Aqui encontramos um texto muito mais agradável, espirituoso e fluido do que aquele de Viagem à Itália. O autor revela uma distância mais confortável dos fatos narrados, e nos encaminha com passos tranquilos pelos diversos eventos de sua vida. Não está mais preocupado em se tornar alguém, ou em fazer algo. Parece que só quer entender e isso reduz aquele estresse idiota da imaturidade.
Goethe tem uma memória admirável e uma vida interior profunda, sendo capaz de detalhar sentimentos sutis de décadas atrás. Certamente ele usou essa capacidade para enriquecer sua atividade literária.
Desde cedo revelou-se muito interessado em aprender, e foi bastante estimulado pelo pai nesse sentido. Também aprendeu muito da vida real pela proximidade com os centros de poder em Frankfurt, seja em tempos de paz ou de guerra. Viveu numa posição social privilegiada e soube aproveitar essa oportunidade para desenvolver-se pessoalmente.
Quando produz um primeiro testemunho direto de suas crenças fundamentais, revela-se algo politeísta. Se refere ao divino como “os Elohim”, os “filhos de Deus”. Sua leitura da Bíblia, portanto, é mais mitológica do que teológica, e mais ligada ao Gênesis do que ao Êxodo. Isso certamente estimulava a sua prodigiosa imaginação artística, mas significava um custo alto em termos de rigor teológico. A revelação mosaica mais valiosa sobre a essência de Deus foi preterida pela preferência de Goethe pelas imagens ancestrais da mitologia mais antiga. Parece que nosso autor prefere se arriscar com uma beleza mais fértil de imagens do que verdadeira num sentido rigoroso, e isso deve ter algo a ver com as disputas insuportáveis entre as “verdades religiosas” que assolaram a Europa durante muito tempo. Esse recuo mitológico era um jeito de escapar da atmosfera insuportável das disputas dogmáticas. Foi um recurso muito usado desde o fim da Idade Média, e que impulsionou as gerações ao Renascimento, ao Iluminismo, ao Classicismo e ao Romantismo.
Sua visão do que chama de “Religião Natural” demonstra o seu Naturalismo, tanto quanto sua ideia de “Religião Particular”, ou Revelada, é um testemunho humanista e tradicionalista. Goethe não só é fraco em teologia, como também em filosofia. O essencial nessas esferas de conhecimento lhe passa despercebido, embora ele seja uma alma sofisticada e capaz de grandes apreensões de sutilezas estéticas, como já falamos. Acontece que ele não terá recursos para escapar das tentações, seja da visão trágica (cacólatra), seja da visão ingênua, do mundo e da vida humana. E, assim, a mais profunda e verdadeira liberdade do Evangelho deve se manter indisponível para ele.
Seu testemunho de Ingenuidade com o mundo só não é pior porque é temperado por ceticismos particulares em áreas específicas. Seja no aprendizado da política, da religião, das regras literárias da Poesia, quando Goethe analisa as coisas detidamente, nos seus detalhes minuciosos, ele enxerga os limites ou mesmo os enganos das tradições humanas, e sua inteligência não o trai. Apenas ele não faz questão de extrapolar esse ceticismo para todos os âmbitos do conhecimento, ou seja, não aplica esse seu recurso como uma disposição geral da alma diante de toda a cultura humana. Para fazer isso teria que pagar o alto custo da renúncia aos ídolos da natureza e da humanidade, o que não lhe seria nada fácil.
A certa altura Goethe já se vê como um autor que divide a importância das coisas entre o público e o particular, quando por exemplo relata a ocasião da eleição e coroação do Imperador em Frankfurt, algo que ocorre em meio ao seu interesse privado e algo platônico pela bela Gretchen, que terminará de modo infeliz. A verdade mais pura seria a total indiferença ao espetáculo da soberba do mundo. O ideal seria nem tomar conhecimento de impérios e imperadores. Goethe não consegue fazer isso, ou não quer fazê-lo. Mas ao menos, melhor que Dante com sua Beatriz, Goethe confessa que mais lhe importava a companhia e a atenção da amada do que todos os cortejos imperiais do mundo. Não deixa de destacar o fenômeno dos brilhos mundanos, mas assume que o amor de Gretchen está acima disso tudo. Neste sentido é um poeta e artista mais romântico do que clássico, e seu testemunho, se não é mais puro, ao menos é mais sincero.