“As religiões falsas não agradam nem a Deus nem a Lúcifer”

Quantas respostas certas existem à questão de “quanto é 2 + 2”? Uma só.

Mas quantas respostas erradas existem à mesma questão? Ilimitadas.

Dado um único Destino correto, que é a causa final da vida humana, qual seja, o aceite do Amor divino que abre as portas do Paraíso, qualquer caminho que não leve a esse Destino é enganoso, não importa qual seja a semelhança ou profundidade que possa ter em comparação com o único caminho bom e verdadeiro.

Assim, não há nenhum privilégio da parte do Satanismo em relação a qualquer outro tipo de doutrina, como se fosse possível que um caminho errado pudesse ser melhor, ou mais correto, que qualquer outro caminho igualmente errado.

O que existe é um grau de frieza mais puro, equivalente ao grau de quentura mais puro, que de certo modo pode instalar o satanista num nível mais verdadeiro de escolha por conta da justaposição do seu engano como uma inversão mais perfeitamente simétrica da Verdade. Mas isto seria um privilégio, ou alguma vantagem de algum tipo?

Vejamos esta passagem de O Descortinar da Alta Magia, de Mastral:

Esse testemunho identifica como verdade um Cristianismo que é antes muito mais uma religiosidade potencialmente tão enganosa quanto o Satanismo, do que uma Revelação divina. Eu mesmo já denunciei que o Cristianismo não passa do Culto do Mashiach ben Yosef.

A Verdade não pode ser produto de um culto humano, como uma religião. A Verdade só pode ser uma propriedade da essência divina. Assim, podemos e devemos afirmar que o EVANGELHO é a Verdade, sendo uma Revelação divina, uma Graça pura doada para a glória do Amor de Deus.

O Satanismo é tão incorreto e mentiroso, no seu objetivo, quanto qualquer outro tipo de “religiões falsas”, inclusive o próprio Cristianismo!

O máximo que existe é essa pureza negativa, a pureza da frieza da negação direta e mais explícita contra o Amor divino, mas que vantagem se pode atribuir a esse ponto de vista, em face de todos os outros tipos de engano?

E o pior de tudo –e aqui começamos a identificar um provável caminhar de Mastral em direção ao testemunho do espírito de Ingenuidade–, que vantagem temos na denúncia contra o Satanismo, se esta apenas nos joga nos braços do Cristianismo?

As religiões falsas agradam sim a Lúcifer, qualquer uma delas, inclusive o Cristianismo, porque elas afastam da pureza do Amor de Deus que é revelado no Evangelho de Jesus Cristo.

“Tudo que produz uma ilusão é conceituado como ‘Magia’.”

Neste próximo trecho de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral, temos um testemunho que começa a se aproximar da síntese mais simples a respeito da essência das artes arcanas, ou mágicas:

O problema é que, por aproximado que este testemunho seja da essência das coisas, ele não alcança o âmago na sua maior simplicidade, além de constituir um tipo estranho, entre tantos outros, de “revelação” satânica.

Qual é o sentido, da parte de quem denuncia o Deus cristão, de chamar algo de “Verdade preestabelecida por Deus“? Antes, o discurso dos opositores da obra divina deveria chamar a Revelação divina de mentira. Essa linguagem usada por Mastral denuncia a provável perversão de um discurso original que teria outra consistência, ou ainda, com maior probabilidade, uma pura invenção de pueril credibilidade, isto é, feita para enganar pessoas ingênuas.

Além deste problema da legitimidade deste testemunho, é conveniente verificar que o mesmo não atinge, como falamos, a essência das coisas: em suma, o poder mágico de encantar nada mais é do que o poder de mentir.

A mentira é um produto do Intelecto que gera a imagem da verdade a partir de quaisquer subsídios mais ou menos críveis, movido por uma Vontade prévia de acreditar no que é falso.

O sucesso do efeito da mentira é totalmente dependente da disposição daquele que é enganado, pois sua Vontade primeiro teve de dispensar o dom de Vigilância, e acatar o espírito de Ingenuidade, para então mover o Intelecto na produção da imagem da verdade que será tomada por crível a partir de determinados indícios que serão arbitrariamente confiados.

Mastral não mostra isso com a clareza que conviria, ao menos não até este ponto. Então que fique claro o que ele não pôde ou não quis nos dizer: o poder na mentira está nas mãos do que é enganado por ela. Um mentiroso só tem poder sobre quem é ingênuo de acreditá-lo. Se a escritura já declarou “maldito o homem que confia no homem“, quem se pode dizer vítima inocente depois de receber o alerta da Revelação?

Assim, o poder que os satanistas tem de enganar o mundo inteiro é muito mais uma concessão da fraqueza das suas vítimas, do que uma força própria que lhes dá a condição de domínio. Antes de mais nada, foram os nossos pais que nos venderam ao diabo, como reféns do seu Pacto Ouroboros, e foi isso que constituiu a base da entronização do Príncipe das Trevas sobre este mundo, e não uma competência própria das forças demoníacas. Desde Adão e Eva, o poder da Serpente dependia de um arbítrio corrompido da parte de suas vítimas, ou seja, é um poder que se projeta sobre a fraqueza alheia, e não como uma potência própria, de modo que esse relacionamento espiritual entre os seres humanos decaídos e os espíritos das trevas constitua uma perversão do relacionamento entre os fiéis e Deus através do Amor que ampara a sua fraqueza.

Operando sempre como inversão das coisas espirituais, a relação dos homens corrompidos com os demônios imita, de forma pervertida, a relação dos homens fiéis com Deus: assim como Deus é encontrado na fraqueza humana que clama pelo seu Amor, o engano diabólico é encontrado na fraqueza humana que clama pelo engano da Mentira através da credibilidade da sua Ingenuidade.

“Os conceitos orientais tinham a ver com o que aprendi na Irmandade”

Quando afirmo que o Pacto Ouroboros é a Tradição Primordial, refiro-me a um princípio espiritual que unifica na origem toda a evolução da humanidade nos seus diversos ramos.

A idéia me foi sugerida por uma premissa comum nos estudos das religiões comparadas: a de que havia, nos primórdios da história humana, uma única religião que posteriormente foi dividida em tradições diversas. É claro que eu inverti o propósito comum do Perenialismo: identifiquei essa união primordial com a religião da Torre de Babel antes da dispersão causada por Deus em Gênesis 11, e depois fui mais além ainda, e identifiquei a Tradição Primordial com a Religião de Adão, a Religião do Homem, o Culto do Ouroboros.

Dito isso, as iniciações satânicas podem ter muitas formas e sabores, às vezes por caminhos aparentemente insuspeitos para a mente extremamente crédula e ingênua do ocidental comum.

O que pode haver de comum, enfim, entre, por exemplo, espiritismo ou necromancia, artes marciais, festas orgiásticas, maçonarias, a divulgação de ídolos da música e do cinema, sacrifícios de sangue, esoterismos ou ocultismos em geral, meditação transcendental, uso de drogas alucinógenas, yoga, bruxaria, o culto da democracia, pactos entre mafiosos, doutrinas gnósticas, rituais religiosos e organizações especializadas em chantagem?

São todas práticas potencialmente iniciáticas que revelam um aspecto daquela Tradição Primordial, do Culto do Ouroboros. O inimigo do homem diversifica nos investimentos que faz na sua Perdição.

Vamos ver o que nos diz o Daniel Mastral neste outro trecho de “O Descortinar da Alta Magia“:

A “verdade” que o autor está confirmando é aquela da Tradição Primordial: a Gnose que propõe que o homem seja o deus de si mesmo, capaz de manipular e dominar a natureza e a si mesmo para obter o seu próprio bem de forma totalmente independente do Amor divino.

Não podemos negar a realidade das energias, nem dos canais de acesso aos poderes ínferos (os “portais”, ou “chakras”), pois o que nos interessa não é o conhecimento da Multiplicidade que há debaixo da Unidade divina, mas sim a consciência da nossa decisão de confiar no Amor ou traí-lo em nome do Poder.

Há quem confunda a consistência da riqueza e do detalhe da Criação com a veracidade do propósito do uso desse conhecimento para finalidades que devem ser moralmente julgadas de forma independente. Isso se dá por influência dos espíritos de Idolatria e Ingenuidade, como consequência da rejeição aos dons de Presença e Vigilância, respectivamente.

O pensamento mágico não faz sentido para as coisas divinas

Enquanto, por um lado, a Magia significa uma capacidade ou um poder contingente, ligado aos paradigmas da escassez, da causalidade e da irreversibilidade, a Onipotência, por outro lado, significa a capacidade irrestrita de um Poder Absoluto.

Toda vez que encontramos algum testemunho, onde quer que seja, mesmo na Bíblia, que fale das coisas divinas como se falasse de coisas mágicas, ou seja, do exercício de um poder contingente, estamos, na melhor das hipóteses, lidando com uma confusão, como uma infelicidade na tradução de termos, e na pior das hipóteses, estamos lidando com mentiras que pretendem colocar, no lugar de Deus, aquele que é o Usurpador.

Não se pode, nem se deve, querer misturar as coisas divinas com as coisas não divinas, aquilo que é santo e puro com aquilo que não é.

Isto vale também, e de forma especial até, para o problema da Salvação.

O Amor de Deus é a própria essência divina: o centro e o motor do Poder divino, por assim dizer.

Se Deus ama, quem pode lhe impedir o seu gesto de salvação?

E se Deus salva, de que outro recurso Deus precisa fazer uso, senão da pura manifestação da sua Vontade soberana?

Não existe meio ou intermédio para ação divina, e nem existe uma terceira instância diante da qual a ação divina precise se justificar.

Quando Deus faz uso de um meio, ou parece justificar uma medida, essa maneira de proceder é apenas uma concessão da bondade divina às limitações do intelecto humano, ou uma garantia da consecução de alguma revelação profética, mas nunca pode ser tratado como uma referência a qualquer tipo de limitação por parte da Onipotência, o que por definição é sempre uma contradição.

Convém, porém, aos poderes das trevas, produzir a confusão entre as coisas divinas e as não divinas, para dirigir a adoração que é devida a Deus para outros alvos, como aos Avari que usurpam o Nome, e para impedir que os homens encontrem o verdadeiro repouso na suficiência do Amor divino, fazendo-os tentar a obtenção do controle da sua própria salvação, e idolatrando os meios causais no lugar da santidade divina. Isso pode levar inclusive a religiosidade cristã a repetir os enganos dos antigos paganismos de todo tipo de origem, como verificamos na cultura judaica, na greco-romana, etc.

“Cadê o Absoluto? Tudo é relativo… Tudo vai da interpretação!”

Vamos ler algumas passagens escolhidas do segundo volume da série Filho do Fogo, de Daniel Mastral, o livro intitulado “O Descortinar da Alta Magia“.

Nesta passagem lemos uma argumentação satanista (real ou inventada?) a respeito da integridade da revelação luciferiana, em contraste com as contradições e antinomias bíblicas, mais ou menos como os islâmicos argumentam, em defesa da suposta integridade do Corão.

Antes da leitura em si, lembremos que a mente humana opera dialeticamente de forma inevitável. Não há premissas, sejam satanistas ou islâmicas, ou de qualquer espécie, que não sejam ilimitadamente questionáveis. Pois o inquestionável é o autoevidente que subsiste num tal nível de pureza abstrativa, que nunca é o suficiente para explicar a totalidade da condição humana. Isto quer dizer que as nossas crenças, na maior parte dos casos, são acreditáveis justamente porque são questionáveis, o que torna o nosso assentimento imputável como uma decisão moral, e não uma mera constatação dedutiva. Vemos isso inclusive na doutrina do método científico, como com a Falseabilidade de Popper. Isto é primário demais, e não deveria ser preciso explicar. Vivemos um período tenebroso e ao mesmo tempo irônico: uma grande ignorância justamente na época da disseminação do conhecimento, na “Era da Informação”. O ser humano tem cada vez mais acesso à informações e cada vez menos capacidade de saber o que elas significam.

Para ficar claro, o ponto cego da argumentação abaixo é a própria arbitrariedade de aceitação das premissas da “revelação” satanista como se fossem autoevidentes, quando obviamente não o são. Um estudante primário de lógica deveria ser capaz de compreender isto em menos de cinco minutos.

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Como é que uma pessoa minimamente sagaz não se perguntaria se a suposta adulteração da Bíblia não tivesse se dado justamente em favor de uma manipulação satanista?

Como é que se poderia dispensar o mal feito em nome de Deus e da Bíblia, como uma ação justamente demoníaca, de usurpação e mentira?

Não denunciou Jesus ao diabo como o “pai da mentira“, e “mentiroso desde o princípio“? Também não denunciou a manipulação e adulteração do testemunho da Palavra, ao ponto de chamar aqueles religiosos que o perseguiram de filhos do diabo? E mais ainda, não disse ele que mesmo no futuro os verdadeiros cristãos seriam perseguidos por aqueles que acreditariam estarem fazendo a obra de Deus?

Sendo assim, é evidente que esta argumentação é um jogo rasteiro que só pode confundir os ignorantes.

Sim, a Verdade é uma só, e não é relativa, mas o Absoluto não é nossa propriedade, e esta é a razão da rebelião gnóstica contra o Criador, partindo do próprio espírito de Lúcifer, que não aceitou o limite do seu entendimento diante do seu Criador.

E é por isso que os satanistas gostam tanto de Lúcifer, porque este falso deus se dispõe à fazer negociatas e a trocar favores, bem ao gosto da imundície espiritual de seus seguidores. Gostam de um falso deus que está mais à sua disposição para fazer conspirações e barganhas, então no fim das contas eles todos se merecem.

Para que fique claro, a relatividade do conhecimento da Verdade divina é uma disposição determinada pela limitação da forma substancial de qualquer criatura. Isto não é inescapável por um capricho divino, mas por uma necessidade metafísica.

Só se pode aproximar da santidade divina quem oferece a pureza da confiança do seu próprio amor.

O desejo de domínio gnóstico, por sua vez, só pode possuir a falsidade do vazio dos ídolos, e a mentira dos demônios como falsos deuses.

Ave Crux Spes Unica: O Caminho das Ovelhas

Por que a Cruz é a nossa única salvação?

Dispensado o engano da magia de sangue como impureza indigna da santidade divina, e justificado o modo pelo qual o Cordeiro de Deus “tira o pecado do mundo”, como já vimos, resta entender de que modo a Cruz representa uma salvação para a humanidade.

Quando Jesus afirma que ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, está indicando o sucesso do seu exemplo para que seja seguido: a Cruz, a Morte e a Ressurreição.

É preciso que experimentemos a medida de mistura determinada pela Providência divina (v. Razão Singular de Mistura Mínima), que simbolicamente está representada pela vida de Cruz, para que o nosso aceite ao Amor divino seja plenamente real.

Deus só pode ser adorado “em espírito e em verdade”. Isto é: não só nominalmente, simbolicamente, como através de uma representação, mas através de fatos concretos que exigem a nossa reação interior, livre, cheia de sentido espiritual.

Nossa integridade espiritual é inevitavelmente testada pelo peso da Cruz, e nosso arbítrio de aceite ou rejeição é exercido inequivocamente diante do Altíssimo. Podemos mentir para nós mesmos, e uns aos outros, mas não há mentira diante de Deus.

A Cruz é, assim, o Caminho das Ovelhas: é o Caminho da Obediência.

Essa Obediência, por sua vez, não é uma cegueira, como um fideísmo.

A Obediência é um fruto do dom da Humildade, do reconhecimento da santidade divina, e da nossa confissão do desejo pela salvação que vem exclusivamente do Amor divino.

Os Bodes, escravos de seus próprios desejos e da sua própria mentira de querer viver sem o Amor do Criador, medem a disposição de aceitação da Cruz, da parte das Ovelhas, como uma tola submissão, mas não percebem que eles é que são os escravos destinados à dispersão e dissolução. Os Bodes não entendem a confiança amorosa, porque não a desejam para si mesmos, e portanto medem a disposição das Ovelhas usando a sua régua distorcida e pervertida, porque só enxergam a submissão ao Poder e à Maldição à qual estão presos por escolha.

A Cruz é a única salvação porque a aceitação da experiência moral da mistura é um requisito para a passagem para o nosso destino. Sem aceitação da Cruz, não pode haver aceitação da Morte, e sem a aceitação de ambos, não pode haver Ressurreição.

A importância da mistura de Luz e Trevas na Bíblia para o Discernimento

Nas leituras que já fiz dos livros de Daniel Mastral até agora (da série Filho do Fogo), a pedido de um seguidor, fica evidente, seja aquilo realidade, ou ficção, ou ainda uma mistura de fatos com invenções, que é importante, no decorrer da suposta iniciação satânica, da denúncia dos absurdos da parte de Deus, conforme a leitura de diversas passagens, seja do Antigo, ou do Novo Testamento.

Embora não devam faltar, no futuro, oportunidades de tratar de passagens específicas que sigam esse tipo de raciocínio, é conveniente afirmar a importância do fato da mistura de Luz e Trevas no testemunho bíblico como oportunidade para o nosso Discernimento.

Começando pelo mais básico dos princípios, que já foi repassado várias vezes no meu trabalho, mas que não custa reiterar, é preciso distinguir com muita clareza entre o que é a Palavra de Deus em si mesma, do que é um testemunho da Palavra de Deus.

A Palavra de Deus é o Logos divino, ou seja, é o próprio Deus: a Palavra é, portanto, viva, eterna, absoluta, abscôndita, inefável, etc., ou seja, tem todas as qualidades da excepcionalidade divina.

Já o testemunho da Palavra de Deus, é um produto do Intelecto e da Vontade de qualquer mônada criada que pode fazer alguma afirmação sobre o que foi objeto de sua contemplação a respeito da natureza divina.

Qualquer testemunho da Palavra, por definição, não tem a inerrância e infalibilidade da Palavra de Deus nela mesma, e muito menos na reprodução do seu conteúdo que é ilimitadamente vulnerável a quaisquer interferências do arbítrio humano. Ou seja, a mesma liberdade humana que pode produzir, num dado momento, um testemunho fidedigno da Palavra de Deus, pode no momento seguinte errar, seja por lapso, ou por malícia, ou ainda pode ter o seu produto posteriormente submetido a nova possibilidade de erro, etc.

Bem entendido esse princípio, se Deus, na sua santidade, não pudesse ser desconfiado pelo arbítrio humano, mediante a ação de uma mentira com esse propósito específico, como Ele poderia ser confiado com igual usufruto do arbítrio humano?

Eis a importância da mistura de Luz e Trevas, não apenas de forma geral por todo o mundo, mas especificamente na corrupção do testemunho bíblico da Palavra de Deus: é necessário que a Liberdade humana se exerça com total potência, sem obstruções. Para esta finalidade foi preciso que o Usurpador se colocasse como se fosse deus, e que constituísse um falso conhecimento das coisas divinas, e uma falsa forma de culto do sagrado, para que cada ser humano exercesse a sua discricionariedade espiritual.

Portanto, não só não devemos estranhar o tipo de raciocínio da lógica satanista, mas ver nela a confirmação daquilo que já está anunciado no Apocalipse: que o sujo continue a sujar-se.

E para tanto, é preciso que haja os recursos necessários a esta decisão. Esta é a razão da mistura na Bíblia.

Toda alma humana deve ter, à sua disposição, o recurso da dúvida subsidiada por uma ambiguidade que força o arbítrio humano a definir a sua própria decisão. Por isso Isaías diz: “tu és um Deus que se esconde“, e também porque Jesus diz: “se a luz que há em ti forem trevas, quão grandes serão as trevas!“, etc.

Agnus Dei: como o Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo?

Se, a partir da hipótese do Pacto Ouroboros, o sacrifício ritual de sangue sempre foi instituído no âmbito do Pecado Original da aliança entre homens e demônios, enquanto o Deus verdadeiro sempre aceitou o sacrifício espiritual do Orgulho, isto é, um sacrifício de comunhão na forma de Humildade, como poderíamos entender a idéia de que Jesus Cristo é o Cordeiro de Deus, aquele que “tira o pecado do mundo”?

In limine, esta expressão poderia ter sido simplesmente apostada às Sagradas Escrituras para reforçar o Pacto Ouroboros, podendo ser discriminada à partir do Discernimento dos Espíritos.

Porém, convém avaliar como esta idéia é espiritualmente viável. E isto sempre, para todas as expressões bíblicas: a hipótese da corrupção, apesar de essencial, não deve ser usada como razão de dispensa ao Discernimento. Ao contrário, devemos nos sentir sempre mais incentivados a aprender o sentido das coisas diante de Deus.

Dito isso, podemos encontrar, na forma correta da adoração à Deus, ou seja, “em espírito em verdade”, duas possibilidades:

1. O Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo para os obedientes, ao liderar seus seguidores na aceitação da Cruz, ao ensinar a Humildade e a mansidão, e ao ordenar o Perdão como exigência da Lei do Amor. Isto imediatamente não apenas bloqueia a proliferação da ação maligna no mundo, como tende a remediar e até mesmo curar completamente os males produzidos nas almas, na medida em que a fidelidade à Jesus como Filho de Deus se espalha pela Terra;

    2. O Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo para os desobedientes, ao ser aceito como sacrifício de sangue único e suficiente, de modo que possa ser interrompido o ciclo de violência da parte daqueles que temem o Inferno e que acham que compram a salvação através do ritual da religião cristã, praticando, se não o Arrependimento, pelo menos a Penitência, para não falar das práticas pagãs de pactos com os demônios através das outras formas de sacrifício de sangue.

    Qualquer idéia mística que entenda a ação de salvação que vem de Jesus como um recurso mágico e não espiritual, isto é, como um Poder divorciado do Intelecto e da Vontade, serve apenas para justificação social do segundo tipo de possibilidade que foi acima aventado.

      Teeteto, livro por PLATÃO

      O que é o Conhecimento?

      Essa é a pergunta do Teeteto de Platão, uma questão espistemológica que corresponde à dificuldade do pedido para que uma pessoa enxergue os seus próprios olhos, ou do pedido a um peixe para que ele defina no que consiste o nadar. Se a operação elementar da mônada é a Percepção, como ela pode qualificar essa ação em comparação com algum outro ato que não seja o mesmo?

      É claro que só podemos ver nossos olhos através de um espelho, ou seja, de um reflexo, e que esta visão não é tão perfeita ou direta quanto a das outras coisas. Essa dificuldade pode ser aceita, ou não, conforme a pessoa seja mais amorosa ou mais furiosa a respeito do domínio gnóstico da realidade.

      A própria importância da pergunta já denuncia um certo sabor gnóstico, derivado de uma perspectiva de desconfiança misturada com a curiosidade natural. Na experiência ordinária, traduzimos conhecer por saber, ou por perceber, ou por intuir, ou por entender, ou por inteligir, etc., meio que indiscriminadamente. Detalhamos apenas um conceito ou uma definição mais precisa, pelo que seja necessário a uma finalidade exterior. Uma dessas finalidades pode ser a dúvida gnóstica a respeito da integridade da experiência humana.

      A Filosofia se inaugura sob os auspícios da pretensão de possuir uma episteme acima de toda doxa. Nesse intuito é claro que é preciso produzir uma epistemologia que sirva como crítica da opinião, ou da imagem da verdade.

      O que nós precisamos nos perguntar é: até que ponto isso convém a nós?

      Monadofilicamente, o conhecimento é o produto da Percepção, enquanto conteúdo de consciência. Se este produto é obtido pela sensação, ou pela memória, ou pela imaginação, etc., isso já é indiferente e posterior ao dado da Percepção enquanto ação do Intelecto humano.

      Mas vejamos a abordagem platônica do tema.

      Até aqui, tudo bem. A afirmação de Teeteto é razoável e intuitiva.

      Mas é claro que não pode ser satisfatório. Mais adiante, para construir essa insatisfação, encontramos uma proposta interessante.

      Sócrates fez Teeteto afirmar, ao longo do caminho, que aquilo que aparece também possui ser. Mas reparem que isso não foi originalmente afirmado por Teeteto, que apenas afirmou a primeira parte da proposição socrática, ou seja, que a percepção é conhecimento.

      Platão não aceita que a Percepção conheça apenas a representação das coisas, e não as coisas mesmas, pois ele procura justamente ligar sua epistemologia à ontologia: ele precisa que o ser humano conheça a verdade do ser tal como é, e não apenas tal como lhe pareça, caso contrário o ideal filosófico da episteme terá que ser abandonado.

      Dada essa premissa platônica, foi preciso forçar o argumento de Teeteto a afirmar o que não era originalmente dito: que a percepção produz o conhecimento da verdade do ser tal como é. Mas isto sempre será inviável.

      Mas qual seria a base do pensamento platônico, que lhe moveu a alma a desejar o reconhecimento da conexão entre ser e conhecer, entre ontologia e epistemologia?

      Abaixo encontramos uma pista, no próprio texto do Teeteto.

      A negação do Permanente, ou do Uno, era uma das idéias mais importantes a que Platão se dignou tratar e combater, com justiça, na defesa do princípio parmenídico da identidade do Ser.

      O problema platônico, e filosófico em geral, porém, será o de que se a experiência só nos dá o conhecimento do movimento, ou seja, da impermanência, mas só se poderia atribuir conhecimento a um ser que seja sempre igual a si próprio (imóvel na sua própria idéia, ou forma), ou não conheceríamos jamais nada que tenha substância, nenhuma verdade, ou teríamos que conhecer, através do mutável, o permanente que o sustenta como fundamento, o que é exatamente a solução platônica da teoria do Mundo das Idéias, como estrutura ontológica do Ser, e da teoria da Reminiscência, como estrutura espistemológica do Saber.

      O que escapou a Platão, pelo menos no contexto do Teeteto, foi que a solução mais direta ao problema do conhecimento se dá não pela multiplicação dos mundos e dos processos, mas pela hipótese da Substância Simples, ou Mônada, que possui a integridade da verdade incognoscível da sua singularidade, com o potencial produtivo de toda multiplicidade como reflexo do seu ser, de modo que qualquer conhecimento é apenas produto da simples Percepção como ação do Intelecto. Não é preciso atribuir substancialidade a nada fora da Mônada, já que isso é o que complica toda a ontologia, bem como toda a epistemologia.

      Ora, “não vê” não é idêntico a “não conhece“, porque lembrar mesmo sem ver pode ser o mesmo que conhecer por ver, como por reflexo num espelho, no caso da visão. Essa lógica deriva da diminuição do conceito de Percepção, que deixa de ser todo ato de conhecer do Intelecto, sob qualquer forma, e passa a ser meramente a percepção derivada dos sentidos. Se não diminuísse o seu conceito de Percepção, Platão não precisaria recusar a sua aplicabilidade ao caso da memória. Por esse tipo de procedimento se vê como a diferença entre filósofos e sofistas é mais ideal do que real, no fim das contas.

      Em seguida, entre as partes mais significativas do diálogo, encontramos, quase que numa total mudança de assunto, um belo discurso de elogio da liberdade do amante da Verdade, em contraste com a escravidão daquele que deseja ter o poder sobre a mesma, ou seja, daquele que precisa ter razão, como por exemplo para vencer uma disputa.

      Digo que é quase que uma mudança total de assunto, porque no fundo não é realmente assim: o conhecimento, afinal, pode ser visto como uma dessas duas coisas, como objeto de busca amorosa, ou de desejo de domínio e poder, e isto certamente interfere muito na experiência da busca do mesmo.

      Vejamos este, que é um dos mais belos discursos platônicos:

      É uma pena que ao final do belo discurso em elogio à liberdade do filósofo, Platão escorregue no seu gnosticismo de mistura de bem com o mal, e da idéia da salvação pela ascese gnóstica, etc. Mas isto é perdoável com facilidade: bem entendido, o que Platão está reconhecendo é que a situação de confusão e mistura precisa ser desfeita de algum modo, e mesmo que ele se confunda com relação ao motivo da mistura e da forma da solução da situação, ele não deixa de desejar, de algum modo, aquilo que é divino como salvação para o homem.

      A boa intenção, no entanto, também não nos dispensa de criticar a metodologia platônica como um todo, principalmente em face de uma muito mais eficiente resposta espiritual. Buscando o domínio do conhecimento do Ser, mas obviamente impedido pela inefabilidade da singularidade monádica, Platão oferecerá o Mundo das Idéias como alternativa do que é permanente para o filósofo, em face do que é transitório na mera sensibilidade, e assim nos arrasta para a desconfiança da experiência ordinária da Percepção como ação intelectual de conhecer. O Intelecto torna-se propriedade dos gnósticos iniciados, os filósofos que não mais se distraem com as mentiras e ilusões da Percepção.

      Era mais simples reconhecer a estabilidade gnosiológica de aspectos do ser através da Percepção, sempre complementados pelo movimento da alma, por sua Apetição, desde uma Percepção até a próxima, mas isto requereria assumir que a Verdade transcende o homem, e que ele é salvo não por si mesmo enquanto filósofo que vai dominar o conhecimento do Ser, mas enquanto recipiente do amor divino que lhe transmite a Sua Glória através dessa Percepção, na forma mesmo da sua precisa limitação.

      O ideal humanista e antropocentrista começa a ganhar fôlego e profundidade com essas propostas filosóficas:

      Em suma: a verdade é fruto da educação, a qual possivelmente não pode ser melhor do que a que é provida por um filósofo (o que convém a Platão, et caterva), por outro lado não se pode conhecer algo de modo parcial, sem que o todo escape à Gnose hu mana, ou seja, sem que a ignorância permaneça como experiência determinante da condição humana, e que por fim é o raciocínio que fornece o conhecimento, e não a Percepção, ou a ação intelectual da intuição sobre a Percepção, quando esta não é refletida. Isto é pura idolatria humanista.

      Deus não fez o homem à sua imagem e semelhança para que tivesse a pretensão de por si conhecer as coisas (como se essas existissem nelas mesmas, ou como se nele a luz fosse um dom próprio de visão!), mas para que participasse do seu Amor enquanto ser iluminado para conhecer a Sua Glória na medida da sua forma limitada de ser.

      Reparem que o orgulho é imediatamente derivado da satisfação com o Bem, quando este não é apreciado na sua absoluta santidade e transcendência com relação ao humano: Platão falava da liberdade de amar a verdade, e assim fortaleceu seu espírito e o nosso próprio, na confiança dessa liberdade, mas logo em seguida passa a contar com a sua própria força e mérito para ser o possuidor dessa verdade, como um Alberich no Rio Reno. Perde, assim, a qualidade da sua liberdade inicial, derivada da contemplação amorosa.

      Em seguida, já avançando na construção da hipótese do Conhecimento como Reminiscência, Platão nos dá a imagem do registro do conhecimento na alma como a de um sinete numa superfície de cera:

      O que não é dito acima, mas que nos convém afirmar, é o grau da interferência no arbítrio humano na experiência da retenção do conhecimento, de modo que a qualidade da cera (moleza ou dureza, impureza ou pureza, etc.) corresponde aos atributos de Nitidez e Cristalinidade da Percepção, falando monadofilicamente, já como produtos da liberdade humana na ação da passividade da nossa atenção consciente (no caso da Nitidez), bem como na ação da atividade da nossa reflexão autoconsciente (no caso da Cristalinidade). Mas isto pode ficar ainda melhor, e ser maximamente otimizado do ponto de vista espiritual, através do Discernimento, com a hipótese da Metareflexividade: a qualidade do “sinete” que produz a Nitidez é definido pela Graça da luz divina, tanto quanto a qualidade da “cera” que retém a Percepção é a Cristalinidade da mônada, igualmente sustentada e animada pelo Espírito Santo de Deus. Assim, não depende tanto da educação, e nem das circunstâncias tais como a herança genética, ou meio de criação, mas da liberdade de aceitação ou não da Graça divina, a obtenção da qualidade da Percepção como origem de todo conhecimento possível. Voltamos, assim, do gnosticismo de Platão à vida moral de Sócrates, e daí para a iluminação divina como origem de todo saber.

      Será preciso um Aristóteles para dar seguimento ao problema da Epistemologia para além da teoria das Idéias platônicas, bem como será preciso o pleno desenvolvimento do combate entre aristotélicos-tomistas e agostinianos-franciscanos para que as opções ficassem claras à nossa geração.

      Ainda no âmbito do Teeteto, porém, devemos reconhecer o respeito de Platão ao seu mestre Sócrates, reconhecendo ao fim que as suas teses de explicação sobre a natureza do conhecimento, quais sejam, a de que o conhecimento é a percepção (tal como dada pelos sentidos), ou a de que o conhecimento é a opinião verdadeira acrescida de explicação racional, são insuficientes para dar a questão por resolvida. Sócrates, com a última palavra, decreta a sua sabedoria do não-saber, o que nos dá uma satisfação final com este trabalho platônico:

      Nota espiritual: 4,7 (Moriquendi)

      Humildade/Presunção7
      Presença/Idolatria5
      Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
      Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
      Soberania/Gnosticismo2
      Vigilância/Ingenuidade5
      Discernimento/Psiquismo4
      Nota final4,7

      Função dual das causas aristotélicas

      As causas Material e Eficiente da filosofia aristotélica caracterizam a qualidade objetiva da Percepção, como função para a agência moral da liberdade das Mônadas, ou ainda, conferem a qualidade da Nitidez da Percepção da qual deriva o conhecimento da Multiplicidade.

      Já as causas Formal e Final da mesma filosofia caracterizam a qualidade subjetiva da Percepção, ou a própria instância da atualização da liberdade, ou ainda, conferem a qualidade da Cristalinidade da Percepção da qual deriva a intuição da Unidade.

      A tentação do Poder, na forma da Idolatria, provém da obsessão com as causas Material e Eficiente, o saber de quê as coisas são feitas, e o de como elas são feitas, como território de domínio da psique humana pela Multiplicidade.

      Já a liberdade do Amor, na forma da vida na Presença, provém da apreciação das causas Formal e Final, o saber de quê as coisas são, e o de para o quê elas são, como território da contemplação amorosa do Ser como Unidade.

      Em suma: a riqueza objetiva da Percepção, no seu detalhe, é uma condição da atualização da liberdade das Mônadas criadas, de modo que o livre-arbítrio atribua quididade e finalidade para os seres conforme a sua conveniência e possa, assim, abrir-se para a Presença ou para a Idolatria.

      Quando falamos, por exemplo, da sublimação da inviolabilidade das causas, da irreversibilidade dos efeitos, e da finitude da escassez, falamos da escolha de crença na superação das qualidades derivadas da observação das causas Material e Eficiente, em favor de uma mais conveniente apreciação das causas Formal e Final.

      O par de causas Material-Eficiente tende ao Múltiplo e à dispersão, ou centrifugacidade da alma, enquanto o par de causas Formal-Final tende ao Uno e à concentração, ou centripetacidade da alma.