“Aquilo que nos impulsiona necessariamente a ir além dos limites da experiência é o incondicionado, que a razão exige necessariamente nas coisas em si mesmas e, com toda justiça, em todos os condicionados e, portanto, na série das condições como uma série completa. Se, quando se assume que o nosso conhecimento por experiência se regula pelos objetos como coisas em si mesmas, verifica-se que o incondicionado não poderia ser pensado sem contradição; se, ao contrário, quando se assume que a nossa representação das coisas, tal como nos são dadas, não se regula por estas como coisas em si mesmas, mas os objetos é que se regulam pelo nosso modo de representação, verifica-se que a contradição desaparece; e se, portanto, o incondicionado tem de ser encontrado não nas coisas enquanto as conhecemos (enquanto nos são dadas), mas sim enquanto não as conhecemos, enquanto coisas em si mesmas: assim se evidencia que tem fundamento aquilo que, no começo, assumíamos apenas a título de tentativa.”
Kant está nos dizendo que, por um lado, o Incondicionado é necessário para que o Condicionado seja possível, e que, por outro lado, se só possuímos conhecimento do que é Condicionado (ou através do Condicionado), o Incondicionado perde a sua qualidade de necessário, o que é impossível. Esta contradição só pode ser resolvida se considerarmos todo o conhecimento do Condicionado como uma representação de um conhecimento, e não como conhecimento direto.
Ele nada mais está fazendo do que uma recuperação de um dos temas mais antigos e importantes –se não for o mais importante–, da História da Filosofia: a diferença entre o que é por si e o que não é por si. Vejamos os nomes dados a esse contraste nas terminologias dos filósofos:
Parmênides-Heráclito
Permanente
Transitório
Platão
Idéia
Imagem
Aristóteles 1
Substância
Predicado
Aristóteles 2
Possibilidade
Ser
Aristóteles 3
Forma
Matéria
Aristóteles 4
Essência
Acidente
Aristóteles 5
Abstrato
Concreto
Pitágoras-Plotino
Uno
Múltiplo
Agostinho
Alma
Mundo
Descartes 1
Substância Pensante
Substância Extensa
Descartes 2
Qualidade do Discreto
Qualidade do Contínuo
Kant 1
Coisa-em-Si
Representação Fenomênica
Kant 2
Incondicionado
Condicionado
Leibniz
Mônada
Reflexo
Além da Filosofia, a Teologia também apresenta essa importante distinção na visão das coisas espirituais.
Quando Deus é chamado de “A Rocha”, por exemplo, estamos falando da mesma Substância permanente diante do qual todo os outros seres possuem uma substância derivada, ou relativa. Quando os Profetas acusam os ídolos afirmando que cada um é “Vazio”, é uma repetição da mesma coisa. Quando Deus diz para Adão, em Gênesis 3, que ele por si é apenas “pó”, é a mesma afirmação por novo ângulo. Já Jesus afirma que apenas uma coisa é necessária, e que devemos procurar em primeiro lugar o Reino de Deus diante do qual nada mais interessa (nada mesmo, inclusive a família, a religião, etc.), e ainda por cima diz que o Reino de Deus está dentro de cada um de nós. A contemplação disso é fundamental para o entendimento do dom da Presença.
Voltando ao Kant, procurando pelo “conceito racional transcendente do incondicionado”, que é a antiga Substância, ele tateia igualmente na direção da Unidade plotiniana e da Mônada leibniziana.
Ele verifica, com razão, que se conhecemos a verdade somente através dos objetos da experiência da transitoriedade, não podemos conceber o Incondicionado que é, aprioristicamente, necessário pela própria Razão, do contrário toda a lógica do pensamento é destruída, a começar pelo Princípio de Identidade. Só se pode preservar a necessidade do Incondicionado ao se relativizar o conhecimento obtido por experiência como uma representação da verdade, e não como domínio da mesma. Para que o Incondicionado mantenha a sua integridade, é preciso que o conhecimento experimental seja uma representação.
A repercussão dessa intuição é tremenda.
Monadofilicamente, por exemplo, afirmamos que as mônadas sem janelas do Leibniz só se conhecem pela mútua representação, de tal modo que todos amamos a Deus no fim das contas, através de vários reflexos, e é impossível conhecer o inefável, que é a singularidade monádica de outra pessoa (o tal do João não ama Maria, mas ama João na forma de Maria).
Também afirmamos, com tranquilidade, que é impossível uma mônada vir a ser por um processo natural de geração, tanto quanto é impossível que seja corrompida por um processo natural de entropia, podendo apenas ser criada ou aniquilada por ato puramente divino, resultando assim em absurda a hipótese de que qualquer alma humana dependa do processo natural de geração e corrupção da procriação animal da espécie para vir a ser.
As aplicações dessa intuição são intermináveis, é uma fonte ilimitada de sabedoria.
Recentemente alguém observou, a partir de uma explicação que dei num vídeo publicado, que aquilo que se costuma atribuir ao mérito das virtudes humanas na verdade é dom de Deus. Eu falava particularmente de generosidade e magnanimidade, mas podia falar de qualquer outra qualidade.
A visão do conteúdo vida interior como dom puro da Graça divina nos permite entender o que é a vida na Presença sob um ponto de vista interessante. Porém, falar disso não é tão fácil, dependendo do quanto cada pessoa está envolvida com o espírito de idolatria, seja do objeto da sua percepção, ou seja da sua própria subjetividade. Somos inclinados à idolatria por uma natureza decaída e por uma criação de cativeiro. E entendemos a realidade sob a ótica da causalidade natural, um código embutido na realidade percebida exatamente para o exercício da nossa função de amar livremente, seja a criação ou o Criador.
Convém-nos entender esse tema com maior profundidade, usando o entendimento do que é a Mônada, e usando qualquer recurso que nos auxilie, como por exemplo o funcionamento do simbolismo do Sol e da Lua, entre outras idéias.
A Mônada possui essas potências já muito referidas, de Percepção e Apetição, às quais Leibniz mesmo acrescentou a potência da Apercepção (que é a Percepção da Percepção), e às quais eu acrescento agora a hipótese da Metareflexividade.
A Percepção é a visão que a Mônada tem do seu próprio reflexo, que também chamamos de Intelecto.
A Apetição é o desejo que a Mônada tem da próxima Percepção, que também chamamos de Vontade.
A Apercepção é a visão que a Mônada tem da sua própria Percepção, que também chamamos de Consciência.
Já a Metareflexividade é a visão da visão que a Mônada tem da sua própria Percepção, que também chamamos de Discernimento, ou consciência da Presença.
Iniciemos, como exemplo, uma analogia com a operação da nossa visão física.
A Percepção é como a visão que o olho tem do seu objeto.
A Apetição é como o desejo que o olho tem, por assim dizer, de ver o próximo objeto.
A Apercepção é como a visão que o olho tem de si mesmo, por exemplo vendo-se num espelho.
A Metareflexividade é como a visão que o olho tem de si mesmo e de seus objetos como aspectos da mesma substância, isto é, de que tanto a qualidade do objeto quanto a do olho são dados pelo mesmo ser, como um olho do olho, ou visão da visão.
Existe a qualidade daquilo que é visto, e a qualidade da visão em si mesma.
A qualidade do que é visto é a Nitidez da Percepção, ou na sua ausência, Ofuscação.
Já a qualidade do olho que vê é a Cristalinidade da Percepção, ou na sua ausência, Opacidade.
Com a Metareflexividade compreendemos que a qualidade das coisas percebidas são aspectos da luz divina refletidos pela nossa Percepção, tanto enquanto a qualidade do nosso perceber é dada pela luz divina que anima o nosso espírito (ou com o qual entramos em comunhão através do livre-arbítrio). Tanto Nitidez quanto Cristalinidade são dons divinos para o ato humano de Percepção: Deus dá o bem que percebemos, e dá o bem de perceber, ou ainda, Deus nos dá o que amamos e nos dá a capacidade de amar.
A consciência disto é um recurso tremendo, para o qual já usei o nome de Discernimento. Com essa noção entendemos que a nossa reação ao que percebemos, conduzida pelo costume da idolatria naturalista da causalidade, normalmente ignora a origem divina tanto da qualidade do percebido quanto do nosso ânimo de perceber. As coisas não são boas ou ruins independentemente da Providência como causa fundamental, e nem temos um bom ou mau ânimo por causa do nosso psiquismo, porque tudo é dom divino. Viver na Presença, com Discernimento, ou na Metareflexividade, é ter a consciência simples do Amor divino como causa do que é percebido e da própria Percepção.
No simbolismo do Sol e da Lua apreendemos esse esquema facilmente ao verificar que a virtude da Lua diante do Sol é a de uma total passividade, a capacidade de receber um dom externo, que é o poder solar. Por si mesma a Lua é Nova, pura potencialidade, e se nunca for iluminada pelo Sol, permanecerá na sua própria obscuridade indefinidamente. O que temos, por nós, é essa obscuridade da mônada que não atualiza nenhuma Percepção se não for a do reflexo da luz divina no seu próprio ser.
Vejamos na tabela abaixo alguns outros termos que podem ajudar a compreender a idéia da Metareflexividade:
PERCEPÇÃO
APERCEPÇÃO
METAREFLEXIVIDADE
Nitidez/Ofuscação
Cristalinidade/Opacidade
Discernimento
Qualidade do Objeto percebido
Qualidade do Sujeito que vê
Qualidade da Origem da Relação Objeto-Sujeito
Clareza na visão do bem divino (objetos em Deus)
Clareza na visão da visão do bem divino (sujeito em Deus)
Clareza na visão da visão da visão do bem divino (tudo em Deus)
Consciência do Reflexo
Consciência da consciência
Consciência da consciência da consciência
Consciência em Potência
Consciência em Ato Primeiro
Consciência em Ato Segundo
Satisfação primária da Apetição (qualidade do percebido)
Satisfação secundária da Apetição (qualidade do percipiente)
Satisfação plena da Apetição (qualidade da consciência de ser amado através da Percepção)
Podemos traçar um exemplo através de uma cena ordinária: João vê seu gato dormindo e fica contente (Percepção, Potência, vida inteligente); João vê que vê seu gato dormindo e fica contente (Apercepção, Ato Primeiro, vida psíquica); e João vê que vê que vê seu gato dormindo e fica contente (Metareflexão, Ato Segundo, vida espiritual, ou vida na Presença).
Em termos do testemunho bíblico e evangélico a respeito da Metareflexividade, talvez não haja sinal mais evidente dessa realidade do arbítrio da consciência do que esta expressão de Jesus:
“A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se teu olho estiver são, todo teu corpo ficará iluminado; mas se teu olho estiver doente, todo teu corpo ficará escuro. Pois se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as trevas!“
Jesus está dizendo, entendendo nos nossos termos, que a verdade e a luz não são propriedades externas ao nosso ser, mas realidades da vida interior. O Reino de Deus está dentro de nós. Não adianta buscar isso fora. Não existe fora. O “fora” é uma ilusão da nossa idolatria. Só existe a Presença e a nossa Percepção dela. Qualquer realidade externa pode ser vista através de um olhar sadio ou doente. E cabe a nós cultivar ou não o dom da luz divina que nos permite ter um olhar luminoso. A Metareflexividade é a busca da consciência da vida na Presença, a busca de Deus no que é percebido e também no nosso ânimo de perceber, pois tudo é dom Dele.
O que é, afinal, a Metareflexividade? É a visão da visão, noesis noeseos, o encontro do Amor divino nas duas pontas da Percepção, naquilo que é visto e no espírito que vê o que é visto. Com isto entendemos finalmente que nós vivemos somente para amar e ser amados. A função da vida humana é a mais simples que se possa conceber, eficientemente e monadologicamente pela apreensão da natureza da substância simples, e finalisticamente e monadofilicamente pela apreensão do bem próprio da substância simples.
E esta pode ser a pedra filosofal da Monadofilia porque, se isto for atingido, o que mais pode ser necessário?
Não é esta reflexão a descoberta do Reino de Deus dentro de nós?
É exatamente isto.
Quem faz esta descoberta prescinde de qualquer outro recurso espiritual, pois tem a única coisa necessária, o verdadeiro Evangelho: a Boa Notícia de que Deus é Amor, e de que nisto consiste o Amor, em que não fomos nós que amamos, mas que foi Deus quem nos amou primeiro.
Kant é um filósofo iluminista que trabalha na conciliação entre o racionalismo de Descartes e o empirismo de Hume. A verdade deve ser um fruto que vem tanto da Razão quanto da experiência.
Nascido em 22 de Abril de 1724 em Königsberg, Prússia Oriental, sua contribuição ao Aufklärung não pôde evitar a consolidação do hiato entre as futuras filosofias continental e analítica.
O filósofo prussiano abre a sua Crítica da Razão Pura citando Francis Bacon:
“Pedimos que os homens não o considerem [a Grande Restauração, ou renovação das ciências] uma opinião, mas um trabalho sério; e que estejam convencidos de que lutamos para assentar os fundamentos não de alguma seita ou opinião arbitrária, mas sim para a utilidade e o engrandecimento da humanidade.”
Esta é uma escolha curiosa de palavras. Nosso dever crítico é o de localizar e exprimir as premissas desse pensamento.
Como de qualquer outro, aliás. Talvez seja importante explicar isso aos meus alunos que ainda não tenham essa noção.
Entender algo é conhecer as suas causas.
Sócrates inaugurou a consciência disso quando inverteu a lógica sofística: ao invés de seguir adiante somando novos argumentos para levar a vítima à conclusão desejada, o que constitui uma ação de Poder sobre o outro, o desejo de dominar e escravizar com a imagem da verdade, um filósofo investiga na direção oposta, para trás, ao se questionar o que deveria ser verdade como premissa para que a idéia proposta seja verdadeira ela mesma, ou seja, uma ação que constitui um ato de Amor sobre o outro, o desejo de libertar da mentira e do engano.
Por isso se diz que um filósofo é um amante, porque ele exerce um ato amoroso, ama a Verdade e ama a liberdade do próximo de conhecê-la. E também por isso a filosofia cristã é uma idéia tão viável, porque é a prática, no âmbito intelectual, dos Mandamentos: amar a Deus e ao próximo, através do amor pela Verdade em si mesma, e através do amor pela libertação do próximo contra a escravidão da mentira.
Dada uma idéia, o entendimento deve buscar as suas causas e não os seus efeitos, por mais desejáveis que estes possam aparentemente ser. A corrupção provém da mentira que legitima uma idéia pelo desejo de alcançar a conclusão. A libertação faz o oposto. Danem-se os nossos interesses mesquinhos, a Verdade deve ser honrada, inclusive e principalmente contra os nossos desejos mais imediatos. Não quero saber dos efeitos do discurso. Quero saber das suas causas. O que as coisas significam? O que deve ser verdadeiro antes, para que uma idéia também o seja depois?
Na citação escolhida por Kant, Francis Bacon contrapõe, em primeiro lugar, a idéia de OPINIÃO com a de SERIEDADE, e em segundo lugar, as idéias de SEITA e OPINIÃO ARBITRÁRIA com as de UTILIDADE e ENGRANDECIMENTO DA HUMANIDADE.
Entender o que Francis Bacon disse, e portanto o que Kant subscreveu, requer entender o que significam essas contraposições.
Ora, comecemos com a seguinte questão: por que uma opinião não pode ser séria?
Se uma opinião é um tipo de idéia, o que torna uma idéia séria ou não séria, para que atribuamos seriedade ou não a ela?
Opinião, ou doxa, é uma imagem da verdade que substitui o conhecimento da mesma, enquanto Ciência, ou episteme, é o próprio conhecimento da verdade.
Evidentemente, quando se possui acesso ao que é verdadeiro, não é preciso e nem conveniente presumir o que de outro modo o seria. A quem sabe algo, presumir qualquer outra possibilidade a respeito do que é sabido significa o que se sabe, e portanto trair a si próprio. É claro que isso deve ser evitado.
O nosso problema é que a ignorância é tão fundamental e constitutiva da situação humana, que a capacidade de se possuir o conhecimento pleno e acabado sobre o que quer que seja termina por ser mais um ideal do que uma realidade. Justamente com certos objetos de abstração pura, como os dados pela geometria e pela matemática, nós alcançamos o grau de perfeição desse ideal, apenas para voltar nossa mente à realidade onde a nossa consciência não consegue atribuir o mesmo tipo de veracidade aos objetos da experiência sensível, mesmo quando possuímos o tipo de conhecimento técnico que nos permite dominar a natureza antes de compreendê-la.
Isto significa que a Opinião (doxa) existe, e deve existir necessariamente, para atribuir possibilidade (eikasia) ou verossimilhança (pistis) àquilo que ainda não se pode conhecer cientificamente (episteme) como mais provável (dianoia) ou mesmo como certo (noesis).
Por outro lado, o que é seriedade?
Seriedade é o tratamento digno que é merecido por uma pessoa, assunto ou coisa. Quer dizer respeitar, honrar, dignificar, etc. O contrário da seriedade é a leviandade, o jogo, a falsidade, etc.
Voltemos à questão, então: porque uma opinião não pode ser séria?
O que torna uma idéia séria ou não séria?
Uma idéia séria é aquela que honra o seu objeto ou assunto, enquanto uma idéia não séria é aquela que o trai com desrespeito.
Ora, honrar e respeitar é uma ação moral que implica ter o objeto como importante e sério.
Por outro lado, opinar é uma ação intelectual que produz uma imagem da verdade na ausência do conhecimento mais provável ou certo da mesma.
Por que uma idéia não pode, na ausência de um conhecimento mais provável ou certo do seu objeto, honrar e respeitá-lo mesmo assim?
A contradição não existe necessariamente, porque a ação moral e a ação intelectual se referem a gêneros diferentes de seres.
Moralmente, escolhemos respeitar ou não o objeto ao qual nos referimos.
Intelectualmente, porém, escolhemos produzir uma idéia que tem um tipo de credibilidade variável conforme possuamos ou não o conhecimento desejado.
Uma opinião pode honrar o seu objeto e tratá-lo seriamente, sem subir seu grau de entendimento ao nível da ciência, tão somente porque isso pode não ser possível dada a condição comum da ignorância humana.
Um assunto ou problema mantém indefinidamente o seu grau de seriedade, independentemente da ignorância daquele que o trata. É assim que sabemos que a guerra em Gaza ou a proliferação de armas nucleares são problemas sérios sobre os quais não há uma solução científica a respeito, mas muitas opiniões que devem ser sérias ao nível desses problemas.
É o que o artista faz com sua imaginação, é o que o político faz com a sua promessa de governo, é o que o crente faz com a sua fé, etc.
Um cientista pode e deve restringir as suas idéias, enquanto científicas, ao âmbito apenas do que pode ser dado como provável ou certo. Mas todos os demais seres humanos que NECESSITAM crer em algo antes de sabê-lo para simplesmente viverem as suas vidas não só podem como devem produzir uma opinião que busque ser a mais séria e responsável possível, dadas as limitações da condição humana e certos valores tidos como princípios gerais para todos os casos, como os que baseiam a moralidade comum.
Opiniões, portanto, não só podem ser sérias como devem ser.
A evidência disso está na realidade humana de cada dia onde, por exemplo, é totalmente comum e esperado a responsabilização moral de uma pessoa pela sua opinião. Se nenhuma opinião pudesse ser séria, nenhuma opinião poderia ser contestada seriamente, por exemplo, pela verificação das suas consequências e pela imputação de responsabilidade aos seus proponentes.
Pior ainda, a motivação por trás da Grande Restauração, ou renovação das ciências, é ela mesma uma opinião e e não uma certeza, dado que se fosse certo seria objeto de demonstração e não de apologia. Veremos isso com mais detalhe mais tarde ao tratar da segunda contraposição.
E para destruir de vez essa noção de contraposição entre opinião e seriedade, convém lembrar que o princípio de qualquer investigação científica é uma opinião inicial, que é tratada como hipótese sobre o verdadeiro, e portanto seriamente, para que se possa seguir para as próximas etapas do processo. Ainda mais, as premissas de qualquer investigação são tomadas como autoevidentes por um ato de crença, e não por uma exaustiva demonstração, do contrário o próprio progresso científico seria inviável. Acredita-se que tal e qual premissa é válida por ter sido eventualmente demonstrada como a mais provável, mas a qualquer momento um pesquisador pode revisar aquilo que se tinha como premissa de método, ao introduzir uma nova hipótese a respeito.
Com isso tudo temos que a primeira contrariedade sugerida por Francis Bacon, e subscrita por Kant, é uma figura de estilo e não um conceito rigoroso.
Ou seja, os nossos amigos aqui querem nos convencer de que são rigorosos no ato mesmo de nos provar que não o são, ao menos no uso mais ligeiro e corrido da linguagem, onde se assemelham aos demais pobres mortais que são cheios de opiniões.
O ideal de ciência é o desejo de libertação da opinião como um tipo inferior e indesejado de idéia.
Pois bem, esse ideal nunca foi realizado na existência humana, nem mesmo no âmbito da ciência, já que a certeza continua sendo extremamente restrita a objetos de pura abstração e o resto depende, no máximo, de opiniões mais qualificadas por diferentes graus de credibilidade. Isso chega ao ponto, com a Falseabilidade de Popper, da confissão de uma consciência da investigação científica como um método de se trocar opiniões menos sérias por outras mais sérias, mas que só podem continuar a ser defendidas exatamente porque podem ser contestadas, ou seja, porque não significam uma certeza. Fazer ciência, quem diria, é fazer opiniões sérias, marginalmente mais qualificadas, justamente aquilo que os iluministas queriam negar, ou seja, o que queriam negar aos outros mas não a si mesmos.
Se o ideal da libertação da opinião nunca foi realizado, isto quer dizer que não passa de um objeto de imaginação e crença nos corações e mentes dos homens. E essa é exatamente a imaginação e a crença do Gnosticismo, a vontade de se libertar da necessidade de crença através da Gnose.
Infelizmente para os gnósticos, isso nunca vai passar de um sonho e de uma farsa. É uma mentira. O Conhecimento pleno só é possível ao Ser pleno, que é Deus. E Deus só tem um. Qualquer ser finito terá, diante do pleno possível que só um Logos divino pode dominar, um conhecimento necessariamente limitado e, portanto, uma condição existencial de ignorância permanente.
A forma do ser humano, como a de qualquer ser contingente, contém uma limitação que o determina constitutivamente. No nosso caso, temos o grande privilégio de sermos feitos, à imagem e semelhança do Criador, com Intelecto e Vontade. Isso significa que, ao contrário dos demais seres, somos agentes morais que completam a sua Percepção com a Apercepção: sabemos que sabemos um pouco, e sabemos que não sabemos todo o resto. A consciência da limitação da nossa forma deveria instruir o nosso Intelecto a assumir a condição humana de ignorância atual com a escolha moral livre e responsável mais compatível e condizente com esta realidade: a opção pelos dons de Soberania e Humildade.
Nos primórdios da História da Filosofia nós temos, na origem do platonismo, essa dupla influência decisiva que vai demarcar o território das possibilidades de todo o futuro filosofar humano: o gnosticismo pitagórico, algo transhumanista, para não dizer prometéico (ou luciferiano), e a responsabilidade socrática, que antecipa na história das idéias o valor moral cristão de humildade e mansidão.
Na minha obra e no meu ensino deixo claro a todos a minha escolha: pela responsabilidade moral contra a ilusão gnóstica. Aqui tratamos de um exemplo disso.
Depois continuamos com a análise da segunda contraposição, entre as noções de “seita” e “opinião arbitrária”, e “utilidade” e “engrandecimento da humanidade”.
Quem medita sobre a Perfeição encontra os grandes recursos das idéias de Limite e Infinito. Enquanto o Limite determina a forma do ser e, portanto, do alcance da sua potência em direção à Perfeição, o Infinito se impõe como necessário para que o primeiro ser se realize no seu próprio Limite.
A Perfeição é a completude de atingimento de possibilidades que só podem ser determinadas por um Limite. Sem o Limite não pode haver Perfeição nos contingentes, porque não haveria completude. Já o Infinito é a causa necessária para que o primeiro ser limitado se realizasse, dado que numa série causal qualquer se o primeiro causado não tivesse o seu limite determinado por um ser sem limites (o Infinito que é causa de si mesmo), a sua potência jamais seria realizada. Deriva-se, assim, da Perfeição, o Limite e o Infinito. Para que haja Perfeição, os dois são necessários.
Ora, se um ser contingente não fosse limitado, nenhum outro lhe seria compossível. Rejeitado qualquer monismo radical, qualquer ser existe no limite entre o que pode ser e o que não pode ser, limite que define a forma dos compossíveis. Mas se cada ser contém a sua perfeição própria, dada pela sua forma, a perfeição do Infinito não é menos possível, quanto é na verdade mais provável. Ocorre que se em um ser particular a perfeição é uma potência essencialmente formal e apenas acidentalmente real, no âmbito do Absoluto (ou seja, do Infinito) a perfeição deve ser real, pois se não o fosse outro ser potencialmente mais perfeito seria possível como real, o que é contraditório com o Absoluto.
A perfeição de qualquer contingente é potência apenas eventualmente atualizável. Já a perfeição do Absoluto, ou Infinito, além de possível deve igualmente ser real, ou existente. Se não o fosse, outro ser maior que contivesse essa qualidade teria que lhe superar, o que contraditaria a sua essência. Em outros termos: para que a Perfeição como qualidade do Infinito seja possível, ela deve ser real, pois o Perfeito sem limites que não é real não é perfeito, já que um outro possível lhe superaria, o que constituiria um limite ao seu ser e, portanto, uma contradição. Em suma: no contingente a perfeição é acidental, já no Absoluto, ou Infinito, a perfeição é essencial. O perfeito que não é real não é perfeito, a não ser nos contingentes, onde essa potência pode não se atualizar. A meditação a respeito de Deus deveria sempre respeitar essa qualidade formal dos conceitos de Infinito e Perfeição, e da necessidade de ambos. Foi isto o que Anselmo da Cantuária quis expressar no seu Argumento Ontológico: se Deus é considerado na sua qualidade presumida, Ele deve ser real necessariamente, por um atributo da sua forma. Escolasticamente se afirma, também, que em Deus não existe diferença entre o ente e a essência (Tomás de Aquino), e que o ser onde essa diferença é abolida não só é possível, como é necessário.
Além disso, encontramos a impossibilidade da hipótese do Paraíso imediato, sem a agência da Cruz, desde que este implica num grau de perfeição que contradiz qualquer falha no exercício da Liberdade das mônadas. A perfeição paradisíaca, por um lado, requer a presença de seres livres que constituam a maior bem-aventurança possível, sendo um paraíso sem liberdade uma contradição; por outro lado, requer uma experiência real de liberdade que lhe anteceda, em alguma medida de individuação que lhe permita a Coruscância de forma plena, ou seja, imaculada.
Esta meditação mostra como da Perfeição, já dada como necessária, se deriva alguma experiência de Cruz também como necessária. Esta necessidade não tem nada a ver com a teologia do sacrifício de sangue, como se supõe na teologia das religiões cristãs. Aliás, o sacrifício perfeito do Cordeiro deveria eliminar qualquer necessidade de sofrimento adicional a partir da conversão. Um convertido deveria ser imediatamente arrebatado assim que se desse a sua conversão. Ao contrário, Jesus indica que cada um deve carregar a sua cruz, independentemente da sua ação sacrificial que tem, na verdade, outra função espiritual (a da Revelação). A Cruz é necessária para que a perfeição paradisíaca se realize. Não há Paraíso sem Perfeição. E não há Perfeição onde tudo não tenha alcançado a sua completude. Duas coisas são incompossíveis, portanto, com o Paraíso: primeiro, a ausência da liberdade, que é a única realidade que torna a bem-aventurança uma plena glorificação do Criador, e segundo, a não realização desta liberdade no ato mesmo de aceitação dessa comunhão espiritual. O aceite deve anteceder a condição paradisíaca em qualquer grau de perfeição menor, e isto é o que podemos chamar de Cruz no sentido mais universal, aplicável a todos os mundos possíveis, ou melhor, a todas as mônadas. A Coruscância, sendo a comunhão total sem defeitos, requer a Cruz como condição da realização da liberdade.
Assumida a premissa da Eleuteriodiceia que justificou a liberdade exercida como condição da perfeição da Coruscância, encontramos na esseidade da mônada uma carência tão própria de experiência do mal que a mesma pode ser entendida como tão única quanto a sua própria singularidade.
Isto é o que confunde a imaginação gnóstica na sua noção de complementaridade de luz e trevas, e de bem e mal: a liberdade de um contingente imperfeito. A mistura não é uma determinação derivada do ser divino, mas do criado, e é regulada pela sua vontade de experiência da imperfeição, ou seja, o desejo do mal é uma arbitrariedade da mônada criada. Isto precisa ser permitido, do contrário a mônada não pode escolher livremente a comunhão com o Amor divino pela eternidade, ou seja, não pode entrar no Paraíso.Epistemologicamente, diríamos que o desejo das trevas, ou do mal, corresponde ao requisito de autoconhecimento que a mônada possui antes de entregar-se ao Amor divino como única solução ao seu desejo de Bem. A obscuridade é a propriedade da mônada que por si não possui o seu bem. Conhecendo a si mesma, a mônada se entende como carente do Bem transcendente, e finalmente pode compreender como que a função do seu ser não é o de brilhar por si, mas o de refletir uma luz exterior.
Garantido o conhecimento pleno do Logos, temos por outro lado, no domínio da Onisciência divina, a noção precisa da medida própria de cada mônada na sua arbitragem particular, de tal modo que a Providência determina com precisão infalível qual deve ser a experiência de cada alma no grande concerto da Mútua Representação.
Conhecedor dos futuros contingentes, o Criador, pela sua arte divina, pode produzir o arranjo ótimo que fornece a oportunidade de realização da liberdade de cada mônada na harmonia total da mutualidade.
Essa medida, que podemos chamar de Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM), se encontra exatamente entre os extremos limites restritores, ou seja, entre todo o benefício que constitui a dissolução da Liberdade por um lado, e todo o malefício que seria invencível para o alcance da Liberdade de crença da mônada, por outro. Arbitrada contingencialmente e de solução variável no tempo, a RSMM só pode ser dominada pelo dom divino do Criador, embora possa ser intuída com variados graus de acerto por quem medite sobre isso.
Essa meditação certamente é uma das mais difíceis, dado o seu grau elevado de sutileza. Primeiro convém perceber como o Bem irrestrito extinguiria a possibilidade da Liberdade, como um oceano afogando uma vítima. Segundo, convém verificar como igualmente o Mal irrestrito sufocaria a crença livre da mônada, que apesar de poder desejar o Bem, só o faz dentro da sua capacidade. Por mais que essa capacidade seja arbitrada, Deus já conhece esse limite e nunca o ultrapassaria, pois o objetivo é a realização da liberdade dentro do escopo da possibilidade da mônada. Como podemos ver no diagrama acima, assim como a Cruz pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é ideal, ou seja, entre a experiência atual e o Bem divino, a RSMM pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é apetecido, ou seja, entre a experiência atual e o Bem presumido, arbitrado pela própria mônada. A experiência de vida mais humilde e mansa, na imitação de Cristo, é aquela em que, enxergando o mais valioso segmento da Cruz, livremente se aceita diminuir a diferença entre o percebido e o apetecido reduzindo a pretensão e, portanto, o sofrimento. O sofrimento da alma é gerado por ela mesma, pela desmesura da sua Pretensão, ou falta de Humildade. Nós geramos o nosso sofrimento. Há analogias em outras filosofias e linhas espirituais, como no “querer é sofrer” de Schopenhauer, ou no budismo, etc., embora somente a visão cristã supere o gnosticismo que desconfia da potência da realidade, e não somente da própria mônada na condição de experiência da Liberdade antes da Coruscância paradisíaca.Essas outras doutrinas podem ajudar no quesito do autoconhecimento necessário para se descobrir as trevas, mas não conseguem superar esta aporia, daí o seu desejo de morte através de conceitos de “absorção na Unidade”, “visão beatífica”, “união mística”, etc. Possuem a negação do mal, mas não conseguem afirmar um bem que não seja o universal, porque não compreendem a propriedade reflexiva da mônada, que é a sua virtude de amar o Criador.Essas doutrinas livram a alma do engano das virgens loucas que se dispersam com os elementos do mundo, mas não ensina a virtude das virgens prudentes que esperam o Noivo. Apenas o Filho de Deus encarnado Filho do Homem pôde prometer o bem próprio das criaturas enquanto tais, sem dissolução, sem absorção, etc., na comunhão perfeita onde há união sem confusão, em analogia com a natureza trinitária das pessoas divinas.
A soteriologia monadofílica, ou ciência da salvação da mônada, afirma que é salva a alma que realiza a sua Fé e Esperança no Amor divino, encontrando-se na sua medida própria que satisfaz a sua arbitragem particular.
Esta proximidade da liberdade da mônada com a condição da sua salvação dá a impressão de um processo de salvação próprio, de iluminação ou ascese, mas bem entendido o único elemento determinante do sucesso da mônada é negativo, como a passividade da Lua que tem como vocação brilhar na sua virtude de refletir a luz do Sol. A virtude humana é a aceitação do Amor divino, ou seja, o triunfo e a glória pertence totalmente ao Criador, restando-nos somente a nossa rendição em êxtase diante da majestade do seu Amor.
Com a Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM) evidenciamos finalmente que embora nenhuma alma tenha jamais “pedido para nascer”, todas elas possuem a sua medida de experiência necessária para a solução ótima (Coruscância Calaquendi) que torna eventualmente conveniente o seu nascimento sob determinada condição, inclusive a Sindar.
Seria absurdo presumir que a acidentalidade da escolha particular de uma mônada interferisse nesse grau na experiência de uma outra. Esta dificuldade sempre me incomodou. Já havia reduzido o problema ontológico com a Mútua Representação, mas permanecia essa dificuldade da força das obras da carne como um arbítrio que, embora fosse sempre permitido por Deus, teria sua razão em suspenso. É claro que poderíamos manter essa razão no grande conjunto dos mistérios divinos, mas com a RSMM detectamos que a força da liberdade de cada mônada de carecer de certa experiência para alcançar o ponto ótimo de decisão, já conhecido desde a Eternidade por Deus, seria um fator muito mais determinante desse condicionamento do que a força de um terceiro.
Dito isso, qualquer alma particular poupada de nascer pela virtude de abstinência de seus potenciais pais num mundo determinado conserva em si a sua carência de experimentar a melhor condição possível, considerada a RSMM, em outra realidade em que seus pais realizem a sua potência generativa. Isso não só preserva a integridade da Mútua Representação, como reforça o aspecto interior da experiência humana com Deus, quase alcançando a analogia pura da Simulação. Em outros termos: a imitação de Cristo, ou a vocação da Abstenção do Poder, em nada interfere no destino das demais mônadas, mas apenas naquela que exerce a sua discricionariedade diante de Deus. A rejeição do Pecado Original é um ato totalmente interior: na sua intenção, na sua realização, e nos seus efeitos. Em nada convém que a arbitrariedade de uma mônada interfira no exercício da liberdade de outra diante de Deus. As coisas são como devem ser, se não exatamente, marginalmente próximas do ótimo com a variação mínima da latitude necessária para a própria RSMM.
Quem se abstém de agir com Presunção na reprodução das obras da carne, embora evite a causa de um malefício particular percebido como imediato, não tem o poder de poupar uma alma de passar pela experiência análoga em qualquer outra realidade, porque a necessidade dessa experiência é determinada pela RSMM do próprio nascituro. Vivemos todos sempre e apenas para Deus, na Presença. Aquele que evita a produção do mal realiza a sua ação diante de Deus, para se aproximar Dele. E aquele que nasce é vítima, por assim dizer, de si mesmo, desde que precisa realizar a sua liberdade com algum grau inescapável de experiência do mal. Não abolimos, assim, a realidade moral. A responsabilidade, na verdade, aumenta, porque a renúncia do mal não implica apenas na mudança de um acidente, mas sempre numa ação moral diante do Altíssimo. O amor ao próximo como dom de perdão pode atingir, através da compreensão disto, o seu auge: não depende daquele que é perdoado alcançar um benefício moral, mas daquele que perdoa, porque aceita a sua condição como Cruz determinada pela Providência.Vemos, assim, como a moralidade do Antinatalismo está perto e longe ao mesmo tempo da verdade da condição humana: compreende o mal da Pretensão e da irresponsabilidade moral, mas não entende como a realidade do nascimento é permitida por Deus para a realização da sua própria liberdade. Os que seguem esta linha de pensamento evitam, na sua cegueira, a graça de descobrirem o maior mérito da sua posição de rejeição do Pacto Ouroboros, que é a vida na Presença.E não vamos nos esquecer que tanto quanto a RSMM explica a necessidade que tais e quais almas nasçam na condição Sindar, ela também explica porque muitas devam experimentar a particularidade da paternidade e maternidade. Ninguém pode privar realmente uma alma de participar no Pecado Original: àquelas que prescindiriam dessa experiência, outra realidade já lhes seria providenciada, como esterilidade, acidentes, etc. Desejar que o outro não exerça a sua liberdade é na melhor das hipóteses um incômodo que não muda o dever-ser da mônada, e na pior é um indicador da dureza da alma daquele que quer interferir.
Resta-nos revisar a origem dos Teleri nos tempos interressurreicionais como exclusivamente dedicada às almas que sempre possuíram uma RSMM adequada a essa modalidade criativa. Deste modo, os filhos potenciais que nunca teriam a oportunidade de nascer como Sindar podem encarnar como Teleri, sempre uma multidão muito maior do que os que nasceram neste mundo. Mas os não nascidos por abstenção, se tivessem que nascer o farão de qualquer modo, em qualquer outra realidade que lhes seja apropriada, com pais dispostos, etc.
Antes entendíamos, erroneamente, que o ato de preservar uma alma de nascer numa condição particular como resultado de participação no Pacto Ouroboros teria o poder de enviá-la imediatamente à melhor condição de criação direta por Deus no âmbito do Milênio. Somente Deus teria esse poder, e o exerceria obviamente se isso correspondesse ao ótimo determinado pela RSMM de cada mônada. Se esse fosse o caso, porém, nenhum de nós teríamos o poder, ao contrário, de encarnar uma alma neste mundo, se ela pudesse ser criada em outro melhor. Não podemos assassinar quem não seria assassinado de qualquer forma, assim como não podemos poupar uma pessoa de experimentar o mal se isto for condição da RSMM, mas podemos apenas poupar a nós mesmos de experimentá-lo e produzi-lo. Se alguém tem que ser assassinado, por assim dizer, só podemos evitar que sejamos nós quem cometamos o crime, mas não que o crime em si seja cometido, se isto é uma experiência requerida por aquela mônada. Com a RSMM temos a medida delicada da fina fronteira entre Determinismo e Livre-Arbítrio: modificamos a nossa vontade livre, com a condição que aceitemos a impossibilidade de modificar a alheia.
Não querendo ir muito a fundo agora, mas interessado não obstante em notar algumas particularidades da nossa cultura mais tradicionalista, conservadora e direitista, quero chamar a atenção para o uso que se faz daquelas figuras bíblicas monstruosas no Livro de Jó, o Behemoth e o Leviathan, dentro do discurso político contemporâneo, ao menos dentro de certo pensamento que pretende ser entendido de simbolismos e misticismos, ao estilo ocultista.
Se algo aliás precisasse ser levantado como prova contra a pretensa caridade cristã desse pensamento político, seria suficiente apontar para esses segredos esotéricos. As coisas de Deus são simples e claras, embora possam ser, e muitas vezes são, também profundas e sutis. Mas os mistérios de Deus não estão ocultos de forma que uma coisa signifique outra, ou seja, uma violação à veracidade do valor de face da Revelação. E este é o problema mais antigo do cabalismo e da tradição como um todo (e de todas as religiões), porque advém de uma esperteza humana que se diz a herdeira mais fiel possível da Revelação, mas na qual só podemos confiar através de seres humanos iguais a quaisquer outros: eles invertem as coisas. Tudo pode ser falsificado, inclusive a santidade e a caridade com maneiras pirotécnicas que traem a pureza das coisas divinas com sinais, prodígios, milagres, e todo tipo de truque que se possa imaginar.
Idealmente, porém, não precisamos nem levantar essas reflexões, porque a desmoralização do político cristão se dá pela força mesma da sua incongruência de querer misturar a Cidade de Deus com a Cidade dos Homens. Quem quer se eleger em nome de Jesus Cristo para ter poder sobre os homens pretende ser justo diante de Deus e sábio diante do próximo, e as duas coisas são condenáveis. Uma realidade completamente diferente é a do dever de estado de quem se vê, por circunstâncias providenciais, com o poder político que nunca desejou e nem tramou a posse. Nestes casos aplica-se a filosofia política, como na situação da herança de um poder que legitima o direito divino dos reis. Mas uma eleição já não é um processo cuja origem viola essa integridade moral? Quem se candidata não tem pretensão de ter o poder e, assim, não se coloca como sábio ou justo o suficiente? O governante mais justo é sempre relutante, e faz o contrário de um candidato: foge do poder com todas as suas forças, porque teme o mal, isto é, tem a verdadeira inteligência. Este é quem deveria governar, aquele que nunca se colocaria no poder por si mesmo, mas que só pode ser colocado pela ação de uma força divina inescapável, como vemos no caso de Davi em contraste com Saul. Por isso os “governos cristãos” desde a época dos reis medievais já não existem mais nem sequer como possibilidade. A própria democracia garante isso, que só o mal possa triunfar, porque só quem se pretende bom o suficiente para ser candidato pode ser eleito. Daí só resta a escolha do mal, mesmo que seja do chamado “mal menor”, essa pobre e fraca consolação moral, um remédio sempre insuficiente. E se disserem que todas as outras formas de poder sustentam tiranos, então está provado com isso não o mérito da democracia, mas o demérito de toda a sociedade humana que pretende governar a si mesma, quando o seu único governante deveria ser Deus. O governo de Deus equivaleria ao mútuo desarmamento e à multiplicação dos reinos e nações, junto com grande paz e prosperidade, o amplo direito migratório, e por fim o aumento progressivo da adesão das pessoas livres à vida consagrada, significando a superação do Pacto Ouroboros e o chamado voluntário da humanidade ao Segundo Advento e ao governo do Rei dos Reis, Jesus Cristo (v. Capítulo “A melhor geração” em A Coruscância).
Mas voltando ao tema principal, o ocultismo. Enquanto a menção divina aos monstros bíblicos presta santamente à inspiração de humildade e temor no coração de Jó, a Gnose (a salvação pelo conhecimento secreto) quer nos dizer que sempre tem algo mais por trás, e que esse algo é mais importante do que o que pensamos sobre a primeira impressão, ao ponto de que pode ser chamada de “a verdade” de fato, oculta sob as primeiras impressões e decifrável somente pelo sábio especialista, o ocultista, o esotérico, o iniciado nas etimologias, numerologias, etc. Essa mentalidade valoriza o segredo e um certo elitismo esotérico que é típico de todas as religiões, que é o que as torna comuns e enraizadas no grande segredo de todos que é a Tradição Primordial, isto é, o próprio Pacto Ouroboros.
Quando William Blake produz a imagem da luta entre os monstros, sua idéia não é aquela simples da inspiração do temor e da humildade. Essas virtudes são para os ignorantes, não iniciados. A idéia de Blake é a de um processo de produção de realidades pelo controle de oposições, como na alquimia. E é por isso que a identificação do Ouroboros com o Leviathan é equivocada (assim como a identificação dele com o Behemoth, ou Demiurgo): antes, o Ouroboros se liga à figura do controlador de ambos os monstros, já que é a relação entre os dois que constitui o ciclo de criação, destruição e renovação que mantém tudo sob o controle do “criador”. Mas este, se cria algo, é como criador de uma mentira, aquela mesma que será destruída pelo sopro da verdade de Jesus Cristo. O “deus” da imagem de Blake não é o verdadeiro Criador de todas as coisas, que na pureza da sua santidade nunca precisou fazer uso do mal para produzir o bem, mas é o usurpador do lugar de Deus, que precisa fazer o uso dialético de forças antagonistas para obter o controle dialético a realidade. O Ouroboros, como já expus antes, controla as oposições ao seu propósito, que é o de manter almas escravas do seu sistema de dominação, gerando ao lado da tese a antítese, e ao lado do Behemoth, o Leviathan.
Agora, entre os entendidos (ou iniciados?), tradicionalistas de certo direitismo contemporâneo, temos figuras como Olavo de Carvalho no Brasil, ou Alexandr Dugin na Rússia, que concordam com o misticismo esotérico de Blake.
De minha parte não posso disputar, falando simbolicamente, contra a idéia de que haja uma guerra de monstros, mas esta pode ser identificada dentro do ser humano desde a origem e mais apropriadamente, como em Gênesis 3, do que na mitologia dos monstros do livro de Jó.
Quando a mulher e a serpente são condenadas a perpetuamente manter-se em conflito até o fim dos tempos, a mulher pisando na serpente, e a serpente mordendo o pé da mulher, já temos aí a imagem da dominação do Ouroboros: a mulher servindo à perpetuação do estado decaído, querendo livrar-se da maldição e da perseguição da serpente, e a serpente atormentando a mulher e sua descendência com a sua acusação da desobediência a Deus. Exatamente as duas faces do Gnosticismo, o exotérico e o esotérico, Behemoth e Leviathan, a Tradição e a Revolução.
Aqui no Brasil, Olavo trouxe a imagem dos monstros em luta e o uso simbólico dessa figura na introdução do seu livro A Nova Era e a Revolução Cultural. Aliás, usou até mesmo a ilustração de Blake na capa do seu livro, e o mencionou no texto. Vejamos algo do que ele diz sobre o tema:
Não conheço essa “aplicação rigorosa do simbolismo cristão” que foi mencionada, e até poderia ir atrás, mas suspeito de que se trata de segredos impossíveis aos não iniciados, porque na minha modestíssima leitura bíblica não entendi nada disso do livro de Jó. Mas, novamente, não sou iniciado nesses mistérios, e cá entre nós não estou muito interessado em ser.
O fato é que até este ponto Olavo elogiava o recurso da vida interior, como vida espiritual (ou ao menos um resquício dela), em direção ao escape da dialética dos monstros, embora já tenha apontado para a obediência de Behemoth em contraste com a rebelião de Leviathan, o que é uma idéia problemática para dizer o mínimo. Ou talvez não seja, se pensarmos que o criador de Behemoth e Leviathan é o Ouroboros que se coloca no lugar de Deus, e a quem ambas as reações significa submissão ao seu poder, seja a obediência ou a rebelião, o gnosticismo exotérico das religiões, ou o gnosticismo esotérico das seitas e heresias.
Senão vejamos quais são as qualidades do “obediente” Behemoth: ele impera “pesadamente sobre o mundo“, criado em “unidade de essência” com o homem, um “poder macrocósmico e uma força latente na alma humana“, um “poder material“, ele é o “peso maciço da necessidade natural“, ele é a “natureza” que combate contra “as forças rebeldes antinaturais“, e é a “necessidade implacável“.
Quais dessas qualidades apontam para a santidade de Deus? Nenhuma.
Deus é Amor, ele é revelado assim pelo Filho de Deus em pessoa, que pessoalmente renunciou ao seu poder de julgar e destruir para indicar a natureza da essência divina no perdão e na misericórdia.
Literalmente Jesus abriu mão do seu poder para exercer o seu amor.
Transformar pedras em pães, ser resgatado de um salto no abismo ou governar todas as nações da Terra, todas essas tentações resistidas por Jesus Cristo mostram a supremacia da sua santidade, do que é a verdadeira realeza espiritual, sobre a falsa majestade de um poder cego e monstruoso que trai o Amor, que é a essência do monstro Behemoth.
O Behemoth é um monstro que, se tem função, como veremos, é a de no fim ser destruído com o seu insuspeito parceiro, o Leviathan, para que seja revelada a perversidade da mentira do Oubororos, a Serpente do Mundo.
Isso quer dizer que o Behemoth é o deus dos tradicionalistas, assim como o Leviathan é o deus dos revolucionários.
Um arrasta o homem para a servidão da carne e do sangue, e o outro domina a revolta contra essa servidão dirigindo-a contra o Deus verdadeiro, acusando-o de ser o Demiurgo deste mundo com a intenção de aprisionar almas inocentes sob a escravidão da matéria.
Ambos os monstros servem ao Ouroboros, ou até mesmo constituem o espírito da Serpente do Mundo, porque seja como obedientes ao diabo na manutenção da terra decaída e amaldiçoada, ou seja como aliados dele na rebelião contra o Deus verdadeiro, de qualquer modo ambos tradicionalistas e revolucionários são servos do mesmo mal que quer manter o império da sua usurpação.
Aqui está o ponto marcante que evidencia essa interpretação: o poder de Behemoth reside no ventre. Esse é o deus dos tradicionalistas: o ventre humano através do qual se perpetua o Pacto Ouroboros. Já verificamos várias vezes o valor desse simbolismo da união do masculino e do feminino, quando falamos do hexagrama, do esquadro e compasso da maçonaria, etc. O encontro dos sexos é o poder que sustenta o Ouroboros. A “obediência” ao poder da “necessidade implacável” sustenta uma natureza que não é posta como decaída e amaldiçoada por decorrência da queda em Gênesis 3, obviamente, mas como se fosse a pura manifestação do desejo de Deus e não uma realidade decorrente da ruptura espiritual com o Criador. Afinal, esse “deus” gnóstico faz uso das trevas junto com a luz, do mal junto com o bem, etc.
Olavo devia ter alguma intuição ou mesmo esclarecimento dessas coisas, quando chama a ambos de monstros e de “forças cegas”, aos quais opõe a vida interior na qual o ser humano poderia vencer “com a ajuda” de Jesus Cristo. Obviamente essa é uma diminuição iniciática da verdadeira salvação, já que a vitória contra o mal e a mentira é uma ação divina, e ao homem cabe apenas aceitar e receber a Graça da sua salvação. Mas pelo menos parecia haver até aqui uma certa possibilidade de superação da dialética dos monstros, ou, se quiserem, das alternativas políticas. De forma ambígua e obscura, é verdade, mas possível de qualquer modo.
Em outra parte, num escrito separado e futuro, Olavo parece ter dado notícia disso com outra menção a esses símbolos:
De novo o Behemoth é o “monstro do bem”, o “hipopótamo da ordem divina” contra o “crocodilo da rebelião“, uma idéia provavelmente advinda do simbolismo egípcio onde o enfrentamento dessas feras nas cercanias do Nilo sempre sugeriu noções espirituais àquele povo. E perguntemo-nos: por quais meios veio o esoterismo egípcio impressionar a visão moderna, senão pela influência das sociedades ocultistas?
Mas, e de novo ambiguamente, parece que o confinamento do conflito espiritual entre os monstros “no interior da alma” poderia levar à sabedoria. E isso eu não posso negar, já que o entendimento do propósito comum entre os gnosticismos exotérico e esotérico me ajudou muito a compreender a dimensão da dominação do Ouroboros sobre esta humanidade de cativos. Essa conclusão, porém, Olavo não pode tirar, porque para ele justamente um lado da monstruosidade deste mundo têm a suposta razão do serviço obediente a Deus.
E para mostrar como o modesto erro dessa noção poderia levar a grandes erros como consequências futuras, temos o desenvolvimento da idéia desde uma perspectiva de confinamento do conflito no interior da alma até uma ação justificada no próprio conflito externo, com a desculpa da dialética histórica:
Aqui já não se trata apenas de vida interior, mas de ação externa, com efeitos na cultura, na política, etc. É engraçado que se lermos atentamente ao que Olavo diz aqui, percebemos que ele ainda tem uma linguagem que dá conta do quadro maior, embora ele não assuma as necessárias repercussões disso. Ele mesmo diz que a esquerda não é o mal encarnado, e que o espírito revolucionário pode ser ora direitista, ora esquerdista. Isso poderia levar a conclusões excelentes, se o filósofo buscasse a essência comum dos monstros a serviço do Ouroboros, porque a verdadeira revolução contra o governo de Deus é a traição do Pecado Original. Mas ele não faz isso. E se não faz, é porque já decidiu sair da esfera do esclarecimento da luta interior para o da participação na dialética histórica. Olavo já não quis somente buscar e dar o testemunho da verdade para a glorificação de Deus àquelas poucas almas interessadas. Não lhe basta. Quer ser influente, quer alterar o curso das coisas, o destino das massas (a “rocha nua” que os maçons querem transformar no “Estado” para construir o Reino de Deus na Terra), e por isso se engaja também na atualidade onde supostamente a esquerda teria de ser combatida até que certo equilíbrio de forças pudesse ser restaurado (“até que a roda da História complete seu giro“). Por isso podemos dizer que, até onde enxergamos, Olavo escolheu ser um Bispo no Sistema da Besta ao deixar de denunciar o esquema do Ouroboros, e ao participar da legitimação do mesmo pela validação do Tradicionalismo, do Behemoth.
Tive o privilégio de verificar a consolidação dessa decisão no decorrer de uma década na qual acompanhei mais de perto o trabalho do filósofo. Aos poucos Olavo deixou de se importar com a sua pesquisa de maior valor, aquela que só tinha repercussão com uns poucos –e qualquer aluno mais antigo sabe que ele sempre deixou seus grandes projetos pelo meio do caminho–, e passou cada vez mais tempo se engajando na cultura de massas, com o incentivo da busca do poder político e religioso na suposta missão de treinar uma futura elite política brasileira.
Olavo morreu, mas o Tradicionalismo continua firme e forte. E temos o exemplo daquele outro filósofo russo, Dugin, com quem aliás Olavo chegou a disputar certa vez o tema da Nova Ordem Mundial.
Dugin também interpreta o Leviathan como a força do ateísmo, da desordem e da modernidade. O monstro das águas precisa ser derrotado. Seu adversário é o monstro da terra, da tradição, da religião, da ordem, etc., o Behemoth. Puxando esse simbolismo para o que lhe interessa, que é a justificação do papel histórico e, porque não dizer, messiânico, da Rússia, no “coração da terra”, Dugin afirma que o Leviathan está encarnado no processo histórico derivado da manifestação do poder do Império Britânico, marítimo, colonialista, mercantilista, capitalista e globalista, em oposição ao Behemoth que se encarna na manifestação do poder do Império Russo, terrestre, tradicionalista, nacionalista, socialista. As ideologias que representam a concentração dessas duas manifestações, por sua vez, são o Atlantismo e o Eurasianismo.
Talvez o que escape (ou não?) a Dugin, como escaparia a Olavo, é a evidência de que o processo histórico inteiro de desobediência a Deus se dá através desse conflito dialético, porque é o desenvolvimento do Ouroboros contra Deus, usando de ambas as forças de obediência e de rebelião para dirigir a sua grande e primordial rebelião contra o governo divino.
Escatologicamente, enxergamos isso no Fim dos Tempos quando tudo é revelado, finalmente (daí que o último livro bíblico se chama Revelação, ou “Apocalipse” em grego, porque é o tempo da revelação não só de Deus na pessoa do Filho, mas do inimigo como o Ouroboros, o Pai da Mentira): a Besta do Mar e a Besta da Terra se unem contra o Criador de todas as coisas, revelando sua verdadeira natureza.
De um lado, pela Gnose Tradicional, ou Exoterismo Gnóstico, o Tradicionalismo identificava o Ouroboros como se fosse o Deus verdadeiro, exigindo a perpetuação do Pecado Original, o sacrifício de sangue, o temor do inferno, e a obediência à tradição.
De outro lado, pela Gnose Revolucionária, ou Esoterismo Gnóstico, para controlar as oposições e dominar as dissidências, o Revolucionarismo identificava o Deus verdadeiro como Demiurgo que fez a substância espiritual decair para a material, aprisionando almas inocentes no seu esquema de poder.
No Fim dos Tempos finalmente Behemoth e Leviathan juntam-se para fazer guerra aberta e declarada contra Deus, a Besta da Terra e a Besta do Mar, o Falso profeta e o Anticristo. Uma humanidade unida no espírito da grande rebelião.
Note-se: a Besta da Terra fará com que todas as nações do mundo adorem a imagem da Besta do Mar.
Isto quer dizer que o fingimento da ortodoxia religiosa no suposto serviço do Deus verdadeiro se converterá na validação da grande rebelião luciferina, de modo que a Tradição Primordial, que é o Culto do Ouroboros, será revelada como a Religião Universal.
É por isso que qualquer desejo sincero de obediência ao Deus verdadeiro sempre vai entrar em conflito com a ortodoxia religiosa, inevitavelmente, porque o Espírito Santo dá o testemunho da verdade que está fora das mentiras da Tradição. O Senhor nos antecipa desde já aquela última Revelação, mostrando-nos, pelo menos até onde nos for suportável, que todas as religiões estão enraizadas naquela Tradição Primordial que é o Culto da Serpente.
A Serpente do Mundo, o Ouroboros, terá a sua mentirosa rebelião destruída com o sopro da verdade que sairá da boca do Filho de Deus, como sabemos.
Até lá o que podemos fazer é fechar os livros dos “mestres” do simbolismo oculto, Olavo, Dugin e tutti quanti, e reabrir o Livro de Jó, o primeiro dos livros de sabedoria, para reaprender o sentido mais simples e profundo da lição divina: o de que a vitória divina é garantida, infalível e devastadora, e que a salvação humana está na humildade que sai da frente do seu Senhor, que lhe abre o espaço para sua obra, a Ele que já declarou: “a mim pertence a vingança“.
Não temos que realizar nenhuma missão social, cultural ou política, porque estas vitórias são vazias e capturadas pelo engenho dialético do Ouroboros.
Nossa vitória é interior, na dimensão da nossa alma, na forma da renúncia ao mal e da participação na corrupção do espírito do mundo, com o desejo da realização da ação divina na nossa alma e no mundo.
Nossa submissão ao Ouroboros se dá pelas ambições da vida mundana: familiar, econômica, política, cultural, etc., o querer participar do destino do mundo, um mundo que já foi acusado, julgado e condenado pelo Espírito Santo.
A nossa entrega ao Deus verdadeiro se dá pela vida espiritual, que é o desejo de participar da Eternidade.
Quem me dera ter nascido num mundo lotado de cristãos convictos do privilégio da sua perspectiva, anunciando o verdadeiro Evangelho em toda parte, glorificando o Altíssimo de maneira impecável e perfeita todos os dias.
Tenho que me contentar com o suficiente fato de que pelo menos algumas pessoas neste mundo ainda entendem o que é a Boa Notícia, ou pelo menos possuem algum desejo de entender, e que pela santa misericórdia do Eterno eu mesmo pude receber a liberdade de crer em Jesus Cristo.
Façamos as honras? Vamos novamente testemunhar?
Meu sonho é produzir o último discurso, a solução final da questão cristã. Claro que ainda não o posso, mas ao menos tenho a chance de treinar para quem sabe chegar lá um dia (embora já sabemos que não é matéria para esta vida).
Partimos da premissa do idealismo transcendental, de que a Unidade e o Bem são a forma do Ser (unum, verum et bonum convertuntur), e de que na sua infinitude o Bem só pode ser cogitado por uma mente finita como o melhor possível de acordo com a forma do limite de seu próprio intelecto e vontade em dado momento de uma jornada particular de busca e entendimento. Assim, a filosofia cristã é ao mesmo tempo universalidade e particularidade: dá o testemunho do processo do conhecer e desejar, testemunho que deve ser formulado com pretensão universalista, mas que reflete sempre uma experiência particular impossível de ser totalmente replicada em outra alma. O que é a filosofia cristã? É o amor pela verdade do Evangelho no coração de um filósofo cristão que testemunha, numa fórmula universal compreensível por analogia, a experiência da sua vida espiritual. A verdade em si nunca é relativa, ela é absoluta como posse do Intelecto divino, isto é, enquanto conhecimento que o Absoluto tem de si mesmo, ao qual cada alma criada terá o acesso parcial que corresponde à sua forma particular de ser. Isto quer dizer que a verdade em si mesma enquanto conteúdo da consciência divina é absoluta, mas enquanto conteúdo de consciência de um ser finito é relativa à sua forma limitada de ser. E não poderia ser de outra forma, porque só em Deus o objeto do Intelecto é pleno em ato. Daí que qualquer premissa realista é defeituosa por definição, querendo recompor a totalidade desde sua perspectiva limitada, partindo “de baixo para cima”, ou do Múltiplo ao Uno. O que honra a essência divina é o uso que o intelecto criado faz da sua potência para contemplar o que lhe transcende como fonte da compreensão do Ser, “de cima para baixo”, do ideal para o real, e do transcendente para o imanente. Esta forma de ciência é espiritual, superior, porque é uma contemplação amorosa (usando um termo caro ao Olavo), ou seja, é um ato íntegro que sintetiza Intelecto e Vontade, realizando a máxima da filosofia cristã do intellige ut credas, credas ut intelligas (“conhecer para crer, crer para conhecer”).
Dada essa premissa, que podemos afirmar?
O único e verdadeiro Deus, Criador de todas as coisas, sempre foi pleno em si, na substância do seu ser divino. Deus conheceu e amou, satisfeito no seu Ser uno e trino, sendo visão da visão e amor do amor, conhece e é conhecido, ama e é amado pela Eternidade.
Absoluto e imperturbável na sua felicidade, paz e alegria, desejou como manifestação gratuita da sua majestade criar outros seres que vivessem, na sua condição, algo da sua gloriosa felicidade.
Agora, isto pode ser difícil, mas é preciso compreender a inefabilidade do ser abscôndito de Deus, que é o único capaz de conhecer e amar a sua verdadeira natureza infinita. Como poderia então o Absoluto criar seres que pudessem viver, no seu aspecto próprio, limitado e finito, a sua glória divina que só Ele mesmo conhece e ama plenamente? Em suma, como o Santíssimo, o Santo dos Santos, infinitamente separado e transcendente a qualquer substância que não seja a sua própria, poderia imprimir a sua experiência de ser a outro ser?
Só poderia fazê-lo criando seres completamente separados e análogos ao seu ser, singularidades indeterminadas com a potência de realizar o análogo da operação divina em suas próprias substâncias limitadas, e portanto capazes de experimentar, pela recepção da pura luz divina no seu ser, um reflexo da Glória do Criador.
Criou, assim, seres à sua imagem e semelhança, capazes, por seu Intelecto e Vontade, de conhecê-lo e amá-lo no reflexo de suas próprias substâncias.
Cada uma dessas criaturas foi feita para a plenitude designada pela Sabedoria da Providência divina que, já conhecendo eternamente a forma final que limita e define cada criatura, tem um propósito próprio para a realização do ser de cada um que criou, propósito cuja experiência chamamos de Paraíso.
Deus sempre soube, por sua eterna Onisciência que domina a totalidade dos futuros contingentes, que nenhuma criatura poderia realizar plenamente a sua liberdade na condição paradisíaca sem que antes experimentasse o seu próprio arbítrio de aceitar o desígnio divino. Qualquer criatura alcançaria eventualmente um estado paradoxal que constituiria defeito na forma de uma dúvida sem conteúdo, por não poder conceber condição melhor do que aquela em que já estaria, mas por não poder afirmar que de fato e de direito escolheu esta realidade, por perfeita que fosse. Isto quer dizer que este nunca poderia ser um verdadeiro Paraíso, porque a liberdade nunca seria plenamente satisfeita. É preciso que cada criatura livre viva o Paraíso verdadeiro, sem mácula e perfeito, o que exige que cada um decida realizar essa possibilidade como puro arbítrio, o que é impossível ser escolhido no próprio usufruto dela, dado que todas as demais condições fora da própria indeterminação do ser ou não ser já estariam realizadas perfeitamente.
Se tudo é bom, como pode um ser livre decidir escolher o que é bom?
Por outro lado, se um ser livre não pode escolher o que é bom, não se pode dizer que a bondade é plena na sua experiência, por mais que tudo mais o seja, porque a liberdade da própria criatura não é boa para si mesma, já que não possui o conhecimento total de seu próprio arbítrio.
Em suma, a plenitude perfeita do Paraíso exige que a criatura conheça a sua própria liberdade de escolher o Bem divino, e esta escolha só pode ser feita em qualquer condição inferior à plenitude designada pela Providência, no exato grau exigido para que cada criatura não desista do Amor divino, e ao mesmo tempo que não sofra nenhuma imperfeição na sua liberdade interior de dizer “sim” ao Criador de modo impecável e eternamente pleno.
A criatura que vive eternamente no seu estado paradisíaco precisa possuir, nesta perfeição, a consciência plena da sua própria liberdade de ter escolhido esta vida.
A suprema arte divina, a mais bela e sábia de todas, é a Providência da circunstância exata que satisfaça o grau interior de perfeição que cada criatura requer para a aceitação livre do Amor divino, ou seja, a garantia da precisa condição necessária à atualização da fórmula interior de aceite de cada alma.
Conhecendo a sua liberdade interior de amar o Bem, a criatura se torna capaz finalmente de se separar daquelas trevas de que teve de se servir, por sua escolha e integral responsabilidade, para discernir a conveniência do Amor divino para si.
Ser ou não ser amado?
Eis a única questão real que se põe a cada criatura, requerendo de si a confiança naquilo que ainda não se experimenta, já que se experimentasse não poderia confiar e nem escolher o Bem com verdadeira liberdade.
Dito tudo isso, lembremos que são incontáveis os mundos, universos e multiversos possíveis em que Deus realiza a sua obra, dado que cada criatura foi feita, à sua imagem e semelhança, para possuir integralmente as próprias dimensões ilimitadas de ser. O que quer dizer que, substancialmente, são incontáveis as criaturas herdeiras da Glória divina e, portanto, são igualmente incontáveis os seus mundos e dimensões particulares, em potência.
Vivemos a experiência deste mundo particular no qual nascemos como se ele fosse substancial em si mesmo, mas qualquer ciência séria, física ou metafísica, deverá finalmente reconhecer, mais cedo ou mais tarde, a indeterminação de qualquer realidade per se sem a relação com aquele que a percebe, isto é, como diria Leibniz, que o real é a Percepção que a mônada tem de seu próprio reflexo.
Vencida essa questão, resta-nos considerar que há a experiência do comum e universal, isto é, da mutualidade, e esta é mais simplesmente explicável como mútua representação das mônadas sem janelas, atualizada pela luz divina em sincronia e simultaneidade, do que por uma muito mais complexa e problemática série causal que atribuiria realidade a qualquer ser que não seja a substância simples. É inútil fazer com mais aquilo que pode ser feito com menos (Ockham).
Pior: a atribuição de substância à realidade exterior à alma constitui idolatria por um declínio da forma pura da luz refletida na mônada para a atribuição de luminosidade própria ao seu reflexo, como se fosse presumido que a Lua cheia emitisse sua própria luz e não apenas refletisse a luz que recebe do Sol (exemplo histórico: considerar João Batista um “santo” e não enxergar nele apenas o reflexo da glória de Jesus Cristo). Esse erro de idolatria é a origem da parasitagem e usurpação do Amor divino, o culto gnóstico da mistura de Luz e Trevas como origem constitutiva da realidade.
Assim, a natureza daquilo que entendemos como “realidade” não se trata de Simulação ou Holograma, mas da operação divina de criação santificada que produz a mutualidade para que cada criatura possa escolher ser ou não ser amada por si, isto é, crer ou não na transcendência do Bem em face da realidade manifestada.
Em algum grau todas as criaturas na ante-sala do Paraíso deverão realizar a sua escolha de crença na pureza da luz transcendente de Deus, ou na falsidade da mistura de luz e trevas (isto é, entre o ser e o não-ser), de modo que algum mundo terá que ser sempre manifestado para que possa ser crido como ens proprium gerado pela mistura. Esta é, por exemplo, a razão do nosso nascimento neste mundo, ou melhor, da manifestação da representação do nascimento do “nosso corpo” neste mundo.
Por mais que uma teologia honesta alcance a realidade do Pecado Original, como por exemplo na idéia do Pacto Ouroboros, não podemos daí fazer a redução antinatalista, porque esta exclui o propósito da Providência divina, por desconfiar dele ou mesmo desprezá-lo totalmente, o que já constitui uma deliberação de quem tem mais crença na integridade da mistura do ser do que na da sua pureza (como se dá com os que adoram o Caos, o Nada, etc.).
Amar a Deus e ao próximo é amar a liberdade de Deus e também a do próximo: tanto a do Criador de permitir a manifestação da liberdade humana, quanto a de cada criatura de conhecer a sua própria liberdade, já que tudo isto é o próprio sentido da vida presente. O ódio contra essa liberdade é apenas uma fraqueza de fé, facilmente curável pela vida espiritual, mas impossível de se resolver no âmbito exclusivo do psiquismo.
Sobretudo, no espírito de amor ao próximo, devemos receber e cultivar a inteligência de respeitar a jornada individual de cada alma, já que somente o Criador conhece a medida própria da experiência necessária a cada uma para atingir a solução espiritual, bem como as potências particulares que devem ser nutridas para cada caso. Há uma fórmula precisa para cada alma, conhecida apenas pelo Altíssimo. Na nossa ignorância, só podemos respeitar e aceitar esse mistério. A obra de Deus se realiza num muito exato e apropriado PROCESSO, e a integridade desse ultrapassa todos os nossos tolos idealismos, mesmo que supostamente cheios da caridade cristã. Mas que caridade pode superar a confiança no triunfo do Bem?
Entendido tudo isso, o que nos cabe?
A quem ficar clara a necessidade espiritual da liberdade humana, resta terminar o movimento interior de escolha do Bem na própria vida interior, que é o Primeiro Mandamento de amar o Amor divino que livremente nos concedeu a promessa do Bem eterno, bem como o outro movimento interior de produzir o melhor testemunho possível, com ações e palavras, para que as outras almas sejam incentivadas a desejar e escolher a confiança no mesmo Bem, que é o Segundo Mandamento de amar ao próximo como a nós mesmos, isto é, desejando para o outro o melhor que podemos desejar para nós mesmos, que é uma vida cheia de fé, esperança e amor. Certos dons espirituais, quando esclarecidos e assumidos, podem auxiliar nesta jornada (o que já falamos na explicação das várias Libertações, do Realismo Responsável, e da contemplação da Mônada e dos Sete Dons particulares).
Esse é o Evangelho, a Boa Notícia, a verdadeira comida e a verdadeira bebida de que estão esfomeados e sedentos todos os seres humanos.
É o anúncio da Cruz, que é a morte da mentira.
E é o anúncio da Ressurreição, que é a vida da verdade.
Mas só podemos dar o que primeiro recebemos: daí que só pode dar o testemunho do Amor divino quem o recebeu em si.
Se existisse uma escola de filosofia cristã sobre a qual eu fosse o responsável, esse seria o seu mandato: a recepção e a doação do testemunho do Amor, que é o privilégio da perspectiva cristã.
Um testemunho que antes recebemos de Jesus Cristo, porque nisto consiste o Amor: em que não fomos nós que amamos, mas foi Deus quem nos amou primeiro.
Sua ideia de polígono é análoga a minha concepção da Mônada : ente livre que produz uma versão da verdade desde o seu ponto de vista
Meus dois princípios sobre Mito e História
Função do Mito: transmitir uma ideia através do seu sentido
Função da História: evidenciar as verdades universais e fortalecer a Vigilância, destruir a ingenuidade, isto é, a crença na mentira histórica (a História é produzida e mantida pelos interesses de poderosos que se beneficiam da mentira -o segredo do poder é o poder do segredo)
O problema do autor não existe ou não tem importância : A realidade histórica do mito é irrelevante, porque qualquer verdade plena deve ser suprahistorica, independente da história , especialmente a da forma do Ser como Bem e Unidade, e portanto a Lei do Amor
A poesia é mais filosófica que a história (Aristóteles), pois nela as ideias são expressar numa forma mais pura, ou menos misturada pela contingência , é por isso que imaginamos estórias e as contamos uns aos outros, para explicar as ideias de sentido (vida espiritual, ou metafilosofica) de forma mais direta e profunda
Exemplos clássicos da sabedoria do Evangelho: Jesus costuma fazer uso de Parábolas para ensinar a verdade
Autor peca no seu historicismo típico da sociologia, entendendo-se como parte de uma geração iluminada , e tentando salvar os gregos de si mesmos, como se eles não pudessem ser tão toscos e pouco iluminados. Na verdade os gregos estavam mais próximos da verdade por a entenderem como suprahistorica, aletheia aposeixis, quanto mais acreditassem na veracidade do SENTIDO de seus mitos. Nesse ponto a obra é sintoma da grande decadência da intelectualidade moderna que quer descobrir uma verdade exterior, ou seja, fora da mônada , como num mundo objetivo num espaço-tempo , que é uma forma de idolatria