Kant contra o transhumanismo da alma humana como substância separada

Ou seja, o sujeito transcendental, como já explicado antes, não pode existir.

Ou existe o sujeito absoluto, Ato Puro, que é a Substância divina, ou existe o sujeito relativo, com as duas potências de Percepção e Apetição, movidas pela ação do Intelecto e da Vontade, que atualizam sempre um limite dentro do Ser divino que é o único objeto de qualquer intuição possível.

Isto quer dizer que as idéias de “união mística”, “visão beatífica”, etc. correspondem mais ao gnosticismo de uma falsa deificação que nega a forma substancial do ser humano enquanto ser limitado, do que ao ideal cristão de reencarnação e de vida paradisíaca conforme o que Deus revelou sem confusão já nos fatos da vida humana atual.

A felicidade do ser limitado está em reconhecer a Graça própria de realizar a sua Apetição dentro do seu limite, pois nada que transcendesse a razão de ser da sua limitação lhe faria jamais sentido.

Assim, ao invés de querer ser como Deus, uma idéia transhumanista que nega a forma criada pelo Altíssimo, o que sempre é uma mentira e, no fundo, um desejo de morte, a satisfação da nossa forma substancial está em querer viver com Deus, ou seja, não a idéia de uma união que significaria apenas dissolução, mas a idéia de comunhão que é a condição de realização, no ser limitado, da sua Apetição.

Saber que não se sabe para a admissão do arbítrio das proposições dogmáticas, a partir de Kant

O empirista, enquanto cético, retoma a antiga labuta socrática de determinar limites à especulação da Razão natural, isto é, a este poder ilimitado que a psique tem de produzir a imagem da verdade.

Com isto a ciência, bem como a própria filosofia em geral, pode seguir seu custo sem ser incomodada com quaisquer obstruções do dogmatismo de qualquer parte, tanto da parte das credulidades quanto das incredulidades, para reconhecer o que é o seu domínio próprio de clareza.

Isto significa que uma boa Razão serve para assumir o arbítrio das proposições dogmáticas, e de criticar se essa espécie de proposição convém ou não à estrutura da possibilidade cognitiva do ser humano.

Como cristãos, somos obrigados a desconfiar da sabedoria dos homens (que é loucura para Deus), o que inicialmente nos poderia dar a idéia de rejeitar in limine todo tipo de especulação filosófica que não se baseasse em dados diretos da Revelação, inclusive a filosofia kantiana.

Mas um ser humano livre, consciente e responsável, não deveria antes indagar-se sobre se a investigação da Crítica da Razão não está justamente trabalhando a favor da denúncia da loucura da sabedoria dos homens, de modo a restringir o entendimento ao que é razoável? E não seria isto um estímulo ao dom de Humildade?

Pode ser que sim, mas também pode ser que não.

A resposta vai depender de como o limite da Crítica é usado pelo fiel que quer entender, com base na Graça divina, e com a finalidade de glorificar o Santo Nome, a condição da vida humana, principalmente a realidade de amar a Deus e ao próximo. Neste sentido a obra kantiana é indiferente: pode ser usada para este ou outro propósito, como uma ferramenta que pode ser usada para construir ou destruir, dependendo da intenção do seu usuário.

Os limites da Razão Pura como condições de operação da liberdade plena, em Kant

O uso transcendental da Razão serve para a investigação da possibilidade e da forma do Ser enquanto Substância Simples, ou seja da Mônada em si e de suas propriedades.

A Unidade em si, como singularidade indeterminada, é inapreensível (individuum est ineffabile).

O conhecimento é produto, ou da intuição sensível de uma representação do Ser –o que diríamos que é a Percepção que a Mônada tem de um aspecto de sua essência, a atualização do Múltiplo como aspecto da Unidade,– ou do entendimento reflexivo de uma representação do Ser enquanto idéia, forma ou conceito, o que chamamos de Apercepção que a Mônada tem de sua própria Percepção.

Isto quer dizer que quando a Razão investiga a Mônada em si, ela busca o que transcende o próprio conhecimento, que só pode ser intuição ou entendimento de um aspecto da Substância Simples, ou um Múltiplo derivado da Unidade.

Mas como ela pode fazer isso, ou seja, investigar o que é incognoscível tanto como objeto de intuição, como de entendimento?

Aí é que entra o valor da Crítica: a Razão só pode investigar as condições gerais de possibilidade de ser da Substância que transcende todo tipo de conhecimento contando com a premissa de que, por ela ter dado a forma dos conhecimentos que derivam de sua essência, ela deve ter na sua própria forma as condições que sejam compatíveis com o que dela reconhecemos por derivação.

Isto só pode se dar através de algum tipo de Idealismo restrito pela Crítica.

A restrição é necessária, caso contrário a Razão produzirá qualquer imagem da verdade que lhe convenha considerando as suas necessidades práticas, não podendo discernir, nessa sua arbitrariedade irrestrita, entre o que é mais ou menos conveniente pela própria integridade da Razão. Em suma: se a Substância simples não pode ser conhecida como se conhecem as realidades das intuições ou dos objetos puros do entendimento, ela só pode ser idealizada, mas se for idealizada sem limites, não poderá produzir nenhuma distinção qualitativa entre um ideal e outro, o que leva à prática do repouso em dogmatismos, a disputa de força entre ideais concorrentes sem o uso de nenhuma faculdade do juízo.

A Substância Simples transcende todo objeto de conhecimento da intuição ou do entendimento, mas não perde a propriedade de ser reconhecida por analogia a todo conhecimento possível. Embora a Unidade não possa ser apreendida psiquicamente (com o que poderíamos compará-la, senão com ela mesma?), ela é analogicamente reconhecida por analogia como fundamento de toda Multiplicidade possível. O que quer dizer que sempre que conhecemos algo, por intuição ou entendimento, conhecemos por analogia a Substância Simples através de um reflexo que só pode derivar dela.

A analogia pura guia, assim, o Idealismo Transcendental para o reconhecimento das propriedades da Mônada, embora não lhe dê nenhum conteúdo particular que requereria justamente o conhecimento de alguma intuição ou entendimento. A forma da Substância Simples é compatível com qualquer espécie de conteúdo, indiferenciadamente.

Reconhecemos as potências de Percepção e de Apetição, que são as operações de qualquer Intelecto e Vontade, respectivamente, mas de modo indiferenciado, sem conteúdo determinado, já que a esseidade da Mônada é a singularidade indeterminada que não restringe a operação de suas potências de nenhum modo particular.

Mas a partir daí temos, por essa restrição da Crítica da Razão, os elementos básicos que nos permitem condicionar a própria operação da liberdade humana: seja qual for a resposta da investigação do Idealismo Transcendental, ela terá a forma indeterminada e continente das propriedades da Substância Simples, com o conteúdo indiferenciado arbitrado pela liberdade humana. Nossa liberdade é condicionada pela forma da Mônada: tudo o que interessa é a busca do ideal que corresponda melhor às potências do Intelecto e da Vontade.

Mas qual é o melhor objeto do arbítrio, o que melhor corresponde à universalidade não só da condição humana, mas de qualquer ser contingente que possua a sua característica intelectual e volitiva, senão o Sumo Bem que responde perfeitamente e absolutamente a qualquer interesse prático possível?

Daí é que se pode usar, se assim se quiser proceder, a Crítica da Razão como recurso determinante dos limites da própria Razão para que a liberdade de confiança no Sumo Bem como causa formal e final de todo ser possível, o que já chamei de Teleologia Metaracional, que é uma premissa da Monadofilia.

A maneira de operar essa liberdade é a de restringi-la a um idealismo transcendental que se ponha apenas a questão de qual é o maior bem possível dadas como propriedades da Substância Simples somente o Intelecto e a Vontade sem diferenciação de objetos particulares.

Em outros termos: a busca do idealismo transcendental é a do maior bem possível para a Mônada que Percebe e Apetece, no uso de uma liberdade singular e indeterminada, para a produção de seu conteúdo, sem o prejuízo de nenhuma liberdade que tenha a mesma dignidade.

Desta busca derivamos a perfeição máxima como Coruscância, na forma da infalibilidade da Comunhão plena com o Espírito Santo, a qual requer, para a integridade da perfeição, a necessidade de uma experiência menos do que perfeita para a realização da liberdade do contingente (Eleuteriodiceia na justiça da mistura, e a RSMM na operação da obra divina de separação, ou santificação).

Entende-se assim, filosoficamente, os elementos da soteriologia cristã, quais sejam: os da Cruz (RSMM), Morte (fim da Mistura), e Ressurreição (Coruscância).

Perceba-se que sem a Crítica da Razão, de fato a arbitrariedade humana fica totalmente solta para definir os objetos mais inconvenientes da nossa crença, como ocorre com os dogmatismos problemáticos dos teísmos e dos ateísmos, sem reconhecer os limites da sua especulação que informam a conveniência do Sumo Bem como melhor objeto da operação da nossa liberdade. Nenhuma especulação sem limites negará as propriedades da Mônada, nem a conveniência subentendida da suas operações, sob pena de cair em um irracionalismo, mas pela sua arbritrariedade sem freios pode perder-se em considerações que só distanciarão a consciência humana do seu verdadeiro objetivo, isso quando não postulam as ilusões e mentiras que fazem aumentar o peso da Cruz, ao invés de aliviar.

Esta crítica não precisa ser feita ao modo kantiano, porém. Qualquer boa filosofia deveria ser capaz de chegar a este resultado, possivelmente de modo mais direto e menos problemático do que o procedimento do filósofo prussiano.

A transcendência da liberdade moral aos fundamentos naturais em Kant

Esse poder racional de acomodar as condições empíricas dentro de uma consideração que as transcendem é a base do fenômeno moral humano como ser que realiza a Metáxis, o homo pontifex: um representante de Deus no seio da natureza.

O ser humano que se vê como parte do cosmos, ainda que privilegiadamente no seu topo, não pode compreender a natureza da sua liberdade moral, pois toma como origem constitutiva da sua substância o que é apenas o cenário da realização do seu arbítrio. Todo condicionamento empírico, natural, causal, fenomênico, serve apenas como matéria-prima para a realização espiritual do ser humano, o qual só pode reconhecer a verdadeira origem da sua substância num Ser que transcende toda a série dos contingentes.

Assim, com Kant aprendemos como o jogo gnóstico dos prisioneiros da matéria não passa de um TEATRO. Isto é: ao invés de assumir a verdadeira natureza humana e, com ela, a responsabilidade da vida na Presença, o ser humano médio, decaído e amaldiçoado, prefere se ver como abandonado por Deus e finge apenas reagir a uma condição, como se ela não tivesse nenhuma relação com a sua forma de ser. Sua mentira pode chegar, finalmente, se for longe o bastante, ao cume quando ele passa, da idolatria da natureza à idolatria de si mesmo, do panteísmo naturalista ao humanismo antropocêntrico.

Quão pouco custava a liberdade, o mero preço de uma confissão, mas esse ser teimoso quer experimentar a sua própria desobediência até o fim. Um direito que não lhe pode ser tirado, mas que também, e com justiça, custará tudo o que tiver que custar.

O Incondicionado no Prefácio da 2ª Edição da Crítica de Kant

“Aquilo que nos impulsiona necessariamente a ir além dos limites da experiência é o incondicionado, que a razão exige necessariamente nas coisas em si mesmas e, com toda justiça, em todos os condicionados e, portanto, na série das condições como uma série completa. Se, quando se assume que o nosso conhecimento por experiência se regula pelos objetos como coisas em si mesmas, verifica-se que o incondicionado não poderia ser pensado sem contradição; se, ao contrário, quando se assume que a nossa representação das coisas, tal como nos são dadas, não se regula por estas como coisas em si mesmas, mas os objetos é que se regulam pelo nosso modo de representação, verifica-se que a contradição desaparece; e se, portanto, o incondicionado tem de ser encontrado não nas coisas enquanto as conhecemos (enquanto nos são dadas), mas sim enquanto não as conhecemos, enquanto coisas em si mesmas: assim se evidencia que tem fundamento aquilo que, no começo, assumíamos apenas a título de tentativa.”

Kant está nos dizendo que, por um lado, o Incondicionado é necessário para que o Condicionado seja possível, e que, por outro lado, se só possuímos conhecimento do que é Condicionado (ou através do Condicionado), o Incondicionado perde a sua qualidade de necessário, o que é impossível. Esta contradição só pode ser resolvida se considerarmos todo o conhecimento do Condicionado como uma representação de um conhecimento, e não como conhecimento direto.

Ele nada mais está fazendo do que uma recuperação de um dos temas mais antigos e importantes –se não for o mais importante–, da História da Filosofia: a diferença entre o que é por si e o que não é por si. Vejamos os nomes dados a esse contraste nas terminologias dos filósofos:

Parmênides-HeráclitoPermanenteTransitório
PlatãoIdéiaImagem
Aristóteles 1SubstânciaPredicado
Aristóteles 2PossibilidadeSer
Aristóteles 3FormaMatéria
Aristóteles 4EssênciaAcidente
Aristóteles 5AbstratoConcreto
Pitágoras-PlotinoUnoMúltiplo
AgostinhoAlmaMundo
Descartes 1Substância PensanteSubstância Extensa
Descartes 2Qualidade do DiscretoQualidade do Contínuo
Kant 1Coisa-em-SiRepresentação Fenomênica
Kant 2IncondicionadoCondicionado
LeibnizMônadaReflexo

Além da Filosofia, a Teologia também apresenta essa importante distinção na visão das coisas espirituais.

Quando Deus é chamado de “A Rocha”, por exemplo, estamos falando da mesma Substância permanente diante do qual todo os outros seres possuem uma substância derivada, ou relativa. Quando os Profetas acusam os ídolos afirmando que cada um é “Vazio”, é uma repetição da mesma coisa. Quando Deus diz para Adão, em Gênesis 3, que ele por si é apenas “pó”, é a mesma afirmação por novo ângulo. Já Jesus afirma que apenas uma coisa é necessária, e que devemos procurar em primeiro lugar o Reino de Deus diante do qual nada mais interessa (nada mesmo, inclusive a família, a religião, etc.), e ainda por cima diz que o Reino de Deus está dentro de cada um de nós. A contemplação disso é fundamental para o entendimento do dom da Presença.

Voltando ao Kant, procurando pelo “conceito racional transcendente do incondicionado”, que é a antiga Substância, ele tateia igualmente na direção da Unidade plotiniana e da Mônada leibniziana.

Ele verifica, com razão, que se conhecemos a verdade somente através dos objetos da experiência da transitoriedade, não podemos conceber o Incondicionado que é, aprioristicamente, necessário pela própria Razão, do contrário toda a lógica do pensamento é destruída, a começar pelo Princípio de Identidade. Só se pode preservar a necessidade do Incondicionado ao se relativizar o conhecimento obtido por experiência como uma representação da verdade, e não como domínio da mesma. Para que o Incondicionado mantenha a sua integridade, é preciso que o conhecimento experimental seja uma representação.

A repercussão dessa intuição é tremenda.

Monadofilicamente, por exemplo, afirmamos que as mônadas sem janelas do Leibniz só se conhecem pela mútua representação, de tal modo que todos amamos a Deus no fim das contas, através de vários reflexos, e é impossível conhecer o inefável, que é a singularidade monádica de outra pessoa (o tal do João não ama Maria, mas ama João na forma de Maria).

Também afirmamos, com tranquilidade, que é impossível uma mônada vir a ser por um processo natural de geração, tanto quanto é impossível que seja corrompida por um processo natural de entropia, podendo apenas ser criada ou aniquilada por ato puramente divino, resultando assim em absurda a hipótese de que qualquer alma humana dependa do processo natural de geração e corrupção da procriação animal da espécie para vir a ser.

As aplicações dessa intuição são intermináveis, é uma fonte ilimitada de sabedoria.

Metareflexividade: a pedra filosofal da Monadofilia?

Recentemente alguém observou, a partir de uma explicação que dei num vídeo publicado, que aquilo que se costuma atribuir ao mérito das virtudes humanas na verdade é dom de Deus. Eu falava particularmente de generosidade e magnanimidade, mas podia falar de qualquer outra qualidade.

A visão do conteúdo vida interior como dom puro da Graça divina nos permite entender o que é a vida na Presença sob um ponto de vista interessante. Porém, falar disso não é tão fácil, dependendo do quanto cada pessoa está envolvida com o espírito de idolatria, seja do objeto da sua percepção, ou seja da sua própria subjetividade. Somos inclinados à idolatria por uma natureza decaída e por uma criação de cativeiro. E entendemos a realidade sob a ótica da causalidade natural, um código embutido na realidade percebida exatamente para o exercício da nossa função de amar livremente, seja a criação ou o Criador.

Convém-nos entender esse tema com maior profundidade, usando o entendimento do que é a Mônada, e usando qualquer recurso que nos auxilie, como por exemplo o funcionamento do simbolismo do Sol e da Lua, entre outras idéias.

A Mônada possui essas potências já muito referidas, de Percepção e Apetição, às quais Leibniz mesmo acrescentou a potência da Apercepção (que é a Percepção da Percepção), e às quais eu acrescento agora a hipótese da Metareflexividade.

A Percepção é a visão que a Mônada tem do seu próprio reflexo, que também chamamos de Intelecto.

A Apetição é o desejo que a Mônada tem da próxima Percepção, que também chamamos de Vontade.

A Apercepção é a visão que a Mônada tem da sua própria Percepção, que também chamamos de Consciência.

Já a Metareflexividade é a visão da visão que a Mônada tem da sua própria Percepção, que também chamamos de Discernimento, ou consciência da Presença.

Iniciemos, como exemplo, uma analogia com a operação da nossa visão física.

A Percepção é como a visão que o olho tem do seu objeto.

A Apetição é como o desejo que o olho tem, por assim dizer, de ver o próximo objeto.

A Apercepção é como a visão que o olho tem de si mesmo, por exemplo vendo-se num espelho.

A Metareflexividade é como a visão que o olho tem de si mesmo e de seus objetos como aspectos da mesma substância, isto é, de que tanto a qualidade do objeto quanto a do olho são dados pelo mesmo ser, como um olho do olho, ou visão da visão.

Existe a qualidade daquilo que é visto, e a qualidade da visão em si mesma.

A qualidade do que é visto é a Nitidez da Percepção, ou na sua ausência, Ofuscação.

Já a qualidade do olho que vê é a Cristalinidade da Percepção, ou na sua ausência, Opacidade.

Com a Metareflexividade compreendemos que a qualidade das coisas percebidas são aspectos da luz divina refletidos pela nossa Percepção, tanto enquanto a qualidade do nosso perceber é dada pela luz divina que anima o nosso espírito (ou com o qual entramos em comunhão através do livre-arbítrio). Tanto Nitidez quanto Cristalinidade são dons divinos para o ato humano de Percepção: Deus dá o bem que percebemos, e dá o bem de perceber, ou ainda, Deus nos dá o que amamos e nos dá a capacidade de amar.

A consciência disto é um recurso tremendo, para o qual já usei o nome de Discernimento. Com essa noção entendemos que a nossa reação ao que percebemos, conduzida pelo costume da idolatria naturalista da causalidade, normalmente ignora a origem divina tanto da qualidade do percebido quanto do nosso ânimo de perceber. As coisas não são boas ou ruins independentemente da Providência como causa fundamental, e nem temos um bom ou mau ânimo por causa do nosso psiquismo, porque tudo é dom divino. Viver na Presença, com Discernimento, ou na Metareflexividade, é ter a consciência simples do Amor divino como causa do que é percebido e da própria Percepção.

No simbolismo do Sol e da Lua apreendemos esse esquema facilmente ao verificar que a virtude da Lua diante do Sol é a de uma total passividade, a capacidade de receber um dom externo, que é o poder solar. Por si mesma a Lua é Nova, pura potencialidade, e se nunca for iluminada pelo Sol, permanecerá na sua própria obscuridade indefinidamente. O que temos, por nós, é essa obscuridade da mônada que não atualiza nenhuma Percepção se não for a do reflexo da luz divina no seu próprio ser.

Vejamos na tabela abaixo alguns outros termos que podem ajudar a compreender a idéia da Metareflexividade:

PERCEPÇÃOAPERCEPÇÃOMETAREFLEXIVIDADE
Nitidez/Ofuscação Cristalinidade/OpacidadeDiscernimento
Qualidade do Objeto percebidoQualidade do Sujeito que vêQualidade da Origem da Relação Objeto-Sujeito
Clareza na visão do bem divino (objetos em Deus)Clareza na visão da visão do bem divino (sujeito em Deus)Clareza na visão da visão da visão do bem divino (tudo em Deus)
Consciência do ReflexoConsciência da consciênciaConsciência da consciência da consciência
Consciência em PotênciaConsciência em Ato PrimeiroConsciência em Ato Segundo
Satisfação primária da Apetição (qualidade do percebido)Satisfação secundária da Apetição (qualidade do percipiente)Satisfação plena da Apetição (qualidade da consciência de ser amado através da Percepção)
Ciência do SerCiência da PossibilidadeCiência da Presença
Consciência primária, “sensação inteligente” (Zubiri)FilosofiaMetafilosofia

Podemos traçar um exemplo através de uma cena ordinária: João vê seu gato dormindo e fica contente (Percepção, Potência, vida inteligente); João vê que vê seu gato dormindo e fica contente (Apercepção, Ato Primeiro, vida psíquica); e João vê que vê que vê seu gato dormindo e fica contente (Metareflexão, Ato Segundo, vida espiritual, ou vida na Presença).

Em termos do testemunho bíblico e evangélico a respeito da Metareflexividade, talvez não haja sinal mais evidente dessa realidade do arbítrio da consciência do que esta expressão de Jesus:

“A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se teu olho estiver são, todo teu corpo ficará iluminado; mas se teu olho estiver doente, todo teu corpo ficará escuro. Pois se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as trevas!“

Jesus está dizendo, entendendo nos nossos termos, que a verdade e a luz não são propriedades externas ao nosso ser, mas realidades da vida interior. O Reino de Deus está dentro de nós. Não adianta buscar isso fora. Não existe fora. O “fora” é uma ilusão da nossa idolatria. Só existe a Presença e a nossa Percepção dela. Qualquer realidade externa pode ser vista através de um olhar sadio ou doente. E cabe a nós cultivar ou não o dom da luz divina que nos permite ter um olhar luminoso. A Metareflexividade é a busca da consciência da vida na Presença, a busca de Deus no que é percebido e também no nosso ânimo de perceber, pois tudo é dom Dele.

O que é, afinal, a Metareflexividade? É a visão da visão, noesis noeseos, o encontro do Amor divino nas duas pontas da Percepção, naquilo que é visto e no espírito que vê o que é visto. Com isto entendemos finalmente que nós vivemos somente para amar e ser amados. A função da vida humana é a mais simples que se possa conceber, eficientemente e monadologicamente pela apreensão da natureza da substância simples, e finalisticamente e monadofilicamente pela apreensão do bem próprio da substância simples.

E esta pode ser a pedra filosofal da Monadofilia porque, se isto for atingido, o que mais pode ser necessário?

Não é esta reflexão a descoberta do Reino de Deus dentro de nós?

É exatamente isto.

Quem faz esta descoberta prescinde de qualquer outro recurso espiritual, pois tem a única coisa necessária, o verdadeiro Evangelho: a Boa Notícia de que Deus é Amor, e de que nisto consiste o Amor, em que não fomos nós que amamos, mas que foi Deus quem nos amou primeiro.

A divina comédia, livro por Dante ALIGHIERI

Comentário feito em anotações separadas, a serem lidas em vídeos próprios.

Esta visão é estritamente filosófica e espiritual, sem considerações de âmbito estético, de técnica poética, ou de ocultismo/esoterismo.

Nota espiritual: 2,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno2
Soberania/Gnosticismo1
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo2
Nota final2,9

Citação de Francis Bacon na Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant

Kant é um filósofo iluminista que trabalha na conciliação entre o racionalismo de Descartes e o empirismo de Hume. A verdade deve ser um fruto que vem tanto da Razão quanto da experiência.

Nascido em 22 de Abril de 1724 em Königsberg, Prússia Oriental, sua contribuição ao Aufklärung não pôde evitar a consolidação do hiato entre as futuras filosofias continental e analítica.

O filósofo prussiano abre a sua Crítica da Razão Pura citando Francis Bacon:

“Pedimos que os homens não o considerem [a Grande Restauração, ou renovação das ciências] uma opinião, mas um trabalho sério; e que estejam convencidos de que lutamos para assentar os fundamentos não de alguma seita ou opinião arbitrária, mas sim para a utilidade e o engrandecimento da humanidade.”

Esta é uma escolha curiosa de palavras. Nosso dever crítico é o de localizar e exprimir as premissas desse pensamento.

Como de qualquer outro, aliás. Talvez seja importante explicar isso aos meus alunos que ainda não tenham essa noção.

Entender algo é conhecer as suas causas.

Sócrates inaugurou a consciência disso quando inverteu a lógica sofística: ao invés de seguir adiante somando novos argumentos para levar a vítima à conclusão desejada, o que constitui uma ação de Poder sobre o outro, o desejo de dominar e escravizar com a imagem da verdade, um filósofo investiga na direção oposta, para trás, ao se questionar o que deveria ser verdade como premissa para que a idéia proposta seja verdadeira ela mesma, ou seja, uma ação que constitui um ato de Amor sobre o outro, o desejo de libertar da mentira e do engano.

Por isso se diz que um filósofo é um amante, porque ele exerce um ato amoroso, ama a Verdade e ama a liberdade do próximo de conhecê-la. E também por isso a filosofia cristã é uma idéia tão viável, porque é a prática, no âmbito intelectual, dos Mandamentos: amar a Deus e ao próximo, através do amor pela Verdade em si mesma, e através do amor pela libertação do próximo contra a escravidão da mentira.

Dada uma idéia, o entendimento deve buscar as suas causas e não os seus efeitos, por mais desejáveis que estes possam aparentemente ser. A corrupção provém da mentira que legitima uma idéia pelo desejo de alcançar a conclusão. A libertação faz o oposto. Danem-se os nossos interesses mesquinhos, a Verdade deve ser honrada, inclusive e principalmente contra os nossos desejos mais imediatos. Não quero saber dos efeitos do discurso. Quero saber das suas causas. O que as coisas significam? O que deve ser verdadeiro antes, para que uma idéia também o seja depois?

Na citação escolhida por Kant, Francis Bacon contrapõe, em primeiro lugar, a idéia de OPINIÃO com a de SERIEDADE, e em segundo lugar, as idéias de SEITA e OPINIÃO ARBITRÁRIA com as de UTILIDADE e ENGRANDECIMENTO DA HUMANIDADE.

Entender o que Francis Bacon disse, e portanto o que Kant subscreveu, requer entender o que significam essas contraposições.

Ora, comecemos com a seguinte questão: por que uma opinião não pode ser séria?

Se uma opinião é um tipo de idéia, o que torna uma idéia séria ou não séria, para que atribuamos seriedade ou não a ela?

Opinião, ou doxa, é uma imagem da verdade que substitui o conhecimento da mesma, enquanto Ciência, ou episteme, é o próprio conhecimento da verdade.

Evidentemente, quando se possui acesso ao que é verdadeiro, não é preciso e nem conveniente presumir o que de outro modo o seria. A quem sabe algo, presumir qualquer outra possibilidade a respeito do que é sabido significa o que se sabe, e portanto trair a si próprio. É claro que isso deve ser evitado.

O nosso problema é que a ignorância é tão fundamental e constitutiva da situação humana, que a capacidade de se possuir o conhecimento pleno e acabado sobre o que quer que seja termina por ser mais um ideal do que uma realidade. Justamente com certos objetos de abstração pura, como os dados pela geometria e pela matemática, nós alcançamos o grau de perfeição desse ideal, apenas para voltar nossa mente à realidade onde a nossa consciência não consegue atribuir o mesmo tipo de veracidade aos objetos da experiência sensível, mesmo quando possuímos o tipo de conhecimento técnico que nos permite dominar a natureza antes de compreendê-la.

Isto significa que a Opinião (doxa) existe, e deve existir necessariamente, para atribuir possibilidade (eikasia) ou verossimilhança (pistis) àquilo que ainda não se pode conhecer cientificamente (episteme) como mais provável (dianoia) ou mesmo como certo (noesis).

Por outro lado, o que é seriedade?

Seriedade é o tratamento digno que é merecido por uma pessoa, assunto ou coisa. Quer dizer respeitar, honrar, dignificar, etc. O contrário da seriedade é a leviandade, o jogo, a falsidade, etc.

Voltemos à questão, então: porque uma opinião não pode ser séria?

O que torna uma idéia séria ou não séria?

Uma idéia séria é aquela que honra o seu objeto ou assunto, enquanto uma idéia não séria é aquela que o trai com desrespeito.

Ora, honrar e respeitar é uma ação moral que implica ter o objeto como importante e sério.

Por outro lado, opinar é uma ação intelectual que produz uma imagem da verdade na ausência do conhecimento mais provável ou certo da mesma.

Por que uma idéia não pode, na ausência de um conhecimento mais provável ou certo do seu objeto, honrar e respeitá-lo mesmo assim?

A contradição não existe necessariamente, porque a ação moral e a ação intelectual se referem a gêneros diferentes de seres.

Moralmente, escolhemos respeitar ou não o objeto ao qual nos referimos.

Intelectualmente, porém, escolhemos produzir uma idéia que tem um tipo de credibilidade variável conforme possuamos ou não o conhecimento desejado.

Uma opinião pode honrar o seu objeto e tratá-lo seriamente, sem subir seu grau de entendimento ao nível da ciência, tão somente porque isso pode não ser possível dada a condição comum da ignorância humana.

Um assunto ou problema mantém indefinidamente o seu grau de seriedade, independentemente da ignorância daquele que o trata. É assim que sabemos que a guerra em Gaza ou a proliferação de armas nucleares são problemas sérios sobre os quais não há uma solução científica a respeito, mas muitas opiniões que devem ser sérias ao nível desses problemas.

É o que o artista faz com sua imaginação, é o que o político faz com a sua promessa de governo, é o que o crente faz com a sua fé, etc.

Um cientista pode e deve restringir as suas idéias, enquanto científicas, ao âmbito apenas do que pode ser dado como provável ou certo. Mas todos os demais seres humanos que NECESSITAM crer em algo antes de sabê-lo para simplesmente viverem as suas vidas não só podem como devem produzir uma opinião que busque ser a mais séria e responsável possível, dadas as limitações da condição humana e certos valores tidos como princípios gerais para todos os casos, como os que baseiam a moralidade comum.

Opiniões, portanto, não só podem ser sérias como devem ser.

A evidência disso está na realidade humana de cada dia onde, por exemplo, é totalmente comum e esperado a responsabilização moral de uma pessoa pela sua opinião. Se nenhuma opinião pudesse ser séria, nenhuma opinião poderia ser contestada seriamente, por exemplo, pela verificação das suas consequências e pela imputação de responsabilidade aos seus proponentes.

Pior ainda, a motivação por trás da Grande Restauração, ou renovação das ciências, é ela mesma uma opinião e e não uma certeza, dado que se fosse certo seria objeto de demonstração e não de apologia. Veremos isso com mais detalhe mais tarde ao tratar da segunda contraposição.

E para destruir de vez essa noção de contraposição entre opinião e seriedade, convém lembrar que o princípio de qualquer investigação científica é uma opinião inicial, que é tratada como hipótese sobre o verdadeiro, e portanto seriamente, para que se possa seguir para as próximas etapas do processo. Ainda mais, as premissas de qualquer investigação são tomadas como autoevidentes por um ato de crença, e não por uma exaustiva demonstração, do contrário o próprio progresso científico seria inviável. Acredita-se que tal e qual premissa é válida por ter sido eventualmente demonstrada como a mais provável, mas a qualquer momento um pesquisador pode revisar aquilo que se tinha como premissa de método, ao introduzir uma nova hipótese a respeito.

Com isso tudo temos que a primeira contrariedade sugerida por Francis Bacon, e subscrita por Kant, é uma figura de estilo e não um conceito rigoroso.

Ou seja, os nossos amigos aqui querem nos convencer de que são rigorosos no ato mesmo de nos provar que não o são, ao menos no uso mais ligeiro e corrido da linguagem, onde se assemelham aos demais pobres mortais que são cheios de opiniões.

O ideal de ciência é o desejo de libertação da opinião como um tipo inferior e indesejado de idéia.

Pois bem, esse ideal nunca foi realizado na existência humana, nem mesmo no âmbito da ciência, já que a certeza continua sendo extremamente restrita a objetos de pura abstração e o resto depende, no máximo, de opiniões mais qualificadas por diferentes graus de credibilidade. Isso chega ao ponto, com a Falseabilidade de Popper, da confissão de uma consciência da investigação científica como um método de se trocar opiniões menos sérias por outras mais sérias, mas que só podem continuar a ser defendidas exatamente porque podem ser contestadas, ou seja, porque não significam uma certeza. Fazer ciência, quem diria, é fazer opiniões sérias, marginalmente mais qualificadas, justamente aquilo que os iluministas queriam negar, ou seja, o que queriam negar aos outros mas não a si mesmos.

Se o ideal da libertação da opinião nunca foi realizado, isto quer dizer que não passa de um objeto de imaginação e crença nos corações e mentes dos homens. E essa é exatamente a imaginação e a crença do Gnosticismo, a vontade de se libertar da necessidade de crença através da Gnose.

Infelizmente para os gnósticos, isso nunca vai passar de um sonho e de uma farsa. É uma mentira. O Conhecimento pleno só é possível ao Ser pleno, que é Deus. E Deus só tem um. Qualquer ser finito terá, diante do pleno possível que só um Logos divino pode dominar, um conhecimento necessariamente limitado e, portanto, uma condição existencial de ignorância permanente.

A forma do ser humano, como a de qualquer ser contingente, contém uma limitação que o determina constitutivamente. No nosso caso, temos o grande privilégio de sermos feitos, à imagem e semelhança do Criador, com Intelecto e Vontade. Isso significa que, ao contrário dos demais seres, somos agentes morais que completam a sua Percepção com a Apercepção: sabemos que sabemos um pouco, e sabemos que não sabemos todo o resto. A consciência da limitação da nossa forma deveria instruir o nosso Intelecto a assumir a condição humana de ignorância atual com a escolha moral livre e responsável mais compatível e condizente com esta realidade: a opção pelos dons de Soberania e Humildade.

Nos primórdios da História da Filosofia nós temos, na origem do platonismo, essa dupla influência decisiva que vai demarcar o território das possibilidades de todo o futuro filosofar humano: o gnosticismo pitagórico, algo transhumanista, para não dizer prometéico (ou luciferiano), e a responsabilidade socrática, que antecipa na história das idéias o valor moral cristão de humildade e mansidão.

Na minha obra e no meu ensino deixo claro a todos a minha escolha: pela responsabilidade moral contra a ilusão gnóstica. Aqui tratamos de um exemplo disso.

Depois continuamos com a análise da segunda contraposição, entre as noções de “seita” e “opinião arbitrária”, e “utilidade” e “engrandecimento da humanidade”.

A importância da Perfeição para o Argumento Ontológico e a Eleuteriodiceia

Quem medita sobre a Perfeição encontra os grandes recursos das idéias de Limite e Infinito. Enquanto o Limite determina a forma do ser e, portanto, do alcance da sua potência em direção à Perfeição, o Infinito se impõe como necessário para que o primeiro ser se realize no seu próprio Limite.

A Perfeição é a completude de atingimento de possibilidades que só podem ser determinadas por um Limite. Sem o Limite não pode haver Perfeição nos contingentes, porque não haveria completude. Já o Infinito é a causa necessária para que o primeiro ser limitado se realizasse, dado que numa série causal qualquer se o primeiro causado não tivesse o seu limite determinado por um ser sem limites (o Infinito que é causa de si mesmo), a sua potência jamais seria realizada. Deriva-se, assim, da Perfeição, o Limite e o Infinito. Para que haja Perfeição, os dois são necessários.

Ora, se um ser contingente não fosse limitado, nenhum outro lhe seria compossível. Rejeitado qualquer monismo radical, qualquer ser existe no limite entre o que pode ser e o que não pode ser, limite que define a forma dos compossíveis. Mas se cada ser contém a sua perfeição própria, dada pela sua forma, a perfeição do Infinito não é menos possível, quanto é na verdade mais provável. Ocorre que se em um ser particular a perfeição é uma potência essencialmente formal e apenas acidentalmente real, no âmbito do Absoluto (ou seja, do Infinito) a perfeição deve ser real, pois se não o fosse outro ser potencialmente mais perfeito seria possível como real, o que é contraditório com o Absoluto.

A perfeição de qualquer contingente é potência apenas eventualmente atualizável. Já a perfeição do Absoluto, ou Infinito, além de possível deve igualmente ser real, ou existente. Se não o fosse, outro ser maior que contivesse essa qualidade teria que lhe superar, o que contraditaria a sua essência. Em outros termos: para que a Perfeição como qualidade do Infinito seja possível, ela deve ser real, pois o Perfeito sem limites que não é real não é perfeito, já que um outro possível lhe superaria, o que constituiria um limite ao seu ser e, portanto, uma contradição. Em suma: no contingente a perfeição é acidental, já no Absoluto, ou Infinito, a perfeição é essencial. O perfeito que não é real não é perfeito, a não ser nos contingentes, onde essa potência pode não se atualizar. A meditação a respeito de Deus deveria sempre respeitar essa qualidade formal dos conceitos de Infinito e Perfeição, e da necessidade de ambos. Foi isto o que Anselmo da Cantuária quis expressar no seu Argumento Ontológico: se Deus é considerado na sua qualidade presumida, Ele deve ser real necessariamente, por um atributo da sua forma. Escolasticamente se afirma, também, que em Deus não existe diferença entre o ente e a essência (Tomás de Aquino), e que o ser onde essa diferença é abolida não só é possível, como é necessário.

Além disso, encontramos a impossibilidade da hipótese do Paraíso imediato, sem a agência da Cruz, desde que este implica num grau de perfeição que contradiz qualquer falha no exercício da Liberdade das mônadas. A perfeição paradisíaca, por um lado, requer a presença de seres livres que constituam a maior bem-aventurança possível, sendo um paraíso sem liberdade uma contradição; por outro lado, requer uma experiência real de liberdade que lhe anteceda, em alguma medida de individuação que lhe permita a Coruscância de forma plena, ou seja, imaculada.

Esta meditação mostra como da Perfeição, já dada como necessária, se deriva alguma experiência de Cruz também como necessária. Esta necessidade não tem nada a ver com a teologia do sacrifício de sangue, como se supõe na teologia das religiões cristãs. Aliás, o sacrifício perfeito do Cordeiro deveria eliminar qualquer necessidade de sofrimento adicional a partir da conversão. Um convertido deveria ser imediatamente arrebatado assim que se desse a sua conversão. Ao contrário, Jesus indica que cada um deve carregar a sua cruz, independentemente da sua ação sacrificial que tem, na verdade, outra função espiritual (a da Revelação). A Cruz é necessária para que a perfeição paradisíaca se realize. Não há Paraíso sem Perfeição. E não há Perfeição onde tudo não tenha alcançado a sua completude. Duas coisas são incompossíveis, portanto, com o Paraíso: primeiro, a ausência da liberdade, que é a única realidade que torna a bem-aventurança uma plena glorificação do Criador, e segundo, a não realização desta liberdade no ato mesmo de aceitação dessa comunhão espiritual. O aceite deve anteceder a condição  paradisíaca em qualquer grau de perfeição menor, e isto é o que podemos chamar de Cruz no sentido mais universal, aplicável a todos os mundos possíveis, ou melhor, a todas as mônadas. A Coruscância, sendo a comunhão total sem defeitos, requer a Cruz como condição da realização da liberdade.

Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM)

Assumida a premissa da Eleuteriodiceia que justificou a liberdade exercida como condição da perfeição da Coruscância, encontramos na esseidade da mônada uma carência tão própria de experiência do mal que a mesma pode ser entendida como tão única quanto a sua própria singularidade.

Isto é o que confunde a imaginação gnóstica na sua noção de complementaridade de luz e trevas, e de bem e mal: a liberdade de um contingente imperfeito. A mistura não é uma determinação derivada do ser divino, mas do criado, e é regulada pela sua vontade de experiência da imperfeição, ou seja, o desejo do mal é uma arbitrariedade da mônada criada. Isto precisa ser permitido, do contrário a mônada não pode escolher livremente a comunhão com o Amor divino pela eternidade, ou seja, não pode entrar no Paraíso. Epistemologicamente, diríamos que o desejo das trevas, ou do mal, corresponde ao requisito de autoconhecimento que a mônada possui antes de entregar-se ao Amor divino como única solução ao seu desejo de Bem. A obscuridade é a propriedade da mônada que por si não possui o seu bem. Conhecendo a si mesma, a mônada se entende como carente do Bem transcendente, e finalmente pode compreender como que a função do seu ser não é o de brilhar por si, mas o de refletir uma luz exterior.

Garantido o conhecimento pleno do Logos, temos por outro lado, no domínio da Onisciência divina, a noção precisa da medida própria de cada mônada na sua arbitragem particular, de tal modo que a Providência determina com precisão infalível qual deve ser a experiência de cada alma no grande concerto da Mútua Representação.

Conhecedor dos futuros contingentes, o Criador, pela sua arte divina, pode produzir o arranjo ótimo que fornece a oportunidade de realização da liberdade de cada mônada na harmonia total da mutualidade.

Essa medida, que podemos chamar de Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM), se encontra exatamente entre os extremos limites restritores, ou seja, entre todo o benefício que constitui a dissolução da Liberdade por um lado, e todo o malefício que seria invencível para o alcance da Liberdade de crença da mônada, por outro. Arbitrada contingencialmente e de solução variável no tempo, a RSMM só pode ser dominada pelo dom divino do Criador, embora possa ser intuída com variados graus de acerto por quem medite sobre isso.

Essa meditação certamente é uma das mais difíceis, dado o seu grau elevado de sutileza. Primeiro convém perceber como o Bem irrestrito extinguiria a possibilidade da Liberdade, como um oceano afogando uma vítima. Segundo, convém verificar como igualmente o Mal irrestrito sufocaria a crença livre da mônada, que apesar de poder desejar o Bem, só o faz dentro da sua capacidade. Por mais que essa capacidade seja arbitrada, Deus já conhece esse limite e nunca o ultrapassaria, pois o objetivo é a realização da liberdade dentro do escopo da possibilidade da mônada. Como podemos ver no diagrama acima, assim como a Cruz pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é ideal, ou seja, entre a experiência atual e o Bem divino, a RSMM pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é apetecido, ou seja, entre a experiência atual e o Bem presumido, arbitrado pela própria mônada. A experiência de vida mais humilde e mansa, na imitação de Cristo, é aquela em que, enxergando o mais valioso segmento da Cruz, livremente se aceita diminuir a diferença entre o percebido e o apetecido reduzindo a pretensão e, portanto, o sofrimento. O sofrimento da alma é gerado por ela mesma, pela desmesura da sua Pretensão, ou falta de Humildade. Nós geramos o nosso sofrimento. Há analogias em outras filosofias e linhas espirituais, como no “querer é sofrer” de Schopenhauer, ou no budismo, etc., embora somente a visão cristã supere o gnosticismo que desconfia da potência da realidade, e não somente da própria mônada na condição de experiência da Liberdade antes da Coruscância paradisíaca. Essas outras doutrinas podem ajudar no quesito do autoconhecimento necessário para se descobrir as trevas, mas não conseguem superar esta aporia, daí o seu desejo de morte através de conceitos de “absorção na Unidade”, “visão beatífica”, “união mística”, etc. Possuem a negação do mal, mas não conseguem afirmar um bem que não seja o universal, porque não compreendem a propriedade reflexiva da mônada, que é a sua virtude de amar o Criador. Essas doutrinas livram a alma do engano das virgens loucas que se dispersam com os elementos do mundo, mas não ensina a virtude das virgens prudentes que esperam o Noivo. Apenas o Filho de Deus encarnado Filho do Homem pôde prometer o bem próprio das criaturas enquanto tais, sem dissolução, sem absorção, etc., na comunhão perfeita onde há união sem confusão, em analogia com a natureza trinitária das pessoas divinas.

A soteriologia monadofílica, ou ciência da salvação da mônada, afirma que é salva a alma que realiza a sua Fé e Esperança no Amor divino, encontrando-se na sua medida própria que satisfaz a sua arbitragem particular.

Esta proximidade da liberdade da mônada com a condição da sua salvação dá a impressão de um processo de salvação próprio, de iluminação ou ascese, mas bem entendido o único elemento determinante do sucesso da mônada é negativo, como a passividade da Lua que tem como vocação brilhar na sua virtude de refletir a luz do Sol. A virtude humana é a aceitação do Amor divino, ou seja, o triunfo e a glória pertence totalmente ao Criador, restando-nos somente a nossa rendição em êxtase diante da majestade do seu Amor.