Em Górgias, o diálogo se dá em torno do tema da Retórica, iniciando pela disputa do objeto desta arte, mais ou menos no mesmo padrão que vimos na discussão sobre o objeto da arte sofística no livro anteriormente analisado, Protágoras.
É afirmado, e com razão, que há uma grande diferença entre a persuasão que move a crença e o ensino que transmite o conhecimento, sendo a Retórica uma atividade dirigida para o primeiro tipo de objetivo.
Um agravante no resultado da conduta do retor, em linha com a sua disposição mais interessada no convencimento do que no conhecimento, isto é, com amor maior à produção da imagem da verdade do que à descoberta da verdade, é que ele se torna mais convincente, sendo ignorante da matéria sobre a qual discursa, do que o especialista que possui maior conhecimento do assunto, mas menor conhecimento da arte retórica.
Mas fica implícito também, e entendemos isso em análise apartada já publicada, que se o público ignorante não distingue a competência de um conhecedor da de um argumentador para produzir o seu próprio juízo, e igualmente não pode confiar indiscriminadamente numa solução de certificação institucional –já que a sociedade não é mais capaz de eliminar o engano do que o são os indivíduos que a compõem–, ao fim parece ser mais razoável que cada um tenha mais amparo na solidez de uma Soberania esclarecida enquanto dom, respondendo à sua própria consciência, do que na impossível tarefa de desfazer-se de todo tipo de ignorância que prejudica um juízo.
O componente mais nobre do Górgias é a defesa socrática do bem próprio da Justiça, usufruído na alma do seu amante (ou seja, um testemunho da vida interior), na fórmula de que é melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la, e que é melhor ser punido por um mal do que sair impune. Analisamos isto de forma apartada, como foi muito merecido. No contexto desse tema, Sócrates exalta a sua posição de requerer apenas o testemunho do seu interlocutor (seja Pólo ou o próprio Górgias), em contraste com o procedimento sofístico de buscar o ganho das causas com o arrolamento de testemunhas em maior número e de maior prestígio. O discernimento moral da parte de Sócrates é espetacular. Como que, diante disso, até hoje as pessoas perdem tempo com filosofias tão inferiores, como o estoicismo, etc., para não falar das várias idolatrias religiosas que colocam o foco no exterior do homem, quando existe um testemunho tão excelente como este, pagão, com mais de vinte séculos de história?
Do meio do diálogo para o fim, Sócrates disputa com o mais enfezado e arrogante de seus adversários, Cálicles, que faz uma defesa absurda da lei da natureza (do mais forte), ao modo nietzscheano, darwinista, nazista, etc. Sócrates o humilha, embora faça uso de uma mistura entre convenções e intuições genuínas. Elogia a religiosidade, e até cita, ao fim, o mito de um juízo final com punições aos tiranos, mas não sem deixar a marca da sua humildade declarando que um dia algo melhor poderia ser revelado, e sem terminar por enfatizar que o maior objetivo do bem é ele mesmo, praticar a justiça, a moderação, etc.
Sutilmente, no meio do caminho Platão evidencia como a alma é mais livre e soberana da parte de quem resiste à produção do mal, do que da parte de quem quer resistir ao sofrimento do mal, já que ao primeiro basta a Vontade, mas ao segundo se exige que à Vontade seja somado o Poder, o que tende a corromper todo aquele que teme ser vítima de injustiça, porque ambiciona um domínio que vai para além de si mesmo. Um elogio formidável ao dom de Paixão.
Citação L0033-C02, em Protágoras, livro por PLATÃO.
Nesta breve passagem deste diálogo socrático podemos ver o testemunho valioso de duas verdades universais de grande repercussão para a nossa vida espiritual, quais sejam: a do engano da escolha pelo Mal, e a da maior Justiça do suportar os males do que da atitude de se vingar ou murmurar.
É notável que para alguns obcecados com certas visões religiosas totalitárias, esse tipo de sabedoria jamais teria alcançado o coração humano se não fosse por um envelopamento bíblico. Platão nos prova que isto não é verdade. Seria bastante complicado, para não dizer impossível, afirmar que a origem desse testemunho tenha sido uma certeira influência hebraica, e seria mais ainda improdutivo forçar essa associação de vez que a liberdade requer, da parte daquele que concorda com qualquer preceito bíblico em qualquer ponto da face da Terra, que tenha a liberdade de fazê-lo, isto é, a confiança de por si mesmo acreditar no Bem.
Do engano na escolha do Mal, ou das Trevas, que Sócrates diz que é “involuntário”, o que ele quer dizer está muito próximo do testemunho que o próprio Apóstolo Paulo disse quando confessou que quando faz o mal, o faz contra a sua vontade, por uma fraqueza, e não por não reconhecer um Bem que está além das suas forças.
Isto é tremendamente importante, do ponto de vista espiritual, já que esta consciência nos aproxima de Deus fazendo uso de nossa própria fraqueza confessada. Ao mesmo tempo, ajuda a ganhar grande tolerância e magnanimidade com relação à fraqueza alheia, ao compreendermos que todos compartilhamos da mesma precária condição humana. É um recurso que auxilia tanto a experiência do Primeiro quanto do Segundo Mandamento.
Já da questão de ser mais justo suportar os males do que querer vingá-los ou de murmurar por conta deles, isto está em total associação com o Espírito Santo de Deus, quando Jesus Cristo ensina: “aprendei de mim, que sou humilde e manso de coração.” O que afinal significaria “pacificar e harmonizar seus sentimentos”, como Sócrates diz, senão o aceite das qualidades divinas de humildade e mansidão?
Especialmente, num tema que pode ser sensível além do comum para o meu público, gostaria de enfatizar a paz e alegria que existe no cumprimento do mandamento de honrar pai e mãe.
Essa honra não consiste no elogio do pecado, nem na permissão ao mal. Jesus mesmo corrige a idolatria da família declarando que nossos primeiros inimigos estão na nossa própria casa, que veio fazer os filhos se voltarem contra os pais, e que quem não odiar sua família não poderá segui-lo. O mandamento divino não fala da idolatria da família, mas do amor ao próximo, da aplicação do Segundo Mandamento, por um ato de misericórdia, em favor daqueles que são os nossos primeiros próximos na vida, isto é, nossos próprios pais. Bem entendidas as coisas, percebemos rapidamente como dificilmente eles tiveram malícia congênita, sendo o mais das vezes mais vítimas eles mesmos da sua criação em cativeiro, debaixo da Maldição, do que grandes cúmplices do Pacto Ouroboros.
Citação L0033-C01, em Protágoras, livro por PLATÃO.
Essa manifestação do assim chamado “sábio” Hípias seria excelente, se terminasse na observação da verdadeira divergência entre a realidade humana, dos arbítrios individuais e das afinidades naturais, e a convenção social que tem como objetivo encontrar um denominador que só servirá, para a garantia do bem comum, para o prejuízo dos bens particulares, ao ponto de constituir, às vezes, uma tirania.
Porém, ao promover a sua proposta de um acordo entre Sócrates e Protágoras, não está Hípias pavimentando o caminho para que se suceda justamente aquilo que ele acabou de condenar?
Ora, esse ajuste só funcionaria se forçasse ambas as partes a modificar a sua melhor ação, nos seus próprios termos, a uma restrição conveniente para o objetivo social: da parte de Sócrates, a restrição da sua liberdade de ser mais breve, conciso, exato e claro, e da parte de Protágoras, a restrição da sua liberdade de ser mais retórico, estender o discurso, etc.
Dir-se-ia que esse bem comum está acima dos bens particulares, porque atende ao interesse de um número maior de pessoas, mas de onde nós tiramos essa idéia? Essa própria concepção é arbitrada, já que ninguém pode demonstrar como não seria mais efetivo que cada um, Sócrates e Protágoras, seguisse o seu caminho, tornando-se o melhor que pudesse ser nos seus próprios termos, e como isso beneficiaria mais a totalidade da comunidade do que o acordo proposto por Hípias. O termo médio, afinal, é o que dá origem àquilo que chamamos de mediocridade. Supondo que qualquer um dos dois adversários tenha qualidades excelentes, nas quais se superam mutuamente, que vantagem ganhamos com o acordo para que eles restrinjam a sua melhor capacidade, apenas para a satisfação desse desejo de acordo?
Todos nós desejamos que a Verdade seja universalmente conhecida e reconhecida, mas precisamos abandonar o sonho humanista de uma posse coletiva da mesma.
A Verdade plena é propriedade divina, o que aliás é justamente o tema disputado por Sócrates e Protágoras, o primeiro defendendo a prerrogativa divina de possuir a bondade e a sabedoria, e o segundo defendendo a relatividade da subjetividade humana.
De certo modo os dois estão certos, cada um no que diz em particular.
Mas importa-nos mais saber que a Sabedoria que individualmente contemplamos de forma única, irredutível a esse mínimo denominador comum humanista (e neste ponto tanto Protágoras quanto Hípias estão equivocados), em si mesma é uma posse exclusiva de Deus.
Sócrates vai questionar o sofista Protágoras, para o auxílio de um aluno interessado em aprender com este, no que consiste a sabedoria ensinada pelos sofistas, ou seja, qual é o objeto dessa atividade de ensino.
Protágoras alega que o objeto do seu ensino é a areté, a virtude cívica.
Sócrates questiona se a virtude pode ser ensinada, pois ele entende que não poderia.
Protágoras justifica o ensinamento da virtude mediante o conto de um mito originário da humanidade, onde primeiramente os homens foram prejudicados por uma falta de provisão de qualidades compensatórias da sua vulnerabilidade, por culpa da divindade Epimeteu, o que foi remediado pela ação de Prometeu que rouba o fogo e a sabedoria prática de Hefesto e Atena, respectivamente, para favorecer o homem na sua fragilidade. Mais tarde, com a aglomeração dos homens em cidades para otimizar a sua sobrevivência na natureza que lhes é hostil, Zeus teria notado que o homem se tornou incapaz de viver em comunidade por não conhecer a Justiça, a civilidade, etc. E então uma última medida é tomada, com o envio da Hermes como mensageiro para ensinar aos homens a arte política, a sabedoria da justiça e da virtude cívica, de modo que todos os homens viessem a ter acesso a isto igualmente.
É óbvio que a atratividade dessa mitologia esconde o problema de que se todos os homens recebem a sabedoria, ela não seria aprendida de homens por outros homens, mas seria um dom divino, o que não resolveria em nada o problema de Protágoras. Por isso mesmo ele vai desenvolver um argumento apostado ao mito.
Antes de entendermos essa argumentação adicional, convém-nos ver como o mito citado por Protágoras tem tudo a ver com a Tradição Primordial, o Culto do Ouroboros, já que existe alguma injustiça ou engano na criação de origem do homem, e essa realidade precisa ser corrigida com a aquisição de conhecimento (Gnose) obtido através dos “deuses”, que são obviamente demônios, anjos caídos.
Na argumentação consequente a respeito da justificação da posse universal da justiça ou civilidade, ou ao menos do potencial dela por parte de todos os seres humanos, Protágoras alega a inviabilidade social da ignorância dessas coisas, ou seja, que isso é esperado de todos, do contrário a ordem social e política, e portanto toda a civilização, seria inviável. O Estado seria impossível se os homens não tivessem todos acesso a essa virtude política.
Ao argumento fraco, tanto do ponto de vista da questão sobre o que habilitaria alguns a ensinarem a outros a arte política, ou a virtude em geral, quanto do ponto de vista de porque seria necessário ensinar e cultivar algo que todos já tivessem possuído por uma dispensação divina, Sócrates contrapõe sua própria série de chicanas que acabam por irritar e aborrecer Protágoras.
Possivelmente Sócrates poderia chegar a bom termo se obrigasse seu adversário a admitir a Unidade do Bem, assim como a sua transcendência total ao homem, mas Protágoras escapa do diálogo com um discurso longo, do tipo que impede a clareza do método socrático. Sócrates acusa isso diretamente, usando da arma do elogio ao pedir que Protágoras diminua o seu ritmo e fale parte a parte, como misericórdia ao seu esquecimento. Mas não deixa de dizer que entende serem bem diferentes as artes do diálogo e do discurso, já introduzindo conotação moral da diferença entre a filosofia e a sofística. Em determinado momento, com Sócrates já querendo partir, e com a insistência de um ouvinte (Cálias), para que Sócrates aceitasse a conversa com Protágoras nos termos deste, Alcebíades sai em defesa de Sócrates e afirma que Protágoras tem a prerrogativa de se render se não for capaz de dialogar, mas caso se considere capaz de tanto, que se digne a fazê-lo.
Em seguida, depois de muitos vais e vens, inclusive com um aparte de Hípias que já analisamos separadamente, empacamos de novo quando Protágoras, em seu argumento, tenta identificar uma contradição entre duas citações de uma obra do poeta Simônides, ao que Sócrates buscará fazer a importante distinção entre o que é ser, e o que é vir-a-ser, isto é, entre o que classificaríamos aristotelicamente como Ato e Potência, mas no que é impedido por novas interrupções. Seu argumento ia muito bem, novamente, no sentido da Unidade do Bem, já que o ser bom é uma propriedade divina, enquanto que da parte da criatura, como o homem, só corresponde o desejo de inclinação em direção a este bem inalcançável, isto é, um vir-a-ser bom. O entendimento disto completa a idéia perfeita de que a Sabedoria é divina, e é concedida como dom: não é difícil para Deus ser bom, mas é muito difícil para o ser humano vir-a-ser bom, porque a Bondade é uma qualidade divina, e não humana. Por decorrência, assim também ocorre com a Sabedoria. E se isto é assim, a virtude é dom divino, e não humano, portanto não passível de aprendizado. Conclui-se facilmente, a partir de tudo isto, que o Filósofo está muito melhor que o Sofista, pois ele ama uma Sabedoria que não lhe pertence, enquanto o outro se engana considerando que ela é sua propriedade.
Depois de mais esta vitória socrática contra o sofismo, embora de modo elegante e civilizado, Sócrates vencerá novamente Protágoras na última parte do confronto, quando retomará o tema da Unidade do Bem, ou seja, de todas as partes da virtude, ao que seu adversário teimosamente tentará sustentar as diferenças essenciais entre as mesmas.
Para resumir (já que conseguimos ver as partes mais valorosas do discurso socrático em citações analisadas à parte), Sócrates vence novamente, desta vez com a demonstração cabal, e um tanto humilhante para Protágoras, de como a virtude da Coragem está totalmente baseada na da Sabedoria, isto é, que o saber é fundamental para todas as virtudes que se sustentam nele, e que esta é a unidade da virtude que o ser humano pode ter, isto é, o da Sabedoria.
Protágoras reconhece sua derrota e elogia a sabedoria de Sócrates.
O que nos importa, neste desfecho, é reconhecer a inconclusão, que o próprio Sócrates menciona ao fim, do problema da possibilidade de se ensinar a Sabedoria, isto é, de se ensinar a verdadeira virtude. Como é comum que ocorra em discussões filosóficas, o problema inicial permanece sem solução.
A mim parece que a distinção que nos ajuda a tratar o problema é a que separa a origem da Sabedoria, a efetividade da sua transmissão, e a liberdade da sua recepção e do seu cultivo.
Por um lado, a Sabedoria em si é divina, e ela só pode ser dada por concessão da Graça divina.
Por outro lado, como diz a Bíblia, “a Sabedoria não entra numa alma devedora ao pecado“, isto é, existe uma disposição correta, da parte de quem é livre, para receber ou não o dom divino da Sabedoria. Essa recepção é arbitrada livremente. E, assim como o homem é livre para aceitar ou não a Sabedoria divina doada por concessão, ele também é livre para dar ou não o respectivo testemunho dela.
Ora, o que é o testemunho correto da recepção do dom divino da Sabedoria?
É aquilo de mais próximo que podemos encontrar do “ensino da virtude”, que Sócrates e Protágoras tanto procuravam.
Mas aqui entendemos a superioridade tremenda da Filosofia em relação a Sofística.
Isso porque o testemunho é um ato de liberdade, por amor à Sabedoria, através do qual aquele que testemunha fala da sua liberdade em favor da liberdade daquele que recebe o testemunho, para que também se liberte da mentira e do engano.
Por outro lado, o ensino escolar, acadêmico, ou magisterial, é um ato de escravidão, por amor ao Poder de produzir a imagem da verdade e de dominar o outro através dela.
Citação L0032-C07, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.
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Eis no que restou toda a experiência de aprendizado depois de três volumes de vai e vem entre a participação no satanismo da Irmandade e na tradição do Cristianismo: a troca de uma escravidão por outra.
Além do erro medonho, psíquico, do quid pro quo nas coisas espirituais, com essa presunção do casal Mastral de que eles foram roubados porque estavam “desprotegidos”, e que esta era a sua condição por não terem ofertado o dízimo, que já seria um problema tremendo (a idéia de que se pode comprar a proteção divina, como se o Céu fosse uma cosa nostra), temos aqui o ainda mais grave erro, por ser mais básico, de confundir o que são princípios espirituais com princípios religiosos.
Tudo o que é espiritual pode ser pervertido para um sentido religioso.
Assim, a Humildade a Deus se torna Modéstia aos Homens, a Gratidão a Deus se torna Bajulação aos Homens, e a Obediência a Deus se torna Subserviência aos Homens.
Quando alguns seres humanos se colocam diante de outros como representantes de Deus, isto constitui imediatamente uma condição de elevado risco moral, por várias razões óbvias. Foi na lida contra esse risco que Jesus trouxe a liberdade do Evangelho e nos revelou Deus como um Pai amoroso, e foi por esta mesma razão que essa raça de víboras desejou a morte do Filho de Deus, pois o triunfo da sua mensagem significava nada menos que a ruína dos poderes religiosos no mundo, a grande sede do domínio do Ouroboros.
Não podemos nos esquecer, desde a leitura de Gênesis 4, de que a primeira imagem do Ouroboros como deus da humanidade se dá por esse formato religioso. Todos os projetos humanos que envolvem a construção de uma civilização emancipada do Amor divino são gerados a partir dessa semente mentirosa, da grande mentira dessa Usurpação ancestral.
O casal Mastral saiu das garras do Leviathan para cair nos braços do Behemoth, pulando apenas de um lado da Dialética do Ouroboros para o outro.
Por um lado, confiar é bom, é melhor que desconfiar.
Por outro lado, “maldito é o homem que confia no homem“.
Como resolver a contradição?
Não existe contradição.
Uma coisa é confiar no Bem através das nossas ações, ou seja, naquilo que de nós depende.
Outra coisa é confiar no Bem através da ação alheia, ou seja, no que depende do arbítrio do outro.
Confiar é bom quando precisamos acreditar na boa ação que fazemos, mesmo que não sejamos reconhecidos por quem quer que seja no mundo, inclusive e especialmente os beneficiários da nossa ação. O bem da ação está nela mesma, e o nosso prazer com o bem tem que vir dessa suficiência.
Confiar é ruim quando precisamos acreditar na boa ação da parte dos outros, quando depositamos qualquer esperança numa bondade que não seja a divina.
Em suma: confie para fazer o bem, porque o próprio bem é confiável em si mesmo, mas não confie para esperar o bem, senão de Deus, como se algo de bom pudesse partir do homem ou do mundo que não tenha origem na bondade divina.
Citação L0032-C06, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.
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Que testemunho desgraçado e infeliz!
Isso é o contrário de toda a verdade do Evangelho, e mesmo do espírito dos Profetas desde o Antigo Testamento.
A felicidade do fiel está fundada na indiferença quanto à inferioridade da raça humana diante de todo o resto da Criação, inclusive os anjos, justamente porque somos amados pelo Criador de todas as coisas, Aquele que está infinitamente acima de qualquer poder ou inteligência que tenha criado.
Pior ainda, Jesus decreta a nossa paz no seu triunfo, quando afirma que apesar de vivermos tribulações momentâneas, que devemos ter um bom ânimo, porque Ele venceu o mundo. Isto é uma obrigação para os cristãos. A abominação demoníaca não é nada diante da majestade divina, e nós, enquanto fiéis ao Amor divino, somos cobertos pelo verdadeiro Poder.
O testemunho de Isabela é tão abominável que chegamos perto da suspeita de que na verdade Daniel Mastral continuou fiel à sua Irmandade satanista até o fim, e que a sua verdadeira missão não era a de participar da política nacional, mas de infiltrar as fileiras das igrejas e envenenar a cultura evangélica com o testemunho do espírito do Terror, ou Pacto com o Inferno.
Não posso afirmar que isto seja verdade. Mas também não posso afirmar que não o seja, e nem tenho autorização para dispensar esta suspeita. De acordo com a instrução do dom de Vigilância, devemos redobrar agora a guarda sobre quaisquer testemunhos que saiam da pena ou da boca do casal Mastral.
Como pode um cristão ter tempo para exaltar os poderes infernais, ao invés de decretar a absoluta supremacia do Altíssimo?
Por exemplo, falemos apenas de dois aspectos do erro monstruoso desse testemunho das trevas, para dar uma amostra de como seria fácil quebrar toda essa lógica, caso eles quisessem.
Primeiro, se os demônios fossem inteligentes, eles não rejeitariam a vida na Presença, sob a Graça divina. Qual é a inteligência de desprezar o Amor divino? Ao contrário, se há uma grande burrice, uma grande estupidez acima de todas as outras, é justamente a do Orgulho. Inteligência, afinal, é o poder de reconhecer a verdade, e a verdade do Ser é a sua constituição pela forma e finalidade do Sumo Bem. O espírito de Orgulho é uma cegueira arrogante e estúpida, nada mais do que isso. Se os demônios possuem uma inteligência operacional capaz de enganar os seres humanos, isso se dá pela grande justiça que provém da imitação humana daquele espírito de Orgulho infernal. Ou seja, quando a burrice humana decide acompanhar a soberba demoníaca, aí com toda razão a inteligência infernal tem pleno direito de enganar e dominar as suas vítimas humanas, em virtude da perversão do arbítrio destas, especialmente no desprezo ao Amor divino.
Segundo, a “armadilha certeira” dos demônios nunca escapou, desde a Eternidade, dos planos infalíveis da Providência, que tem o poder de converter toda a maldade em um destino adequado para a plena realização da Obra divina. A suposta certidão das armadilhas demoníacas só pode aterrorizar justamente o coração daquele que é fraco na sua fé, e que acha que algo ainda pode escapar do domínio divino de algum modo. O cristão tem o prazer de cair mil vezes, se for o caso, nas armadilhas dos seus inimigos, porque se isso não derivou de seu vício de desconfiança do Amor divino, é apenas mais um abuso que constitui o caminho da Cruz que nosso Senhor já nos convidou a carregar até o fim. E carregamos com alegria, a alegria da confiança amorosa, porque sabemos que nosso Deus é fiel. E esse é o nosso prazer: nos deleitar na fidelidade divina. Qual é o sentido, nesse contexto espiritual, de considerar as armadilhas certeiras de um adversário que não pode nos separar do Amor do Pai? Nenhum. Esse testemunho só serve como tentação do espírito de Terror, ou Pacto com o Inferno, para abalar a nossa fé.
Até agora, essa foi a passagem mais abominável, mais horrível, de todos esses livros de Mastral. Que coisa hedionda!
Vejam bem: todos os pecados são perdoáveis, absolutamente todos, menos o pecado contra Espírito Santo, o pecado mortal de desconfiar da eficácia e do poder do Amor divino.
Quando recebemos qualquer testemunho que nos testa neste sentido, estamos diante de nada menos que uma oferta verdadeiramente infernal, o próprio diabo batendo à nossa porta.
Como já vimos antes, no estudo daquela citação de Moisés, o Negro, desde a Patrística os cristãos têm a clareza de que os demônios nos superam em tudo, menos no que interessa, ou seja, na Humildade da vontade de viver pela Graça divina. A nossa fraqueza é justamente o caminho para a nossa abertura ao Amor divino, para toda a Salvação. Por outro lado, foi justamente a superioridade de Lúcifer que deu ocasião para a sua Queda, na tentação do Orgulho. Isto significa que a nossa pequenez deveria nos alegrar, porque nos aproxima mais do Amor divino do que aquela grandeza do mais elevado querubim. Diante disso, qual é o sentido de exaltar as superioridades demoníacas nos vários âmbitos que não fazem diferença nenhuma na nossa vida na Presença?
…
O pior de tudo, ou a última pá de cal em cima dessa história, foi um outro testemunho que encontrei mais adiante, desta vez do próprio Daniel Mastral, que terminou por reduzir ao máximo várias notas da avaliação espiritual deste livro, como podemos ver abaixo.
Citação L0032-C08, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL:
Esta última expressão, de que “nem o Poder de Deus é forte o suficiente”, é totalmente contraditória.
A definição mais elementar a respeito do Deus verdadeiro é a que o considera Absoluto e, portanto, com a qualidade de total suficiência, em qualquer âmbito considerado.
Isto quer dizer que Mastral, na melhor das hipóteses, apenas considerou o Deus cristão como um entre outros, talvez o maior, mas não o Absoluto, o primeiro e principal, mas não o Único, um primus inter pares.
Na pior hipótese, ele é um satanista infiltrado (qualquer que seja o seu grau de consciência disto) com a função de perverter a Fé verdadeira no meio dos cristãos através desse tipo de testemunho.
Citação L-0032-C05, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.
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Esta formulação está até que próxima do acerto, aparentemente, mas ainda apresenta uma linguagem defeituosa que requer uma correção, ou no mínimo uma ressalva.
Quando Isabela diz que “agora era Ele que daria as diretrizes”, ela confunde o que é uma mudança da sua consciência a respeito da realidade, com o que é real em si.
O que muda quando eles fizeram “a nossa parte”? O que aconteceu quando eles entregaram “aquele problema nas mãos de Deus?”
No mundo das realidades, não aconteceu absolutamente nada. Ou melhor, aconteceu que, repousando na Providência, eles diminuíram a sua exposição ao espírito de Terror, ou seja, abriram seus corações para receber o dom da Paixão. Isto é: na melhor das hipóteses, se a oração foi verdadeira, o que mudou foi a disposição espiritual dos fiéis.
Mas a presunção humanista e antropocêntrica é tão forte que na sua linguagem Isabela dá a entender que agora Deus é que teria o domínio da situação, só agora, depois que eles, Isabela e Daniel, entregaram o problema para Deus!
A situação nunca esteve fora do domínio divino, ou Deus não seria Deus.
A fraca fé do casal Mastral dá a entender que Deus depende do arbítrio humano para ser Onipotente, quando no máximo o que depende de nós é o alcance dos dons divinos, como o da Paixão, por termos a liberdade de aceitar ou não a realidade de que Deus está, como sempre esteve, no total domínio de todas as situações.
Por esse tipo de engano comum a respeito desse tipo de coisa é que eu insisto tanto em abordar a vida espiritual como vida interior, e especialmente no ponto de vista monadofílico em que toda a realidade é uma mera manifestação da unidade do nosso ser, de modo que a indeterminação que precisa ser definida é sempre a da nossa disposição de aceitar ou não a supremacia do Amor divino. É só isso o que interessa! E é por isso que o amor a Deus é o Primeiro Mandamento. Isto é a essência e o fundamento da vida espiritual.
Essas considerações a respeito da interferência nas coisas do mundo, e pior ainda, nas consecuções das diretrizes do inimigo, tudo isso é uma perda de tempo derivada do engano da Idolatria. Se vivemos na Presença do Senhor, imediatamente dispensamos todas essas confusões e dispersões da nossa alma, e nos concentramos na única coisa que interessa: a satisfação de viver na confiança amorosa na bondade do nosso Pai.
Mas essa satisfação é restrita àqueles que querem ser amados, e infelizmente parece que essa sempre é uma minoria.
Citação L0032-C04, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.
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Em primeiro lugar, o que significa colocar “tanto uma quanto outra hipótese diante de Deus”?
Significa que o Altíssimo tem realmente alguma obrigação de corresponder a esta expectativa de esclarecimento?
Obviamente que não. Isso é uma temeridade enorme. Quando se força esse entendimento, de algum tipo de obrigação colateral da parte de Deus em face de uma situação qualquer, já se coloca no perigoso terreno da frustração, na melhor das hipóteses, ou mesmo na especulação da interpretação de sinais como exercício de interpretação da vontade divina.
Tudo isso está muito longe do repouso na Presença de Deus, um benefício que depende do amor à liberdade divina de fazer o que bem entender. O mais sábio não é o de buscar a diferenciação de uma situação que esteja determinada ou permitida por Deus, mas sim aceitar o que quer que seja arbitrado pelo domínio da Providência.
Jesus Cristo mesmo, o próprio Filho de Deus, nos ensina a pedir especialmente, e eminentemente, que “seja feita a Vossa vontade“. Esse desejo pelo arbítrio da vontade divina é totalmente incompatível com a busca da diferenciação entre as coisas que são passíveis de mudança pelo arbítrio humano e as que não são. Essa busca já constitui uma diminuição da vida na Presença, e uma vontade gnóstica de controle.
Em segundo lugar, o que significa “reverter o plano do inimigo”?
Quem disse que qualquer plano do inimigo já não está totalmente considerado, compensado e absorvido pela divina Providência, e isso desde a Eternidade? E, portanto, quem disse que nós, reles míseros seres humanos, tão ignorantes e fracos, temos a capacidade de peticionar por algo melhor do que aquilo que já seria permitido pela Providência, se o desejo do Bem só pode partir do Amor divino sobre nós?
Ou seja, Deus tem o poder de converter o mal que se trama contra nós em um bem, mas nós mesmos não temos essa capacidade. Por isso a nossa total entrega à divina Providência é uma sabedoria muito superior a essa pretensão postulada pelo casal Mastral.
Às vezes o que precisamos, ou seja, o que constitui o nosso maior bem, é justamente que os planos do inimigo se realizem exatamente como foram tramados, pois somente através desses atrevimentos injustos se abre o território de legalidade que permite-nos, por exemplo, sermos abundantemente beneficiados por ações extraordinárias da Graça divina.
Talvez esteja na hora de considerarmos esse aspecto da guerra espiritual, isto é, o outro lado do legalismo.
Assim como o Inferno ganha permissões na exploração de brechas que deixamos abertas pela falha do nosso amor à Deus, o contrário também ocorre: o abuso das injustiças contra os amantes fiéis a Deus cria toda a base jurídica para a proteção e benefício dos mesmos.
Se o casal Mastral estava tão interessado na guerra espiritual, eles deveriam experimentar esse tipo de tática infalível, que é a entrega a Deus de um coração fiel, sem ressalvas e restrições, de modo que cada assalto da parte das forças infernais constitui um motivo para uma exibição mais formidável da Graça divina em nosso favor.
Em suma, a guerra espiritual pertence a Deus. Nosso papel é o da docilidade obediente das ovelhas que seguem o Bom Pastor.
Citação L0032-C03, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.
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Infelizmente, o diabo deve se divertir muito com esse tipo de testemunho.
Toda a experiência de Cruz envolve “um risco”. E a felicidade do fiel é a de confiar no Amor de Deus apesar de todos esses riscos.
O testemunho dos Mastral mostra a total inversão psíquica das coisas espirituais: se o coração dos dois se escorava na presença dos anjos para confirmar uma determinada linha de ação, seja a do tal “Ministério”, ou mesmo o casamento deles, isso deveria servir como uma fortíssima indicação do contrário, isto é, que algo queria tomar o lugar do Deus para enganar a fraqueza humana que só deveria se sustentar na pura Fé no Amor divino.
Os Usurpadores agem exatamente deste modo: exploram a brecha concedida pela adesão humana ao espírito de Ingenuidade.
O crescimento espiritual do casal Mastral estava no fortalecimento da pureza do Amor, indo na direção contrária ao que fizeram. Deveriam, com Vigilância, possuir a astúcia para desconfiar imediatamente daquele teatro sobrenatural, esse circo hediondo e abominável, e procurar a segurança que só existe na confiança na bondade de Deus, sem nenhuma garantia.
A força de Deus é encontrada na nossa fraqueza.
Se eu quero sinais e manifestações de que o Poder de Deus me protege aqui e agora, eu estou desejando sinais que satisfaçam o meu psiquismo a respeito de uma falsa salvação, às custas do enfraquecimento da vida espiritual. Queremos substituir a vida espiritual pela psíquica, o coração pela mente.
A verdadeira Salvação está no Amor de Deus que é tão santo e tão puro que eu jamais teria a menor condição de adquirir as mínimas garantias psíquicas a respeito.
Em suma: aquilo que os Mastral tomaram como uma certeza de uma idéia, através do seu Psiquismo, deveria servir para a certeza da idéia exatamente contrária, através do Discernimento que eles não quiseram ter.