The Chosen (Os Escolhidos, T1), série por Dallas JENKINS

Análise S0008-E01/08, The Chosen, série por Dallas JENKINS.

Na primeira temporada desta série acompanhamos a história de Jesus Cristo do ponto de vista dos seus Apóstolos.

Recapitulemos brevemente os pontos de destaque de cada um dos oito episódios:

  1. Eu o chamei pelo nome:

Aqui Jesus vai exorcizar os demônios de Maria Madalena, uma tarefa na qual o rabino fariseu Nicodemos falhou. Porém, ele está numa pista boa. Ele diz para sua esposa: “será que Deus não pode ser mais bonito e estranho do que imaginamos?”

Os problemas de Nicodemos, porém, são os bens mundanos que ele ama acima de Deus, como a vida matrimonial, o prestígio como religioso, etc. Sua esposa debocha de sua sinceridade: “este é um compromisso sério. Eles esperam um professor erudito, não um tolo duvidoso e blasfemo.”

  1. Shabat:

Nicodemos começa a ter algum Discernimento, embora a série faça ao seu modo uma grande valorização do Sábado e das Tradições, em detrimento de culturas supostamente inferiores, como a da brutalidade romana.

  1. Jesus ama as criancinhas:

Aqui encontramos um testemunho da Presença e da Vigilância contra mestres e família, e a valorização da simplicidade da fé das crianças.

  1. A rocha sobre a qual foi construída:

Neste episódio, acompanhamos a transição da falta de fé de Simão (Pedro) até a rendição ao poder divino. A esposa de Pedro com muita razão o censura por ele querer resolver tudo sozinho por si mesmo. Ao fim, por ser humilde, ele recebe o resgate, através do milagre da multiplicação dos peixes.

  1. O presente de casamento:

Num flashback, Jesus chama o Templo de Jerusalém de “casa do meu Pai”. Até certo ponto isto está bom, porque Deus usa o simbolismo das coisas humanas para uma finalidade pedagógica. Mas o símbolo do Templo é ambíguo para os cristãos, dependendo da linhagem, se é mais espiritual ou religiosa.

Jesus aparece muito envolvido na aprovação do matrimônio, no episódio das Bodas de Caná. Ele não está simplesmente presente, abençoando e perdoando, mas parece endossar o costume. É um abuso da linguagem bíblica.

Não se faz referência nenhuma ao sentido do milagre do vinho, ou seja, de que o melhor vem depois, que é a própria Vida Eterna. Mas esse sentido espiritual do melhor vinho ao fim da festa não faria sentido se a festa fosse considerada a própria consumação da felicidade humana.

Foi aqui que a série começou a mostrar o seu comprometimento mais sério com a Tradição Universal, o Culto do Ouroboros.

  1. Compaixão indescritível:

O discernimento de Nicodemos cresce, Deus é maior que o testemunho (os rolos da Lei), e a Liberdade supera a Tradição (por definição).

Enquanto isso Jesus faz milagres para os judeus não terem desculpas de recusa. Era mais perfeita a confiança sem sinais, mas dessa dependência judaica do Poder nem João Batista escapou. É uma característica do povo de “cerviz dura”.

  1. Convites:

Neste episódio Jesus chama o fariseu Nicodemos, e o publicano Mateus. Ele avisa aos Apóstolos para pararem de discriminarem, ou o trabalho espiritual vai ficar impossível. Quem não entender o Amor vai ficar para trás na compreensão da Obra divina.

  1. Eu Sou Ele:

Quanto mais se é investido na vida, menos chance se tem de seguir Jesus. O discipulado custa alguma coisa. Se não custasse, seria a mornidão de Laodicéia.

Vemos os dois casos mais emblemáticos: o da escravidão do rabino Nicodemos que deixa um punhado de ouro mas se recusa a acompanhar os discípulos, e o da liberdade de Mateus que larga tudo para seguir Jesus.

Com a samaritana, ao fim do episódio e da primeira Temporada, descobrimos a revelação de que Deus é adorado no coração humano, sem necessidade de montes nem de templos. Um grande testemunho da vida na Presença.

—–

Em geral a série é boa, porque o poder libertador do Evangelho supera todas as maquinações religiosas. Vemos a mesma coisa acontecer em todas as Igrejas cristãs.

O problema da série é a Ingenuidade, justamente na falta de distinção entre a virtude espiritual e o defeito religioso, na valorização dos costumes judaicos, do Templo de Jerusalém, etc.

Quem são, afinal, os “Escolhidos”?

É uma raça, uma nação, uma religião?

Ou são todos aqueles que amam a Deus acima de tudo?

São aqueles que possuem o conhecimento (Gnose) a respeito de quem Deus é, pela posse de uma Revelação determinada, ou são aqueles que amam a Deus porque confiam Nele?

Se o grande engano que vai ameaçar os cristãos no fim é o próprio Cristianismo, o Culto do Mashiach ben Yosef, o Jesus da série The Chosen pode ser exatamente esse Filho de José, o Messias Sofredor, preparando o caminho para o Mashiach ben David, o Filho de Davi, o Messias Triunfante, que é ninguém menos que o Anticristo.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria7
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,6

“Como se Deus confirmasse a nossa aliança, é isso?”

Citação L0032-C02, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.

Parece que essa aliança de Daniel com Isabela tem como função o engano mútuo a respeito daquilo que tem a aparência do divino, mas que não é.

Eis o que é divino: a confiança no Amor do Pai.

Eis o que parece ser divino, mas não é: a aparência do Poder de Deus.

Se Daniel e Isabela se interessassem pela própria Palavra de Deus, ao invés de se dedicar tanto a reuniões religiosas, rituais de livramento, grupos de oração, etc., enfim, se eles se interessassem mais por Deus do que pela Religião, aprenderiam do Apóstolo Paulo que até o diabo pode se travestir de anjo de luz.

Tudo, absolutamente tudo o que me faz confiar mais no Amor divino sem garantias, sempre me aproxima de Deus.

Igualmente, tudo o que me faz confiar menos no Amor divino procurando garantias e sinais do Poder, sempre me distancia de Deus.

É por essa razão, inclusive, que aquele escritório de advocacia chamado Inferno peticiona e ganha o deferimento, junto a Deus, da permissão para enganar os incrédulos com manifestações impressionantes, como aparições angélicas. Este é o mesmo dispositivo que será usado ad nauseam no Fim dos Tempos, quando o Anticristo, bem como o Falso Profeta, receberá grande autoridade para enganar todas as nações da Terra.

O testemunho do casal Mastral nos prova cabalmente o quanto a Religião é corrosiva, destrutiva, da verdadeira vida espiritual.

A entrega a Deus deve ser total: a aceitação de todos os decretos divinos, até a morte. Quem faz essa entrega pode continuar vivendo com medo, como é muito natural e humano que ocorra, mas não vai trocar essa entrega, mesmo com medo, por garantias de proteções que sirvam para a falsa sensação de segurança nesta tão efêmera passagem por este mundo.

Daniel Mastral deveria saber que as boas sensações subjetivas são enganosas, porque na sua própria experiência do satanismo, na Irmandade, ele já tinha experimentado sensações muito boas que serviram apenas para o seu engano.

Também deveria saber que se ele se corrompeu pela visão de realidades interdimensionais antes, isso poderia continuar ocorrendo, apenas com o sinal trocado, ou seja, ao invés de simplesmente procurar um “outro lado” da disputa, seria mais prudente procurar o que está acima de todos os lados, ou seja, o Deus verdadeiro que é louvado e adorado exclusiva e diretamente, sem que seus anjos tenham que participar da particularidade da experiência humana.

Também deveria saber que, se ele mesmo já tinha notícia de que aquele local era suspeito, por sinais que sua inteligência já lhe tinha apontado, como a clara percepção de vasos marcados com sinais esotéricos, fora a sensação geral de desconforto e perigo, ele deveria receber o dom de Vigilância e virar a mesa em cima do seu culto religioso imediatamente, já que eles tinham escolhido aquele local. Porque eles foram incompetentes ou comprometidos. Os próprios satanistas mandaram a mensagem de que se ele estava no domínio deles, a culpa era dele. Por ser ingênuo, por rejeitar a Vigilância do Espírito Santo. A profunda carência emocional de Mastral lhe impediu de buscar uma vida espiritual independente de grupos, bem como uma vida sem a necessidade do tormento de namoros, noivados e casamentos. Foi assim que ele caiu nos braços do mal, desde sempre, através da ira e do desejo de pertencimento: a gangue da 29, os grupos de kung fu, a Irmandade, e finalmente a sua Igreja.

O que observamos, com tristeza, é que o que havia por trás da tremenda ira de Mastral, que ele sempre mostrou desde bem jovem, foi uma grande covardia de enfrentar a vida sozinho com Deus. Foi essa sua sucumbência diante do medo que o jogou nos braços de relacionamentos que mais o atormentaram do que o ajudaram no caminhar com Deus, bem como nos vários grupos que mais o distraíram, ou mesmo desviaram, do que o aproximaram da vida espiritual na Presença do Altíssimo.

Quando os vários satanistas membros da Irmandade mandaram mensagens, repetidas vezes, afirmando que Mastral ficaria sozinho, e que não haveria ninguém para ajudá-lo, isto era um óbvio sinal de que esse era o seu ponto fraco, o medo da solidão. Essa foi a brecha que serviu para ele ser intimidado, e para buscar refúgio em mentiras, como relacionamentos amorosos, ou grupos sociais, quando o único refúgio era a vida na Presença.

O patético da ilusão da salvação mútua do casal fica evidente pela linguagem empregada. “Como se Deus confirmasse a nossa aliança“. A que ponto chegamos? Quer dizer que o Altíssimo sobre todas as coisas moveria seus anjos para aparecerem para a confirmação da aliança entre esses dois filhos de Adão e Eva, para que eles apenas repetissem exatamente a mesma coisa, e como se não houvesse nada mais importante, como qualquer dom espiritual a respeito da Salvação? Isso é o cúmulo da Ingenuidade, já virou estupidez e total ignorância, e até mesmo narcisismo. É um gesto desesperado das duas partes do casal, como se fossem salvar um ao outro, e desejando que Deus fosse o fiador dessa insanidade.

Parece que tudo o que Daniel Mastral fez foi trocar um lado da Dialética do Ouroboros por outro: o da Revolução pelo da Tradição.

Por fim, devemos considerar aquilo que os autores, Daniel e Isabela, não quiseram: que o diabo é chamado por Jesus de Pai da Mentira.

Isso quer dizer que todos os enganos experimentados, seja através da visão de anjos, ou da confiança em instituições religiosas, foram permitidos com o subsídio legal da adesão ao espírito de Ingenuidade. Jesus mandou os cristãos serem astutos como as serpentes.

Mastral e sua esposa não fizeram isso, ou porque foram enganados, ou porque quiseram nos enganar. Isso só Deus sabe.

“O Reino Físico, o que é? Pura ilusão”

Citação L0032-C01, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.

Aqui temos uma manifestação de Isabela, a irritante esposa de Mastral, que aqui acabou por dar um tremendo testemunho gnóstico, assim, do nada, como se isso tivesse alguma coisa a ver com as coisas divinas, ou com o próprio Evangelho.

São dois problemas.

Em primeiro lugar ela fala de um tal “Reino Físico”, que eu nem sei bem o que é.

Tenho conhecimento de algo que nós chamamos de realidade: uma realidade em que existem experiências sensíveis, ou físicas, que possuem uma forma lógica, ou psíquica, e um sentido finalístico ou teleológico, ou espiritual. Tudo isso está junto numa só realidade que Deus criou.

Quando Isabela afirma que existe um “Reino Físico”, o que ela quer dizer? Que existem realidades paralelas? Ou dimensões paralelas? Ela não esclarece. Do nada tira da cartola esse conceito que não é bíblico, ou pelo menos não num sentido rigoroso. Fala-se, por exemplo, das coisas que se vêem, em contraste com as coisas que não se vêem, mas isso não configura a consistência de “reinos” separados. Isto é, ela está inventando alguma coisa, ou misturando alguma invenção que aprendeu em algum outro lugar (não no Evangelho).

Daí ela não só faz uma separação entre o que é Físico e o que é Espiritual em dois “reinos” diferentes, mas afirma que o “Reino Físico” é pura ilusão.

Essa é uma formulação totalmente gnóstica.

Jesus Cristo, o Filho de Deus, não tomou a forma de Filho do Homem, e nem ressuscitou também como Filho do Homem, para que nós acreditemos que o Reino Físico é pura ilusão. Ao contrário: a fisicalidade, ou corporeidade, foi totalmente justificada tanto pela Encarnação quanto pela Ressurreição. O Evangelho é o túmulo do Gnosticismo. Pelo menos para aqueles que crêem.

Uma parte do engano gnóstico é derivado da confusão entre o que é a verdadeira separação entre Luz e Trevas, uma Obra totalmente concentrada na vida espiritual, isto é, no sentido das coisas, com uma suposta separação entre esses “reinos” físico e espiritual. Isso decorre da falta dos dons divinos de Presença, Soberania e Discernimento, entre outros.

Por fim, Isabela afirma que Deus não resolve as coisas sozinho, o que em outras palavras significa: a Salvação não é uma Obra exclusivamente divina, ou seja, não é uma Graça pura.

E Deus não faria isso sozinho porque isso não nos traria nenhum conhecimento, ou aprendizado, ou seja, nenhuma Gnose.

Quer dizer, traduzindo: Deus não nos salva, Ele nos ensina o conhecimento através do qual nós nos salvamos a nós mesmos.

Gnosticismo puro.

Não tenho nada a objetar que as pessoas queiram ser gnósticas, se esta for a sua escolha que desde a Eternidade foi permitida por Deus. Meu problema é chamar esse tipo de doutrina de “cristã”. Porque isso não é, nunca foi, e jamais será.

Parece que Mastral, já bastante atrapalhado e confuso na sua própria experiência espiritual, ganhou um poderoso aporte de confusão da sua companheira. É como se diz: cônjuge é aquela pessoa que está sempre ao seu lado te ajudando a resolver os problemas que você não teria se fosse solteiro.

O medo da solidão é uma desgraça, uma grande porta aberta para o Inferno.

Mas os testemunhos ainda não acabaram. Sejamos generosos e esperemos que a qualquer momento na leitura esses enganos sejam remediados.

Guerreiros da Luz, livro por Daniel MASTRAL

Apesar de irritante, o testemunho adicional da esposa de Daniel Mastral, Isabela, fez a diferença por tornar a situação mais humana, mais densa, e mais compreensível, especialmente no entendimento de como as pessoas são ignorantes das coisas espirituais, mesmo quando elas têm, muitas vezes, razões para considerar as coisas com maior prudência.

Alguns pontos de observação a partir desta leitura:

1. Deus, seu Amor e seu Poder, continuam ainda pequenos demais, como que em “guerra” contra o Mal, reconhecidos por relação como o “maior” numa equação que ainda confunde e mistura o que é divino com o que não é. Deus é muito, infinitamente mais poderoso e Absoluto do que se dá a entender neste testemunho;

2. Mastral é ingênuo demais, e na sua vontade de ter uma vida “normal”, deixou passar a oportunidade de ver as coisas com muito maior profundidade espiritual. Querer viver no mundo, neste mesmo mundo governado pelas Trevas, como se isso fosse algum tipo de vantagem, apenas fingindo que a ação do Mal não existe, é algo impróprio para o tamanho do livramento que ele recebeu. Sua salvação foi oportuna para uma liberdade muito maior do que a convencionalidade de uma vida “normal”, especialmente na busca do casamento e da paternidade;

3. A dependência de sinais e confirmações restringiu muito a pureza da vida espiritual de Mastral, para não dizer até que o tenha levado de volta à influência de forças demoníacas mais discretas. Enxergar que algo seja um sinal da vontade divina num sentido, como se tudo não o fosse em qualquer sentido que ignoramos, significa restringir formidavelmente o âmbito da ação de Deus. A confiança total e mais pura sempre constitui um caminho mais pleno, mas isto requer uma entrega maior. Mastral e sua esposa ainda querem mais poder do que amar. No caso dele, Daniel, em específico, parece ser muito considerável o dispositivo da sua alma voltado para a busca de confirmações de afeição, possivelmente nutrido e originalmente disparado por uma frustração familiar (possivelmente frieza da parte dos pais), gerando um padrão que mais tarde moldou a forma da sua vida espiritual, como se nunca lhe bastasse intuir ou simplesmente confiar num amor, mas fosse preciso uma garantia de alguma espécie;

4. Fica mais evidente ainda aquilo que já observamos anteriormente, que provavelmente a primeira grande abertura de Mastral para os demônios foi através da tentação da ira, que é uma particularmente poderosa manifestação do Orgulho. É recomendável a associação que ele fez entre a prática do kung fu e a ira, pelo menos no contexto da sua própria vida espiritual. O problema é a pretensão do universalismo. O mal não estava no altar do seu mestre, na reverência, nos exercícios, etc., mas no que estas coisas significavam no coração de Mastral. A vida espiritual é interior;

5. A sucumbência diante do assalto do espírito de Terror, ou o Pacto com o Inferno, é muito óbvia e mostra o quanto Mastral, assim como sua esposa, esteve pouco disposto a aceitar o dom da Paixão. Isto não é difícil, quando é aceita em primeiro lugar a Justiça do Decreto de Gen 3,22. Igualmente, ele mostrou pouca ou nenhuma Vigilância diante das aparições de “anjos”, rituais religiosos, etc. Tudo o que ele entendia como reforço para a Fé, era na verdade o contrário. O que nos mostra que ou ele esteve muito enganado, ou estava querendo nos enganar a todos com essa história de conversão.

Por tudo isto, entre outras coisas que poderiam ser mais detalhadamente estudadas, o terceiro livro da série Filho do Fogo é bastante espiritualmente contraproducente.

Nota espiritual: 1,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria0
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Terror/Terror-Pacto com o Inferno0
Soberania/Gnosticismo0
Vigilância/Ingenuidade0
Discernimento/Psiquismo1
Nota final1,1

Os Rejeitados, filme por Alexander PAYNE

Neste filme três pessoas frustradas se consolam mutuamente, demonstrando algum amor mútuo, mas sem alcançar nenhuma grande sublimação da situação geral de sofrimento: O Professor, o Aluno e a Cozinheira.

O Professor não teve a carreira acadêmica que teria desejado, tornando-se um tanto ressentido, e um pouco alcoólatra; o Aluno perdeu a presença do pai para uma doença mental, e se viu afastado da mãe que se casou novamente e o matriculou num internato, nem sequer pode passar o Natal em família; e finalmente, a Cozinheira perdeu o filho, morto na Guerra do Vietnã.

Apesar da última nota positiva, que se dá por um bonito sacrifício do Professor em favor do Aluno (para que ele não seja expulso e enviado para uma escola militar, o que equivaleria a enviar o pobre coitado para o Vietnã), em geral o filme é deprimente e não passa muito disso.

Existem vitórias morais inúteis no contraste entre os nossos três personagens e os outros seres humanos que não são tão sensíveis e corretos, mas isto não chega a lugar nenhum, já que o filme teve que mostrar sucessivamente a fraqueza moral própria dos protagonistas, com exceção da Cozinheira.

O fracasso profissional ou familiar, inclusive o luto, deveria servir para nos aproximar de Deus. O filme não dá a mínima bola para essa possibilidade espiritual. Embora a Cozinheira seja religiosa, ela mal consegue rebater o ateísmo do Professor, que está convencido da superioridade doutrinária das filosofias humanas, especialmente na forma do estoicismo de Marco Aurélio.

Onde está a felicidade da Vida na Presença? Onde está o repouso na Providência divina? Onde está a consolação na Ressurreição?

Nenhuma notícia… tudo o que importava era ser feliz nesta vida, aqui e agora, e nos termos que se pressupunha corretos.

O filme não faz bem, além de ser bastante chato. Até mesmo a trilha sonora é cansativa, e o texto cheio de clichês. As melhores coisas do filme são a paisagem e a beleza de alguns atores, ou seja, justamente aquilo que foi Deus quem fez, e não o próprio homem.

Nota espiritual: 3,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final3,7

Sofista, livro por PLATÃO

Neste diálogo que antecipa a investigação aristotélica das Categorias, Platão investiga o problema do Ser na discussão da atividade dos sofistas, através da conversa entre o Estrangeiro de Eleia (discípulo de Parmênides), e o jovem Teeteto.

Desejando sobretudo denunciar a figura do sofista, busca-se determinar como este produz um discurso sobre aquilo que não é, e desta busca se chega no problema de como é possível que o discurso sobre aquilo que não é seja algo que é.

Hoje em dia este tipo de argumentação pareceria dispensável, até certo ponto ao menos, mas precisamos recordar que a já muito desenvolvida linguagem atual dependeu dessas muitas definições prévias de conceitos e categorias. Somos herdeiros desses esforços ancestrais.

No que tem até hoje a maior importância filosófica, o Sofista mostra que há uma relação entre o Ser e o Não-Ser, uma relação que se dá pelo movimento em torno da permanência, ou ainda da manifestação do Múltiplo a partir da Unidade. Ainda não se alcança, ontologicamente, a precisão da Mônada, isto é, da Substância Simples. Mas algum caminho nesta direção já era certamente trilhado.

Já no que tem de mais enganoso, o Sofista propõe uma excelência filosófica muito mais ideal do que real, partindo da sólida posição de Humildade de Sócrates para os tenebrosos sonhos da Razão humana. Bastaria verificar que o bom idealismo só poderia ser transcendental, isto é, dirigido a Deus, para colocar a boa intenção dos filósofos acima do engano dos sofistas não por uma virtude humana, mas divina, e portanto não como uma realidade, mas como uma esperança. Os filósofos, assim, estariam sempre acima dos sofistas não por serem melhores, mas por desejarem o que é melhor: por amarem a Sabedoria que não lhes pertence, ao invés de presumirem possuí-la através da sua imagem. Mas esta oportunidade foi perdida.

Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo3
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,1

O Descortinar da Alta Magia, livro por Daniel MASTRAL

Finalmente, encerrada a leitura do segundo volume da série Filho do Fogo, o que posso concluir é que Mastral, tendo ele dado o testemunho de uma história real, ou de uma ficção, ou ainda de uma mistura das duas coisas, relatou de modo fraco o tamanho da Salvação e do Amor de Deus.

Ainda que tenha se impressionado com a maior força de Deus diante de todos os demônios do inferno, ao descobrir o Criador por esse exame de forças, ainda dá um testemunho débil da qualidade da excelência divina. Entendemos que o impacto que experimentou, da sua conversão particular, lhe tenha sido imenso, e importante para si próprio, por óbvio, mas isto porque era a sua história. Para cada um de nós a nossa trajetória particular parece ser mais importante do que é de fato, considerando todas as coisas.

O autor nos leva, ao fim do seu relato neste livro, a uma confirmação das verdades divinas em diversas paráfrases bíblicas, num estilo que me é familiar porque eu mesmo já o empreguei antes. Quando nos desenganamos das mentiras do mundo –e no meu caso estas não vieram por participação em seita satânica, como ele, mas por uma crença ilusória nas filosofias e sabedorias dos homens–, a primeira coisa que podemos fazer é isto mesmo: simplesmente reiterar as palavras do testemunho de Salvação que descobrimos na Bíblia. Isto é normal.

Mas o que importa é o que vem depois, isto é, a prática da nossa vida, assumindo a responsabilidade da nossa liberdade que nunca é alienada. E aqui é que encontramos alguns problemas na obra de Mastral.

Ele dá o testemunho contrário a um lado da Dialética do Ouroboros, mas não percebe que favorece o outro lado, isto é, o da Tradição Primordial. Faz isso, por exemplo, quando fala da necessidade do Sangue de Jesus, o qual ainda não é encarado como símbolo da Graça pura, mas como meio de pagamento de uma dívida, legitimando a idéia de Hebreus 9, etc. Também dá, embora aí já de maneira mais fraca, o testemunho da ameaça do Inferno.

Por fim, reclama contra a falta de União das igrejas evangélicas, como se esta tivesse algum dia sido uma preocupação de Deus. O segundo mandamento manda que nos amemos uns aos outros, sem acepção de pessoas, indiscriminadamente. E a liberdade humana vai levar, até o fim do mundo, a uma separação nos entendimentos das coisas divinas, porque ainda que a Verdade seja uma só, ela não é dominada por nenhuma criatura, e cada pessoa conhece aquilo que lhe compete do que Deus desejar revelar.

Em suma, embora o testemunho de Mastral possa impressionar desde o ponto de vista de onde ele veio, isto é, do próprio esgoto do Sistema da Besta, de forma geral é um testemunho espiritualmente fraco e até, na minha visão, contraproducente.

O Deus de Mastral é grande o suficiente para lhe salvar, e isto lhe bastou, mas ainda é pequeno demais para sublimar as categorias pequenas da religião cristã. O poder do Amor divino é muito, muito superior ao que Mastral declara. E a ênfase na perspectiva negativa acabou por viciar a lógica do testemunho, como se existisse de fato uma guerra, um risco, um perigo. Só há mal para quem escolher o mal, e isto não será feito levianamente, porque a Obra de Deus é plenamente justa. Um tanto da ansiedade e do desamparo deste tipo de testemunho provém, ainda, da confusão entre vida espiritual e vida religiosa. E isso deriva, por sua vez, do que parece ter sido uma vida muito dedicada às coisas menos importantes. Parece que Mastral simplesmente passou muito tempo buscando o que não interessava. Mesmo quando se vê liberto das maiores mentiras e enganos, sua forma mentis continua atinando com um senso de proporções e grandezas equivocado, especialmente no entendimento do Amor divino.

Talvez seria pedir demais que Mastral testemunhasse a esse respeito, da verdadeira liberdade cristã contra toda a Dialética do Ouroboros, mas tendo sido ele inteligente e capaz, creio que poderia tê-lo feito se quisesse.

Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo5
Nota espiritual4,1

“É preciso que o nosso domínio seja completo e inexpugnável.”

Citações L0030-012 e 013, em O Descortinar da Alta Magia, de Daniel MASTRAL.

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Aqui encontramos finalmente um indício sólido, depois de dois volumes e meio de trabalho literário-autobiográfico, da qualidade espiritual da obra de Mastral, já que ele tende a cair ou ao menos a levar ao engano do espírito da Ingenuidade.

Isto se dá por duas razões.

A primeira é mais universal e óbvia: este mundo já jaz no Maligno. Lúcifer não precisa fazer mais nada para que seu domínio seja “completo e inexpugnável”, ele já o fez quando fez pacto com os primeiros pais de toda a humanidade, Adão e Eva, ou ao menos com todos os nossos ascendentes que ratificaram a decisão mitológica em atos que implicam a mesma imputabilidade moral.

Há muitas evidências disso, mas entre as mais claras está a declaração do próprio Ouroboros diante de Jesus na última tentação do deserto: “porque tudo isto me pertence, e eu dou a quem eu quiser“. Isto poderia ser uma mentira, mas daí toda a tentação careceria de credibilidade, de modo que a mentira não estava nesse domínio, mas no pedido de louvor no lugar de Deus, onde justamente Jesus se recusou a fazer aquilo que Adão e Eva fizeram.

Embora a evolução do processo histórico nos leve necessariamente para mais perto do governo do Anticristo, como cúmulo do domínio de Lúcifer sobre este mundo, isto apenas implica numa manifestação mais clara de uma realidade que já é atual. Jesus mesmo disse que seu Reino não é deste mundo. As esferas de influência e domínio estão bem claras. E sendo assim, o testemunho desses ativistas e militantes satanistas só faz sentido no muito pequeno e mesquinho contexto das suas breves vidas de vaidade e vazio.

A segunda razão, e esta sim mais substancial para o discernimento da Ingenuidade, é a alegação de que o Mal combate especificamente a atuação e o crescimento das igrejas chamadas Evangélicas. Esta caracterização é parte do mecanismo da Dialética do Ouroboros: toda vez que uma religião é preterida ou preferida como caminho de salvação, isto só funciona para dividir e causar discórdia.

O que salva é o Amor de Deus, e o testemunho que revela a Salvação é o do Evangelho.

O Evangelho é a Boa Notícia de que Deus nos ama como um Pai.

Essa notícia é propriedade do Espírito Santo que pode inspirar a quem quiser, do jeito que quiser, sem precisar prestar contas para quaisquer criaturas, nem mesmo aos anjos, quanto menos aos seres humanos, com suas confusas religiões e culturas, etc.

Lúcifer e sua gangue não tem nenhum poder para impedir que o Espírito Santo faça o que quiser. O poder é exercido sobre as vítimas que são tentadas a evitar a Presença de Deus, e a cair nas várias mentiras da Idolatria. Ainda assim, enquanto existir prerrogativas legais da parte dos prejudicados, nada pode impedir a ação divina.

É, portanto, apenas indiretamente que Deus precisa fazer algum uso das organizações das religiões cristãs sobre a Terra, e ainda assim Ele as usa como bem entender, sem precisar dar satisfações aos espíritos infernais. Pelos meios de que dispõe, e que são incontáveis e que estão fora do controle alheio, Deus pode converter tanto um Católico quanto um Evangélico, quanto um Ortodoxo ou um Ateu, etc.

Pior, há o crescimento do fenômeno dos cristãos que seguem a Jesus e acreditam no Evangelho sem a participação em nenhum culto religioso institucional. A Obra de Deus não se interrompe, como se vê.

Assim, a diminuição do número de fiéis religiosos, ou mesmo de fiéis declarados por controles estatísticos sob qualquer denominação, não significa nada realmente, ainda mais em face da descarada e óbvia corrupção das Religiões que leva massas de pessoas a omitir ou negligenciar qualquer forma social de religião, embora pessoalmente possa viver com proximidade indeterminada ao Espírito Santo.

O máximo que o testemunho citado produz é a angústia de um sentimento de urgência que pode levar uma pessoa ingênua a endossar soluções religiosas quaisquer, como se Deus estivesse precisando de uma ajudinha.

Resta, então, a questão: por que Mastral quer nos colocar dentro da “salvação” da Igreja Evangélica?

“A doutrina passou a ser sutilmente modificada.”

Citação L0030-011, em O Descortinar da Alta Magia, por Daniel MASTRAL:

É Jesus Cristo em pessoa, e ninguém menos do que ele mesmo, quem afirma que não se deve imitar os ignorantes que vivem da repetição de orações, achando que com isso vão ganhar o favor divino, e é ele mesmo quem ensina que o Pai já sabe do que nós necessitamos, de modo que nos basta viver na Presença Dele, reconciliados com o seu Espírito Santo, amando-o acima de tudo e ao próximo como a nós mesmos, e que confiemos que Ele já conhece e providencia o nosso bem, para muito além do que nós mesmos poderíamos jamais pedir em nosso favor, dadas as nossas limitações, ignorância, etc.

Jesus ensina a orar assim: “seja feita a vossa vontade“.

Por outro lado, aprendemos que a culpa do primeiro casal, no Pecado Original, foi justamente o da sua presunção de conhecimento direto do bem e do mal. Ora, como a nossa oração poderia ser boa, se ela partisse a qualquer momento deste mesmo espírito de Presunção?

Assim, o testemunho da modificação da doutrina é mentiroso. Não apenas a dispensa da oração exterior (já que a vida de oração é a vida na Presença) não é uma doutrina nova, como não é nem mesmo uma doutrina religiosa, mas uma doutrina cristã ensinada diretamente por Jesus.

Dizer que Deus é Pai e que Ele já conhece todas as nossas necessidades é confiar em Jesus e seguir o seu modelo, em suma, é a própria vida de cristão.

“Essas são as atitudes de Deus, o Justo, o Amoroso!”

Vejamos mais uma passagem de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

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Esta passagem mostra uma grande ignorância das coisas divinas, como é de costume na cultura geral, e mesmo entre as mentiras dos vários cultos iniciáticos.

São dois os grandes erros nesse grosseiro juízo a respeito da conduta divina:

Primeiro erro: o procedimento defendido pelo autor é obviamente injusto, já que constitui Justiça da parte daquele que é Juiz não fazer acepção de pessoas, isto é, não dar preferência para quem é próximo em detrimento do distante, para o conhecido em prejuízo do desconhecido, etc. Assim, se os filhos de Aarão pecaram e isso lhes foi imputado como erro, a sua filiação não lhes poderia salvar sem que isso maculasse a Justiça divina.

Nem se fala, aqui, da dúvida a respeito de qual foi a realidade por trás dos fatos do caso em questão, já que sempre convém verificar a interferência do Ouroboros, que tipicamente age para prejudicar a integridade do testemunho da Palavra. Não é necessário nem mesmo entrar nesse tipo de mérito, para verificar a ignorância do argumento, a respeito do mais superficial e óbvio aspecto do que um proceder justo da parte de qualquer Juiz. Basicamente o autor da citação reclama que Deus não é injusto como se poderia desejar que o fosse, mundanamente, e ainda chama isso de injustiça.

Segundo erro: a suposição, por premissa oculta, de que qualquer relacionamento com Deus implique em qualquer tipo de garantia, mostra uma profunda ignorância da realidade da vida espiritual, e do que significa viver na Presença de Deus. A malícia típica dos seguidores do Usurpador é tosca e grosseira demais para compreender a força da confiança no Amor divino, e de como que qualquer idéia de garantia só significaria uma diminuição nessa alegria da entrega confiante no Bem de Deus. Novamente, o autor reclama por algo que seria indigno até dos fiéis que amam a Deus, nem para falar da ofensa contra o próprio Deus.

E aqui, novamente, nem precisamos falar de segundas implicações na alegação da qualidade de Aarão como “Sumo Sacerdote”. Como já vimos, na nossa leitura do Êxodo, este ofício religioso foi provavelmente instituído no contexto do Culto do Ouroboros, e não na adoração livre ao Deus verdadeiro, como Moisés fazia. Mas não é preciso sequer levantar este tema. A fraqueza do argumento já o destrói por dentro, sem ser necessária esta análise secundária.