Finalmente venci essa imensa preguiça que me impedia de terminar a leitura de Viagem à Itália, de Goethe. Talvez esse livro me impressionasse mais há uns vinte anos atrás, quando eu estava naquela idade bem propícia para ser encantado com coisas não tão boas assim.
Este livro poderia ser subentitulado “Alemão Rico, Solteiro e Desocupado visita a Itália”. Envolvido apenas com seus interesses estéticos, Goethe se deslumbrava consigo mesmo com bastante facilidade. E o fazia porque o podia. O que quero dizer com isso? Quero dizer que todos nós somos universos inteiros de potências adormecidas, e o que diferenciava Goethe dos demais seres humanos não era necessariamente a sua qualidade ou o seu esforço artístico, mas talvez somente uma conjunção peculiar de certas circunstâncias com a sua disposição de dançar em acordo com a música do mundo. Traduzindo isso em termos espirituais, talvez se não atuasse adequadamente como Bispo no Sistema da Besta, como Legitimador da Mistura, ele não tivesse se tornado o personagem histórico que se tornou para nós hoje e, consequentemente, os seus relatos de viagem à península italiana se perderiam entre tantos outros dos quais jamais tomaremos conhecimento. Por que lemos este livro, afinal de contas? Por que ele sequer existe? Essas coisas sempre me intrigam. Por que prestamos atenção em um ser humano, e não nos outros?
A situação da leitura de um livro não é um evento caótico. No seu entendimento já existe alguma sabedoria. Isto é, para quem não se submete a fatos consumados, como o de que um livro de um autor famoso simplesmente exista.
Falando em situação, qual é a do autor?
Aos 37 anos de idade, o já famoso autor do Werther resolve “escapar” (na verdade, obtém uma licença remunerada de seu Duque) do seu ambiente e conhecer a Itália com o propósito de desenvolver suas capacidades artísticas, principalmente no âmbito da pintura. Para resumir a coisa toda, como ele mesmo admite ao fim, ele apenas conhecerá a si mesmo, como se fosse um personagem do gênero do Bildung, que ele mesmo tanto aprecia. Aceita as limitações de suas capacidades e resolve se aprofundar no seu talento literário. Em síntese, para saber quem ele era, teve que descobrir antes quem ele não era. No fim das contas, descontadas todas as perfumarias, foi isto que importou na viagem de Goethe à Itália.
Mesmo sabendo que o autor, como uma alma artística, naturalmente estaria disposto a exageros e enfeites, ainda assim me espanta o nível do deslumbramento do sujeito. Toda hora ele encontra o melhor lugar do mundo para estar. Roma. Nápoles. Sicília. A verdade é que o Reino de Deus está dentro de nós, mas Goethe ainda achava que tinha que procurar algo fora dele. Por isso digo que uma pessoa culta às vezes apenas cria métodos mais sofisticados para perder o seu próprio tempo e, é claro, o nosso, ao chamar a nossa atenção para o que não interessa.
Sanguíneo, Goethe toda hora reclama de ter muito mais interesses do que realizações. Descobre nas artes muitas potência que lamenta não poder realizar no nível de excelência que estas merecem. Sem dúvidas despreza o Belo em Deus, o dom do Louvor, e neste sentido não é tão bom alemão como outros idealistas de antes do Romantismo.
Além dos interesses artísticos, o autor também resolve se meter com ciências da natureza, o que era uma moda da sua época à qual ele não escapou. Faz diversas observações nas áreas da mineralogia e botânica. E chega a ter ares de uma soberba insuportável com a sua idéia da Planta Primordial, uma teoria que não chegou em lugar nenhum, e que se pensarmos bem nada mais é que uma sombra, ou repercussão, do fenômeno muito mais essencial da Relação entre o Uno e o Múltiplo. Se tivesse formação filosófica suficiente Goethe poderia ter percebido isso, que muito mais precioso do que a descoberta dessa tal Planta Primordial é a descoberta da Substância Simples, o Uno, ou a Mônada. Mas isso requer um nível de abstração e idealismo que o faria se afastar do seu Naturalismo, sim, Idolatria da Natureza. Goethe procura o Ser, o Bem e o Belo fora da unidade, seja de Deus ou de si mesmo, e o nome disso é Idolatria.
Entre as observações interessantes que o autor faz encontramos algumas ligadas às diferenças climáticas entre a Itália e a Alemanha. Goethe descobre la dolce vita, il dolce far niente. É possível desfrutar do ser das coisas sem precisar transformar ou estudar esse ser. Neste sentido, é como um pagão descobrindo o Paraíso. Mas as razões para as diferenças entre os modos de vida alemão e italiano não escapam ao autor, que neste sentido foi feliz em suas colocações. Ele reconhece, como eu mesmo já notei e relatei antes, que o frio e a escassez de alimento faz o ser humano que vive no Norte se tornar mais introspectivo e reflexivo durante o inverno. No Sul se vive mais fora de casa e com atividades manuais. Tanto a arte quanto a filosofia do Norte são mais profundas ou lentas, enquanto no Sul tudo é mais prático e rápido. Além disso, também com bastante acerto, o autor observa que a realidade do frio e da escassez de alimento também muda o comportamento do nortista durante o seu Verão, porque ele precisa planejar e inventar muito mais que o sulista.
No resto o texto é para mim bastante enfadonho ou irritante, permeado de loas naturalistas, humanistas e classicistas.
Goethe acha que os antigos eram melhores (como é comum com quase qualquer classicista), e acha que alguns seres humanos são realmente muito superiores aos demais de modo terminativo (sem reserva para a atuação do Amor divino). Novamente, acha que o que importa é o que está fora, e não dentro. Presta muita atenção nas realizações da Natureza e do Homem, mas não se indaga muito sobre a origem de tudo isso.
Apesar de fazer uma descrição aparentemente elogiosa do carnaval romano (na verdade é apenas um relato honorário em respeito às tradições), o autor na verdade detesta a festa e se aborrece porque ela o atrapalha nos seus estudos. Essa diferença me incomoda profundamente. De um lado, digamos, no universo das coisas reais, Goethe sabe que aquilo tudo é irritante e praticamente uma perda de tempo. Mas, por outro lado, como homem do mundo, cordial e sociável, ele precisa reconhecer que aquilo tem um valor no mundo das aparências. Para que perder tempo com mentiras? Ok, escreva o relato para os idiotas que precisam disso. Mas para nós?
O ponto de maturidade e talvez o único momento de sabedoria surge quando, apesar de fazê-lo de modo contido, o autor assume que sua ambição nas artes plásticas é uma bobagem, e resolve se concentrar na sua arte própria, que é a literatura.
Também é notável que por mais que goste da sociedade e do sucesso, o autor gosta mais ainda da solidão e da liberdade criativa, e aos poucos vai admitindo isso. Seu aborrecimento com o tanto que se fala do Werther ao seu redor é notável e até algo cômico.
Em suma, não podemos dizer que Goethe nos mentiu em sua Viagem à Itália, mas certamente ele embrulhou a verdade numa embalagem cheia de mentiras. Ao menos reconhecemos que ele próprio queria acreditar nas ilusões, então se enganou os outros, o fez por ter se enganado primeiro a si mesmo. Ele achava que encontraria um talento como pintor, e que desfrutaria da vida em Sociedade, mas na verdade teve que dizer não a tudo isso para se tornar o Goethe maduro realmente competente na sua literatura produzida em solidão.
Em dado momento ele chega a confessar que sente nojo e total desprezo por aqueles que, sem serem artistas, se acham aptos a darem palpite nas obras de arte dos outros. Aposto que essa sua opinião não circulou nos salões romanos cheios de pessoas agradáveis.
Nota espiritual: 3,3 (Moriquendi)
| Humildade/Presunção | 3 |
| Presença/Idolatria | 2 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 3 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 4 |
| Vigilância/Ingenuidade | 2 |
| Discernimento/Psiquismo | 4 |
| NOTA FINAL | 3,3 |