Enquanto, por um lado, a Magia significa uma capacidade ou um poder contingente, ligado aos paradigmas da escassez, da causalidade e da irreversibilidade, a Onipotência, por outro lado, significa a capacidade irrestrita de um Poder Absoluto.
Toda vez que encontramos algum testemunho, onde quer que seja, mesmo na Bíblia, que fale das coisas divinas como se falasse de coisas mágicas, ou seja, do exercício de um poder contingente, estamos, na melhor das hipóteses, lidando com uma confusão, como uma infelicidade na tradução de termos, e na pior das hipóteses, estamos lidando com mentiras que pretendem colocar, no lugar de Deus, aquele que é o Usurpador.
Não se pode, nem se deve, querer misturar as coisas divinas com as coisas não divinas, aquilo que é santo e puro com aquilo que não é.
Isto vale também, e de forma especial até, para o problema da Salvação.
O Amor de Deus é a própria essência divina: o centro e o motor do Poder divino, por assim dizer.
Se Deus ama, quem pode lhe impedir o seu gesto de salvação?
E se Deus salva, de que outro recurso Deus precisa fazer uso, senão da pura manifestação da sua Vontade soberana?
Não existe meio ou intermédio para ação divina, e nem existe uma terceira instância diante da qual a ação divina precise se justificar.
Quando Deus faz uso de um meio, ou parece justificar uma medida, essa maneira de proceder é apenas uma concessão da bondade divina às limitações do intelecto humano, ou uma garantia da consecução de alguma revelação profética, mas nunca pode ser tratado como uma referência a qualquer tipo de limitação por parte da Onipotência, o que por definição é sempre uma contradição.
Convém, porém, aos poderes das trevas, produzir a confusão entre as coisas divinas e as não divinas, para dirigir a adoração que é devida a Deus para outros alvos, como aos Avari que usurpam o Nome, e para impedir que os homens encontrem o verdadeiro repouso na suficiência do Amor divino, fazendo-os tentar a obtenção do controle da sua própria salvação, e idolatrando os meios causais no lugar da santidade divina. Isso pode levar inclusive a religiosidade cristã a repetir os enganos dos antigos paganismos de todo tipo de origem, como verificamos na cultura judaica, na greco-romana, etc.
Quando afirmo que o Pacto Ouroboros é a Tradição Primordial, refiro-me a um princípio espiritual que unifica na origem toda a evolução da humanidade nos seus diversos ramos.
A idéia me foi sugerida por uma premissa comum nos estudos das religiões comparadas: a de que havia, nos primórdios da história humana, uma única religião que posteriormente foi dividida em tradições diversas. É claro que eu inverti o propósito comum do Perenialismo: identifiquei essa união primordial com a religião da Torre de Babel antes da dispersão causada por Deus em Gênesis 11, e depois fui mais além ainda, e identifiquei a Tradição Primordial com a Religião de Adão, a Religião do Homem, o Culto do Ouroboros.
Dito isso, as iniciações satânicas podem ter muitas formas e sabores, às vezes por caminhos aparentemente insuspeitos para a mente extremamente crédula e ingênua do ocidental comum.
O que pode haver de comum, enfim, entre, por exemplo, espiritismo ou necromancia, artes marciais, festas orgiásticas, maçonarias, a divulgação de ídolos da música e do cinema, sacrifícios de sangue, esoterismos ou ocultismos em geral, meditação transcendental, uso de drogas alucinógenas, yoga, bruxaria, o culto da democracia, pactos entre mafiosos, doutrinas gnósticas, rituais religiosos e organizações especializadas em chantagem?
São todas práticas potencialmente iniciáticas que revelam um aspecto daquela Tradição Primordial, do Culto do Ouroboros. O inimigo do homem diversifica nos investimentos que faz na sua Perdição.
Vamos ver o que nos diz o Daniel Mastral neste outro trecho de “O Descortinar da Alta Magia“:
A “verdade” que o autor está confirmando é aquela da Tradição Primordial: a Gnose que propõe que o homem seja o deus de si mesmo, capaz de manipular e dominar a natureza e a si mesmo para obter o seu próprio bem de forma totalmente independente do Amor divino.
Não podemos negar a realidade das energias, nem dos canais de acesso aos poderes ínferos (os “portais”, ou “chakras”), pois o que nos interessa não é o conhecimento da Multiplicidade que há debaixo da Unidade divina, mas sim a consciência da nossa decisão de confiar no Amor ou traí-lo em nome do Poder.
Há quem confunda a consistência da riqueza e do detalhe da Criação com a veracidade do propósito do uso desse conhecimento para finalidades que devem ser moralmente julgadas de forma independente. Isso se dá por influência dos espíritos de Idolatria e Ingenuidade, como consequência da rejeição aos dons de Presença e Vigilância, respectivamente.
Quantas respostas certas existem à questão de “quanto é 2 + 2”? Uma só.
Mas quantas respostas erradas existem à mesma questão? Ilimitadas.
Dado um único Destino correto, que é a causa final da vida humana, qual seja, o aceite do Amor divino que abre as portas do Paraíso, qualquer caminho que não leve a esse Destino é enganoso, não importa qual seja a semelhança ou profundidade que possa ter em comparação com o único caminho bom e verdadeiro.
Assim, não há nenhum privilégio da parte do Satanismo em relação a qualquer outro tipo de doutrina, como se fosse possível que um caminho errado pudesse ser melhor, ou mais correto, que qualquer outro caminho igualmente errado.
O que existe é um grau de frieza mais puro, equivalente ao grau de quentura mais puro, que de certo modo pode instalar o satanista num nível mais verdadeiro de escolha por conta da justaposição do seu engano como uma inversão mais perfeitamente simétrica da Verdade. Mas isto seria um privilégio, ou alguma vantagem de algum tipo?
Vejamos esta passagem de O Descortinar da Alta Magia, de Mastral:
Esse testemunho identifica como verdade um Cristianismo que é antes muito mais uma religiosidade potencialmente tão enganosa quanto o Satanismo, do que uma Revelação divina. Eu mesmo já denunciei que o Cristianismo não passa do Culto do Mashiach ben Yosef.
A Verdade não pode ser produto de um culto humano, como uma religião. A Verdade só pode ser uma propriedade da essência divina. Assim, podemos e devemos afirmar que o EVANGELHO é a Verdade, sendo uma Revelação divina, uma Graça pura doada para a glória do Amor de Deus.
O Satanismo é tão incorreto e mentiroso, no seu objetivo, quanto qualquer outro tipo de “religiões falsas”, inclusive o próprio Cristianismo!
O máximo que existe é essa pureza negativa, a pureza da frieza da negação direta e mais explícita contra o Amor divino, mas que vantagem se pode atribuir a esse ponto de vista, em face de todos os outros tipos de engano?
E o pior de tudo –e aqui começamos a identificar um provável caminhar de Mastral em direção ao testemunho do espírito de Ingenuidade–, que vantagem temos na denúncia contra o Satanismo, se esta apenas nos joga nos braços do Cristianismo?
As religiões falsas agradam sim a Lúcifer, qualquer uma delas, inclusive o Cristianismo, porque elas afastam da pureza do Amor de Deus que é revelado no Evangelho de Jesus Cristo.
Mais uma passagem de O Descortinar da Alta Magia, volume 2 da série Filho do Fogo de Daniel Mastral:
Como esses falsários podem se colocar como sábios, se ignoram que o conteúdo das suas proposições já está integralmente contido como possibilidade espiritual dentro da Revelação divina? Somente, é claro, contando com a ingenuidade humana, e com a ignorância generalizada das coisas de Deus.
Diversos livros bíblicos declaram que o erro na criação humana provém do desvio da liberdade que podia aceitar ou rejeitar o Amor divino.
Quando Deus se vê “equivocado” ou “arrependido”, isto é sempre declarado apenas como um caráter relacional do Criador com a sua criatura, mostrando uma reação de frustração ou decepção para que o ser humano saiba que o seu Deus não é indiferente à sua indecisão, ainda que sempre tenha sabido qual ela seria. A liberdade humana, ainda que totalmente prevista pelo conhecimento divino dos futuros contingentes, não deixa de ser real na própria dimensão da sua manifestação.
Esse testemunho satanista quer excluir da equação justamente o fator mais determinante da situação de fracasso espiritual: a Vontade livre para aceitar ou rejeitar o Amor divino.
Por outro lado, e muito convenientemente, em associação a esta dispensa da responsabilidade moral derivada da Vontade livre, é criada uma mitologia fatalista na qual Deus já teria abandonado o homem como uma criação defeituosa, de modo que nada restasse ao ser humano senão tirar as consequências desse destino já determinado e inalterável.
Isso é uma grande mentira.
Essa mentira é alimentada pelo espírito demoníaco, já apartado da Graça divina, que inveja e odeia a nossa liberdade de escolher o Amor do Pai, porque estes espíritos já decidiram para sempre rejeitar o mesmo. O fatalismo do qual querem nos convencer é derivado da fatalidade de que eles já se fecharam eternamente na sua rebelião, e a tentativa de associar a liberdade humana a essa rebeldia demoníaca é apenas um gesto desesperado de quem só tem como consolação, na sua miséria espiritual, a esperança de fazer outras liberdades lhes acompanharem no mesmo erro.
Sim, Ele faz, mas depois Ele mesmo destrói aquilo que fez, quando sua criatura rejeita a Graça de seu Amor e requer, assim, a correção da sua miséria pela misericórdia da sua extinção.
“E assim cairá sobre vós todo o sangue dos justos derramado sobre a terra, desde o sangue do inocente Abel até o sangue de Zacarias, que matastes entre o santuário e o altar.” (Mateus 23:35)
Pela influência de meu sobrinho nº 2, voltei a revisitar um certo conteúdo de ficção científica sobre o qual não pensava havia tempos, o universo de Warhammer 40k.
Em grande parte essa revisitação não geraria frutos dignos de nota dentro do meu trabalho, não fosse a observação de uma certa analogia funcional entre aquela mitologia e a do Gênesis, uma comparação que talvez nos ajudasse a compreender melhor algo que pode ser muito útil, algo que já foi abordado e explicado antes, mas que possivelmente não tenha ficado tão claro quanto deveria: o quanto que Caim foi realmente criminoso na sua ação, e o quanto que Abel era inocente.
Relembrando a mitologia edênica da Bíblia, no Capítulo 4 do Gênesis encontramos Adão iniciando seus filhos no culto divino, a primeira forma de religião referenciada nas sagradas escrituras. Abel oferece um sacrifício aceitável para a divindade, enquanto o sacrifício de Caim é tido como insatisfatório. Abalado pela rejeição da sua oferta, Caim é tomado de uma fúria assassina, e acaba se vingando através do homicídio de seu irmão, tornando-se assim um exilado da sociedade adâmica, e um construtor de uma alternativa civilizacional rival daquela de seu futuro irmão Set.
A Tradição nos informa que Caim perdeu a graça de Deus em virtude, em primeiro lugar, de ter se recusado a fazer a sua melhor oferta no ritual de sacrifício, entregando restos da sua colheita ao invés das primícias, ao contrário de Abel que entregou a melhor parte de seu rebanho. Em segundo lugar, alertado por Deus para que não caísse na tentação da vingança, ele ignora o guiamento divino e termina por se associar com o espírito que lhe incutiu o ódio pelo irmão.
A Revolução, porém, informa algo diferente: a recusa de Caim de sacrificar o seu melhor, ou mesmo de sacrificar sangue como seu irmão Abel, derivaria de sua ciência da mentira de seu pai. Consciente de que Adão trocou o culto do Deus verdadeiro, no antigo Jardim do Éden, pelo culto do falso deus, a Serpente do Mundo, Caim teria rejeitado a obediência ao culto ensinado por seu pai, ou seja, teria recusado participar na Tradição Primordial, que é o Culto do Ouroboros. Como consequência da sua recusa, porém, ele foi rejeitado pelo deus de Adão, e também por seus pais, e teria sido tentado pela fúria ao ver o sucesso de seu irmão Abel que, enganado por seus pais, não obstante obteve triunfo e glórias ao ter se submetido ao Sistema da Besta. Incapaz de tolerar a injustiça, Caim cai ele próprio na tentação, decorrente dessa tristeza, e mata o seu irmão.
Embora a Tradição sempre pareça nos contar a historia mais coerente, simplesmente porque usa a cultura do status quo (toda a narrativa reiterada por séculos pelas religiões cristãs), e também porque nos permite relaxar na hipótese menos sinistra, ela nunca explica o salto tremendo de Gênesis 3 até Gênesis 4, ou seja, a abrupta transição da situação de rebelião e condenação à morte até a situação de normalização do culto através do sacrifício de sangue.
Não é difícil cogitar a hipótese de que Adão e Eva trocaram de fato de divindade, e que o culto religioso mostrado em Gênesis 4 seja o Culto do Ouroboros. Afinal, mais tarde o Deus verdadeiro (e quem mais seria?) não nos diz que não tem prazer no derramamento de sangue, e que para o seu Espírito o verdadeiro sacrifício é a oferta de um coração contrito?
Por outro lado, Jesus, a maior autoridade, nos informa que o diabo é o Pai da Mentira, e que é “mentiroso desde o princípio“.
Usurpador por natureza, o Ouroboros sempre desejou tomar o lugar de Deus diante do homem, em primeiro lugar causando o distanciamento entre o Criador e a criatura através a malícia da desconfiança, e em segundo lugar oferecendo a alternativa de si próprio como salvador através da oferta da Gnose. O Pacto Ouroboros é o comércio entre os usurpadores, anjos caídos e humanos, para criar o seu império de rebelião.
Porém, Jesus diz também que Abel foi o primeiro inocente vitimado pela colaboração dos homens com os demônios. Como isso poderia ser verdade, se Abel fosse cúmplice de seus pais no Culto do Ouroboros?
Para compreender esta hipótese, ou seja, a de que Abel teria participado do Culto do Ouroboros e, ainda assim, que tenha sido inocente, nós temos que compreender os fenômenos da malícia e da inocência num nível mais profundo do que o normal.
E nisto é que pode convir, finalmente, o simbolismo daquela mitologia de Warhammer 40k: Horus e Sanguinius, ambos filhos do Imperador, correspondem em seus papéis a Caim e Abel, filhos de Adão.
Horus é influenciado por uma visão (ou por uma série de visões?) em que vê seu pai, o Imperador, manipulando a história e usando de toda a sua influência para alcançar o status de divindade, enganando seus filhos a respeito de seus propósitos megalomaníacos. Essa visão tem uma origem demoníaca (ou “caótica”) e o objetivo de criar divisão e conflito no Império, de modo que as forças do Caos pudessem triunfar contra a Humanidade. Crendo na visão, porém, Horus não percebe o quanto ele próprio é manipulado, e acaba por causar a guerra civil que terminará com o assassinato de seu irmão Sanguinius, antes que seu pai finalmente o mate e seja então, como consequência, cultuado como o Deus-Imperador da Humanidade. Assim, Horus acaba colaborando para a concretização daquela visão contra a qual se rebelou.
A sugestão mais frutuosa para a compreensão da mitologia do Gênesis vem da forma como o esclarecimento de Horus se inicia: a visão, embora tenha uma origem e uma intenção maligna, não revelava, afinal, um futuro contingente plenamente realizável? O Imperador não aceitaria, afinal de contas, a sua própria entronização como divindade, às custas do sacrifício de seus filhos e de todo o povo? Sim, o conteúdo da visão era verídico. Apenas não ficou claro para Horus o papel decisivo da sua própria intervenção na história, isto é, a contribuição do efeito da sua queda na malícia na produção do mal que sua visão anteviu.
Já Sanguinius, por sua vez, ainda que enganado pela mentira de seu pai, tendo sido não obstante fiel até o fim, pode ser considerado inocente ainda que sofresse de uma ilusão.
Pois eis a realidade espiritual: não é a Gnose da ciência do segredo que salva, como pensaria Horus, mas é a confiança amorosa que aproxima do Bem ao rejeitar a desconfiança maliciosa. Por mais enganado que fosse por seu pai, Sanguinius, mantendo-se fiel e rejeitando a malícia de Horus, estava mais próximo do Bem que lhe era possível do que seu irmão. Confiando em seu pai, Sanguinius na verdade confiava numa Providência maior que havia dado ao Imperador a autoridade e o poder por qualquer razão que transcendia o seu entendimento. Ou seja, por trás da enganação, havia a confiança num governo verdadeiramente divino por trás. Já Horus, desconfiado do Imperador, desconfiava junto também do governo divino da realidade, razão pela qual o seu crime é total, apesar de suas razões, assim como a inocência de Sanguinius é total.
Está escrito: com Deus estão o enganado, e também aquele que engana.
Também: não temeis por conspirações e segredos.
E por fim, Deus diz: não me procurai no Caos.
Isto quer dizer que a única coisa pela qual podemos nos responsabilizar é pela confiança ou não num governo divino maior, uma Providência que regula todas as coisas, inclusive e especialmente todas as injustiças e sofrimentos. Sanguinius confiou, e Horus caiu na malícia.
A vida com Deus está no repouso na confiança de que nada escapa ao seu divino Poder, e que tudo é sempre convertido, finalmente, para o bem daqueles que amam a Deus.
Percebemos assim como a obra divina é perfeita, mesmo no uso da liberdade com tendências maliciosas: se não for dada à Serpente a liberdade de tentar Adão, como é que ele pode decidir confiar ou não no Amor divino? Igualmente, se Caim não for tentado pela visão do culto do falso Deus, como é que ele poderia decidir agir diferentemente?
Nesta hipótese, a intervenção do Deus verdadeiro vem depois da ação da tentação que serve de campo de exploração para a liberdade humana. Ou seja, inicialmente Caim foi apenas influenciado por espíritos realmente demoníacos, ainda que estes em parte dissessem a verdade, isto é, que Adão traiu o Deus verdadeiro, e que o sacrifício de sangue era feito a um falso deus. A intenção infernal por trás dessa iluminação gnóstica, porém, era justamente que Caim se tornasse orgulhoso de sua Gnose, e que enxergasse a si próprio como melhor que seus pais e que seu irmão. Esse mesmo orgulho foi depois a causa da sua queda, por não suportar o louvor ao mérito de Abel.
Mas antes do assassinato de Abel, o Deus verdadeiro não deixa de chamar Caim para a verdade, dizendo: se a tua intenção é a correta (isto é, a de rejeitar a traição de seus pais), porque ficas triste? Não deverias levantar a cabeça?
Essa sugestão é excelente e cheia do Espírito Santo: uma vida com Deus, na sua Presença, ignorando a usurpação e desobediência da humanidade. Era preciso que Caim se libertasse do orgulho contra seus pais, e da inveja assassina contra seu irmão.
Mas Caim rejeita o Espírito Santo, e assim sua visão se torna uma prisão na malícia, no orgulho e na inveja. Seu crime é indesculpável.
Já Abel, apesar de ser enganado por seus pais e pelo próprio Ouroboros, tendo sido não obstante fiel e confiante num Bem maior, foi inocente até o fim, e duplamente inocente: não só foi enganado pelo Ouroboros e por seus pais, mas também foi traído por seu irmão cheio de malícia e ódio.
Ao contemplarmos a cena do assassinato de Sanguinius por Horus entendemos como a Gnose sempre dá um falso poder que leva à hybris e à ruína: o verdadeiro poder está na confiança no Bem transcendente.
O Caos tentou Horus. O Ouroboros tentou Caim.
A opção de Horus/Caim era a de aceitar a liberdade da contingência de seu pai, bem como a primazia de seu irmão.
Assim, a visão do futuro contingente talvez não fosse falsa, mas de qualquer modo a reação de Horus/Caim deveria ser a de amar a liberdade até o fim: a sua própria, a de Deus, e a do próximo.
Parafraseando a sabedoria socrática: é melhor ter a sua liberdade violada, do que se tornar o violador da liberdade alheia.
O mal, afinal, sempre está naquele que o causa, e não naquele que o sofre.
As causas Material e Eficiente da filosofia aristotélica caracterizam a qualidade objetiva da Percepção, como função para a agência moral da liberdade das Mônadas, ou ainda, conferem a qualidade da Nitidez da Percepção da qual deriva o conhecimento da Multiplicidade.
Já as causas Formal e Final da mesma filosofia caracterizam a qualidade subjetiva da Percepção, ou a própria instância da atualização da liberdade, ou ainda, conferem a qualidade da Cristalinidade da Percepção da qual deriva a intuição da Unidade.
A tentação do Poder, na forma da Idolatria, provém da obsessão com as causas Material e Eficiente, o saber de quê as coisas são feitas, e o de como elas são feitas, como território de domínio da psique humana pela Multiplicidade.
Já a liberdade do Amor, na forma da vida na Presença, provém da apreciação das causas Formal e Final, o saber de quê as coisas são, e o de para o quê elas são, como território da contemplação amorosa do Ser como Unidade.
Em suma: a riqueza objetiva da Percepção, no seu detalhe, é uma condição da atualização da liberdade das Mônadas criadas, de modo que o livre-arbítrio atribua quididade e finalidade para os seres conforme a sua conveniência e possa, assim, abrir-se para a Presença ou para a Idolatria.
Quando falamos, por exemplo, da sublimação da inviolabilidade das causas, da irreversibilidade dos efeitos, e da finitude da escassez, falamos da escolha de crença na superação das qualidades derivadas da observação das causas Material e Eficiente, em favor de uma mais conveniente apreciação das causas Formal e Final.
O par de causas Material-Eficiente tende ao Múltiplo e à dispersão, ou centrifugacidade da alma, enquanto o par de causas Formal-Final tende ao Uno e à concentração, ou centripetacidade da alma.
Nas leituras que já fiz dos livros de Daniel Mastral até agora (da série Filho do Fogo), a pedido de um seguidor, fica evidente, seja aquilo realidade, ou ficção, ou ainda uma mistura de fatos com invenções, que é importante, no decorrer da suposta iniciação satânica, da denúncia dos absurdos da parte de Deus, conforme a leitura de diversas passagens, seja do Antigo, ou do Novo Testamento.
Embora não devam faltar, no futuro, oportunidades de tratar de passagens específicas que sigam esse tipo de raciocínio, é conveniente afirmar a importância do fato da mistura de Luz e Trevas no testemunho bíblico como oportunidade para o nosso Discernimento.
Começando pelo mais básico dos princípios, que já foi repassado várias vezes no meu trabalho, mas que não custa reiterar, é preciso distinguir com muita clareza entre o que é a Palavra de Deus em si mesma, do que é um testemunho da Palavra de Deus.
A Palavra de Deus é o Logos divino, ou seja, é o próprio Deus: a Palavra é, portanto, viva, eterna, absoluta, abscôndita, inefável, etc., ou seja, tem todas as qualidades da excepcionalidade divina.
Já o testemunho da Palavra de Deus, é um produto do Intelecto e da Vontade de qualquer mônada criada que pode fazer alguma afirmação sobre o que foi objeto de sua contemplação a respeito da natureza divina.
Qualquer testemunho da Palavra, por definição, não tem a inerrância e infalibilidade da Palavra de Deus nela mesma, e muito menos na reprodução do seu conteúdo que é ilimitadamente vulnerável a quaisquer interferências do arbítrio humano. Ou seja, a mesma liberdade humana que pode produzir, num dado momento, um testemunho fidedigno da Palavra de Deus, pode no momento seguinte errar, seja por lapso, ou por malícia, ou ainda pode ter o seu produto posteriormente submetido a nova possibilidade de erro, etc.
Bem entendido esse princípio, se Deus, na sua santidade, não pudesse ser desconfiado pelo arbítrio humano, mediante a ação de uma mentira com esse propósito específico, como Ele poderia ser confiado com igual usufruto do arbítrio humano?
Eis a importância da mistura de Luz e Trevas, não apenas de forma geral por todo o mundo, mas especificamente na corrupção do testemunho bíblico da Palavra de Deus: é necessário que a Liberdade humana se exerça com total potência, sem obstruções. Para esta finalidade foi preciso que o Usurpador se colocasse como se fosse deus, e que constituísse um falso conhecimento das coisas divinas, e uma falsa forma de culto do sagrado, para que cada ser humano exercesse a sua discricionariedade espiritual.
Portanto, não só não devemos estranhar o tipo de raciocínio da lógica satanista, mas ver nela a confirmação daquilo que já está anunciado no Apocalipse: que o sujo continue a sujar-se.
E para tanto, é preciso que haja os recursos necessários a esta decisão. Esta é a razão da mistura na Bíblia.
Toda alma humana deve ter, à sua disposição, o recurso da dúvida subsidiada por uma ambiguidade que força o arbítrio humano a definir a sua própria decisão. Por isso Isaías diz: “tu és um Deus que se esconde“, e também porque Jesus diz: “se a luz que há em ti forem trevas, quão grandes serão as trevas!“, etc.
Neste próximo trecho de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral, temos um testemunho que começa a se aproximar da síntese mais simples a respeito da essência das artes arcanas, ou mágicas:
O problema é que, por aproximado que este testemunho seja da essência das coisas, ele não alcança o âmago na sua maior simplicidade, além de constituir um tipo estranho, entre tantos outros, de “revelação” satânica.
Qual é o sentido, da parte de quem denuncia o Deus cristão, de chamar algo de “Verdade preestabelecida por Deus“? Antes, o discurso dos opositores da obra divina deveria chamar a Revelação divina de mentira. Essa linguagem usada por Mastral denuncia a provável perversão de um discurso original que teria outra consistência, ou ainda, com maior probabilidade, uma pura invenção de pueril credibilidade, isto é, feita para enganar pessoas ingênuas.
Além deste problema da legitimidade deste testemunho, é conveniente verificar que o mesmo não atinge, como falamos, a essência das coisas: em suma, o poder mágico de encantar nada mais é do que o poder de mentir.
A mentira é um produto do Intelecto que gera a imagem da verdade a partir de quaisquer subsídios mais ou menos críveis, movido por uma Vontade prévia de acreditar no que é falso.
O sucesso do efeito da mentira é totalmente dependente da disposição daquele que é enganado, pois sua Vontade primeiro teve de dispensar o dom de Vigilância, e acatar o espírito de Ingenuidade, para então mover o Intelecto na produção da imagem da verdade que será tomada por crível a partir de determinados indícios que serão arbitrariamente confiados.
Mastral não mostra isso com a clareza que conviria, ao menos não até este ponto. Então que fique claro o que ele não pôde ou não quis nos dizer: o poder na mentira está nas mãos do que é enganado por ela. Um mentiroso só tem poder sobre quem é ingênuo de acreditá-lo. Se a escritura já declarou “maldito o homem que confia no homem“, quem se pode dizer vítima inocente depois de receber o alerta da Revelação?
Assim, o poder que os satanistas tem de enganar o mundo inteiro é muito mais uma concessão da fraqueza das suas vítimas, do que uma força própria que lhes dá a condição de domínio. Antes de mais nada, foram os nossos pais que nos venderam ao diabo, como reféns do seu Pacto Ouroboros, e foi isso que constituiu a base da entronização do Príncipe das Trevas sobre este mundo, e não uma competência própria das forças demoníacas. Desde Adão e Eva, o poder da Serpente dependia de um arbítrio corrompido da parte de suas vítimas, ou seja, é um poder que se projeta sobre a fraqueza alheia, e não como uma potência própria, de modo que esse relacionamento espiritual entre os seres humanos decaídos e os espíritos das trevas constitua uma perversão do relacionamento entre os fiéis e Deus através do Amor que ampara a sua fraqueza.
Operando sempre como inversão das coisas espirituais, a relação dos homens corrompidos com os demônios imita, de forma pervertida, a relação dos homens fiéis com Deus: assim como Deus é encontrado na fraqueza humana que clama pelo seu Amor, o engano diabólico é encontrado na fraqueza humana que clama pelo engano da Mentira através da credibilidade da sua Ingenuidade.
Eis que o filósofo prussiano nos dá referências simbólicas estranhas, inusuais na sua obra, indicando talvez um comprometimento com o Iluminismo que vai além da mera contribuição de suas investigações particulares: seria isso o sinal de um envolvimento espiritual mais profundo?
É claro que a confirmação disso seria sempre impossível, e mesmo a aferição de uma maior probabilidade nesta direção requereria uma investigação mais ampla, tanto da sua obra como um todo (e não só da Crítica da RazãoPura, por exemplo), quanto também de relatos biográficos que nos permitisse compor um quadro mais compreensível.
Mas já temos aqui uma indicação neste sentido, que não pode ser ignorada.
Quem tem em mente “uma torre capaz de alcançar o céu“?
Não é o herdeiro dos Usurpadores, aqueles mesmos que foram dispersos por Deus em Gênesis 11?
E para que não se afirme que Kant imaginou algo sem referência ao mito bíblico, ele próprio menciona logo em seguida, no exato contexto da mesma explicação, o problema da “confusão das línguas“, uma referência imediatamente conectada com o mesmo simbolismo.
Está ele querendo nos confessar algo, através do emprego deste simbolismo?
Ora, se ele empregasse esse tipo de linguagem de forma generalizada no seu estilo literário, nós poderíamos diminuir essa impressão e nos considerar apenas algo paranóicos.
Mas Kant não usa essa linguagem quase nunca. Extremamente rigoroso no emprego dos seus termos, e repetitivo na sua escolha, nós reparamos facilmente quando ele se desvia do padrão.
Isto parece ter acontecido mais na Edição “B”, a segunda edição da Crítica, onde ele adota por exemplo a postura reativa de formalizar proposições em diálogo com “vocês“, possivelmente os seus críticos. É possível detectar também na Edição B que o filósofo ficou mais à vontade, como que confirmado nas suas pretensões de algum modo, talvez já reconhecido suficientemente para se arrogar a capacidade de dar palpites com relação ao futuro do Iluminismo e da Educação em geral na Prússia, por exemplo, e através desse seu procedimento não é difícil imaginar que a sua referência à Torre de Babel seja uma mensagem clara, nem tão codificada assim, para parceiros num determinado projeto espiritual, que eu chamo de Sistema da Besta.
Confessio est regina probationum: a confissão é a rainha das provas.
Mas ele ainda não confessa.
O que diz aqui, neste mero parágrafo entre tantos, pode ser apenas uma brevíssima aventura literária onde os símbolos podem ter sentido equívoco para o nosso uso.
Porém, temos instrumentos de Discernimentos suficientes para entender o professor Kant mais provavelmente envolvido com o projeto Gnóstico do que o contrário.
Pelos frutos conhecereis a árvore: por acaso o esclarecimento da Fé cresceu com a influência da obra kantiana, e com o Aufklärung em geral, ou ocorreu o contrário?
Parece que Kant aqui se perdeu num entendimento que vinha razoavelmente bem, guiado mais pela sutileza do idealismo por pura analogia, e voltou à certas obscuridades do ceticismo empirista. Isso pode se dar a qualquer um de nós quando caímos justamente no pesado empreendimento de querer dominar objetos que só se oferecem à contemplação amorosa, mas que recusam a violência gnóstica.
Ele tem razão, contra o dogmatismo, que não se pode postular as razões determinadas de um ser supremo ordenador a priori, mas parece se esquecer de que ele próprio descobriu, e não faz muito tempo, que a causa da série dos condicionados só pode estar num incondicionado fora da série, de modo que a natureza só conhece (ou dá a conhecer) a necessidade de uma instância que legisle sobre si internamente, mas não pode atribuir os motivos dessa legislação. A teleologia de uma Razão transcendente sempre explica a natureza, mas não pode ser explicada por ela.
Aqui parece que o denunciante da perversa ratio acaba denunciando a si próprio: a total transcendência do ser supremo com relação à natureza criada, na busca das finalidades últimas, não constitui um antropomorfismo necessariamente, mas é apenas buscado na sua integridade como capaz de justificar o conjunto natural com fins que o ultrapassam, de tal modo que o próprio Kant observou que o dever descoberto pela consciência pode até contrariar o interesse da Lei Natural na contingência da experiência.
Parece-me que Kant começa a fazer uma escolha, mas não a quer ter esclarecida, afinal de contas. Uma coisa estranha, num filósofo do Esclarecimento.
Ele não quer a Fé num transcendente, mas procura a Gnose do criador de uma natureza que contenha a finalidade total, de origem transcendente, embutida dentro da contingência. Isso é um procedimento de um Furioso, obviamente.