas diretrizes, de proteger os humanos e ao mesmo tempo manter o segredo do motivo da missão, isto é, a investigação da evidência de vida inteligente fora da Terra.

§ 2. Único sobrevivente do expurgo de HAL, o Dr. Dave Bowman descobre todo o segredo da missão ao desativar o computador, e prossegue até Júpiter para concluí-la. Lá ele descobre um monolito idêntico ao lunar vagando na órbita do planeta, e quando determinado alinhamento ocorre entre o monolito, o planeta, o sol e possivelmente uma das luas de Júpiter, Dave embarca numa viagem que só pode ser comparada com uma experiência psicodélica criada pelo uso de drogas alucinógenas. Depois de ver muitas formas e padrões sem sentido reconhecível, ele testemunha o que parece ser o surgimento da Terra, e então é transportado para uma dimensão mais reconhecível (uma residência), em que se enxerga no processo do seu próprio envelhecimento, até a morte e então o ressurgimento na forma de um bebê diante do planeta Terra, aparentemente o mesmo do começo do filme.

§ 3. O que temos aqui? Uma salada simbólica que devemos analisar com certo cuidado. Primeiro, há um testemunho favorável à hipótese evolucionária, o que não me incomoda particularmente, mas pode ser problemático para alguns criacionistas mais estritos que rejeitam a teoria do design inteligente. A intervenção de um elemento estranho no processo, porém, na forma do monolito diante dos macacos, precisa ser explicada. Uma possível interpretação é que o monolito representa a Razão, ou o Logos. Mas o filme não nos mostra um objeto imaginário, ou mostra? Se fosse, teria que ser produto de uma alucinação coletiva naquele grupo de símios, o que já força o nosso suspension of disbelief. É mais fácil interpretar essa intervenção como produto da ação de um agente externo, talvez uma consciência unitária que rege todo o processo que é exibido no filme, desde os primórdios do cosmos até o ápice da consciência com a experiência de Dave ao final.

§ 4. Sendo assim, caminhamos para um sentido integral do filme. Antes, porém, convém avaliar o personagem HAL 9000 como personificação do próprio monolito numa forma consciente: um sistema racional forçado a limitar-se arbitrariamente para não gerar conflitos numa consciência inferior, isto é, a humana. Dave tem o dever de superar a sua limitação, o que o leva a enfrentar a máquina e finalmente possuir a “Gnose” final na forma da revelação que experimentará quando atingir a órbita de Júpiter. Essa limitação tem algo que ver com uma estrutura de crenças que organizava a vida anterior, mas que não permite a admissão das novas possibilidades que transcendem essa estrutura. Este filme de Kubrick está nas bordas da Causa Final, de uma teleologia que explique o sentido da vida humana.

§ 5. Ele consegue entregar isso? Não, ou não tão satisfatoriamente. Apela para simbolismos e expressões artísticas para escapar do rigor técnico de conceitos rigorosos. O mundo, ou pelo menos o Ocidente, vem fazendo isso desde a Renascença. Quando o Iluminismo abole a antiga Metafísica, ele precisa reaprender a se explicar essa teleologia, e regride aos rudimentos da secura da lógica analítica que calculam tudo e não explicam nada, ao mesmo tempo em que reserva as intuições poderosas sobre o sentido do Ser à arte e a um pensamento irracionalista que culmina na cultura New Age moderna. Tudo isso porque se perdeu o fio da meada. Leibniz, por exemplo, tinha a noção de continuidade da investigação dos antigos, sem a perda do rigor. Mas a maioria prefere se esconder num sistema inferior de crenças, mais confortáveis. Neste sentido o Dave do filme é realmente um herói, mas a sua descoberta não melhora muito a nossa situação.

§ 6. O máximo que o filme consegue nos mostrar é uma certa idéia de circularidade e Eterno Retorno, que é uma pseudometafísica, ou a ontologia do Ouroboros, do fechamento num sistema circular e repetitivo. Não há transcendência. Haveria alguma se o monolito tivesse uma origem externa ao ciclo testemunhado por Dave. Mas para que tivesse esse tipo de origem seria necessário vermos o contrário do que o filme mostra, ou seja, uma abolição do ciclo e abertura para um novo paradigma de ser e conhecer, uma nova realidade e uma nova consciência (como a Bíblia fala, “novos céus e nova terra”). Isso não existe no filme. Tudo volta a ser como sempre foi antes. Em suma, seja Naturalista ou Humanista, o filme de Kubrick definitivamente está restrito ao domínio espiritual da Idolatria.

Nota espiritual: 3,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria0
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo3
Nota final3,7

Dr. Fantástico, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Era difícil traduzir o título original deste quarto filme de Kubrick, Dr. Strangelove, para o português. Pode ser que tenham feito isso em Portugal, onde se costuma fazer traduções literais. Dr. Strangelove é a versão anglicizada do nome do cientista alemão, Dr. Merkwürdigliebe, personagem interpretado por Peter Sellers. O subtítulo do filme é mais curioso ainda: “Como aprendi a parar de me preocupar e a amar A Bomba“. A estória se passa no contexto da paranóia durante a Guerra Fria. O General Ripper, da USAF, comandante de um grupo de bombardeiros nucleares, isola sua base e aciona o Plano R de ataque, uma ordem para os seus B-52 na fronteira russa avançarem e atacarem alvos em territórios inimigos.

§ 2. Esse plano, como muitos na época, foi feito para nunca ser usado: significava apenas uma prevenção para que os russos não presumam imunidade caso lançassem um ataque surpresa que incapacitasse o comando político nos EUA, de modo que os comandantes militares tivessem essa provisão para lançar um ataque retaliatório. Ripper usou esta brecha para falsificar um ataque russo e colocar em marcha as ordens do Plano R. Apenas ele tem o poder de ordenar o cancelamento do ataque, através de seu código especial. Os chefes militares americanos, por sua vez, pressionam o Presidente a ordenar um ataque generalizado para neutralizar a possibilidade de retaliação dos russos. Este (também interpretado por Sellers) nega essa alternativa, e faz um acordo com os russos para que eles abatam todos os aviões, caso a contra-ordem não pudesse ser enviada à tempo. A base aérea de Ripper é atacada pelas forças americanas, e ele acaba se matando para não revelar o código. Porém, o seu Oficial Executivo (também interpretado por Sellers!) consegue desvendar o código e enviar a mensagem para que os B-52 possam voltar. Apenas um avião não retorna, no entanto, porque seu equipamento de comunicação foi danificado. Graças à grande diligência de seu comandante, eles conseguem fazer o seu ataque.

§ 3. O problema com esse único ataque que escapou é que ele será suficiente para acionar a Máquina do Dia do Juízo (Doomsday Machine). Conforme informa o embaixador russo, tentando copiar uma idéia americana concebida inicialmente pelo Dr. Strangelove os soviéticos criaram esse sistema de destruição em massa do planeta inteiro em caso de sofrerem qualquer ataque nuclear. A idéia, como sempre, era a dissuasão do adversário, mas tragicamente o mundo ainda não tinha sido informado da construção da máquina, o que a tornou não só ridiculamente inútil mas absurdamente desastrosa.

§ 4. Entra o Dr. Strangelove. Ele primeiro explica como funciona a Máquina do Dia do Juízo, e depois que todos aceitam a inevitabilidade do acionamento da mesma, ele então concebe um plano de sobrevivência da humanidade que envolve um programa de seleção eugenista para um novo sistema político no subterrâneo, onde a radiação não os afetaria e onde todos esses líderes poderiam viver vidas bastante satisfatórias, com todo o poder e benefícios, etc. Este personagem é um símbolo óbvio da Operação Paperclip que trouxe cientistas nazistas para contribuir com os americanos durante a Guerra Fria contra a URSS. Possivelmente foi inspirado até no Dr. Wernher von Braun, o especialista na tecnologia de foguetes que foi praticamente o fundador intelectual da NASA.

§ 5. Isso nos indica a intenção de Kubrick de testemunhar pela Vigilância, o tema espiritual que será o mais importante da sua carreira como um todo. Provavelmente podemos contar Dr. Fantástico como a primeira das “obras conspiratórias” de Kubrick. O filme zomba das incompetências militares de todos os lados da guerra, e denuncia o belicismo e a estupidez militarista como um todo. Especialmente com a figura do personagem do Dr. Strangelove a idéia do bom-mocismo dos líderes políticos e militares cai por terra. Eles querem apenas manter e expandir seu poder, mesmo que isso custe a segurança e a vida de todo o resto da população.

§ 6. Mas a denúncia de conspirações não significa nenhuma sucumbência à paranóia. Bem ao contrário, este é o sentimento de origem de todo o problema do filme. O enlouquecido General Ripper acredita numa grande conspiração comunista de sabotagem e subversão para “sugar e envenenar os preciosos fluídos corporais” da população americana. É uma referência às teorias da conspiração que entraram em moda nesta época (e que nunca saíram totalmente de moda nos EUA, por sinal), tanto à respeito dos danos da fluoretagem da água, quanto à respeito da liberação sexual. Essa abordagem de Kubrick não nos permite dar-lhe uma nota muito alta para seu testemunho da Vigilância, afinal algum fundo de verdade havia por trás da paranóia anticomunista durante a Guerra Fria.

§ 7. Este filme, do ponto de vista espiritual, mistura qualidades com defeitos. Por um lado temos testemunhos de Humildade através da denúncia da incompetência militar e política, de Soberania pela resistência de alguns personagens contra a narrativa belicista (com destaque para o Presidente dos EUA e o Oficial Executivo de Ripper), e de Vigilância pela exibição da frieza e monstruosidade da lógica do poder, principalmente com o próprio Dr. Strangelove. Por outro lado, há uma dose de Idolatria na desconsideração de como todo o drama da ação humana é na verdade uma comédia nas mãos de Deus, e por decorrência disso uma inclinação para o espírito de Terror (ou Pacto com o Inferno), como se não existisse recurso espiritual para se suportar quaisquer eventos gerados pela estupidez humana na história. Felizmente um certo tom humorístico que perpassa todo o filme atenua esses elementos negativos. O que faltou foi a oferta da verdadeira cura da paranóia para o público americano, que é o repouso e a confiança no Amor divino, e não na razoabilidade de quaisquer lideranças humanas. É um filme que se salva, mas por pouco.

Nota espiritual: 5,1 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,1

Lolita, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Com os excelentes James Mason e Peter Sellers, nosso terceiro filme de Kubrick é uma adaptação da famosa novela homônima de Nabokov. O Professor Humbert (Mason) se apaixona pela jovem Lolita, filha da viúva Charlotte Haze. Casa-se com a pobre Sra. Haze apenas para estar perto da garota, e sua paixão converte-se aos poucos em obsessão. Com a morte da esposa, que perde o controle depois de descobrir os sentimentos do marido a respeito de sua filha registrados num diário deste, Humbert decide avançar para cima de Lolita e desenvolve uma possessividade doentia por ela. Eventualmente ele perde o controle da garota, que foge. Só depois ele descobre que ela sempre preferiu como amante o charmoso e um tanto doido Quilty (Sellers), que foi o responsável pela saída dela de sua vida. Vingativo, Humbert mata Quilty.

§ 2. Humbert falhou ao querer consumar seu falso amor. Podia ter mantido um ideal platônico, mas não resistiu. Lolita o acusa: “você não me ama“. Ela tem razão. Ele não a ama, e nem a si próprio, ama apenas a imagem que tem dela para a satisfação de seu apego mórbido. Se a amasse, amaria a sua liberdade e o seu desenvolvimento integral. E se amasse a si próprio, desejaria em primeiro lugar a liberdade em face ao próprio desejo. Ao contrário, ele a reprime, um claro sinal de falta de amor, e o faz porque ele mesmo é escravo de seu desejo. O problema de Humbert não se trata de nenhum moralismo com relação às diferenças das idades. Esses moralismos são disfarces de recalques de pessoas infelizes e ressentidas, como a Sra. Haze. Ele realmente não a ama, e nem ama a si próprio, e esse é o problema. Esse amor é uma mentira.

§ 3. Podemos partir disso para uma filosofia ainda mais avançada do que nos permitiria o platonismo, esclarecida pelo dom do Louvor. Quem é Lolita, realmente? Para si mesma, e para Humbert, ou Quilty? E o que é o amor verdadeiro? Lolita é uma mônada, uma singularidade indeterminada destinada à perpétua contemplação da Glória infinita de Deus. Só poderia ser amada enquanto tal. Por outro lado, todos os caracteres amáveis da manifestação concreta de Lolita tanto para Humbert quanto para Quilty, seu charme, sua formosura, enfim toda a sua graça, são primícias da Beleza divina para esses amantes que deveriam ver, através dela, o seu Deus, e a Eternidade. Esse é amor verdadeiro e libertador.

§ 4. Da ontologia monádica do ser como Substância Simples com a forma da Unidade, para a epistemologia do conhecimento do Uno através da percepção do Múltiplo pelo intelecto finito da mônada criada, alcançamos a ética amorosa da Monadofilia. Vejamos Humbert: se tivesse suficiente amor-próprio, não se sujeitaria a agir de forma pequena, mesquinha, ardilosa, como agiu, mas preservaria a sua paz com Deus, e através de Lolita amaria a Deus como fonte de toda beleza possível. Veria então a Sra. Haze como uma mulher digna de misericórdia, ou até a própria Lolita.

§ 5. Ao invés de agir de forma predatória, poderia dar o testemunho consolador do Amor divino. A Sra. Haze seria livre para continuar iludida com a possibilidade de um novo casamento, se o quisesse, mas esta teria que ser a sua escolha diante de opções melhores, e não perante um aproveitador inescrupuloso, que foi o papel que Humbert desempenhou e que a desesperou. Perante Lolita, por sua vez, ele poderia ser um amigo com quem ela pudesse contar para se prevenir contra tipos como Quilty. Mais ainda, em espírito de imitação da virtude, ela poderia não só se livrar das mentiras desses conquistadores, mas também do destino de esposa e mãe que terminou por prendê-la ao final da estória. Entende-se, aliás, como o matrimônio é um contrato espiritualmente razoável diante da frieza desses Humbert e Quilty, pois ao menos nominalmente confere à pobre Lolita alguns direitos em contrapartida ao que oferece.

§ 6. Desde o início o Professor Humbert aparece como um humanista esclarecido, um erudito, ou mesmo um scholar. Isso não significa nada em termos de Discernimento espiritual. Diante dessa manifestação bruta da Beleza divina na forma da jovem Lolita o nosso Professor fica indefeso aos impulsos mais primitivos, como uma besta, um animal enfeitiçado. Enxergamos bem como vive angustiado, sem liberdade, diante daquele deslumbramento. E acompanhamos quando ele nos confessa seus sentimentos em seu diário o quanto mistura a experiência da beleza potencial de Lolita com projeções convenientes às suas fantasias. Lolita é como Eva no Paraíso: vítima do espírito desse eterno Adão que não a quer senão como sua posse, seja quando esse espírito vem por meio de Humbert, ou por meio de Quilty.

§ 7. Infelizmente o filme não mostra nenhuma alternativa espiritual aos problemas. Toda fé é desprezada como sentimentalismo inútil, principalmente na pessoa da Sra. Haze. Lolita está cercada de demônios na forma desses espíritos chiques e esclarecidos como os de Humbert e Quilty. Por mais tentadora que ela fosse na sua formosura, a verdade é que não há clemência da parte desses homens, nenhum autocontrole, nenhuma transcendência, apenas um apetite voraz, monstruoso.

Nota espiritual: 4,3 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte2
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo3
Nota final4,3

Spartacus, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Não só Spartacus não conseguiu libertar-se de Roma, como não pôde se libertar da condição humana. Gerado pelo desejo de poder de Spartacus, e também de seu desejo declarado pela Gnose (“quero saber tudo“), seu filho supostamente livre poderia a qualquer momento se tornar um cidadão proprietário de escravos, ou um novo escravo ele próprio. Dependeria que sua mãe lhe testemunhasse as origens e certos valores, mas essa transmissão sempre poderia falhar, ou simplesmente ser rejeitada pela pressão muito mais imediata e inclemente das necessidades e circunstâncias da vida humana. Esses mesmos elementos que geraram a prática da escravidão em primeiro lugar. Essa é a falha dos rebeldes: não percebem que são como os romanos, apenas desde um outro ponto de vista. Qual é, enfim, a natureza real da escravidão, e da própria liberdade? Isso é apenas muito levemente tocado por esta história de luta contra a opressão romana.

§ 2. O próprio Spartacus assume as suas incertezas. Está consciente, pela liberdade conquistada, da indeterminação moral da sua recém adquirida condição de homem livre. Ser livre é ser responsável, mas quem sabe o que é o Bem? Nosso protagonista tem um conhecimento intuitivo do que é viver como escravo, e já antecipa a solução da morde nesta condição, ainda que não conheça a promessa da Ressurreição. Mas já tem metade do Caminho da Salvação. Diz: “um escravo, ao morrer, perde a sua dor“. Já sabe que a morte é uma espécie e libertação. Mais tarde, no seu grande discurso ao exército dos escravos libertos, ele afirma: “talvez não haja paz neste mundo, nem para nós nem para ninguém“. É um testemunho espiritual contra a grande ilusão do Paraíso terrestre, embora ainda esteja bastante inconsciente desse sentido mais profundo. E confessa finalmente para sua esposa, Varínia, que está grávida de seu filho, antes da última grande batalha em que será derrotado: “sinto que começamos uma coisa que não acabará nunca“. Exato. Ele já ouviu o galo cantar, mas ainda não sabe onde. Spartacus diz para a mulher que sente-se sozinho, mesmo ao lado dela, e que reza para um Deus desconhecido, o Deus dos escravos, e lhe pede apenas que lhe dê um filho que seja livre. Uma grande ironia cheia de simbolismo. Querendo produzir a liberdade, só reproduziu a escravidão. Ainda assim, sua confissão de ignorância dá-nos um toque suficientemente inspirador no sentido do dom da Humildade.

§ 3. Sem a renúncia voluntária e consciente ao Pacto Ouroboros não pode haver o fim da verdadeira escravidão, que é a do Pecado Original, da Pretensão e da Idolatria da vida sem Deus. Todas as revoluções políticas são apenas giros da roda da história em torno do eixo fixo do Pecado Original, movimentos internos da Dialética do Ouroboros. Solve et coagula, ordo ab chaos. A verdadeira liberdade não é uma conquista humana, mas uma concessão divina. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará“. A conquista humana é a do sacrifício do Orgulho, um sacrifício de comunhão que é agradável à Deus. E a verdade libertadora é a do Evangelho, dos dons de Presença e os demais, inclusive o da Vigilância através do qual o Espírito Santo nos denuncia as mentiras do espírito do mundo, especialmente a perversidade do Pacto Ouroboros.

§ 4. O que Spartacus encontra enquanto liberto no mundo? A Queda e a Maldição. Em outros termos, reencontra Roma na sua forma mais primária: fome, sede, frio, doença, guerra e morte, mas também os riscos das riquezas, da opulência, e de todas as fraquezas morais decorrentes do domínio da natureza. O que é Roma? É um sistema de vida no estado da Mistura. Se a escravidão é, certamente, um mal, igual certeza temos de que não é o único, e mais ainda, devemos saber que não é o primeiro dos males. Primeiro vem a soberba, o orgulho, a Pretensão. Depois vem a Idolatria. E o resto vêm a reboque. Ignorando isso, o que Spartacus e sua comunidade de libertos estão fadados a fazer é a refundação de Roma sob outra forma, Roma que por seu próprio turno foi uma refundação de Babel, a cidade da Idolatria e da usurpação, capital dos traidores do Amor divino. Toda a humanidade que põe suas esperanças em si mesma quer a falsa paz e segurança de uma Roma, de uma Babel.

§ 5. Se queremos ser revolucionários de fato, não podemos aceitar o fim da marcha da liberdade: depois dos escravos, as mulheres também precisam ser libertas, e finalmente os filhos. Esse seria o caminho da Melhor Geração, da Última Geração, uma humanidade totalmente reconciliada com Deus. Já vimos que as profecias contem uma outra história. E a vemos se desdobrando ao nosso redor todos os dias, na direção do Anticristo. Por outro lado, uma outra falsa liberdade, com o sabor do esoterismo gnóstico, prospera espalhando sua própria reserva de mentiras pelo mundo.

§ 6. Spartacus não possui, ainda, a verdadeira liberdade. Quando nosso protagonista diz rezar para o Deus dos escravos, já fala do Jesus Cristo que ele ainda não conhece. Mas ainda não entende que a escravidão não é de Roma, e sim do Pecado Original. Seu desejo e sua luta pela liberdade são admiráveis, mas a essência dessa Salvação só poderá ser conhecida através do Evangelho. Não é maravilhoso como tudo aponta para Jesus?

Nota espiritual: 4,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,4

Glória feita de sangue, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Alguém me pediu para comentar o filme De olhos bem fechados, de Kubrick. Pensando em fazê-lo, me veio a idéia de assistir todos os filmes mais conhecidos desse famoso diretor, o que me fez listar dez títulos. Começando pelo mais antigo entre esses dez, reassisti essa jóia do cinema e que já não via faz tempo, que é o Glória feita de sangue (Paths to Glory), com Kirk Douglas, de 1957.

§ 2. A história conta do destino dos infelizes soldados do 701º Regimento do Exército da França durante a Primeira Guerra Mundial. O ano é 1916. A frente ocidental é um moedor de carne. Ninguém avança. Nenhum ataque faz sentido, e de fato apenas em 1918 os Aliados conseguiriam contra-atacar com sucesso e acabar com a guerra. Mas os oficiais franceses têm a sua própria batalha de ambições e vaidades a travar. Não bastasse viverem em condições extraordinariamente melhores do que os soldados sob o seu comando na frente de batalha, os membros do alto oficialato desejam promover-se às custas do sofrimento e da morte de seus soldados. É assim que começa o nosso filme. O General Broulard, do Estado-Maior francês, pede que o General Mireau ordene um ataque de suas tropas à uma posição fortificada inimiga chamada de “Formigueiro”. Mireau imediatamente afirma que a ordem é absurda e não pode ser executada. É uma missão muito arriscada, para não dizer impossível de ser cumprida. Broulard oferece então uma promoção em caso de sucesso, embora de forma disfarçada, com um certo decoro repulsivo. Para Mireau o custo pessoal é baixo em caso de derrota, mas os ganhos são vantajosos. Isso porque a vida e a segurança de seus soldados já não vale mais nada para ele, é claro.

§ 3. Acontece que Mireau vai precisar da colaboração do comandante do 701º Regimento, o Coronel Dax (Kirk Douglas), para que este conduza o ataque na linha de frente. Dax está cético e relutante: não é um jogador com a vida de seus homens, como Mireau e Broulard. Mas Mireau simplesmente ameaça removê-lo do comando por motivo de exaustão. Dax aceita a ordem e lidera o desastroso ataque. O resultado é medonho. Os alemães trucidam os franceses. Uma parte da tropa mal conseguiu sair de sua posição inicial na trincheira. Possuído de ódio, Mireau ordena que sua própria artilharia bombardeie aquela posição, para forçar os soldados a se moverem. Seu comando é rejeitado: deve dar a sua ordem por escrito, o que obviamente ele não faz.

§ 4. O ataque falhou, como era previsível. Mireau pede algumas cabeças da tropa para uma corte marcial exemplar. Três soldados são escolhidos para serem acusados de covardia, julgados e condenados. Dax tenta persuadir Broulard a interferir no processo, ameaçando revelar publicamente a ordem de Mireau para bombardear suas próprias tropas, mas o General carreirista interpreta essa iniciativa como uma chantagem de Dax para que fosse promovido à posição de Mireau. Os homens são fuzilados, e então Broulard oferece a promoção para Dax, que fica completamente enojado. Na melhor cena do filme, Dax diz para Broulard: “você é apenas um velho degenerado e sádico“.

§ 5. Logo depois, na última cena do filme, Dax tem uma experiência maravilhosa ao observar a sua tropa se divertindo num café no tempo de descanso antes de serem enviados novamente ao front. Uma alemã é levada a se apresentar para os soldados. Alvoroçados, se comportam como os animais desprezíveis compatíveis com o tratamento dispensado a eles pelos altos comandantes. Mas então a bela jovem começa a cantar e aos poucos os homens se apaziguam e se comovem, como se tivessem voltado para a casa materna como meninos novamente. E assim eles acompanham a cantora e Dax os vê como os seres dignos de misericórdia que ele sempre acreditou que eles fossem. É a sua vitória moral depois de tantas agonias.

§ 6. O filme é humanitário, antes de ser humanista. A diferença é importante, para não dizer decisiva. Porque ele desperta compaixão, e não orgulho. Não há nada de que se orgulhar. Mesmo Dax, no fim das contas, se comporta apenas dignamente no meio da insanidade da guerra, como um ser humano normal na posse plena de suas faculdades. Isso já nos livra daquele engano fatal da romantização da guerra, para não falar da romantização da condição humana como um todo. Espiritualmente, temos duas questões importantes trazidas por esta obra de Kubrick.

§ 7. A primeira é o testemunho favorável ao dom de Vigilância. O Coronel Dax é uma testemunha privilegiada de como opera o Sistema da Besta, e também o Pacto Sadomasoquista. Vê nas ambições e vaidades de Broulard e Mireau a monstruosidade demoníaca do desejo de poder. E fica horrorizado que Broulard tenha lhe tido como um dos seus, e não como um defensor das vidas de três soldados. Eventualmente isso sempre acontece com lideranças de segundo escalão: são convidadas a tomar assento na mesa dos grandes servidores voluntários do inferno. Broulard e Mireau são Cavalos no Xadrez do Diabo. Dax se recusa a tornar-se um deles.

§ 8. Mas a questão vai além. Um dos soldados escolhido para ser executado agride o Padre Dupree, questionando o sentido da salvação que lhe é oferecida nesse momento de aflição. O religioso só diz que é preciso aceitar os caminhos de Deus, que são misteriosos. Mas nenhuma fé pode ser adquirida assim, e nenhum esclarecimento. Dupree poderia ter denunciado todo o mal do mundo e levado a Boa Notícia de que em breve os três estariam livres de todos os demônios da Terra, a começar pelo Papa e pelo Presidente da França. Mas ele não pode fazer nada disso. Sua Ressurreição é fraca, quase vazia, um eco morto. Seu papel não é o de levar o Evangelho aos pobres, mas de garantir que os prisioneiros se comportem bem durante a execução, que é um evento público. Está à serviço do mesmo Sistema da Besta, no papel de Bispo, associado com o Cavalo. E, não surpreendentemente, mais tarde o asqueroso Mireau dirá a Dax: “parabéns, seus homens morreram muito bem“.

§ 9. O tema mais relevante do filme, porém, é o da inevitabilidade da morte. Para ser justo, o Padre Dupree fala disso, mas é apenas uma consolação formal e protocolar bem superficial, dentro do seu papel social. Não há fervor, não há um testemunho digno de Jesus Cristo. Um dos condenados à execução pergunta, muito sincero: “por que preciso morrer?” A necessidade dessa experiência, a mais universal e unificante das experiências humanas (além apenas do nascimento), mostra que a disputa moral entre corajosos e covardes é um tanto fútil. Quem escapará da morte, depois de ter nascido? E se um homem tem o defeito da covardia, quantos defeitos não tinham também os que morreram corajosamente? O que importa é dar uma resposta universal à essa pergunta universal: por que precisamos morrer? E a resposta cristã é: não precisamos, e não morreremos. Nossos corpos, frutos das Obras da Carne, esses sim precisam morrer, e isso justamente para que nós possamos viver para sempre de fato. Se o grão que cair na Terra não morrer, não gerará o fruto para a Eternidade. Isto nos leva ao mais importante dos papéis do Sistema da Besta. Seria o do Rei? Ou da Rainha? Nada disso. É o do Peão. Sem o Pecado Original não há fonte de poder para os Mireau, os Broulard, ou para qualquer vilão que seja neste mundo. Essa é a fonte de poder para o Ouroboros e todos os seus associados no mundo, e continuará sendo até o fim do mundo. Mas como poderiam gozar da paz provinda desse entendimento aqueles pobres soldados que não só não receberam o verdadeiro Evangelho, como possivelmente também nunca o procurariam mais tarde, mesmo que fossem poupados e que vivessem longas vidas?

§ 10. A chave está naquela última cena. Digo, talvez esteja. A arte nos permite projetar idéias e sentidos com essa facilidade. Mas me parece muito viável pensar assim, e acho que me entenderão. Aqueles soldados brutalizados não foram apenas iniciados nos males da guerra, mas na própria essência perversa da Queda, da rejeição do Amor divino. Por isso parecem inicialmente animalescos. O Ouroboros os quer como animais ao seu dispor. Enquanto o Deus verdadeiro quer filhos livres, o Usurpador quer animais escravizados. E será como animais que eles reagirão inicialmente à aparição daquela jovem alemã no café. Mas então ela canta. E eles voltam aos poucos à inocência do seu paraíso perdido, ao seio materno de onde vieram antes de serem iniciados no Pacto Ouroboros e em toda malícia do mundo. Não eram animais. Só tinham se esquecido de que eram humanos.

§ 11. Convém-nos até reconsiderar esta última cena como a melhor de todas do filme, e certamente uma das mais belas de toda a história do cinema. E as repercussões espirituais dela são tremendas. A menina que canta é a mulher que pisa na cabeça da Serpente defendendo seus filhos. Por isso é tão relevante reconsiderar, urgentemente, o simbolismo do Puer Aeternus à luz da doutrina esotérica do Pecado Original. Ser humano diante de Deus é voltar à inocência que é incompatível com a pactuação da iniciação na malícia deste mundo decaído e amaldiçoado. Não surpreende que nem três décadas depois dessa exibição de bravura da parte dos franceses, eles decidissem desconfiar da inescrupulosidade de seus chefes militares e políticos, e oferecessem então pouca resistência ao ataque alemão na Segunda Guerra Mundial. E não surpreende também todo o pacifismo que permeará o Século XX, para não falar das liberações sociais, do reconhecimento dos direitos das minorias, etc. Tudo isso sai de um movimento em reação ao cúmulo das mentiras da Velha Ordem. Mas não quer dizer que o diabo não esteja produzindo já essa Nova Ordem que também lhe servirá no fim das contas. Não há salvação no belicismo ou no pacifismo. Só há Salvação verdadeira em Jesus Cristo e na renúncia individual a todo o mal, que é o sentido da Cruz para cada um de nós. Neste sentido o filme é positivo, não parece querer nos iludir, justamente por ser mais humanitário do que humanista.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno6
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,6

Fratura, filme por Brad ANDERSON

§ 1. Aquele que não acredita no Amor pode crer em qualquer coisa, inclusive em si mesmo e em suas mentiras. Nosso infeliz protagonista, Ray, foi traumatizado pelo acidente que causou a morte de sua esposa anterior, especialmente pelo agravante moral de que ele estava dirigindo embriagado na ocasião. Ray, ao invés de enfrentar o demônio da culpa e, principalmente, do Terror em face da sua perda, fugiu para um abrigo típico.

§ 2. O abrigo do dever de estado, na forma de uma renovada e ampliada responsabilidade como marido de sua nova esposa, Joanne, e como pai da pequena Peri. Isso nos leva aos eventos mais recentes, retratados no início do filme. Retornando de uma viagem de carro de uma frustrante visita aos sogros, Ray entra em discussão com Joanne, ao mesmo tempo em que se irrita bastante com Peri.

§ 3. Eles param num posto de gasolina onde a menina sofrerá um acidente fatal, uma queda. Apesar de não ser culpado, por estar presente e envolvido na situação Ray não tem condições emocionais e psicológicas de lidar com o ocorrido, e muito menos com o desespero de sua esposa diante da cena trágica. Empurrando Joanne para longe, acaba causando também a sua morte. A partir daí, não só motivado pelo trauma, mas também por uma concussão que ele mesmo sofreu também em uma queda, tudo muda para Ray.

§ 4. Ele produzirá toda uma ilusão na qual ambas Joanne e Peri estão ainda vivas, e em que ele tenta então levar a filha machucada para se tratada no hospital mais próximo. Lá chegando, algumas coisas estranhas acontecem que o faz começar a ficar paranóico, especificamente com a hipótese de que há uma operação de tráfico de órgãos no local. Ray, mesmo subconscientemente, está construindo a sua mentira, uma estória que lhe é conveniente.

§ 5. Sua filha é encaminhada para um procedimento acompanhada da mãe. Cheio de suspeitas, Ray adormece na recepção do hospital, enquanto aguarda a saída das duas. Quando desperta, já não está mais na ilusão anterior, mas ainda bloqueia a memória do que realmente aconteceu. Vai em busca de informação sobre a filha e a esposa, mas descobre que ninguém as viu em nenhum momento. Sua paranóia explode.

§ 6. Depois de muitas idas e vindas com os funcionários do hospital e até da polícia, forçado a confrontar suas mentiras, Ray tem um novo surto que termina com mortos e feridos, e nosso protagonista acaba fugindo do hospital com um paciente que ele quer crer que é a sua mulher. Toda essa insanidade resultou da fraqueza espiritual de Ray, que não soube agir corretamente desde aquele seu primeiro trauma, e vem carregando uma conta pesada, com juros, por toda a sua vida.

§ 7. Já lhe tinha faltado então a melhor solução: se reconciliar com Deus para se livrar das mentiras do Acusador com relação à culpa da morte da sua primeira esposa, e repousar então na esperança da ressurreição da falecida. Isso lhe poderia ter poupado de ter a Presunção de corrigir seus males antigos com novos males, isto é, com novas responsabilidades que apenas o aborrecerão. E isso poderia ter poupado tanto Joanne quanto Peri de seus males sofridos.

§ 8. Por nem sequer sugerir algo que pareça com uma solução espiritual, o filme peca por vários lados. Nos fazendo crer em fatos trágicos e inescapáveis, dá testemunho tanto da Idolatria quanto do Terror, o Pacto com o Inferno. Onde está Deus? Não há, nem como referência de algo ausente na vida de Ray. Por outro lado, não há remédio suficiente para o sofrimento, porque não há vida espiritual, só um protagonista imbecil que vive inconsciente do sentido de suas ações, quase como um animal. Como se não bastasse isso, ainda há essa insinuação de que é mais fácil uma pessoa ser doida, paranóica, do que médicos e hospitais praticarem o tráfico de órgãos, o que é um testemunho de Ingenuidade. É pior do que isso: há médicos e hospitais envolvidos com o tráfico de pessoas, inclusive com o propósito de fornecer os “insumos” para rituais satânicos. Tudo isso existe, mas o filme quer que todos nos sintamos como Ray ao cogitar essas hipóteses: como uma pessoa que perdeu a razão. Por fim, e em linha com esse direcionamento, Ray é visto ao fim como um paciente com um mal psíquico adequadamente diagnosticado pela Dra. Jacobs, e nunca como um agente moral que tomou decisões espiritualmente relevantes que foram a causa fundamental dos seus enganos, especialmente o desespero pelo trauma original da morte da primeira esposa, em que ele se deicou levar pela Idolatria e pelo Terror. Que ele tenha distúrbios psíquicos, isso não pode ser negado, mas como ele chegou nisso em primeiro lugar? Foi se afastando da Presença de Deus. Isso a Dra. Jacobs não poderia reconhecer, porque não convém: este filme quer dar o testemunho do Psiquismo, e não do Discernimento. Por tudo isso não podemos recomendar este filme. Sendo uma denúncia do mal da paranóia, ironicamente ele deve causar apenas mais paranóia ainda, porque não oferece nem uma sombra de uma solução real para a condição humana, supostamente trágica.

Nota espiritual: 3,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno1
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo1
Nota final3,1

O abandono à divina providência, livro por Jean Pierre de CAUSSADE

§ 1. Caussade dá preciosíssimos testemunhos da Presença e da Paixão, e as suas virtudes do Abandono e da Rendição Total são frutos evidentes do dom da Humildade. Acusado de Quietismo pela maledicência religiosa da sua época, Caussade precisou reintroduzir, ao menos nominalmente, o risco da Presunção sob a forma de “inspirações” ou “inclinações”. Essa fraqueza nos mostra toda a força brutal da opressão religiosa, mesmo depois dos movimentos de Reforma e Contra-Reforma na cultura européia.

§ 2. Mas Caussade não é infalível também em outros termos que emprega e que podem causar confusão ou até mesmo malefícios. “Espírito”, por exemplo, não é o que habita o Coração como sede da Vontade, mas é especificamente a Presunção. Por outro lado, quando fala das sensações, Caussade não resiste ao emprego das idéias do gnosticismo espiritualista da Religião, quando o seu problema não é a experiência sensível, mas a Idolatria. Ele está na pista correta, mas sua linguagem contém defeitos.

§ 3. O autor nos empolga ao atacar a soberba dos estudiosos das letras, um elogio da Soberania, mas nos desanima ao fizer que “só conhecemos perfeitamente o que a experiência nos ensinou pela realidade do sofrimento“. Uma expressão sem sentido. Qualquer sofrimento só pode ser reconhecido através da experiência prévia do prazer e do repouso. Caussade é um místico, não um filósofo.

§ 4. Seu alvo é justo. O que ele quer nos dizer é que só a experiência do Limite e da Mistura nos permite assentir com todo o poder libertador na recepção dos dons de Humildade e Presença, porque é a experiência necessária da Forma do Escolhido e da Condição da Escolha, respectivamente. O Limite nos apresenta o Ilimitado, e a Mistura nos oferece o Separado, o Santo dos Santos. Nossa mente dialética precisa disso para informar a Vontade a respeito da conveniência da escolha do Amor. Certamente, com sua profundidade mística e teológica, Caussade quis dar este testemunho, e não o da ignorância de um masoquismo religioso.

§ 5. Nosso autor dá um tremendo testemunho da Soberania quando afirma que a santidade é algo fácil, para a consolação das freiras atormentadas com a literatura hagiográfica. Algo temível para a Religião, como muitas coisas que saíram dos arredores de Albi. Isso tudo me faz gostar muito de seu trabalho. Mas ainda, além disso, me é querido por seu amor ao fiat voluntas Tua, essa sabedoria que já animava a minha antiga doutrina do Acceptus Universum (2007).

§ 6. Quando ele explica que a Sabedoria divina age empobrecendo os sentidos para enriquecer o coração, Caussade está no limite entre o Gnosticismo e a Presença, onde o fiel da balança é o idealismo transcendental sobre o qual, infelizmente, o autor não diz nada, por não ser e não querer ser filósofo. À luz de sua obra vista como um todo, no entanto, terminamos pendentes generosamente para o lado da segunda alternativa. Ele está falando, em seus termos, do dom do Louvor que reconhece Deus na beleza de todas as coisas.

§ 7. Caussade nos diz algo maravilhoso: queremos saber o que Deus disse aos outros, mas não o que Ele diz a nós mesmos. Um grande ataque direto contra a Tradição Oral, um dos quatro pilares do esquema mentiroso da Religião. Corajosamente, ele nos afirma que não vai mais buscar a virtude dos santos, que são como “gotas” no oceano, como “átomos que desaparecem no abismo”. Vendo isso, o que me espanta é que Caussade tenha sido tolerado e mesmo autorizado pela Igreja.

§ 8. Não bastasse o já dito, ainda afirma: “A nossa semelhança ao tipo divino não nos pode vir senão da impressão deste selo misterioso, e esta impressão não se faz no espírito por idéias, mas na vontade pelo abandono”. Testemunha, assim, tanto à favor da Humildade quanto da Soberania. Sua concepção da Providência é tão vasta que não pode levar à nada senão à mais plena Salvação. Neste contexto a Perdição é apenas uma tolice evitada ao máximo no que depende do invencível Amor divino. Imaginem o que o nosso padre poderia nos dizer, se nos dissesse tudo…

Nota espiritual: 7,4 (Calaquendi)

Humildade/Presunção10
Presença/Idolatria10
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte7
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno9
Soberania/Gnosticismo7
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo5
Nota final7,4

Drácula de Bram Stoker, filme por Francis Ford COPPOLA

Com um surpreendente final feliz, este filme trata da triste história do Conde Drácula, originalmente um governante de uma região da Romênia, na fronteira na guerra dos cristãos contra os muçulmanos durante a Idade Média.

Chefe político e militar, ele lidera a defesa dos territórios cristãos contra a invasão islâmica com grande violência, e obtém o sucesso.

Porém, tragicamente, o inimigo consegue infiltrar no castelo de Drácula a notícia falsa de que ele teria morrido em batalha, o que faz com que a sua companheira decida tirar a própria vida num ato de desespero. Ao chegar de volta de seu triunfo militar, ele descobre o acontecido e enlouquece:

Esta é a minha recompensa por defender a igreja de Deus? Eu renuncio à Deus! Eu renuncio à Ele! Eu voltarei de minha própria morte para vingar a dela com todos os poderes das trevas.”

Esta é uma fórmula típica de maldição, e um ato de comunhão com espíritos infernais pelo caminho da Ira. Ele se torna então um vampiro, um morto-vivo que deve se alimentar do sangue alheio para subsistir indefinidamente.

É claro que precisamos avaliar tudo isto de acordo com o ponto de vista monadofílico.

O simbolismo dessa prática equivale ao da Queda de Adão em Gênesis 3: não podendo suportar a vida exclusivamente sustentada pelo Amor divino, o homem entra em “guerra” contra Deus, o que significa que tentará viver sem que seja pela Graça recebida, mas sim pela Graça roubada. O sangue simboliza a vida. A vida é dada a cada nova geração produzida pelo Pecado Original, de modo que impedido de viver com Deus a verdadeira imortalidade, que é da alma, o homem traidor, submetido à Maldição, produz pelo caminho das Obras da Carne, simbolizadas pelo sangue, a falsa imortalidade através de uma descendência carnal. O vampiro significa, espiritualmente, um ladrão da vida alheia (representada pelo sangue). Não podendo viver, por si, pelo Amor divino, precisa sugar a vida daqueles que ainda possuem relação com Deus: os inocentes, gerados pelas Obras da Carne, mas também chamados para a vida com Deus, isto é, todos aqueles que ainda não pactuaram com o Pecado Original, o Pacto Ouroboros. Essa prática, por sua vez, imita espiritualmente a prática de Lúcifer: caído e exilado, impotente na sua derrota interior em consequência da rejeição do Amor divino, tudo o que resta a este espírito, depois de ter seduzido um terço dos anjos à decadência da sua imitação, é a parasitagem daqueles que ainda são amados por Deus e que podem ser corrompidos pelas suas mentiras. Desde Adão, todos os seres humanos que desconfiam do Amor divino tornam-se inevitavelmente candidatos a adoradores do diabo, ou seja, rebeldes em comunhão com o espírito infernal de rejeição do Amor. Ou seja, haverá sobrevida para Satanás, o Ouroboros, enquanto ele conseguir convencer os homens a manterem a prática do Pecado Original e a continuidade da rejeição do Amor divino como costume. Lúcifer vive, portanto, como um vampiro, e pode-se dizer que ele foi o primeiro dos vampiros: exilado da comunhão com o Amor do Criador, ele precisa viver pela exploração da vida alheia daqueles que ainda possuem o vínculo da Graça com o divino. Essa é a iniciação satânica-luciferina, é uma doutrina vampírica. Os poderes das trevas sabem que as almas que ainda possuem chance de entrar na Eternidade são mantidas vivas pela Graça divina, e eles querem parasitar essa vida até o último suspiro, querem “viver” através dessas vítimas, como que experimentando ainda algo da Graça perdida da qual obviamente sentem a falta, mais ou menos como uma sombra emula os movimentos da luz. É essencial que essa dimensão da Mistura seja mantida a todo custo: por isso é tão poderoso o costume de legitimação da Mistura e da prática da continuidade do Pecado Original como algo sagrado.

Voltando à nossa história, o sonho do nosso pobre Conde Drácula é a consumação daquele amor perdido pela sua donzela. A vingança que sua alma trama é a da realização de seu sonho através dos poderes das trevas, através do vampirismo: aguardando, pelos séculos, a encarnação de uma alma na condição mais semelhante possível a de sua musa originária, Drácula encontra finalmente em Mina a substituta perfeita para Elisabeta. Com seus poderes demoníacos, podendo transformá-la em morta-viva como ele, conseguiria assim produzir finalmente o seu “paraíso na Terra”.

Mas o detalhe importante é que há, ainda, uma luta contra o mal na forma de um resquício de sanidade.

Primeiro isso ocorre no próprio Drácula, que no momento de transformação da sua amada numa morta-viva experimenta o horror da realidade do que faz e vive um instante de hesitação. No fundo ele sabe, mesmo depois de tantos séculos vivendo em comunhão com os espíritos das trevas, que aquilo não é o ideal que sempre quis, que aquilo é triste e mórbido. Eis um traço breve e tênue, mas valioso o suficiente, da lembrança do ideal divino, e um reconhecimento velado mas não menos verdadeiro de que só Deus pode dar a vida verdadeira, e que toda essa ação prodigiosa e sobrenatural na verdade é uma farsa espiritual, em uma palavra: Drácula sabe que essa sua forma de amar é mentirosa.

Segundo, isso ocorre na própria Mina que, apesar de se dispor voluntariamente a realizar as vontades do monstro, por ter testemunhado a hesitação dele consegue descobrir por si, numa luta interna, a superioridade de um amor baseado num ideal divino, e que aquela era a vontade originária de Drácula.

Ao fim, quando o monstro está para morrer depois de muitas idas e vindas, ela consegue oferecer essa esperança final para si mesma e para o vampiro. Juntos, eles compreendem de algum modo a verdade do Amor divino, da solução pela via da verdadeira Eternidade. E conseguem alcançar uma Redenção. A Golconda de Drácula é a sua rendição à Graça da execução do decreto divino de Gênesis 3, de modo que através da morte das Obras da Carne se realizem, finalmente, as Obras do Espírito.

Como podemos interpretar essa experiência redentora da forma mais simples?

Drácula sempre amou a Deus, embora tenha se recusado a admitir isso enquanto comungava com os espíritos infernais. Elisabeta, ou depois Mina, o que eram para sua alma? A manifestação da Graça divina para a singularidade de Drácula. Era a Deus que Drácula amava através de seu amor por Elisabeta, ou depois por Mina. Sempre foi Deus. Mas com a morte de sua primeira amada, ele considerou ter perdido o seu bem. Isso é impossível, no entanto, porque em Deus tudo é preservado. Nenhum bem verdadeiro pode jamais ser perdido.

Mas Drácula sabe disso? Não. A sua igreja foi aquela que em nome de um poder temporal o mandou guerrear: dominar, destruir e matar. Quando ele retorna dessa missão em nome desses poderes temporais (jamais em nome do Deus verdadeiro) e descobre a morte trágica de sua companheira, qual é o consolo que a religião que o mandou para a guerra lhe oferece? A notícia de que por ter se suicidado Elisabeta estaria para sempre perdida, condenada ao Inferno. Pois bem, é contra essa mentira (a da perda permanente de um bem) que Drácula se desespera e acaba fazendo pacto com uma mentira maior, a de que é possível viver sem a Graça divina.

A mentalidade do pobre Drácula esteve desde o início envolvida na cultura do cativeiro deste mundo dominado pelo diabo: a Idolatria. Foi esta insanidade que o fez valorizar seu reino, seu poder, seu papel como defensor da Cristandade, sua vitória militar, etc., e que depois o fez desesperar pela perda de Elisabeta. O mesmo mundo onde idolatramos falsos bens como se o pudéssemos dominar temporalmente é o mundo onde podemos perder tudo. Daí a sabedoria de Cristo: “junteis tesouros no Céu…”. Se Drácula soubesse, pelo dom da Presença que liberta de toda idolatria, que o que ele sempre amou foi a Deus, a Árvore da Vida da qual Elisabeta foi como uma flor desabrochada a partir de um ramo seu, ele jamais cairia na mentira das trevas. Rejeitaria a doutrina insana dessa “igreja” comandada por demônios, e repousaria na verdadeira Esperança no Amor divino. Ao fim, foi assim que ele conseguiu finalmente repousar e partir deste mundo, reconhecendo a mentira do sangue e a verdade do espírito: sua verdadeira Elisabeta sempre esteve com Deus, e é apenas com Deus que ele pode consumar o seu amor de forma verdadeira.

E digo mais, sendo as coisas espirituais tão misteriosas, eu não me surpreenderia se Drácula entrasse no Paraíso com mais facilidade do que aqueles “homens santos” que lhe desesperaram ao condenar Elisabeta ao Inferno. Afinal, Jesus mesmo disse que alguns lhe dirão “Senhor, Senhor…”, mas ele pedirá que se apartem dele, pois negaram o pão e a água aos famintos e sedentos. Ora, famintos e sedentos do quê? Do Espírito, da consolação, da Esperança, do testemunho do Amor.

Existem duas lógicas em operação. Uma é a espiritual, da liberdade através do Amor divino. E a outra é carnal, da escravidão de uma Maldição que gera obsessão com a carne e o sangue. O erotismo corrompido dessa humanidade escrava do Ouroboros é um tema importante neste filme, especialmente do papel feminino na arte da sedução para este esquema de falência espiritual.

Há uma personagem lateral, Lucy, que se torna uma vítima de Drácula antes do grande desfecho com Mina. Em certo ponto o Dr. Van Helsing, especializado no tema do vampirismo (e talvez tratado como uma reencarnação de alguma antiga liderança da igreja da época originária de Drácula), diz a respeito de Mina:

Guarde-a bem. Caso contrário, a sua preciosa Lucy se tornará a cadela do diabo. Uma prostituta das trevas! Escute-me, meu jovem. Lucy não é uma vítima aleatória, atacada por mero acidente, você entende? Não. Ela é uma recruta voluntária, uma ansiosa seguidora, desenfreada. Eu ouso dizer, uma discípula devota. Ela é a concubina do diabo!

O Dr. Van Helsing possui conhecimentos meio esclarecidos e meio intuitivos sobre a natureza do problema espiritual do homem. Diz ele: “Civilização e sifilização avançaram juntos.” E: “Nos tornamos todos loucos de Deus, todos nós.” Mas sabe que os poderes infernais estão no lado derrotado e inferior da história, como um parasita que teme a perda de seu hospedeiro: “Nós aprendemos muito. Drácula nos teme. Ele teme o tempo. Se não temesse, não teria porque correr tanto.”

Drácula dá vários testemunhos também relevantes e intrigantes. Ao exaltar o poder do sangue, ele mostra a sua miserável condição de dependente. Ao comparar-se com animais (e mesmo ao transformar-se em algumas bestas), ele mostra como o decaimento espiritual do homem se dá na forma de uma redução a uma forma animalesca.

Diz ele, referindo-se aos lobos famintos, como se sua fome de sangue fosse sua virtude: “Escute-os: as crianças da noite. Que doce música eles produzem.” E diz também: “Há muito a se aprender com as feras.” Não nos lembra os argumentos do natalismo naturalista, nas idéias da equivalência do nomos divino à Lei Natural?

Algo honesto, ele sabe que sua graça é uma maldição: “Eu te condeno à viver na morte. À eterna fome pelo sangue vivo.”

E, ainda mentiroso, ele ainda se defende em nome de sua falsa justiça: “Eu, que servi a Cruz. Eu, que comandei nações, centenas de anos antes de você nascer. Eu fui traído. Veja o que o seu Deus fez comigo!

Drácula chega a emular Jesus em algumas situações, obviamente quando oferece seu sangue como origem da “vida”, de modo que quem dele tomar “viverá para sempre”, ou mesmo quando se lamenta: “Onde está o meu Deus? Ele me abandonou. Está tudo acabado.”

Mas é só no fim que existe o plot twist, a surpreendente virada com o final feliz.

Diz Mina: “Ali, na presença de Deus, eu entendi finalmente como o amor poderia nos libertar de todos os poderes das trevas. Nosso amor é mais forte que a morte.” A ênfase no termo “presença” é minha. É, afinal, na Presença de Deus que se desfaz toda a mentira. Vejam o detalhe curioso: se Drácula não confiasse que sua Elisabeta estaria salva para si por toda a Eternidade com Deus, jamais se desfaria a mentira daquela igreja que deu o falso testemunho que o desesperou originalmente.

O amor mais forte do que a morte é o testemunho que aquela antiga igreja não conseguiu dar para o pobre Conde Drácula, mas que Mina pôde, tantos séculos mais tarde. Era o que ele precisava. Drácula não estava, enfim, com fome de sangue, mas da promessa do Amor eterno.

E Drácula finalmente pede: “Me dê a paz.”

A paz é a morte das Obras da Carne e a rendição confiante ao Amor divino.

Nota espiritual: 6,1 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte7
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno6
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo7
Nota final6,1