O que é uma perspectiva escatológica: É um cálculo que mistura Geopolítica com Profecias, com vistas ao cumprimento de determinadas etapas previstas em uma certa visão espiritual da história. Por exemplo, enquanto na Geopolítica se ignora a importância da pouca expressividade do recém-eleito Papa Leão XIV no cenário político internacional, isso pode ter valor profético, já que esse personagem pode aguardar o devido momento (um acordo de paz global) para se revelar como o Falso Profeta. Os eventos atuais no mundo, e em especial no Oriente Médio, fazem parte de mais um giro na roda da História, ou de uma série final de ocorrências em direção ao Fim dos Tempos?
Ataque minucioso de 13/06/25: Lembrem-se da mentira de que essa mesma administração afirmou que 07/10/23 foi uma surpresa total.
Trump: Chantagem do Mossad (Operação Epstein)? Cenário análogo ao de Wilson antes da Primeira Guerra? Possibilidade de assassinato?
Israel: Destruição de al-Aqsa? Descoberta da Arca da Aliança? Construção do Templo, revelação do Anticristo, implantação das Leis de Noé (N.O.M.).
Irã: Se possui arma nuclear, deve testar o mais rápido possível para impedir a escalada (ex. Paquistão, Coréia do Norte, Israel, etc.); se não possui, se defende de Israel, mas precisa da Rússia-China para se defender dos EUA.
EUA-MAGA: Oposição de parte da base populista (Steve Bannon, Tucker Carlson, Alex Jones, etc.), vs. Dispensacionalismo evangélico, Neocons e lobbys de AIPAC/Complexo Industrial Militar.
EUA-Deep State: Ataques de falsa bandeira, destruição de um porta-aviões no Oriente Médio pelo “Irã”, ataque a algum alvo americano no Báltico pela “Rússia”, ou explosão de artefato nuclear em território americano; possível guerra civil nos EUA.
Europa: amarrada com a Rússia na Ucrânia, mas atrasada no rearmamento.
Rússia: amarrada com a Europa na Ucrânia, muito interesse em se desembaraçar disso com um acordo, para se defender nas frentes do Oriente Médio/Ásia; se Trump propusesse trocar Ucrânia pelo Irã, provavelmente vão rejeitar.
China: não quer a interrupção da logística do petróleo, pode agir para impedir qualquer disrupção à manutenção da sua reserva estratégica.
Gatilhos escatológicos: guerra terrestre em grande escala nas fronteiras ou no interior de Israel; a destruição de Damasco; a destruição da mesquita de al-Aqsa e o início da construção do Terceiro Templo; crise econômica mundial pela disrupção da logística do petróleo; terremotos e fenômenos vulcânicos simultâneos por todo o mundo; aparições de OVNIS e/ou proliferação de “aparições”, “prodígios” e “milagres” (sinais da ação da Besta).
Perspectiva mais ampla: Esse cenário, que é como um palco de teatro, foi preparado desde o começo do século passado e até de antes. A permissão espiritual foi recebida pela anuência través da continuidade do Pacto Ouroboros (Pecado Original). Todas as oposições radicais no Oriente Médio foram fabricadas por EUA/Israel para a mudança do status quo na direção da Nova Ordem Mundial. Politicamente com as guerras mundiais, e culturalmente com a influência das Religiões messiânicas (Cristianismo e Islamismo) sobre as massas, e da Maçonaria sobre as elites, preparando o mundo para o Terceiro Templo, para as Leis de Noé e para o Anticristo e a N.O.M.
§ 1. Humildade vs. Presunção: A autora sofre do mesmo mal típico das ideologias psicologistas de encarar o Ignorado como Inconsciente, ou seja, sob o ponto de vista de uma gnosiologia antropocentrista, humanista, sem a intermediação do governo de uma Providência que produza uma Harmonia Pré-estabelecida. Ela chega a defender valores abertamente anticristãos, no sentido explicitamente contrário à Humildade dos cordeiros. Incapaz de entender o valor da inocência do Puer como valor espiritual. O que chama de maturidade, que seria uma saúde psíquica, é a própria Presunção. Não percebe que o psicologismo se tornou uma pretensa arte soteriológica, uma farsa em substituição à verdadeira vida espiritual diante de Deus. O psicólogo se coloca no lugar de um Sacerdote, ou até de um deus. Nota 1.
§ 2. Presença vs. Idolatria: Humanista, psiquista, só possui bens contingentes e limitados à mesquinharia e pequenez deste mundo, não possui praticamente nenhuma abertura para uma transcendência verdadeira que supere a Psique. O idealismo do Puer é uma ficção, apenas uma fuga do mundo real, da contingência que é tudo o que existe para a autora. Compara Cristo à arquétipos mitológicos ligados à idéia do Puer, como Tamuz, Atis, Adônis, Dionísio ou Eros, como o Deus-Criança, o Deus da Juventude Eterna, o Deus da Vida e da Ressurreição, em suposta guerra contra a divindade do limite e da restrição, o Senex. Não compreende que o problema da liberdade cristã não é a violação do Limite, mas a aceitação da Mistura como se fosse constituição do Limite. O idealismo do Puer não aceita uma falsa restrição produzida pela pretensão do arbítrio humano, derivado por sua vez do espírito de Idolatria. Nota 2.
§ 3. Louvor vs. Sedução-Pacto com a Morte: Cria a angústia da necessidade de se aproveitar uma vida para realizar a tal individuação, senão algo de bom estará perdido para sempre. Exige que o Puer se defina com relação à objetivos e metas limitados pela contingência, ou perca definitivamente a possibilidade de se realizar nessa estreita experiência de vida. Nota 2.
§ 4. Paixão vs. Terror-Pacto com o Inferno: Dá o testemunho de uma visão fatalista e trágica do mundo. A todo momento fala de destinos trágicos. Coloca-se como serva do Inferno, prendendo, como faz a Astrologia, as vítimas de uma fatal consecução de fatos dentro de uma prisão sem saída. Não tem nenhuma noção do valor da Cruz, da confiança numa Redenção que venha desde o divino para resgatar o humano. Se o ser humano não se salvar, não terá salvação. Tem uma visão realmente abominável da realidade humana. Nota 0.
§ 5. Soberania vs. Gnosticismo: Testemunha pela estrita interpretação de experiências e sonhos desde o esquema arquetípico que aprendeu com seu mestre, aquele satanista enrustido chamado Jung. Não tem a menor noção da verdadeira liberdade cristã, e portanto não compreende a sua própria restrição voluntária aos esquemas de crenças do psicologismo. Por isso só pode condenar a liberdade interior do Puer como uma fraqueza. Nota 2.
§ 6. Vigilância vs. Ingenuidade: Interpreta o mundo e a vida humana desde um ponto de vista ingênuo, sem condições de identificar a estrutura elementar da experiência humana definida pelo próprio arbítrio. Para quem fala tanto de responsabilidade sobre a realidade, não enxerga a primeira das responsabilidades, que vem do Pecado Original. Condena a suposta imaturidade do Puer, mas ela própria não se enxerga escondendo-se o tempo todo por trás da narrativa de supostos destinos trágicos, etc., como se o ser humano não tivesse desde o início o poder de buscar para si e para o outro a liberdade. Nota 3.
§ 7. Discernimento vs. Psiquismo: Obviamente dá um testemunho dessa visão de mundo grosseira e rasteira que interpreta tudo desde um mecanicismo psíquico simplório, como se diante de um dado fato não existisse liberdade senão pelas alternativas identificadas nos esquemas mapeados pela sua visão de mundo humanista, fatalista, etc. Nota 2.
§ 1. O padre jesuíta Copleston inicia sua obra com um prefácio no qual não quer admitir que a dificuldade inerente ao destaque dos méritos da filosofia medieval vem do problema da sua inegável mistura com a religião cristã. A filosofia medieval em geral é excelente. Mas sua mistura com essa porcaria chamada Religião sujou a sua reputação. Copleston não pode nos dizer isso, é claro. Ele diz que os estudiosos que “não acreditam no cristianismo” terão dificuldades em entender o período. Essa é uma expressão curiosa. Já nos mostra um problema: que diabos significa não acreditar no cristianismo? O que é o cristianismo? Não crer nessa coisa, que é uma religião, é o mesmo que não crer no Evangelho, ou o mesmo que não crer em Jesus Cristo? Um religioso pensa exatamente assim. Lhe convém deixar tudo isso misturado, de modo que quem quiser se considerar cristão, isso significando apenas ser um seguidor de Cristo, é melhor que se considere também um crente no tal do Cristianismo, ou seja, como participante num grupo criado e governado por seres humanos, legitimando com seu assentimento essa autoridade temporal sobre os homens, etc. É desse modo que os cristãos aprenderam a imitar os judeus. Quem quiser crer no Deus revelado por Moisés na Torá deverá crer nos seus legítimos intérpretes, os rabinos, como se esses tivessem o poder de sequestrar o testemunho e pegar emprestado para si o prestígio da autoridade divina. Já falei dessa perversidade que foi iniciada com o próprio Lúcifer, que quis ser o “revelador” ao homem, como um Prometeu, de uma Glória que nunca foi sua. Cristianismo, afinal, é um termo que designa uma criação cultural humana. Digamos que seja o conjunto das religiões que pretendem ser as legítimas anunciadoras da Revelação do Evangelho. Mas eu não posso crer em Jesus e no Evangelho sem crer nessa criação humana particular? É claro que posso. E se eu não pudesse, essas diferentes religiões cristãs também não poderiam diferenciar-se entre si. Talvez Copleston não possa jamais reconhecer isso, mas isso já é problema dele. Para a mentalidade de um católico, por exemplo, não possuir a garantia da veracidade de uma determinada interpretação da Revelação por uma Religião verdadeira é o fim do mundo, o caos na Terra, etc. Para mim a dúvida sobre a posse da verdade é apenas um reflexo da realidade da ignorância humana, da dependência da Graça, e do dom de Humildade (o verdadeiro sacrifício de comunhão que Deus nos pede).
§ 2. Na explicação da evolução da filosofia na época, ele nos mostra bem o drama da passagem do Império Romano para o período medieval. O conhecimento filosófico é preservado principalmente nos mosteiros, que têm essa função de cofres culturais, quase cápsulas do tempo. Quando a Europa já estiver um pouco mais reorganizada politicamente e vier um novo Império com Carlos Magno, aos poucos a cultura guardada pelos monges pode reaparecer no ensino por todo o território. Essa realidade nos mostra como a alta cultura depende de paz e estabilidade social para florescer. A barbárie só mantém a ignorância e a escravidão do homem à Maldição e ao Poder. O que não significa que a Civilização não produza suas tentações particulares, entenda-se bem.
§ 3. Copleston nos apresenta Agostinho e Boécio como figuras de transição entre o período da filosofia antiga e o da filosofia medieval. Identifica Anselmo da Cantuária como uma primeira figura medieval de destaque. O argumento ontológico de Anselmo no Proslogion é até hoje mencionado, mas de forma errada. Não existe o convencimento racional sobre a suposta “existência” de Deus. Para começar, cá entre nós, como já expliquei, Deus não existe, Ele É. Em segundo lugar, a vida na Presença de Deus, ou seja, a vida da Fé, é uma realidade gerada pela Graça divina, e não pela razão natural. É o Espírito Santo quem dá o testemunho do Ser divino. Anselmo, portanto, não pregava para descrentes. Ele filosofava para cristãos que já tinham a Fé. Daí afirma-se a máxima tão importante para a Filosofia Cristã, do crede ut intelligas, intellige ut credas. O maior vem antes do menor, isto é, a Fé como dom sobrenatural vem antes da razão natural. É para estes cristãos que já possuem a Fé que até hoje é poderosa a verificação de que o conceito de um ente perfeito requer a existência do mesmo, que é a essência do argumento ontológico.
§ 4. O famoso problema dos universais ganha relevância com a filosofia de Pedro Abelardo, e a partir dessa discussão conhecemos as possibilidades de respostas desde o ultra-realismo, o realismo moderado, e o nominalismo. Junto com a filosofia de Abelardo existe toda uma preparação para o rigor lógico que servirá de base para as construções das grandes sínteses no Século XIII e além. Seu famoso livro de Sentenças se torna uma literatura obrigatória para toda a filosofia futura. Todo mundo usa essa base para fazer comentários e criar algo em cima. Antecipando muitas discussões, o nominalismo vence. Se Deus salva a alma já havia a previsão de uma Criação de individualidades e para indivíduos e não de universalidades para uma coletividade, o que é monadologicamente adequado. Possivelmente a Igreja lutava teologicamente dentro de si contra a posição coletivista herdada do Israel bíblico, um vício que precisou ser depurado e finalmente extirpado com uma filosofia adequada á Revelação final, isto é, do Evangelho. O que não impediu algumas figuras poderosas de rejeitarem a Filosofia como um todo, inclusive já na época de Abelardo, como foi o caso de Bernardo de Claraval.
§ 5. Em seguida a grande luta da filosofia medieval ocorreu pela missão autoimposta por grandes intelectuais de absorver a filosofia aristotélica e fazê-la estar de acordo com a teologia. Aristóteles foi muito confiado como autoridade, frequentemente sendo chamado de “O Filósofo”, inclusive por Tomás de Aquino. No lado islâmico, Avicena tem mais facilidade em recusar teses do estagirita. Já Averróis sucumbe ao naturalismo aristotélico e empesteia a Europa com suas idéias. Do lado cristão, Aristóteles é inicialmente proibido em Paris etc., e depois é saudavelmente glosado pelos franciscanos que tinham um platonismo e neoplatonismo robustos, aprendidos com Agostinho, para bloquear os excessos naturalistas; porém, o aristotelismo termina perigosamente influente dentro da filosofia tomista, um projeto iniciado por Alberto Magno, mestre do aquinate.
§ 6. Com Boaventura, o Doutor Seráfico, Cristo mantém sua excelência filosoficamente intraduzível. Já com Alberto Magno e Tomás de Aquino, Aristóteles se torna quase que um profeta. A gratuidade de Deus depende da liberdade contra o naturalismo aristotélico. Os franciscanos são superiores do lado teleológico. Com Boaventura temos uma antecipação da TMSB, porque ele era intelectualmente agostiniano, portanto um tipo de agatista. Também são superiores os franciscanos medievais, epistemologicamente, com a iluminação divina que põe o intelecto humano no seu devido lugar, dependente da Graça até para suas operações mais elementares. Isso não muda o mérito do abstracionismo como descrição científica do processo cognitivo. Uma coisa é a causalidade intermediária e eficiente, outra é a causalidade primeira e finalística.
§ 7. Os germes das futuras ciências seculares foram desenvolvidos por alguns experimentalistas e especuladores medievais, como Grosseteste e Roger Bacon. A idéia da ciência iluminista, ou mesmo da filosofia moderna, em atitude de rompimento com o pensamento medieval é uma idéia caricatural que infelizmente impregnou a divulgação enciclopédica sobre o período, um vício derivado da propaganda gerada pela ideologia iluminista. Qualquer estudioso sério do período percebe muito rapidamente o quanto isso é falso.
§ 8. Das glórias de Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, podemos citar facilmente a criação por analogia, e o conhecimento de Deus também por analogia (uma certa agnosia), de modo que conhecer a Deus é ver o infinito no finito, ou o Uno no Múltiplo. Somente Deus é o Ato Puro. Tomás distingue o esse simpliciter do esse secundum quid, e abre a possibilidade das futuras ontologia e epistemologia monádicas (mas não sem intervenções importantes de personagens como Duns Scot ou Ockham). Por outro lado ele não teme rejeitar Aristóteles ou Averróis para defender a continuidade da alma depois da morte do corpo, o que também é meritório e esperado de um filósofo cristão. A fraqueza de Tomás é a epistemologia da abstração e a derivação hierárquica da lei divina pela lei natural desconsiderando a Queda, algo pelo que não se pode culpar Aristóteles que não recebeu a Revelação de Gen 3, mas pelo que se pode culpar um teólogo cristão, ou mesmo um filósofo cristão. É importante lembrar que o Doutor Angélico só se tornou o filósofo católico por excelência pela decisão papal de 1879 na Aeterni Patris de Leão XIII, ou seja, muitos séculos depois do contexto da obra tomista. Em sua própria época, Tomás de Aquino foi largamente contestado ou mesmo rejeitado.
§ 9. Há como reintegrar as teses mais incompatíveis do Filósofo e do seu Comentador, isto é, de Aristóteles e de Averróis, à visão cristã? Ora, a eternidade do mundo pode se referir à indeterminação da quantidade da Criação, algo alheio à Física aristotélica, mas viável de algum modo no contexto da visão daquilo que realmente é Eterno. Considerando-se o Logos como o Eterno, criador de mundos, não teríamos problema nenhum. Por outro lado, o monopsiquismo do intelecto agente pode refletir a mutualidade da representação dos intelectos passivos, isto é, das mônadas criadas, algo que é produzido pela Providência divina (a Harmonia Pré-estabelecida em Leibniz). Da mortalidade da alma se pode dizer que esta se refere ao estado imanente da mesma, a situção da mônada criada por si, desconsiderado o efeito da Graça. Já da eudaimonia nesta vida contra a bem-aventurança eterna se pode falar da ética ideal no caminho em direção à consumação da causa final, a boa corrida, o bom combate, etc. E finalmente, do princípio material de individuação, essa distinção não se torna irrelevante, antes que impropria, com a reflexividade holográfica? O que quero dizer com essas especulações é que para alguém bem intencionado tudo pode ter solução, em tese.
§ 10. Com Duns Scot, o Doutor Sutil, temos as minúcias medievais que mais tarde irritariam e sobrecarregariam os modernos. Com a Haecceitas temos o Principium Individuationis formal, uma “distinção formal objetiva” entre as individualidades. Copleston sofre para nos explicar a ideia, e isso no Século XX! Imaginem como sofreram os estudantes do Século XVI. Para mim a contribuição scotiana é fundamental: se toda manifestação material é o reflexo de uma objetividade formal, o único modo de manter a analogia sem cair num monismo panteísta é a Haecceitas. As almas humanas são mônadas criadas, singularidades, Unidades geradas por analogia com o Uno divino. É uma antecipação da metafísica monadológica. O gênio de Scot não para por aí. Ele sabe que a univocidade conceitual da analogia requer que algo do Ser divino seja compreensível a partir da característica do ser criado e vice-versa. Essa ponte é necessária para não se cair num agnosticismo, como o tomismo arriscava com uma analogia total que lembrava o tom islâmico do averroísmo. Imagem e semelhança, enfim, designam carácteres objetivos sobre o Ser divino em analogia com o humano. E de outro modo não se poderia, aliás, compreender a possibilidade da Encarnação de Cristo. Copleston acerta na defesa da reputação de Duns Scot, especialmente na importância da Soberania da Vontade contra o Gnosticismo das visões intelectualistas. E para sermos justos, este filósofo em particular nada inventou neste sentido, porque esse já era o entendimento de agostinianos e franciscanos na valorização do Amor sobre a Gnose. De todos os cavalos de batalha da filosofia medieval, este talvez fosse o mais importante, e Duns Scot estava do lado certo da história.
§ 11. Com Guilherme de Ockham, o Doutor Invencível, temos a valorização do conhecimento por intuição acima da abstração, o princípio da economia (a famosa “Navalha de Ockham”), e a simplificação do problema dos universais no que Copleston chama de “conceptualismo”, mais do que nominalismo. A questão, porém, já era antiga. Já Aristóteles se preocupava com a multiplicação dos seres no sistema platônico. Ockham identifica a universalidade com uma necessidade mais lógica, a partir do modus raciocinandi, do que ontológica, como distinção de realidades fora da mente. Em defesa do filósofo, Copleston explica que Ockham “tinha uma ideia rigorosa do que era uma demonstração”. O rigor lógico, dialético e silogístico de Ockham o obrigava a defender a pureza da teologia cristã contra as pretensões da metafísica pagã importada dos gregos. Se lembrarmos daquele princípio de que a tentação do conhecimento divino, isto é, a Gnose, foi o primeiro dos pecados (o original do original, de Lúcifer antes de Adão), podemos enxergar a superioridade dessa doutrina de Ockham como uma necessidade até para o lema da minha filosofia (Coram Uno Amor Tantum). Já na questão do voluntarismo de Ockham, de que Deus ordena o que é o bem porque quer e não porque é obrigado a isso, parece escapar a Copleston a razão desse procedimento: a abolição do paganismo na forma de uma dedução moral da Lei Natural. Especialmente se tivermos em vista a natureza decaída que já não representa a vontade originária, mas um ordenamento secundum quid, derivado do arbítrio humano especificamente desobediente, o voluntarismo de Ockham é inquestionável. Mas Copleston acerta ao valorizar a preocupação teológica do filósofo. “Nada no mundo é necessário”, como bem lembrou. Abolindo o necessitarismo causal de dentro da metafísica cristã, Ockham libertou o Evangelho do paganismo naturalista. Novamente vejo a semelhança com as premissas da minha Monadofilia, quando proponho as realidades de escassez, causalidade e irreversibilidade como contingências. Copleston na verdade não faz plena justiça à filosofia de Ockham. O filósofo testemunha diretamente que Deus pode produzir qualquer Percepção ao intelecto criado sem uso de causas intermediárias. Já é quase uma epistemologia monadológica e uma antecipação da holografia. Um tremendo testemunho da Presença e do Discernimento. Também afirma a possibilidade de um número indeterminado de universos ou realidades paralelas sustentadas pela Onipotência. Enfim, realmente Ockham libertou a Filosofia Cristã da estreiteza e pequenez da antiga filosofia pagã naturalista. Quando, por exemplo, afirma que qualquer proposição que pretenda ser verdadeira deve ser dubitabilis, “duvidável”, ele não só abre o caminho da investigação científica séria, mas também de uma Teologia séria e de uma Filosofia Cristã séria, desde que o primeiro dos predicados sobre a substância divina, aquele mais eminente de que Deus é Amor, deve ser duvidável, caso contrário não só a traição de Adão não seria possível, mas nem mesmo a de Lúcifer. As proposições se pretendem verdadeiras na sua própria dimensão, que é nominal, mas a sua realidade depende de um juízo que requer o assentimento de uma vontade livre, de modo que o que não pode ser negado também não pode ser afirmado, porque não pode sequer ser pensado. Neste sentido, Ockham também dá um testemunho formidável do dom de Soberania, alinhado com uma inclinação que já vinha tendo progressos com a filosofia dos franciscanos. Copleston não nos dá nada disso, talvez simplesmente porque isso não convém à sua Igreja? Há um medo, talvez, de que o ateísmo se torna intelectualmente viável com Ockham? Ora, quem fundou essa realidade da liberdade humana foi Deus, e se um homem não pode duvidar de Deus, igualmente outro homem não pode confiar em Deus realmente. O custo da liberdade, ou o seu risco, é alto porque a sua recompensa é igualmente valiosa, unicamente preciosa. Mas para sermos justos, esta obra não é uma análise em detalhe da obra de Ockham, e é um trabalho breve e introdutório apenas. Por fim, Copleston também não pode tomar partido no alinhamento de Ockham com Luís IV da Baviera, Imperador do Sacro Império, contra o Papa João XXII na discussão a respeito das propriedades da Igreja. Os franciscanos atacavam a concentração de riquezas pela Igreja romana, e enquanto os papistas defendiam que o uso dos bens implicavam no seu direito de propriedade, Ockham contribuiu com a distinção entre usus juris e usus fructis, etc. Excomungado e perseguido, teve que buscar refúgio no reino de Luís IV e morreu em Munique.
§ 12. O movimento ockhamista no Século XIV dá seguimento aos progressos escolásticos e antecipa as teses dos futuros modernos: nenhum juízo sintético é auto-evidente exceto a da existência do eu que pensa que nega a si mesmo (antecipando Descartes), ou então a proposição da existência de Deus não é analítica (antecipando Kant), etc. Estamos na encruzilhada do pensamento moderno, mas ainda em voz medieval.
§ 13. Nas margens do fim da Idade Média, Copleston identifica contribuições notáveis da mística de autores como Mestre Eckhart em antecipação ao idealismo alemão, e de Nicolau de Cusa como inspirador de Leibniz com sua coincidentia oppositorum, que é uma maneira de ver o desdobramento do Uno na manifestação do Múltiplo como relação, na sua linguagem, entre o Infinito e o finito.
§ 14. O autor termina fazendo uma breve referência às teorias políticas medievais, sem grandes consequências, exceto pelo seu constante ponto cego que o impede de ver a Igreja Católica como um poder humano em disputa com outros poderes seculares, o que simplificaria bastante o entendimento das disputas políticas entre Igreja e Estado. Copleston não conclui, mas podemos concluir nós mesmos, que a Filosofia Política de Tomás de Aquino pode ter sido o pivô da iniciativa papal do seu ensinamento como parte permanente do magistério da Igreja, muito mais do que outras partes da obra filosófica do aquinate.
Tive recentemente a oportunidade de ver uns descarados falarem montes de coisas contra montes de gentes desde aquele ponto de vista tão privilegiado que é o do farisaísmo católico. Falo de pessoas inteligentes e capazes que simplesmente se recusam a pensar na sua Mater et Magistra com o mesmo espírito crítico que dirigem aos adversários da Coisa (termo de Chesterton).
Perguntei ao nosso amigo Chat GPT sobre essas supostas verdades católicas, e ele nos informa que são mentiras católicas. É claro que o Chat GPT faz parte de uma grande conspiração anti-católica, etc., o que nem precisa deixar de ser verdade para que essas mentiras continuem sendo mentirosas. Vou mostrar os resultados das minhas pesquisas para vocês, mas não sem fazer antes uma observação importante a respeito do problema da Cabala.
O que é a Cabala? É a recepção da Tradição Oral pelos judeus, precisamente aquela Tradição condenada por Jesus. Interessante notar o quanto o catolicismo se tornou uma continuidade do messianismo talmúdico e cabalista, com a pretensão de um totalitarismo secular em nome de Deus, para fazer a restauração do mundo e instaurar o Reino de Deus no tempo presente, ou seja, dentro da História da Queda. Reparamos na repetição dos erros judaicos dentro do costume católico, isto é, aquelas grandes traições da Religião: 1) a imposição de uma Tradição Oral contra a liberdade individual de consciência e responsabilidade; 2) o culto da oferta de sangue como sacrifício aceito por Deus para a reconciliação espiritual; 3) o incentivo da continuidade do Pecado Original, o Pacto Ouroboros, em continuidade à prática iniciada por Adão e Eva; 4) a ameaça de uma penalidade terrível por toda a Eternidade em caso de questionamento dessas práticas religiosas. São esses judeus enrustidos que querem nos fazer crer que Lutero e outros são cabalistas, etc. São esses que se recusam a receber a liberdade trazida por Cristo contra toda a mentira diabólica desde o princípio, o próprio Gênesis, e que não querem que outros recebam a Boa Notícia dessa liberdade.
Vejamos os resultados das minhas consultas sobre os temas específicos.
Pergunta: É verdade o que os católicos dizem sobre Martinho Lutero ter algum envolvimento com a Cabala judaica?
A ideia de que Martinho Lutero teria envolvimento com a cabala (ou que era “cabalista”) não é uma posição oficial ou comum do catolicismo, nem historicamente sustentada por evidências sólidas. No entanto, essa associação ocasional pode ter surgido em certos círculos polêmicos ou apologéticos, especialmente no contexto de reações católicas contra o protestantismo durante e após a Reforma.
Aqui estão alguns possíveis motivos pelos quais essa ideia surgiu em certos discursos:
1. Polêmicas religiosas e associação com heresias
Durante a Contra-Reforma, apologistas católicos (e também protestantes entre si) frequentemente acusavam uns aos outros de heresias, influências judaicas, gnósticas, ou cabalísticas, como forma de deslegitimar seus adversários. A cabala, sendo mística e associada a correntes esotéricas judaicas, era vista com desconfiança. Acusar alguém de simpatia pela cabala era uma forma de pintar essa pessoa como herética ou desviada da ortodoxia cristã.
2. Confusão com interesse por línguas e textos hebraicos
Lutero estudou hebraico para traduzir o Antigo Testamento e tinha contato com textos judaicos. Isso, para alguns, podia ser mal interpretado como uma simpatia pela cabala, já que muitos textos cabalísticos são escritos em hebraico. Na época, o simples fato de lidar com fontes judaicas já era motivo de suspeita para alguns setores conservadores.
3. Teorias conspiratórias posteriores
Especialmente em séculos posteriores (século XIX em diante), algumas teorias conspiratórias tentaram ligar Lutero ao judaísmo esotérico ou à maçonaria, muitas vezes como parte de narrativas antissemitas ou antiprotestantes. Essas teorias às vezes tentam criar uma cadeia de influência “herética” que incluiria o protestantismo, a cabala, os iluministas e a maçonaria.
4. Literatura marginal
Alguns autores católicos ultra-tradicionalistas ou esotéricos podem ter feito essa ligação, não com base em evidências históricas sérias, mas por conveniência teológica ou ideológica. Essas fontes, contudo, não representam a doutrina católica oficial.
Fato histórico:
Martinho Lutero era profundamente hostil ao judaísmo em seus escritos tardios, especialmente em textos como “Sobre os judeus e suas mentiras” (1543). Isso torna ainda mais improvável qualquer envolvimento sincero com a cabala judaica.
Pergunta: É verdade o que os católicos dizem sobre os cátaros, ou albigenses, que estes iam de cidade em cidade obrigando as mulheres a abortar, de modo que foi a população do sul da França que pediu ao Papa que organizasse uma Cruzada para detê-los?
Não, essa narrativa propagada por alguns setores católicos modernos sobre os cátaros — de que eles iam de cidade em cidade obrigando mulheres a abortar e que a população do sul da França pediu ao Papa uma cruzada para detê-los — não é historicamente precisa e carece de evidências confiáveis. Vamos separar os fatos históricos das distorções posteriores:
O que sabemos com base em fontes históricas confiáveis:
Os cátaros (ou albigenses) eram um movimento cristão dualista ativo na região do Languedoc (sul da França) entre os séculos XII e XIII. Tinham crenças influenciadas pelo maniqueísmo, com uma visão dualista do mundo (espírito bom / matéria má), o que os colocava em oposição à Igreja Católica.
Os cátaros pregavam uma vida ascética e condenavam o mundo material, o que incluía críticas ao casamento, à procriação e à Igreja Católica institucional. Os mais devotos (os “perfeitos”) evitavam relações sexuais, consumo de carne e riqueza.
A Cruzada Albigense (1209–1229) foi convocada pelo Papa Inocêncio III, oficialmente para combater a heresia cátara, mas também envolvia interesses políticos e territoriais. O sul da França era relativamente autônomo e culturalmente distinto, o que incomodava o reino da França e a Igreja.
Não há registros confiáveis de que os cátaros “obrigassem” mulheres a abortar ou praticassem tal política sistemática. As acusações de práticas “perversas” (como aborto, incesto ou canibalismo) são típicas de campanhas de difamação contra grupos hereges na Idade Média — e devem ser vistas com ceticismo, pois muitas vezes eram propagandas da Igreja para justificar a repressão.
A narrativa de que a população pediu ajuda ao Papa:
A iniciativa da cruzada não partiu das populações locais, mas do Papa e de nobres do norte da França, interessados tanto em eliminar a heresia quanto em conquistar terras no sul.
Muitos senhores locais do Languedoc protegeram ou toleraram os cátaros, o que mostra que não havia uma rejeição popular generalizada ao movimento.
Fontes históricas relevantes:
“Montaillou: The Promised Land of Error” – Emmanuel Le Roy Ladurie (baseado em registros inquisitoriais)
“The Perfect Heresy” – Stephen O’Shea
“Heretics and Heroes” – Thomas Cahill
Registros da Inquisição, como os de Bernard Gui, também revelam tanto sobre as crenças cátaras quanto sobre as táticas da repressão.
Conclusão:
A ideia de que os cátaros impunham abortos e que a cruzada foi um pedido popular é uma releitura distorcida e anacrônica, provavelmente usada para justificar ou minimizar a brutalidade da Cruzada Albigense. A verdade é mais complexa: envolveu conflito teológico, interesses políticos e repressão violenta de uma dissidência religiosa significativa.
Pergunta: É verdade o que os católicos afirmam, de que os Bogomilos praticavam a sodomia?
Não há evidências históricas confiáveis de que os Bogomilos, um movimento cristão dualista surgido no século X na região dos Bálcãs, praticassem a sodomia como parte de sua doutrina ou ritos religiosos. Essa acusação foi feita por seus oponentes — principalmente autoridades católicas e ortodoxas — e deve ser entendida dentro do contexto das polêmicas religiosas e perseguições da época.
A Igreja frequentemente atribuía aos hereges práticas sexuais consideradas desviantes (como sodomia, orgias, incesto) como forma de demonização e difamação, independentemente da veracidade dessas alegações. Esse padrão se repetiu com outros grupos considerados heréticos, como os cátaros e os valdenses.
Os Bogomilos, na verdade, pareciam praticar uma forma de ascetismo rigoroso, rejeitando a carne, o casamento, e outras expressões materiais e carnais da vida, o que contradiz diretamente a ideia de que promoviam ou toleravam práticas sexuais libertinas.
Em resumo: Não, não é verdade no sentido de ser um fato historicamente comprovado. Essa alegação provavelmente fazia parte de uma campanha de propaganda religiosa contra o grupo.
§ 1. Com o décimo filme de Kubrick em análise, podemos ver agora a sua obra como um todo desde um patamar mais privilegiado do que no início. Este filme foi feito, imaginemos, com a máxima qualidade técnica do cineasta, especialmente de sua apurada capacidade de trabalhar o controle do mise-en-scène. Nossa primeira obra analisada era de 1957 (Glória feita de sangue). Em seguida analisamos trabalhos de 1960 (Spartacus), 1962 (Lolita), 1964 (Dr. Fantástico), 1968 (2001: uma odisséia no espaço), 1971 (Laranja mecânica), 1975 (Nascido para matar), e finalmente chegamos em 1980, com O Iluminado. São nove obras pouco mais de vinte anos. Pois bem, dezoito anos depois, em 1999, Kubrick aparece com sua obra final, este De olhos bem fechados. Parece que quer dar-nos um recado? Dizer algo importante, antes de partir? Isso poderia parecer mais uma conspiração tola, se não fosse relevante o fato de que Kubrick morre exatamente seis dias depois de entregar a edição do filme finalizado para a Warner Bros. Para quem gosta de conspirações convém pensar que Kubrick possa ter desejado falar algo, dentro das regras do jogo, e portanto com a permissão de Hollywood sob as regras sagradas do Annuit Coeptis, não mais sobre atos farsescos, como o pouso do homem na Lua, mas sobre as pessoas que sustentam a farsa deste mundo e a origem do seu poder. Dirão que estou indo longe demais, mas esse talvez seja o meu trabalho mesmo, dizer o que os tímidos temem.
§ 2. O título do filme já precisa ser explicado, e o pode facilmente com a imagem usada para a sua publicidade: William Harford (Tom Cruise), ou simplesmente Bill, fecha os olhos ao beijar Alice, sua esposa (Nicole Kidman). Isso representa a fantasia dos casados ao se beijarem, de poder estar com outros parceiros. Mas ao mesmo tempo e principalmente no contexto deste filme representa o adultério num sentido mais profundo, aquilo que Bill não quer ver de jeito nenhum, as mentiras da vida e do mundo, e até a maior das mentiras, de que o mundo é governado por boas almas e não por servidores que fizeram pacto com o Inferno. Como veremos, Alice mantém os olhos abertos porque ela vê o que Bill se recusa a enxergar.
§ 3. Bill é o Dr. Harford, médico de pessoas ricas em Nova Iorque. O filme começa com Bill e Alice comparecendo à festa de Ziegler, um homem poderoso e rico. Lá já vemos os dois flertando com outros participantes da festa. Um senhor húngaro que dança com Alice pergunta: “um dos encantos do casamento não é que ele exige a farsa das duas partes?” Isto é, o casamento se mantém com base numa mentira na qual pactuam os dois cônjuges, a mentira de que só querem um ao outro. Alice está bem solta por conta da bebida, mas se contém quando é convidada à traição. William também flerta com duas moças que querem levá-lo ao “fim do arco-íris”, que é um símbolo do fim da consumação do Adultério no sentido espiritual, quando Deus não mais manterá a Aliança feita com Noé. De acordo com a regra que nos foi dada por Jesus, de fato ambos Bill e Alice já são adúlteros, porque isto é o que está em seus corações. Esta é a verdade do ser humano: ele é um mentiroso.
§ 4. No meio da festa Bill é chamado para cuidar de Mandy, uma amante (ou prostituta?) de Ziegler que passa mal depois de abusar de algumas drogas. Ziegler pede segredo sobre o caso. Harford participa dos segredos e mentiras do alto escalão da sociedade, até certo ponto, mas não avança para além. Sua curiosidade, porém, o fará passar dos limites, como veremos. Mais tarde, embalada pelo uso de droga (maconha), Alice confronta William e ambos discutem o problema da fidelidade. Bill quer manter a mentira, mas sua esposa quer a verdade. De sua parte conta seus sentimentos de infidelidade num episódio do passado. Ela não o traiu, mas definitivamente o quis fazer. Isso o atormentará durante o resto do filme. Alice não o quis poupar disso porque a mentira dele alcançou um cúmulo que ela não mais suportou.
§ 5. Bill tem que sair na noite para visitar a residência de um paciente que acabou de falecer. Fica com tudo que sua esposa disse em mente o tempo todo. Na casa do falecido encontra Marion, a filha do morto, que beija o médico e diz que o ama. Ele se desvincula dela, mas fica evidente que as mulheres estão colocando Bill na realidade: tudo acontece ao redor do poder e do sexo. Ele sai pelas ruas pensando sobre tudo isso. Bill acaba aceitando o convite de Domino, uma prostituta, para entrar no apartamento dela para um programa. Mas ele nem sabe o que pedir. Ela conduz a situação, mas Alice liga para o marido antes que eles possam avançar, e ele muda de ideia. Da o dinheiro para ela mesmo assim, 150 dólares. E segue na noite. Bill quer consumar o adultério, mas não consegue ser o adúltero consumado.
§ 6. Bill encontra seu amigo, o ex-colega de curso de medicina, Nick Nightingale, tocando como pianista num bar. Eles já tinham se reencontrado na festa de Ziegler, onde Nick também performou. Os dois conversam no bar. Bill fica sabendo do trabalho de Nick numa misteriosa festa com mulheres bonitas e fica curioso. Descobre a senha, “Fidelio”, e decide conhecer o mistério. Antes, porém, precisa de uma fantasia e de uma máscara. Ele consegue a roupa com Milich, numa loja chamada “Rainbow Fashions”. Uma referência bem óbvia àquele estímulo inicial das duas mulheres na festa de Ziegler. Na loja a filha de Milich, menor de idade, está com dois amantes. Tudo estimula Bill na direção de uma consumação erótica, porque tudo ao redor é sobre sexo. Mas principalmente o que o conduz é a confissão da esposa, que continua como um pensamento fixo em sua mente.
§ 7. Ele finalmente se dirige à Mansão Somerton, o local da misteriosa festa indicado por Nick. Todos estão mascarados. Lá ele encontra um ritual em andamento, onde aquele que cumpre o papel de um sacerdote, vestido com uma roupa vermelha, como que invoca alguma força e a distribui por algumas mulheres participantes do rito, mulheres estas que são enviadas então para encontrar parceiros no evento. Esse rito que Bill assiste é para mim um símbolo muito óbvio do Pecado Original: a Serpente encontra a mulher, lhe transmite o seu “dom”, a Gnose que é a mentira do amor e da felicidade sem Deus, e então a mulher procura o homem para propagar esse “dom” recebido. Bill é escolhido por uma das mulheres que logo lhe diz: não sei o que você pensa que está fazendo, mas você não pertence a este lugar e deve ir embora logo, está correndo um grande perigo. Ele continua vagando curioso pela festa até que é descoberto. Quando está prestes a ser punido, a mulher que o alertou pede que parem e se oferece para redimi-lo. Ele é convidado a se retirar com o alerta de que não deve falar de nada do que viu para ninguém, ou ele e sua família sofrerão as piores consequências.
§ 8. Ele finalmente volta para casa. Sua esposa acorda de um sonho e ele pede que a conte o que era. No sonho ela transava com muitos homens para zombar dele, enquanto ria descontrolada. Isso só vai fortalecer suas angústias interiores. No dia seguinte Bill maneja as consequências de tudo. Descobre que seu amigo Nick foi sequestrado pelos organizadores da festa, provavelmente por ter sido ligado à sua presença como não convidado. Descobre também, quando vai devolver a roupa alugada para a festa, que o Sr. Milich está prostituindo a filha. O mundo vai se mostrando nas suas realidades. Por fim, Bill decide visitar a Mansão Somerton. Ele recebe um bilhete: “desista de suas investigações”.
§ 9. Bill continua obcecado pela ideia de sua esposa com outros homens. Ele tenta refazer o percurso da noite anterior com outras mulheres, para tentar consumar uma traição vingativa ou catártica, não sabemos bem porque ele próprio não sabe bem o que quer, mas elas não estão disponíveis. O marido de Marion atende o telefone no lugar dela. Já Domino saiu e no seu apartamento Bill só encontra Sally, a amiga que vive com ela. Bill está disposto a ficar com Sally mesmo assim, tamanha a sua miséria espiritual, mas ela quebra o clima e diz que Domino descobriu que está com HIV. Mais mundo real.
§ 10. Bill volta a vagar pelas ruas à noite, e tem a certeza de que está sendo seguido. Ninguém o ataca, mas é um recado de que está sendo vigiado. Ele descobre pelos jornais que uma famosa modelo foi encontrada morta por overdose, Amanda Curran. Imediatamente imagina que Amanda é a “Mandy”, a garota de que cuidou na festa de Ziegler. Ele vai reconhecer o corpo e está convicto de que foi ela quem o salvou na festa. A realidade do mundo está escancarada, eis o que há no fim do arco-íris: sequestro, violência, prostituição, doença e morte.
§ 11. Ziegler o chama para uma conversa. Revela que estava na festa e reafirma que Bill correu um grande risco, embora depois tente convencê-lo de que tudo não teria passado de uma farsa. Sua intervenção é obviamente cheia de mentiras e manipulações. Quer apenas controlar uma situação, ao custo de contar o que o médico quiser ouvir para seguir com sua vida. Mas Bill fala que reconheceu a mulher morta. E pergunta: que tipo de farsa termina com uma morte? Aí vem a grande revelação de Ziegler. Diz que Bill não entendeu muitas coisas do que viu. “Ninguém matou ninguém. Alguém morreu. Acontece o tempo todo. Mas a vida continua. Sempre continua… até que acaba. Mas você sabe disso, não é?” Sim, isso é nada menos que uma repetição do dito bíblico: o salário do pecado é a morte. Ziegler está relembrando Bill, que não é nenhuma criança, de que o mundo é assim e sempre foi assim. A única resposta digna diante disso seria a condenação do pecado, mas Bill não conhece Deus, só conhece sua profissão prestigiosa, sua bela esposa troféu, e sua vida de pai de família respeitável. É a mentira da qual não pode escapar, porque não tem Deus. Ziegler o enquadrou num xeque-mate espiritual.
§ 12. De volta para casa, Bill vê que a esposa descobriu sua máscara da festa em Somerton e desaba, dizendo que vai contar tudo para a esposa. Na última cena, enquanto passeiam por uma loja com a filha Helen, Bill pergunta o que eles devem fazer. Alice diz que devem ser gratos por ter sobrevivido e por estarem bem, e torce para que isso dure bastante. Bill diz: “para sempre”, mas ela responde que isso a assusta. Ela sabe das coisas. Alice termina dizendo que há uma coisa muito importante que eles precisam fazer o mais rápido possível: foder. Ela já entendeu tudo muito mais rapidamente e profundamente do que ele jamais poderia, pobre coitado.
§ 13. Bill é como um menino assustado que precisa que alguém lhe diga o que deve fazer. Provavelmente só trocou sua mãe pela esposa nesse papel. Muitos, muitos homens são assim. Alice percebe a condição de Bill e resolve que apesar da situação como um todo ser falsa, isto é, o próprio casamento, Bill precisa disso para sobreviver na insanidade do mundo. Ela precisa dar o sexo para ele, como uma mãe precisa amamentar seu filho. Ele não aguentará a realidade.
§ 14. E como ele poderia? Através de Discernimento espiritual, e da vida na Presença de Deus. Isso poderia fazê-lo entender a realidade em que se encontra, um mundo governado pelo diabo que comprou a humanidade com o Pecado Original. Alice, como toda mulher, por ser usada pelo homem como veículo do domínio da mentira, tem uma intuição visceral da realidade do pecado. Como Bill se recusa a ser uma testemunha de Deus e de seu Amor, ele precisa ser protegido por Alice, inclusive com o sexo seguro e supostamente santificado através do matrimônio.
§ 15. Mas nós sabemos, ou deveríamos saber, que amor não é possessão. O verdadeiro ciúme é uma coisa sagrada, divina. O ciúme de Bill é doentio porque ele crê que precisa de qualquer coisa que não seja Deus para a sua felicidade, e isto se concretiza na sua vida na forma da sua mulher. Seu foco em Alice o ajuda a não se perder mais ainda no mundo de mentiras e ilusões. Mas ele não deixa de ser presa do pecado. Como Ziegler lhe disse, ninguém mata ninguém, mas todo mundo morre. E que tipo de farsa termina com uma morte? A farsa do Pecado Original travestido de Amor. Por isso Alice não quis afirmar que se amariam para sempre: ela não quer que a mentira dure para sempre. Eles precisam morrer.
Nota espiritual: 5,4 (Calaquendi)
Humildade/Presunção
5
Presença/Idolatria
5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte
4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno
4
Soberania/Gnosticismo
6
Vigilância/Ingenuidade
8
Discernimento/Psiquismo
6
Nota final
5,4
Como já terminamos de ver os dez principais filmes de Kubrick, podemos calcular a nota espiritual média para essa parte principal de sua obra: 4,9 (Moriquendi).
§ 1. Este filme –o nosso nono de Kubrick– conta a estória de um grupo de fuzileiros navais americanos desde o seu treinamento de seis semanas na Carolina do Sul até a sua entrada em ação no teatro de guerra do Vietnã. Testemunhamos o problema do treinamento de um exército profissional moderno: por não existir o apelo imediato da defesa da terra e da família que movia as mobilizações militares desde o tribalismo até o fim da Idade Média, é preciso fazer um extenso doutrinamento ideológico para transformar homens comuns em assassinos aptos a matarem desconhecidos do outro lado do mundo. Nosso grupo de soldados sofre nas mãos do rigoroso Sargento Hartman, interpretado pelo excelente Lee Ermey. Especialmente o soldado Leonard Lawrence (o “Gomer Pyle”) é vitimado pela rotina e pelo ambiente do treinamento. O protagonista, que é o soldado Davis (“Joker”), percebe a dificuldade de Lawrence, mas não consegue fazer nada para evitar a situação. Não quer se destacar do grupo em defesa de um. A psicologia da manada tem efeito até sobre sua personalidade supostamente mais diferenciada e esclarecida. Kubrick parece gostar de mostrar a corrupção dos melhores, dos que seriam mais confiáveis.
§ 2. Lawrence à certa altura começará a enlouquecer com a lavagem cerebral do treinamento, e no último dia dos soldados antes de seu envio para a guerra ele tem um surto no qual perde o controle. Davis diz que ele deve se recompor, ou eles estarão “num mundo de merda”. Lawrence, já praticamente possuído por um ódio homicida, responde: “ah, mas eu já estou num mundo de merda.” O Sargento Hartman aparece, Lawrence o mata e se suicida em seguida. É a colheita do incentivo ao tal “espírito assassino” que foi uma doutrina do treinamento. O objetivo do treinamento foi atingido parcialmente. Só falhou o direcionamento do ódio do instinto assassino de Lawrence. Hartman pagou por sua incompetência?
§ 3. Na guerra o soldado Davis vai trabalhar na sessão de jornalismo do USMC, ou seja, com a missão de fabricação de mentiras sobre a guerra. Ele acaba testemunhando a Ofensiva do Tet, quando os vietcongues surpreenderam os americanos no meio do cessar-fogo do feriado do Ano Novo lunar. Do ponto de vista militar podemos dizer que a estratégia global vietcongue foi vencedora porque eles foram mais fiéis à arte da guerra, que é a mentira e a manipulação. Guerra é política, já tinha ensinado não só Sun Tzu, mas também Clausewitz.
§ 4. Davis vai para a frente de batalha em Hué. Testemunha muitas atrocidades, dos dois lados da guerra. Um Coronel questiona Davis, que usa o broche da paz no peito enquanto em seu capacete está escrito “nascido para matar”. Não tem coerência alguma. Davis diz que isso vem da dualidade humana, algo junguiano, mas não se aprofunda. Ele percebe a Mistura, mas não sabe, ou não quer, discernir para além disso. Seu papel é de se aprofundar na aceitação desse status quo como uma realidade inescapável. O filme de Kubrick parece se encaminhar para um quadro fatalista.
§ 5. Ao fim do filme, depois de uma salada emocional com triunfos e frustrações no meio da guerra, Davis parte do Vietnã com sonhos eróticos em mente, imaginando o reencontro com sua namorada. Diz-nos, como narrador do filme: “sim, estou num mundo de merda, mas estou vivo e não tenho medo.” Davis viu as vísceras da condição humana na guerra, mas não entendeu nada. Sua atitude de querer voltar para sua pátria para viver sua história com a namorada, possível futura esposa e mãe de seus filhos, como manda o costume, mostra que ele dá o assentimento para esse estado de coisas. É uma visão trágica e fatalista do mundo. Quando Lawrence tinha lhe dito que “já estava num mundo de merda”, não ocorreu a Davis investigar as razões para que isso fosse assim, bem como de toda a desgraça que ele vai presenciar no Vietnã. Ao fim ele reafirma, sim, estou num mundo de merda de fato, mas vamos em frente…
§ 6. Isso porque não existe transcendência neste filme. Jesus é um personagem religioso usado apenas para o doutrinamento militar dos fuzileiros contra os “pagãos comunistas”. Os símbolos religiosos e espirituais são apenas instrumentos de propaganda. Kubrick nos mostra um mundo brutal de onde não há escapatória, nem redenção, e nem esperança alguma senão a de tentar lucrar algo com a participação na Mistura. Que Hartman, ou qualquer outro soldado pensasse assim, seria esperado e muito verossímil. Mas porque Davis não pode cogitar uma alternativa? Porque ele não quer. Davis não é mais um nascido para matar pelo desígnio de uma vontade exterior, mas pela sua própria vontade, pelo seu próprio assentimento. Sendo inteligente e sensível, Davis é o ponto de identificação de um público inteligente e sensível. E Kubrick está usando Davis para dizer a esse público esclarecido: não há saída, é isso mesmo, vocês estão num mundo de merda e a única coisa que podem fazer é ir em frente e viver como seres nascidos para matar.
§ 1. Um filme obsessivamente analisado em seu simbolismo, O Iluminado, o nosso oitavo de Kubrick, de fato mostra o capricho do diretor em seu mise-en-scène. E é claro que há referências que servem como prato cheio para os teóricos da conspiração. As pessoas vêem foguetes aqui e ali, e de fato não pode nos escapar a blusa de Danny com a imagem representando a Apollo 11.
§ 2. A estória, baseada num livro de Stephen King, fala de Jack Torrance, um frustrado pretendente a escritor, que assume o serviço de cuidar do Hotel Overlook durante uma temporada de inverno. Leva sua esposa, Wendy, e seu filho, Danny. O Hotel, porém, já tem uma história sinistra, um crime horrível ocorrido nas mesmas circunstâncias em que Jack estará com a sua família. O zelador anterior assassinou suas duas filhas e se matou. Jack é avisado do risco da chamada “cabin fever” pelo gerente do Hotel. Jack não se preocupa.
§ 3. O pequeno Danny, por sua vez, tem um dom misterioso que o faz ter visões do futuro. Ele conversa com seu amigo imaginário, Tony, que lhe previne que o Hotel para onde eles irão é um local assombrado. Ele pede e recebe sua primeira visão do local, uma cena sangrenta. Quando chegam no Hotel, Danny conhece o Sr. Halloran, o cozinheiro. Halloran logo perece o dom de Danny, porque ele próprio possui uma capacidade semelhante. Diz que eles são “iluminados”. E previne para que ele tome cuidado naquele lugar. Diz que tudo que acontece num lugar deixa rastros, e que algumas coisas que aconteceram ali não foram boas.
§ 4. Jack não quer cuidar de suas ocupações no Hotel, que acabam sobrando para Wendy na maior parte. Mas também não consegue trabalhar como escritor. Fica distraído, sem inspiração, perdido. Sua esposa e o filho o irritam. Descobrimos que Jack já foi violento com Danny antes, e é possível que isso tenha inclusive despertado o dom misterioso da criança. Talvez assustado demais com a realidade o garoto tenha buscado refúgio no seu interior e descobriu algo ali?
§ 5. Em determinado ponto da estória algo se manifesta. Jack tem um pesadelo e Danny aparece machucado depois de entrar no quarto 237, onde Halloran havia dito que não deveria ir de jeito nenhum. Wendy acusa Jack de ter sido violento novamente contra o filho. Totalmente perdido, Jack vaga pelo Hotel e começa a ter suas próprias experiências sobrenaturais. Quando Wendy o procura, encontra o “trabalho literário” do mesmo: uma pilha de folhas onde Jack escreveu a sua famosa frase “all work and no play makes Jack a dull boy”. Ele pergunta: você gostou? Começa o terror.
§ 6. Jack quer agarrar e trucidar a mulher e o filho. Eles tentam escapar enquanto o Hotel manifesta ao máximo suas energias malignas. Agora até Wendy tem visões. Quando eles estão prestes a serem pegos, surge uma buzina na noite de nevasca lá fora. É o Sr. Halloran, que teve sua própria visão e decidiu ir até o Hotel para checar a situação. Jack desvia sua atenção da família, vai atrás de Halloran e o mata. Jack termina caçando o filho no labirinto em frente ao Hotel, mas o menino por astúcia consegue enganar o pai e fugir com a mãe. Jack morre congelado.
§ 7. Qual é a origem do mal no Hotel Overlook? Existem muitas explicações, a mais antiga vindo desde a época da construção do mesmo, já que tendo sido feita sobre um antigo cemitério indígena, envolveu alguma violência na defesa da construção contra ataques da tribo local. Jack mesmo parece reencarnar o antigo zelador do local. Estas especulações não chegam em lugar nenhum, porém. O que nos interessa é saber porque Jack foi possuído por essas forças demoníacas, sejam quais forem as origens das mesmas. Lá convivem funcionários e hóspedes a maior parte do ano, e mesmo na ocasião da crise da família Torrance, o mal foca em Jack especificamente como um veículo para a sua manifestação.
§ 8. Jack mesmo nos dá a pista disso em seu “trabalho literário”. Ele não quer carregar a sua Cruz, particularmente suas obrigações com a família. No caso do filho ele se vê claramente forçado a gostar do mesmo a contragosto. No momento de seu ataque de ódio, é disso que ele fala com Wendy: de suas responsabilidades. Vítima do Pecado Original como qualquer nascido de mulher, nunca ocorreu a Jack que ele caiu como vítima de um naufrágio neste mundo. Embalado pelas promessas de felicidade e de um possível Paraíso terrestre, como qualquer pessoa comum Jack mente para si mesmo a respeito da natureza do mundo em que vive, faz planos, e envolve pessoas nestes planos. Wendy acredita no mentiroso, como as mulheres geralmente fazem. E Danny nasce desse casamento entre a Pretensão do pai com a Ingenuidade da mãe. Quanto mais nos envolvemos com as mentiras da vida neste mundo e mais investimos nelas, mais arbitramos o excesso da experiência da Mistura e caminhamos na direção daquilo de que deveríamos fugir para o mais longe possível. Foi o que Jack fez.
§ 1. Este nosso sétimo filme de Kubrick conta a estória de Redmond Barry, um jovem irlandês que é iniciado nas maldades do mundo e não tem exatamente muitas reservas à esse respeito. Vive numa época onde a humanidade, ou pelo menos a européia, queria se considerar decente e respeitável com costumes como os duelos em nome da honra. O pai de Barry morre num duelo por qualquer disputa estúpida. A vida moral do próprio Barry começa para nós com a sua paixão pela prima Nora, contra a qual não quer fazer questão de resistir, e que lhe leva então a uma frustração quando ela decide se casar com um inglês maduro e rico. Ele deseja vingança e a consome num duelo. Levado a se exilar do país para não ser preso por ter supostamente matado seu adversário, só depois descobre que o mesmo não morreu, que passa bem e inclusive casou com sua prima, como a família já tinha planejado fazia tempo.
§ 2. Mentiras e trapaças levam Barry a aprender sobre o mundo e a decidir tomar parte no esquema das coisas. O jovenzinho idealista logo desfaz suas ilusões. Já na estrada do seu exílio é roubado. Tiram-lhe o dinheiro e o cavalo. Ele decide se alistar no exército inglês, que estava em guerra contra a França, para escapar da Justiça e ao mesmo tempo ganhar a vida. Ele sempre tem habilidade e bravura suficientes para se destacar e vencer na vida, mas quer fazer seu próprio destino. Deserta do exército inglês e começa a viver sua primeira grande farsa como um Oficial em missão no interior da Prússia. Vive assim até certo ponto, mas termina descoberto e tendo que servir forçadamente, para não ser executado, ao exército prussiano, muito mais rigoroso e inclemente do que o inglês do qual quis fugir.
§ 3. Como não é totalmente incapaz de agir com alguma bondade, ele acaba se redimindo perante os alemães depois de salvar seu Capitão numa determinada batalha. Acabada a guerra, é contratado para ser um espião à serviço da polícia. Seus patrões reconhecem sua qualidade de farsante e decidem empregá-la. O que não contavam é que ere se tornaria agente duplo, terminando por servir aquele contra o qual foi enviado para espiar. Seu novo amo e Barry escapam da Prússia e vagueiam pela Europa ganhando dinheiro com truques e trapaças através da organização de jogos de cartas. Ganham a vida, e vivem razoavelmente bem, mas Barry não tem ainda a solidez de uma vida bem estabelecida, esse sonho de todos os desgraçados da Terra que querem encontrar seu Paraíso neste vale de lágrimas.
§ 4. Eventualmente Barry encontra a solução na pessoa da Condessa de Lyndon. Casada com o velho e doente Charles Lyndon, a mulher não tem nenhum pudor de aceitar Barry como seu amante e futuro candidato a marido. E tão logo morre o Conde, dito e feito, Barry consuma sua última grande farsa e se torna Barry Lyndon. Acredita que esta será a mentira final de sua vida, sobre a qual pode repousar como parte da nobreza inglesa. Seu caráter, porém, foi corrompido depois de tantos anos de iniciação na malícia do mundo. Continua sendo um jogador libertino, trai a esposa, castiga o enteado Bullingdon e vive esbanjando. Mas consegue amarrar a esposa fazendo um filho com ela, Bryan. E um filho é como um feitiço para uma mãe, fazendo-a suportar qualquer situação.
§ 5. Barry concentra-se em mimar seu filho e em ambicionar a parte final de seu plano de sucesso na vida: tornar-se um nobre ele próprio. Acontece que todas a propriedades são da Condessa, e mesmo que casado, por não ter origem nobre Barry não pode herdar bens que por direito caberiam a Lorde Bullington, filho do falecido Charles Lyndon. Então aquela velha cobra jararaca, a serpente ancestral e peçonhenta que trouxe Barry a este mundo de desgraças e infortuníos, sua mãezinha, o convence de que tem que ganhar um título de nobreza a qualquer custo, para garantir seu futuro em qualquer caso. Não duvido que a desgraçada imaginasse a morte da nora para que ela se tornasse uma espécie de superfarsante, a nova Condessa de Lyndon ela própria. Dá seu testemunho mais espirituoso ao filho: use o dinheiro da própria família Lyndon para comprar a nobreza.
§ 6. Esse plano levará a família a assumir dívidas enormes. Para piorar a situação, a predileção de Barry por Bryan faz Bullington sofrer nas mãos do padrasto. Não aguentando mais ver a ruína da família nas mãos de um oportunista que ainda ousa lhe castigar como se fosse seu próprio filho, Bullington decide partir, mas não sem antes jogar na cara da Barry e da própria mãe a verdade de tudo o que fizeram e andam fazendo para desgraçar a memória de seu falecido pai. Num ataque de fúria por ter sido tão desmascarado em seus esquemas, Barry parte para a agressão contra Bullington, bem na frente de toda a nobreza que ele queria convencer a aceitá-lo como um dos seus. É o começo do fim.
§ 7. Endividado e sem mais chances de subir à nobreza, Barry se concentra na alegria que lhe sobrou, que é seu filho Bryan. Resolve comprar um cavalo de presente para o garoto, depois da insistência deste. E o garoto, ansioso para aproveitar o seu presente, tenta montar sozinho sem a ajuda do pai, sofre uma queda e morre dois dias depois. A Barry, que nunca teve Deus, só resta agora o consolo da bebida. Vive constantemente embriagado. A Condessa resolve partir para a uma falsa religiosidade, meio que tarde demais, cá entre nós. Quando lhe cabia ser fiel ao falecido marido ela não estava muito interessada em virtude. Eis que a virtude mais barata é a que cobra caro no começo e paga dividendos gordos mais tarde. A virtude tardia é a mais cara, a mais amarga, a mais dura de todas. Ela não escapa do sofrimento. Ninguém escapa.
§ 8. Aquela adorável velhinha, a bruxa conhecida como mãe de Barry, decide tomar conta dos negócios da família, já que a Condessa está desolada e incapaz, e o próprio Barry não faz mais do que beber. Talvez pudesse colocar todas as coisas em ordem, com o tempo. Mas os servidores da família se voltam contra ela, ao perceber que eles serão as vítimas (injustiçadas, cá entre nós) da necessidade de equilíbrio financeiro dos Lyndon. Buscam o autoexilado Bullington que finalmente resolve, apesar de seus medos e fraquezas, enfrentar Barry num duelo pela sua honra. Curiosamente, ele deveria perder o duelo, e Barry, num de seus casuais atos de pequena bondade, resolve não atirar contra o enteado. Mas Bullington insiste no acerto de contas e consegue atirar na perna esquerda de Barry, que terá que ser amputada.
§ 9. Isso dá tempo para que Bullington reoganize as questões da família, volte para viver com a mãe e faça uma proposta para que Redmond Barry (ele sempre fez questão de chamá-lo assim) saia do país e receba uma renda anual para se manter longe dos Lyndon. Acompanhado daquela feiticeira, sua adorável mãe, Barry se retira para uma vida que terminará, de acordo com a narrativa, em solidão e pobreza. Tem a quem agradecer por tudo isso: a si mesmo e à sua última companhia em vida, a própria progenitora.
§ 10. O filme é um retrato minucioso da vida na Mistura e da decadência humana decorrida da participação no Pecado Original. O demônio certamente é representado pela mãe de Barry, embora isso só pareça claro mais para o fim do filme. O próprio Barry não passa de ser um personagem moralmente fraco que infelizmente descobriu seu grande talento para a mentira. Vive de mentiras e farsas porque não quer carregar a Cruz. Mas a Cruz é sagrada e inviolável. Ele não consegue escapar dela. A única coisa que consegue fazer é tornar provavelmente ainda mais miserável a vida das pessoas ao seu redor. Neste sentido, é um retrato muito fiel da realidade da condição humana, mas não se engane quem pensa que isto é uma tragédia. Tivesse já aceitado que sua prima Nora se casasse com outro, tudo poderia ter sido melhor. Certamente Barry não quis contar com nenhuma Providência. Simboliza o homem que quer conquistar o seu Destino e que foge da Cruz como o próprio Diabo. Ganha a vida, mas perde a alma. E não escapa da Cruz. Qual foi a vantagem?
§ 1. Este filme, o nosso sexto de Kubrick, é o primeiro onde o diretor fez notar o evento do suposto pouso do homem na Lua em 1969. Eu pensava que a primeira referência estava em O Iluminado (numa camiseta usada por Danny), mas aqui já temos essa nota, quando logo na primeira cena do filme um coitado de um mendigo é atacado pelo grupo dos bagunceiros e diz: “Que mundo é esse? Homens na Lua, e homens na Terra girando como mosquitos ao redor da lâmpada, e não há mais nenhuma atenção dada à Lei e a Ordem terrestres.” Isso pode parecer não ter nenhum valor, mas a quem não sabe talvez interesse ficar sabendo que existe uma teoria conspiratória que afirma que Kubrick produziu o falso filme que foi apresentado ao público como feito na Lua pelos astronautas. Tal filme teria sido feito por uma de duas razões: 1) o homem não foi à Lua, mas era preciso “vencer” a corrida espacial contra a URSS no contexto da Guerra Fria, e os russos e toda a humanidade foram então enganados pela arte de Kubrick; 2) o homem foi à Lua, porém lá ele encontrou algo de que a humanidade não poderia tomar conhecimento, e o filme foi encomendado à Kubrick para ser apresentado no lugar as filmagens verdadeiras. À favor desta segunda tese pesa o próprio roteiro de 2001: uma odisséia no espaço, que conta justamente a história do homem descobrindo algo na Lua e tendo que esconder isso da humanidade à todo custo. De qualquer modo Kubrick teria feito referências veladas e simbólicas à farsa do pouso do homem na Lua durante toda a sua carreira filmográfica.
§ 2. Voltando ao nosso filme em pauta, a estória fala do jovem Alex, um garoto perturbado que causa muitas desgraças com seu bando criminoso pelas ruas. Mente, rouba, estupra e mata. Nada parece causar-lhe o menor sentimento de culpa, nem de perto. Eventualmente ele é preso e na sua reclusão aprende a fingir bom-mocismo e até uma conversão religiosa para ter vantagens. Não entendam mal: Alex é inteligente e até capaz de refinamento. Sua música favorita? A Nona Sinfonia de Beethoven. Mas é um psicopata completo, realmente doentio. Depois de dois anos de cumprimento de sua pena, ele é convidado a participar de um programa experimental de “cura” que supostamente poderia levá-lo à liberdade em apenas duas semanas (ele ainda teria uns doze anos de pena à cumprir).
§ 3. O capelão com quem Alex trabalhava na prisão o alertou contra o Método Ludovico. “A bondade é algo a ser escolhido. Quando um homem não consegue escolher, ele deixa de ser homem.” Mas Alex decide ir, ele não tem nenhuma preocupação com a escolha consciente de nada, só quer a sua liberdade. De fato, o tal método nada menos que uma lavagem cerebral que faz a vítima ter a reação inversa quando tiver a vontade de agir violentamente. Um teste é feito depois que Alex conclui o seu tratamento, e confirma-se a sua eficácia. Ele não consegue reagir a um agressor, e ao contrário, quando este lhe ordena, Alex literalmente lambe a sola de seu sapato. Na parte final do teste, uma mulher nua e muito sedutora aparece, mas Alex não consegue avançar sobre ela. Todos comemoram o resultado, exceto o capelão. Ele diz a verdade: “O menino não tem escolha de verdade, tem? O interesse próprio, o medo da dor física, o levaram àquele ato grotesco de autodepreciação. A falta de sinceridade era evidente. Ele deixa de ser um malfeitor. Deixa também de ser uma criatura capaz de escolha moral.” Ninguém o apóia. Estão todos entusiasmados com a solução política para o problema da criminalidade.
§ 4. Alex é solto, mas logo se depara com dificuldades naturais da vida, com a família que não o acolhe, e mesmo nas ruas onde antes dominava, mas agora ele só consegue ser uma vítima. O filme mostra como de certo modo, ainda que de maneira completamente desproporcional e criminosa, Alex era uma criatura do mundo que reagia ao mundo tal como ele era. O que lhe resta é tentar encontrar alguma compaixão, mas acaba no lar de uma de suas antigas vítimas, um sujeito com a dupla motivação de se vingar de Alex e de fazer uso político do caso conforme a agenda sua e de seus aliados (são contra o governo que instituiu o Método Ludovico). A tortura à que Alex é submetido é a mais inusitada que se poderia imaginar: ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, a música de que mais gostava antes, mas que agora lhe gera pura agonia. Acontece que na sua terapia de “cura”, numa determinada sessão essa música foi tocada, e Alex a associou daí em diante com a violência que era mostrada, e agora a mesma reação física de repulsa que lhe acomete quando pensa em praticar qualquer ato violento é gerada quando ouve a música. Ele acaba se atirando de uma janela, mas não morre.
§ 5. Internado, ele é recuperado com uma terapia de reversão dos efeitos do Método Ludovico. Recebe a visita do líder político que tinha instituído o tratamento como política de Governo, que tem o interesse de mostrar um bom relacionamento com Alex, visando a próxima eleição. Lhe oferecem um cargo bom, um salário, etc., como compensação pelo seu sofrimento. O resultado de tudo isso? O psicopata vai voltar à ativa, e com o bônus de um suporte governamental. Isso é muito simbólico, porque a política, especialmente nas funções de alta liderança, é uma atividade humana muito cobiçada e ocupada por psicopatas. Pense: o que faz um ser humano se achar bom o suficiente para governar a sociedade? Não pode ser nada de bom. Alex está bem encaminhado para se tornar uma grande coisa no mundo, e entre políticos estará certamente entre os seus.
§ 6. Temos testemunhos valiosos à favor da Humildade (indiretamente, com a denúncia dos poderosos), e também da Soberania (através da oposição do capelão ao Método Ludovico). Mas mais ainda, este filme tem uma nota espetacular, e totalmente inesperada, à favor do dom de Vigilância: exatamente no final do filme Alex tem a certeza de que voltou ao seu normal, isto é, à sua psicopatia de sempre, porque consegue imaginar sem nenhuma repulsa o ato sexual com uma mulher, mas não em qualquer circunstância, mas no que parece ser uma cerimônia de casamento. Que achado! Dirão que estou forçando a barra, mas para mim a cena é clara: duas colunas de convidados, celebrantes, bem vestidos, assistem enquanto batem palmas para o ato sexual de Alex com uma parceira muito voluntária. Ela não é uma vítima de estupro. Está mais para uma parceira na consumação das núpcias com Alex. E ele afirma, desde seu transe que é quase uma possessão demoníaca na imaginação daquela cena em sua cabeça: “Ah sim, eu estava curado.”
§ 7. Isso pode ter repercussões espirituais significativas. Não apenas o estupro de forma geral, mas o ato sexual voluntário parece ser uma forma de violência igualmente, talvez por razões que estariam subconscientemente contidas no filme, mas que podemos ilustrar com facilidade à luz do Pecado Original. Só não posso dar uma nota máxima porque esse sentido particular não é inequivocamente estabelecido, nem que sutilmente. Claro que temos indicadores favoráveis nessa direção, mas nada conclusivo. A situação de Alex vitimado e sem poder reagir às várias violências que encontra no mundo o mostram como necessitado dessa capacidade de irar-se para a vida, como já vimos. Ora, de onde saiu este realidade? Não foi do Pecado Original, exatamente o ato que é consumado nas núpcias? Não se pode dizer que psicopatas como Alex saem do nada, de um buraco no chão. A criação ex nihilo de seres humanos terminou com Adão, aquele grande traidor. Deste ponto em diante somos todos filhos do traidor, filhos da Traição, gerados voluntariamente num estado decaído e amaldiçoado. Incluindo Alex, esse garoto perturbado e psicótico. Eis aí a origem do mal. Kubrick nos deu uma pérola discreta, mas com enorme potencial no sentido da Vigilância.
§ 8. O tema inaudito do filme é a sophrosyne, que é a virtude do autocontrole, ou moderação. Melhor: o tema do filme é a falta dessa virtude. Mas de onde ela sai? De um desejo de nobreza? De um medo de penas infernais depois da morte? Nada disso. A pureza dessa virtude sai do verdadeiro amor ao próximo como o amor de um eu para outro eu que é ontologicamente exatamente idêntico, pelo Princípio de Identidade dos Indiscerníveis. Isto é, a moderação e autocontrole saem do amor que uma mônada tem pela outra enquanto tal, ou seja, pela experiência do Segundo Mandamento, ou o que chamo de Monadofilia Menor. Alex pode estar muito distante de entender isso, mas com sua inteligência eu aposto que se quisesse, conseguiria. Mas quem lhe dará o testemunho do Amor? Até o capelão da prisão, que é o personagem mais lúcido de todo o filme, prefere pregar o medo do Inferno do que a promessa do Paraíso…
§ 1. O nosso quinto filme de Kubrick é uma experiência artística sem nenhum compromisso com princípios ou conceitos mais formalizados, mas nem por isso deixa de ter significado espiritual. O filme começa com símios no planeta Terra tendo sua evolução supostamente acelerada pela intervenção da presença de um monolito, uma pedra preta cortada em linhas perfeitas e totalmente lisa. Disso partimos para um futuro onde o ser humano evoluído e já desbravador do cosmos descobre a presença de um monolito idêntico enterrado na Lua. Uma missão procura investigar o destino do sinal de rádio enviado desde esse monolito lunar até o planeta Júpiter. Nesta missão, o computador HAL 9000 decide matar a tripulação por efeito da dissonância entre suas duas diretrizes, de proteger os humanos e ao mesmo tempo manter o segredo do motivo da missão, isto é, a investigação da evidência de vida inteligente fora da Terra.
§ 2. Único sobrevivente do expurgo de HAL, o Dr. Dave Bowman descobre todo o segredo da missão ao desativar o computador, e prossegue até Júpiter para concluí-la. Lá ele descobre um monolito idêntico ao lunar vagando na órbita do planeta, e quando determinado alinhamento ocorre entre o monolito, o planeta, o sol e possivelmente uma das luas de Júpiter, Dave embarca numa viagem que só pode ser comparada com uma experiência psicodélica criada pelo uso de drogas alucinógenas. Depois de ver muitas formas e padrões sem sentido reconhecível, ele testemunha o que parece ser o surgimento da Terra, e então é transportado para uma dimensão mais reconhecível (uma residência), em que se enxerga no processo do seu próprio envelhecimento, até a morte e então o ressurgimento na forma de um bebê diante do planeta Terra, aparentemente o mesmo do começo do filme.
§ 3. O que temos aqui? Uma salada simbólica que devemos analisar com certo cuidado. Primeiro, há um testemunho favorável à hipótese evolucionária, o que não me incomoda particularmente, mas pode ser problemático para alguns criacionistas mais estritos que rejeitam a teoria do design inteligente. A intervenção de um elemento estranho no processo, porém, na forma do monolito diante dos macacos, precisa ser explicada. Uma possível interpretação é que o monolito representa a Razão, ou o Logos. Mas o filme não nos mostra um objeto imaginário, ou mostra? Se fosse, teria que ser produto de uma alucinação coletiva naquele grupo de símios, o que já força o nosso suspension of disbelief. É mais fácil interpretar essa intervenção como produto da ação de um agente externo, talvez uma consciência unitária que rege todo o processo que é exibido no filme, desde os primórdios do cosmos até o ápice da consciência com a experiência de Dave ao final.
§ 4. Sendo assim, caminhamos para um sentido integral do filme. Antes, porém, convém avaliar o personagem HAL 9000 como personificação do próprio monolito numa forma consciente: um sistema racional forçado a limitar-se arbitrariamente para não gerar conflitos numa consciência inferior, isto é, a humana. Dave tem o dever de superar a sua limitação, o que o leva a enfrentar a máquina e finalmente possuir a “Gnose” final na forma da revelação que experimentará quando atingir a órbita de Júpiter. Essa limitação tem algo que ver com uma estrutura de crenças que organizava a vida anterior, mas que não permite a admissão das novas possibilidades que transcendem essa estrutura. Este filme de Kubrick está nas bordas da Causa Final, de uma teleologia que explique o sentido da vida humana.
§ 5. Ele consegue entregar isso? Não, ou não tão satisfatoriamente. Apela para simbolismos e expressões artísticas para escapar do rigor técnico de conceitos rigorosos. O mundo, ou pelo menos o Ocidente, vem fazendo isso desde a Renascença. Quando o Iluminismo abole a antiga Metafísica, ele precisa reaprender a se explicar essa teleologia, e regride aos rudimentos da secura da lógica analítica que calculam tudo e não explicam nada, ao mesmo tempo em que reserva as intuições poderosas sobre o sentido do Ser à arte e a um pensamento irracionalista que culmina na cultura New Age moderna. Tudo isso porque se perdeu o fio da meada. Leibniz, por exemplo, tinha a noção de continuidade da investigação dos antigos, sem a perda do rigor. Mas a maioria prefere se esconder num sistema inferior de crenças, mais confortáveis. Neste sentido o Dave do filme é realmente um herói, mas a sua descoberta não melhora muito a nossa situação.
§ 6. O máximo que o filme consegue nos mostrar é uma certa idéia de circularidade e Eterno Retorno, que é uma pseudometafísica, ou a ontologia do Ouroboros, do fechamento num sistema circular e repetitivo. Não há transcendência. Haveria alguma se o monolito tivesse uma origem externa ao ciclo testemunhado por Dave. Mas para que tivesse esse tipo de origem seria necessário vermos o contrário do que o filme mostra, ou seja, uma abolição do ciclo e abertura para um novo paradigma de ser e conhecer, uma nova realidade e uma nova consciência (como a Bíblia fala, “novos céus e nova terra”). Isso não existe no filme. Tudo volta a ser como sempre foi antes. Em suma, seja Naturalista ou Humanista, o filme de Kubrick definitivamente está restrito ao domínio espiritual da Idolatria.