O Incondicionado no Prefácio da 2ª Edição da Crítica de Kant

Aquilo que nos impulsiona necessariamente a ir além dos limites da experiência é o incondicionado, que a razão exige necessariamente nas coisas em si mesmas e, com toda justiça, em todos os condicionados e, portanto, na série das condições como uma série completa. Se, quando se assume que o nosso conhecimento por experiência se regula pelos objetos como coisas em si mesmas, verifica-se que o incondicionado não poderia ser pensado sem contradição; se, ao contrário, quando se assume que a nossa representação das coisas, tal como nos são dadas, não se regula por estas como coisas em si mesmas, mas os objetos é que se regulam pelo nosso modo de representação, verifica-se que a contradição desaparece; e se, portanto, o incondicionado tem de ser encontrado não nas coisas enquanto as conhecemos (enquanto nos são dadas), mas sim enquanto não as conhecemos, enquanto coisas em si mesmas: assim se evidencia que tem fundamento aquilo que, no começo, assumíamos apenas a título de tentativa.”

Kant está nos dizendo que, por um lado, o Incondicionado é necessário para que o Condicionado seja possível, e que, por outro lado, se só possuímos conhecimento do que é Condicionado (ou através do Condicionado), o Incondicionado perde a sua qualidade de necessário, o que é impossível. Esta contradição só pode ser resolvida se considerarmos todo o conhecimento do Condicionado como uma representação de um conhecimento, e não como conhecimento direto.

Ele nada mais está fazendo do que uma recuperação de um dos temas mais antigos e importantes –se não for o mais importante–, da História da Filosofia: a diferença entre o que é por si e o que não é por si. Vejamos os nomes dados a esse contraste nas terminologias dos filósofos:

Parmênides-HeráclitoPermanenteTransitório
PlatãoIdéiaImagem
Aristóteles 1SubstânciaPredicado
Aristóteles 2PossibilidadeSer
Aristóteles 3FormaMatéria
Aristóteles 4EssênciaAcidente
Aristóteles 5AbstratoConcreto
Pitágoras-PlotinoUnoMúltiplo
AgostinhoAlmaMundo
Descartes 1Substância PensanteSubstância Extensa
Descartes 2Qualidade do DiscretoQualidade do Contínuo
Kant 1Coisa-em-SiRepresentação Fenomênica
Kant 2IncondicionadoCondicionado
LeibnizMônadaReflexo

Além da Filosofia, a Teologia também apresenta essa importante distinção na visão das coisas espirituais.

Quando Deus é chamado de “A Rocha”, por exemplo, estamos falando da mesma Substância permanente diante do qual todo os outros seres possuem uma substância derivada, ou relativa. Quando os Profetas acusam os ídolos afirmando que cada um é “Vazio”, é uma repetição da mesma coisa. Quando Deus diz para Adão, em Gênesis 3, que ele por si é apenas “pó”, é a mesma afirmação por novo ângulo. Já Jesus afirma que apenas uma coisa é necessária, e que devemos procurar em primeiro lugar o Reino de Deus diante do qual nada mais interessa (nada mesmo, inclusive a família, a religião, etc.), e ainda por cima diz que o Reino de Deus está dentro de cada um de nós. A contemplação disso é fundamental para o entendimento do dom da Presença.

Voltando ao Kant, procurando pelo “conceito racional transcendente do incondicionado”, que é a antiga Substância, ele tateia igualmente na direção da Unidade plotiniana e da Mônada leibniziana.

Ele verifica, com razão, que se conhecemos a verdade somente através dos objetos da experiência da transitoriedade, não podemos conceber o Incondicionado que é, aprioristicamente, necessário pela própria Razão, do contrário toda a lógica do pensamento é destruída, a começar pelo Princípio de Identidade. Só se pode preservar a necessidade do Incondicionado ao se relativizar o conhecimento obtido por experiência como uma representação da verdade, e não como domínio da mesma. Para que o Incondicionado mantenha a sua integridade, é preciso que o conhecimento experimental seja uma representação.

A repercussão dessa intuição é tremenda.

Monadofilicamente, por exemplo, afirmamos que as mônadas sem janelas do Leibniz só se conhecem pela mútua representação, de tal modo que todos amamos a Deus no fim das contas, através de vários reflexos, e é impossível conhecer o inefável, que é a singularidade monádica de outra pessoa (o tal do João não ama Maria, mas ama João na forma de Maria).

Também afirmamos, com tranquilidade, que é impossível uma mônada vir a ser por um processo natural de geração, tanto quanto é impossível que seja corrompida por um processo natural de entropia, podendo apenas ser criada ou aniquilada por ato puramente divino, resultando assim em absurda a hipótese de que qualquer alma humana dependa do processo natural de geração e corrupção da procriação animal da espécie para vir a ser.

As aplicações dessa intuição são intermináveis, é uma fonte ilimitada de sabedoria.

Tautologias da Razão no Prefácio da 2ª Edição da Crítica de Kant

Eles [cientistas modernos] compreenderam que a razão só entende aquilo que ela mesma produz.”

A física deve ser grata por procurar na natureza aquilo que a própria razão nela introduziu.”

Só podemos conhecer a priori das coisas aquilo que nós mesmos nelas colocamos.”

Qualquer gnosiologia responsável deveria concluir, ao fim da investigação do seu objeto, que a razão humana sempre vê a si mesma em reflexo quando abstrai totalmente a qualidade própria da representação. Nisto reconhecemos o mérito da filosofia kantiana que força a razão humana a reconhecer os seus próprios jogos. Mas porque esta investigação falhou na busca da noesis noeseos, a ponto de que a consecução desta filosofia não foi mais do que o engrandecimento do humanismo?

Poderíamos colocar a culpa nos discípulos, como sempre convém considerar, já que é uma situação tão comum, mas neste caso talvez não tanto assim. Se Kant assumisse como forma provável do ser aquela que mais conviesse a todos os possíveis contingentes, ele não poderia assumir a conveniência do Sumo Bem, nem que por hipótese? E se o fizesse, mesmo que dividindo claramente a tarefa da Razão Pura de uma Metafísica especulativa, não poderia progredir no avanço desta sem detrimento daquela? Talvez caiba-nos avaliar outras idéias da mente kantiana, como em suas Lições de Metafísica. O fato é que –e aí encontramos sem enganos a escolha do discipulado– seus sucessores decidiram erguer a Crítica ao cume mais elevado de todos, e este foi o legado histórico que recebemos até hoje. Mas não foi isso algo decorrente da escolha do mestre prussiano de trabalhar mais na ferramenta do que no produto final?

O fato é que a força do arbítrio humano sempre foi assustadora, e o prussiano, como tantos outros, talvez não tenha resistido ao puro medo dela. Ele precisava garantir a segurança moral do homem livre da Religião. Precisava expulsar o moralismo dogmático e fazê-lo sair por uma porta, para dar as boas vindas a um novo moralismo liberal e racional entrando por outra. Mas quando ele força a Razão humana a assumir a sua forma limitada, o que ele encontra, senão um arbítrio inexplicável? Diante da imagem e semelhança de Deus, não há forma de controle e de governo fora do autocracia do Amor divino, ao qual Kant não podia apelar. Ou seja, se todos os jogos humanos são arbitrados, este ser só pode fazer o bem porque o ama livremente, com aquele grau de pureza que assusta até hoje os críticos do voluntarismo escotista. Quando a Mônada se vê no espelho, pode encontrar nele a Esperança na forma da carência do Amor divino, mas também pode encontrar o terror do Nada que é o seu ser próprio. A convexidade da Mônada translúcida pode ser igualmente um convite ao Paraíso, bem como uma condenação ao Inferno. Estaria um neokantismo hoje pronto a reconhecer a Soberania da Mônada pela descoberta da Singularidade do Observador na Física, por exemplo? Ficamos na incógnita.

Segunda contraposição na citação de F. Bacon na C.R.P. de Kant

…e que estejam convencidos de que lutamos para assentar os fundamentos não de alguma seita ou opinião arbitrária, mas sim para a utilidade e o engrandecimento da humanidade.”

Continuemos com o contraponto à citação de Francis Bacon escolhida por Kant para a abertura da sua obra magna, a Crítica da Razão Pura.

Para um professor membro da Real Academia de Ciências de Berlim, até que o nosso cuidadoso e criterioso filósofo prussiano foi mais desleixado do que se poderia supor que seria ao escolher a supracitada frase de Bacon, porque não é difícil produzir o contraponto e ilustrar a inconsistência.

O referido autor quer que sejamos convencidos de que está fazendo um bem contrário a um mal, e designa o primeiro com os termos UTILIDADE e ENGRANDECIMENTO DA HUMANIDADE, em oposição ao que seria o assentamento de uma SEITA ou OPINIÃO ARBITRÁRIA.

Mas será que as idéias, respectivamente, de utilitarismo e de exaltação da humanidade (ou progresso), são tão separadas e opostas das idéias de seita e opinião arbitrária?

É o que se teria que ter como premissa autoevidente para que o argumento funcionasse. Mas não é o caso.

Por um lado, o utilitarismo, que é um sistema de valoração que atribui bondade ao que é útil e maldade ao que não é, ao contrário de ser uma verdade óbvia acima de qualquer questionamento, é uma idéia altamente questionável, especialmente do ponto de vista moral, mas não somente (dado o óbvio problema do relativismo de uma ética utilitarista).

Por outro lado, o humanismo, que é um outro sistema de valoração que atribui bondade ao ser humano e aos seus empreendimentos civilizacionais, culturais e históricos, também pode ser questionado facilmente, como aliás era o caso na cultura imediatamente antecedente, a medieval, para não falar da antiga.

Ambos, tanto utilitarismo quanto humanismo, podem ser aderidos como opiniões arbitrárias e também servir de base para a fundamentação de uma seita, como a seita dos iluministas, e acabam que devem ser, pois o contrário sempre é igualmente crível: que há valores superiores ao do critério de utilidade, assim como que há possíveis objetos superiores acima da devoção à idéia da humanidade.

Isso só poderia passar despercebido ao momento do Aufklärung justamente porque este movimento cultural faz parte da dialética histórica, ou seja, de um mero ajuste contra um excesso histórico que já havia produzido muita cristalização na outra direção, especialmente através da concentração de poder nas mãos da Igreja Católica. Esse era o verdadeiro problema, cuja solução iluminista, ao invés de temperar na medida certa e buscar uma correção mais afinada, causou excesso para o outro lado, o que teria então que ser novamente corrigido dialeticamente, e assim por diante.

Tudo ficaria mais fácil, ou, em outros termos, o ajuste seria mais refinado, se o ser humano se concentrasse no seu fenômeno moral como centro da sua realidade, e produzisse a visão de mundo mais adequada ao respeito à sua liberdade, ao invés de compensar um gnosticismo com o outro. Já falamos aqui sobre a dialética gnóstica do Ouroboros. Esse é o perigo constante das reações para os dois lados da história. A dor é real: uma agressão contra a liberdade humana, dom divino de um ser feito à imagem e semelhança do Criador. Mas a solução é falsa, pois custará a clareza da liberdade por outro lado. Exatamente como ocorre com os iluministas. Eles reagiram a uma dor causada pela opressão da liberdade em decorrência do dogmatismo da ortodoxia religiosa. Se apenas defendessem a realidade do império da liberdade, sua correção operaria com a restrição devida. Mas a pancada vem como uma reação violenta proporcional ao dano sentido, gerando um novo dogmatismo. Liberta-se do antropocentrismo que idolatrava o homem ideal do passado, religioso ortodoxo, para prender-se no antropocentrismo que idolatra o homem ideal do futuro, racionalista iluminista.

Jogou-se fora, na reação contra a forma concreta da fé religiosa, a sabedoria da fé como dom puro decorrente do fenômeno liberdade humana de crer, e entronizou-se assim esses totens como a Utilidade ou a Humanidade, em atitude de total desprezo ao Amor de Deus. A culpa por todas as insanidades iluministas deve recair sobre a Religião: se não fosse o abuso religioso, nunca teria havido a abuso da reação contra ele.

Além do desprezo ao Amor de Deus, há o desprezo ao próprio ser humano, algo que é irônico numa agenda humanista, mas esta é a realidade: o humanismo é anti-humanitário por violar, enquanto crença arbitrária no ídolo do homem, o verdadeiro valor humano que está na liberdade de crer num ideal muito superior ao humanista, que é o divino.

Rejeita-se não apenas o Amor de Deus, mas a própria Soberania humana.

A linguagem de Bacon, preferida por Kant para ilustrar a sua própria intenção, propõe crenças como razões contrárias ao pensamento de seita e ao arbítrio humano, uma óbvia cegueira, falta de visão da visão, noesis noeseos, que é a verdadeira consciência humana: consciência da liberdade, e da força da Vontade para arbitrar os objetos do Intelecto. Se os iluministas tivessem investigado isso, estariam muito mais pertos de realmente superar a escolástica medieval, pois corrigiria o que realmente carecia de correção, para não falar de destruição: a Gnose.

Porém, a citação de Bacon não se encontra no fim da Crítica, mas no seu começo, o que é significativo. Kant, ao seu modo, mesmo que ainda algo iludido com as luzes do racionalismo, pretende criticar o próprio sonho de Bacon e colocar-lhe limites, ainda que não pelas razões certas. Monadofilicamente, a obra do prussiano parece-me ambígua. Se considerarmos a sua preocupação de defender uma moral degradante em face do próprio Iluminismo, podemos tê-lo, senão como um verdadeiro amante da sabedoria, ao menos como um inimigo da ignorância, o que já é alguma coisa.

Revisão da origem dos Sindar e Teleri a partir da RSMM

Com a Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM) evidenciamos finalmente que embora nenhuma alma tenha jamais “pedido para nascer”, todas elas possuem a sua medida de experiência necessária para a solução ótima (Coruscância Calaquendi) que torna eventualmente conveniente o seu nascimento sob determinada condição, inclusive a Sindar.

Seria absurdo presumir que a acidentalidade da escolha particular de uma mônada interferisse nesse grau na experiência de uma outra. Esta dificuldade sempre me incomodou. Já havia reduzido o problema ontológico com a Mútua Representação, mas permanecia essa dificuldade da força das obras da carne como um arbítrio que, embora fosse sempre permitido por Deus, teria sua razão em suspenso. É claro que poderíamos manter essa razão no grande conjunto dos mistérios divinos, mas com a RSMM detectamos que a força da liberdade de cada mônada de carecer de certa experiência para alcançar o ponto ótimo de decisão, já conhecido desde a Eternidade por Deus, seria um fator muito mais determinante desse condicionamento do que a força de um terceiro.

Dito isso, qualquer alma particular poupada de nascer pela virtude de abstinência de seus potenciais pais num mundo determinado conserva em si a sua carência de experimentar a melhor condição possível, considerada a RSMM, em outra realidade em que seus pais realizem a sua potência generativa. Isso não só preserva a integridade da Mútua Representação, como reforça o aspecto interior da experiência humana com Deus, quase alcançando a analogia pura da Simulação. Em outros termos: a imitação de Cristo, ou a vocação da Abstenção do Poder, em nada interfere no destino das demais mônadas, mas apenas naquela que exerce a sua discricionariedade diante de Deus. A rejeição do Pecado Original é um ato totalmente interior: na sua intenção, na sua realização, e nos seus efeitos. Em nada convém que a arbitrariedade de uma mônada interfira no exercício da liberdade de outra diante de Deus. As coisas são como devem ser, se não exatamente, marginalmente próximas do ótimo com a variação mínima da latitude necessária para a própria RSMM.

Quem se abstém de agir com Presunção na reprodução das obras da carne, embora evite a causa de um malefício particular percebido como imediato, não tem o poder de poupar uma alma de passar pela experiência análoga em qualquer outra realidade, porque a necessidade dessa experiência é determinada pela RSMM do próprio nascituro. Vivemos todos sempre e apenas para Deus, na Presença. Aquele que evita a produção do mal realiza a sua ação diante de Deus, para se aproximar Dele. E aquele que nasce é vítima, por assim dizer, de si mesmo, desde que precisa realizar a sua liberdade com algum grau inescapável de experiência do mal. Não abolimos, assim, a realidade moral. A responsabilidade, na verdade, aumenta, porque a renúncia do mal não implica apenas na mudança de um acidente, mas sempre numa ação moral diante do Altíssimo. O amor ao próximo como dom de perdão pode atingir, através da compreensão disto, o seu auge: não depende daquele que é perdoado alcançar um benefício moral, mas daquele que perdoa, porque aceita a sua condição como Cruz determinada pela Providência. Vemos, assim, como a moralidade do Antinatalismo está perto e longe ao mesmo tempo da verdade da condição humana: compreende o mal da Pretensão e da irresponsabilidade moral, mas não entende como a realidade do nascimento é permitida por Deus para a realização da sua própria liberdade. Os que seguem esta linha de pensamento evitam, na sua cegueira, a graça de descobrirem o maior mérito da sua posição de rejeição do Pacto Ouroboros, que é a vida na Presença. E não vamos nos esquecer que tanto quanto a RSMM explica a necessidade que tais e quais almas nasçam na condição Sindar, ela também explica porque muitas devam experimentar a particularidade da paternidade e maternidade. Ninguém pode privar realmente uma alma de participar no Pecado Original: àquelas que prescindiriam dessa experiência, outra realidade já lhes seria providenciada, como esterilidade, acidentes, etc. Desejar que o outro não exerça a sua liberdade é na melhor das hipóteses um incômodo que não muda o dever-ser da mônada, e na pior é um indicador da dureza da alma daquele que quer interferir.

Resta-nos revisar a origem dos Teleri nos tempos interressurreicionais como exclusivamente dedicada às almas que sempre possuíram uma RSMM adequada a essa modalidade criativa. Deste modo, os filhos potenciais que nunca teriam a oportunidade de nascer como Sindar podem encarnar como Teleri, sempre uma multidão muito maior do que os que nasceram neste mundo. Mas os não nascidos por abstenção, se tivessem que nascer o farão de qualquer modo, em qualquer outra realidade que lhes seja apropriada, com pais dispostos, etc.

Antes entendíamos, erroneamente, que o ato de preservar uma alma de nascer numa condição particular como resultado de participação no Pacto Ouroboros teria o poder de enviá-la imediatamente à melhor condição de criação direta por Deus no âmbito do Milênio. Somente Deus teria esse poder, e o exerceria obviamente se isso correspondesse ao ótimo determinado pela RSMM de cada mônada. Se esse fosse o caso, porém, nenhum de nós teríamos o poder, ao contrário, de encarnar uma alma neste mundo, se ela pudesse ser criada em outro melhor. Não podemos assassinar quem não seria assassinado de qualquer forma, assim como não podemos poupar uma pessoa de experimentar o mal se isto for condição da RSMM, mas podemos apenas poupar a nós mesmos de experimentá-lo e produzi-lo. Se alguém tem que ser assassinado, por assim dizer, só podemos evitar que sejamos nós quem cometamos o crime, mas não que o crime em si seja cometido, se isto é uma experiência requerida por aquela mônada. Com a RSMM temos a medida delicada da fina fronteira entre Determinismo e Livre-Arbítrio: modificamos a nossa vontade livre, com a condição que aceitemos a impossibilidade de modificar a alheia.

Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM)

Assumida a premissa da Eleuteriodiceia que justificou a liberdade exercida como condição da perfeição da Coruscância, encontramos na esseidade da mônada uma carência tão própria de experiência do mal que a mesma pode ser entendida como tão única quanto a sua própria singularidade.

Isto é o que confunde a imaginação gnóstica na sua noção de complementaridade de luz e trevas, e de bem e mal: a liberdade de um contingente imperfeito. A mistura não é uma determinação derivada do ser divino, mas do criado, e é regulada pela sua vontade de experiência da imperfeição, ou seja, o desejo do mal é uma arbitrariedade da mônada criada. Isto precisa ser permitido, do contrário a mônada não pode escolher livremente a comunhão com o Amor divino pela eternidade, ou seja, não pode entrar no Paraíso. Epistemologicamente, diríamos que o desejo das trevas, ou do mal, corresponde ao requisito de autoconhecimento que a mônada possui antes de entregar-se ao Amor divino como única solução ao seu desejo de Bem. A obscuridade é a propriedade da mônada que por si não possui o seu bem. Conhecendo a si mesma, a mônada se entende como carente do Bem transcendente, e finalmente pode compreender como que a função do seu ser não é o de brilhar por si, mas o de refletir uma luz exterior.

Garantido o conhecimento pleno do Logos, temos por outro lado, no domínio da Onisciência divina, a noção precisa da medida própria de cada mônada na sua arbitragem particular, de tal modo que a Providência determina com precisão infalível qual deve ser a experiência de cada alma no grande concerto da Mútua Representação.

Conhecedor dos futuros contingentes, o Criador, pela sua arte divina, pode produzir o arranjo ótimo que fornece a oportunidade de realização da liberdade de cada mônada na harmonia total da mutualidade.

Essa medida, que podemos chamar de Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM), se encontra exatamente entre os extremos limites restritores, ou seja, entre todo o benefício que constitui a dissolução da Liberdade por um lado, e todo o malefício que seria invencível para o alcance da Liberdade de crença da mônada, por outro. Arbitrada contingencialmente e de solução variável no tempo, a RSMM só pode ser dominada pelo dom divino do Criador, embora possa ser intuída com variados graus de acerto por quem medite sobre isso.

Essa meditação certamente é uma das mais difíceis, dado o seu grau elevado de sutileza. Primeiro convém perceber como o Bem irrestrito extinguiria a possibilidade da Liberdade, como um oceano afogando uma vítima. Segundo, convém verificar como igualmente o Mal irrestrito sufocaria a crença livre da mônada, que apesar de poder desejar o Bem, só o faz dentro da sua capacidade. Por mais que essa capacidade seja arbitrada, Deus já conhece esse limite e nunca o ultrapassaria, pois o objetivo é a realização da liberdade dentro do escopo da possibilidade da mônada. Como podemos ver no diagrama acima, assim como a Cruz pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é ideal, ou seja, entre a experiência atual e o Bem divino, a RSMM pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é apetecido, ou seja, entre a experiência atual e o Bem presumido, arbitrado pela própria mônada. A experiência de vida mais humilde e mansa, na imitação de Cristo, é aquela em que, enxergando o mais valioso segmento da Cruz, livremente se aceita diminuir a diferença entre o percebido e o apetecido reduzindo a pretensão e, portanto, o sofrimento. O sofrimento da alma é gerado por ela mesma, pela desmesura da sua Pretensão, ou falta de Humildade. Nós geramos o nosso sofrimento. Há analogias em outras filosofias e linhas espirituais, como no “querer é sofrer” de Schopenhauer, ou no budismo, etc., embora somente a visão cristã supere o gnosticismo que desconfia da potência da realidade, e não somente da própria mônada na condição de experiência da Liberdade antes da Coruscância paradisíaca. Essas outras doutrinas podem ajudar no quesito do autoconhecimento necessário para se descobrir as trevas, mas não conseguem superar esta aporia, daí o seu desejo de morte através de conceitos de “absorção na Unidade”, “visão beatífica”, “união mística”, etc. Possuem a negação do mal, mas não conseguem afirmar um bem que não seja o universal, porque não compreendem a propriedade reflexiva da mônada, que é a sua virtude de amar o Criador. Essas doutrinas livram a alma do engano das virgens loucas que se dispersam com os elementos do mundo, mas não ensina a virtude das virgens prudentes que esperam o Noivo. Apenas o Filho de Deus encarnado Filho do Homem pôde prometer o bem próprio das criaturas enquanto tais, sem dissolução, sem absorção, etc., na comunhão perfeita onde há união sem confusão, em analogia com a natureza trinitária das pessoas divinas.

A soteriologia monadofílica, ou ciência da salvação da mônada, afirma que é salva a alma que realiza a sua Fé e Esperança no Amor divino, encontrando-se na sua medida própria que satisfaz a sua arbitragem particular.

Esta proximidade da liberdade da mônada com a condição da sua salvação dá a impressão de um processo de salvação próprio, de iluminação ou ascese, mas bem entendido o único elemento determinante do sucesso da mônada é negativo, como a passividade da Lua que tem como vocação brilhar na sua virtude de refletir a luz do Sol. A virtude humana é a aceitação do Amor divino, ou seja, o triunfo e a glória pertence totalmente ao Criador, restando-nos somente a nossa rendição em êxtase diante da majestade do seu Amor.

A importância da Perfeição para o Argumento Ontológico e a Eleuteriodiceia

Quem medita sobre a Perfeição encontra os grandes recursos das idéias de Limite e Infinito. Enquanto o Limite determina a forma do ser e, portanto, do alcance da sua potência em direção à Perfeição, o Infinito se impõe como necessário para que o primeiro ser se realize no seu próprio Limite.

A Perfeição é a completude de atingimento de possibilidades que só podem ser determinadas por um Limite. Sem o Limite não pode haver Perfeição nos contingentes, porque não haveria completude. Já o Infinito é a causa necessária para que o primeiro ser limitado se realizasse, dado que numa série causal qualquer se o primeiro causado não tivesse o seu limite determinado por um ser sem limites (o Infinito que é causa de si mesmo), a sua potência jamais seria realizada. Deriva-se, assim, da Perfeição, o Limite e o Infinito. Para que haja Perfeição, os dois são necessários.

Ora, se um ser contingente não fosse limitado, nenhum outro lhe seria compossível. Rejeitado qualquer monismo radical, qualquer ser existe no limite entre o que pode ser e o que não pode ser, limite que define a forma dos compossíveis. Mas se cada ser contém a sua perfeição própria, dada pela sua forma, a perfeição do Infinito não é menos possível, quanto é na verdade mais provável. Ocorre que se em um ser particular a perfeição é uma potência essencialmente formal e apenas acidentalmente real, no âmbito do Absoluto (ou seja, do Infinito) a perfeição deve ser real, pois se não o fosse outro ser potencialmente mais perfeito seria possível como real, o que é contraditório com o Absoluto.

A perfeição de qualquer contingente é potência apenas eventualmente atualizável. Já a perfeição do Absoluto, ou Infinito, além de possível deve igualmente ser real, ou existente. Se não o fosse, outro ser maior que contivesse essa qualidade teria que lhe superar, o que contraditaria a sua essência. Em outros termos: para que a Perfeição como qualidade do Infinito seja possível, ela deve ser real, pois o Perfeito sem limites que não é real não é perfeito, já que um outro possível lhe superaria, o que constituiria um limite ao seu ser e, portanto, uma contradição. Em suma: no contingente a perfeição é acidental, já no Absoluto, ou Infinito, a perfeição é essencial. O perfeito que não é real não é perfeito, a não ser nos contingentes, onde essa potência pode não se atualizar. A meditação a respeito de Deus deveria sempre respeitar essa qualidade formal dos conceitos de Infinito e Perfeição, e da necessidade de ambos. Foi isto o que Anselmo da Cantuária quis expressar no seu Argumento Ontológico: se Deus é considerado na sua qualidade presumida, Ele deve ser real necessariamente, por um atributo da sua forma. Escolasticamente se afirma, também, que em Deus não existe diferença entre o ente e a essência (Tomás de Aquino), e que o ser onde essa diferença é abolida não só é possível, como é necessário.

Além disso, encontramos a impossibilidade da hipótese do Paraíso imediato, sem a agência da Cruz, desde que este implica num grau de perfeição que contradiz qualquer falha no exercício da Liberdade das mônadas. A perfeição paradisíaca, por um lado, requer a presença de seres livres que constituam a maior bem-aventurança possível, sendo um paraíso sem liberdade uma contradição; por outro lado, requer uma experiência real de liberdade que lhe anteceda, em alguma medida de individuação que lhe permita a Coruscância de forma plena, ou seja, imaculada.

Esta meditação mostra como da Perfeição, já dada como necessária, se deriva alguma experiência de Cruz também como necessária. Esta necessidade não tem nada a ver com a teologia do sacrifício de sangue, como se supõe na teologia das religiões cristãs. Aliás, o sacrifício perfeito do Cordeiro deveria eliminar qualquer necessidade de sofrimento adicional a partir da conversão. Um convertido deveria ser imediatamente arrebatado assim que se desse a sua conversão. Ao contrário, Jesus indica que cada um deve carregar a sua cruz, independentemente da sua ação sacrificial que tem, na verdade, outra função espiritual (a da Revelação). A Cruz é necessária para que a perfeição paradisíaca se realize. Não há Paraíso sem Perfeição. E não há Perfeição onde tudo não tenha alcançado a sua completude. Duas coisas são incompossíveis, portanto, com o Paraíso: primeiro, a ausência da liberdade, que é a única realidade que torna a bem-aventurança uma plena glorificação do Criador, e segundo, a não realização desta liberdade no ato mesmo de aceitação dessa comunhão espiritual. O aceite deve anteceder a condição  paradisíaca em qualquer grau de perfeição menor, e isto é o que podemos chamar de Cruz no sentido mais universal, aplicável a todos os mundos possíveis, ou melhor, a todas as mônadas. A Coruscância, sendo a comunhão total sem defeitos, requer a Cruz como condição da realização da liberdade.

Citação de Francis Bacon na Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant

Kant é um filósofo iluminista que trabalha na conciliação entre o racionalismo de Descartes e o empirismo de Hume. A verdade deve ser um fruto que vem tanto da Razão quanto da experiência.

Nascido em 22 de Abril de 1724 em Königsberg, Prússia Oriental, sua contribuição ao Aufklärung não pôde evitar a consolidação do hiato entre as futuras filosofias continental e analítica.

O filósofo prussiano abre a sua Crítica da Razão Pura citando Francis Bacon:

Pedimos que os homens não o considerem [a Grande Restauração, ou renovação das ciências] uma opinião, mas um trabalho sério; e que estejam convencidos de que lutamos para assentar os fundamentos não de alguma seita ou opinião arbitrária, mas sim para a utilidade e o engrandecimento da humanidade.”

Esta é uma escolha curiosa de palavras. Nosso dever crítico é o de localizar e exprimir as premissas desse pensamento.

Como de qualquer outro, aliás. Talvez seja importante explicar isso aos meus alunos que ainda não tenham essa noção.

Entender algo é conhecer as suas causas.

Sócrates inaugurou a consciência disso quando inverteu a lógica sofística: ao invés de seguir adiante somando novos argumentos para levar a vítima à conclusão desejada, o que constitui uma ação de Poder sobre o outro, o desejo de dominar e escravizar com a imagem da verdade, um filósofo investiga na direção oposta, para trás, ao se questionar o que deveria ser verdade como premissa para que a idéia proposta seja verdadeira ela mesma, ou seja, uma ação que constitui um ato de Amor sobre o outro, o desejo de libertar da mentira e do engano.

Por isso se diz que um filósofo é um amante, porque ele exerce um ato amoroso, ama a Verdade e ama a liberdade do próximo de conhecê-la. E também por isso a filosofia cristã é uma idéia tão viável, porque é a prática, no âmbito intelectual, dos Mandamentos: amar a Deus e ao próximo, através do amor pela Verdade em si mesma, e através do amor pela libertação do próximo contra a escravidão da mentira.

Dada uma idéia, o entendimento deve buscar as suas causas e não os seus efeitos, por mais desejáveis que estes possam aparentemente ser. A corrupção provém da mentira que legitima uma idéia pelo desejo de alcançar a conclusão. A libertação faz o oposto. Danem-se os nossos interesses mesquinhos, a Verdade deve ser honrada, inclusive e principalmente contra os nossos desejos mais imediatos. Não quero saber dos efeitos do discurso. Quero saber das suas causas. O que as coisas significam? O que deve ser verdadeiro antes, para que uma idéia também o seja depois?

Na citação escolhida por Kant, Francis Bacon contrapõe, em primeiro lugar, a idéia de OPINIÃO com a de SERIEDADE, e em segundo lugar, as idéias de SEITA e OPINIÃO ARBITRÁRIA com as de UTILIDADE e ENGRANDECIMENTO DA HUMANIDADE.

Entender o que Francis Bacon disse, e portanto o que Kant subscreveu, requer entender o que significam essas contraposições.

Ora, comecemos com a seguinte questão: por que uma opinião não pode ser séria?

Se uma opinião é um tipo de idéia, o que torna uma idéia séria ou não séria, para que atribuamos seriedade ou não a ela?

Opinião, ou doxa, é uma imagem da verdade que substitui o conhecimento da mesma, enquanto Ciência, ou episteme, é o próprio conhecimento da verdade.

Evidentemente, quando se possui acesso ao que é verdadeiro, não é preciso e nem conveniente presumir o que de outro modo o seria. A quem sabe algo, presumir qualquer outra possibilidade a respeito do que é sabido significa o que se sabe, e portanto trair a si próprio. É claro que isso deve ser evitado.

O nosso problema é que a ignorância é tão fundamental e constitutiva da situação humana, que a capacidade de se possuir o conhecimento pleno e acabado sobre o que quer que seja termina por ser mais um ideal do que uma realidade. Justamente com certos objetos de abstração pura, como os dados pela geometria e pela matemática, nós alcançamos o grau de perfeição desse ideal, apenas para voltar nossa mente à realidade onde a nossa consciência não consegue atribuir o mesmo tipo de veracidade aos objetos da experiência sensível, mesmo quando possuímos o tipo de conhecimento técnico que nos permite dominar a natureza antes de compreendê-la.

Isto significa que a Opinião (doxa) existe, e deve existir necessariamente, para atribuir possibilidade (eikasia) ou verossimilhança (pistis) àquilo que ainda não se pode conhecer cientificamente (episteme) como mais provável (dianoia) ou mesmo como certo (noesis).

Por outro lado, o que é seriedade?

Seriedade é o tratamento digno que é merecido por uma pessoa, assunto ou coisa. Quer dizer respeitar, honrar, dignificar, etc. O contrário da seriedade é a leviandade, o jogo, a falsidade, etc.

Voltemos à questão, então: porque uma opinião não pode ser séria?

O que torna uma idéia séria ou não séria?

Uma idéia séria é aquela que honra o seu objeto ou assunto, enquanto uma idéia não séria é aquela que o trai com desrespeito.

Ora, honrar e respeitar é uma ação moral que implica ter o objeto como importante e sério.

Por outro lado, opinar é uma ação intelectual que produz uma imagem da verdade na ausência do conhecimento mais provável ou certo da mesma.

Por que uma idéia não pode, na ausência de um conhecimento mais provável ou certo do seu objeto, honrar e respeitá-lo mesmo assim?

A contradição não existe necessariamente, porque a ação moral e a ação intelectual se referem a gêneros diferentes de seres.

Moralmente, escolhemos respeitar ou não o objeto ao qual nos referimos.

Intelectualmente, porém, escolhemos produzir uma idéia que tem um tipo de credibilidade variável conforme possuamos ou não o conhecimento desejado.

Uma opinião pode honrar o seu objeto e tratá-lo seriamente, sem subir seu grau de entendimento ao nível da ciência, tão somente porque isso pode não ser possível dada a condição comum da ignorância humana.

Um assunto ou problema mantém indefinidamente o seu grau de seriedade, independentemente da ignorância daquele que o trata. É assim que sabemos que a guerra em Gaza ou a proliferação de armas nucleares são problemas sérios sobre os quais não há uma solução científica a respeito, mas muitas opiniões que devem ser sérias ao nível desses problemas.

É o que o artista faz com sua imaginação, é o que o político faz com a sua promessa de governo, é o que o crente faz com a sua fé, etc.

Um cientista pode e deve restringir as suas idéias, enquanto científicas, ao âmbito apenas do que pode ser dado como provável ou certo. Mas todos os demais seres humanos que NECESSITAM crer em algo antes de sabê-lo para simplesmente viverem as suas vidas não só podem como devem produzir uma opinião que busque ser a mais séria e responsável possível, dadas as limitações da condição humana e certos valores tidos como princípios gerais para todos os casos, como os que baseiam a moralidade comum.

Opiniões, portanto, não só podem ser sérias como devem ser.

A evidência disso está na realidade humana de cada dia onde, por exemplo, é totalmente comum e esperado a responsabilização moral de uma pessoa pela sua opinião. Se nenhuma opinião pudesse ser séria, nenhuma opinião poderia ser contestada seriamente, por exemplo, pela verificação das suas consequências e pela imputação de responsabilidade aos seus proponentes.

Pior ainda, a motivação por trás da Grande Restauração, ou renovação das ciências, é ela mesma uma opinião e e não uma certeza, dado que se fosse certo seria objeto de demonstração e não de apologia. Veremos isso com mais detalhe mais tarde ao tratar da segunda contraposição.

E para destruir de vez essa noção de contraposição entre opinião e seriedade, convém lembrar que o princípio de qualquer investigação científica é uma opinião inicial, que é tratada como hipótese sobre o verdadeiro, e portanto seriamente, para que se possa seguir para as próximas etapas do processo. Ainda mais, as premissas de qualquer investigação são tomadas como autoevidentes por um ato de crença, e não por uma exaustiva demonstração, do contrário o próprio progresso científico seria inviável. Acredita-se que tal e qual premissa é válida por ter sido eventualmente demonstrada como a mais provável, mas a qualquer momento um pesquisador pode revisar aquilo que se tinha como premissa de método, ao introduzir uma nova hipótese a respeito.

Com isso tudo temos que a primeira contrariedade sugerida por Francis Bacon, e subscrita por Kant, é uma figura de estilo e não um conceito rigoroso.

Ou seja, os nossos amigos aqui querem nos convencer de que são rigorosos no ato mesmo de nos provar que não o são, ao menos no uso mais ligeiro e corrido da linguagem, onde se assemelham aos demais pobres mortais que são cheios de opiniões.

O ideal de ciência é o desejo de libertação da opinião como um tipo inferior e indesejado de idéia.

Pois bem, esse ideal nunca foi realizado na existência humana, nem mesmo no âmbito da ciência, já que a certeza continua sendo extremamente restrita a objetos de pura abstração e o resto depende, no máximo, de opiniões mais qualificadas por diferentes graus de credibilidade. Isso chega ao ponto, com a Falseabilidade de Popper, da confissão de uma consciência da investigação científica como um método de se trocar opiniões menos sérias por outras mais sérias, mas que só podem continuar a ser defendidas exatamente porque podem ser contestadas, ou seja, porque não significam uma certeza. Fazer ciência, quem diria, é fazer opiniões sérias, marginalmente mais qualificadas, justamente aquilo que os iluministas queriam negar, ou seja, o que queriam negar aos outros mas não a si mesmos.

Se o ideal da libertação da opinião nunca foi realizado, isto quer dizer que não passa de um objeto de imaginação e crença nos corações e mentes dos homens. E essa é exatamente a imaginação e a crença do Gnosticismo, a vontade de se libertar da necessidade de crença através da Gnose.

Infelizmente para os gnósticos, isso nunca vai passar de um sonho e de uma farsa. É uma mentira. O Conhecimento pleno só é possível ao Ser pleno, que é Deus. E Deus só tem um. Qualquer ser finito terá, diante do pleno possível que só um Logos divino pode dominar, um conhecimento necessariamente limitado e, portanto, uma condição existencial de ignorância permanente.

A forma do ser humano, como a de qualquer ser contingente, contém uma limitação que o determina constitutivamente. No nosso caso, temos o grande privilégio de sermos feitos, à imagem e semelhança do Criador, com Intelecto e Vontade. Isso significa que, ao contrário dos demais seres, somos agentes morais que completam a sua Percepção com a Apercepção: sabemos que sabemos um pouco, e sabemos que não sabemos todo o resto. A consciência da limitação da nossa forma deveria instruir o nosso Intelecto a assumir a condição humana de ignorância atual com a escolha moral livre e responsável mais compatível e condizente com esta realidade: a opção pelos dons de Soberania e Humildade.

Nos primórdios da História da Filosofia nós temos, na origem do platonismo, essa dupla influência decisiva que vai demarcar o território das possibilidades de todo o futuro filosofar humano: o gnosticismo pitagórico, algo transhumanista, para não dizer prometéico (ou luciferiano), e a responsabilidade socrática, que antecipa na história das idéias o valor moral cristão de humildade e mansidão.

Na minha obra e no meu ensino deixo claro a todos a minha escolha: pela responsabilidade moral contra a ilusão gnóstica. Aqui tratamos de um exemplo disso.

Depois continuamos com a análise da segunda contraposição, entre as noções de “seita” e “opinião arbitrária”, e “utilidade” e “engrandecimento da humanidade”.

A divina comédia, livro por Dante ALIGHIERI

Comentário feito em anotações separadas, a serem lidas em vídeos próprios.

Esta visão é estritamente filosófica e espiritual, sem considerações de âmbito estético, de técnica poética, ou de ocultismo/esoterismo.

Nota espiritual: 2,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno2
Soberania/Gnosticismo1
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo2
Nota final2,9

A conspiração aquariana, livro por Marilyn FERGUSON

A ideia do livro rejeita as máximas bíblicas de que “não há nada de novo sob o sol”, e de que “o que está faltando não se pode contar”.

O livro quer tornar a Maldição não apenas aceitável como até mesmo desejável para o transcorrer de um processo de evolução.

Baseia-se nas idéias de Rejeição da Cruz e de Idealismo imanentista.

Acham que a revolução é exterior, mesmo quando dizem o contrário, porque a mudança do homem só serve para a mudança do mundo e da história.

Se fosse revolucionário de fato, o movimento questionaria o Pecado Original. Como não o faz, não passa de mais um recurso na dialética do Ouroboros para nos dar a ilusão de progresso e liberdade enquanto permanecemos escravizados. Fazem parte da mesma religião do homem, porque não tem a coragem de questionar o verdadeiro costume, a verdadeira Lei de seus antepassados, ou seja, a Usurpação contra o Criador.

A verdadeira revolução é a interior, cristã: o Caminho, a Verdade e a Vida – aceitar o mandamento do Amor divino, A Cruz, a Morte e a Ressurreição.

No cúmulo da ingenuidade , o livro apresenta a proposta transhumanista que é nada menos que a entrega da humanidade ao controle de forças ínferas de uma dimensão inferior, é a escolha de Alberich, a traição contra o Amor em busca do Poder.

O livro parece uma grande masturbação mental, uma esperança no futuro da humanidade sem nenhum fundamento sólido, uma transcendência falsa sem verdadeiro objeto (sem Deus, sem Eternidade).

A maior parte das pessoas que se julgam ilustradas pareceu ainda não compreender que o que há de mais moderno, evoluído e revolucionário é o Evangelho, e que nada pode superar esse nível divino de liberdade: a aceitação da Cruz, da Morte e da Ressurreição.

Deseja-se uma insanidade: viver num “mundo objetivo” que seja bom nele mesmo e para todos ao mesmo tempo, isto está completamente ultrapassado pela simplicidade da Mônada, com sua Percepção e Apetição.

O autor supõe que a mudança possui qualidade positiva para os sujeitos da evolução, uma visão antropocentrista ingênua; o que há é o processo de transformação, solve et coagula, ordo ab chaos etc, dissolução e cristalização do Poder, que é o produto final.

Temos a vantagem em retrospecto de ver no que deu de fato, em termos históricos, o entusiasmo e o otimismo da Conspiração Aquariana: um fiasco, a humanidade nunca esteve tão fraca e desorientada, indefesa na sua ignorância e falta de sabedoria.

Espanta sobretudo a ingenuidade diante das promessas da nova tecnologia: tanto a ideia de que o conhecimento se disseminaria (como se o interesse intelectual se propagasse junto com os meios difusores e o ser humano médio deixasse de ser o que é, uma pessoa perdida e desligada do sentido) e que o poder seria descentralizado. A California, que seria o centro da libertação da humanidade, se tornou a sede da dominação tecnológica global, da espionagem, da engenharia social, da tirania tecnocrática, para não falar do resultado da libertinagem na crise das drogas pesadas, miséria social, ruas literalmente cheia de zumbis e pilhas de merda, etc.

Em suma, onde a maior fonte de escravidão é o Pacto Ouroboros, a Conspiração Aquariana se apresenta como falsa liberdade que só muda a aparência do mesmo Velho jogo de poder.

O que temos na verdade é a Impotência Aquariana, que é a falha do poder de questionar a autoridade atual de reconhecer-se como parte do problema e superar seu próprio humanismo, encontrando a verdadeira solução na Transcendência (Peixes). Aquário sem Peixes é como o eterno retorno do Antropocentrismo sob novas vestes, apenas um novo engano.

Nota espiritual: 1,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção1
Presença/Idolatria0
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo1
Vigilância/Ingenuidade0
Discernimento/Psiquismo1
Nota Final1,9

Acreditavam os gregos em seus mitos?, livro por Paul VEYNE

Autor erudito e hábil

Estilo agradável e fluido

Sua ideia de polígono é análoga a minha concepção da Mônada : ente livre que produz uma versão da verdade desde o seu ponto de vista

Meus dois princípios sobre Mito e História

Função do Mito: transmitir uma ideia através do seu sentido

Função da História: evidenciar as verdades universais e fortalecer a Vigilância, destruir a ingenuidade, isto é, a crença na mentira histórica (a História é produzida e mantida pelos interesses de poderosos que se beneficiam da mentira -o segredo do poder é o poder do segredo)

O problema do autor não existe ou não tem importância : A realidade histórica do mito é irrelevante, porque qualquer verdade plena deve ser suprahistorica, independente da história , especialmente a da forma do Ser como Bem e Unidade, e portanto a Lei do Amor

A poesia é mais filosófica que a história (Aristóteles), pois nela as ideias são expressar numa forma mais pura, ou menos misturada pela contingência , é por isso que imaginamos estórias e as contamos uns aos outros, para explicar as ideias de sentido (vida espiritual, ou metafilosofica) de forma mais direta e profunda

Exemplos clássicos da sabedoria do Evangelho: Jesus costuma fazer uso de Parábolas para ensinar a verdade

Autor peca no seu historicismo típico da sociologia, entendendo-se como parte de uma geração iluminada , e tentando salvar os gregos de si mesmos, como se eles não pudessem ser tão toscos e pouco iluminados. Na verdade os gregos estavam mais próximos da verdade por a entenderem como suprahistorica, aletheia aposeixis, quanto mais acreditassem na veracidade do SENTIDO de seus mitos. Nesse ponto a obra é sintoma da grande decadência da intelectualidade moderna que quer descobrir uma verdade exterior, ou seja, fora da mônada , como num mundo objetivo num espaço-tempo , que é uma forma de idolatria

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Nota espiritual: 5,1 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo4
Nota Final5,1