Assumida a premissa da Eleuteriodiceia que justificou a liberdade exercida como condição da perfeição da Coruscância, encontramos na esseidade da mônada uma carência tão própria de experiência do mal que a mesma pode ser entendida como tão única quanto a sua própria singularidade.
Isto é o que confunde a imaginação gnóstica na sua noção de complementaridade de luz e trevas, e de bem e mal: a liberdade de um contingente imperfeito. A mistura não é uma determinação derivada do ser divino, mas do criado, e é regulada pela sua vontade de experiência da imperfeição, ou seja, o desejo do mal é uma arbitrariedade da mônada criada. Isto precisa ser permitido, do contrário a mônada não pode escolher livremente a comunhão com o Amor divino pela eternidade, ou seja, não pode entrar no Paraíso.Epistemologicamente, diríamos que o desejo das trevas, ou do mal, corresponde ao requisito de autoconhecimento que a mônada possui antes de entregar-se ao Amor divino como única solução ao seu desejo de Bem. A obscuridade é a propriedade da mônada que por si não possui o seu bem. Conhecendo a si mesma, a mônada se entende como carente do Bem transcendente, e finalmente pode compreender como que a função do seu ser não é o de brilhar por si, mas o de refletir uma luz exterior.
Garantido o conhecimento pleno do Logos, temos por outro lado, no domínio da Onisciência divina, a noção precisa da medida própria de cada mônada na sua arbitragem particular, de tal modo que a Providência determina com precisão infalível qual deve ser a experiência de cada alma no grande concerto da Mútua Representação.
Conhecedor dos futuros contingentes, o Criador, pela sua arte divina, pode produzir o arranjo ótimo que fornece a oportunidade de realização da liberdade de cada mônada na harmonia total da mutualidade.
Essa medida, que podemos chamar de Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM), se encontra exatamente entre os extremos limites restritores, ou seja, entre todo o benefício que constitui a dissolução da Liberdade por um lado, e todo o malefício que seria invencível para o alcance da Liberdade de crença da mônada, por outro. Arbitrada contingencialmente e de solução variável no tempo, a RSMM só pode ser dominada pelo dom divino do Criador, embora possa ser intuída com variados graus de acerto por quem medite sobre isso.
Essa meditação certamente é uma das mais difíceis, dado o seu grau elevado de sutileza. Primeiro convém perceber como o Bem irrestrito extinguiria a possibilidade da Liberdade, como um oceano afogando uma vítima. Segundo, convém verificar como igualmente o Mal irrestrito sufocaria a crença livre da mônada, que apesar de poder desejar o Bem, só o faz dentro da sua capacidade. Por mais que essa capacidade seja arbitrada, Deus já conhece esse limite e nunca o ultrapassaria, pois o objetivo é a realização da liberdade dentro do escopo da possibilidade da mônada. Como podemos ver no diagrama acima, assim como a Cruz pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é ideal, ou seja, entre a experiência atual e o Bem divino, a RSMM pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é apetecido, ou seja, entre a experiência atual e o Bem presumido, arbitrado pela própria mônada. A experiência de vida mais humilde e mansa, na imitação de Cristo, é aquela em que, enxergando o mais valioso segmento da Cruz, livremente se aceita diminuir a diferença entre o percebido e o apetecido reduzindo a pretensão e, portanto, o sofrimento. O sofrimento da alma é gerado por ela mesma, pela desmesura da sua Pretensão, ou falta de Humildade. Nós geramos o nosso sofrimento. Há analogias em outras filosofias e linhas espirituais, como no “querer é sofrer” de Schopenhauer, ou no budismo, etc., embora somente a visão cristã supere o gnosticismo que desconfia da potência da realidade, e não somente da própria mônada na condição de experiência da Liberdade antes da Coruscância paradisíaca.Essas outras doutrinas podem ajudar no quesito do autoconhecimento necessário para se descobrir as trevas, mas não conseguem superar esta aporia, daí o seu desejo de morte através de conceitos de “absorção na Unidade”, “visão beatífica”, “união mística”, etc. Possuem a negação do mal, mas não conseguem afirmar um bem que não seja o universal, porque não compreendem a propriedade reflexiva da mônada, que é a sua virtude de amar o Criador.Essas doutrinas livram a alma do engano das virgens loucas que se dispersam com os elementos do mundo, mas não ensina a virtude das virgens prudentes que esperam o Noivo. Apenas o Filho de Deus encarnado Filho do Homem pôde prometer o bem próprio das criaturas enquanto tais, sem dissolução, sem absorção, etc., na comunhão perfeita onde há união sem confusão, em analogia com a natureza trinitária das pessoas divinas.
A soteriologia monadofílica, ou ciência da salvação da mônada, afirma que é salva a alma que realiza a sua Fé e Esperança no Amor divino, encontrando-se na sua medida própria que satisfaz a sua arbitragem particular.
Esta proximidade da liberdade da mônada com a condição da sua salvação dá a impressão de um processo de salvação próprio, de iluminação ou ascese, mas bem entendido o único elemento determinante do sucesso da mônada é negativo, como a passividade da Lua que tem como vocação brilhar na sua virtude de refletir a luz do Sol. A virtude humana é a aceitação do Amor divino, ou seja, o triunfo e a glória pertence totalmente ao Criador, restando-nos somente a nossa rendição em êxtase diante da majestade do seu Amor.
Com a Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM) evidenciamos finalmente que embora nenhuma alma tenha jamais “pedido para nascer”, todas elas possuem a sua medida de experiência necessária para a solução ótima (Coruscância Calaquendi) que torna eventualmente conveniente o seu nascimento sob determinada condição, inclusive a Sindar.
Seria absurdo presumir que a acidentalidade da escolha particular de uma mônada interferisse nesse grau na experiência de uma outra. Esta dificuldade sempre me incomodou. Já havia reduzido o problema ontológico com a Mútua Representação, mas permanecia essa dificuldade da força das obras da carne como um arbítrio que, embora fosse sempre permitido por Deus, teria sua razão em suspenso. É claro que poderíamos manter essa razão no grande conjunto dos mistérios divinos, mas com a RSMM detectamos que a força da liberdade de cada mônada de carecer de certa experiência para alcançar o ponto ótimo de decisão, já conhecido desde a Eternidade por Deus, seria um fator muito mais determinante desse condicionamento do que a força de um terceiro.
Dito isso, qualquer alma particular poupada de nascer pela virtude de abstinência de seus potenciais pais num mundo determinado conserva em si a sua carência de experimentar a melhor condição possível, considerada a RSMM, em outra realidade em que seus pais realizem a sua potência generativa. Isso não só preserva a integridade da Mútua Representação, como reforça o aspecto interior da experiência humana com Deus, quase alcançando a analogia pura da Simulação. Em outros termos: a imitação de Cristo, ou a vocação da Abstenção do Poder, em nada interfere no destino das demais mônadas, mas apenas naquela que exerce a sua discricionariedade diante de Deus. A rejeição do Pecado Original é um ato totalmente interior: na sua intenção, na sua realização, e nos seus efeitos. Em nada convém que a arbitrariedade de uma mônada interfira no exercício da liberdade de outra diante de Deus. As coisas são como devem ser, se não exatamente, marginalmente próximas do ótimo com a variação mínima da latitude necessária para a própria RSMM.
Quem se abstém de agir com Presunção na reprodução das obras da carne, embora evite a causa de um malefício particular percebido como imediato, não tem o poder de poupar uma alma de passar pela experiência análoga em qualquer outra realidade, porque a necessidade dessa experiência é determinada pela RSMM do próprio nascituro. Vivemos todos sempre e apenas para Deus, na Presença. Aquele que evita a produção do mal realiza a sua ação diante de Deus, para se aproximar Dele. E aquele que nasce é vítima, por assim dizer, de si mesmo, desde que precisa realizar a sua liberdade com algum grau inescapável de experiência do mal. Não abolimos, assim, a realidade moral. A responsabilidade, na verdade, aumenta, porque a renúncia do mal não implica apenas na mudança de um acidente, mas sempre numa ação moral diante do Altíssimo. O amor ao próximo como dom de perdão pode atingir, através da compreensão disto, o seu auge: não depende daquele que é perdoado alcançar um benefício moral, mas daquele que perdoa, porque aceita a sua condição como Cruz determinada pela Providência.Vemos, assim, como a moralidade do Antinatalismo está perto e longe ao mesmo tempo da verdade da condição humana: compreende o mal da Pretensão e da irresponsabilidade moral, mas não entende como a realidade do nascimento é permitida por Deus para a realização da sua própria liberdade. Os que seguem esta linha de pensamento evitam, na sua cegueira, a graça de descobrirem o maior mérito da sua posição de rejeição do Pacto Ouroboros, que é a vida na Presença.E não vamos nos esquecer que tanto quanto a RSMM explica a necessidade que tais e quais almas nasçam na condição Sindar, ela também explica porque muitas devam experimentar a particularidade da paternidade e maternidade. Ninguém pode privar realmente uma alma de participar no Pecado Original: àquelas que prescindiriam dessa experiência, outra realidade já lhes seria providenciada, como esterilidade, acidentes, etc. Desejar que o outro não exerça a sua liberdade é na melhor das hipóteses um incômodo que não muda o dever-ser da mônada, e na pior é um indicador da dureza da alma daquele que quer interferir.
Resta-nos revisar a origem dos Teleri nos tempos interressurreicionais como exclusivamente dedicada às almas que sempre possuíram uma RSMM adequada a essa modalidade criativa. Deste modo, os filhos potenciais que nunca teriam a oportunidade de nascer como Sindar podem encarnar como Teleri, sempre uma multidão muito maior do que os que nasceram neste mundo. Mas os não nascidos por abstenção, se tivessem que nascer o farão de qualquer modo, em qualquer outra realidade que lhes seja apropriada, com pais dispostos, etc.
Antes entendíamos, erroneamente, que o ato de preservar uma alma de nascer numa condição particular como resultado de participação no Pacto Ouroboros teria o poder de enviá-la imediatamente à melhor condição de criação direta por Deus no âmbito do Milênio. Somente Deus teria esse poder, e o exerceria obviamente se isso correspondesse ao ótimo determinado pela RSMM de cada mônada. Se esse fosse o caso, porém, nenhum de nós teríamos o poder, ao contrário, de encarnar uma alma neste mundo, se ela pudesse ser criada em outro melhor. Não podemos assassinar quem não seria assassinado de qualquer forma, assim como não podemos poupar uma pessoa de experimentar o mal se isto for condição da RSMM, mas podemos apenas poupar a nós mesmos de experimentá-lo e produzi-lo. Se alguém tem que ser assassinado, por assim dizer, só podemos evitar que sejamos nós quem cometamos o crime, mas não que o crime em si seja cometido, se isto é uma experiência requerida por aquela mônada. Com a RSMM temos a medida delicada da fina fronteira entre Determinismo e Livre-Arbítrio: modificamos a nossa vontade livre, com a condição que aceitemos a impossibilidade de modificar a alheia.
“…e que estejam convencidos de que lutamos para assentar os fundamentos não de alguma seita ou opinião arbitrária, mas sim para a utilidade e o engrandecimento da humanidade.”
Continuemos com o contraponto à citação de Francis Bacon escolhida por Kant para a abertura da sua obra magna, a Crítica da Razão Pura.
Para um professor membro da Real Academia de Ciências de Berlim, até que o nosso cuidadoso e criterioso filósofo prussiano foi mais desleixado do que se poderia supor que seria ao escolher a supracitada frase de Bacon, porque não é difícil produzir o contraponto e ilustrar a inconsistência.
O referido autor quer que sejamos convencidos de que está fazendo um bem contrário a um mal, e designa o primeiro com os termos UTILIDADE e ENGRANDECIMENTO DA HUMANIDADE, em oposição ao que seria o assentamento de uma SEITA ou OPINIÃO ARBITRÁRIA.
Mas será que as idéias, respectivamente, de utilitarismo e de exaltação da humanidade (ou progresso), são tão separadas e opostas das idéias de seita e opinião arbitrária?
É o que se teria que ter como premissa autoevidente para que o argumento funcionasse. Mas não é o caso.
Por um lado, o utilitarismo, que é um sistema de valoração que atribui bondade ao que é útil e maldade ao que não é, ao contrário de ser uma verdade óbvia acima de qualquer questionamento, é uma idéia altamente questionável, especialmente do ponto de vista moral, mas não somente (dado o óbvio problema do relativismo de uma ética utilitarista).
Por outro lado, o humanismo, que é um outro sistema de valoração que atribui bondade ao ser humano e aos seus empreendimentos civilizacionais, culturais e históricos, também pode ser questionado facilmente, como aliás era o caso na cultura imediatamente antecedente, a medieval, para não falar da antiga.
Ambos, tanto utilitarismo quanto humanismo, podem ser aderidos como opiniões arbitrárias e também servir de base para a fundamentação de uma seita, como a seita dos iluministas, e acabam que devem ser, pois o contrário sempre é igualmente crível: que há valores superiores ao do critério de utilidade, assim como que há possíveis objetos superiores acima da devoção à idéia da humanidade.
Isso só poderia passar despercebido ao momento do Aufklärung justamente porque este movimento cultural faz parte da dialética histórica, ou seja, de um mero ajuste contra um excesso histórico que já havia produzido muita cristalização na outra direção, especialmente através da concentração de poder nas mãos da Igreja Católica. Esse era o verdadeiro problema, cuja solução iluminista, ao invés de temperar na medida certa e buscar uma correção mais afinada, causou excesso para o outro lado, o que teria então que ser novamente corrigido dialeticamente, e assim por diante.
Tudo ficaria mais fácil, ou, em outros termos, o ajuste seria mais refinado, se o ser humano se concentrasse no seu fenômeno moral como centro da sua realidade, e produzisse a visão de mundo mais adequada ao respeito à sua liberdade, ao invés de compensar um gnosticismo com o outro. Já falamos aqui sobre a dialética gnóstica do Ouroboros. Esse é o perigo constante das reações para os dois lados da história. A dor é real: uma agressão contra a liberdade humana, dom divino de um ser feito à imagem e semelhança do Criador. Mas a solução é falsa, pois custará a clareza da liberdade por outro lado. Exatamente como ocorre com os iluministas. Eles reagiram a uma dor causada pela opressão da liberdade em decorrência do dogmatismo da ortodoxia religiosa. Se apenas defendessem a realidade do império da liberdade, sua correção operaria com a restrição devida. Mas a pancada vem como uma reação violenta proporcional ao dano sentido, gerando um novo dogmatismo. Liberta-se do antropocentrismo que idolatrava o homem ideal do passado, religioso ortodoxo, para prender-se no antropocentrismo que idolatra o homem ideal do futuro, racionalista iluminista.
Jogou-se fora, na reação contra a forma concreta da fé religiosa, a sabedoria da fé como dom puro decorrente do fenômeno liberdade humana de crer, e entronizou-se assim esses totens como a Utilidade ou a Humanidade, em atitude de total desprezo ao Amor de Deus. A culpa por todas as insanidades iluministas deve recair sobre a Religião: se não fosse o abuso religioso, nunca teria havido a abuso da reação contra ele.
Além do desprezo ao Amor de Deus, há o desprezo ao próprio ser humano, algo que é irônico numa agenda humanista, mas esta é a realidade: o humanismo é anti-humanitário por violar, enquanto crença arbitrária no ídolo do homem, o verdadeiro valor humano que está na liberdade de crer num ideal muito superior ao humanista, que é o divino.
Rejeita-se não apenas o Amor de Deus, mas a própria Soberania humana.
A linguagem de Bacon, preferida por Kant para ilustrar a sua própria intenção, propõe crenças como razões contrárias ao pensamento de seita e ao arbítrio humano, uma óbvia cegueira, falta de visão da visão, noesis noeseos, que é a verdadeira consciência humana: consciência da liberdade, e da força da Vontade para arbitrar os objetos do Intelecto. Se os iluministas tivessem investigado isso, estariam muito mais pertos de realmente superar a escolástica medieval, pois corrigiria o que realmente carecia de correção, para não falar de destruição: a Gnose.
Porém, a citação de Bacon não se encontra no fim da Crítica, mas no seu começo, o que é significativo. Kant, ao seu modo, mesmo que ainda algo iludido com as luzes do racionalismo, pretende criticar o próprio sonho de Bacon e colocar-lhe limites, ainda que não pelas razões certas. Monadofilicamente, a obra do prussiano parece-me ambígua. Se considerarmos a sua preocupação de defender uma moral degradante em face do próprio Iluminismo, podemos tê-lo, senão como um verdadeiro amante da sabedoria, ao menos como um inimigo da ignorância, o que já é alguma coisa.
“Eles [cientistas modernos] compreenderam que a razão só entende aquilo que ela mesma produz.”
“A física deve ser grata por procurar na natureza aquilo que a própria razão nela introduziu.”
“Só podemos conhecer a priori das coisas aquilo que nós mesmos nelas colocamos.”
Qualquer gnosiologia responsável deveria concluir, ao fim da investigação do seu objeto, que a razão humana sempre vê a si mesma em reflexo quando abstrai totalmente a qualidade própria da representação. Nisto reconhecemos o mérito da filosofia kantiana que força a razão humana a reconhecer os seus próprios jogos. Mas porque esta investigação falhou na busca da noesis noeseos, a ponto de que a consecução desta filosofia não foi mais do que o engrandecimento do humanismo?
Poderíamos colocar a culpa nos discípulos, como sempre convém considerar, já que é uma situação tão comum, mas neste caso talvez não tanto assim. Se Kant assumisse como forma provável do ser aquela que mais conviesse a todos os possíveis contingentes, ele não poderia assumir a conveniência do Sumo Bem, nem que por hipótese? E se o fizesse, mesmo que dividindo claramente a tarefa da Razão Pura de uma Metafísica especulativa, não poderia progredir no avanço desta sem detrimento daquela? Talvez caiba-nos avaliar outras idéias da mente kantiana, como em suas Lições de Metafísica. O fato é que –e aí encontramos sem enganos a escolha do discipulado– seus sucessores decidiram erguer a Crítica ao cume mais elevado de todos, e este foi o legado histórico que recebemos até hoje. Mas não foi isso algo decorrente da escolha do mestre prussiano de trabalhar mais na ferramenta do que no produto final?
O fato é que a força do arbítrio humano sempre foi assustadora, e o prussiano, como tantos outros, talvez não tenha resistido ao puro medo dela. Ele precisava garantir a segurança moral do homem livre da Religião. Precisava expulsar o moralismo dogmático e fazê-lo sair por uma porta, para dar as boas vindas a um novo moralismo liberal e racional entrando por outra. Mas quando ele força a Razão humana a assumir a sua forma limitada, o que ele encontra, senão um arbítrio inexplicável? Diante da imagem e semelhança de Deus, não há forma de controle e de governo fora do autocracia do Amor divino, ao qual Kant não podia apelar. Ou seja, se todos os jogos humanos são arbitrados, este ser só pode fazer o bem porque o ama livremente, com aquele grau de pureza que assusta até hoje os críticos do voluntarismo escotista. Quando a Mônada se vê no espelho, pode encontrar nele a Esperança na forma da carência do Amor divino, mas também pode encontrar o terror do Nada que é o seu ser próprio. A convexidade da Mônada translúcida pode ser igualmente um convite ao Paraíso, bem como uma condenação ao Inferno. Estaria um neokantismo hoje pronto a reconhecer a Soberania da Mônada pela descoberta da Singularidade do Observador na Física, por exemplo? Ficamos na incógnita.
Quem me dera ter nascido num mundo lotado de cristãos convictos do privilégio da sua perspectiva, anunciando o verdadeiro Evangelho em toda parte, glorificando o Altíssimo de maneira impecável e perfeita todos os dias.
Tenho que me contentar com o suficiente fato de que pelo menos algumas pessoas neste mundo ainda entendem o que é a Boa Notícia, ou pelo menos possuem algum desejo de entender, e que pela santa misericórdia do Eterno eu mesmo pude receber a liberdade de crer em Jesus Cristo.
Façamos as honras? Vamos novamente testemunhar?
Meu sonho é produzir o último discurso, a solução final da questão cristã. Claro que ainda não o posso, mas ao menos tenho a chance de treinar para quem sabe chegar lá um dia (embora já sabemos que não é matéria para esta vida).
Partimos da premissa do idealismo transcendental, de que a Unidade e o Bem são a forma do Ser (unum, verum et bonum convertuntur), e de que na sua infinitude o Bem só pode ser cogitado por uma mente finita como o melhor possível de acordo com a forma do limite de seu próprio intelecto e vontade em dado momento de uma jornada particular de busca e entendimento. Assim, a filosofia cristã é ao mesmo tempo universalidade e particularidade: dá o testemunho do processo do conhecer e desejar, testemunho que deve ser formulado com pretensão universalista, mas que reflete sempre uma experiência particular impossível de ser totalmente replicada em outra alma. O que é a filosofia cristã? É o amor pela verdade do Evangelho no coração de um filósofo cristão que testemunha, numa fórmula universal compreensível por analogia, a experiência da sua vida espiritual. A verdade em si nunca é relativa, ela é absoluta como posse do Intelecto divino, isto é, enquanto conhecimento que o Absoluto tem de si mesmo, ao qual cada alma criada terá o acesso parcial que corresponde à sua forma particular de ser. Isto quer dizer que a verdade em si mesma enquanto conteúdo da consciência divina é absoluta, mas enquanto conteúdo de consciência de um ser finito é relativa à sua forma limitada de ser. E não poderia ser de outra forma, porque só em Deus o objeto do Intelecto é pleno em ato. Daí que qualquer premissa realista é defeituosa por definição, querendo recompor a totalidade desde sua perspectiva limitada, partindo “de baixo para cima”, ou do Múltiplo ao Uno. O que honra a essência divina é o uso que o intelecto criado faz da sua potência para contemplar o que lhe transcende como fonte da compreensão do Ser, “de cima para baixo”, do ideal para o real, e do transcendente para o imanente. Esta forma de ciência é espiritual, superior, porque é uma contemplação amorosa (usando um termo caro ao Olavo), ou seja, é um ato íntegro que sintetiza Intelecto e Vontade, realizando a máxima da filosofia cristã do intellige ut credas, credas ut intelligas (“conhecer para crer, crer para conhecer”).
Dada essa premissa, que podemos afirmar?
O único e verdadeiro Deus, Criador de todas as coisas, sempre foi pleno em si, na substância do seu ser divino. Deus conheceu e amou, satisfeito no seu Ser uno e trino, sendo visão da visão e amor do amor, conhece e é conhecido, ama e é amado pela Eternidade.
Absoluto e imperturbável na sua felicidade, paz e alegria, desejou como manifestação gratuita da sua majestade criar outros seres que vivessem, na sua condição, algo da sua gloriosa felicidade.
Agora, isto pode ser difícil, mas é preciso compreender a inefabilidade do ser abscôndito de Deus, que é o único capaz de conhecer e amar a sua verdadeira natureza infinita. Como poderia então o Absoluto criar seres que pudessem viver, no seu aspecto próprio, limitado e finito, a sua glória divina que só Ele mesmo conhece e ama plenamente? Em suma, como o Santíssimo, o Santo dos Santos, infinitamente separado e transcendente a qualquer substância que não seja a sua própria, poderia imprimir a sua experiência de ser a outro ser?
Só poderia fazê-lo criando seres completamente separados e análogos ao seu ser, singularidades indeterminadas com a potência de realizar o análogo da operação divina em suas próprias substâncias limitadas, e portanto capazes de experimentar, pela recepção da pura luz divina no seu ser, um reflexo da Glória do Criador.
Criou, assim, seres à sua imagem e semelhança, capazes, por seu Intelecto e Vontade, de conhecê-lo e amá-lo no reflexo de suas próprias substâncias.
Cada uma dessas criaturas foi feita para a plenitude designada pela Sabedoria da Providência divina que, já conhecendo eternamente a forma final que limita e define cada criatura, tem um propósito próprio para a realização do ser de cada um que criou, propósito cuja experiência chamamos de Paraíso.
Deus sempre soube, por sua eterna Onisciência que domina a totalidade dos futuros contingentes, que nenhuma criatura poderia realizar plenamente a sua liberdade na condição paradisíaca sem que antes experimentasse o seu próprio arbítrio de aceitar o desígnio divino. Qualquer criatura alcançaria eventualmente um estado paradoxal que constituiria defeito na forma de uma dúvida sem conteúdo, por não poder conceber condição melhor do que aquela em que já estaria, mas por não poder afirmar que de fato e de direito escolheu esta realidade, por perfeita que fosse. Isto quer dizer que este nunca poderia ser um verdadeiro Paraíso, porque a liberdade nunca seria plenamente satisfeita. É preciso que cada criatura livre viva o Paraíso verdadeiro, sem mácula e perfeito, o que exige que cada um decida realizar essa possibilidade como puro arbítrio, o que é impossível ser escolhido no próprio usufruto dela, dado que todas as demais condições fora da própria indeterminação do ser ou não ser já estariam realizadas perfeitamente.
Se tudo é bom, como pode um ser livre decidir escolher o que é bom?
Por outro lado, se um ser livre não pode escolher o que é bom, não se pode dizer que a bondade é plena na sua experiência, por mais que tudo mais o seja, porque a liberdade da própria criatura não é boa para si mesma, já que não possui o conhecimento total de seu próprio arbítrio.
Em suma, a plenitude perfeita do Paraíso exige que a criatura conheça a sua própria liberdade de escolher o Bem divino, e esta escolha só pode ser feita em qualquer condição inferior à plenitude designada pela Providência, no exato grau exigido para que cada criatura não desista do Amor divino, e ao mesmo tempo que não sofra nenhuma imperfeição na sua liberdade interior de dizer “sim” ao Criador de modo impecável e eternamente pleno.
A criatura que vive eternamente no seu estado paradisíaco precisa possuir, nesta perfeição, a consciência plena da sua própria liberdade de ter escolhido esta vida.
A suprema arte divina, a mais bela e sábia de todas, é a Providência da circunstância exata que satisfaça o grau interior de perfeição que cada criatura requer para a aceitação livre do Amor divino, ou seja, a garantia da precisa condição necessária à atualização da fórmula interior de aceite de cada alma.
Conhecendo a sua liberdade interior de amar o Bem, a criatura se torna capaz finalmente de se separar daquelas trevas de que teve de se servir, por sua escolha e integral responsabilidade, para discernir a conveniência do Amor divino para si.
Ser ou não ser amado?
Eis a única questão real que se põe a cada criatura, requerendo de si a confiança naquilo que ainda não se experimenta, já que se experimentasse não poderia confiar e nem escolher o Bem com verdadeira liberdade.
Dito tudo isso, lembremos que são incontáveis os mundos, universos e multiversos possíveis em que Deus realiza a sua obra, dado que cada criatura foi feita, à sua imagem e semelhança, para possuir integralmente as próprias dimensões ilimitadas de ser. O que quer dizer que, substancialmente, são incontáveis as criaturas herdeiras da Glória divina e, portanto, são igualmente incontáveis os seus mundos e dimensões particulares, em potência.
Vivemos a experiência deste mundo particular no qual nascemos como se ele fosse substancial em si mesmo, mas qualquer ciência séria, física ou metafísica, deverá finalmente reconhecer, mais cedo ou mais tarde, a indeterminação de qualquer realidade per se sem a relação com aquele que a percebe, isto é, como diria Leibniz, que o real é a Percepção que a mônada tem de seu próprio reflexo.
Vencida essa questão, resta-nos considerar que há a experiência do comum e universal, isto é, da mutualidade, e esta é mais simplesmente explicável como mútua representação das mônadas sem janelas, atualizada pela luz divina em sincronia e simultaneidade, do que por uma muito mais complexa e problemática série causal que atribuiria realidade a qualquer ser que não seja a substância simples. É inútil fazer com mais aquilo que pode ser feito com menos (Ockham).
Pior: a atribuição de substância à realidade exterior à alma constitui idolatria por um declínio da forma pura da luz refletida na mônada para a atribuição de luminosidade própria ao seu reflexo, como se fosse presumido que a Lua cheia emitisse sua própria luz e não apenas refletisse a luz que recebe do Sol (exemplo histórico: considerar João Batista um “santo” e não enxergar nele apenas o reflexo da glória de Jesus Cristo). Esse erro de idolatria é a origem da parasitagem e usurpação do Amor divino, o culto gnóstico da mistura de Luz e Trevas como origem constitutiva da realidade.
Assim, a natureza daquilo que entendemos como “realidade” não se trata de Simulação ou Holograma, mas da operação divina de criação santificada que produz a mutualidade para que cada criatura possa escolher ser ou não ser amada por si, isto é, crer ou não na transcendência do Bem em face da realidade manifestada.
Em algum grau todas as criaturas na ante-sala do Paraíso deverão realizar a sua escolha de crença na pureza da luz transcendente de Deus, ou na falsidade da mistura de luz e trevas (isto é, entre o ser e o não-ser), de modo que algum mundo terá que ser sempre manifestado para que possa ser crido como ens proprium gerado pela mistura. Esta é, por exemplo, a razão do nosso nascimento neste mundo, ou melhor, da manifestação da representação do nascimento do “nosso corpo” neste mundo.
Por mais que uma teologia honesta alcance a realidade do Pecado Original, como por exemplo na idéia do Pacto Ouroboros, não podemos daí fazer a redução antinatalista, porque esta exclui o propósito da Providência divina, por desconfiar dele ou mesmo desprezá-lo totalmente, o que já constitui uma deliberação de quem tem mais crença na integridade da mistura do ser do que na da sua pureza (como se dá com os que adoram o Caos, o Nada, etc.).
Amar a Deus e ao próximo é amar a liberdade de Deus e também a do próximo: tanto a do Criador de permitir a manifestação da liberdade humana, quanto a de cada criatura de conhecer a sua própria liberdade, já que tudo isto é o próprio sentido da vida presente. O ódio contra essa liberdade é apenas uma fraqueza de fé, facilmente curável pela vida espiritual, mas impossível de se resolver no âmbito exclusivo do psiquismo.
Sobretudo, no espírito de amor ao próximo, devemos receber e cultivar a inteligência de respeitar a jornada individual de cada alma, já que somente o Criador conhece a medida própria da experiência necessária a cada uma para atingir a solução espiritual, bem como as potências particulares que devem ser nutridas para cada caso. Há uma fórmula precisa para cada alma, conhecida apenas pelo Altíssimo. Na nossa ignorância, só podemos respeitar e aceitar esse mistério. A obra de Deus se realiza num muito exato e apropriado PROCESSO, e a integridade desse ultrapassa todos os nossos tolos idealismos, mesmo que supostamente cheios da caridade cristã. Mas que caridade pode superar a confiança no triunfo do Bem?
Entendido tudo isso, o que nos cabe?
A quem ficar clara a necessidade espiritual da liberdade humana, resta terminar o movimento interior de escolha do Bem na própria vida interior, que é o Primeiro Mandamento de amar o Amor divino que livremente nos concedeu a promessa do Bem eterno, bem como o outro movimento interior de produzir o melhor testemunho possível, com ações e palavras, para que as outras almas sejam incentivadas a desejar e escolher a confiança no mesmo Bem, que é o Segundo Mandamento de amar ao próximo como a nós mesmos, isto é, desejando para o outro o melhor que podemos desejar para nós mesmos, que é uma vida cheia de fé, esperança e amor. Certos dons espirituais, quando esclarecidos e assumidos, podem auxiliar nesta jornada (o que já falamos na explicação das várias Libertações, do Realismo Responsável, e da contemplação da Mônada e dos Sete Dons particulares).
Esse é o Evangelho, a Boa Notícia, a verdadeira comida e a verdadeira bebida de que estão esfomeados e sedentos todos os seres humanos.
É o anúncio da Cruz, que é a morte da mentira.
E é o anúncio da Ressurreição, que é a vida da verdade.
Mas só podemos dar o que primeiro recebemos: daí que só pode dar o testemunho do Amor divino quem o recebeu em si.
Se existisse uma escola de filosofia cristã sobre a qual eu fosse o responsável, esse seria o seu mandato: a recepção e a doação do testemunho do Amor, que é o privilégio da perspectiva cristã.
Um testemunho que antes recebemos de Jesus Cristo, porque nisto consiste o Amor: em que não fomos nós que amamos, mas foi Deus quem nos amou primeiro.
Sua ideia de polígono é análoga a minha concepção da Mônada : ente livre que produz uma versão da verdade desde o seu ponto de vista
Meus dois princípios sobre Mito e História
Função do Mito: transmitir uma ideia através do seu sentido
Função da História: evidenciar as verdades universais e fortalecer a Vigilância, destruir a ingenuidade, isto é, a crença na mentira histórica (a História é produzida e mantida pelos interesses de poderosos que se beneficiam da mentira -o segredo do poder é o poder do segredo)
O problema do autor não existe ou não tem importância : A realidade histórica do mito é irrelevante, porque qualquer verdade plena deve ser suprahistorica, independente da história , especialmente a da forma do Ser como Bem e Unidade, e portanto a Lei do Amor
A poesia é mais filosófica que a história (Aristóteles), pois nela as ideias são expressar numa forma mais pura, ou menos misturada pela contingência , é por isso que imaginamos estórias e as contamos uns aos outros, para explicar as ideias de sentido (vida espiritual, ou metafilosofica) de forma mais direta e profunda
Exemplos clássicos da sabedoria do Evangelho: Jesus costuma fazer uso de Parábolas para ensinar a verdade
Autor peca no seu historicismo típico da sociologia, entendendo-se como parte de uma geração iluminada , e tentando salvar os gregos de si mesmos, como se eles não pudessem ser tão toscos e pouco iluminados. Na verdade os gregos estavam mais próximos da verdade por a entenderem como suprahistorica, aletheia aposeixis, quanto mais acreditassem na veracidade do SENTIDO de seus mitos. Nesse ponto a obra é sintoma da grande decadência da intelectualidade moderna que quer descobrir uma verdade exterior, ou seja, fora da mônada , como num mundo objetivo num espaço-tempo , que é uma forma de idolatria
A ideia do livro rejeita as máximas bíblicas de que “não há nada de novo sob o sol”, e de que “o que está faltando não se pode contar”.
O livro quer tornar a Maldição não apenas aceitável como até mesmo desejável para o transcorrer de um processo de evolução.
Baseia-se nas idéias de Rejeição da Cruz e de Idealismo imanentista.
Acham que a revolução é exterior, mesmo quando dizem o contrário, porque a mudança do homem só serve para a mudança do mundo e da história.
Se fosse revolucionário de fato, o movimento questionaria o Pecado Original. Como não o faz, não passa de mais um recurso na dialética do Ouroboros para nos dar a ilusão de progresso e liberdade enquanto permanecemos escravizados. Fazem parte da mesma religião do homem, porque não tem a coragem de questionar o verdadeiro costume, a verdadeira Lei de seus antepassados, ou seja, a Usurpação contra o Criador.
A verdadeira revolução é a interior, cristã: o Caminho, a Verdade e a Vida – aceitar o mandamento do Amor divino, A Cruz, a Morte e a Ressurreição.
No cúmulo da ingenuidade , o livro apresenta a proposta transhumanista que é nada menos que a entrega da humanidade ao controle de forças ínferas de uma dimensão inferior, é a escolha de Alberich, a traição contra o Amor em busca do Poder.
O livro parece uma grande masturbação mental, uma esperança no futuro da humanidade sem nenhum fundamento sólido, uma transcendência falsa sem verdadeiro objeto (sem Deus, sem Eternidade).
A maior parte das pessoas que se julgam ilustradas pareceu ainda não compreender que o que há de mais moderno, evoluído e revolucionário é o Evangelho, e que nada pode superar esse nível divino de liberdade: a aceitação da Cruz, da Morte e da Ressurreição.
Deseja-se uma insanidade: viver num “mundo objetivo” que seja bom nele mesmo e para todos ao mesmo tempo, isto está completamente ultrapassado pela simplicidade da Mônada, com sua Percepção e Apetição.
O autor supõe que a mudança possui qualidade positiva para os sujeitos da evolução, uma visão antropocentrista ingênua; o que há é o processo de transformação, solve et coagula, ordo ab chaos etc, dissolução e cristalização do Poder, que é o produto final.
Temos a vantagem em retrospecto de ver no que deu de fato, em termos históricos, o entusiasmo e o otimismo da Conspiração Aquariana: um fiasco, a humanidade nunca esteve tão fraca e desorientada, indefesa na sua ignorância e falta de sabedoria.
Espanta sobretudo a ingenuidade diante das promessas da nova tecnologia: tanto a ideia de que o conhecimento se disseminaria (como se o interesse intelectual se propagasse junto com os meios difusores e o ser humano médio deixasse de ser o que é, uma pessoa perdida e desligada do sentido) e que o poder seria descentralizado. A California, que seria o centro da libertação da humanidade, se tornou a sede da dominação tecnológica global, da espionagem, da engenharia social, da tirania tecnocrática, para não falar do resultado da libertinagem na crise das drogas pesadas, miséria social, ruas literalmente cheia de zumbis e pilhas de merda, etc.
Em suma, onde a maior fonte de escravidão é o Pacto Ouroboros, a Conspiração Aquariana se apresenta como falsa liberdade que só muda a aparência do mesmo Velho jogo de poder.
O que temos na verdade é a Impotência Aquariana, que é a falha do poder de questionar a autoridade atual de reconhecer-se como parte do problema e superar seu próprio humanismo, encontrando a verdadeira solução na Transcendência (Peixes). Aquário sem Peixes é como o eterno retorno do Antropocentrismo sob novas vestes, apenas um novo engano.
Não querendo ir muito a fundo agora, mas interessado não obstante em notar algumas particularidades da nossa cultura mais tradicionalista, conservadora e direitista, quero chamar a atenção para o uso que se faz daquelas figuras bíblicas monstruosas no Livro de Jó, o Behemoth e o Leviathan, dentro do discurso político contemporâneo, ao menos dentro de certo pensamento que pretende ser entendido de simbolismos e misticismos, ao estilo ocultista.
Se algo aliás precisasse ser levantado como prova contra a pretensa caridade cristã desse pensamento político, seria suficiente apontar para esses segredos esotéricos. As coisas de Deus são simples e claras, embora possam ser, e muitas vezes são, também profundas e sutis. Mas os mistérios de Deus não estão ocultos de forma que uma coisa signifique outra, ou seja, uma violação à veracidade do valor de face da Revelação. E este é o problema mais antigo do cabalismo e da tradição como um todo (e de todas as religiões), porque advém de uma esperteza humana que se diz a herdeira mais fiel possível da Revelação, mas na qual só podemos confiar através de seres humanos iguais a quaisquer outros: eles invertem as coisas. Tudo pode ser falsificado, inclusive a santidade e a caridade com maneiras pirotécnicas que traem a pureza das coisas divinas com sinais, prodígios, milagres, e todo tipo de truque que se possa imaginar.
Idealmente, porém, não precisamos nem levantar essas reflexões, porque a desmoralização do político cristão se dá pela força mesma da sua incongruência de querer misturar a Cidade de Deus com a Cidade dos Homens. Quem quer se eleger em nome de Jesus Cristo para ter poder sobre os homens pretende ser justo diante de Deus e sábio diante do próximo, e as duas coisas são condenáveis. Uma realidade completamente diferente é a do dever de estado de quem se vê, por circunstâncias providenciais, com o poder político que nunca desejou e nem tramou a posse. Nestes casos aplica-se a filosofia política, como na situação da herança de um poder que legitima o direito divino dos reis. Mas uma eleição já não é um processo cuja origem viola essa integridade moral? Quem se candidata não tem pretensão de ter o poder e, assim, não se coloca como sábio ou justo o suficiente? O governante mais justo é sempre relutante, e faz o contrário de um candidato: foge do poder com todas as suas forças, porque teme o mal, isto é, tem a verdadeira inteligência. Este é quem deveria governar, aquele que nunca se colocaria no poder por si mesmo, mas que só pode ser colocado pela ação de uma força divina inescapável, como vemos no caso de Davi em contraste com Saul. Por isso os “governos cristãos” desde a época dos reis medievais já não existem mais nem sequer como possibilidade. A própria democracia garante isso, que só o mal possa triunfar, porque só quem se pretende bom o suficiente para ser candidato pode ser eleito. Daí só resta a escolha do mal, mesmo que seja do chamado “mal menor”, essa pobre e fraca consolação moral, um remédio sempre insuficiente. E se disserem que todas as outras formas de poder sustentam tiranos, então está provado com isso não o mérito da democracia, mas o demérito de toda a sociedade humana que pretende governar a si mesma, quando o seu único governante deveria ser Deus. O governo de Deus equivaleria ao mútuo desarmamento e à multiplicação dos reinos e nações, junto com grande paz e prosperidade, o amplo direito migratório, e por fim o aumento progressivo da adesão das pessoas livres à vida consagrada, significando a superação do Pacto Ouroboros e o chamado voluntário da humanidade ao Segundo Advento e ao governo do Rei dos Reis, Jesus Cristo (v. Capítulo “A melhor geração” em A Coruscância).
Mas voltando ao tema principal, o ocultismo. Enquanto a menção divina aos monstros bíblicos presta santamente à inspiração de humildade e temor no coração de Jó, a Gnose (a salvação pelo conhecimento secreto) quer nos dizer que sempre tem algo mais por trás, e que esse algo é mais importante do que o que pensamos sobre a primeira impressão, ao ponto de que pode ser chamada de “a verdade” de fato, oculta sob as primeiras impressões e decifrável somente pelo sábio especialista, o ocultista, o esotérico, o iniciado nas etimologias, numerologias, etc. Essa mentalidade valoriza o segredo e um certo elitismo esotérico que é típico de todas as religiões, que é o que as torna comuns e enraizadas no grande segredo de todos que é a Tradição Primordial, isto é, o próprio Pacto Ouroboros.
Quando William Blake produz a imagem da luta entre os monstros, sua idéia não é aquela simples da inspiração do temor e da humildade. Essas virtudes são para os ignorantes, não iniciados. A idéia de Blake é a de um processo de produção de realidades pelo controle de oposições, como na alquimia. E é por isso que a identificação do Ouroboros com o Leviathan é equivocada (assim como a identificação dele com o Behemoth, ou Demiurgo): antes, o Ouroboros se liga à figura do controlador de ambos os monstros, já que é a relação entre os dois que constitui o ciclo de criação, destruição e renovação que mantém tudo sob o controle do “criador”. Mas este, se cria algo, é como criador de uma mentira, aquela mesma que será destruída pelo sopro da verdade de Jesus Cristo. O “deus” da imagem de Blake não é o verdadeiro Criador de todas as coisas, que na pureza da sua santidade nunca precisou fazer uso do mal para produzir o bem, mas é o usurpador do lugar de Deus, que precisa fazer o uso dialético de forças antagonistas para obter o controle dialético a realidade. O Ouroboros, como já expus antes, controla as oposições ao seu propósito, que é o de manter almas escravas do seu sistema de dominação, gerando ao lado da tese a antítese, e ao lado do Behemoth, o Leviathan.
Agora, entre os entendidos (ou iniciados?), tradicionalistas de certo direitismo contemporâneo, temos figuras como Olavo de Carvalho no Brasil, ou Alexandr Dugin na Rússia, que concordam com o misticismo esotérico de Blake.
De minha parte não posso disputar, falando simbolicamente, contra a idéia de que haja uma guerra de monstros, mas esta pode ser identificada dentro do ser humano desde a origem e mais apropriadamente, como em Gênesis 3, do que na mitologia dos monstros do livro de Jó.
Quando a mulher e a serpente são condenadas a perpetuamente manter-se em conflito até o fim dos tempos, a mulher pisando na serpente, e a serpente mordendo o pé da mulher, já temos aí a imagem da dominação do Ouroboros: a mulher servindo à perpetuação do estado decaído, querendo livrar-se da maldição e da perseguição da serpente, e a serpente atormentando a mulher e sua descendência com a sua acusação da desobediência a Deus. Exatamente as duas faces do Gnosticismo, o exotérico e o esotérico, Behemoth e Leviathan, a Tradição e a Revolução.
Aqui no Brasil, Olavo trouxe a imagem dos monstros em luta e o uso simbólico dessa figura na introdução do seu livro A Nova Era e a Revolução Cultural. Aliás, usou até mesmo a ilustração de Blake na capa do seu livro, e o mencionou no texto. Vejamos algo do que ele diz sobre o tema:
Não conheço essa “aplicação rigorosa do simbolismo cristão” que foi mencionada, e até poderia ir atrás, mas suspeito de que se trata de segredos impossíveis aos não iniciados, porque na minha modestíssima leitura bíblica não entendi nada disso do livro de Jó. Mas, novamente, não sou iniciado nesses mistérios, e cá entre nós não estou muito interessado em ser.
O fato é que até este ponto Olavo elogiava o recurso da vida interior, como vida espiritual (ou ao menos um resquício dela), em direção ao escape da dialética dos monstros, embora já tenha apontado para a obediência de Behemoth em contraste com a rebelião de Leviathan, o que é uma idéia problemática para dizer o mínimo. Ou talvez não seja, se pensarmos que o criador de Behemoth e Leviathan é o Ouroboros que se coloca no lugar de Deus, e a quem ambas as reações significa submissão ao seu poder, seja a obediência ou a rebelião, o gnosticismo exotérico das religiões, ou o gnosticismo esotérico das seitas e heresias.
Senão vejamos quais são as qualidades do “obediente” Behemoth: ele impera “pesadamente sobre o mundo“, criado em “unidade de essência” com o homem, um “poder macrocósmico e uma força latente na alma humana“, um “poder material“, ele é o “peso maciço da necessidade natural“, ele é a “natureza” que combate contra “as forças rebeldes antinaturais“, e é a “necessidade implacável“.
Quais dessas qualidades apontam para a santidade de Deus? Nenhuma.
Deus é Amor, ele é revelado assim pelo Filho de Deus em pessoa, que pessoalmente renunciou ao seu poder de julgar e destruir para indicar a natureza da essência divina no perdão e na misericórdia.
Literalmente Jesus abriu mão do seu poder para exercer o seu amor.
Transformar pedras em pães, ser resgatado de um salto no abismo ou governar todas as nações da Terra, todas essas tentações resistidas por Jesus Cristo mostram a supremacia da sua santidade, do que é a verdadeira realeza espiritual, sobre a falsa majestade de um poder cego e monstruoso que trai o Amor, que é a essência do monstro Behemoth.
O Behemoth é um monstro que, se tem função, como veremos, é a de no fim ser destruído com o seu insuspeito parceiro, o Leviathan, para que seja revelada a perversidade da mentira do Oubororos, a Serpente do Mundo.
Isso quer dizer que o Behemoth é o deus dos tradicionalistas, assim como o Leviathan é o deus dos revolucionários.
Um arrasta o homem para a servidão da carne e do sangue, e o outro domina a revolta contra essa servidão dirigindo-a contra o Deus verdadeiro, acusando-o de ser o Demiurgo deste mundo com a intenção de aprisionar almas inocentes sob a escravidão da matéria.
Ambos os monstros servem ao Ouroboros, ou até mesmo constituem o espírito da Serpente do Mundo, porque seja como obedientes ao diabo na manutenção da terra decaída e amaldiçoada, ou seja como aliados dele na rebelião contra o Deus verdadeiro, de qualquer modo ambos tradicionalistas e revolucionários são servos do mesmo mal que quer manter o império da sua usurpação.
Aqui está o ponto marcante que evidencia essa interpretação: o poder de Behemoth reside no ventre. Esse é o deus dos tradicionalistas: o ventre humano através do qual se perpetua o Pacto Ouroboros. Já verificamos várias vezes o valor desse simbolismo da união do masculino e do feminino, quando falamos do hexagrama, do esquadro e compasso da maçonaria, etc. O encontro dos sexos é o poder que sustenta o Ouroboros. A “obediência” ao poder da “necessidade implacável” sustenta uma natureza que não é posta como decaída e amaldiçoada por decorrência da queda em Gênesis 3, obviamente, mas como se fosse a pura manifestação do desejo de Deus e não uma realidade decorrente da ruptura espiritual com o Criador. Afinal, esse “deus” gnóstico faz uso das trevas junto com a luz, do mal junto com o bem, etc.
Olavo devia ter alguma intuição ou mesmo esclarecimento dessas coisas, quando chama a ambos de monstros e de “forças cegas”, aos quais opõe a vida interior na qual o ser humano poderia vencer “com a ajuda” de Jesus Cristo. Obviamente essa é uma diminuição iniciática da verdadeira salvação, já que a vitória contra o mal e a mentira é uma ação divina, e ao homem cabe apenas aceitar e receber a Graça da sua salvação. Mas pelo menos parecia haver até aqui uma certa possibilidade de superação da dialética dos monstros, ou, se quiserem, das alternativas políticas. De forma ambígua e obscura, é verdade, mas possível de qualquer modo.
Em outra parte, num escrito separado e futuro, Olavo parece ter dado notícia disso com outra menção a esses símbolos:
De novo o Behemoth é o “monstro do bem”, o “hipopótamo da ordem divina” contra o “crocodilo da rebelião“, uma idéia provavelmente advinda do simbolismo egípcio onde o enfrentamento dessas feras nas cercanias do Nilo sempre sugeriu noções espirituais àquele povo. E perguntemo-nos: por quais meios veio o esoterismo egípcio impressionar a visão moderna, senão pela influência das sociedades ocultistas?
Mas, e de novo ambiguamente, parece que o confinamento do conflito espiritual entre os monstros “no interior da alma” poderia levar à sabedoria. E isso eu não posso negar, já que o entendimento do propósito comum entre os gnosticismos exotérico e esotérico me ajudou muito a compreender a dimensão da dominação do Ouroboros sobre esta humanidade de cativos. Essa conclusão, porém, Olavo não pode tirar, porque para ele justamente um lado da monstruosidade deste mundo têm a suposta razão do serviço obediente a Deus.
E para mostrar como o modesto erro dessa noção poderia levar a grandes erros como consequências futuras, temos o desenvolvimento da idéia desde uma perspectiva de confinamento do conflito no interior da alma até uma ação justificada no próprio conflito externo, com a desculpa da dialética histórica:
Aqui já não se trata apenas de vida interior, mas de ação externa, com efeitos na cultura, na política, etc. É engraçado que se lermos atentamente ao que Olavo diz aqui, percebemos que ele ainda tem uma linguagem que dá conta do quadro maior, embora ele não assuma as necessárias repercussões disso. Ele mesmo diz que a esquerda não é o mal encarnado, e que o espírito revolucionário pode ser ora direitista, ora esquerdista. Isso poderia levar a conclusões excelentes, se o filósofo buscasse a essência comum dos monstros a serviço do Ouroboros, porque a verdadeira revolução contra o governo de Deus é a traição do Pecado Original. Mas ele não faz isso. E se não faz, é porque já decidiu sair da esfera do esclarecimento da luta interior para o da participação na dialética histórica. Olavo já não quis somente buscar e dar o testemunho da verdade para a glorificação de Deus àquelas poucas almas interessadas. Não lhe basta. Quer ser influente, quer alterar o curso das coisas, o destino das massas (a “rocha nua” que os maçons querem transformar no “Estado” para construir o Reino de Deus na Terra), e por isso se engaja também na atualidade onde supostamente a esquerda teria de ser combatida até que certo equilíbrio de forças pudesse ser restaurado (“até que a roda da História complete seu giro“). Por isso podemos dizer que, até onde enxergamos, Olavo escolheu ser um Bispo no Sistema da Besta ao deixar de denunciar o esquema do Ouroboros, e ao participar da legitimação do mesmo pela validação do Tradicionalismo, do Behemoth.
Tive o privilégio de verificar a consolidação dessa decisão no decorrer de uma década na qual acompanhei mais de perto o trabalho do filósofo. Aos poucos Olavo deixou de se importar com a sua pesquisa de maior valor, aquela que só tinha repercussão com uns poucos –e qualquer aluno mais antigo sabe que ele sempre deixou seus grandes projetos pelo meio do caminho–, e passou cada vez mais tempo se engajando na cultura de massas, com o incentivo da busca do poder político e religioso na suposta missão de treinar uma futura elite política brasileira.
Olavo morreu, mas o Tradicionalismo continua firme e forte. E temos o exemplo daquele outro filósofo russo, Dugin, com quem aliás Olavo chegou a disputar certa vez o tema da Nova Ordem Mundial.
Dugin também interpreta o Leviathan como a força do ateísmo, da desordem e da modernidade. O monstro das águas precisa ser derrotado. Seu adversário é o monstro da terra, da tradição, da religião, da ordem, etc., o Behemoth. Puxando esse simbolismo para o que lhe interessa, que é a justificação do papel histórico e, porque não dizer, messiânico, da Rússia, no “coração da terra”, Dugin afirma que o Leviathan está encarnado no processo histórico derivado da manifestação do poder do Império Britânico, marítimo, colonialista, mercantilista, capitalista e globalista, em oposição ao Behemoth que se encarna na manifestação do poder do Império Russo, terrestre, tradicionalista, nacionalista, socialista. As ideologias que representam a concentração dessas duas manifestações, por sua vez, são o Atlantismo e o Eurasianismo.
Talvez o que escape (ou não?) a Dugin, como escaparia a Olavo, é a evidência de que o processo histórico inteiro de desobediência a Deus se dá através desse conflito dialético, porque é o desenvolvimento do Ouroboros contra Deus, usando de ambas as forças de obediência e de rebelião para dirigir a sua grande e primordial rebelião contra o governo divino.
Escatologicamente, enxergamos isso no Fim dos Tempos quando tudo é revelado, finalmente (daí que o último livro bíblico se chama Revelação, ou “Apocalipse” em grego, porque é o tempo da revelação não só de Deus na pessoa do Filho, mas do inimigo como o Ouroboros, o Pai da Mentira): a Besta do Mar e a Besta da Terra se unem contra o Criador de todas as coisas, revelando sua verdadeira natureza.
De um lado, pela Gnose Tradicional, ou Exoterismo Gnóstico, o Tradicionalismo identificava o Ouroboros como se fosse o Deus verdadeiro, exigindo a perpetuação do Pecado Original, o sacrifício de sangue, o temor do inferno, e a obediência à tradição.
De outro lado, pela Gnose Revolucionária, ou Esoterismo Gnóstico, para controlar as oposições e dominar as dissidências, o Revolucionarismo identificava o Deus verdadeiro como Demiurgo que fez a substância espiritual decair para a material, aprisionando almas inocentes no seu esquema de poder.
No Fim dos Tempos finalmente Behemoth e Leviathan juntam-se para fazer guerra aberta e declarada contra Deus, a Besta da Terra e a Besta do Mar, o Falso profeta e o Anticristo. Uma humanidade unida no espírito da grande rebelião.
Note-se: a Besta da Terra fará com que todas as nações do mundo adorem a imagem da Besta do Mar.
Isto quer dizer que o fingimento da ortodoxia religiosa no suposto serviço do Deus verdadeiro se converterá na validação da grande rebelião luciferina, de modo que a Tradição Primordial, que é o Culto do Ouroboros, será revelada como a Religião Universal.
É por isso que qualquer desejo sincero de obediência ao Deus verdadeiro sempre vai entrar em conflito com a ortodoxia religiosa, inevitavelmente, porque o Espírito Santo dá o testemunho da verdade que está fora das mentiras da Tradição. O Senhor nos antecipa desde já aquela última Revelação, mostrando-nos, pelo menos até onde nos for suportável, que todas as religiões estão enraizadas naquela Tradição Primordial que é o Culto da Serpente.
A Serpente do Mundo, o Ouroboros, terá a sua mentirosa rebelião destruída com o sopro da verdade que sairá da boca do Filho de Deus, como sabemos.
Até lá o que podemos fazer é fechar os livros dos “mestres” do simbolismo oculto, Olavo, Dugin e tutti quanti, e reabrir o Livro de Jó, o primeiro dos livros de sabedoria, para reaprender o sentido mais simples e profundo da lição divina: o de que a vitória divina é garantida, infalível e devastadora, e que a salvação humana está na humildade que sai da frente do seu Senhor, que lhe abre o espaço para sua obra, a Ele que já declarou: “a mim pertence a vingança“.
Não temos que realizar nenhuma missão social, cultural ou política, porque estas vitórias são vazias e capturadas pelo engenho dialético do Ouroboros.
Nossa vitória é interior, na dimensão da nossa alma, na forma da renúncia ao mal e da participação na corrupção do espírito do mundo, com o desejo da realização da ação divina na nossa alma e no mundo.
Nossa submissão ao Ouroboros se dá pelas ambições da vida mundana: familiar, econômica, política, cultural, etc., o querer participar do destino do mundo, um mundo que já foi acusado, julgado e condenado pelo Espírito Santo.
A nossa entrega ao Deus verdadeiro se dá pela vida espiritual, que é o desejo de participar da Eternidade.
Presta um bom serviço quem honra a própria natureza em fidelidade ao ideal que a formou, no lugar de prestar culto e pagar tributos a outras demandas estranhas a sua essência. É assim que nos aproximamos de Deus conforme estranhamos tudo no mundo que diminua a evidência da sua bondade e do seu governo justo, como o que deriva da história da usurpação humana contra o Trono.
Digo essas coisas em caráter de introdução dos meus leitores ao problema, bem típico, que ando enfrentando agora: o da escolha entre a fidelidade a uma forma de trabalho mais ideal e perfeita, porém menos funcional, ou outra mais adequada ao sistema do mundo humano, mas menos adequada para a chamada do próximo a um nível melhor de entendimento da realidade.
Pode-se pensar que esse tipo de questão é menor, ou até uma futilidade, mas só julga assim quem não possui mais (se é que já possuiu) o poder de apreciação da verdade das formas das coisas. Somos humanos e, portanto, capazes pela nossa liberdade para definir os mais sutis e efetivos caracteres das nossas ações, de modo a produzir influência em nós mesmos e nos outros de modos muito variados e ricos, com tanto mais poder quanto mais algumas almas queiram manter-se ignorantes do sentido daquilo que lhes impressiona. Quando dizemos, por exemplo, que alguém sofre de apeirokalia, estamos falando disso certamente: de uma profunda incapacidade de percepção de sutilezas. E pois bem, eis a questão mesma que se me apresenta: tratar de temas que requerem uma riqueza maior na sua lida da forma como merecem, ou na forma de um mundo que as despreza na sua sutileza.
Ora, se o mundo detesta o valor do detalhe das coisas, e o meu trabalho é o de “pescar homens”, ou seja, resgatar os que tiverem olhos e ouvidos para receberem um chamado para fora da confusão em que foram enfiados, como farei isso se me preocupar com a forma que mais agrada ao espírito do mundo de cujas garras mesmas eu desejo livrar aqueles irmãos que estão perdidos por força dele?
Usar do mundo sem se deixar escravizar por ele: essa é a lição do Apóstolo, e é uma grande tarefa que exige uma sabedoria que apenas Deus pode nos dar. É assim que uso a língua portuguesa, os computadores, a internet, etc. E devo ir além, abandonando a preocupação de agradar o mundo nas suas preferências que tendem à dissolução das almas, e produzindo o que tem maior valor de acordo com uma régua mais benéfica.
Essa medida mais positiva leva em conta a essência espiritual do ser humano: a sua liberdade. E a liberdade é a primeira coisa vendida no altar dos sucessos mundanos. Faz-se o que é preciso ser feito, e assim aos poucos o comprador da vitória vende dia a dia a sua integridade moral, a sua felicidade, a sua liberdade de ser quem é.
É preciso escolher entre ser feliz ou ter razão.
A felicidade é uma realidade interior que resulta da ação da paz de Deus no nosso coração, porque estamos reconciliados com Ele e conosco mesmos. Esse estado só pode resultar da fidelidade à verdade tal como ela está refletida na nossa consciência. A verdade plena pertence apenas a Deus, ela nunca é nossa posse plena, mas algum reflexo dela sempre toca nossa alma, e uma consciência limpa é a que resulta da fidelidade à verdade que está refletida no nosso interior.
O ser humano aprendeu a mentir dizendo assim para si mesmo: já que não tenho aquele conhecimento divino e perfeito das últimas realidades, não preciso ser fiel ao pouco que vejo, porque não posso garantir plenamente nem esse pouco, então vivo com certa permissão para mentir, fingir, presumir, etc. É o caminho do orgulho, da soberba, da presunção.
Muito mais prudente é o passo que vai na direção da humildade e que aprende a valorizar o pouco que tem em si: por menor que seja a verdade na qual posso acreditar, se isso que tenho é o suficiente para que eu viva bem de acordo com a minha consciência, sem traição ao que já percebo e intuo, devo viver honestamente em fidelidade a esse pouco, confiante de que o muito que me escapa de algum modo está de acordo com o pouco que me foi dado. Esse é o caminho da humildade.
Querer ter razão neste mundo é o equivalente a total prostituição moral e intelectual, isto é, à venda da nossa herança divina de seres livres e inteligentes em troca de qualquer sucesso temporário que nos é oferecido.
Digo “mundo” num sentido muito específico, aquele do bolchevismo espiritual que denunciei na minha Monadofilia. É a grande corrupção da carência de pertencimento, uma consequência da força da parte mais animalesca do nosso ser, que tende a querer se agrupar, imitar, seguir, etc., violando aquela natureza divina que exige de nós o contrário: a individuação, a separação, a consciência singular, etc.
Posso (e até devo) querer ter razão e sucesso num sentido particular, que é o de impressionar e influenciar o próximo no sentido do reconhecimento das coisas divinas, da bondade, da verdade, da beleza, da justiça, etc. A minha ação parte da unidade e chega na unidade: da unidade divina que me resgatou da confusão e atualizou minha própria unidade de ser criado com a grande honra da imagem e semelhança da unidade divina, realizo-me agindo para afetar o espírito de unidade do próximo, da outra alma humana que continua experimentando alguma confusão derivada da idolatria do mundo, de modo que essa unidade se reconheça na mesma honra da criação divina e deseje por si realizar sua unidade na unidade de Deus.
Por isso digo que não se trata de um quietismo, como pode parecer o elogio da vida interior a quem falte o discernimento dessas coisas. Não é nada disso. É uma ação forte, decisiva, cheia de desejo de sucesso, e por que não até mesmo cheia de ambição. Mas tudo do jeito certo, com a orientação certa, e isto quer dizer que devemos desprezar os modos do mundo, ainda que usemos dele e dos seus recursos para fazer avançar a ação mais conveniente para a nossa vida espiritual.
Como posso despertar o desejo de realização da liberdade individuante no próximo, se para isso eu usar dos meios que o mundo usa para a finalidade contrária, isto é, para a dispersão das almas na idolatria generalizada e no desprezo da Presença e das coisas de Deus?
Não devemos nos impressionar com números, embora queiramos que eles cresçam quando forem na direção correta. Tudo que é quantitativo deve ser qualificado, porque se não for não significa nada. É assim que vemos os grandes empreendimentos da cultura de massas, e até de certa alta cultura, todo esse testemunho produzido pelo Bispo do Sistema da Besta para afastar as pessoas da consciência do Criador. São massas e massas, mas dirigem-se ao vazio, e por isso anulam a força do seu agregado, porque vão se tornando um agregado sem substância verdadeira, conforme aproximam-se do nada que tanto amam, do vazio que é próprio dos seus ídolos.
Um de meus grandes interesses é o de transmitir precisamente esta mensagem: a de que cada um de nós deve se encorajar pela perdição do mundo, e não o contrário.
Sim! Encorajar e até aprender a gostar da dissolução mundana. Mas como?
Simples: quando vejo o mundo mergulhando no seu próprio caos, só posso enxergar essa realidade porque não participo dela. E se não participo, é porque Deus me separou na sua obra de salvação.
É assim que “estar sozinho” na verdade se revela o contrário disso: afastados da confusão do mundo, estamos com Deus, a melhor companhia por toda a Eternidade, e estamos em comunhão espiritual uns com os outros, por mais ilhados que nos sintamos.
Grandes tristezas são futilmente sentidas por almas desavisadas que se atormentam com o desejo de participar de um mundo no qual já sabem que não há esperança de nada verdadeiro, já que suas próprias consciências lhes serviram para denunciar as grandes e pequenas mentiras que sustentam esse espetáculo humano. Meu trabalho deve ser o de afetar esse tipo de alma com a mensagem correta, e é claro que não poderei fazer isso usando do mesmo espírito do mundo que deve ser denunciado.
Digo todas essas coisas com quase quatro décadas de experiência do mundo. Aprendi a desconfiar confiando, a desacreditar acreditando, a despertencer pertencendo, a desengajar engajando. Quis ser muitas coisas e uma a uma aprendi a desgostar de todas elas: de ser acadêmico, de ser rico, de ser religioso, de ser político, etc. Finalmente entendi que é melhor querer ser algo muito mais simples, porém mais misterioso: aquilo a que o Criador de todas as coisas me destinou, ser amado por Ele. E hoje, aqui e agora, isso significa ser uma testemunha, ou um pescador de almas, se formos imitar aqueles que quiseram imitar Jesus Cristo.
Essa pescaria é a arte de ser fiel e íntegro à verdade que denuncia o mundo e elogia a Deus. E por isso mesmo, quanto melhores formos nessa arte, mais o mundo nos odiará e desejará a nossa destruição. Ótimo: aquilo que sempre esteve oculto virá a ser revelado. Ou por acaso os espíritos imundos que me queriam acadêmico, rico, religioso ou político não me odiaram sempre por desprezar os seus prêmios mundanos, e não quiseram sempre me destruir? Isso sempre foi verdade. É isso que os perdidos do mundo devem entender, e o quanto antes: a função da sua perdição no mundo é o seu encontro em Deus. Feita a primeira parte, falta a segunda, a própria causa final desse desajuste.
Falo aos desajustados, despertencidos e disfuncionais, porque estes eu tenho certeza de que o mundo não conseguiu enganar, ou pelo menos não completamente. Porque não há ninguém que está mais perdido para Deus do que aquele que está totalmente achado no mundo, que se levanta sobre todos os seus irmãos com grande vaidade e orgulho. Por acaso vamos invejar esse destino miserável e infeliz? Não se inveje a suposta felicidade e alegria dos soberbos, porque tudo isso é falso e está para ser destruído num piscar de olhos. A esperança dos enaltecidos se revelará uma total farsa. Mas a nossa esperança no Eterno, quem a destruirá, se é o próprio Criador quem a constituiu? Quem chamará a Deus de mentiroso e infiel?
Um por um, tudo aos poucos, mantendo a fidelidade e a integridade, é assim que eu penso sobre o meu trabalho. O dia em que quisesse seguir as modas da maioria, seria o dia da minha perdição. E isso sempre foi impossível para mim, graças a Deus, porque o Altíssimo sempre me deu um ânimo de profundo desgosto com a falsidade do mundo, na verdade desde que eu sou criança. Sim, desde bem pequeno vejo como o meu semelhante é mentiroso, horripilantemente falso, farsante, e que a sua canalhice começa quando mente para si mesmo e vai se convencendo da virtude da sua safadeza. Tudo isso que o mundo faz é baseado na desconfiança de Deus. O ser humano que aprendeu a desconfiar do Criador é um aprendiz do primeiro ser que fez isso, sim, aquele coitado.
Eis a essência da mentira que provém da desconfiança: é uma escolha livre.
Quem desconfia do Amor de Deus se dá mil e uma razões que seriam supostamente suficientes para a justiça da sua posição, mas toda essa arquitetura de idéias está baseada numa única coluna, que é uma crença livre, a crença de que Deus não é bom. A mentira consiste no fingimento de que toda essa estrutura posterior não está baseada numa decisão totalmente livre e arbitrária, de vez que se a alma do desconfiante desejasse seriamente produzir as evidências no sentido inverso, da confiança no Amor de Deus, poderia fazer isso plenamente, e a grande safadeza consiste no fingimento de que isso não seria possível. Eis a arrogância e o orgulho no seu estado mais puro: a postura de sabedoria que tem um segredo escondido, aquele primeiro pecado oculto nas profundezas da alma, tido como esquecido para sempre, mas que será resgatado e evidenciado no fim de todas as coisas, para uma grande humilhação. Grande humilhação! Meu Deus, eu quero ver o Dia do seu Juízo, o dia do triunfo da justiça, mas mesmo assim meu coração tem medo.
Todas essas vergonhas terminarão escancaradas. O homem mentiroso não terá mais onde se esconder, o seu truque será desfeito num instante. Sua proeza teatral, seu fingimento todo, tudo isso desabará numa grande catástrofe, e sua realidade será exibida, como está escrito: está pobre, cego e nu.
Mas não quero falar dessa gente. Deixe que eles estão aproveitando o prêmio da sua traição no pouco de tempo que têm. Voltemos aos chamados de Deus, os que ainda não sabem mas querem ser pescados. A estes o melhor serviço deve honrar a sua vontade de fidelidade e integridade, e por isso deve ser um serviço fiel e íntegro, sem cultuar o espírito do mundo, nem lhe pagar tributos. Não é fácil fazer isso, se alguém quer fazer por si mesmo, mas Deus é mestre e seu guiamento é perfeito. Ele nos ensinará a arte da sua pescaria espiritual.
Nestas breves conversas expostas neste trabalho nós temos a retomada de uma temática presente em outro texto que não estudamos aqui, o Da Virtude, o qual considerei desnecessário apresentar e avaliar, pela razão de o tema já ter sido exaurido antes: a virtude (areté) não pode ser transmitida nem por natureza e nem por ensino, só restando a hipótese da dispensa por pura Graça divina. Já havíamos elogiado essa doutrina platônica antes.
Mas com este Demódoco, temos uma expansão da mesma idéia da ignorância humana, e assim das alternativas espirituais de Humildade e Pretensão, para outros campos mais cruciais do que a do problema do ensino da virtude.
A primeira parte postula o absurdo dos aconselhamentos e votos num sistema de Assembléia: se qualquer conselho fosse identificável como bom, aquele que pudesse ter esse reconhecimento já teria a solução, e não seria necessário nem acumular conselhos e muito menos votos sobre quais seriam os melhores conselhos; se, por outro lado, um conselho não pudesse ser identificável como bom, não é o acúmulo deles que muda a incapacidade de juízo da parte dos ouvintes e eleitores. Ou seja, a multiplicação das opiniões e dos votos apenas servem para produzir a imagem do conhecimento da verdade, mas é uma farsa.
A segunda parte postula o absurdo da decisão num processo judicial ser produzida a partir de um número determinado de testemunhos, como por exemplo se costuma estabelecer num processo de acusação de que o réu deve ter a chance de se defender na mesma medida em que o acusador teve a chance de acusar: embora esse procedimento transmita a impressão (novamente, a aparência) de verdade e justiça, não muda em nada o fato de que tanto um quanto outro testemunho pode ser equivocado por engano ou malícia, e não é a soma de discursos e a comparação entre eles que pode produzir realmente a decisão mais justa.
A terceira parte postula o absurdo da crítica da decisão alheia de não se deixar persuadir por um argumento (no caso específico, um pedido de empréstimo de dinheiro), de vez que se o discurso não é persuasivo e a culpa é do seu emissor, já que se ele fosse persuasivo, teria gerado efeito na liberdade alheia. O ônus é da parte daquele que critica, não cabendo a quem defende sua liberdade de negação nenhuma obrigação de se deixar persuadir pelo que não é persuasivo. Esta é uma valiosa e rara defesa do dom de Soberania na obra platônica, mesmo que num texto suspeito/apócrifo. Isso para nem falar da destruição da idéia religiosa de correção fraterna, ou de defesa em geral da Tradição: os que se pensam virtuosos sempre possuem o ônus do convencimento. A noção disso é tão espontânea e natural no ser humano, que assim que a liberdade é dada ao ser humano, ele imediatamente desqualifica as autoridades temporais que eram louvadas até a véspera. Sempre foi assim.
A quarta e última parte postula o absurdo de se criticar a credulidade diante desconhecidos em contraste com a suposta prudência de se preferir dar crédito a familiares e amigos, e isso por duas razões. Primeiro, como se pode julgar a credibilidade de alguém, se não se colocar em experiência a sua qualidade moral com um gesto inicial de confiança? E segundo, os desconhecidos nossos não são conhecidos de outros, familiares e amigos de terceiros, tanto quanto os nossos familiares e amigos são desconhecidos aos outros, de modo que essa distinção de confiabilidade termina por ser totalmente artificial e contingente?
O chamado bom senso derivado de hábitos e costumes possui a eficiência limitada de sua função social determinada, e não passa disso. Quando contestadas nas suas últimas implicações, as práticas comuns e mesmo as leis humanas são facilmente criticáveis. Isto é o que observamos nos vários exemplos dados no Demódoco.
Filosoficamente, o que nos importa é a observação de que a verdade não é uma propriedade social, e nem pertence a uma sabedoria tradicional a qual nos cabe apenas aprender e repetir. Ao contrário, o amor do buscador da verdade o levará a questionar as coisas tidas como mais certas e garantidas, possivelmente gerando desconfortos sociais ou até litígios, como se vê no caso do próprio Sócrates.
Espiritualmente, vale a jornada da vida da Graça, com Humildade, Presença, Soberania, etc., tudo isso reforçado pela prática filosófica da demolição das falsas verdades sociais. Agora, esta jornada é diretamente vivida diante de Deus, e só indiretamente diante dos homens. Essa prioridade é essencial para não se cair nem na frieza de Éfeso (odiando o próximo), e nem na mornidão de Laodicéia (fazendo-se acordos entre o espírito do mundo e o Espírito Santo). É preciso viver separadamente, santamente, o que obviamente somente Deus mesmo pode nos conceder, desde que queiramos.