Como Goethe poderia ter amado a Deus e à Gretchen

Continuemos nossa avaliação, no modo mais detalhado e minucioso, como já propus, com o livro De minha vida de Goethe.

A certa altura (na transição da infância para a juventude) o autor relata que finalmente conseguiu se livrar da obsessão por Gretchen quando descobriu que esta tinha por ele um sentimento de irmã mais velha, como se fosse sua protetora. Ele logo corrige sua estima por esta “governanta de meninos”. Mas, curiosamente, não tem tanta facilidade para se livrar da pura imagem de Gretchen. Considera isso algo incômodo, mas só porque não separa o eterno do transitório, ou seja, a sua Gretchen ideal, que sempre lhe pertenceu, daquela outra real, que foi apenas conhecida na experiência limitada de uma manifestação imperfeita daquele ideal.

De fato Goethe parece não ter recursos filosóficos para entender o Idealismo. Para se curar de vez da paixão obsessora, resolve estudar filosofia. Mas admite que não consegue entender muita coisa. Chega a confessar a sua predileção pelo Estoicismo, e só quer saber de uma filosofia que legitime a Mistura, porque o que lhe interessa é a continuidade e o aprofundamento deste estado. A idéia de Separação (ou Santificação) lhe deveria ser muito estranha, como a de qualquer abstração de ente e essência.

Em primeiro lugar, que Goethe não tenha podido se desencantar com a imagem de Gretchen com a mesma facilidade com que se desencantou pela sua pessoa é um excelente sinal. Isto é meio caminho andado para a Separação. Através do dom do Louvor restaria a Goethe a tarefa fria, contemplativa e segura de resgatar a origem primordial dessa imagem. Isso não tem nada a ver, porém, com os arroubos dos sofrimentos do jovem Goethe (assim também como do seu jovem Werther, por sinal). É uma indagação calma e profunda. De onde veio a beleza da imagem de Gretchen? Que Belo é esse que produz essas manifestações variadas no tempo, expressões que dão um testemunho seu, mas que nunca o contém? Por este caminho reflexivo Goethe poderia ter descoberto o Louvor e, com este dom, o poder de transformar o que era um psiquismo doentio gerador de sofrimento num gozo cheio de repouso e júbilo.

Afinal, de que adiantaria Goethe conhecer Gretchen, se não fosse para alcançar, através desta experiência concreta, o Amor pleno? Sendo o Amor a razão da existência de todos os seres, este seria o caminho da felicidade para o nosso autor: reconhecer na manifestação daquela imagem amável a idéia plena dessa beleza eternamente possuída no tesouro do Reino do Céu, e a amabilidade daquela outra singularidade que ele conheceu vestida com a forma que lhe atraiu inicialmente.

Goethe teria assim, a partir dessa sua experiência incômoda e sofrida, as mais seguras razões para amar a Deus e a Gretchen: a Deus por ter lhe dado as primícias de uma Beleza eternamente amável como parte da sua herança na Eternidade, e a Gretchen por poder apreciar a jornada dessa sua alma irmã por este mesmo mundo, sendo grato por aquele instinto fraternal dela, e desejando-lhe todo o bem na sua vida na Presença de Deus.

Porém, parece que o nosso autor começa a mostrar sua predileção pela Mistura, como tantos Filhos de Adão fazem. Se a Gretchen concreta, aqui e agora, não pode ser experimentada tal como ele a deseja experimentar, já não importa mais, pode ser desprezada nas suas boas intenções, ou até algo odiada por não ter correspondido ao desejo de Goethe. Isto é um sinal daquela traição ancestral do desejo de Poder contra o Amor.

As escolhas filosóficas iniciais de Goethe mostram essa tendência. Sua predileção pelo Estoicismo, por exemplo, evidencia esse fracasso espiritual. Prefere tornar-se mais resoluto e resistente, mais senhor de si mesmo, supostamente, do que obter uma compreensão profunda do sentido da sua experiência com Gretchen. A diferença é que o Estoicismo é mais atraente a uma alma orgulhosa, enquanto a admissão da amabilidade seja da imagem ou da realidade de Gretchen requereria a confissão de um estado precário, vulnerável e fraco que só poderia ser resgatado por um poder verdadeiramente divino. O homem que não encontra a salvação em Deus está fadado a fracassar na crença em si mesmo.

Observemos atentamente que dois erros se tornam possíveis, confirmando a Dialética do Ouroboros entre a Legitimação da Mistura ou a Negação do Limite, e isto já na experiência deste jovem Goethe: por um lado ele pode aceitar como trágico o fato de que a sua Apetição será em alguma medida sempre frustrada, o que lhe conduziria a um fatalismo e talvez a um desejo de domínio ou de sorte (as virtú ou fortuna de Maquiavel); e por outro lado ele pode se aprofundar nessa linha estóica de morte espiritual e avançar na negação da qualidade da graça experimentada até, talvez, chegar na rejeição de toda a realidade e de toda possível Apetição.

Mas deixemos estar por enquanto, porque o relato só alcançou por enquanto o começo da juventude do autor.

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