Não é tão difícil assim conceber a hipótese de que num mundo decaído a desistência da participação no mesmo é um tipo de nobreza heróica.
Todos os que sempre se divertiram com a suposta absurdidade da filosofia cínica de Diógenes estão antes muito engajados com sua própria participação no esquema do mundo, principalmente em suas mentiras.
Uma grande obsessão de Diógenes era a de encontrar um homem honesto. Como cristãos, sabemos a quem ele buscava. Mas se Diógenes, ainda pagão, simplesmente ignorante, podia se frustrar na sua busca, embora se mantivesse fiel a ela até o fim, que direito temos nós, cientes da Revelação de Jesus, de sermos menos fiéis à verdade da vida humana neste mundo?
O que quero dizer é que com a Revelação Cristã nós temos tudo o que é necessário para completar o gesto de renúncia à mentira do mundo que se iniciou com a filosofia moral de Sócrates e de Diógenes. Temos hoje o que eles ainda não tinham: a decisão humana de rejeitar a Verdade plenamente. Isso nos permite rejeitar ao mundo também plenamente. A decisão dos Moriquendi está tomada. Os Calaquendi estão desembaraçados da mentira, libertos pelo Filho de Deus que se fez Filho do Homem.
O heroísmo da desistência é ensinado por Diógenes, que elogia a capacidade humana de rejeitar sua própria pretensão ao desistir de seus planos de poder e conquista. É uma atitude Noldor, pois honra o que podemos chamar de Princípio de Indeterminação das Mônadas. Este Princípio, que também podemos chamar de Singularidade Monádica (ou, ainda, de Inquilinato Espiritual), é o que revela que o ser humano aliado ao Amor de Deus reconhece imediatamente a escravidão dos papéis sociais de poder num mundo decaído. A um amante e amado de Deus, buscar o poder neste mundo (“sou isto”, “sou aquilo”, “fiz isto”, “fiz aquilo”) significa uma diminuição da sua substância, pois a promessa divina para cada mônada livre é muito superior a qualquer possibilidade de realização neste mundo decaído. O único poder legítimo é aquele determinado pela Providência divina que, por ser perfeitamente amorosa, é infalível. Toda perseguição de poder por parte das mônadas criadas implica na traição contra essa verdadeira autoridade.
Simbolicamente, este é o mistério da Lua Nova: na presença do Sol, o papel da Lua é o de se apagar para que brilhe a luz verdadeira. Quando cresce, por sua vez, a Lua Cheia não está plena de si mesma, mas da memória do Sol, grávida da luz verdadeira ela cumpre sua função de lembrar da verdade que não é sua propriedade, e então brilha dando testemunho dessa verdade que lhe transcende.
O heroísmo da desistência, postura da nobreza e da sabedoria Noldor, cumpre o que está dito: “fugir do mal, eis a inteligência”. Trata-se de clamar pelo dom divino da Vigilância, que nos permite enxergar sem medo a verdade deste mundo decaído e ter todas as forças não só para recusar a participação em seus crimes, mas também para dar o testemunho de sua corrupção e da alternativa de fidelidade ao Amor divino.
Alexandre, esse anticristo educado dentro da Filosofia consagrada, foi derrotado pelo testemunho de Diógenes, esse “filósofo menor”, que diante da pretensiosa e falsa majestade humana só viu o eclipse da majestade divina.
Tudo é Mente, ou Números, falando pitagoricamente, no livro Eu Robô de Isaac Asimov.
Não estaríamos tão mal assim se o problema fosse apenas a revisitação das idéias da filosofia pré-socrática. Infelizmente, porém, Asimov, não satisfeito com os problemas da humanidade passada, nos leva numa viagem em direção aos problemas da humanidade futura.
Com o progresso tecnológico o ser humano tende a expandir esta experiência que já faz parte do nosso presente: a vitória sobre as causas materiais e eficientes em detrimento da derrota sobre as formais e finais. Conseguimos viver cada vez mais e melhor, e com cada vez menos sentido. A robótica prometida por Asimov não chega a nenhuma outra conclusão. A humanidade ganhará o poder de calcular tudo ao mesmo tempo em que não vai entender a razão de mais nada. Digo “razão” naquele sentido mais profundo da vida humana: o telos, a finalidade, o motivo.
Não existe vida espiritual na ficção deste autor, embora saibamos melhor que tudo tem sentido espiritual, inclusive a recusa de dar sentido espiritual às coisas. Nosso guia que representa a sabedoria em Eu Robô é a psicóloga roboticista Susan Calvin. Eis um exemplo da sua grande sabedoria:
“Houve um tempo em que o homem enfrentou o universo sozinho e sem amigos. A humanidade não está mais sozinha.”
Até mesmo aqueles pagãos pré-socráticos chamavam o universo de Cosmos, indicando a confiança numa ordem superior, e entendendo o mundo como o seu lar, e não como uma realidade a ser enfrentada. Asimov obviamente começa já declarando a sua premissa gnóstica. Se existe uma Maldição, esta não deve ser aceita de forma nenhuma: deve ser enfrentada, derrotada e conquistada. Tudo se resume a isso. O velho mito prometéico que apela para o espírito de rebelião dentro do homem.
Do mesmo modo a suposta solidão do ser humano também apresenta não só o total desprezo pela Presença, mas até mesmo a ingenuidade com relação a qualquer outra dimensão que não seja esta que o ser humano habita. Não há Deus, não há anjos nem demônios, e tudo está morto, exceto esse verdadeiro milagre que veio do Caos chamado ser humano.
A questão da criação de seres artificiais é muito empregada na ficção, e costuma apresentar dilemas e dicotomias falsas, principalmente no questionamento dos supostos direitos e dignidades das criações humanas em comparação com seus criadores. Ora, sem Deus o homem se torna o falso deus de si mesmo, o que torna essa questão indiferente. Não faz diferença o ser humano tratar os robôs como seus iguais ou como seus semelhantes: seu suposto valor autônomo, sem um desígnio divino que determine sua origem e seu destino, já não existe, e dessa perspectiva para baixo tudo pode fazer sentido porque nada faz sentido de fato, porque é uma pura arbitrariedade.
Não há nenhum problema com os robôs. O problema está no criador dos robôs: se este está desligado de Deus, sua vida não fará sentido nenhum, seja com mais ou menos robôs, ou com maior ou menor igualdade entre si.
Se o ser humano é eminentemente psíquico –e este é o ser que decreta, gnosticamente, que tudo é feito de Números ou de Mente–, ele pode criar seres mais ou menos psíquicos á sua imagem e semelhança que sejam portadores da sua mesma dignidade, já que esta foi reduzida à capacidade psíquica.
Qual é, afinal, a diferença essencial entre seres humanos e robôs?
Só pode ser uma diferença determinada por uma razão transcendente, por uma origem humana baseada na própria substância divina, com o propósito monádico de um destino eterno. Essa diferença é total e absoluta. Mas se, kantianamente, toda a transcendência já foi abolida do pensamento humano, daí para baixo tudo se resume ao pó, seja mais ou menos qualificado no seu próprio plano de insignificância.
Asimov quer que sintamos grandes simpatias pelos robôs, e certa reserva ou até mesmo desgosto com os nossos semelhantes. Um traço obviamente gnóstico.
Ao que parece este autor foi o responsável, nesta obra, pela invenção das chamadas Três Leis da Robótica, isto é, da programação universal para quaisquer robôs portadores de cérebros positrônicos, a saber:
Lei 1- Jamais causar dano a seres humanos ou, por omissão, deixar que sofram danos;
Lei 2- Obedecer as instruções humanas, exceto quanto violar a Lei 1;
Lei 3- Fazer o que for preciso para se preservar, exceto quando violar as Leis 1 e 2.
Asimov parece ter predileção pela análise lógica, pela dedução, assim como pela indução e pela investigação em geral. Seus contos exploram as diferentes possibilidades de experiência com a aplicação das Três Leis em cenários mais ou menos exóticos.
Toda essa experiência lógica e psicológica traz o interesse imediato da própria experiência ética da vida humana, que é espelhada no experimento fictício com os robôs. É uma ficção científica, mas não passa de ser, como sempre ocorre em qualquer literatura, um reflexo da realidade humana. No fim das contas o ser humano está sempre falando ou de Deus, ou de si mesmo.
Lembro-me, no sentido da idolatria denunciada no livro Eclesiástico, da passagem que diz: “Diante de um rosto aparece uma imagem. Do impuro que se pode tirar de puro? Da mentira que verdade se pode tirar?” Essas são boas perguntas a se fazer a Asimov e a todos os futurologistas que se animam com as promessas desse progresso. O que vai sair disso tudo, senão a mesma vaidade debaixo do sol, e o correr atrás do vento?
O que o estímulo à invenção dos robôs parece fazer é incentivar a multiplicação da entropia deste mundo, e a perversão da genuína criatividade monádica, como se estes seres humanos escravos da Maldição e do Poder tirassem inspiração das suas potências espirituais para gerar uma maior dissipação de suas forças e maior decadência, ao invés de se concentrar no ideal eterno, como no caso da criação dos Periannath, por exemplo. Toda essa saga de emancipação serve apenas para a prorrogação das limitações decretadas ao ser humano decaído: escassez, inviolabilidade das causas, e irreversibilidade dos efeitos. Pretendendo se tornar mais livre, este ser apenas expande a sua prisão.
A Dra. Susan Calvin nos dá outro exemplo da inevitável equiparação do pó ao pó, desde que o ser humano crie autômatos programados com seus ideais psíquicos: “Não se pode diferenciar entre um robô e os melhores seres humanos.” Claro que não, Dra. Susan. Se as máquinas foram programadas para realizar o maior ideal humano possível, o máximo desempenho moral que os seres humanos podem atingir é o de se igualar às suas próprias criações. Isto é uma falácia chamada petitio principii, Petição de Princípio. A perfeição ideal das máquinas é uma premissa, e não uma conclusão, como pode parecer.
Isso é psiquismo puro, a profecia de Protágoras: o homem como medida de todas as coisas.
Em determinado momento se coloca a dúvida sobre se um robô poderia ser eleito para um cargo público, como se essa fosse uma elevada questão moral e política.
Não é: sem uma responsabilidade diante de uma Autoridade transcendente, que diferença faz se o homem governa a si mesmo diretamente, ou através dos robôs programados para emular o seu psiquismo? A questão é vazia.
O que não quer dizer que Asimov não tenha uma visão política condenável, principalmente ao idealizar, como bom discípulo (consciente ou não) de Kant, o governo global sob o comando de um Coordenador Mundial.
Dos capítulos 1 a 8 Asimov nos apresenta casos variados de robôs que são quase sempre simpáticos, inocentes ou vítimas. Ele próprio diz numa carta anexada à edição que quis mudar a perspectiva do robô como vilão, ou monstro. Trabalhou fiel ao seu desejo, sem dúvida.
O que eu não gostei muito foi que ele esperou chegar ao último Capítulo 9, “O conflito evitável“, para declarar suas idéias mais importantes, as quais se fossem expostas desde o início talvez nos permitiria gastar menos energia tentando decifrar qual é a visão de mundo do autor.
Vejamos algumas citações relevantes:
“No final das contas a Máquina é apenas uma ferramenta, que pode ajudar a humanidade a progredir mais rápido ao tirar de suas costas o peso dos cálculos e das interpretações. A tarefa do cérebro humano continua sendo a que sempre foi: descobrir novos dados a ser analisados e inventar novos conceitos a ser testados. É uma pena que a Sociedade pela Humanidade não entenda isso. Eles seriam contra a matemática ou contra a arte de escrever se tivessem vivido na época oportuna. Esses reacionários da Sociedade alegam que a Máquina rouba a alma do homem. Eu noto que os homens capazes ainda são poucos em nossa sociedade. Nós ainda precisamos do homem que é inteligente o bastante para pensar nas perguntas apropriadas a se fazer. Talvez, se pudéssemos encontrar homens assim em número suficiente, essas alterações [com ineficiências] com as quais o senhor (O Coordenador Mundial) se preocupa não ocorreriam.”
Essa passagem me fez refletir sobre várias coisas.
Em primeiro lugar, por que temos essa obsessão com o progresso tecnológico? Me parece validar aquela tese, sobre a qual falei no meu último livro, do perenialismo transhumanista que vai na direção da fantasia deus ex machina, ou seja, na construção de um artefato que permita a encarnação dos demônios para uma existência “imortal”.
Em segundo lugar, em nenhum momento o progresso é explicado por uma causa final que o justifique. O que quer dizer que o progresso é o próprio ideal de si mesmo: a humanidade teria que progredir para… progredir mais, indefinidamente. Obviamente não há Teodicéia num mundo de ateus. Mas, curiosamente, não há também nenhuma Antropodicéia. Essa questão filosófica parece não ter passado nem perto de uma reflexão.
Por fim, o que a burocracia tecnocrática quer não são seres humanos, mas justamente máquinas na forma humana, incapazes de verdadeira independência. A “Sociedade pela Humanidade”, herdeira dos “Fundamentalistas”, tem razão sobre o roubo da alma humana no ponto crucial que diferencia a forma da nossa espécie: o livre-arbítrio. Porém, a liberdade não pode ser inserida num cálculo, e portanto não pode ser ensinada para um computador, por mais avançado que este seja. Todo cálculo é uma razão sobre proporções determinadas. Mas a liberdade é justamente a singularidade de um ser capaz de produzir efeitos indeterminados por quaisquer elementos exteriores. Isso não quer dizer que a vontade livre é irracional. Antes, a liberdade é supraracional, transracional, ou metaracional, já que se dirige aos fins mais excelentes que justificam o emprego de qualquer racionalidade secundária. Isto é: as causas finais e formais justificam as materiais e eficientes. Jamais um robô vai compreender isso. Ele não pode subir a esse nível de entendimento. Mas é claro que o ser humano pode se rebaixar ao nível do raciocínio robótico, como parece ser o caso nesta passagem que declara o desejo por seres humanos mais úteis por serem justamente mais maquinais.
Asimov quer que sejamos todos mais burros no processo mesmo de crer que estamos ficando mais inteligentes.
Outra passagem: “Se a fé dos homens nas Máquinas pode ser destruída a ponto de elas serem abandonadas, teremos a lei da selva de novo.” Isso é propaganda de totalitarismo tecnocrático. E é puro Gnosticismo. A idéia de fé nas máquinas remete diretamente a fé na Razão, na Ciência e no Conhecimento, como se esses fossem os elementos salvíficos da experiência humana.
Em certa parte há a condenação do pessoal reacionário, novamente: “Homens que acreditam ser fortes o bastante para decidir por conta própria o que é melhor para si.” Ora, eles acreditam ser fortes, ou antes acreditam serem livres? Isso é Gnose pura. O conhecimento como força obriga os ignorantes a obedecerem aos sábios, mesmo que não creiam nessa autoridade. A realidade da liberdade humana é totalmente desprezada. Só sobra a força pura, e os ignorantes são os mais fracos, portanto incapazes de decidir o que é melhor para si mesmos.
Asimov ainda diz, por um personagem: “Desobedecer às análises da Máquina é deixar de seguir o caminho ideal.”
Ideal de quem? Da máquina? Do inventor da Máquina? De uma Razão Pura representada por uma intelligentsia humana totalmente fiel ao ideal?
Essa é uma mistura perfeita de psiquismo com gnosticismo e com ingenuidade. E equivale ao suicídio moral da humanidade: é o próprio desejo de morrer na forma de uma filosofia pseudoracionalista.
Vejam ainda: “Só as Máquinas sabem [todas as respostas], e elas estão seguindo nessa direção e levando-nos consigo.” … “Todos os conflitos se tornaram por fim evitáveis. Apenas as Máquinas são, de agora em diante, inevitáveis!“
Não precisamos mais do Espírito Santo.
Temos o Logos encarnado na forma de máquina para nos salvar!
Seria cômico, se não fosse trágico.
E há repercussões esotéricas, quando por exemplo Susan Calvin diz, no fim: “Acompanhei tudo desde o início, quando os pobres robôs não podiam falar, até o fim, quando eles se colocaram entre a humanidade e a destruição.”
Talvez essa destruição seja aquela que os Illuminati desejam adiar indefinidamente, ou seja, a do próprio Fim do Mundo. De algum modo essa pode ser uma fantasia demoníaca: a de garantir a sua sobrevivência através da perenidade do Annuit Coeptis, mediante o emprego de um sistema que faça o ser humano prescindir totalmente de uma redenção verdadeira.
Para encerrar, o próprio Asimov, em sua carta, parece não querer esconder muito o seu gnosticismo, como quando diz: “Não conseguiria acreditar que, se o conhecimento oferecesse perigo, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução tinha de ser a sabedoria.”
Isto quer dizer: se o conhecimento nos traz um mal, a solução é redobrar a aposta num conhecimento melhor, uma sabedoria mais perfeita, como se essa não pudesse trazer um mal pior ainda, como provou o caso de Salomão, ídolo gnóstico e Illuminati.
Aliás, o testemunho de Asimov não contém um óbvio tertium non datur, a falácia do terceiro excluso?
Não estamos presos a escolha da sabedoria ou da ignorância, já que a ignorância assumida toma a forma da virtude moral da Humildade. Solução que aliás era a preferida de David, aquele ungido que agradou a Deus mais que seu filho, o “sábio”.
Para Asimov, ao menos nesta obra, não existe vida espiritual, e não existe liberdade humana, existe somente uma triste série de cálculos que levam do nada ao lugar nenhum.
Tudo está muito bem calculado e significa exatamente nada.
Desejo que todos os meus semelhantes, meus irmãos e irmãs que assim como eu nasceram em cativeiro, continuem firmes até o fim em sua jornada, como um jogador de futebol persiste até o gol (the goal, “a meta”).
Como viver no Brasil e evitar as metáforas futebolísticas? Não aprecio o esporte como o fazia aquele saudoso frasista, mas posso usar as simples imagens dessa unanimidade cultural para transmitir meu próprio recado.
Vejo-me, assim, como uma espécie de gandula espiritual: à beira do campo da vida, pronto para agarrar todas as bolas que querem escapar do campo, e jogando-as de volta ao plano da vida humana, confiando que um desígnio divino as dirige. Meu trabalho é o de servir as almas que repudiam sua condição de existência, para que aprendam a aceitar a Providência e a voltar a sua rejeição ao alvo correto: a mentira da idolatria.
Já que alguns se perguntaram e outros mais o podem fazer mais adiante, convém desde já declarar o que eu faço e para quem eu faço, ou seja, o mandato e o nicho deste trabalho. Isso permite liberar os desinteressados de perder seu tempo com o que não lhes importa, e ao mesmo tempo convidar todos aqueles que descubram um alinhamento de interesses.
O Mandato, ou o que fazemos, já foi declarado antes, mas vou repetir.
É composto de três elementos:
Dar o testemunho de que Deus nos ama e de que nós precisamos de seu Amor;
Dar o testemunho de que todos nós vivemos muito mais baseados em crenças do que em conhecimentos, e de que nos convém, portanto, assumir a responsabilidade integral por elas, com tudo o que elas implicam;
Dar o testemunho de que a Maldição decretada para a limitação da rebelião contra o Amor deve ser aceita com todas as suas consequências, principalmente a morte dos corpos decaídos das pessoas que amamos e do nosso próprio.
Qualquer pessoa que receba esses três testemunhos tem a possibilidade posterior de aceitá-los ou de rejeitá-los, integralmente ou em partes.
Porém, meu intuito não é o de dar estes testemunhos indiscriminadamente a qualquer um, mas especificamente para as bolas jogadas para fora do campo, por assim dizer. Isto é, para as almas que já iniciaram uma jornada espiritual própria de busca através da primeira fase, que é a de negação do valor da vida de idolatria. Esse buscador espiritual já é capaz de intuir de algum modo o vazio da mentira dos ídolos, assim como já deve sentir as dores do despertencimento e da disfuncionalidade num mundo que já não lhe faz mais sentido.
O Nicho, ou a pessoa a quem dirigimos o serviço explicado no Mandato, é a pessoa chamada por Deus naquela fala de Jesus em Mt 11:28-30:
“Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas, pois meu jugo é suave e meu fardo é leve.”
A pessoa que acredita neste chamado deve ser servida.
Até o Fim do Mundo, ela não pode ser abandonada à própria sorte, enquanto existir um único cristão que ainda possa dar o testemunho da Vida Boa, da Boa Notícia, isto é, da salvação que Jesus Cristo nos trouxe.
A quem não se identifique com o Nicho e nem se interesse pelo Mandato, o recado é claro: não tenho como lhe servir. Vá e viva como achar que deve. Meu dever é estar pronto para lhe servir se isso for necessário. Se um dia você precisar de mim, eu estarei lá por ti. O ideal é que nenhuma bola caia fora, mas se alguma perigar de cair, o gandula precisa estar lá para fazer o seu serviço.
A quem se identifique, o convite está aí para aprender tudo o que for conveniente para o transcorrer de sua própria jornada espiritual.
Talvez não haja maior genialidade na obra de Wagner do que a humilhação dos amantes do Poder em face da redenção daqueles que são fiéis ao Amor, conforme dramatizado na tetralogia de O Anel dos Nibelungos.
Enquanto Wotan e Alberich se engalfinham numa disputa mortal pelo governo do mundo, tendo que apelar para os estratagemas mais complexos e sofrendo as consequências mais angustiantes por sua perseguição ambiciosa do Poder, as Filhas do Reno são apresentadas como fiéis ao simples Amor representado pelo Ouro do Reno no seu estado ótimo, isto é, como potencial puro repousado no leito do grande rio.
O Rio Reno representa as Águas Primordiais, um símbolo da Possibilidade Universal, isto é, de tudo o que pode vir a ser desde o ideal. Wagner, alemão, idealista e romântico, não podia deixar de exaltar a possibilidade em face da realidade, e as Filhas do Reno, com seu canto e sua dança ao redor do Ouro do Reno, fazem homenagem ao puramente possível, em atitude de esperança confiante, na paz e alegria do repouso num poder superior que lhes trará a salvação.
Wotan e Alberich, por sua vez, são perseguidores do poder. Não podem repousar em nenhuma esperança num poder superior que os venha resgatar no futuro. Não: eles precisam salvar a si mesmos agora, obtendo poder e controle sobre o mundo. Embora Alberich seja tratado como um completo vilão, Wotan mostra-se tão escravizado pelo poder quanto seu inimigo. A única redenção que virá aos deuses será na justiça da sua própria extinção, quando Brunhilda realizará aquilo que seu pai jamais teve a coragem de fazer: a renúncia do poder na restituição do Anel às Filhas do Rio, para que se converta na sua forma original, como Ouro do Reno, de instrumento de dominação em objeto de louvor ao poder da verdadeira divindade.
Vejamos uma passagem bastante esclarecedora neste sentido, no Ato II da segunda ópera, Die Walküre:
Wotan: “Estou pego em minha própria armadilha e sou menos livre que qualquer humano. Esta vergonha merecida! Este merecido pesar! Os deuses estão em um perigo terrível! Nada resta senão raiva e lamentação! Eu sou o mais triste de todos. Se eu o disser em voz alta, não perderei então o comando da minha própria vontade? O que eu digo a ninguém exceto a mim mesmo continua não dito, e falando contigo eu estou apenas falando comigo mesmo. Quando os prazeres do amor de juventude se foram, eu desejei em meu coração o poder. Esse frenético desejo me impeliu a tomar o mundo para mim mesmo. Involuntariamente desonesto, eu agi deslealmente, fazendo tratados que me aliaram com enganosos e malignos poderes. Loge atraiu-me a tudo isso, e então ele desapareceu. No entanto, eu não podia abandonar o amor, e no meu poder eu o desejei. Embora Alberich tenha nascido uma criatura temível da noite, ele se libertou disso e ousou amaldiçoar o amor. Por sua maldição ele ganhou o brilhante Ouro do Reno, e com ele um poder incalculável. Eu o fiz perder o anel que criou com um truque, mas não o devolvi de volta ao Reno. Eu o usei para pagar por Valhalla, o castelo que os gigantes construíram para mim e a partir do qual eu governei o mundo. Erda, a mais sábia das mulheres, disse-me que deveria abrir mão do anel, e me alertou sobre o destino eterno. Eu queria que ela me dissesse mais, mas ela desapareceu silenciosamente. Então eu perdi toda a leveza do coração, e desejei apenas o conhecimento divino. Mergulhei nas profundezas da terra. Lá eu seduzi Erda com o poder do amor. Eu a fiz compartilhar sua sabedoria e me explicar tudo. Ela me deu seu conhecimento. Em retorno, eu lhe dei uma descendência. A mulher mais sábia do mundo me deu a ti, Brunhilda. Eu te trouxe com oito irmãs. Através de vocês Valquírias eu quis afastar o que Erda me ensinou a temer: um fim vergonhoso para os imortais. Desse modo nossos inimigos nos encontrariam fortes em batalha. Eu te enviei para encontrar-me heróis, homens que nós antes tínhamos mantido em servidão. Homens que nós subjugamos, e que prendemos com tratados para mantê-los em cega obediência. Você foi enviada para colocá-los uns contra os outros, para testar suas forças em furiosas batalhas, para que eu pudesse reunir os guerreiros mais bravos no salão de Valhalla. Há outra coisa sobre a qual Erda me alertou. Alberich nos ameaça destruir com seu exército. Ele me odeia com uma fúria invejosa. Mas agora eu não temo suas forças sombrias. Meus heróis me darão a vitória. Mas se a qualquer momento ele ganhar o anel de volta, então Valhalla será perdida. Ele amaldiçoou o amor, e através de sua inveja ele usaria o anel para trazer uma vergonha sem fim a todos os deuses. Ele jogaria meus bravos heróis contra mim e usaria a sua força para fazer-me guerra. Eu tentei encontrar um meio de manter o anel longe de meu inimigo. Um dos gigantes ao qual eu dei um dia o amaldiçoado ouro como pagamento pelo trabalho, Fafner, o gigante, guarda o ouro maldito pelo qual ele matou seu irmão. Eu teria que apanhar de volta o anel que eu o paguei como salário. Mas desde que eu fiz um tratado com ele, não posso atacá-lo. Impotente diante dele, minha coragem me falharia. Esses são os grilhões que me prendem. Eu me tornei governante do mundo através de tratados, e esses tratados agora me escravizam. Apenas um homem pode fazer o que eu não pude. Um herói, alguém a quem eu nunca ajudei, um estranho ao deus, livre de seus favores, voluntariamente e sem comando, e partindo apenas de sua própria necessidade, com suas próprias armas. Ele poderia fazer o que eu não posso, e o que eu nunca pedi que fizesse, ainda que seja a única coisa que eu deseje. Esse homem que luta contra os deuses, e que ainda assim lutará por mim, esse inimigo amigável, como eu poderia encontrá-lo? Como posso criar um homem livre a quem eu nunca protegi e que ao me desafiar se tornará o meu mais querido amigo? Como posso criar este Outro que já não é mais parte de mim e que, de sua própria liberdade, pode fazer o que eu sozinho desejo? Que destino desgraçado para um deus! Me repugna que eu me encontre apenas a mim mesmo em tudo o que faço. Esse outro que eu desejo, nunca posso encontrar, pois o homem livre deve criar a si próprio. Só posso produzir servos para mim mesmo.”
Fricka, a protetora dos contratos de casamento, foi quem imediatamente denunciou o autoengano de seu marido, para o grande desgosto deste que se viu então obrigado a pedir pela morte de Siegmund. Embora deteste a intervenção da esposa, por tudo o que isso representa, Wotan é escravo de si mesmo, de sua ambição de poder, que é o que lhe impede de realizar a sua vontade final, e que foi o que lhe impeliu em direção ao objeto de sua ruína em primeiro lugar, a construção de Valhalla, a morada dos “deuses” que ele mesmo desejará ver destruída.
A pista da liberdade não estava em nada disso, nem em Valhalla e nem no Anel de Poder, mas naquela bem-aventurança das Filhas do Reno, cuja suposta ingenuidade e tolice foi troçada pelos soberbos Alberich e Wotan, que no desprezo do puro Amor conseguiram apenas atrair a desgraça e a maldição para si mesmos.
A verdadeira arte divina de criar seres que livremente desejem amar é o que escapa a Wotan, o falso deus, ladrão e usurpador, mentiroso e tirano, que ao menos teve uma última lucidez ao decretar um desejo correto em face de seu fracasso espiritual: o desejo pelo fim, realizado finalmente por Brunhilda, a heroína fiel ao Amor.
Com Götterdammerung Wagner realiza uma profunda justiça na forma de sua arte, um grande alerta contra a ambição do Poder, e o elogio da confiança no Amor.
Já faz tempo que a psique ocidental é tratada com os analgésicos espirituais e amortecedores morais da autoajuda, na vã tentativa de compensar o vazio existencial que cresce sem parar.
Conforme a escravidão material da Maldição é compensada pelo progresso civilizacional, o sentido da existência dessa massa de escravos é continuamente desmontado. A especialidade da nossa raça era a de ser escravizada num cativeiro trabalhoso de manter e cheio de perigos. Se vivemos mais livres de um trabalho contínuo e de grandes ameaças iminentes, que sentido de vida nos resta?
Nossa sociedade chegou ao ponto de se especializar no autoengano ao ponto da alucinação coletiva em torno das mentiras mais sofisticadas, uma farsa que vai dar trabalho para cada nova geração desvendar. Ao lermos A biblioteca da meia-noite, de Matt Haig, revisitamos o hospício a céu aberto da mentalidade contemporânea, e revemos mais uma vez as impotentes reflexões do Vazio sobre si mesmo.
Ao viver uma vida sem Deus –e, vejam bem, falo do Deus verdadeiro, o centro e o ápice de nossas vidas, o Primeiro e o Último, o fundamento e o objetivo, a origem e o fim–, nenhuma mônada pode dar conta de si mesma, por mais potente que se considere, e por mais privilegiada que seja a sua “visão quântica” dos muitos universos possíveis. Toda a relação do Múltiplo consigo mesmo é entrópica por natureza e tende ao declínio e à dissolução, pois dissipa sua energia ilimitadamente. Todos os seres contingentes precisam do Ser Absoluto de potência infinita para lhes conceder continuamente a vida e a graça. Por si mesmos, os entes criados são pedaços vazios de possibilidades equivalentes ao Nada de onde foram tirados pela vontade amorosa de seu Criador. Por isso se diz, diante da rebelião contra o Amor, que o ser humano veio do pó, e ao pó retornará.
Tudo o que Nora Seed, a protagonista da história, faz, é tirar as minimamente honestas conclusões dessa total devastação espiritual da experiência humana vivida na rejeição da Presença e do Amor de Deus. Isso obviamente a leva a desejar a morte depois que algumas circunstâncias a pressionam para além do psiquicamente suportável, especialmente a perda do emprego e a morte de seu gato.
A história concluirá que Nora sofre do medo de viver, no sentido da recusa de experimentar uma vida não refletida, e neste sentido apresenta uma moral antifilosófica, fatalista, trágica e existencialista.
No sentido espiritual, é um conto que estimula o Pacto com a Morte e o Psiquismo, desempenhando assim seu autor o papel de Bispo no Sistema da Besta, legitimando a existência decaída através de diversos testemunhos de justificação da experiência da vida humana sem Deus.
“As coisas boas fazem o todo valer a pena“, uma das crenças de Nora, por exemplo, é um clássico testemunho Moriquendi.
A Sra. Elm, a bibliotecária que serve como interlocutora constante de Nora na experiência da Biblioteca da Meia-Noite, produziu por sua vez o importante testemunho de que “a única maneira de aprender é vivendo“, desclassificando e desmoralizando qualquer busca por Discernimento e Sabedoria, e equivalendo o ser humano a um rato de laboratório preso num labirinto. Ela teria razão, sem dúvida, com relação ao caso dos Falmari, os salvos da Segunda Ressurreição, os seres humanos que realmente têm que apanhar até o limite para aprender. Mas se ainda estamos aqui, não temos então uma eleição muito melhor disponível, a do destino Noldor?
O livro produz uma ficção científica baseada na Física Quântica, que é o mais novo esparadrapo no kit de primeiros-socorros da literatura de autoajuda. Nora não consegue morrer de uma vez, e vai parar na tal Biblioteca com a Sra. Elm, onde vai poder experimentar outras possibilidades de vida a partir de seus arrependimentos, tudo com o objetivo de recuperar o desejo de viver na sua vida original.
Eventualmente Nora recuperará o desejo de viver numa conclusão não muito convincente de que ela poderia rever sua vida original com olhos repletos de novas possibilidades. A compaixão com as pessoas que concretamente foram beneficiadas pela sua existência naquela realidade é o ponto forte da narrativa (o aluno de piano e o vizinho idoso), mas me lembra a solução de compaixão do Schopenhauer: como aplicar um band-aid numa fratura exposta.
Uma das experiências alternativas que mais a impressionou foi, obviamente, a de casar e ter filhos. Parabéns ao autor, está trabalhando firme mesmo na manutenção deste mundo decaído. O Ouroboros está orgulhoso. Só recomendo ser um pouco mais competente: em certa parte diz que “Nora se deu conta de que não era culpa sua que os pais jamais tivessem sido capazes de amá-la como seria esperado: incondicionalmente“, mas depois diz, quando Nora tem a experiência do casamento e da maternidade, que “ela sentiu o poder daquilo, o poder apavorante de amar incondicionalmente e de ser amada incondicionalmente“. Ué, Nora superou seus pais? Ela ficou melhor que eles? Quando foi que isso aconteceu? Não será mais provável que Nora tenha se tornado mentirosa como seus pais? Ou ao menos que tenha se enganado tanto quanto eles?
Para mim a mensagem sutil da história é: mulheres, meninas, esqueçam esse negócio de filosofia e sentido de vida, simplesmente casem e tenham filhos. O Ouroboros agradece. Consciência pra quê mesmo? Deixem a Serpente se alimentar…
Em certo momento um grande segredo da vida humana é revelado quando Nora, numa de suas expedições quânticas, sobrevive ao encontro com um urso polar: “fazer parte da natureza era fazer parte da vontade de viver“. Quer dizer, toda aquela consciência do Vazio pode ser resolvida de modo simples, desde que o ser humano aceite equiparar-se a um animal e que não queira ir muito além disso.
Há situações na história em que a legitimação fatalista da humanidade decaída chega aos cumes, principalmente nas conversas de Nora com a Sra. Elm, representante dessa suposta sabedoria quântica.
Exemplo:
“A tristeza é parte intrínseca do tecido da felicidade. Não dá para ter uma sem a outra.”
É a famosa mistura de Luz e Trevas que tanto interessa à Serpente do Mundo, pois o mal só sobrevive com a parasitagem do bem.
Comparemos isso com o que diz o Apocalipse:
“Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!“
Cada um faça a sua escolha.
Querem outros exemplos de testemunho Moriquendi neste livro?
Vejamos:
“Não há uma vida sequer em que a pessoa possa existir num estado permanente de felicidade absoluta. E imaginar que exista uma vida assim só acrescenta mais infelicidade à nossa vida.”
E:
“Nora: ‘Parece impossível viver sem machucar as pessoas.’ Sra. Elm: ‘Parece impossível porque é impossível’.“
Quer dizer, Jesus Cristo e seu testemunho do Amor e da Ressurreição não vale absolutamente nada para essa gente. Nada, nada, nada. Só lhes resta, é claro, fazer o Pacto com a Morte. De preferência não entendendo lhufas de nada, como reafirma a Sra. Elm em outra parte: “Você não precisa entender a vida. Precisa apenas vivê-la.” Assinado: A Serpente do Mundo, por seu procurador.
Talvez esotericamente Nora tenha escapado da Biblioteca e voltado à sua vida original passando pelo Corredor 11, um número bem conhecido do pessoal que, digamos, assim, não estão muito a fim do Amor de Deus.
A decisão final do masoquismo de Nora, e de seu assentimento espiritual com a mistura de Luz e Trevas desde mundo decaído, é declarada nas seguintes expressões conclusivas:
“Minha vida será milagrosamente livre de dor, desespero, mágoa, coração partido, dificuldades, solidão, depressão? Não. Mas eu quero viver? Sim. Sim. Mil vezes, sim.”
Não é uma adesão à esperança cristã da Vida Eterna, a salvação divina. Não. É uma adesão ao sofrimento mesmo. É a afirmação do valor existencial do mal. É um testemunho Moriquendi.
E também:
“Ela aceitou as sombras da vida de um jeito que jamais havia feito, não como fracasso, mas como parte de um todo, como algo que ajuda outras coisas a serem ressaltadas, a crescerem, a existirem.”
Eis uma declaração cuspida e escarrada de que o Bem precisa do Mal, e a Luz das Trevas. Mais óbvio que isso, impossível.
Antes que se diga que o autor apenas se perdeu no tema, com seu conhecimento de filosofia eu tenho certeza de que ele poderia acertar o alvo espiritual, se quisesse.
Por exemplo, esta obra perde a chance de mergulhar numa interessantíssima reflexão sobre o Princípio de Indeterminação das Mônadas, ou Singularidade monádica, ao rejeitar por exemplo o modelo de Diógenes de Sinope que elogiava o heroísmo de quem desistia de qualquer plano mundano como uma vitória que honra a verdadeira forma humana destinada ao plano divino, defendendo as mônadas da decadência da identificação com quaisquer manifestações inferiores. Nora poderia ter sido uma heroína cínica, mas até esse paganismo seria perigoso demais, porque poderia abalar a paz e segurança do Sistema da Besta.
Mas esta já é uma história que não foi escrita, e que provavelmente jamais será.
Notas (de 0 a 10):
Valor EMD:
Hipótese: P&A 2,0 (Influência Demoníaca)
M. Maior – Gratidão/Soberba
2
M. Maior – Obediência/Rebelião
2
M. Menor – Perdão/Julgamento
5
M. Menor – Libertação/Sadismo
5
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo
0
Ataques Avari-Moriquendi
0
Testemunho ES-Calaquendi
0
Nota EMD
2,0
Valor Espiritual:
Humildade/Presunção
5
Presença/Idolatria (a mera hipótese da transcendência é desprezada)
1
Louvor/Sedução
3
Paixão/Terror
5
Soberania/Gnosticismo
5
Vigilância/Ingenuidade
3
Discernimento/Psiquismo (causas finais preteridas pelas eficientes)
Você já assistiu as duas temporadas da série The Bear, de Christopher Stores? Eu já vi, e gostaria de ter vivido uma vida em que isso não me tivesse acontecido, quero dizer, em que coisas melhores me fossem possíveis.
Dito isso, ao finalizar a série me senti compensado por decepções do início da experiência. O último quarto da série, ou seja, a metade final da segunda temporada –episódios de 6 a 10– foi bem melhor de assistir do que o resto.
Começamos ambientados em Chicago que, como toda cidade grande, funciona como mais uma filial da Babilônia, com muito caos e tristeza, do jeito que essa raça de masoquistas gosta. A série conta a história de pessoas bem habituadas com essa realidade, e pretende nos transmitir o magnetismo desse sofrimento na forma de uma animação pela participação nesse caos. Esta é a mesma animação que enganou a muitos, mas que não enganava o autor do Eclesiastes, que identificou a velha vaidade da escravidão sob o sol, e o correr atrás do vento. Ao menos a série não esconde o sofrimento, e isso até o fim, embora passe boa parte do tempo tentando embelezar essa realidade, talvez justificar ou legitimar. Como é aliás a função do Bispo no Sistema da Besta, função esta desempenhada por muitas produtoras de cultura de massas. The Bear parece ser apenas mais um trabalho de passar verniz no inferno para torná-lo mais palatável, mais charmoso, cool.
Nosso personagem principal é o cozinheiro Carmen, que assumiu o restaurante que era de seu irmão após o falecimento do mesmo. Ele sai da sua realidade de cozinheiro profissional acostumado com um trabalho de altíssimo nível, e entra num cenário completamente oposto, uma bagunça total. Ao mesmo tempo em que tenta lidar com essa situação, vive o seu drama pessoal, ligado ao falecido irmão e outras questões.
As pessoas mais profissionais têm excelentes idéias, mas, como diria Peter Drucker, “a cultura come a estratégia no café-da-manhã“. Existe muita resistência dos adeptos do que eles chamam de “sistema”, e essa tensão entre a conservação e a mudança é um dos temas principais da série. Há um elemento de valorização da funcionalidade, ou seja, toda realidade humana que não se refira à participação colaborativa na engrenagem civilizacional é indiretamente rebaixada pela valorização da vida funcional e integrada. O ser humano que não produz e não busca a melhoria é inferior. O drama da série apresenta a dificuldade de servir a um mundo maluco, mas sempre legitima essa busca. Ao menos a série mostra realmente o custo disso em sofrimento humano. Os idealizadores de sonhos são realizadores de pesadêlos.
Há um tema na série, que é o do progresso de uma geração para a próxima. Dá a impressão de que a humanidade pode melhorar conforme os filhos tentarem corrigir os erros dos pais. Até certo ponto sou um crente nisso, principalmente quando o progresso material permite um progresso moral que antes era inviável, como já pude explicar em outras ocasiões (libertação histórica dos escravos, das mulheres e finalmente dos filhos).
Reparei que o personagem (ou o ator?) tem uma tatuagem no braço esquerdo que todo mundo diz que é o número 773, supostamente o código da área onde fica o restaurante em Chicago. Mas esses “7” estão meio esquisitos, me pareceram o número “2” de ponta-cabeça, se invertermos para 322, esse simbolismo ficaria bem mais interessante (número usado pela Skull & Bones para representar a queda do homem no Gênesis).
Em determinado momento da série, já na segunda temporada, temos um breve diálogo que vou transcrever aqui para mostrar a que grau de clareza chega a propaganda do masoquismo. É uma cena de uma conversa entre Carmen e sua namorada, Claire. Ele comenta a escolha dela pela carreira de medicina.
Carmen: “Você deve amar. Principalmente por ser tão horrível e péssimo.“
Claire: “E um restaurante não é horrível e péssimo?“
Carmen: “Claro que é.“
Claire: “Você deve amar.“
Carmen: “Com certeza.“
Esse é o tipo de testemunho Moriquendi que ninguém percebe que recebe porque repara em mil outras coisas que acontecem na cena, os atores, a fotografia, isso para não falar da música que torna tudo bem mais leve e aceitável, uma brincadeira sem grandes consequências e seriedades. É um jeito de dizer claramente algo e ao mesmo tempo afirmar que isso não deve ser levado a sério. É aquela situação em que a responsabilidade nunca pode ser cobrada, como quando pedimos satisfação por um posicionamento de uma pessoa e ela responde: “era brincadeira”. É o que esse tipo de cena faz, aliás, é uma prática extremamente comum no show business: tornar idéias e valores aceitáveis sem assumir responsabilidade, dentro da pura liberdade artística. Certamente é um dos meios mais fáceis de disseminar o câncer espiritual do testemunho das Trevas.
Em outra cena temos um diálogo interessante entre a irmã de Carmen, Natalie, e um empregado do restaurante. Ela está grávida de alguns meses.
Natalie: “Só fico pensando em como vai ser trazer uma criança para este mundo infernal.”
Empregado: “Parece bom.”
Natalie: “Parece mesmo.”
É a mesma coisa. Um testemunho horrível embalado na brincadeira, com uma atmosfera amena, muito fluída, uma música que nos conduz sentimentos contraditórios com o que está sendo dito. E é assim que se cria ao mesmo tempo uma dissonância cognitiva nas massas, e a anuência espiritual ao mal, a partir do momento em que as pessoas validam o que estão assistindo por não ter condição de resistir ou protestar contra aquela bela embalagem mentirosa onde a coisa ruim foi apresentada. A arte é uma forma de magia, de encantamento, por esta razão: é o poder humano de mentir, de gerar a imagem da verdade para enganar a si mesmo e ao próximo.
O maior engodo consiste em escancarar a verdade e ao mesmo tempo convencer as pessoas à odiá-la e a preferir a mentira. O melhor (ou menos pior) personagem da série, o tio de Carmen, em determinado momento responde à pergunta de sua sobrinha grávida sobre o que faria de diferente sobre os filhos que teve. Ele responde com muita serenidade: “não os teria“. Depois ele atenua isso e dá a resposta politicamente correta, é claro. Mas a série está muito perto da justiça artística à realidade da condição humana, algo que só é possível porque esta representação não ameaça o Sistema da Besta, já que a maioria dos seres humanos preferirá se apegar às suas ancestrais ilusões, como sempre.
Boa parte da série se resume a um ciclo de Euforia-Caos-Cansaço-Depressão-Euforia. Os personagens se animam com suas idéias e melhores perspectivas, e em seguida se chocam contra uma realidade massacrante que os deprimem e os forçam a buscar novas possibilidades animadoras, reiniciando o ciclo.
É só lá pelo Episódio 6 da segunda temporada que a série atinge um nível superior, ao apresentar o trauma familiar causado nos filhos de uma mãe louca, uma provável origem de boa parte dos males vividos por eles. Esta senhora em determinado momento diz, num grande estado de desequilíbrio psíquico e emocional: “eu faço as coisas bonitas para todos, e ninguém faz nada bonito para mim“. Isto é: não só ela não amou e não esperou apenas amor, como esperou ser reconhecida e recompensada por atos de poder, mesmo que seja um soft power venusiano. O episódio da ceia de Natal escancara o inferno de muitas realidades familiares: um monte de gente bem alimentada, vestida, abrigada e ingrata, incapaz de viver na leveza da Graça, querendo tirar satisfações de Deus e uns dos outros. É algo horrível com uma mais horrível ainda semelhança com a vida real. Mas isso é arte boa, ao representar a condição da vida humana como ela é.
Mas isso não salva a série. Um lema que Carmen aprendeu em sua carreira e leva para o seu restaurante é o “every second counts“. É uma expressão tão típica da escravidão neste mundo que poderia ter saído da boca do próprio Faraó, e tem também conotações espirituais no sentido do Pacto com a Morte.
Em suma, The Bear deve ser popular por representar bem a realidade humana e gerar identificação na audiência, mas faz isso ao mesmo tempo em que legitima o status quo e leva à uma conclusão trágica sobre a vida humana, gerando danos espirituais nas almas desavisadas. Não é de todo ruim por ser uma representação fiel e sem analgésicos, e terminou de um modo que me agradou, uma solução um tanto monadofílica, com cada personagem tendo que assumir a sua situação concreta de individualidade, sem respostas coletivas. Tomara que não façam outra temporada e deixem isso acabar assim. Não fico triste por Carmen ser vítima da sua obsessão profissional (o que o afasta de Claire no fim), porque se isto indiretamente o impedir de multiplicar os males da Terra, termina por ser razão para uma alegria maior, ao menos a quem buscar o Discernimento.
Notas (de 0 a 10):
Valor EMD
Hipótese: P&A 2,0 (Influência Demoníaca)
M. Maior – Gratidão/Soberba
2
M. Maior – Obediência/Rebelião
5
M. Menor – Perdão/Julgamento
4
M. Menor – Libertação/Sadismo
4
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo
1
Ataques Avari-Moriquendi
1
Testemunho ES-Calaquendi
1
Nota EMD
2,5
Valor Espiritual
Humildade/Presunção
5
Presença/Idolatria (constante culto do sucesso funcional)
2
Louvor/Sedução-PcM (tentação do sucesso profissional)
3
Paixão/Terror-PcI (Carmen preso à mãe louca e ao irmão suicida)
4
Soberania/Gnosticismo
5
Vigilância/Ingenuidade (ninguém tem a mínima idéia de que vive na Babilônia)
1
Discernimento/Psiquismo (os traumas definem as crenças)
Ao assistir o filme O Exorcista do Papa, de Julius Avery, podemos ficar um pouco confusos. Um cristão deveria pôr medo no demônio, e não o contrário.
Está dito: “não participareis do seu medo, nem vos aterrorizareis“, e “não se perturbe, nem se intimide o vosso coração“. Suponho que se eu que sou um zé ninguém conheço essa instrução e a tenho como verdadeira, muito mais o deveriam fazer os se dizentes especialistas do ramo, sacerdotes em geral do culto de Jesus Cristo, e entre eles especialmente os exorcistas que em tese atuam diretamente com a autoridade divina para o serviço de expulsar os espíritos impuros de suas vítimas.
Acontece que já faz algumas décadas que Hollywood decidiu incluir, entre suas muitas propagandas contra-iniciáticas, o terror do mal. Os papéis se invertem. Ao invés de os demônios temerem a autoridade cristã e sentirem eles mesmos o terror da sua Perdição atestada pela fé no Amor divino, os exorcistas é que saem atormentados e vitimados pelos seus confrontos.
Com este filme Hollywood mantém a sua tradição e continua propagandeando o terror do mal para as massas. O padre Gabriele Amorth (personagem que representa um verdadeiro exorcista com o mesmo nome, já falecido) começa sua jornada enfrentando inimigos dentro da própria Igreja, céticos descrentes do poder paranormal dos anjos caídos. Aí já começamos a entender a dinâmica do filme. A ingenuidade moderna, iluminista e cientificista, é contraposta ao suposto esclarecimento das realidades prodigiosas. Acontece que a solução, se não consegue ser pior que o problema, acaba não ajudando muito, pois valida aquele velho engano da supersticiosidade humana, que é o de tomar por imediatamente verdadeiro ou legítimo qualquer acontecimento paranormal, como se quaisquer prodígios não fossem antes permitidos pela autoridade divina por suficientes razões providenciais.
Em determinado ponto do filme o demônio que possui uma criança, mais tarde revelado como Asmodeus, Rei do Inferno, tenta o coração do padre questionando se Deus permitiria até mesmo suas mais ousadas violências, e daí temos é claro aquelas cenas mais horrorosas que o povo tanto gosta. Acontece que um cristão bem informado, e muito mais ainda um padre exorcista, deveria saber muito bem que a permissão para a ação do mal vem sempre pelo arbítrio humano, no caso imediatamente representado pela mãe da vítima, que participou do Pacto Ouroboros, fosse por omissão ou por comissão. Essa é a fonte do poder de Asmodeus, o annuit coeptis humano que força o Amor divino a aceitar os mais extremos abusos da liberdade. Amorth sente medo porque não é cristão o suficiente para enxergar que o mal é apenas um explorador da realidade de que Deus pune os filhos pelos pecados dos pais até a quarta geração, assim como abençoa os filhos dos que lhe obedecem até a milésima.
No fim, depois de muita pirotecnia, e até mesmo de o Papa se cagar nas calças (metaforicamente, ou talvez de fato, vai saber?), o Bem triunfa com a revelação de uma verdade bem mais suave e aceitável do que a realidade do Pacto Ouroboros: a Igreja tinha que se redimir do período de crimes da Santa Inquisição, já que uma aliança ancestral de autoridades da Igreja com Asmodeus era o que lhe empoderava. É uma solução típica de Hollywood, mantendo o prestígio e a autoridade da Igreja até certo ponto, enquanto se legitima o medo do mal no pior sentido possível, que é o medo não de praticá-lo, mas o de ser injustamente perseguido por ele.
Notas (de 0 a 10):
Valor EMD
Hipótese: P&A 2,0 (Influência Demoníaca)
M. Maior – Gratidão/Soberba
4
M. Maior – Obediência/Rebelião
4
M. Menor – Perdão/Julgamento
4
M. Menor – Libertação/Sadismo
4
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo
4
Ataques Avari-Moriquendi
0
Testemunho ES-Calaquendi
0
Nota EMD
2
Valor Espiritual
Humildade/Presunção
5
Presença/Idolatria
5
Louvor/Sedução
5
Paixão/Terror (medo do triunfo do mal)
1
Soberania/Gnosticismo
5
Vigilância/Ingenuidade (ignorância do Pacto Ouroboros)
A SEXTA Alegação é a de que a Palavra de Deus não é um objeto para a inteligência de nenhuma criatura, incluindo a humana, sendo a própria essência divina e criativa de Deus, absoluta (separada) e infinita, viva e transcendente a qualquer forma de controle além da Vontade do próprio Criador.
A OITAVA Alegação é a de que a linguagem humana, como a de qualquer criatura, deve ser sempre considerada provisional e discricionária, como um reflexo da sua natureza limitada, em benefício da Humildade e contra a Pretensão, sendo o último e menos importante produto da cadeia de consciência, onde a linguagem é parte do pensamento, o pensamento é parte da percepção, a percepção é parte do ser, o ser é parte da realidade, e a realidade é parte da possibilidade, assim como todas as possibilidades são partes da Possibilidade Universal, de modo que qualquer proposta de limitação da realidade possível aos limites do escopo do pensamento e da linguagem humana é aqui denunciada como um erro.
A SÉTIMA Alegação é a de que Jesus é a Alegria dos Homens pela sua revelação da verdadeira natureza amorosa de Deus e, consequentemente, da salvação humana através da confiança exclusiva na Graça, de modo que qualquer outra alegria é secundária diante desta realidade espiritual fundamental.