Kant contra o transhumanismo da alma humana como substância separada

Ou seja, o sujeito transcendental, como já explicado antes, não pode existir.

Ou existe o sujeito absoluto, Ato Puro, que é a Substância divina, ou existe o sujeito relativo, com as duas potências de Percepção e Apetição, movidas pela ação do Intelecto e da Vontade, que atualizam sempre um limite dentro do Ser divino que é o único objeto de qualquer intuição possível.

Isto quer dizer que as idéias de “união mística”, “visão beatífica”, etc. correspondem mais ao gnosticismo de uma falsa deificação que nega a forma substancial do ser humano enquanto ser limitado, do que ao ideal cristão de reencarnação e de vida paradisíaca conforme o que Deus revelou sem confusão já nos fatos da vida humana atual.

A felicidade do ser limitado está em reconhecer a Graça própria de realizar a sua Apetição dentro do seu limite, pois nada que transcendesse a razão de ser da sua limitação lhe faria jamais sentido.

Assim, ao invés de querer ser como Deus, uma idéia transhumanista que nega a forma criada pelo Altíssimo, o que sempre é uma mentira e, no fundo, um desejo de morte, a satisfação da nossa forma substancial está em querer viver com Deus, ou seja, não a idéia de uma união que significaria apenas dissolução, mas a idéia de comunhão que é a condição de realização, no ser limitado, da sua Apetição.

Saber que não se sabe para a admissão do arbítrio das proposições dogmáticas, a partir de Kant

O empirista, enquanto cético, retoma a antiga labuta socrática de determinar limites à especulação da Razão natural, isto é, a este poder ilimitado que a psique tem de produzir a imagem da verdade.

Com isto a ciência, bem como a própria filosofia em geral, pode seguir seu custo sem ser incomodada com quaisquer obstruções do dogmatismo de qualquer parte, tanto da parte das credulidades quanto das incredulidades, para reconhecer o que é o seu domínio próprio de clareza.

Isto significa que uma boa Razão serve para assumir o arbítrio das proposições dogmáticas, e de criticar se essa espécie de proposição convém ou não à estrutura da possibilidade cognitiva do ser humano.

Como cristãos, somos obrigados a desconfiar da sabedoria dos homens (que é loucura para Deus), o que inicialmente nos poderia dar a idéia de rejeitar in limine todo tipo de especulação filosófica que não se baseasse em dados diretos da Revelação, inclusive a filosofia kantiana.

Mas um ser humano livre, consciente e responsável, não deveria antes indagar-se sobre se a investigação da Crítica da Razão não está justamente trabalhando a favor da denúncia da loucura da sabedoria dos homens, de modo a restringir o entendimento ao que é razoável? E não seria isto um estímulo ao dom de Humildade?

Pode ser que sim, mas também pode ser que não.

A resposta vai depender de como o limite da Crítica é usado pelo fiel que quer entender, com base na Graça divina, e com a finalidade de glorificar o Santo Nome, a condição da vida humana, principalmente a realidade de amar a Deus e ao próximo. Neste sentido a obra kantiana é indiferente: pode ser usada para este ou outro propósito, como uma ferramenta que pode ser usada para construir ou destruir, dependendo da intenção do seu usuário.

Os limites da Razão Pura como condições de operação da liberdade plena, em Kant

O uso transcendental da Razão serve para a investigação da possibilidade e da forma do Ser enquanto Substância Simples, ou seja da Mônada em si e de suas propriedades.

A Unidade em si, como singularidade indeterminada, é inapreensível (individuum est ineffabile).

O conhecimento é produto, ou da intuição sensível de uma representação do Ser –o que diríamos que é a Percepção que a Mônada tem de um aspecto de sua essência, a atualização do Múltiplo como aspecto da Unidade,– ou do entendimento reflexivo de uma representação do Ser enquanto idéia, forma ou conceito, o que chamamos de Apercepção que a Mônada tem de sua própria Percepção.

Isto quer dizer que quando a Razão investiga a Mônada em si, ela busca o que transcende o próprio conhecimento, que só pode ser intuição ou entendimento de um aspecto da Substância Simples, ou um Múltiplo derivado da Unidade.

Mas como ela pode fazer isso, ou seja, investigar o que é incognoscível tanto como objeto de intuição, como de entendimento?

Aí é que entra o valor da Crítica: a Razão só pode investigar as condições gerais de possibilidade de ser da Substância que transcende todo tipo de conhecimento contando com a premissa de que, por ela ter dado a forma dos conhecimentos que derivam de sua essência, ela deve ter na sua própria forma as condições que sejam compatíveis com o que dela reconhecemos por derivação.

Isto só pode se dar através de algum tipo de Idealismo restrito pela Crítica.

A restrição é necessária, caso contrário a Razão produzirá qualquer imagem da verdade que lhe convenha considerando as suas necessidades práticas, não podendo discernir, nessa sua arbitrariedade irrestrita, entre o que é mais ou menos conveniente pela própria integridade da Razão. Em suma: se a Substância simples não pode ser conhecida como se conhecem as realidades das intuições ou dos objetos puros do entendimento, ela só pode ser idealizada, mas se for idealizada sem limites, não poderá produzir nenhuma distinção qualitativa entre um ideal e outro, o que leva à prática do repouso em dogmatismos, a disputa de força entre ideais concorrentes sem o uso de nenhuma faculdade do juízo.

A Substância Simples transcende todo objeto de conhecimento da intuição ou do entendimento, mas não perde a propriedade de ser reconhecida por analogia a todo conhecimento possível. Embora a Unidade não possa ser apreendida psiquicamente (com o que poderíamos compará-la, senão com ela mesma?), ela é analogicamente reconhecida por analogia como fundamento de toda Multiplicidade possível. O que quer dizer que sempre que conhecemos algo, por intuição ou entendimento, conhecemos por analogia a Substância Simples através de um reflexo que só pode derivar dela.

A analogia pura guia, assim, o Idealismo Transcendental para o reconhecimento das propriedades da Mônada, embora não lhe dê nenhum conteúdo particular que requereria justamente o conhecimento de alguma intuição ou entendimento. A forma da Substância Simples é compatível com qualquer espécie de conteúdo, indiferenciadamente.

Reconhecemos as potências de Percepção e de Apetição, que são as operações de qualquer Intelecto e Vontade, respectivamente, mas de modo indiferenciado, sem conteúdo determinado, já que a esseidade da Mônada é a singularidade indeterminada que não restringe a operação de suas potências de nenhum modo particular.

Mas a partir daí temos, por essa restrição da Crítica da Razão, os elementos básicos que nos permitem condicionar a própria operação da liberdade humana: seja qual for a resposta da investigação do Idealismo Transcendental, ela terá a forma indeterminada e continente das propriedades da Substância Simples, com o conteúdo indiferenciado arbitrado pela liberdade humana. Nossa liberdade é condicionada pela forma da Mônada: tudo o que interessa é a busca do ideal que corresponda melhor às potências do Intelecto e da Vontade.

Mas qual é o melhor objeto do arbítrio, o que melhor corresponde à universalidade não só da condição humana, mas de qualquer ser contingente que possua a sua característica intelectual e volitiva, senão o Sumo Bem que responde perfeitamente e absolutamente a qualquer interesse prático possível?

Daí é que se pode usar, se assim se quiser proceder, a Crítica da Razão como recurso determinante dos limites da própria Razão para que a liberdade de confiança no Sumo Bem como causa formal e final de todo ser possível, o que já chamei de Teleologia Metaracional, que é uma premissa da Monadofilia.

A maneira de operar essa liberdade é a de restringi-la a um idealismo transcendental que se ponha apenas a questão de qual é o maior bem possível dadas como propriedades da Substância Simples somente o Intelecto e a Vontade sem diferenciação de objetos particulares.

Em outros termos: a busca do idealismo transcendental é a do maior bem possível para a Mônada que Percebe e Apetece, no uso de uma liberdade singular e indeterminada, para a produção de seu conteúdo, sem o prejuízo de nenhuma liberdade que tenha a mesma dignidade.

Desta busca derivamos a perfeição máxima como Coruscância, na forma da infalibilidade da Comunhão plena com o Espírito Santo, a qual requer, para a integridade da perfeição, a necessidade de uma experiência menos do que perfeita para a realização da liberdade do contingente (Eleuteriodiceia na justiça da mistura, e a RSMM na operação da obra divina de separação, ou santificação).

Entende-se assim, filosoficamente, os elementos da soteriologia cristã, quais sejam: os da Cruz (RSMM), Morte (fim da Mistura), e Ressurreição (Coruscância).

Perceba-se que sem a Crítica da Razão, de fato a arbitrariedade humana fica totalmente solta para definir os objetos mais inconvenientes da nossa crença, como ocorre com os dogmatismos problemáticos dos teísmos e dos ateísmos, sem reconhecer os limites da sua especulação que informam a conveniência do Sumo Bem como melhor objeto da operação da nossa liberdade. Nenhuma especulação sem limites negará as propriedades da Mônada, nem a conveniência subentendida da suas operações, sob pena de cair em um irracionalismo, mas pela sua arbritrariedade sem freios pode perder-se em considerações que só distanciarão a consciência humana do seu verdadeiro objetivo, isso quando não postulam as ilusões e mentiras que fazem aumentar o peso da Cruz, ao invés de aliviar.

Esta crítica não precisa ser feita ao modo kantiano, porém. Qualquer boa filosofia deveria ser capaz de chegar a este resultado, possivelmente de modo mais direto e menos problemático do que o procedimento do filósofo prussiano.

A transcendência da liberdade moral aos fundamentos naturais em Kant

Esse poder racional de acomodar as condições empíricas dentro de uma consideração que as transcendem é a base do fenômeno moral humano como ser que realiza a Metáxis, o homo pontifex: um representante de Deus no seio da natureza.

O ser humano que se vê como parte do cosmos, ainda que privilegiadamente no seu topo, não pode compreender a natureza da sua liberdade moral, pois toma como origem constitutiva da sua substância o que é apenas o cenário da realização do seu arbítrio. Todo condicionamento empírico, natural, causal, fenomênico, serve apenas como matéria-prima para a realização espiritual do ser humano, o qual só pode reconhecer a verdadeira origem da sua substância num Ser que transcende toda a série dos contingentes.

Assim, com Kant aprendemos como o jogo gnóstico dos prisioneiros da matéria não passa de um TEATRO. Isto é: ao invés de assumir a verdadeira natureza humana e, com ela, a responsabilidade da vida na Presença, o ser humano médio, decaído e amaldiçoado, prefere se ver como abandonado por Deus e finge apenas reagir a uma condição, como se ela não tivesse nenhuma relação com a sua forma de ser. Sua mentira pode chegar, finalmente, se for longe o bastante, ao cume quando ele passa, da idolatria da natureza à idolatria de si mesmo, do panteísmo naturalista ao humanismo antropocêntrico.

Quão pouco custava a liberdade, o mero preço de uma confissão, mas esse ser teimoso quer experimentar a sua própria desobediência até o fim. Um direito que não lhe pode ser tirado, mas que também, e com justiça, custará tudo o que tiver que custar.

A concomitância do progresso moral na evolução natural da senciência

Por que os que questionam a queda da natalidade de um ponto de vista naturalista ou agnóstico não concebem a hipótese de que a mudança no comportamento da espécie humana é uma decorrência natural do progresso moral concomitante à evolução natural da senciência?

Igualmente, por que não concebem que essa hipótese seria uma explicação satisfatória tanto para o Paradoxo de Fermi quanto também para qualquer cenário de desaparecimento de antigas civilizações terrestres que poderiam, supostamente, ter sido mais avançadas que a nossa no tempo presente?

Ocorre que se ignora a concomitância do progresso moral junto à evolução natural da senciência. Qual é, afinal, o efeito moral de um progresso material rápido e em massa numa civilização que alcançou a senciência?

Já concebemos, anteriormente, o atingimento de três níveis diferentes de civilizações sencientes:

1 – Fase de Sobrevivência

2 – Fase de Normalização

3 – Fase de Reflexão

Na Fase de Sobrevivência, uma espécie senciente possui a potência da consciência, mas ainda precisa usar toda a sua capacidade intelectual para garantir que atinja a sobrevivência como novo status quo, seja através de avanço da técnica, manejo de recursos, etc.

Na Fase de Normalização, uma espécie senciente já obteve o domínio dos meios de sobrevivência e possui finalmente uma consciência atual da sua condição, diante da qual passa a usar toda a sua capacidade intelectual para a normalização do status quo, seja através de ajustes no manejo dos recursos já dominados, seja na produção de uma cultura simbólica que justifique a sua condição (religião, filosofia, arte, etc.).

Na Fase de Reflexão, uma espécie senciente já alcançou o limite da normalização da sua condição e possui finalmente a reflexão da sua própria consciência, usando sua capacidade intelectual para o questionamento do status quo e a transcendência do mesmo, alcançando, por exemplo, a consciência da Mônada, do Idealismo Transcendental, da Metafilosofia, etc.

Quando uma espécie senciente atinge o nível civilizacional da Fase 3, ela naturalmente vai produzir gradativamente, entre seus indivíduos, de forma mais ou menos prática, a conveniência do Antinatalismo como consequência do questionamento da sua condição existencial.

Isto explica as atuais taxas de natalidade em decadência nas partes mais desenvolvidas do mundo, bem como explica as possibilidades tanto da extinção voluntária de civilizações terrestres antigas, bem como de eventuais civilizações extraterrestres.

A única maneira de ignorar ou mesmo de invalidar completamente esta hipótese seria através de uma resposta alternativa como resultado do progresso moral, o que esbarra necessariamente na vasta barreira da Antropodicéia: se o Paradoxo de Epicuro aboliu a validade da Teodicéia e Deus está injustificado, tanto mais ainda o ser humano também o estaria. O modo de superação desta barreira é a confiança numa fonte superior (transcendente) de moralidade, como algum tipo de panteísmo naturalista, mas isso teria então que ser defendido abertamente como crença teísta em contraste com as demais hipóteses de teísmo, justamente o que o pensamento ateísta e agnóstico evita fazer, porque então a sua crença poderia ser comparada como forma de teísmo com outras igualmente possíveis e talvez mais convenientes.

A divina comédia, livro por Dante ALIGHIERI

Comentário feito em anotações separadas, a serem lidas em vídeos próprios.

Esta visão é estritamente filosófica e espiritual, sem considerações de âmbito estético, de técnica poética, ou de ocultismo/esoterismo.

Nota espiritual: 2,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno2
Soberania/Gnosticismo1
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo2
Nota final2,9

Citação de Francis Bacon na Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant

Kant é um filósofo iluminista que trabalha na conciliação entre o racionalismo de Descartes e o empirismo de Hume. A verdade deve ser um fruto que vem tanto da Razão quanto da experiência.

Nascido em 22 de Abril de 1724 em Königsberg, Prússia Oriental, sua contribuição ao Aufklärung não pôde evitar a consolidação do hiato entre as futuras filosofias continental e analítica.

O filósofo prussiano abre a sua Crítica da Razão Pura citando Francis Bacon:

Pedimos que os homens não o considerem [a Grande Restauração, ou renovação das ciências] uma opinião, mas um trabalho sério; e que estejam convencidos de que lutamos para assentar os fundamentos não de alguma seita ou opinião arbitrária, mas sim para a utilidade e o engrandecimento da humanidade.”

Esta é uma escolha curiosa de palavras. Nosso dever crítico é o de localizar e exprimir as premissas desse pensamento.

Como de qualquer outro, aliás. Talvez seja importante explicar isso aos meus alunos que ainda não tenham essa noção.

Entender algo é conhecer as suas causas.

Sócrates inaugurou a consciência disso quando inverteu a lógica sofística: ao invés de seguir adiante somando novos argumentos para levar a vítima à conclusão desejada, o que constitui uma ação de Poder sobre o outro, o desejo de dominar e escravizar com a imagem da verdade, um filósofo investiga na direção oposta, para trás, ao se questionar o que deveria ser verdade como premissa para que a idéia proposta seja verdadeira ela mesma, ou seja, uma ação que constitui um ato de Amor sobre o outro, o desejo de libertar da mentira e do engano.

Por isso se diz que um filósofo é um amante, porque ele exerce um ato amoroso, ama a Verdade e ama a liberdade do próximo de conhecê-la. E também por isso a filosofia cristã é uma idéia tão viável, porque é a prática, no âmbito intelectual, dos Mandamentos: amar a Deus e ao próximo, através do amor pela Verdade em si mesma, e através do amor pela libertação do próximo contra a escravidão da mentira.

Dada uma idéia, o entendimento deve buscar as suas causas e não os seus efeitos, por mais desejáveis que estes possam aparentemente ser. A corrupção provém da mentira que legitima uma idéia pelo desejo de alcançar a conclusão. A libertação faz o oposto. Danem-se os nossos interesses mesquinhos, a Verdade deve ser honrada, inclusive e principalmente contra os nossos desejos mais imediatos. Não quero saber dos efeitos do discurso. Quero saber das suas causas. O que as coisas significam? O que deve ser verdadeiro antes, para que uma idéia também o seja depois?

Na citação escolhida por Kant, Francis Bacon contrapõe, em primeiro lugar, a idéia de OPINIÃO com a de SERIEDADE, e em segundo lugar, as idéias de SEITA e OPINIÃO ARBITRÁRIA com as de UTILIDADE e ENGRANDECIMENTO DA HUMANIDADE.

Entender o que Francis Bacon disse, e portanto o que Kant subscreveu, requer entender o que significam essas contraposições.

Ora, comecemos com a seguinte questão: por que uma opinião não pode ser séria?

Se uma opinião é um tipo de idéia, o que torna uma idéia séria ou não séria, para que atribuamos seriedade ou não a ela?

Opinião, ou doxa, é uma imagem da verdade que substitui o conhecimento da mesma, enquanto Ciência, ou episteme, é o próprio conhecimento da verdade.

Evidentemente, quando se possui acesso ao que é verdadeiro, não é preciso e nem conveniente presumir o que de outro modo o seria. A quem sabe algo, presumir qualquer outra possibilidade a respeito do que é sabido significa o que se sabe, e portanto trair a si próprio. É claro que isso deve ser evitado.

O nosso problema é que a ignorância é tão fundamental e constitutiva da situação humana, que a capacidade de se possuir o conhecimento pleno e acabado sobre o que quer que seja termina por ser mais um ideal do que uma realidade. Justamente com certos objetos de abstração pura, como os dados pela geometria e pela matemática, nós alcançamos o grau de perfeição desse ideal, apenas para voltar nossa mente à realidade onde a nossa consciência não consegue atribuir o mesmo tipo de veracidade aos objetos da experiência sensível, mesmo quando possuímos o tipo de conhecimento técnico que nos permite dominar a natureza antes de compreendê-la.

Isto significa que a Opinião (doxa) existe, e deve existir necessariamente, para atribuir possibilidade (eikasia) ou verossimilhança (pistis) àquilo que ainda não se pode conhecer cientificamente (episteme) como mais provável (dianoia) ou mesmo como certo (noesis).

Por outro lado, o que é seriedade?

Seriedade é o tratamento digno que é merecido por uma pessoa, assunto ou coisa. Quer dizer respeitar, honrar, dignificar, etc. O contrário da seriedade é a leviandade, o jogo, a falsidade, etc.

Voltemos à questão, então: porque uma opinião não pode ser séria?

O que torna uma idéia séria ou não séria?

Uma idéia séria é aquela que honra o seu objeto ou assunto, enquanto uma idéia não séria é aquela que o trai com desrespeito.

Ora, honrar e respeitar é uma ação moral que implica ter o objeto como importante e sério.

Por outro lado, opinar é uma ação intelectual que produz uma imagem da verdade na ausência do conhecimento mais provável ou certo da mesma.

Por que uma idéia não pode, na ausência de um conhecimento mais provável ou certo do seu objeto, honrar e respeitá-lo mesmo assim?

A contradição não existe necessariamente, porque a ação moral e a ação intelectual se referem a gêneros diferentes de seres.

Moralmente, escolhemos respeitar ou não o objeto ao qual nos referimos.

Intelectualmente, porém, escolhemos produzir uma idéia que tem um tipo de credibilidade variável conforme possuamos ou não o conhecimento desejado.

Uma opinião pode honrar o seu objeto e tratá-lo seriamente, sem subir seu grau de entendimento ao nível da ciência, tão somente porque isso pode não ser possível dada a condição comum da ignorância humana.

Um assunto ou problema mantém indefinidamente o seu grau de seriedade, independentemente da ignorância daquele que o trata. É assim que sabemos que a guerra em Gaza ou a proliferação de armas nucleares são problemas sérios sobre os quais não há uma solução científica a respeito, mas muitas opiniões que devem ser sérias ao nível desses problemas.

É o que o artista faz com sua imaginação, é o que o político faz com a sua promessa de governo, é o que o crente faz com a sua fé, etc.

Um cientista pode e deve restringir as suas idéias, enquanto científicas, ao âmbito apenas do que pode ser dado como provável ou certo. Mas todos os demais seres humanos que NECESSITAM crer em algo antes de sabê-lo para simplesmente viverem as suas vidas não só podem como devem produzir uma opinião que busque ser a mais séria e responsável possível, dadas as limitações da condição humana e certos valores tidos como princípios gerais para todos os casos, como os que baseiam a moralidade comum.

Opiniões, portanto, não só podem ser sérias como devem ser.

A evidência disso está na realidade humana de cada dia onde, por exemplo, é totalmente comum e esperado a responsabilização moral de uma pessoa pela sua opinião. Se nenhuma opinião pudesse ser séria, nenhuma opinião poderia ser contestada seriamente, por exemplo, pela verificação das suas consequências e pela imputação de responsabilidade aos seus proponentes.

Pior ainda, a motivação por trás da Grande Restauração, ou renovação das ciências, é ela mesma uma opinião e e não uma certeza, dado que se fosse certo seria objeto de demonstração e não de apologia. Veremos isso com mais detalhe mais tarde ao tratar da segunda contraposição.

E para destruir de vez essa noção de contraposição entre opinião e seriedade, convém lembrar que o princípio de qualquer investigação científica é uma opinião inicial, que é tratada como hipótese sobre o verdadeiro, e portanto seriamente, para que se possa seguir para as próximas etapas do processo. Ainda mais, as premissas de qualquer investigação são tomadas como autoevidentes por um ato de crença, e não por uma exaustiva demonstração, do contrário o próprio progresso científico seria inviável. Acredita-se que tal e qual premissa é válida por ter sido eventualmente demonstrada como a mais provável, mas a qualquer momento um pesquisador pode revisar aquilo que se tinha como premissa de método, ao introduzir uma nova hipótese a respeito.

Com isso tudo temos que a primeira contrariedade sugerida por Francis Bacon, e subscrita por Kant, é uma figura de estilo e não um conceito rigoroso.

Ou seja, os nossos amigos aqui querem nos convencer de que são rigorosos no ato mesmo de nos provar que não o são, ao menos no uso mais ligeiro e corrido da linguagem, onde se assemelham aos demais pobres mortais que são cheios de opiniões.

O ideal de ciência é o desejo de libertação da opinião como um tipo inferior e indesejado de idéia.

Pois bem, esse ideal nunca foi realizado na existência humana, nem mesmo no âmbito da ciência, já que a certeza continua sendo extremamente restrita a objetos de pura abstração e o resto depende, no máximo, de opiniões mais qualificadas por diferentes graus de credibilidade. Isso chega ao ponto, com a Falseabilidade de Popper, da confissão de uma consciência da investigação científica como um método de se trocar opiniões menos sérias por outras mais sérias, mas que só podem continuar a ser defendidas exatamente porque podem ser contestadas, ou seja, porque não significam uma certeza. Fazer ciência, quem diria, é fazer opiniões sérias, marginalmente mais qualificadas, justamente aquilo que os iluministas queriam negar, ou seja, o que queriam negar aos outros mas não a si mesmos.

Se o ideal da libertação da opinião nunca foi realizado, isto quer dizer que não passa de um objeto de imaginação e crença nos corações e mentes dos homens. E essa é exatamente a imaginação e a crença do Gnosticismo, a vontade de se libertar da necessidade de crença através da Gnose.

Infelizmente para os gnósticos, isso nunca vai passar de um sonho e de uma farsa. É uma mentira. O Conhecimento pleno só é possível ao Ser pleno, que é Deus. E Deus só tem um. Qualquer ser finito terá, diante do pleno possível que só um Logos divino pode dominar, um conhecimento necessariamente limitado e, portanto, uma condição existencial de ignorância permanente.

A forma do ser humano, como a de qualquer ser contingente, contém uma limitação que o determina constitutivamente. No nosso caso, temos o grande privilégio de sermos feitos, à imagem e semelhança do Criador, com Intelecto e Vontade. Isso significa que, ao contrário dos demais seres, somos agentes morais que completam a sua Percepção com a Apercepção: sabemos que sabemos um pouco, e sabemos que não sabemos todo o resto. A consciência da limitação da nossa forma deveria instruir o nosso Intelecto a assumir a condição humana de ignorância atual com a escolha moral livre e responsável mais compatível e condizente com esta realidade: a opção pelos dons de Soberania e Humildade.

Nos primórdios da História da Filosofia nós temos, na origem do platonismo, essa dupla influência decisiva que vai demarcar o território das possibilidades de todo o futuro filosofar humano: o gnosticismo pitagórico, algo transhumanista, para não dizer prometéico (ou luciferiano), e a responsabilidade socrática, que antecipa na história das idéias o valor moral cristão de humildade e mansidão.

Na minha obra e no meu ensino deixo claro a todos a minha escolha: pela responsabilidade moral contra a ilusão gnóstica. Aqui tratamos de um exemplo disso.

Depois continuamos com a análise da segunda contraposição, entre as noções de “seita” e “opinião arbitrária”, e “utilidade” e “engrandecimento da humanidade”.

A importância da Perfeição para o Argumento Ontológico e a Eleuteriodiceia

Quem medita sobre a Perfeição encontra os grandes recursos das idéias de Limite e Infinito. Enquanto o Limite determina a forma do ser e, portanto, do alcance da sua potência em direção à Perfeição, o Infinito se impõe como necessário para que o primeiro ser se realize no seu próprio Limite.

A Perfeição é a completude de atingimento de possibilidades que só podem ser determinadas por um Limite. Sem o Limite não pode haver Perfeição nos contingentes, porque não haveria completude. Já o Infinito é a causa necessária para que o primeiro ser limitado se realizasse, dado que numa série causal qualquer se o primeiro causado não tivesse o seu limite determinado por um ser sem limites (o Infinito que é causa de si mesmo), a sua potência jamais seria realizada. Deriva-se, assim, da Perfeição, o Limite e o Infinito. Para que haja Perfeição, os dois são necessários.

Ora, se um ser contingente não fosse limitado, nenhum outro lhe seria compossível. Rejeitado qualquer monismo radical, qualquer ser existe no limite entre o que pode ser e o que não pode ser, limite que define a forma dos compossíveis. Mas se cada ser contém a sua perfeição própria, dada pela sua forma, a perfeição do Infinito não é menos possível, quanto é na verdade mais provável. Ocorre que se em um ser particular a perfeição é uma potência essencialmente formal e apenas acidentalmente real, no âmbito do Absoluto (ou seja, do Infinito) a perfeição deve ser real, pois se não o fosse outro ser potencialmente mais perfeito seria possível como real, o que é contraditório com o Absoluto.

A perfeição de qualquer contingente é potência apenas eventualmente atualizável. Já a perfeição do Absoluto, ou Infinito, além de possível deve igualmente ser real, ou existente. Se não o fosse, outro ser maior que contivesse essa qualidade teria que lhe superar, o que contraditaria a sua essência. Em outros termos: para que a Perfeição como qualidade do Infinito seja possível, ela deve ser real, pois o Perfeito sem limites que não é real não é perfeito, já que um outro possível lhe superaria, o que constituiria um limite ao seu ser e, portanto, uma contradição. Em suma: no contingente a perfeição é acidental, já no Absoluto, ou Infinito, a perfeição é essencial. O perfeito que não é real não é perfeito, a não ser nos contingentes, onde essa potência pode não se atualizar. A meditação a respeito de Deus deveria sempre respeitar essa qualidade formal dos conceitos de Infinito e Perfeição, e da necessidade de ambos. Foi isto o que Anselmo da Cantuária quis expressar no seu Argumento Ontológico: se Deus é considerado na sua qualidade presumida, Ele deve ser real necessariamente, por um atributo da sua forma. Escolasticamente se afirma, também, que em Deus não existe diferença entre o ente e a essência (Tomás de Aquino), e que o ser onde essa diferença é abolida não só é possível, como é necessário.

Além disso, encontramos a impossibilidade da hipótese do Paraíso imediato, sem a agência da Cruz, desde que este implica num grau de perfeição que contradiz qualquer falha no exercício da Liberdade das mônadas. A perfeição paradisíaca, por um lado, requer a presença de seres livres que constituam a maior bem-aventurança possível, sendo um paraíso sem liberdade uma contradição; por outro lado, requer uma experiência real de liberdade que lhe anteceda, em alguma medida de individuação que lhe permita a Coruscância de forma plena, ou seja, imaculada.

Esta meditação mostra como da Perfeição, já dada como necessária, se deriva alguma experiência de Cruz também como necessária. Esta necessidade não tem nada a ver com a teologia do sacrifício de sangue, como se supõe na teologia das religiões cristãs. Aliás, o sacrifício perfeito do Cordeiro deveria eliminar qualquer necessidade de sofrimento adicional a partir da conversão. Um convertido deveria ser imediatamente arrebatado assim que se desse a sua conversão. Ao contrário, Jesus indica que cada um deve carregar a sua cruz, independentemente da sua ação sacrificial que tem, na verdade, outra função espiritual (a da Revelação). A Cruz é necessária para que a perfeição paradisíaca se realize. Não há Paraíso sem Perfeição. E não há Perfeição onde tudo não tenha alcançado a sua completude. Duas coisas são incompossíveis, portanto, com o Paraíso: primeiro, a ausência da liberdade, que é a única realidade que torna a bem-aventurança uma plena glorificação do Criador, e segundo, a não realização desta liberdade no ato mesmo de aceitação dessa comunhão espiritual. O aceite deve anteceder a condição  paradisíaca em qualquer grau de perfeição menor, e isto é o que podemos chamar de Cruz no sentido mais universal, aplicável a todos os mundos possíveis, ou melhor, a todas as mônadas. A Coruscância, sendo a comunhão total sem defeitos, requer a Cruz como condição da realização da liberdade.

Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM)

Assumida a premissa da Eleuteriodiceia que justificou a liberdade exercida como condição da perfeição da Coruscância, encontramos na esseidade da mônada uma carência tão própria de experiência do mal que a mesma pode ser entendida como tão única quanto a sua própria singularidade.

Isto é o que confunde a imaginação gnóstica na sua noção de complementaridade de luz e trevas, e de bem e mal: a liberdade de um contingente imperfeito. A mistura não é uma determinação derivada do ser divino, mas do criado, e é regulada pela sua vontade de experiência da imperfeição, ou seja, o desejo do mal é uma arbitrariedade da mônada criada. Isto precisa ser permitido, do contrário a mônada não pode escolher livremente a comunhão com o Amor divino pela eternidade, ou seja, não pode entrar no Paraíso. Epistemologicamente, diríamos que o desejo das trevas, ou do mal, corresponde ao requisito de autoconhecimento que a mônada possui antes de entregar-se ao Amor divino como única solução ao seu desejo de Bem. A obscuridade é a propriedade da mônada que por si não possui o seu bem. Conhecendo a si mesma, a mônada se entende como carente do Bem transcendente, e finalmente pode compreender como que a função do seu ser não é o de brilhar por si, mas o de refletir uma luz exterior.

Garantido o conhecimento pleno do Logos, temos por outro lado, no domínio da Onisciência divina, a noção precisa da medida própria de cada mônada na sua arbitragem particular, de tal modo que a Providência determina com precisão infalível qual deve ser a experiência de cada alma no grande concerto da Mútua Representação.

Conhecedor dos futuros contingentes, o Criador, pela sua arte divina, pode produzir o arranjo ótimo que fornece a oportunidade de realização da liberdade de cada mônada na harmonia total da mutualidade.

Essa medida, que podemos chamar de Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM), se encontra exatamente entre os extremos limites restritores, ou seja, entre todo o benefício que constitui a dissolução da Liberdade por um lado, e todo o malefício que seria invencível para o alcance da Liberdade de crença da mônada, por outro. Arbitrada contingencialmente e de solução variável no tempo, a RSMM só pode ser dominada pelo dom divino do Criador, embora possa ser intuída com variados graus de acerto por quem medite sobre isso.

Essa meditação certamente é uma das mais difíceis, dado o seu grau elevado de sutileza. Primeiro convém perceber como o Bem irrestrito extinguiria a possibilidade da Liberdade, como um oceano afogando uma vítima. Segundo, convém verificar como igualmente o Mal irrestrito sufocaria a crença livre da mônada, que apesar de poder desejar o Bem, só o faz dentro da sua capacidade. Por mais que essa capacidade seja arbitrada, Deus já conhece esse limite e nunca o ultrapassaria, pois o objetivo é a realização da liberdade dentro do escopo da possibilidade da mônada. Como podemos ver no diagrama acima, assim como a Cruz pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é ideal, ou seja, entre a experiência atual e o Bem divino, a RSMM pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é apetecido, ou seja, entre a experiência atual e o Bem presumido, arbitrado pela própria mônada. A experiência de vida mais humilde e mansa, na imitação de Cristo, é aquela em que, enxergando o mais valioso segmento da Cruz, livremente se aceita diminuir a diferença entre o percebido e o apetecido reduzindo a pretensão e, portanto, o sofrimento. O sofrimento da alma é gerado por ela mesma, pela desmesura da sua Pretensão, ou falta de Humildade. Nós geramos o nosso sofrimento. Há analogias em outras filosofias e linhas espirituais, como no “querer é sofrer” de Schopenhauer, ou no budismo, etc., embora somente a visão cristã supere o gnosticismo que desconfia da potência da realidade, e não somente da própria mônada na condição de experiência da Liberdade antes da Coruscância paradisíaca. Essas outras doutrinas podem ajudar no quesito do autoconhecimento necessário para se descobrir as trevas, mas não conseguem superar esta aporia, daí o seu desejo de morte através de conceitos de “absorção na Unidade”, “visão beatífica”, “união mística”, etc. Possuem a negação do mal, mas não conseguem afirmar um bem que não seja o universal, porque não compreendem a propriedade reflexiva da mônada, que é a sua virtude de amar o Criador. Essas doutrinas livram a alma do engano das virgens loucas que se dispersam com os elementos do mundo, mas não ensina a virtude das virgens prudentes que esperam o Noivo. Apenas o Filho de Deus encarnado Filho do Homem pôde prometer o bem próprio das criaturas enquanto tais, sem dissolução, sem absorção, etc., na comunhão perfeita onde há união sem confusão, em analogia com a natureza trinitária das pessoas divinas.

A soteriologia monadofílica, ou ciência da salvação da mônada, afirma que é salva a alma que realiza a sua Fé e Esperança no Amor divino, encontrando-se na sua medida própria que satisfaz a sua arbitragem particular.

Esta proximidade da liberdade da mônada com a condição da sua salvação dá a impressão de um processo de salvação próprio, de iluminação ou ascese, mas bem entendido o único elemento determinante do sucesso da mônada é negativo, como a passividade da Lua que tem como vocação brilhar na sua virtude de refletir a luz do Sol. A virtude humana é a aceitação do Amor divino, ou seja, o triunfo e a glória pertence totalmente ao Criador, restando-nos somente a nossa rendição em êxtase diante da majestade do seu Amor.

Revisão da origem dos Sindar e Teleri a partir da RSMM

Com a Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM) evidenciamos finalmente que embora nenhuma alma tenha jamais “pedido para nascer”, todas elas possuem a sua medida de experiência necessária para a solução ótima (Coruscância Calaquendi) que torna eventualmente conveniente o seu nascimento sob determinada condição, inclusive a Sindar.

Seria absurdo presumir que a acidentalidade da escolha particular de uma mônada interferisse nesse grau na experiência de uma outra. Esta dificuldade sempre me incomodou. Já havia reduzido o problema ontológico com a Mútua Representação, mas permanecia essa dificuldade da força das obras da carne como um arbítrio que, embora fosse sempre permitido por Deus, teria sua razão em suspenso. É claro que poderíamos manter essa razão no grande conjunto dos mistérios divinos, mas com a RSMM detectamos que a força da liberdade de cada mônada de carecer de certa experiência para alcançar o ponto ótimo de decisão, já conhecido desde a Eternidade por Deus, seria um fator muito mais determinante desse condicionamento do que a força de um terceiro.

Dito isso, qualquer alma particular poupada de nascer pela virtude de abstinência de seus potenciais pais num mundo determinado conserva em si a sua carência de experimentar a melhor condição possível, considerada a RSMM, em outra realidade em que seus pais realizem a sua potência generativa. Isso não só preserva a integridade da Mútua Representação, como reforça o aspecto interior da experiência humana com Deus, quase alcançando a analogia pura da Simulação. Em outros termos: a imitação de Cristo, ou a vocação da Abstenção do Poder, em nada interfere no destino das demais mônadas, mas apenas naquela que exerce a sua discricionariedade diante de Deus. A rejeição do Pecado Original é um ato totalmente interior: na sua intenção, na sua realização, e nos seus efeitos. Em nada convém que a arbitrariedade de uma mônada interfira no exercício da liberdade de outra diante de Deus. As coisas são como devem ser, se não exatamente, marginalmente próximas do ótimo com a variação mínima da latitude necessária para a própria RSMM.

Quem se abstém de agir com Presunção na reprodução das obras da carne, embora evite a causa de um malefício particular percebido como imediato, não tem o poder de poupar uma alma de passar pela experiência análoga em qualquer outra realidade, porque a necessidade dessa experiência é determinada pela RSMM do próprio nascituro. Vivemos todos sempre e apenas para Deus, na Presença. Aquele que evita a produção do mal realiza a sua ação diante de Deus, para se aproximar Dele. E aquele que nasce é vítima, por assim dizer, de si mesmo, desde que precisa realizar a sua liberdade com algum grau inescapável de experiência do mal. Não abolimos, assim, a realidade moral. A responsabilidade, na verdade, aumenta, porque a renúncia do mal não implica apenas na mudança de um acidente, mas sempre numa ação moral diante do Altíssimo. O amor ao próximo como dom de perdão pode atingir, através da compreensão disto, o seu auge: não depende daquele que é perdoado alcançar um benefício moral, mas daquele que perdoa, porque aceita a sua condição como Cruz determinada pela Providência. Vemos, assim, como a moralidade do Antinatalismo está perto e longe ao mesmo tempo da verdade da condição humana: compreende o mal da Pretensão e da irresponsabilidade moral, mas não entende como a realidade do nascimento é permitida por Deus para a realização da sua própria liberdade. Os que seguem esta linha de pensamento evitam, na sua cegueira, a graça de descobrirem o maior mérito da sua posição de rejeição do Pacto Ouroboros, que é a vida na Presença. E não vamos nos esquecer que tanto quanto a RSMM explica a necessidade que tais e quais almas nasçam na condição Sindar, ela também explica porque muitas devam experimentar a particularidade da paternidade e maternidade. Ninguém pode privar realmente uma alma de participar no Pecado Original: àquelas que prescindiriam dessa experiência, outra realidade já lhes seria providenciada, como esterilidade, acidentes, etc. Desejar que o outro não exerça a sua liberdade é na melhor das hipóteses um incômodo que não muda o dever-ser da mônada, e na pior é um indicador da dureza da alma daquele que quer interferir.

Resta-nos revisar a origem dos Teleri nos tempos interressurreicionais como exclusivamente dedicada às almas que sempre possuíram uma RSMM adequada a essa modalidade criativa. Deste modo, os filhos potenciais que nunca teriam a oportunidade de nascer como Sindar podem encarnar como Teleri, sempre uma multidão muito maior do que os que nasceram neste mundo. Mas os não nascidos por abstenção, se tivessem que nascer o farão de qualquer modo, em qualquer outra realidade que lhes seja apropriada, com pais dispostos, etc.

Antes entendíamos, erroneamente, que o ato de preservar uma alma de nascer numa condição particular como resultado de participação no Pacto Ouroboros teria o poder de enviá-la imediatamente à melhor condição de criação direta por Deus no âmbito do Milênio. Somente Deus teria esse poder, e o exerceria obviamente se isso correspondesse ao ótimo determinado pela RSMM de cada mônada. Se esse fosse o caso, porém, nenhum de nós teríamos o poder, ao contrário, de encarnar uma alma neste mundo, se ela pudesse ser criada em outro melhor. Não podemos assassinar quem não seria assassinado de qualquer forma, assim como não podemos poupar uma pessoa de experimentar o mal se isto for condição da RSMM, mas podemos apenas poupar a nós mesmos de experimentá-lo e produzi-lo. Se alguém tem que ser assassinado, por assim dizer, só podemos evitar que sejamos nós quem cometamos o crime, mas não que o crime em si seja cometido, se isto é uma experiência requerida por aquela mônada. Com a RSMM temos a medida delicada da fina fronteira entre Determinismo e Livre-Arbítrio: modificamos a nossa vontade livre, com a condição que aceitemos a impossibilidade de modificar a alheia.