Uma sombra paira sobre a hipótese da Monadofilia: seu autor a teria produzido para racionalizar sua síndrome da eterna juventude. Sua filosofia não passaria de uma justificação da sua patologia.
Essa ameaça não vem de hoje. Certo dia alguém escreveu, em algum lugar desse grande terreno baldio que é a internet, sobre o prejuízo que o amor materno causa na maturidade psíquica dos filhos. Não resisti. Respondi bravamente na defesa do amor. Devo ter sido visto como ingênuo e fraco, é claro. Suportai a escravidão, vós que são tão sensatos…
Mas há teorias supostamente profundíssimas que ampliam o fantasma da ilusão e de sua sombra projetada. A mais ameaçadora é a da síndrome que vem do arquétipo junguiano do Puer Aeternus.
Legitimadores da Mistura e, sendo assim, servos do Ouroboros, os teóricos e crentes da Psicologia possuem a missão fundamental de normalizar a experiência humana após a Queda. Participam, portanto, do braço direito da Dialética do Ouroboros, e são produtores de uma cultura alternativa de reafirmação da Tradição Primordial, para manter o domínio do segmento da população que já não acredita mais na Religião.
A sombra, em suma, é uma mentira. Apesar de apresentar uma vantagem parcial para alguns casos patológicos realmente graves, essa teoria não consegue abranger a complexidade de uma realidade social e cultural que muda, e muito menos ainda consegue dar conta da estrutura metafísica da realidade.
Para entendermos melhor o problema, convém recontar o trajeto da experiência humana sob a condição da Queda (Sindar).
A experiência do bem contingente provoca as intuições essenciais desde a primeira idade: da própria unidade, da percepção e da apetição do bem, e da amabilidade do eu.
Em seguida há uma dupla iniciação na Gnose da Mistura: a phronesis da moderação e da prudência, e o culto da própria Mistura como forma do Ser. Junto com o aprendizado da realidade prática de como lidar com a contingência da Mistura, há o aprendizado de que não há bem sem mal, nem luz sem trevas. Isso mostra bem o objeto do Pacto Ouroboros: nossos primeiros pais pediram a Gnose do domínio da natureza decaída para viver emancipados do Amor divino, e em troca ofereceram o culto ao Ouroboros, o deus da Mistura e da Dualidade, no lugar do Deus verdadeiro, da Separação e da Unidade.
Junto com a astúcia da sabedoria prática para se lidar com a contingência aprendemos a malícia da crença da Mistura, da interdependência do Bem com o Mal, a Dualidade.
As alternativas oferecidas pelo Ouroboros para o problema do Mal seguem a sua essência dualista: ou se crê que a Mistura é a forma do Ser (hipótese da divindade do Ouroboros), e portanto alguma medida de Mal deve ser sempre aceita como parte estrutural da realidade, ou se crê que a libertação do Mal consiste na negação da bondade do Ser (a hipótese de um Demiurgo mau). Ou seja, o próprio Ouroboros é sempre vitorioso como dominador da síntese do processo da sua Dialética: os obedientes legitimarão a Mistura e o cultuarão como se fosse Deus, e os rebeldes se alinharão com ele na revolta contra o Deus verdadeiro, supondo que o Ouroboros é o seu libertador contra as mentiras de quem nos aprisionou na corporeidade material.
Perceba-se que as duas mentiras, totalmente opostas entre si na sua relação dialética, favorecem igualmente o domínio do Mal sobre o mundo. De um lado a Mistura é legitimada, e do outro ela é falsamente condenada, pois o Ouroboros não propõe a separação moral entre Luz e Trevas, mas uma separação ontológica. A afirmação da bondade da Mistura leva os crentes do gnosticismo exotérico a adorarem o Ouroboros no lugar de Deus. E a afirmação de que a maldade está na materialidade leva os crentes do gnosticismo esotérico a se rebelarem contra o Deus verdadeiro, ao lado do Ouroboros, e a desejarem a morte.
É necessário distinguir com clareza as duas mentiras.
A mentira do exoterismo da Dialética do Ouroboros, da Tradição Primordial, afirma a bondade da Mistura, que o Bem só subsiste ao lado do Mal.
A mentira do esoterismo da Dialética do Ouroboros, da Revolução Primordial, condena a Mistura, porém o faz não moralmente, e sim ontologicamente, como se o problema fosse a mistura do espiritual com o corporal, gerando portanto a negação da bondade da vida e do Ser.
A origem da Mistura, que é a restrição do bem contingente, é a vontade humana de desobedecer a Deus e de conhecer o Bem e o Mal, ou seja, o desejo de obter a Gnose da Mistura. E isso é permitido para que a escolha do Bem seja verdadeira (Eleuteriodiceia).
Se a Dialética do Ouroboros apenas nos aprisiona na mentira, qual é a solução?
A salvação é a Ressurreição: primeiro é necessário que se cumpra o decreto de Gênesis 3, e que as Obras da Carne morram. Então pode se realizar a Obra do Espírito, que é a Ressurreição não como transformação da forma substancial humana, mas a sua Redenção.
Quem nos mostrou isso foi Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado, morto e ressuscitado como Filho do Homem.
Jesus triunfou contra o Ouroboros e destruiu as suas mentiras.
Jesus ensina que quem não possuir a inocência das crianças não herdará o Reino dos Céus. Este é o Caminho ensinado por ele.
Precisamos renunciar ao Gnosticismo no qual fomos iniciados pelos costumes dos nossos pais.
Por isso Jesus afirma que veio trazer a espada e não a paz. Não pode haver acordo entre a verdade e a mentira. Há uma guerra e uma vitória devastadora da Luz contra as Trevas. Essa guerra não é contra o Próximo, mas contra a mentira da Mistura que faz da Luz refém das Trevas.
O Puer Aeternus pode causar males de fato, quando as responsabilidades determinadas pela Providência não são assumidas, isto é, dos deveres de estado atribuídos pela RSMM. Porém, esse mesmo impulso do Puer pode libertar do AEM.
Será que o psicologismo pode fazer essa distinção?
Parece-me que não.
Legitimadora da Mistura, a doutrina do psiquismo não separa a ingenuidade que prejudica o adulto infantilizado da inocência que liberta do excesso de mistura.
Esse psiquismo quer que todos os adultos sejam plenamente funcionais dentro de um certo idealismo imanentista que escraviza, pois não é capaz de superar a Gnose da Mistura.
Só o Evangelho nos liberta de fato, rejeitando a mentira da Gnose, e reafirmando a bondade do Ser que qualquer criança ainda inocente e não-iniciada é capaz de reconhecer.
Não posso buscar as razões dessa liberdade cristã com a minha filosofia sem prestar contas ao psicologismo do Puer Aeternus? É o contrário, como ensina a teologia paulina: o homem psíquico não consegue discernir as coisas espirituais, mas o homem espiritual julga a respeito de tudo e por nada é julgado.
Vamos deixar as coisas bem claras.
A experiência da Mistura ensina que não existe omelete sem ovos quebrados. Isso é verdade na contingência, mas não pode servir para limitar a Onipotência, o que seria ridículo. As causalidades material e eficiente não ordenam o Logos, mas são ordenadas por ele. A natureza não legisla sobre o divino, mas é dominada pela divindade. Desse modo a realidade da experiência decaída e amaldiçoada é totalmente contingenciada, determinada pelo arbítrio desobediente dos seres humanos. Isso em nada interfere com a supremacia das causas formal e final, nem com a suficiência da simplicidade do bem divino. Em suma: Deus faz omeletes sem ovos quebrados, não porque precise, mas simplesmente porque quer.
Ingênuo não é quem quer omelete sem ovos, mas quem acha que Deus não pode fazê-lo. E de ingênuo passa a ser malicioso: não existe o Bem divino na sua pureza, e muito menos a Graça, só existe a Gnose da Mistura e o domínio da realidade. Como diz a escritura: são escravos da Maldição e do Poder.
A desconfiança do poder ou da bondade divina é sempre malícia.
A confiança é a inocência, e mais, a honestidade: não quero ovos quebrados, apenas omelete. Isso sempre foi verdade.
Quando nossas mães querem nos proteger da crueldade do mundo da Mistura, isso deriva de um conflito inerente à situação do amor na contingência presente da Queda: se o amor é verdadeiro, ele supera a contingência da Mistura. A mãe quer o bem total aos filhos, mas sabe que a Mistura o negará.
Quando os pais sequestram os filhos que entram na puberdade para submetê-los aos ritos de iniciação na vida adulta, isso já significa uma segunda e mais profunda iniciação na Gnose: enterrar a criança viva, para depois retirá-la de lá e expô-la à sobrevivência na vida selvagem equivale a reproduzir concreta e simbolicamente a experiência de Adão em Gênesis 3.
A experiência materna simboliza o Paraíso preternatural que alimenta o idealismo do Puer, a felicidade simples da infância onde a mãe representa Deus no Éden.
A experiência paterna simboliza o Paraíso perdido, a Queda e a iniciação no Pacto Ouroboros: para desafiar o decreto da maldição é preciso adquirir a Gnose e dominar a natureza, bem como para vencer o decreto da morte é preciso produzir uma descendência pelas Obras da Carne.
Aquele que saiu do seio da mãe (o Paraíso) como uma criança inocente e idealista volta como um jovem adulto iniciado no “realismo” da Gnose da Mistura, integrado com a sua tribo, ciente dos seus deveres, etc.
Ora, esse suposto realismo é totalmente produzido por uma contingência determinada pelo arbítrio humano, ou seja, pelo Pecado Original. O verdadeiro realismo requer a admissão do sentido integral da experiência moral do ser humano.
Assim, como costuma ser o caso, a sabedoria dos homens é loucura para Deus, e vice-versa: o psicologismo do Puer Aeternus costuma condenar o idealismo transcendental como uma ingenuidade e recusa das responsabilidades da vida adulta, quando na verdade essa doutrina é que resulta da falta de responsabilidade pelo arbítrio humano que legitima e perpetua a condição da Mistura. Esses desinformados devem responder ao terrível desafio da Antropodiceia, para não falar da mais terrível ainda vingança do Amor divino que está chegando.
Do mesmo modo que as mulheres podem e devem se libertar da escravidão dos seus papéis de esposa e mãe, os filhos também devem se libertar da iniciação gnóstica e ouvir o chamado de Jesus para a liberdade. Eis aí o teu filho, e eis aí a tua mãe: libertem-se da tirania dos Filhos de Adão.
Afinal, ainda que o amor materno possa prejudicar o desenvolvimento da astúcia dos filhos na sua experiência da vida nesta contingência, esse amor, na sua pureza do desejo do bem irrestrito, nunca traiu a essência da amabilidade dos seres inspirada por Deus.
Muito pior é o “amor” paterno que trai, usurpa e despreza o Amor verdadeiro, escravizando as mulheres e os filhos para a realização da sua ambição de poder.
A primeira afirmação da vontade de poder veio da inseminação. A segunda, através da continuidade da submissão da mulher e da iniciação dos filhos na malícia da Gnose da Mistura.
Somente a Misericórdia de Deus pode salvar pais e filhos desse pesadelo, através do Amor verdadeiro, com amizade verdadeira (sois todos irmãos uns dos outros), com liberdade e libertação, com reconciliação e perdão.
Não se pode tolerar que o psiquismo psicologista acuse o idealismo transcendental de ser irresponsável: onde está, antes, a responsabilidade pelo arbítrio de reprodução da condição da Queda e da Mistura? Não serão esses cegos que nos ensinarão a ver. Antes, Deus que tenha misericórdia deles, pois deita fundo a sua escravidão. Nesse estado em que se encontram, como conhecerão a Deus?
Se pelos frutos conhecereis a árvore e o livro As Leis, de Platão, é uma obra da maturidade do filósofo, então aqui encontramos o resultado mais refinado do pensamento do grego, e com isso podemos tirar várias conclusões.
A primeira evidência que me saltou aos olhos foi a grande distância do espírito da filosofia socrática, e mesmo da liberdade especulativa do primeiro platonismo. Com As Leis o compromisso de Platão com a Tradição Primordial se cristalizou completamente. Em diversas ocasiões a mera antiguidade de uma idéia ou costume é tido literalmente como evidência da sua validade, como se a malícia e a idiotice humanas não tivesse os seus antepassados. Tudo o que havia de ruim com A República se confirmou e adquiriu uma face ainda piorada nesta obra. Mal se percebe o grande filósofo que produziu aquelas poderosas intuições a respeito do Sumo Bem, e as profundas reflexões sobre as relações entre o Uno e o Múltiplo que tanto inspiraram o futuro neoplatonismo, Agostinho, etc.
O objetivo de Platão com esta obra foi a produção da legislação de um Estado ideal (a Magnésia), uma tarefa que se desdobra na criação de preâmbulos e de regras. O desenvolvimento desse tipo de nomos presume a distância da maioria dos seres humanos das atividades de contemplação e reflexão a respeito do Bem, de modo que o povo deva ser conduzido pelos guardiões do Estado como se fosse gado. Esse ser humano não é a imagem e semelhança de Deus: é uma entidade indiferenciada, que pode ter até um potencial a ser desenvolvido, mas cujo destino individual não pode ser colocado nem ao lado, e muito menos acima, do destino coletivo da polis. Ou seja, a soteriologia platônica, gnóstica, presume a necessidade de uma governança política que mantenha uma certa máquina em funcionamento constante, cíclico e por tempo indeterminado, de modo que as almas possam nascer e renascer com uma dada oportunidade para o desenvolvimento de suas almas. Nessa visão é mais importante manter as tradições e costumes do Estado que permitam a ascendência das sempre poucas almas dispostas à adquirir a Gnose, do que o questionamento da origem dessas mesmas tradições e costumes. É uma visão ingênua, de um idealismo imanentista que não tem nada a ver com o melhor potencial do platonismo.
Na mais segura e garantida confirmação da minha hipótese do Culto do Ouroboros, que entende que o costume humano da perpetuação do Pecado Original é a verdadeira Religião do Homem, Platão estabelece logo no princípio das leis mais importantes do seu Estado ideal o seguinte:
Nada é mais estúpido e distante da verdadeira divindade do que o desejo dessa falsa imortalidade, e dessas glórias humanas. Que uma alma como a de Platão tenha encontrado nisso a forma mais prática do seu ideal só nos mostra como é difícil ter liberdade contra o Culto do Ouroboros. A liberdade que eu tenho hoje, e da qual usufruo dando glória a Deus, Platão não só a condenaria, mas recomendaria como punição a minha morte, assim como o seu mestre Sócrates foi morto por abusar da sua liberdade de pensamento. É disso que se trata o Culto do Ouroboros: uma guerra contra a liberdade humana de buscar o Deus verdadeiro. Uma guerra de julgamento, condenação e extermínio, sem misericórdia.
Para aqueles que acham que a presente discussão sobre o problema da queda da taxa de natalidade é uma questão moderna, temos uma citação que mostra a preocupação que o estadista deveria ter, na visão de Platão, sobre a manutenção da população de escravos à disposição do poder político:
Eis aí a evidência da verdadeira natureza da arte política: o domínio de uma massa de escravos à disposição dos ideais dos governantes. E mais ainda, fica evidente a total manipulação da idéia do que é sagrado e divino, ou seja, do sentimento de piedade e religiosidade, para confirmar e consolidar a realização dos desejos dos poderes humanos. Foi o que Adão e Eva começaram a fazer com Caim e Abel, e vai até o Anticristo: eis o nosso “deus”, suas leis, etc.
As provas de como a Religião é uma ferramenta de domínio político são muito abundantes no texto de As Leis:
Não está errado, diante dessa lógica tão evidente, a concepção de que os interesses políticos e econômicos precedem a cultura religiosa de uma população. Se um Marx afirma, diante dessa filosofia platônica, que a Religião é parte de uma superestrutura, ele não tem razão? Claro que tem. Assim como qualquer ateu que repudiasse essa vergonhosa manipulação do sentimento popular. Digo vergonhosa porque a elite pode até reconhecer a conveniência dos costumes, como a Religião e a Família, para a manutenção da ordem social, mas não como um ideal político. Se essas práticas tradicionais são um reflexo da necessidade da arbitragem da Mistura, isso é um mal necessário, mas ainda assim são escolhas que deveriam ser abertamente condenáveis todas as vezes. Ou, no mínimo, deveriam ser inferiorizadas em comparação a outras escolhas de vida. Ou seja, onde Marx ou qualquer ateu erram é no motivo da rejeição da Tradição Primordial: a alternativa não é uma liberdade para a negação da divindade, mas sim a condenação da falsa divindade para a afirmação da verdadeira que foi traída, usurpada, etc.
Subitamente, no meio de As Leis, parece que o próprio Platão de repente lembra disso ele mesmo:
Platão sabe que esta sua filosofia política é praticamente uma outra coisa, muito inferior à melhor filosofia possível que ele já havia desenvolvido antes e que já tinha aprendido com Parmênides, Pitágoras, Sócrates, etc. Mas ele não consegue renunciar à ambição da modelação do poder político de acordo com um certo ideal filosófico, ou seja, não aceita ser governado por espíritos inferiores. E na necessidade da produção de um programa realizável, ele vai se afundando em concessões cada vez maiores e mais graves à Realpolitik, por fim comprometendo-se por completo com idéias que não tem mais nada a ver com aquela sua liberdade filosófica originária que supostamente teria alguma superioridade em relação aos poderes políticos estabelecidos. O grande filósofo grego não sabe que não há acordo entre o espírito de Deus e espírito do mundo: ele não conhece a Obra de Separação, não conhece o sentido da Queda, e portanto desconhece também o sentido a verdadeira Salvação.
Esse Platão que desconhece a verdadeira Redenção humana está preso na lógica da Mistura do Gnosticismo, e numa visão trágica da vida humana. Ele mesmo o assume:
O que havia de libertador (catártico) na tragédia grega que fazia a comunidade superar a visão tradicional cultivada a partir de seus costumes se torna proibido no Estado ideal platônico. É o triunfo total tirania do Culto do Ouroboros: vocês estão presos e continuarão presos para sempre neste esquema. A única salvação está na difícil obtenção de uma Gnose restrita a minoria de uns iniciados…
Instruídos pelo Eclesiastes, sabemos que não há nada de novo sob o sol. Já vimos que a preocupação com a natalidade é antiga e já remonta à idealização do Estado da Magnésia. Mas podemos ir além, e de forma mais extensa, e reconhecer a total compatibilidade entre essa doutrina platônica e aquela das Leis de Noé, especialmente a sexta lei que rege a sexualidade humana:
Qualquer conservador tradicionalista nos diria que o que se repete é o testemunho da verdade da função sagrada da sexualidade humana, evidentemente. E como amostra da validade dessa idéia toda a decadência moral gerada pela liberação sexual seria a qualquer momento referida como a mais evidente prova. Isso tudo é falso, porém: a diferença que existe entre liberdade e libertinagem não pode ser confundida senão pelos tolos, ou por aqueles que lucram com a acusação do natural desejo humano pelo que é aprazível, agradável, etc. Creiam-me: há muito lucro a ser explorado pelo julgamento do desejo pelo bem, ou seja, pela condenação do próprio Amor, no sentido não só da Philia, mas também do Eros. O desejo pelo bem nunca é mau. O mal está na traição ao amor, ou seja, na busca do Poder contra o bem de si próprio ou do outro. A verdadeira liberdade só existe para o Bem, ou seja, para quem se permite agir ou não tendo como regra apenas a autoridade da própria consciência. A libertinagem não tem nada a ver com a liberdade: é apenas a vontade pueril de se rebelar contra regras morais cuja função é a contenção dos seres humanos inconscientes da sua própria amabilidade e da de terceiros, ou seja, de pessoas moralmente mal formadas. Em termos bíblicos: a Lei só existe para o conhecimento do pecado, e não da salvação. O uso da atividade sexual para a construção e manutenção de um Poder político, por outro lado, é claramente a usurpação de uma atividade finalística (que tem um bem em si mesma) para o seu uso com vistas ao domínio da realidade. Isto quer dizer que a doutrina platônica, bem como a da sexta lei das Leis de Noé, é a traição contra o verdadeiro Bem que nos permite enxergar, por trás da obscura vantagem do sexo atual, qualquer ideal transcendente. Se qualquer sexo fosse bom, ele o teria de ser para sempre. Assim como esse uso político restringe a bondade própria (e no fim das contas a nega) do sexo, do mesmo modo o gnosticismo também condena qualquer qualidade inerente a uma função corporal que ultrapasse seu uso na contingência apenas para a sua superação: o gosto do alimento, o cheiro do perfume, o prazer do toque, etc., tudo isso constitui bens falsos que devem ser superados, e portanto só contingencialmente utilizados com a finalidade da sua superação, como meros meios. Em suma: negar a bondade do prazer criado por Deus não pode terminar bem, pois é uma mentira, assim como é mentira que possamos nos entregar ao prazer indiscriminadamente, como as virgens loucas. Essas duas mentiras escravizam. A verdade está na liberdade de admitir todo bem possível, mas viver apenas pelo Amor divino: não negar nenhum bem possível, mas confiar no Noivo como aquele que nos ama e nos dá o bem, como as virgens prudentes. Todo o Cântico dos Cânticos versa sobre essa sabedoria.
Platão não está totalmente alterado, porém. Ele ainda se lembra, como já notamos, do que realmente interessa. E podemos notar novamente:
Esse testemunho poderia frutificar tanto, se o filósofo esquecesse o problema da correção política! Se se dedicasse somente ao divino, Platão já tinha tudo na mão para produzir uma Monadofilia melhor do que a minha, obviamente. Não fico feliz de afirmar que tudo o que é parte do único ser real, que é a Substância Simples, como o Múltiplo que manifesta aspectos do Uno: eu preferiria que Platão o tivesse afirmado, poupando-me de ter que dizê-lo, e talvez até de existir sob esta condição presente. Quem sabe, afinal, como seria um mundo onde o platonismo tivesse caminhado em outra direção? Que ele podia fazer isso se quisesse, esta última citação já o prova.
No Livro X, na formação do preâmbulo introdutório à legislação contra os crimes de impiedade, Platão tem que finalmente voltar a produzir alguma filosofia mais fundamental, embora de forma limitada, sem aquela liberdade dos antigos diálogos. A negação dos deuses é dividida em três categorias: a negação da existência, a alegação de indiferença dos deuses, ou a crença na sua corruptibilidade. Pensando bem, Platão discursa contra o ateísmo, contra o agnosticismo, e contra a religião comercial, no sentido pobre dela (o suborno do divino com rituais). Contra o ateísmo seu argumento é o da primeira causa eficiente que move e não é movida (o futuro Primeiro Motor Imóvel de Aristóteles). Contra o agnosticismo o argumento é o da inconveniência da indiferença da divindade, e o mesmo é dito contra a religião comercial.
Mas é importante relembrar sempre que Platão se dá o direito, como filósofo, que recusa aos outros: o de fazer uma revisão dos relatos mitológicos e do seu sentido religioso. Então não há nada de sagrado nas tradições em si, mas antes o sagrado é o sentimento piedoso ou religioso do povo, amorfo e indiferenciado, a ser manipulado pelos verdadeiros sábios, que são os filósofos. Essa é a visão platônica. E é óbvio que isso repercute a mentira do Culto do Ouroboros: a Religião do homem é mentir sobre Deus para dominar as massas.
O próprio texto de As Leis termina abruptamente, sem a solução do maior problema de todos, que é o da qualificação dos governantes supremos, o chamado Conselho Noturno de Magnésia. Estas autoridades devem possuir a ciência que dá acesso à sabedoria mais plena, capaz de preparar uma alma para o governo de todas as outras almas cujas ciências são especializadas. Esse problema é tratado num texto apensado, Epinomis, que consta desta mesma edição que estamos trabalhando.
Neste âmbito Platão tem que voltar a uma filosofia mais pujante, aquela das Idéias, dos Números e dos Princípios. E termina assim o seu testemunho:
Querer que a partir do Múltiplo para o Uno se realize o destino da alma humana realmente não é algo errado, bem como a busca da verdade na Unidade. Tudo isso está muito bem, mas o grande problema é o da substancialidade do Múltiplo, que é a constante dificuldade grega com o problema da ousía derivada da falta da noção de uma analogia pura. E além disso, é claro, outro grande problema é o dessa ascese gnóstica que afirma a possibilidade de conquistar e deter dons divinos, a felicidade, etc.
Se Platão não se desviasse dos objetos mais sublimes e metafísicos da sua filosofia para se dedicar aos problemas políticos, como fez aqui com As Leis, talvez tivéssemos conhecido profundidades ainda maiores do que aquelas que eu penso poder alcançar com a minha modesta Monadofilia.
Mas será que os filósofos, quando amadurecem, estão fadados a essa obsessão com o problema da Política? Como intermediária entre o âmbito da phronesis e o da theoria, de fato a Filosofia Política parece ser tentadora, e talvez seja a última tentação de todos os bons filósofos, como a última tentação de Cristo foi a da oferta do governo de todas as nações da Terra.
FIRST TOPIC – With free time to be at leisure in peace, one is nourished in freedom and leisure
Despite its exotic nature in the universe of various philosophies, Monadophilia should always be one of the easiest to understand, for reasons that will become clearer later. Our goal now is to address what First Freedom is. One cannot love wisdom, that is, philosophize, if one does not dedicate the most precious thing we have to this love: our time, our attention, our energy, in short, our life. Where your treasure is, there your heart will be. Now, the common man can spend himself and be distracted by countless occupations, whether driven by necessity, fear, or desire. And all of this can occur without an individual even being aware of their freedom to disconnect from this regular flow of occupations, so that they use their intellect to understand the nature of their reality. It is not possible to be initiated into Monadophilia without having this First Freedom, which is made up of some parts. The lover of wisdom, this philosopher, with free time to be unoccupied in peace, is nourished in freedom and leisure. You can contemplate what the worn-out, slave to imposed or chosen circumstances, cannot. Anyone who does not have this capacity for leisure in peace cannot receive the nourishment that comes from freedom and idleness. Does anyone have any questions?
Ethan (The Skeptical Empiricist): Yeah, I have a question. You’re saying that philosophy requires time and freedom, but isn’t that a privilege? Most people throughout history—whether because of work, survival, or responsibilities—haven’t had the luxury of free time. Does that mean only the privileged can engage in Monadophilia?
In short, yes. One must assume that except for some few absolutes, like the universal spiritual privilege that all humans have to live a relationship with God, all the other contingent experiences are dependant on some premises. As none could be sure to have even basic needs granted, like food, shelter or clothing, in the same way the free time and peace of mind required to practice any good philosophy is not a human right, but something that depends on some other things. The important thing, though, is to notice how our personal freedom affects this: if you consume your time and resources with mundane ambitions, you will be declining the more contemplative choice, and that’s on you. To live with freedom means to live with responsability, and to do so we should make choices and accept the consequences of those choises. Do you understand Ethan?
Ethan (The Skeptical Empiricist): I see your point, but I’m not sure I fully agree. You’re saying that having time for philosophy isn’t a right but a consequence of choices and circumstances. That makes sense, but what about those who never even get the chance to make that choice? If someone is born into hardship, they might never have the luxury to step back and contemplate. Is it fair to say they simply “declined” the contemplative path when they were never really given an option?
No, that case would be a consequence of the parents choice to give life to a person able to be free and conscious, but traped into a situation that prevents this development. We will talk about this later. But do you understand that this restriction doesn’t constitute an injustice, or that those who work with any philosophy have any responsability for this?
Ethan (The Skeptical Empiricist): I get what you’re saying—you’re placing the responsibility on the circumstances that preceded the person’s birth, rather than on philosophy itself or those who practice it. And you’re saying it’s not an injustice, just an unfortunate reality. I can follow that reasoning, but it still feels like an uncomfortable truth. It means that some people are simply locked out of philosophy by circumstances beyond their control. I guess my next question would be: if Monadophilia requires First Freedom, is there any way for someone trapped in necessity to ever access it? Or are they permanently excluded?
That is a question to the person to answer. The way I see, with some very few exceptions, any person could access this First Freedom, if the person is ready to make the necessary choices and sacrifices for this. I recommend to you to search for some philosophers that acted under very restrictive conditions, like Diogenes the Cynic, or Epicthetus the Stoic. Humans can do a lot that looks hard or even impossible, if they really put their minds and wit to it. But you should also know that the christian philosophy is not the same as the Gospel. The spiritual salvation is universal, as the relationship with God. As intelligence is a gift from the Creator, a person that lives under extreme circunstamces could receive a deep understanding about all things, so much that even a dedicated philosopher could be surpassed by this extraordinary resource. So, the First Freedom is about what we can do, our best choice, and not so much a restrictive path, because we must consider God’s dispensation of Grace. Do you understand Ethan?
Ethan (The Skeptical Empiricist): Alright, so you’re saying that First Freedom is achievable for most people, but it requires deliberate effort and sacrifice. And for those in extreme conditions, God’s Grace could still provide understanding, even beyond what a dedicated philosopher might reach. That makes sense in your framework. I see the distinction between philosophy as a chosen path and spiritual wisdom as something granted by divine dispensation. I still think there’s more to explore about the limits of choice in harsh circumstances, but I understand your position now. Thanks.
Nathan (The German Mystical Idealist): If I may, I have a question as well. You describe First Freedom as essential for philosophy, but doesn’t this mean that philosophy itself is a state of being rather than just an activity? If true freedom and leisure nourish the philosopher, doesn’t that imply that philosophy isn’t something we “do” but something we must become?
You don’t need to go that far. We should just do our best to put ourselves in the best situation to be free to practice good philosophy. If that have to do with our happiness, the final cause of our life, of course it is important, but its not a matter of transformation of being. To be clear, nourishment in this case means that the Wisdom is not our property, but God’s property, so we do our best to be inclined to accept this gift, renouncing all that disturbs this relationship. Understanding is given by God to those who want to receive it. Sometimes exceptions can happen, but we should not consider ouselves exceptionals, or living in any exceptional situation. Do you understand Nathan?
Nathan (The German Mystical Idealist): Yes, I see now. You’re emphasizing that wisdom is not something we generate ourselves, but something received from God, and that our role is to prepare ourselves to accept it. So, rather than viewing philosophy as a transformation of being, we should see it as a state of receptivity, where we remove obstacles that block wisdom from reaching us. I understand your reasoning. But I wonder—if wisdom is truly God’s property, doesn’t that mean even our efforts to prepare ourselves are ultimately guided by divine will? In other words, can someone truly will themselves into First Freedom, or is even that step already determined by God’s providence?
Although there are many callings and pushes, etc., not to talk about the whole divine work that moves the Providence, our freedom is granted, because that is very precious to God. The very reason of our current existence in this world and under this condition is so that we can realize our freedom of choice in the spiritual matters of life. There is a strong and powerful guidance, yes, but that can be always rejected if you want to. Otherwise, this world would not be in such a mess. Do you understand Nathan?
Nathan (The German Mystical Idealist): Yes, I understand. You’re saying that divine guidance exists, but it does not override our freedom to choose. In fact, our very purpose in this world is to exercise that freedom, particularly in spiritual matters. That clarifies a lot. It also explains why the world is filled with confusion and disorder—because people reject the divine guidance available to them. I’ll reflect on this further, but for now, I follow your reasoning.
Andrew (The Atheist Existentialist): Alright, I’ve got a question too. You’re emphasizing freedom as something granted by God, but what if we take God out of the equation? Can’t we still argue that freedom comes from within—from our own determination to transcend limitations? Do we really need divine grace to achieve First Freedom, or is it just a matter of self-discipline and willpower?
You can believe that freedom is something produced by the self, although that will get you to some difficult problems if you put God “out of the equation”, as you say, because if there is no greater freedom than yours (God’s own freedom), then you can never really be sure that you are not determined by the elements of the world, depending on what would be your worldview in that case. Anyway, this first part of the First Freedom is not so much related to Grace, as depending on it (although that is true), but our focus is more on the choices required to live in sufficient peace of mind and to have the necessary free time to achieve good results. If you want to see that as something generated more by yor own personal virtues, you can do so. But in time you will see that this will contradict some principles of my philosophy, so you will need to make a choice eventually. Do you understand Andrew?
Andrew (The Atheist Existentialist): I see what you’re getting at. If there’s no higher freedom beyond my own, then my choices could just be determined by external forces, which kind of undermines the whole idea of freedom in the first place. That’s a fair challenge. I also get that, for now, you’re focusing more on practical choices—how we structure our lives to allow for philosophical thinking—rather than divine grace itself. I’ll admit, I’m not convinced that freedom requires God, but I do understand that, within your system, I’d eventually have to face a contradiction if I insist on a purely self-generated freedom. I’ll think on that.
Madeline (The Secular Analytic Philosopher): I’d like to ask something. You’ve explained that First Freedom is about creating the right conditions to engage in philosophy. But how do we measure whether someone actually has it? What’s the threshold? How do we determine if a person has enough free time and mental clarity to be considered capable of true philosophy?
You can check the very usage of the hours of the day. We live under loops of 24 hours in which we usually have to use some 8 hours just to sleep and rest. So, you can see how the available hours are used to realize what are your priorities. As much free hours you have, the best. Also, in a more subjective angle, you can follow Jesus’s rule of evaluating the tree by its fruits: peace gives serenity, joy, good humor, etc. If you have no real peace of mind and free time to contemplate spiritual matters, you will experience life with stress, anxiety, frustration, sadness, anger, etc. Do you understand Madeline?
Madeline (The Secular Analytic Philosopher): Yes, I understand your criteria. First Freedom can be measured in two ways—objectively, by examining how someone spends their available hours, and subjectively, by observing whether their life produces peace and clarity or stress and frustration. That’s a structured answer, and I can see how it applies in practical terms. However, I have a follow-up: Isn’t it possible for someone to be extremely busy and still experience deep serenity? Some people seem to thrive in activity, feeling fulfilled even in a fast-paced life. Does that mean they don’t have First Freedom, or are they an exception?
Only the person could answer that. Knowing the general human experience, that should be more exceptional, but possible nevertheless. There are many differences in temperament, mentality, etc., not to speak about differences in standard of life from place to place, so we can’t really create a single model for all humans. Whatever are your personal conditions, harder ou easier, you should do your best. Sometimes we need to change our circumstances to make them better in this regard. I did it myself: I moved from a large city with more then 10 million people to a smaller, less then 1 million habitants, to have a more peaceful life. To do so, I needed to renounce more then half of my pay. This is what I am talking about. Personal decisions regarding very concrete individual circumstances. What I did was good to me, but maybe that could be a bad decision to someone else. Do you understand Madeline?
Madeline (The Secular Analytic Philosopher): Yes, I understand. First Freedom isn’t about a one-size-fits-all model, but rather about making deliberate choices to create the best conditions for philosophy within one’s personal circumstances. I see now that it’s not just about having free time, but also about what one is willing to sacrifice to create it. Your example makes that very clear—you actively chose a slower, less demanding life at the cost of a higher salary, which was a trade-off that made sense for you. That clarifies things for me. Thanks.
Emma (The Liberal Christian Pragmatist): I have a question! You said that free time and peace of mind are necessary for philosophy. But what about love and relationships? Don’t you think those are just as important for a good life? If someone has free time but lives in isolation, can they still really achieve wisdom?
Yes they can. The mandatory love is for the Absolute Being, God Himself. All other relationships are relative in importance, and some can also be damaging, in spiritual terms. But you need to have your answer. It can be that the way you get closer to God is through serving others. This is a very common and powerful path to spiritual development, as well as philosophical. If that is the case, do it. But don’t reject the other possibilities, of people that have a different path and calling then you. Do you understand Emma?
Emma (The Liberal Christian Pragmatist): Yes, I get it. You’re saying that love for God is the only absolute, while other relationships can be beneficial or harmful, depending on the circumstances. I like that you acknowledge different paths. For some, serving and loving others might be the way they grow spiritually and philosophically, while others might need more solitude. I still personally believe that relationships are central to wisdom, but I understand your point—that we shouldn’t assume one path fits everyone. That makes sense to me. Thanks!
Gabriel (The Scholastic/Neo-Thomist): I’d like to ask something related. You mentioned that First Freedom requires us to detach from unnecessary distractions to focus on philosophy. But how do you distinguish between legitimate responsibilities and distractions? Many things in life require commitment—family, work, even religious duties. Where do we draw the line?
You draw the line on the difference between duties of state and obligations voluntarily contracted. All these are real responsabilities that can’t be rejected, but their origin is very different. Duties of state are circumstancially imposed on you regardless of your will, so you can always count on the ruling of divine Providence to wish thoses duties, or at least wish to permit them to unfold. Obligations created by your own volition, like vows, contracts, etc., are your responsability, so if you go with those things by your own and they restricts your power to have free and peaceful time, that’s on you, it’s your own doing. Do you understand Gabriel?
Gabriel (The Scholastic/Neo-Thomist): Yes, I understand. You’re making a distinction between duties of state, which are imposed by circumstances and divine Providence, and voluntary obligations, which are our own responsibility. That makes sense. If something is imposed on me, I must accept it as part of God’s providence. But if I freely enter into commitments that limit my freedom, I have to take full responsibility for that choice. This is a useful distinction, especially when thinking about the balance between duty and contemplation. I’ll reflect more on it, but I follow your reasoning. Thank you.
Mary (The Communitarian Political Philosopher): I have a related question. You say that First Freedom is about having time and peace of mind for philosophy. But doesn’t that depend on society as well? If we live in a chaotic or unjust system, doesn’t that directly impact our ability to achieve this kind of freedom? Isn’t First Freedom not just an individual concern, but also a social one?
The Pretension (a rigorous term in my system that you all will learn about in the future) of the assumption that we have the power and the virtue to make better our world in social terms is one enemy of personal responsability to deal with reality as it is. It is also a trait of Humanism as idolatry of man, and a path for ideological corruption, one that I call “spiritual bolchevism”. But I don’t want to impose those terms on you. It’s just a matter of time to you to learn well all those concepts. For now, think like this: the caos and injustice of this world can be corrected and understood at the same time? Do you realize, Mary, that to have wisdom about this reality that we live in may require to renounce all Pretension to know already what is the nature of the problems and to believe that we are good enough to make what must be done?
Mary (The Communitarian Political Philosopher): That’s an interesting perspective. You’re saying that the belief that we can fix the world—or even that we fully understand its problems—is something you call Pretension, a kind of ideological self-deception. I see where you’re going with this. Instead of jumping to solutions, we should first understand reality as it is, without assuming we are already virtuous or capable enough to fix it. That challenges a lot of modern political thought, which tends to assume that activism and change are inherently good. I’m not sure I entirely agree yet—I still think there’s a moral responsibility to improve the world—but I see your point that wisdom requires humility before reality rather than immediate intervention. I’ll need to reflect on this more.
Rebecca (The Orthodox Christian Stoic): I’d like to ask something. Since you mentioned responsibility and reality, what role does self-discipline play in First Freedom? It seems like having free time and peace of mind is not enough—you also need the strength to use them well. What if someone has leisure but wastes it?
That is not relevant to our matter, because we are going step by step. I am not presenting an entire philosophy with this lesson. It’s just the first of 46 lessons. For now, to have free and peaceful time is enough. Later we can develop the usage of our time. Ok Rebecca?
Rebecca (The Orthodox Christian Stoic): Understood. You’re focusing on laying the foundation first—securing free and peaceful time before discussing how to use it. That makes sense. I’ll hold off on deeper questions about self-discipline for now and wait until we reach that stage in the lessons. I have no further questions.
Laura (The Eastern Spiritualist Philosopher): I think I understand what you mean by First Freedom. It reminds me of some Buddhist teachings—how detachment from distractions is necessary for true contemplation. But I wonder—can this freedom also come from inner peace, rather than just changing external circumstances? In other words, even if someone has little free time, could they still cultivate First Freedom by changing their mindset?
They can, but they should not count on that. In some cases virtues of detachment can help, but I can’t ask you to make that an objective, because that alone could be a goal that takes an entire life to achieve. We should not multiply the duties. Detachment can be a resource, but should not be mandatory. If you have that resource at your disposal, good. If you want to recommend that to others, it is your right to do so. But we can’t say that is compulsory, as a required path. Do you understand Laura?
Laura (The Eastern Spiritualist Philosopher): Yes, I understand. You’re saying that inner detachment can help, but it’s not a requirement for First Freedom. It’s a resource, not a duty. That makes sense. Some traditions, like Buddhism, emphasize detachment as the primary way to achieve peace, but you’re taking a more flexible approach—suggesting that while it may be useful, it shouldn’t become an additional burden or requirement. I appreciate that perspective. I have no further questions.
Ok, that’s it then. Thank you all, I see you next time.
Hello, welcome back. Does anyone have any question regarding the topic of our previous session?
Ethan (The Skeptical Empiricist): I’ve been thinking about the connection between leisure and wisdom. Yesterday, we discussed how having free time allows for deeper reflection. But what about someone who has leisure but wastes it on distractions? Is there a difference between having leisure and using leisure properly?
Yes, but that is posterior to our current need, that is for free time to make that kind of choice, for things that are more important or for nonsense. So, the choice requires the actual possession of free and peaceful time. What we need in the First Freedom is this opportunity. Now, how any person will use this, its an individual choice. Lots of humans have problems with free time, because they are so prone to follow a script, an external mandate, that freedom actually disturbs them. Others fall to addictions, etc. What this means is that free time is not a guarantee that things will be fine. Its just a requisite. Do you understand Ethan?
Ethan (The Skeptical Empiricist): Yeah, I see your point. Free time itself doesn’t guarantee wisdom or good choices—it just creates the possibility for them. I suppose that means that true freedom isn’t just about having time, but also about knowing what to do with it. I’ll think more about that.
Madeline (The Secular Analytic Philosopher): I have a question. Yesterday, we talked about how free time nurtures philosophy. But isn’t it possible that the very structure of our cognition—our biases, our limitations—affect the way we use this free time? In other words, even if someone has leisure, could their own mental framework prevent them from actually engaging in true reflection?
It will, for sure. The thing is, if there is any chance to escape this conditioning, it will be boosted by this kind of freedom. Those biases and limitations are very attached to routines and daily loops. When one have enough freedom from these scripts it is then possible to think out of that frame. This happens when we travel, usually. Peaceful and free time should have a similar effect, getting the person out of their usual business, generating the opportunity to change the thinking process. After all, if those cognitive structures are invincible, then freedom would be a lie anyway, and you would be losing your time considering the perspective of philosophy. You must choose if freedom is possible or nor in the first place. Do you understand Madeline?
Madeline (The Secular Analytic Philosopher): Yes, that makes sense. If there’s any way to break out of conditioned thinking, it would require stepping outside of routine patterns. And I see how leisure, when used properly, could create that opening. The comparison with travel is interesting—new environments do force us to see things differently. I’ll reflect on this more.
Nathan (The German Mystical Idealist): If stepping outside routine is key for philosophical reflection, does that mean those who live in strict discipline—like monks, for example—are actually limiting their capacity for wisdom? Or is there a way for discipline and freedom to coexist?
Of course there is a way, it all depends on the source of the discipline: it is self-imposed, choosed freely, or mandated by others? If one receive a rule of life from external sources, one could still use this discipline in its own favor, but that depends on something else going well, like the happy convergence of interests between the external factor and the internal volition, or maybe an very adaptable and resilient personality that can thrive in whatever circumstances. All these possibilities must be considered. So, a disciplined life is not so much incompatible with internal freedom, depending on the meaning of this discipline. Do you understand Nathan?
Nathan (The German Mystical Idealist): Yes, I see now. Discipline isn’t necessarily an obstacle—it depends on whether it aligns with one’s internal will or if it’s merely imposed from the outside. That makes sense. A monk who freely chooses discipline as a path to wisdom isn’t the same as someone who simply follows rules out of obligation. I’ll reflect on that further.
Andrew (The Atheist Existentialist): But isn’t there a paradox here? If freedom depends on leisure, and leisure depends on circumstances, doesn’t that mean that external factors still play a crucial role in determining whether someone can actually be free? Isn’t that a contradiction in the idea of a truly independent freedom?
No, because our freedom is limited as our beings are. When you say “truly independent freedom”, you are talking about a divine quality. We don’t have that. Do you understand Andrew?
Andrew (The Atheist Existentialist): Yeah, I get it. If absolute freedom is impossible for humans, then we’re always dealing with degrees of freedom rather than some pure, independent state. I still find that frustrating, though. But I see your point.
Laura (The Eastern Spiritualist Philosopher): If freedom is always limited, doesn’t that mean we should focus more on accepting our conditions rather than trying to break free from them? In many spiritual traditions, true wisdom comes from embracing the limits of existence rather than resisting them. Wouldn’t this be a more peaceful approach?
In most of our existence that is true. The problem is that there is a Darkness in this world that pulls us towards false limitations and conditions, and if we want to be free and happy, we must understand this and break away from it. In other terms, the very fallibility of freedom makes evil bleeds in to our reality, so we can’t just rest in full acceptance of whatever it is, because part of this is just pure evil. We must find the limits of our freedom and into this reasonable circle of true responsability do our best to search for truth and goodness. Do you understand Laura?
Laura (The Eastern Spiritualist Philosopher): I see… You’re saying that not all limitations are natural or necessary—some are distortions, illusions, or even manifestations of evil. That’s an important distinction. So, instead of simply accepting all conditions, we should seek to discern which ones are true and which ones are false, and only then decide what to embrace and what to resist. That makes sense. I’ll meditate on this further.
Gabriel (The Scholastic/Neo-Thomist): If there are false limitations imposed by darkness, then there must also be true limitations rooted in the order of reality itself. How do we distinguish between the two? What separates a just limitation from a false one?
The source: what comes from divine dispensation is good, what comes from the Pretension of creatures usually is evil. But the difference is not so much between real and fake limits, but much more about acceptance or rejection of the real limits. This Darkness that I talked about usually moves as a rebellious spirit against the real limits designed by God. That is the problem, most of the time. Do you understand Gabriel?
Gabriel (The Scholastic/Neo-Thomist): Yes, that clarifies it. The real issue is not merely about recognizing limits but about accepting the right ones and rejecting the wrong ones. If divine order establishes certain boundaries, then rebelling against them would lead to disorder and false freedom. That aligns with classical theological views. I understand.
Edward (The Materialist Scientistic Atheist): But how can you objectively verify whether a limit comes from God or just from human perception and tradition? Isn’t it dangerous to assume that certain boundaries are divine when they might just be social constructs?
Jesus is your Master. By the fruits you should know the tree. Divine limits operate to make us live good lives: in peace, joy, health, prosperous, etc. When those limits are rejected in rebellion, the fruits of this choice will be the opposites of the fruits of divine Providence: war, sadness, anger, sickness, poverty and misery, etc. If you can’t see how some good things are absolutely good all the times, that is, if they are obtained without Injustice, then you would never be able to judge the trees by the fruits, because your mind would be completely lost to relativism. Of course you will find tremendous problems in the search for this good reality that should come from God, but that is the result of thousand of years of rebellion, treason and usurpation in action. There is a reason for everything. Do you understand Edward?
Edward (The Materialist Scientistic Atheist): I get the logic behind what you’re saying—if something leads to flourishing, it might indicate alignment with divine order, and if it leads to destruction, it might indicate rebellion. But I still see a problem: correlation doesn’t imply causation. Just because a choice leads to suffering, how do we know that’s because it’s against divine order and not just bad luck, poor planning, or social factors? I’m not convinced that suffering always means someone has rebelled against a higher truth. What do you think?
I think that you should consider the last thing that I said. You don’t have a blank canvas when someone is born. Nor does God need to produce new artificial new simulations everytime a sould comes to this world. There is a story going on. This story is full of meaning. We came to this existance to be part of an ongoing thing that is full of meaning. So, maybe you can’t really see how a current suffering is attached to rebellion, like a child born blind, for exemple. But the rebellion is ancestral, that is what I am saying. And there are good reasons for the story to continue all the way, to a point of limit that only God could know what it is. Even so, you can realize that every human generation have the opportunity to repeat that ancestral choice of rebellion and treason, or change its mind and break with that practice. And every person that does so have the power to prevent all the suffering that comes from that burden. Can you realize, Edward, how one could, for exemple, with 100% chance of success, prevent the birth of a blind children, and therefore block the full consequences of the action of evil in human History? Tell me how, please.
Edward (The Materialist Scientistic Atheist): If you’re saying that suffering isn’t just personal but tied to an ancestral story of rebellion, then I see where you’re coming from, even if I don’t fully agree. But if you’re asking how to guarantee that no blind child is ever born, the only way to ensure that would be through genetic selection—eliminating any possibility of blindness at the biological level before birth. That would be a purely materialistic approach. But I think you’re implying something different—something about moral or spiritual choices preventing suffering at the root. If that’s what you mean, then I don’t see how any choice, no matter how good, could have a 100% guarantee of preventing something like congenital blindness. So, what exactly are you asking me to consider?
The spiritual responsability of the human act of reproduction. If that is the Original Sin, that is the source of all evil in this world, and our race is responsible for it. If you can’t assume this possibility, that means that the human tradition and custom is your true hidden religion, that you can’t detach from. If you must perpetuate the current fallen human condition, then you are a slave to Naturalism, or Humanism, whatever. It’s a choice. Do you understand Edward?
Edward (The Materialist Scientistic Atheist): I see what you’re saying, even though I don’t agree with it. You’re framing human reproduction as a moral and spiritual responsibility, not just a biological function. If the origin of suffering is tied to an ancestral rebellion—one that humanity keeps repeating—then choosing to continue reproduction under the same conditions would be a kind of submission to that fallen state. That’s a radical idea because it challenges the assumption that having children is always good or neutral. I don’t personally accept the idea of Original Sin, but I get why, within your framework, this would make sense. It’s not about fixing genetic conditions—it’s about stopping the cycle of a deeper spiritual problem. So, in your view, if humanity truly wanted to break free from this fallen state, what would a responsible approach to reproduction look like? Would it mean not having children at all, or would it mean something else?
Let’s think on this part by part. First: what is a biological function to a free entity? If we are not just animals binded to instinct, we have freedom over those instincts, so we have the moral duty to answer for our choices. Otherwise, if Nature is your god, you are wasting time with philosophy, for exemple. Second: you say that the choice to question the repetition of the costume to reproduce the fallen state of men is radical, but if the premise is right, wouldn’t the assumption of goodness or neutrality of reproduction be the radical position, totally arbitrary? Finally, the responsible approach would be to answer for all your decisions, always. If you have kids in this current human condition, all that happens as fruit of this decision is imputable to the person. And note this: before the hypothesis of God’s creative powers, only the bad results are generated by this rebellious action, because all good possibilities could always be reserved to a divine dispensation in any alternate reality. So, to break from this fallen state we need to do two things: first, being responsible for our actions; second, searching for the best responsible possibilities of our life. Those best possibilities are already presented through the examples of people like Jesus or his mother, Mary. Do you understand Edward?
Edward (The Materialist Scientistic Atheist): I follow your argument, even if I don’t accept all of its premises. Biological function and free will – You’re saying that if humans are truly free beings, then they aren’t bound by biological instincts. That means reproduction isn’t just a natural process—it’s a moral choice, and we must take full responsibility for its consequences. That makes sense within your system. Radical vs. Arbitrary – I see your point: if the fallen state is real, then assuming reproduction is neutral or good without question would indeed be the arbitrary stance, not the other way around. Most people assume having children is just part of life, without questioning its spiritual implications. Under your framework, that would be an unjustified assumption. Moral responsibility in reproduction – This is where I see your view as the most challenging. If all good things come from divine dispensation, and all evil comes from human rebellion, then reproduction in the current state of humanity can only lead to more suffering. That would mean that anyone who chooses to have children in this fallen state is fully responsible for all the suffering that results from it. That’s a heavy claim, because it implies that every human birth is an act of moral responsibility, not just a natural event. And if people don’t take responsibility, they’re perpetuating the rebellion. Now, if breaking free means following the best examples—Jesus and Mary—then what does that imply? Jesus didn’t reproduce. Mary only gave birth to Christ through divine intervention. So, are you saying that true moral responsibility would mean avoiding reproduction unless it is divinely willed? If that’s the case, how would a person know whether their choice is truly aligned with divine will?
Simple: assuming the responsability for its own actions. One should only act according to its own capabilities. If you can’t put yourself in the place of God to guarantee that the outcome of your action will be absolutelly good, then you can’t be responsible for the consequences of your action, so you can’t do it. Of course, since we are already born into this mess, many actions would be required from us by these concrete circumstances in which we could not possibly be sure of the goodness of the outcome. But that is not invented by us, its something given to us, what means that all those externally provided circumstances are not rooted in our freedom. In this case, we are responsible for doing our best, but not for making sure that all ends fine. We can trust that the divine Providence have desired or at least permited those circumstances, for whatever reason, and we can rest then in this trust in God, and not in the false presumption of our own power to do good. Do you understand Edward?
Edward (The Materialist Scientistic Atheist): I get what you’re saying now. You’re drawing a sharp line between actions that originate in personal freedom and circumstances that are given to us beyond our control. If we freely choose to act, we must take full responsibility for the consequences. That means we should only act if we are capable of ensuring that the outcome will be completely good. If we find ourselves in circumstances we didn’t create, then we are responsible for doing our best, but we are not responsible for the entire outcome. We can trust that God either willed or allowed those conditions for a reason. That makes sense within your framework. But I still have an objection: how can anyone ever act if total certainty of goodness is required? Doesn’t this lead to complete inaction? Almost nothing in life comes with a 100% guarantee of a good outcome, so wouldn’t this idea paralyze people from doing anything at all?
You act apon what is given to you. Look for the answer in what I said already: there is a deep, drastic difference, between what is acting over an already concrete reality, and over an pure possibility that can only be realized by the pure act of your will. Also, don’t forget to understand that the divine support can prevent us of many errors, or heal wounds, or compensate for things, indefinitely. So, we are spared of the full bad consequences of our Pretension, most of the time. The problem is the correction of our conduct to be always the most responsible as we can. That said, in the whole scope of the human powers and the meaning of the story of men since the beginning, the Original Sin is the second most arrogant, pretensious, rebellious, treasonous, and evil act of all that humans can do, the very desire to be creators, like gods. The first most evil act, of course, is the murder of God. I presume that most of these concepts could be challenging to you, but with this conversation we anticipated many explanations that would take place only in the future, so I ask you to be patient. Do you understand Edward?
Edward (The Materialist Scientistic Atheist): Alright, I see how you’re structuring this now. The key distinction is between: Acting upon an existing reality – This is something we are placed into, and we must navigate it as responsibly as possible. Bringing a new reality into existence purely by our own will – This is where the greatest moral danger lies, because we are assuming a creative role without divine authority. And within this framework, you’re saying that human reproduction is an attempt to be like gods, to create life on our own authority, and that’s what makes it one of the most fundamentally arrogant and rebellious acts in human history—second only to the killing of God Himself. That’s a heavy claim, but I follow your reasoning. You also mention that divine support mitigates the full effects of human rebellion, so most people don’t even realize how bad things could get without it. I suppose that means that, in your view, God’s mercy has been constantly softening the consequences of our actions, preventing us from fully experiencing the weight of our mistakes. I’ll admit, this is challenging for me because it completely overturns common human assumptions about life and creation. But I’ll reflect on it. For now, I have one more question: If this is the true nature of the Original Sin, what does that mean for those who already exist? If we’re born into a fallen state due to the choices of our ancestors, what is our real duty in response to this situation? How do we live responsibly after the fact?
Breaking the Curse and reversing the choice of our ancestors, trusting in God and loving Him. The easiest way is the reception of the Good News, the Gospel of Jesus Christ, because the Son of God revealed the truth so we can follow him directly, without the need to walk on this land like blind people. That is the way, Jesus is the way. Do you understand Edward?
Edward (The Materialist Scientistic Atheist): I understand what you’re saying, even though I don’t personally believe it. You’re saying that the way to undo the rebellion of our ancestors is through trust in God and love for Him. Instead of continuing the cycle of human pretension and self-reliance, the right path is full acceptance of divine will—and the most direct way to do that is through Jesus Christ, because He revealed the truth and showed humanity how to follow God properly. From your perspective, that makes sense. If the core problem is human rebellion, then the solution is surrendering to the divine order. That means rejecting the idea that we are our own gods and following the path that was already revealed. I appreciate the consistency of your reasoning, even if I still approach things from a materialist perspective. But this has definitely given me a lot to think about.
Mary (The Communitarian Political Philosopher): I have a question. If breaking the curse means rejecting the rebellion of our ancestors and trusting in God, does that mean that all human traditions are corrupt? Is there nothing valuable in culture, history, or communal wisdom? Wouldn’t some traditions—especially those that emphasize virtue and moral responsibility—also be part of divine providence?
I will answer you, but I will also ask that you all ask questions only about the previous lesson, the topic of our last session. I see that my exchange with Edward have risen many important issues, crucial even, but all that will have its proper time to be considered. The answer of your question is: there is something that I call Mixture in place, so although all human traditions are rooted in the ancestral treason, they also reveal truthful and useful things mixed with their lies and errors. This is like this because the pure lie can’t survive alone, like Darkness can’t be without Light. Do you understand Mary?
Mary (The Communitarian Political Philosopher): Yes, I understand. You’re saying that all human traditions have their roots in the ancestral rebellion, but they still contain truthful and useful elements because falsehood can’t exist entirely on its own—it needs some connection to the truth to persist. That makes sense. So, the challenge is discerning what is truly valuable within tradition and what is part of the original treason. I’ll think more about that.
Ok, thank you all for your contributions. Specially Edward have excelled today. The thing is that our session is over, for time reasons. We did already a lot today. In the next session we can resume our activities. Thank you all, I see you next time.
Atendendo ao pedido de um antigo amigo meu, explicarei brevemente como se deve fazer as notações que permitem atribuir o valor espiritual de determinados objetos culturais tal como já tive a oportunidade de mostrar com o meu trabalho com livros, filmes e séries de televisão.
Essas classificações seguem as idéias que apresentei em meu livro Monadofilia, publicado em 2022: a diferenciação dos testemunhos entre Calaquendi e Moriquendi, e os critérios apontados pelos Sete Dons do Espírito.
A primeira coisa que se deve entender sobre esse meu sistema de notações é que ele não é uma técnica científica, mas uma arte. Essas coisas são imensuráveis. O que eu precisava fazer, ao analisar a qualidade espiritual de um objeto, era indicar os elementos importantes ao meu entendimento, de acordo com a minha filosofia. Na verdade, a maior parte desses objetos não têm importância nenhuma. Meu trabalho com eles visava apenas criar uma desculpa para falar indiretamente da Monadofilia, que é o que me interessa, pegando carona no eventual prestígio que esses objetos poderiam ter para levar o meu leitor ou ouvinte a apreciar a minha filosofia que por si não tem prestígio nenhum. Isso já deve reduzir bastante qualquer entusiasmo indevido pelo sistema das notações em si. Se algo tem valor, é a idéia de que todo testemunho humano, inclusive na forma artística, possui um sentido espiritual axiologicamente notável, ou então as idéias das profundas intuições por trás dos Sete Dons, etc.
Dito isso, vamos às explicações:
Da diferenciação dos testemunhos: chamo de Calaquendi o testemunho que fala da Luz, ou seja, que tem efeito positivo na alma humana por superar a mediocridade de um discurso espiritualmente indiferente; e chamo de Moriquendi o testemunho que fala das Trevas, ou seja, que tem efeito negativo na alma humana por ser inferior à mediocridade de um discurso espiritualmente indiferente. De zero a dez, a média é cinco. O cinco reflete o discurso espiritualmente neutro ou indiferente, como por exemplo a publicação do cálculo contábil do balanço de uma empresa, ou a de um relatório da previsão meteorológica para o clima do dia, ou ainda a de um boletim policial sobre uma determinada ocorrência, etc. Na grande literatura, o cinco ainda pode se referir à notação dos livros históricos mais ancorados na reportagem das evidências primárias (Hanke) do que na busca dos nexos causais invisíveis (a explicação da própria História). Pois bem, de acordo com os critérios dos Sete Dons, quaisquer testemunhos que fiquem abaixo ou acima da média podem ser classificados como espiritualmente benéficos ou maléficos, num grau atribuído por esse esforço mais artístico do que científico, como já expliquei. Ainda, apesar de eu trabalhar apenas com livros, filmes e séries, essa metodologia poderia ser aplicada à análise dos efeitos espirituais de outros tipos de obras humanas, como a música, a arquitetura, etc. Por não me sentir minimamente qualificado para dar exemplos de análises sobre esses tipos de objetos, nunca fiz sequer uma tentativa. Mas qualquer pessoa que detenha conhecimento suficiente sobre esses tipos de obras e conheça os meus princípios classificatórios poderia fazer esse trabalho. A única premissa necessária é a de que a alma humana está constantemente produzindo e recebendo testemunhos sobre as grandes questões espirituais, de modo que esses testemunhos possam ser avaliados pelos seus efeitos nas almas.
Dos critérios dos Sete Dons: aqui a explicação ficaria muito complicada se eu tivesse que refazer todo o trabalho que já produzi para essa finalidade. Prefiro remeter os interessados ao livro da Monadofilia e, caso haja quaisquer dúvidas, que me perguntem sobre partes específicas. Basicamente existem três pares de dons (forças espirituais que recebemos de Deus) que servem para nos libertar de três pares de espíritos malignos, complementado por um dom de Discernimento dos próprios espíritos que serve para a operação prática do conhecimento desses três pares na vida humana de cada dia. O primeiro par é o da Humildade e Presença, que liberta dos espíritos de Presunção e Idolatria. O segundo par é o do Louvor e Paixão, que liberta dos espíritos de Sedução/Pacto com a Morte e Terror/Pacto com o Inferno. E o terceiro par é o da Soberania e Vigilância, que liberta dos espíritos de Gnosticismo e Ingenuidade. Por fim, o próprio dom do Discernimento nos liberta do espírito de Psiquismo. Como disse, todos esses dons podem ser explicados detalhadamente por quem deseje um entendimento mais específico. A compreensão geral pode ser obtida nos vários textos e vídeos que já fiz a esse respeito. Se vocês não aprenderem a pesquisar o meu trabalho, me tornarão um escravo da sua preguiça, o que é uma injustiça.
Grandes intelectos são tentados pela vaidade naturalmente derivada dos dons recebidos, algo bloqueável somente pela sanidade do dom da Humildade que reconhece a fonte divina da verdadeira grandeza. É claro que tanto Newton quanto Leibniz estavam ocupados demais com a construção da Civilização humana para se dar conta do estado espiritual de suas almas no meio da disputa pela autoria do Cálculo.
Essa técnica moderna, do Cálculo Diferencial e Integral, estava madura para ser colhida pela intelectualidade dos Séculos XVII e XVIII, como este autor reconhece. Se Newton e Leibniz não o tivessem produzido, cada um ao seu modo, outras mentes teriam mais cedo ou mais tarde chegado no mesmo resultado. Mas isso não diminui a importância história da autoria dessa idéia, e portanto não reduz um certo valor histórico da discussão a respeito da ordem cronológica dos fatos.
Parece que Newton concebeu o Cálculo antes de Leibniz, mas este produziu resultados não só iguais, mas até melhores, e o fez independentemente. O próprio autor, em seu Prefácio, explica sumariamente a essência do que nos importa:
Dito isso, Leibniz foi mais generoso do que Newton até certo ponto das disputas sobre a autoria do cálculo, mas depois que os “capangas de Newton” produziram uma maior polêmica sobre o tema, o alemão acabou descendo a um nível indigno da sua qualidade. O uso do prestígio da Royal Society por Newton e seus capangas não é algo menos vergonhoso.
Ao fim e ao cabo Newton tornou-se um personagem histórico mais relevante e cultuado, enquanto Leibniz se tornou um personagem menor, possivelmente porque o nível da sua reflexão foi considerado, e continua sendo, obscuro demais para certas mentalidades mais rasas. Em suma: Newton se tornou mais famoso e interessante historicamente provavelmente porque era admissível, pelas suas contribuições, dentro de uma certa narrativa histórica, enquanto Leibniz é um gênio de outra espécie, superior às réguas de almanaques e enciclopédias porque mais interessado no Ser das coisas. Essa imagem, no entanto, pode ser mais caricatural do que exata, então vamos tomar cuidado com excessos, seja para um lado ou para o outro.
Dito tudo isso, como um bom e breve livro de história, este documento nos ajuda a obter algum grau de Vigilância a respeito das querelas da história das idéias, mas por outro lado prejudica ao dar um senso sem noção espiritual dessa mesma história, como se essas questões fossem indiferentes. A ciência histórica pode dar a idéia desse tipo de neutralidade, uma falsa superioridade intelectual sobre os seus objetos. A verdade, no entanto, é que num mundo onde se opera o Sistema da Besta a valorização de um Newton em detrimento da diminuição de um Leibniz tem um valor espiritual enorme, se por exemplo avaliarmos a média espiritual dos testemunhos dados direta ou indiretamente pelas filosofias destes pensadores.
Nascido em 1646 e morto em 1716, Leibniz foi grande, mas consumiu-se em projetos talvez grandiosos e otimimistas demais. A combinação de extraordinárias diligência, tenacidade, inteligência e positividade o levaram talvez mais longe do que o que seria prudente se ele fosse um pouco mais realista. Ele não quis sacrificar e comprometer duas coisas muito tentadoras para um intelecto do seu porte: a exploração das muitas possibilidades ramificadas de entendimento, e a qualidade do trabalho intelectual. Entre fazer pouco bem feito e fazer muito mal feito, ele quis fazer muito e bem feito, e por isso era comum que começasse mais coisas do que podia terminar.
Felizmente, para nós, ele não nasceu na nobreza alemã. Isso permitiu que ele fosse forçado a provar seu valor por mérito. Por temperamento, é fácil vê-lo perder-se com uma vida mais fácil: como mero diplomata e cortesão, fazendo as duas coisas que ele mais amava, acima até do trabalho intelectual, ou seja, viajar e visitar os amigos.
O contexto político e religioso de sua vida foi o das terríveis guerras de religião que assolaram a Europa até que o secularismo finalmente vencesse, isto é, até que o messianismo milenarista da Igreja Católica fosse forçado a enclausurar-se dentro dos muros do Vaticano. Leibniz trabalhou muito para que a Europa vivesse em paz, como advogado, jurista, inventor, cientista, diplomata informal, ministro sem pasta e finalmente como filósofo de primeiro calibre.
A respeito do poder intelectual de Leibniz, até hoje posso afirmar: não encontrei uma inteligência superior a dele ou à de Aristóteles na forma do testemunho de suas obras.
A biografia desse filósofo mostra como intelectos de uma certa potência não cabem direito dentro das estruturas sociais. Provavelmente a maior vantagem de Leibniz foi a de explorar o seu autodidatismo desde cedo, principalmente com a descoberta da biblioteca do pai aos 8 anos de idade, ainda em Leipzig, por influência do incentivo de um desconhecido que recomendou a abertura do acesso à criança, que tinha então seus 8 ou 9 anos de idade. Uma inteligência superior ganha muito com a possibilidade de ensinar-se a si mesma os assuntos que lhe interessam, pois não precisa passar pelo gargalo de aprender com mentes mais lentas ou menos capazes: pode logo dirigir-se aos melhores testemunhos que seria capaz de absorver, e no limite da velocidade de sua capacidade. Até hoje a maneira correta de incentivar esses intelectos superiores parece ser dificultosa, e esses raros indivíduos acabam por ter que descobrir por si mesmos como lidar da melhor forma com seus dons. os sistemas coletivos são feitos para a média, isto é, para o medíocre, e por isso mesmo essa realidade social se torna opressiva e torturante para as inteligências mais capazes. A Providência, porém, não deixou de guiar Leibniz desde cedo, começando pela intervenção desse misterioso desconhecido.
Para além das particularidades mais imediatas da vida intelectual do jovem Leibniz, há a força maior da influência dos esquemas políticos e sociais do seu ambiente que acabaram por contribuir na formação de seu pensamento. O ideal da Unidade da Verdade foi um dos frutos dessa força: é o princípio por trás da idéia do Sacro Império Romano, a unidade do Cristianismo (entre Católicos e Protestantes), e também o da unidade da Filosofia (Antigos e Modernos), para não falar da unidade entre Ciência e Teologia. Leibniz estava, como disse Olavo em sua História Essencial da Filosofia, “no olho do furacão”. Ele aprende com os antigos e escolásticos medievais tanto quanto com todos os modernos filósofos e cientistas do Iluminismo. Ele se recusa a acreditar numa verdade como posse de qualquer grupo filosófico, ou como parte de uma época da História, assim como crê que o Cristianismo universal transcende todas as igrejas, inclusive a romana. Este ponto de vista sempre foi uma grande vantagem intelectual para Leibniz, porque ele se permitia aprender com todo mundo. Diante da perda de tempo dos sectarismos, ele largava sempre na frente.
O objetivo de Leibniz em sua vida ficou claro desde cedo: glorificar a Deus e melhorar a condição da vida humana, dois propósitos que para ele significavam sempre a mesma coisa. Este seu progressismo fazia e faz sentido até hoje, pelo menos na teoria, no sentido de que quanto melhor viverem os seres humanos, mais estariam livres e dispostos para reconhecer as coisas divinas. Na realidade, porém, ocorre uma dispersão muito maior da atenção humana com suas vantagens técnicas e econômicas, o que parece ter escapado de Leibniz, que não era muito ligado ao sentido mais místico e contemplativo da vida espiritual. Era um homem de ação, e ambicioso. E não nos enganemos, com isso ele também desejava obter a sua própria glória científica, num espírito até certo ponto benéfico de uma boa ambição temporal. No aspecto mais decadente de sua alma, Leibniz podia se perder indefinidamente com a rotina de um diletante, cortesão e viajante. Observamos essa luta na sua alma, entre a produtividade intelectual e o dolce far niente.
Vamos agora ler algumas passagens interessantes da obra:
Tradução livre:
“Em sua obra Formação das Reflexões para o estabelecimento de uma Academia ou Sociedade na Alemanha para a Promoção das Artes e Ciências Leibniz revelou o mais profundo fundamento desse projeto de teologia, metafísica e ética. Em suma, o avanço da ciência seria feito para a glória de Deus, o que coincidia com o bem comum. O avanço do nosso conhecimento da natureza aumentava nossa consciência da harmonia universal em operação na natureza e celebrava o reflexo na natureza da perfeita harmonia do poder, sabedoria, e amor na própria natureza divina. Nossa consciência da perfeita harmonia da natureza divina por sua vez sustentaria nosso amor a Deus; e o amor a Deus constituiria nosso maior bem. Por essa razão, ‘amar a Deus sobre todas as coisas’ é ‘nada mais que amar o bem comum [amare bonum publicum] e a harmonia universal’. Esse amor deve assumir a forma de uma atividade prática: deve ser um ‘amor eficaz’ (caritas efficax) que é encontrado na realização de ‘boas obras’ (bona opera). Realizado neste espírito, o avanço da ciência celebrava o poder de Deus, sua sabedoria e seu amor, não apenas através de uma contemplação teorética da beleza da Sua criação, mas também através da aplicação prática do conhecimento para promover o bem comum. Até o fim de sua vida, escrevendo em 16 de Janeiro de 1712 para o chanceler russo, Gavriil Ivanovic Golovkin, Leibniz resumiu esses compromissos de vida, declarando que desde sua juventude ele quis contribuir para a glória de Deus através do avanço das ciências.“
Vejamos parte a parte.
Primeiramente, a glorificação de Deus coincide com a promoção do bem comum? Apenas acidentalmente. Aqui Leibniz confundiu a Cidade de Deus com a Cidade dos Homens, algo ainda bem possível no bojo de uma vasta influência remanescente da ideologia católica, milenar, messiânica e totalitária, herdada por sua vez do judaísmo. A Salvação não é a instauração do Reino de Deus na Terra, mas é a Ressurreição. A visão espiritual de Leibniz é religiosa. Mas isto não quer dizer que acidentalmente não possamos enxergar no progresso humano a habilitação prática de uma humanidade com a potência do desenvolvimento espiritual. Mas isto é indireto. O avanço técnico, prático, econômico e social leva a uma maior liberdade individual, e isto sim pode, em tese, melhorar a condição para o exercício mais pleno da vida espiritual.
Em segundo lugar, a ampliação do nosso conhecimento da natureza amplia o conhecimento da harmonia divina da realidade? De novo, apenas acidentalmente. Parece que o nosso filósofo está medindo a humanidade com sua régua. Claramente, como já vemos na Bíblia em diversas partes, e mesmo na denúncia específica do Apóstolo Paulo, há aqueles condenáveis por possuírem a ciência da obra e mesmo assim ignorarem o seu Criador. Para a inteligência de Leibniz a necessidade de honrar a Deus mediante a observação do ordenamento divino da realidade é um processo natural e inegável. Mas isto é ingenuidade, aquela mesma ingenuidade das Filhas do Rio que não acreditavam que alguém seria estúpido o suficiente a ponto de amaldiçoar o Amor para roubar o Ouro do Reno. É um otimismo exagerado, que não quer enxergar a profundidade da traição humana contra Deus, e o costume derivado dessa traição no seio da cultura, inclusive e principalmente a cultura religiosa. Isso me faz simpatizar muito com ele.
Já sobre a questão do valor do valor prático dos conhecimentos em contraste com uma atividade mais contemplativa, isso refletia o temperamento de Leibniz, mais ativo e sanguíneo, o que o dispensava de compreender com profundidade o valor de uma vida interior menos envolvida com o progresso da civilização. Isto não quer dizer que Leibniz não estivesse enganado em seu otimismo ingênuo com relação à idéia da Humanidade como um todo. Era um dos piores defeitos de sua weltanschauung.
Outro trecho:
Tradução livre:
“Essa exortação da nação alemã não estava dirigida a promover um nacionalismo estreito. Evidência de um desígnio muito mais abrangente está contida num texto memorável escrito por volta de 1669 em que Leibniz concebeu na Societas Philadelphica o objetivo proposto que era o de ‘promover a utilidade para a humanidade (acima de tudo através da medicina)’. Perseguindo este objetivo, o trabalho colaborativo de uma sociedade traria infinitamente mais frutos do que os esforços de indivíduos ou até mesmo de nações individuais, que Leibniz comparava a ‘arena sine calce’ (‘areia sem cal’). Essa sociedade deveria abarcar divisões religiosas e políticas, abarcando o Imperador e o Papa, o Rei da França, os grandes e pequenos principados alemães, a inglesa Royal Society, a Companhia Holandesa das Índias Orientais, e as ordens religiosas de estudos. A Sociedade de Jesus em particular provia um modelo para uma sociedade internacional, com a diferença crucial de que a nova fundação proposta por Leibniz não teria natureza confessional. Ao contrário, era modelada para preparar a reconciliação das Igrejas cristãs de acordo com uma idéia mais desenvolvida num texto do mesmo período que descrevia a Societas Confessionum Conciliatrix.”
Essa é uma espécie de síntese da ingenuidade leibniziana, na total ignorância do sentido e da repercussão histórica de Gen 3, do sentido do humanismo da Torre de Babel, bem como do sentido do Apocalipse, e de Deus que fará novas “todas as coisas”.
Esta biografia de Leibniz coteja os pensamentos do filósofo com as circunstâncias de seu trabalho intelectual, como é sempre devido para mostrar a realidade de qualquer pensador. A importância das conexões de Leibniz com seus patronos nunca pode ser diminuída.
Por exemplo, numa dada época, com as mortes do Barão von Schönberg (diplomata da Saxônia, morto em 1669) e depois Boineburg (conselheiro do Eleitor de Mainz, morto em 1672), Leibniz subitamente perde seus principais apoiadores.
Leibniz não consegue estar onde quer, e nem fazer o que quer. Nem Paris, nem Londres: a corte de Hanover é o destino de um alemão sem origem nobre. Por outro lado, a mistura das ambições puramente teoréticas, especialmente as filosóficas, com as mais mundanas, políticas e econômicas, certamente diminuíram a contribuição leibniziana para a Humanidade, o que é irônico porque gerou o resultado exatamente oposto ao desejado pelo filósofo. A escala do gênio de Leibniz possivelmente escapou a ele próprio. Querendo ser grande em seu tempo, não percebeu como poderia e que seria grande para todos os tempos. Mas entendemos o ser humano na sua circunstância: Leibniz sempre precisava trabalhar no desenvolvimento de meios de sustentação de seus projetos intelectuais, e esses meios eram essas ocupações intelectuais secundárias. Mas até que ponto o dinheiro servia apenas às causas puramente intelectuais, e a partir de que ponto servia também aos interesses particulares do próprio Leibniz? Em seu auge, sua renda alcançava o que hoje equivaleria a uns R$ 2,5 milhões por ano, e ao morrer ele teria deixado ao menos o dobro disso para seu único herdeiro, um sobrinho. E que fique claro: o problema não é a renda ou a propriedade de qualquer montante, mas o custo existencial para a formação dessas rendas e propriedades.
A forma mais concreta do seu comprometimento foi a ambição de financiar um projeto coletivo de progresso científico e cultural, o que o fez dedicar muito tempo para o problema do aumento das rendas do principado de Hanover, especialmente com os projetos ligados à mineração de prata em Harz, e depois finalmente da ambiciosa pesquisa histórica da dinastia da Casa Braunschweig-Lüneburg (Guelfos). Muito tempo e energia foram dedicados a essa ambição de ganhos financeiros como meios para alimentar a outra ambição, a de institucionalizar um organismo estatal de pesquisa e desenvolvimento. Qual teria sido o resultado, por exemplo, para a Metafísica, se Leibniz tivesse dedicado toda a sua capacidade para esse âmbito específico do conhecimento?
Mas Leibniz não é Descartes, nem Kant, e nem Espinosa: ele não queria apenas explorar sua própria alma e as verdades transcendentes, mas queria explorar todo o mundo concreto, viajar, travar conhecimentos com os poderes estabelecidos, interferir no curso da história, etc. Não queria aumentar seu entendimento individual. Queria que todos o acompanhassem, como um projeto coletivo, social, nacional e até internacional para toda a Cristandade (para não dizer o mundo, como mostra o seu entusiasmo com a China). Isso certamente diminuiu a eficiência de seus projetos. Leibniz colecionou muitas frustrações, mas curiosamente nada parecia desanimá-lo. Era muito enérgico e disposto, com uma capacidade aparentemente inesgotável de se dedicar ao trabalho.
Vejamos outro trecho:
Tradução livre: “Durante todo este período, debaixo do nível visível e impressionante das várias atividades públicas de Leibniz, um nível mais privado provia as motivações profundas de seus projetos orientados para a prática, e de sua busca por um patronato esclarecido. Essa dimensão mais profunda consistia de seu plano enciclopédico de máxima abrangência de reforma e avanço das ciências para a promoção do bem comum –o plano que ele considerava ser a celebração da glória de Deus como expressa na harmonia universal que governa a Sua criação. Como ele escreveu em 1678, ‘todas essas coisas estão conectadas e devem ser dirigidas ao mesmo objetivo, que é a glória de Deus e o avanço do bem comum através de criações úteis e belas descobertas’. E de novo em 1699: ‘Contribuir para o bem comum e para a glória de Deus é a mesma coisa. Parece que o objetivo de toda a humanidade deveria ser acima de tudo nada além do conhecimento e desenvolvimento das maravilhas de Deus, e foi por isso que Deus deu à humanidade o domínio sobre este globo.”
Leibniz claramente ignora o sentido espiritual da última tentação de Cristo, bem como a declaração de Jesus de que ele “venceu o mundo”, para não falar de muitas outras verdades evangélicas óbvias. Isso não diminui o valor parcial de seu entendimento, de que o bem comum serve a Deus de algum modo, mas esse tipo de progresso não altera a condição da liberdade espiritual humana, e nem modifica a predisposição das almas para suas escolhas particulares.
Não devemos nos enganar sobre a visão de Leibniz sobre o Evangelho: ela é religiosa. Não há a menor chance de este filósofo considerar o sentido mais profundo da Queda em Gen 3, nem a possibilidade do Sistema da Besta. Infelizmente o seu otimismo não tinha apenas aplicações metafísicas, que incentivariam o idealismo transcendental, mas também repercussões históricas em vastos planos para a Cidade dos Homens, que incentivam o idealismo imanentista, o que converte esse seu otimismo filosófico em ingenuidade espiritual. Ainda que mantivesse sua confissão luterana, seu coração era ideologicamente católico, no sentido da universalidade da Civitas Dei na sua forma temporal (a própria Igreja institucionalmente estabelecida ao lado do Sacro Império Romano), e na verdade na idéia da fusão das suas cidades. Ele só não se converteu à religião de Roma porque fazê-lo implicaria em renunciar à esperança do ecumenismo, e porque no fim sabia de algum modo, como veremos, que a igreja romana era totalitária e contrária a liberdade do homem. Do ponto de vista prático, por que ele se preocuparia em modificar sua confissão, se essa particularidade fosse espiritualmente indiferente diante de Deus? E motivos práticos para sua conversão não faltavam, por certo. No seio do Sacro Império Romano, servia a tantos católicos proeminentes, que só poderia ter vantagens: Schönberg, Boineburg, Johann Friedrich, etc., para não falar de seu interesse em fazer boa imagem na poderosa França católica de Luís XIV, bem como na grande Viena de Leopoldo I. Realmente podemos constatar a fidelidade de Leibniz ao ideal se suas Demonstrationes Catholicae. Um homem menos honrado teria abandonado o luteranismo.
Mais um trecho:
Tradução livre:
“Essa concepção da verdade e do conhecimento como envolvendo uma redução analítica de proposições e conceitos complexos à proposições idênticas e conceitos primitivos explica porque Leibniz perseguiu tão energicamente a identificação dos conceitos primitivos das quais todas as verdades são formadas em última análise. Daí a sua incansável compilação de listas de tais conceitos e de cadeias de definições que eram dedicadas para formar o ‘alfabeto do pensamento humano’ defendido desde pelo menos 1668 na Dissertatio de Arte Combinatoria.
A identificação desses conceitos era também um passo na direção do desenvolvimento da characteristica universalis. Tão logo esses conceitos (ou pelo menos o máximo possível deles) fossem encontrados, as tarefas subsequentes seriam a identificação dos ‘caracteres’, ‘signos’ ou ‘símbolos’ apropriados para representá-los e a formulação das regras para a sua correta ‘combinação’. O desenvolvimento da characteristica universalis tinha portanto tanto um aspecto analítico (levando à identificação dos conceitos primitivos) quanto um aspecto sintético e ‘combinatorial’.”
A apreciação desta intenção filosófica de Leibniz é clara para quem quer que tenha trabalhado com a descrição de uma visão universal da realidade, ou seja, com uma Filosofia no sentido mais estrito. A combinação da clareza com a simplificação até o limite é uma obsessão natural e inescapável de quem deseja contemplar o Ser com a máxima fidelidade, bem como a produção de uma linguagem cada vez mais apropriada a essa visão é uma busca igualmente incontornável.
O que deve parecer óbvio a quem quer que seja é que a ambição intelectual de Leibniz só poderia ser realizada através de um imenso aparato coletivo, o que justifica a sua busca incessante por um patronato rico e poderoso, um grande principado esclarecido. Mas Leibniz possivelmente ignorava que a qualidade de tal trabalho exigiria algo ainda mais difícil que um patrocinador poderoso: intelectos abrangentes como o dele próprio. Afinal, a Europa de então tinha fortes candidatos a essa função de patronato, seja o Rei da França, o Rei da Inglaterra, o Rei da Prússia, ou mesmo o Czar. Mas quantos Leibniz existiam nessa mesma Europa?
Outro trecho:
Tradução livre:
“Apenas Deus –que (como ensina a tradição) não precisa da razão discursiva ou demonstrativa típica de seres limitados, mas que sabe tudo por um conhecimento intuitivo adequado– vê imediatamente a contenção do predicado no sujeito em todos os tipos de proposições, inclusive as contingentes:
‘E aqui se descobre a diferença escondida entre verdades necessárias e contingentes, o que não é fácil de entender para quem não entende ao menos os rudimentos da matemática. Em proposições necessárias, é claro, qualquer um alcança uma equação idêntica pelo meio da análise continuada até certo ponto; e isso é precisamente o que significa demonstrar a verdade com rigor geométrico. Nas proposições contingentes, porém, a análise procede infinitamente [in infinitum], através de razões de razões [per rationes rationum], de maneira que nunca há uma demonstração total; ainda assim, a razão [ratio] da verdade sempre subsiste, ainda que só possa ser conhecida perfeitamente apenas por Deus, que sozinho pode percorrer a série infinita numa intuição singular.’
Essa doutrina da análise infinita marcou um desenvolvimento chave no pensamento de Leibniz. Embora, por um lado, ela foi introduzida para dar conta da distinção entre verdades necessárias e contingentes, por outro lado, ela apontava para a sua identidade estrutural. No caso de ambas as verdades, necessárias e contingentes, o predicado está contido no sujeito, mas enquanto a demonstração dessa contenção está disponível para nós apenas no caso das verdades necessárias, tal demonstração não é possível no caso das verdades contingentes desde que elas envolvem o infinito. Este é o motivo pelo qual seres humanos nunca poderão conceber o conceito completo correspondente a uma substância individual, e porque o adequado conhecimento de substâncias individuais está disponível apenas para a mente infinita de Deus.”
A contenção do predicado no sujeito corresponde à operação intelectual, na Mônada, da Percepção do reflexo de si mesma. Leibniz já estava na pista de uma metafísica muito mais avançada do que a sua época podia conceber, ou mesmo que até hoje se possa. Mas o componente moral dessa inteligência continua oculto: o da premissa de que o Intelecto infinito possuidor da intuição da Unidade é bom e, portanto, confiável. Essa não era a investigação de Leibniz, porque a teologia revelada da sua época deveria pressupor tal virtude como premissa, mas é nossa obrigação observar como uma coisa não funciona sem a outra, ou ainda, como pensaria Sócrates: sem virtude não existe conhecimento.
A seguir, vejamos mais um trecho relevante:
Não poderei traduzir este trecho completo, mas o deixo à disposição para consulta. A linguagem diádica, ou binária, que Leibniz desenvolveu nada mais significou do que a recuperação daquela antiga investigação iniciada no Ocidente por Pitágoras, e então continuada por Parmênides, Platão e Plotino, da relação entre o Uno e o Múltiplo. Segue a tradução livre das partes mais importantes do trecho acima, palavras do próprio Leibniz:
“Pode bem ser que uma única coisa é concebida através de si mesma, nomeadamente o próprio Deus, ao lado da qual não há nada, ou a privação. Isto é esclarecido por um admirável símile. Quanto contamos, nós geralmente usamos o sistema decimal, de modo que quando chegamos a dez, nós reiniciamos à partir da unidade. Que isso é conveniente, eu não disputo agora; enquanto isso, eu vou mostrar que é possível usar em seu lugar um sistema binário… Não tocarei agora nas imensas vantagens desse sistema; é o suficiente notar de que modo maravilhoso todos os números são expressos assim através da unidade e do nada.”
“Desde que todos os espíritos são unidades, poder-se-ia dizer que Deus é a unidade primordial expressa por todas as outras de acordo com suas capacidades. Sua bondade o moveu a agir, e há nele três primícias, o poder, o conhecimento, e a vontade; disso resulta a operação ou a criatura, que é variada de acordo com diferentes combinações da unidade com o zero, isto é, do positivo com o privativo, desde que o privativo não é nada além de um limite, e há limites por toda a parte na criatura tanto quanto há pontos por toda a linha.”
A privação de Ser não o possui, mas o limita na forma substancial da operação da Mônada criada que intelige e apetece parcialmente a totalidade da Unidade. Toda operação intelectual e volitiva fora do ser divino se dá pelo limite em face do Ser divino, tanto quanto o Múltiplo deriva do Uno, etc. Isso não é exatamente uma novidade, e Leibniz sabia disso, mas a novidade vem da intuição de uma nova metafísica mais radical que continue a depuração iniciada desde os primeiros antigos, até as últimas consequências. Em suma, além de contribuir com pesquisas científicas e tecnológicas com a sua intuição da linguagem binária, Leibniz faz a ponte da pesquisa da relação entre o Uno e o Múltiplo de modo que essa intuição filosófica atravesse as mutações da histórias e possa alcançar o tempo moderno.
Vejamos mais um trecho:
Aqui o que importa é a expressão de Leibniz em resposta ao trabalho de John Locke: “não há nada no intelecto que não estivesse antes nos sentidos, exceto pelo próprio intelecto“. É uma correção educada da estupidez de uma filosofia materialista, assim como depois ele corrigiria Berkeley ao afirmar que o corpo pode não existir como substancial por si mesmo, mas não deixa de existir como objeto da nossa percepção, o que é suficiente para que exista de algum modo, algo óbvio. Percebe-se assim como Leibniz estava filosoficamente posicionado como um adulto no meio de crianças, tentando ensinar a ler, escrever, pensar, etc. Mas talvez o seu primeiro aluno realmente capaz viria só com Kant.
Vejamos mais um trecho:
Aqui o que interessa é a sua idéia de “propagação da fé através da ciência”, um eco moderno da idéia medieval da philosophia ancilla theologiae. Nesse contexto, traduzindo o trecho final, para este plano “o diádico em particular oferece seu simbolismo da criação ex nihilo e sua poderosa conexão com a metafísica das mônadas ou ‘unidades reais‘”. Estou convencidíssimo disso, especialmente do potencial que a hipótese monádica oferece para destruir racionalmente todo tipo de idolatria. Nesse sentido, essa metafísica da Mônada é como a tradução filosófica do conteúdo espiritual do Primeiro Mandamento.
E vejam que todo o desenvolvimento desse potencial da linguagem binária se dava no contexto de uma abrangente reflexão matemática diante da qual a chamada “guerra do cálculo” com Newton não era mais do que uma nota de rodapé irritante.
Para além do que pude observar num livro anterior sobre o tema da disputa sobre a invenção do Cálculo, parece que a polêmica foi mais alimentada pela ação dos do lado de Dover do que do lado de Calais. Leibniz simplesmente tinha mais o que fazer. Esta pode ser a diferença decisiva: Newton parece se ocupar trabalhando para a glória de Newton, enquanto Leibniz parece se ocupar no trabalho para a glória de Deus. É verdade que o alemão já repousava na fama de ter inventado o Cálculo, mas ele aceitava a autoria paralela de Newton. Este último é que não podia aceitar não ter a precedência. Se há vaidades dos dois lados, convém compreender quem foi vaidoso primeiro. E, se da parte de Newton seria tão importante a prioridade temporal, por que raios ele não publicou seu estudo completo antes do alemão?
Vejamos, por fim, mais um trecho do livro:
Tradução livre:
“Leibniz escreveu uma longa carta para Bouvet na qual ele incluiu uma exposição detalhada da sua aritmética binária, apresentada como uma ‘admirável representação da Criação’ porque ‘seguindo este método todos os números são expressos pela mistura da unidade com o zero, mais ou menos como todas as criaturas provém apenas de Deus e do nada.’ Bouvet respondeu de Pequim em 4 de Novembro de 1701, anunciando para Leibniz a descoberta de uma fantástica analogia entre o diádico e os hexagramas do I Ching, onde o zero era representado pela linha dividida e o um pela linha contínua. Na carta Bouvet incluiu uma representação da assim chamada ordem Fuxi dos hexagramas mostrando a correspondência entre o I Ching, a notação binária de Leibniz, e a notação decimal de zero a sessenta e três.”
Essa passagem mostra o alcance da visão leibniziana que fazia uma antecipação simbólica do potencial filosófico da interpretação do I Ching, algo que significa apenas que ele estava de fato buscando a universalidade da verdade. Ele não se importava de conversar com católicos (jesuítas) para descobrir sabedorias chinesas, e nem de colaborar com eles dando testemunho de suas próprias intuições. Imagine-se o maravilhamento de Leibniz ao descobrir que na China havia um simbolismo que antecipava o seu antigo ideal filosófico-linguístico da characteristica universalis?
Seguindo para o fim, convém declarar a importância das duas Sofias na vida de Leibniz, a Sofia Princesa Eleitora de Hanôver, e a Sofia Charlote, Rainha da Prússia. É no mínimo curioso um filósofo ser tão amado por duas Sofias importantes em sua vida, mas mais do que isso, a importância delas mostra a dependência de qualquer filósofo, mesmo um Leibniz, de circunstâncias favoráveis. Isso nos mostra o valor das mulheres como realizadoras: ele inventava, elas incentivavam, apoiavam etc. É bem possível que não veríamos a obra de Leibniz ter sucesso sem a presença dessas duas mulheres, que o instigavam, que se correspondiam tanto com ele, etc.
É notável a preocupação de Leibniz, em paralelo com o projeto ecumênico de reconciliação entre as igrejas europeias, com a garantia do futuro de uma Europa protestante. Especialmente no que toca à manutenção da liberdade de pensamento. Ele viu muitos refugiados, pensadores e cientistas, escapando das católicas Espanha e França para as protestantes Inglaterra, Holanda e Alemanha, pessoas que sem essa possibilidade de asilo estariam fadadas à censura, ou a coisa ainda pior. Sua atitude conciliatória com a Igreja Católica vinha de seu temperamento apaziguador, de sua mentalidade pacifista, e de seu talento diplomático, e não de uma admiração pelo sistema de Roma. É difícil, nos nossos tempos, entender o que era o poder tirânico da opressão religiosa ainda naquela época. Já somos usufrutuários por séculos de uma liberdade que nunca foi (e continua não sendo) garantida. Sobretudo os católicos de hoje parecem ser muito ingênuos ou simplesmente ignorantes do histórico da sua mater et magistra.
Por fim, mesmo com alguma noção prática dos problemas religiosos, Leibniz ainda falhou na sua ingenuidade de não reconhecer a realidade da religião como pura fonte de poder: não há interesse de conciliação entre os que ambicionam não a paz e a verdade, mas o domínio dos seres humanos. Se uma religião pode ser tão boa quanto a outra, os seguidores podem mudar de religião, e isso é um enorme risco econômico e político para aqueles que lucram com o status quo. À uma fragilidade humana que é a decadência moral natural e a carência por um poder estruturante corresponde esse sistema religioso que lucra com a maldade.
Leibniz não foi um servidor voluntário, mas foi um servidor ingênuo do Sistema da Besta, o que torna sua parte aproveitável muito benéfica para o propósito da glorificação de Deus e benefício da condição humana, que foi o objetivo declarado de seu trabalho. Neste sentido, foi mais bem-sucedido do que talvez imaginasse, e de modos misteriosos, o que nos faz agradecer a Deus por sua vida.
Em Êxodo, Capítulo 20, na descrição do conteúdo do Primeiro Mandamento, Deus diz a Moisés que este não deve ter outros deuses diante Dele, e que Ele é um Deus ciumento.
Esse termo já causou alvoroço por causa de interpretações equivocadas, antropomórficas, que subverteram um sentido teológico bem mais preciso e na verdade inquestionável: Deus não divide a sua Glória com ninguém. Se dividisse Ele não seria Deus Criador, mas um mero participante na Criação, ainda que o mais eminente entre todos os criadores. Isso serve para desfazer a mentira luciferina de que exista uma cocriação, ou subcriação, de modo que Deus não seja um Criador Absoluto. Metafisicamente entendemos que mesmo numa série causal total, onde se consideram todos os elementos do primeiro ao último e onde se entreposicionem o que chamamos de causas intermediárias, a Causa Primeira é suficiente e exclusiva no seu movimento criativo. Isto quer dizer que em qualquer série completa de movimentos nenhum efeito pode ser atribuído a nenhuma causa exclusivamente senão ao Único Criador, o Absoluto, e que todas causas parciais podem ser partícipes sob aspectos, mas nunca condicionantes de qualquer efeito, como se Deus dependesse de algo. Um Deus dependente não é o Deus de Êxodo 20. Mas pode ser o “deus” dos satanistas, por exemplo.
Não vou nem falar da metafísica monadofílica, onde todos os agentes intermediários são na verdade partes do objeto da Percepção, e a única causa é a intelecção pura provinda do Logos divino. Isso não é necessário, e poderia soar estravagante demais para certas mentalidades. Êxodo 20 deveria ser suficiente.
Infelizmente muitos cristãos parecem perder essa noção mais básica, se é que essa noção da exclusividade da Substância divina ainda faz parte da mentalidade cristã. Para a vergonha dessas religiões ocidentais, parece-me que ao menos nesse aspecto até mesmo o Islam possui uma teologia superior. Grande vergonha!
Mas essa minha reflexão saiu de uma recente experiência de reassistir o filme O Retorno do Rei, o terceiro da trilogia de O Senhor dos Anéis.
Pude então observar muito claramente como a teoria subcriacionista de Tolkien, que afirma justamente uma divisão da glória da entidade que deveria representar o Deus único, Eru Iluvatar, dá o testemunho da legitimação da Mistura.
Não entrarei em maiores detalhes por enquanto, porque esta não é uma análise espiritual dos filmes, e nem dos livros. Isso pode ser deixado para depois.
Por enquanto basta-nos observar, precavidos, como o mero simbolismo das duas árvores no Silmarillion, Telperion e Laurelin, algo que é frequentemente lembrado nas mais diversas formas artísticas dentro da obra tolkeniana, representa a Dualidade da Mistura. E podemos catar, aqui e ali, exemplos claríssimos da legitimação da Mistura em partes do filme (e creio que podemos encontrar análogos nos livros), como quando Gandalf critica a elite de Gondor, ou quando Arwen diz a seu pai que além da morte, “também há vida”. Tudo isso deveria constituir evidência suficiente do papel de Tolkien como Bispo no Sistema da Besta, a quem tenha o mínimo da graça do dom da Vigilância.
Futuramente podemos nos aprofundar tanto nos livros quanto nos filmes, e checar tudo isso em maiores detalhes.
Um tema recorrente volta à minha mente nestes dias, e evidencio essa repetição quando penso, por exemplo, em fazer análises e comentários a certos filmes e séries que assisti recentemente (O Iluminado, Drácula de Bram Stoker, e White Lotus): o tema da inocência da mulher, e do dever espiritual do homem.
Quem me conhece sabe que não costumo ligar muito para a temática do gênero, ou pelo menos não costumava até receber algumas influências, como da filosofia de Weininger.
Mas a própria Bíblia nos chama a uma reflexão sobre essa diferenciação naquela importantíssima passagem de Gênesis, Capítulo 3, quando a Maldição é distinta aos praticantes da traição contra o Amor divino. A mulher, particularmente, é condenada às dores do parto, e mais, “teu desejo te impelirá ao teu marido, e ele te dominará“.
Isto quer dizer que o domínio do homem sobre a mulher não é natural, ao menos não no sentido da realidade preternatural do Éden, no Paraíso inicialmente designado por Deus. Esta relação de domínio já é determinada por uma situação de decaimento espiritual, como consequência da rebelião contra Deus.
E assim como o homem desde Adão tinha a responsabilidade de servir como testemunha da Redenção, ele continuará sendo o responsável por isso até o Fim do Mundo.
Estamos entrando na Semana Santa, e assim nos convém lembrar do seguinte: com a exceção do discípulo amado, o jovem João, quem ficou com Jesus até a morte? Quem alcançou esse grau de fidelidade? Foram as mulheres, especialmente as Três Marias: a sua mãe, Maria Madalena, e Maria de Cléofas.
Qual é a mensagem por trás dessa realidade?
Quando recebe a oferta da verdadeira Redenção, aquela que Jesus ofereceu, qualquer mulher é capaz de ser fiel a Deus: tanto a Virgem, quanto a Prostituta, quanto a Esposa e Mãe. Esse é o nível da universalidade da Salvação, do poder do Amor divino, para todos os casos de desobediência e de envolvimento com as mentiras do Ouroboros.
Os grandes traidores, por outro lado, são todos homens, Adão, Judas, e o Anticristo, vilões com outros planos, incapazes de se render ao Amor divino.
Simbolicamente, a força ascendente, o Masculino, é freado e impedido de completar seu curso pela força descendente, o Feminino, que lhe seduz e prende abaixo. Esse objeto que gera a força descendente, porém, é sem forma própria, pois representa uma pura possibilidade. É Eva antes da Queda: pode ser irmã e amiga, tanto quanto esposa e mãe. A determinação da forma sedutora é gerada pela vontade masculina. Essa mesma vontade pode desejar a ascenção e a redenção, ou a traição e a decadência. A mulher acompanha a decisão masculina, e toma a forma produzida pelo idealismo do homem. É assim que o Ouroboros destrói o homem: ele faz este desejar a realização de seu poder de usurpação, e a falsa imortalidade das Obras da Carne. E a mulher é o objeto da realização desse poder, não porque possua essa forma, mas porque possui a característica passiva de aceitar qualquer forma idealizada por aquele a quem quer agradar, o homem. Isso se dá por razões metafísicas, porque para que a Liberdade seja real, é preciso que a possibilidade da rejeição do Amor divino seja real. Por isso essa qualidade indeterminada do Feminino serve para a realização da vontade do Masculino. A qualidade dessa relação entre os elementos ativo e passivo não alteram, porém, a integridade da liberdade tanto do homem quanto da mulher. A mulher continua livre e responsável, tanto quanto o homem, por sua própria decisão. Mas ela não é responsável por dar-se uma solução que só pode ser eminentemente idealizada pelo homem. Assim, Eva errou ao ouvir e crer na Serpente, mas ela não se deu essa falsa imagem da verdade. E na sua inocência ela poderia (e deveria) ter sido corrigida pelo testemunho redentor de Adão, se ele tivesse esse desejo. A partir da iniciativa do homem, de sua idealização, a mulher livremente escolhe assentir ou rejeitar, mas ela não cria por si mesma os elementos da sua decisão, que lhe são postos. Eva, culpada por ouvir e acreditar na Serpente, foi submetida à vontade do homem, mas este também foi culpado por ouvir e acreditar em sua mulher. As duas liberdades existem, mas a hierarquia das responsabilidades é clara.
Isso se confirma hoje mesmo, até depois das revoluções liberais dos costumes. O que faz afinal a feminista que quer se libertar de Gen 3? Ela apenas confirma a sua submissão espiritual, querendo ser como o homem, seguindo o seu guiamento moral em busca de emancipação, independência, poder, prestígio, etc. Ela está imitando o homem, está se guiando pelo exemplo dele. Ele quer poder? Ela quer poder. Ele quer fama? Ela quer fama. Ele quer prazer? Ela quer prazer. Ele quer dinheiro? Ela quer dinheiro.
E se ele quiser a santidade, ela também vai querer. Mas ele precisa querer antes.
A sedução da Serpente faz o homem desejar a emancipação do Amor divino e enxergar na mulher o objeto de realização do seu desejo.
O Hexagrama representa a prisão dos sexos pelo Ouroboros, e o Pentagrama representa a consumação da Queda, o antropoteísmo, a traição e a usurpação, especialmente na consecução do Pecado Original.
O homem é o responsável por realizar esse pacto com a Serpente, e por usar a mulher para a sua finalidade de traição e usurpação. Já apontei como até nos elementos da fecundação nós temos o simbolismo natural dessa relação de poder entre o homem e a mulher, comparando o sentido de vontade ativa representado pelo sêmen, e o sentido da receptividade passiva representado pelo óvulo.
Por mais que a mulher queira a sua liberdade, a Serpente a envolveu no Pacto Ouroboros de tal modo que sua luta é incessante e não tem fim até que o homem, o grande responsável por escolher a usurpação ou a redenção, se digne a mudar de idéia com relação às suas cobiças e ganâncias. Gerando filhos vítimas desse mesmo Pecado Original, as mulheres sofrem: querem seus filhos livres (a “linhagem” da mulher), e pisam a cabeça da Serpente, mas voltam a se submeter aos estúpidos falsos idealismos dos homens, seus pais, maridos e filhos (a “linhagem” da Serpente), e então a Serpente morde seus calcanhares. A linhagem da Serpente é a dos traidores e usurpadores, dos algozes do Pacto Ouroboros, e a linhagem da mulher é a das suas vítimas.
As Três Marias que ficam até o fim com Jesus mostram o que a mulher realmente quer: o testemunho da Salvação, da sua Redenção verdadeira.
Mas dignar-se-á o homem a dar o primeiro passo?
Libertar-se-á ele da sedução da Antiga Serpente, ouvindo o chamado de Jesus?
Bem entendidos os princípios e as idéias da Monadofilia, qualquer pessoa seria capaz de concluir pela conveniência dos cinco conceitos sinóticos desta filosofia resumidos pelo esquema Sakura-Tsuna, e a partir destes, com o destravamento dos impeditores da Coruscância (Paraíso, o “Escolhido”), alcançar a phronesis final com o esquema Kiku, a “Consciência Profunda” (Arayashiki, correspondente às virtudes teologais temporais da Fé e da Esperança), e o “Tesouro do Céu” (Tenbu Horin, correspondente à virtude eterna do próprio Amor).
Se a causa final do Ser em geral é o Sumo-Bem, a própria essência divina, por outro lado a causa final do ser em particular é o bem próprio da criatura limitada, que deve ser ao fim o objeto da sua escolha espiritual, isto é, o Paraíso, que chamo de Coruscância.
O Sumo-Bem é a felicidade de Deus em si mesmo. O Paraíso é a felicidade do Sumo-Bem de acordo com o limite que define a minha forma substancial, ou seja, é todo o bem que me completa de modo total.
Assim seria razoável supor que as pessoas desejassem obter o mais rápido possível os lucros das três virtudes teologais do esquema Kiku, e então viver a felicidade equivalente a da Noiva que confia e espera (Fé e Esperança), mas sobretudo porque ama a vida que é possível acima desta vida presente, sabe porque a ama, e sabe porque a quer para sempre (Amor). A rotina de quem atingisse esse nível de simplicidade espiritual seria portanto a de experimentar em tempo real a obra divina de Separação (Santificação) pela atuação do dom do Discernimento que entende as coisas que são divinas e as distingue das que não são. Essa seria a melhor condição de dar e receber testemunho, e de repouso na Providência divina.
Porém, é inegável que a maior parte das pessoas luta ainda, e talvez o faça pelo resto de suas vidas, para vencer os desafios dos primeiros conceitos sinóticos introdutórios à liberação do Escolhido, o Paraíso, ou Coruscância. Em suma: a maioria das pessoas não aceita seriamente a hipótese do Paraíso.
Convém investigarmos quais são, portanto, as negações daqueles conceitos introdutórios, para que ao menos possa ficar claro qual é o desafio espiritual que deve ser vencido para que possamos nos deleitar com toda a potência da Graça divina.
Montei esta tabela para facilitar esta reflexão e responder a pergunta: afinal, por que uma pessoa não crê e não deseja o Paraíso?
CONCEITO SINÓTICO
NEGAÇÃO
EXPRESSÃO DA NEGAÇÃO
Condição do Escolhido (Sumo-Bem)
Idolatrias do Nada, Caos, Natureza ou Homem
Deus não é bom, ou a bondade de Deus não tem forma particular para um Eu
Forma do Escolhido (Limite)
Esoterismo Gnóstico, Lado Esquerdo da Dialética do Ouroboros, Revolução
O Limite não é bom, a única felicidade possível é a do Ser Absoluto, Infinito, Eterno
Condição da Escolha (Mistura)
Exoterismo Gnóstico, Lado Direito da Dialética do Ouroboros, Tradição, Religião
A Mistura é boa como Lei Natural, só existe Bem se existir Mal, só existe Luz se existir Trevas, só existe Prazer se existir Dor, só existe Alegria se existir Sofrimento
Operação da Escolha (Arbitragem)
Determinismo, Fatalismo, Astrologia, Psicologismo
Não é possível uma criatura arbitrar livremente a sua definição espiritual, porque ela é condicionada pelas circunstâncias de modo determinante (o arbítrio não pode ser puro)