Guerreiros da Luz, livro por Daniel MASTRAL

Apesar de irritante, o testemunho adicional da esposa de Daniel Mastral, Isabela, fez a diferença por tornar a situação mais humana, mais densa, e mais compreensível, especialmente no entendimento de como as pessoas são ignorantes das coisas espirituais, mesmo quando elas têm, muitas vezes, razões para considerar as coisas com maior prudência.

Alguns pontos de observação a partir desta leitura:

1. Deus, seu Amor e seu Poder, continuam ainda pequenos demais, como que em “guerra” contra o Mal, reconhecidos por relação como o “maior” numa equação que ainda confunde e mistura o que é divino com o que não é. Deus é muito, infinitamente mais poderoso e Absoluto do que se dá a entender neste testemunho;

2. Mastral é ingênuo demais, e na sua vontade de ter uma vida “normal”, deixou passar a oportunidade de ver as coisas com muito maior profundidade espiritual. Querer viver no mundo, neste mesmo mundo governado pelas Trevas, como se isso fosse algum tipo de vantagem, apenas fingindo que a ação do Mal não existe, é algo impróprio para o tamanho do livramento que ele recebeu. Sua salvação foi oportuna para uma liberdade muito maior do que a convencionalidade de uma vida “normal”, especialmente na busca do casamento e da paternidade;

3. A dependência de sinais e confirmações restringiu muito a pureza da vida espiritual de Mastral, para não dizer até que o tenha levado de volta à influência de forças demoníacas mais discretas. Enxergar que algo seja um sinal da vontade divina num sentido, como se tudo não o fosse em qualquer sentido que ignoramos, significa restringir formidavelmente o âmbito da ação de Deus. A confiança total e mais pura sempre constitui um caminho mais pleno, mas isto requer uma entrega maior. Mastral e sua esposa ainda querem mais poder do que amar. No caso dele, Daniel, em específico, parece ser muito considerável o dispositivo da sua alma voltado para a busca de confirmações de afeição, possivelmente nutrido e originalmente disparado por uma frustração familiar (possivelmente frieza da parte dos pais), gerando um padrão que mais tarde moldou a forma da sua vida espiritual, como se nunca lhe bastasse intuir ou simplesmente confiar num amor, mas fosse preciso uma garantia de alguma espécie;

4. Fica mais evidente ainda aquilo que já observamos anteriormente, que provavelmente a primeira grande abertura de Mastral para os demônios foi através da tentação da ira, que é uma particularmente poderosa manifestação do Orgulho. É recomendável a associação que ele fez entre a prática do kung fu e a ira, pelo menos no contexto da sua própria vida espiritual. O problema é a pretensão do universalismo. O mal não estava no altar do seu mestre, na reverência, nos exercícios, etc., mas no que estas coisas significavam no coração de Mastral. A vida espiritual é interior;

5. A sucumbência diante do assalto do espírito de Terror, ou o Pacto com o Inferno, é muito óbvia e mostra o quanto Mastral, assim como sua esposa, esteve pouco disposto a aceitar o dom da Paixão. Isto não é difícil, quando é aceita em primeiro lugar a Justiça do Decreto de Gen 3,22. Igualmente, ele mostrou pouca ou nenhuma Vigilância diante das aparições de “anjos”, rituais religiosos, etc. Tudo o que ele entendia como reforço para a Fé, era na verdade o contrário. O que nos mostra que ou ele esteve muito enganado, ou estava querendo nos enganar a todos com essa história de conversão.

Por tudo isto, entre outras coisas que poderiam ser mais detalhadamente estudadas, o terceiro livro da série Filho do Fogo é bastante espiritualmente contraproducente.

Nota espiritual: 1,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria0
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Terror/Terror-Pacto com o Inferno0
Soberania/Gnosticismo0
Vigilância/Ingenuidade0
Discernimento/Psiquismo1
Nota final1,1

“O Reino Físico, o que é? Pura ilusão”

Citação L0032-C01, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.

Aqui temos uma manifestação de Isabela, a irritante esposa de Mastral, que aqui acabou por dar um tremendo testemunho gnóstico, assim, do nada, como se isso tivesse alguma coisa a ver com as coisas divinas, ou com o próprio Evangelho.

São dois problemas.

Em primeiro lugar ela fala de um tal “Reino Físico”, que eu nem sei bem o que é.

Tenho conhecimento de algo que nós chamamos de realidade: uma realidade em que existem experiências sensíveis, ou físicas, que possuem uma forma lógica, ou psíquica, e um sentido finalístico ou teleológico, ou espiritual. Tudo isso está junto numa só realidade que Deus criou.

Quando Isabela afirma que existe um “Reino Físico”, o que ela quer dizer? Que existem realidades paralelas? Ou dimensões paralelas? Ela não esclarece. Do nada tira da cartola esse conceito que não é bíblico, ou pelo menos não num sentido rigoroso. Fala-se, por exemplo, das coisas que se vêem, em contraste com as coisas que não se vêem, mas isso não configura a consistência de “reinos” separados. Isto é, ela está inventando alguma coisa, ou misturando alguma invenção que aprendeu em algum outro lugar (não no Evangelho).

Daí ela não só faz uma separação entre o que é Físico e o que é Espiritual em dois “reinos” diferentes, mas afirma que o “Reino Físico” é pura ilusão.

Essa é uma formulação totalmente gnóstica.

Jesus Cristo, o Filho de Deus, não tomou a forma de Filho do Homem, e nem ressuscitou também como Filho do Homem, para que nós acreditemos que o Reino Físico é pura ilusão. Ao contrário: a fisicalidade, ou corporeidade, foi totalmente justificada tanto pela Encarnação quanto pela Ressurreição. O Evangelho é o túmulo do Gnosticismo. Pelo menos para aqueles que crêem.

Uma parte do engano gnóstico é derivado da confusão entre o que é a verdadeira separação entre Luz e Trevas, uma Obra totalmente concentrada na vida espiritual, isto é, no sentido das coisas, com uma suposta separação entre esses “reinos” físico e espiritual. Isso decorre da falta dos dons divinos de Presença, Soberania e Discernimento, entre outros.

Por fim, Isabela afirma que Deus não resolve as coisas sozinho, o que em outras palavras significa: a Salvação não é uma Obra exclusivamente divina, ou seja, não é uma Graça pura.

E Deus não faria isso sozinho porque isso não nos traria nenhum conhecimento, ou aprendizado, ou seja, nenhuma Gnose.

Quer dizer, traduzindo: Deus não nos salva, Ele nos ensina o conhecimento através do qual nós nos salvamos a nós mesmos.

Gnosticismo puro.

Não tenho nada a objetar que as pessoas queiram ser gnósticas, se esta for a sua escolha que desde a Eternidade foi permitida por Deus. Meu problema é chamar esse tipo de doutrina de “cristã”. Porque isso não é, nunca foi, e jamais será.

Parece que Mastral, já bastante atrapalhado e confuso na sua própria experiência espiritual, ganhou um poderoso aporte de confusão da sua companheira. É como se diz: cônjuge é aquela pessoa que está sempre ao seu lado te ajudando a resolver os problemas que você não teria se fosse solteiro.

O medo da solidão é uma desgraça, uma grande porta aberta para o Inferno.

Mas os testemunhos ainda não acabaram. Sejamos generosos e esperemos que a qualquer momento na leitura esses enganos sejam remediados.

“Como se Deus confirmasse a nossa aliança, é isso?”

Citação L0032-C02, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.

Parece que essa aliança de Daniel com Isabela tem como função o engano mútuo a respeito daquilo que tem a aparência do divino, mas que não é.

Eis o que é divino: a confiança no Amor do Pai.

Eis o que parece ser divino, mas não é: a aparência do Poder de Deus.

Se Daniel e Isabela se interessassem pela própria Palavra de Deus, ao invés de se dedicar tanto a reuniões religiosas, rituais de livramento, grupos de oração, etc., enfim, se eles se interessassem mais por Deus do que pela Religião, aprenderiam do Apóstolo Paulo que até o diabo pode se travestir de anjo de luz.

Tudo, absolutamente tudo o que me faz confiar mais no Amor divino sem garantias, sempre me aproxima de Deus.

Igualmente, tudo o que me faz confiar menos no Amor divino procurando garantias e sinais do Poder, sempre me distancia de Deus.

É por essa razão, inclusive, que aquele escritório de advocacia chamado Inferno peticiona e ganha o deferimento, junto a Deus, da permissão para enganar os incrédulos com manifestações impressionantes, como aparições angélicas. Este é o mesmo dispositivo que será usado ad nauseam no Fim dos Tempos, quando o Anticristo, bem como o Falso Profeta, receberá grande autoridade para enganar todas as nações da Terra.

O testemunho do casal Mastral nos prova cabalmente o quanto a Religião é corrosiva, destrutiva, da verdadeira vida espiritual.

A entrega a Deus deve ser total: a aceitação de todos os decretos divinos, até a morte. Quem faz essa entrega pode continuar vivendo com medo, como é muito natural e humano que ocorra, mas não vai trocar essa entrega, mesmo com medo, por garantias de proteções que sirvam para a falsa sensação de segurança nesta tão efêmera passagem por este mundo.

Daniel Mastral deveria saber que as boas sensações subjetivas são enganosas, porque na sua própria experiência do satanismo, na Irmandade, ele já tinha experimentado sensações muito boas que serviram apenas para o seu engano.

Também deveria saber que se ele se corrompeu pela visão de realidades interdimensionais antes, isso poderia continuar ocorrendo, apenas com o sinal trocado, ou seja, ao invés de simplesmente procurar um “outro lado” da disputa, seria mais prudente procurar o que está acima de todos os lados, ou seja, o Deus verdadeiro que é louvado e adorado exclusiva e diretamente, sem que seus anjos tenham que participar da particularidade da experiência humana.

Também deveria saber que, se ele mesmo já tinha notícia de que aquele local era suspeito, por sinais que sua inteligência já lhe tinha apontado, como a clara percepção de vasos marcados com sinais esotéricos, fora a sensação geral de desconforto e perigo, ele deveria receber o dom de Vigilância e virar a mesa em cima do seu culto religioso imediatamente, já que eles tinham escolhido aquele local. Porque eles foram incompetentes ou comprometidos. Os próprios satanistas mandaram a mensagem de que se ele estava no domínio deles, a culpa era dele. Por ser ingênuo, por rejeitar a Vigilância do Espírito Santo. A profunda carência emocional de Mastral lhe impediu de buscar uma vida espiritual independente de grupos, bem como uma vida sem a necessidade do tormento de namoros, noivados e casamentos. Foi assim que ele caiu nos braços do mal, desde sempre, através da ira e do desejo de pertencimento: a gangue da 29, os grupos de kung fu, a Irmandade, e finalmente a sua Igreja.

O que observamos, com tristeza, é que o que havia por trás da tremenda ira de Mastral, que ele sempre mostrou desde bem jovem, foi uma grande covardia de enfrentar a vida sozinho com Deus. Foi essa sua sucumbência diante do medo que o jogou nos braços de relacionamentos que mais o atormentaram do que o ajudaram no caminhar com Deus, bem como nos vários grupos que mais o distraíram, ou mesmo desviaram, do que o aproximaram da vida espiritual na Presença do Altíssimo.

Quando os vários satanistas membros da Irmandade mandaram mensagens, repetidas vezes, afirmando que Mastral ficaria sozinho, e que não haveria ninguém para ajudá-lo, isto era um óbvio sinal de que esse era o seu ponto fraco, o medo da solidão. Essa foi a brecha que serviu para ele ser intimidado, e para buscar refúgio em mentiras, como relacionamentos amorosos, ou grupos sociais, quando o único refúgio era a vida na Presença.

O patético da ilusão da salvação mútua do casal fica evidente pela linguagem empregada. “Como se Deus confirmasse a nossa aliança“. A que ponto chegamos? Quer dizer que o Altíssimo sobre todas as coisas moveria seus anjos para aparecerem para a confirmação da aliança entre esses dois filhos de Adão e Eva, para que eles apenas repetissem exatamente a mesma coisa, e como se não houvesse nada mais importante, como qualquer dom espiritual a respeito da Salvação? Isso é o cúmulo da Ingenuidade, já virou estupidez e total ignorância, e até mesmo narcisismo. É um gesto desesperado das duas partes do casal, como se fossem salvar um ao outro, e desejando que Deus fosse o fiador dessa insanidade.

Parece que tudo o que Daniel Mastral fez foi trocar um lado da Dialética do Ouroboros por outro: o da Revolução pelo da Tradição.

Por fim, devemos considerar aquilo que os autores, Daniel e Isabela, não quiseram: que o diabo é chamado por Jesus de Pai da Mentira.

Isso quer dizer que todos os enganos experimentados, seja através da visão de anjos, ou da confiança em instituições religiosas, foram permitidos com o subsídio legal da adesão ao espírito de Ingenuidade. Jesus mandou os cristãos serem astutos como as serpentes.

Mastral e sua esposa não fizeram isso, ou porque foram enganados, ou porque quiseram nos enganar. Isso só Deus sabe.

The Chosen (Os Escolhidos, T1), série por Dallas JENKINS

Análise S0008-E01/08, The Chosen, série por Dallas JENKINS.

Na primeira temporada desta série acompanhamos a história de Jesus Cristo do ponto de vista dos seus Apóstolos.

Recapitulemos brevemente os pontos de destaque de cada um dos oito episódios:

  1. Eu o chamei pelo nome:

Aqui Jesus vai exorcizar os demônios de Maria Madalena, uma tarefa na qual o rabino fariseu Nicodemos falhou. Porém, ele está numa pista boa. Ele diz para sua esposa: “será que Deus não pode ser mais bonito e estranho do que imaginamos?”

Os problemas de Nicodemos, porém, são os bens mundanos que ele ama acima de Deus, como a vida matrimonial, o prestígio como religioso, etc. Sua esposa debocha de sua sinceridade: “este é um compromisso sério. Eles esperam um professor erudito, não um tolo duvidoso e blasfemo.”

  1. Shabat:

Nicodemos começa a ter algum Discernimento, embora a série faça ao seu modo uma grande valorização do Sábado e das Tradições, em detrimento de culturas supostamente inferiores, como a da brutalidade romana.

  1. Jesus ama as criancinhas:

Aqui encontramos um testemunho da Presença e da Vigilância contra mestres e família, e a valorização da simplicidade da fé das crianças.

  1. A rocha sobre a qual foi construída:

Neste episódio, acompanhamos a transição da falta de fé de Simão (Pedro) até a rendição ao poder divino. A esposa de Pedro com muita razão o censura por ele querer resolver tudo sozinho por si mesmo. Ao fim, por ser humilde, ele recebe o resgate, através do milagre da multiplicação dos peixes.

  1. O presente de casamento:

Num flashback, Jesus chama o Templo de Jerusalém de “casa do meu Pai”. Até certo ponto isto está bom, porque Deus usa o simbolismo das coisas humanas para uma finalidade pedagógica. Mas o símbolo do Templo é ambíguo para os cristãos, dependendo da linhagem, se é mais espiritual ou religiosa.

Jesus aparece muito envolvido na aprovação do matrimônio, no episódio das Bodas de Caná. Ele não está simplesmente presente, abençoando e perdoando, mas parece endossar o costume. É um abuso da linguagem bíblica.

Não se faz referência nenhuma ao sentido do milagre do vinho, ou seja, de que o melhor vem depois, que é a própria Vida Eterna. Mas esse sentido espiritual do melhor vinho ao fim da festa não faria sentido se a festa fosse considerada a própria consumação da felicidade humana.

Foi aqui que a série começou a mostrar o seu comprometimento mais sério com a Tradição Universal, o Culto do Ouroboros.

  1. Compaixão indescritível:

O discernimento de Nicodemos cresce, Deus é maior que o testemunho (os rolos da Lei), e a Liberdade supera a Tradição (por definição).

Enquanto isso Jesus faz milagres para os judeus não terem desculpas de recusa. Era mais perfeita a confiança sem sinais, mas dessa dependência judaica do Poder nem João Batista escapou. É uma característica do povo de “cerviz dura”.

  1. Convites:

Neste episódio Jesus chama o fariseu Nicodemos, e o publicano Mateus. Ele avisa aos Apóstolos para pararem de discriminarem, ou o trabalho espiritual vai ficar impossível. Quem não entender o Amor vai ficar para trás na compreensão da Obra divina.

  1. Eu Sou Ele:

Quanto mais se é investido na vida, menos chance se tem de seguir Jesus. O discipulado custa alguma coisa. Se não custasse, seria a mornidão de Laodicéia.

Vemos os dois casos mais emblemáticos: o da escravidão do rabino Nicodemos que deixa um punhado de ouro mas se recusa a acompanhar os discípulos, e o da liberdade de Mateus que larga tudo para seguir Jesus.

Com a samaritana, ao fim do episódio e da primeira Temporada, descobrimos a revelação de que Deus é adorado no coração humano, sem necessidade de montes nem de templos. Um grande testemunho da vida na Presença.

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Em geral a série é boa, porque o poder libertador do Evangelho supera todas as maquinações religiosas. Vemos a mesma coisa acontecer em todas as Igrejas cristãs.

O problema da série é a Ingenuidade, justamente na falta de distinção entre a virtude espiritual e o defeito religioso, na valorização dos costumes judaicos, do Templo de Jerusalém, etc.

Quem são, afinal, os “Escolhidos”?

É uma raça, uma nação, uma religião?

Ou são todos aqueles que amam a Deus acima de tudo?

São aqueles que possuem o conhecimento (Gnose) a respeito de quem Deus é, pela posse de uma Revelação determinada, ou são aqueles que amam a Deus porque confiam Nele?

Se o grande engano que vai ameaçar os cristãos no fim é o próprio Cristianismo, o Culto do Mashiach ben Yosef, o Jesus da série The Chosen pode ser exatamente esse Filho de José, o Messias Sofredor, preparando o caminho para o Mashiach ben David, o Filho de Davi, o Messias Triunfante, que é ninguém menos que o Anticristo.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria7
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,6

“Se o próprio Deus criou o Mal, é porque ele mesmo tinha a maldade dentro dele.”

Continuemos o estudo, com a leitura e comentário de mais uma citação de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

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Aqui já estamos no pleno domínio da Abominação que confunde as coisas de Deus com as coisas dos homens e dos demônios. Façamos os esclarecimentos necessários, aproveitando a ocasião para destacar a distinção da santidade de Deus perante a miséria das criaturas, especialmente a das que são desobedientes.

Para começar, Deus não justifica os meios pelos fins, em nenhum momento, e esta crença é indigna do Criador. O que existe, da parte da criatura, é a confusão entre a sua própria ignorância da excelência da Obra divina, mesmo na escolha dos meios, e uma suposta arbitrariedade que violasse a integridade da Justiça divina.

Em segundo lugar, a morte não pode ser um “mal necessário”, desde que está escrito, por exemplo, que “Eu não tenho prazer na morte de quem quer que seja“, e também que “o salário do pecado é a morte“, etc. A aceitação da morte como parte de uma natureza compõe a cultura de normalização da mistura de luz e trevas, exatamente o oposto do Discernimento e da Obra de Separação. Foram as decisões dos nossos antepassados, e as da nossa raça até hoje, que causaram e continuam causando a morte. Apenas por um aspecto isto já fica claro: quem não reproduz o Pecado Original, isto é, o Pacto Ouroboros, não contribui para a perpetuação da morte.

Em terceiro lugar, Bem e Mal não são relativos, os nossos conhecimentos do Bem e do Mal é que são relativos à limitação da nossa forma substancial, isto é, não podemos conhecer a verdade plena como só Deus pode. Por isso às vezes as coisas parecem ser de um modo agora, ou de outro modo noutro momento, ou para uma pessoa e então para a outra, etc.

Em quarto lugar, o Mal não foi criado por Deus, a Liberdade é que foi criada e, para que ela fosse real, a possibilidade do Mal sempre teve de ser igualmente real, como mera potência, para a efetividade da liberdade dos contingentes.

Em quinto lugar, todo o resto do argumento, baseado num raciocínio de causalidade eficiente, já é uma redução das qualidades formais e teleológicas que constituem o valor espiritual da liberdade humana, e sendo assim é completamente desprezível. Pode-se afirmar que os espíritos infernais agem de acordo com as leis dessa causalidade, mas isso somente depois da condicional legalidade das suas petições junto ao Altíssimo, que por sua vez requerem a confirmação dos mais importantes subsídios espirituais, especialmente o assentimento da liberdade humana. É o arbítrio humano que está em disputa, e não o controle dos instrumentos da ação posterior à permissão divina.

Como se vê, a extensão da correção de uma compacta coleção de mentiras precisa ter o dobro ou o triplo do volume que ela mesma ocupou. Mas tudo isso será devidamente vingado, mais dia, menos dia.

Ave Crux Spes Unica: O Caminho das Ovelhas

Por que a Cruz é a nossa única salvação?

Dispensado o engano da magia de sangue como impureza indigna da santidade divina, e justificado o modo pelo qual o Cordeiro de Deus “tira o pecado do mundo”, como já vimos, resta entender de que modo a Cruz representa uma salvação para a humanidade.

Quando Jesus afirma que ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, está indicando o sucesso do seu exemplo para que seja seguido: a Cruz, a Morte e a Ressurreição.

É preciso que experimentemos a medida de mistura determinada pela Providência divina (v. Razão Singular de Mistura Mínima), que simbolicamente está representada pela vida de Cruz, para que o nosso aceite ao Amor divino seja plenamente real.

Deus só pode ser adorado “em espírito e em verdade”. Isto é: não só nominalmente, simbolicamente, como através de uma representação, mas através de fatos concretos que exigem a nossa reação interior, livre, cheia de sentido espiritual.

Nossa integridade espiritual é inevitavelmente testada pelo peso da Cruz, e nosso arbítrio de aceite ou rejeição é exercido inequivocamente diante do Altíssimo. Podemos mentir para nós mesmos, e uns aos outros, mas não há mentira diante de Deus.

A Cruz é, assim, o Caminho das Ovelhas: é o Caminho da Obediência.

Essa Obediência, por sua vez, não é uma cegueira, como um fideísmo.

A Obediência é um fruto do dom da Humildade, do reconhecimento da santidade divina, e da nossa confissão do desejo pela salvação que vem exclusivamente do Amor divino.

Os Bodes, escravos de seus próprios desejos e da sua própria mentira de querer viver sem o Amor do Criador, medem a disposição de aceitação da Cruz, da parte das Ovelhas, como uma tola submissão, mas não percebem que eles é que são os escravos destinados à dispersão e dissolução. Os Bodes não entendem a confiança amorosa, porque não a desejam para si mesmos, e portanto medem a disposição das Ovelhas usando a sua régua distorcida e pervertida, porque só enxergam a submissão ao Poder e à Maldição à qual estão presos por escolha.

A Cruz é a única salvação porque a aceitação da experiência moral da mistura é um requisito para a passagem para o nosso destino. Sem aceitação da Cruz, não pode haver aceitação da Morte, e sem a aceitação de ambos, não pode haver Ressurreição.

“Cadê o Absoluto? Tudo é relativo… Tudo vai da interpretação!”

Vamos ler algumas passagens escolhidas do segundo volume da série Filho do Fogo, de Daniel Mastral, o livro intitulado “O Descortinar da Alta Magia“.

Nesta passagem lemos uma argumentação satanista (real ou inventada?) a respeito da integridade da revelação luciferiana, em contraste com as contradições e antinomias bíblicas, mais ou menos como os islâmicos argumentam, em defesa da suposta integridade do Corão.

Antes da leitura em si, lembremos que a mente humana opera dialeticamente de forma inevitável. Não há premissas, sejam satanistas ou islâmicas, ou de qualquer espécie, que não sejam ilimitadamente questionáveis. Pois o inquestionável é o autoevidente que subsiste num tal nível de pureza abstrativa, que nunca é o suficiente para explicar a totalidade da condição humana. Isto quer dizer que as nossas crenças, na maior parte dos casos, são acreditáveis justamente porque são questionáveis, o que torna o nosso assentimento imputável como uma decisão moral, e não uma mera constatação dedutiva. Vemos isso inclusive na doutrina do método científico, como com a Falseabilidade de Popper. Isto é primário demais, e não deveria ser preciso explicar. Vivemos um período tenebroso e ao mesmo tempo irônico: uma grande ignorância justamente na época da disseminação do conhecimento, na “Era da Informação”. O ser humano tem cada vez mais acesso à informações e cada vez menos capacidade de saber o que elas significam.

Para ficar claro, o ponto cego da argumentação abaixo é a própria arbitrariedade de aceitação das premissas da “revelação” satanista como se fossem autoevidentes, quando obviamente não o são. Um estudante primário de lógica deveria ser capaz de compreender isto em menos de cinco minutos.

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Como é que uma pessoa minimamente sagaz não se perguntaria se a suposta adulteração da Bíblia não tivesse se dado justamente em favor de uma manipulação satanista?

Como é que se poderia dispensar o mal feito em nome de Deus e da Bíblia, como uma ação justamente demoníaca, de usurpação e mentira?

Não denunciou Jesus ao diabo como o “pai da mentira“, e “mentiroso desde o princípio“? Também não denunciou a manipulação e adulteração do testemunho da Palavra, ao ponto de chamar aqueles religiosos que o perseguiram de filhos do diabo? E mais ainda, não disse ele que mesmo no futuro os verdadeiros cristãos seriam perseguidos por aqueles que acreditariam estarem fazendo a obra de Deus?

Sendo assim, é evidente que esta argumentação é um jogo rasteiro que só pode confundir os ignorantes.

Sim, a Verdade é uma só, e não é relativa, mas o Absoluto não é nossa propriedade, e esta é a razão da rebelião gnóstica contra o Criador, partindo do próprio espírito de Lúcifer, que não aceitou o limite do seu entendimento diante do seu Criador.

E é por isso que os satanistas gostam tanto de Lúcifer, porque este falso deus se dispõe à fazer negociatas e a trocar favores, bem ao gosto da imundície espiritual de seus seguidores. Gostam de um falso deus que está mais à sua disposição para fazer conspirações e barganhas, então no fim das contas eles todos se merecem.

Para que fique claro, a relatividade do conhecimento da Verdade divina é uma disposição determinada pela limitação da forma substancial de qualquer criatura. Isto não é inescapável por um capricho divino, mas por uma necessidade metafísica.

Só se pode aproximar da santidade divina quem oferece a pureza da confiança do seu próprio amor.

O desejo de domínio gnóstico, por sua vez, só pode possuir a falsidade do vazio dos ídolos, e a mentira dos demônios como falsos deuses.

O pensamento mágico não faz sentido para as coisas divinas

Enquanto, por um lado, a Magia significa uma capacidade ou um poder contingente, ligado aos paradigmas da escassez, da causalidade e da irreversibilidade, a Onipotência, por outro lado, significa a capacidade irrestrita de um Poder Absoluto.

Toda vez que encontramos algum testemunho, onde quer que seja, mesmo na Bíblia, que fale das coisas divinas como se falasse de coisas mágicas, ou seja, do exercício de um poder contingente, estamos, na melhor das hipóteses, lidando com uma confusão, como uma infelicidade na tradução de termos, e na pior das hipóteses, estamos lidando com mentiras que pretendem colocar, no lugar de Deus, aquele que é o Usurpador.

Não se pode, nem se deve, querer misturar as coisas divinas com as coisas não divinas, aquilo que é santo e puro com aquilo que não é.

Isto vale também, e de forma especial até, para o problema da Salvação.

O Amor de Deus é a própria essência divina: o centro e o motor do Poder divino, por assim dizer.

Se Deus ama, quem pode lhe impedir o seu gesto de salvação?

E se Deus salva, de que outro recurso Deus precisa fazer uso, senão da pura manifestação da sua Vontade soberana?

Não existe meio ou intermédio para ação divina, e nem existe uma terceira instância diante da qual a ação divina precise se justificar.

Quando Deus faz uso de um meio, ou parece justificar uma medida, essa maneira de proceder é apenas uma concessão da bondade divina às limitações do intelecto humano, ou uma garantia da consecução de alguma revelação profética, mas nunca pode ser tratado como uma referência a qualquer tipo de limitação por parte da Onipotência, o que por definição é sempre uma contradição.

Convém, porém, aos poderes das trevas, produzir a confusão entre as coisas divinas e as não divinas, para dirigir a adoração que é devida a Deus para outros alvos, como aos Avari que usurpam o Nome, e para impedir que os homens encontrem o verdadeiro repouso na suficiência do Amor divino, fazendo-os tentar a obtenção do controle da sua própria salvação, e idolatrando os meios causais no lugar da santidade divina. Isso pode levar inclusive a religiosidade cristã a repetir os enganos dos antigos paganismos de todo tipo de origem, como verificamos na cultura judaica, na greco-romana, etc.

“Os conceitos orientais tinham a ver com o que aprendi na Irmandade”

Quando afirmo que o Pacto Ouroboros é a Tradição Primordial, refiro-me a um princípio espiritual que unifica na origem toda a evolução da humanidade nos seus diversos ramos.

A idéia me foi sugerida por uma premissa comum nos estudos das religiões comparadas: a de que havia, nos primórdios da história humana, uma única religião que posteriormente foi dividida em tradições diversas. É claro que eu inverti o propósito comum do Perenialismo: identifiquei essa união primordial com a religião da Torre de Babel antes da dispersão causada por Deus em Gênesis 11, e depois fui mais além ainda, e identifiquei a Tradição Primordial com a Religião de Adão, a Religião do Homem, o Culto do Ouroboros.

Dito isso, as iniciações satânicas podem ter muitas formas e sabores, às vezes por caminhos aparentemente insuspeitos para a mente extremamente crédula e ingênua do ocidental comum.

O que pode haver de comum, enfim, entre, por exemplo, espiritismo ou necromancia, artes marciais, festas orgiásticas, maçonarias, a divulgação de ídolos da música e do cinema, sacrifícios de sangue, esoterismos ou ocultismos em geral, meditação transcendental, uso de drogas alucinógenas, yoga, bruxaria, o culto da democracia, pactos entre mafiosos, doutrinas gnósticas, rituais religiosos e organizações especializadas em chantagem?

São todas práticas potencialmente iniciáticas que revelam um aspecto daquela Tradição Primordial, do Culto do Ouroboros. O inimigo do homem diversifica nos investimentos que faz na sua Perdição.

Vamos ver o que nos diz o Daniel Mastral neste outro trecho de “O Descortinar da Alta Magia“:

A “verdade” que o autor está confirmando é aquela da Tradição Primordial: a Gnose que propõe que o homem seja o deus de si mesmo, capaz de manipular e dominar a natureza e a si mesmo para obter o seu próprio bem de forma totalmente independente do Amor divino.

Não podemos negar a realidade das energias, nem dos canais de acesso aos poderes ínferos (os “portais”, ou “chakras”), pois o que nos interessa não é o conhecimento da Multiplicidade que há debaixo da Unidade divina, mas sim a consciência da nossa decisão de confiar no Amor ou traí-lo em nome do Poder.

Há quem confunda a consistência da riqueza e do detalhe da Criação com a veracidade do propósito do uso desse conhecimento para finalidades que devem ser moralmente julgadas de forma independente. Isso se dá por influência dos espíritos de Idolatria e Ingenuidade, como consequência da rejeição aos dons de Presença e Vigilância, respectivamente.

“As religiões falsas não agradam nem a Deus nem a Lúcifer”

Quantas respostas certas existem à questão de “quanto é 2 + 2”? Uma só.

Mas quantas respostas erradas existem à mesma questão? Ilimitadas.

Dado um único Destino correto, que é a causa final da vida humana, qual seja, o aceite do Amor divino que abre as portas do Paraíso, qualquer caminho que não leve a esse Destino é enganoso, não importa qual seja a semelhança ou profundidade que possa ter em comparação com o único caminho bom e verdadeiro.

Assim, não há nenhum privilégio da parte do Satanismo em relação a qualquer outro tipo de doutrina, como se fosse possível que um caminho errado pudesse ser melhor, ou mais correto, que qualquer outro caminho igualmente errado.

O que existe é um grau de frieza mais puro, equivalente ao grau de quentura mais puro, que de certo modo pode instalar o satanista num nível mais verdadeiro de escolha por conta da justaposição do seu engano como uma inversão mais perfeitamente simétrica da Verdade. Mas isto seria um privilégio, ou alguma vantagem de algum tipo?

Vejamos esta passagem de O Descortinar da Alta Magia, de Mastral:

Esse testemunho identifica como verdade um Cristianismo que é antes muito mais uma religiosidade potencialmente tão enganosa quanto o Satanismo, do que uma Revelação divina. Eu mesmo já denunciei que o Cristianismo não passa do Culto do Mashiach ben Yosef.

A Verdade não pode ser produto de um culto humano, como uma religião. A Verdade só pode ser uma propriedade da essência divina. Assim, podemos e devemos afirmar que o EVANGELHO é a Verdade, sendo uma Revelação divina, uma Graça pura doada para a glória do Amor de Deus.

O Satanismo é tão incorreto e mentiroso, no seu objetivo, quanto qualquer outro tipo de “religiões falsas”, inclusive o próprio Cristianismo!

O máximo que existe é essa pureza negativa, a pureza da frieza da negação direta e mais explícita contra o Amor divino, mas que vantagem se pode atribuir a esse ponto de vista, em face de todos os outros tipos de engano?

E o pior de tudo –e aqui começamos a identificar um provável caminhar de Mastral em direção ao testemunho do espírito de Ingenuidade–, que vantagem temos na denúncia contra o Satanismo, se esta apenas nos joga nos braços do Cristianismo?

As religiões falsas agradam sim a Lúcifer, qualquer uma delas, inclusive o Cristianismo, porque elas afastam da pureza do Amor de Deus que é revelado no Evangelho de Jesus Cristo.