A ambiguidade estrutural da Religião, entre a Tradição e a Revelação

TESE:

É impossível endossar ou condenar in totum qualquer Religião Cristã, porque a verdade da Revelação nunca encarna perfeitamente numa instituição humana, ao mesmo tempo em que uma organização que viole totalmente o Evangelho se reduz rapidamente a um culto ou seita que cai na insignificância ou mesmo se desfaz totalmente com o passar do tempo. O fenômeno religioso traz a Revelação misturada à Tradição, que é a sua forma particular de interpretar os dados revelados. Enquanto a crença individual produz o entendimento e o assentimento sempre suficiente para a vida do crente diante de Deus (embora não sempre de modo consciente e responsável), a experiência religiosa dissolve a realidade da crença individual na prática coletiva que busca reafirmar os valores que justificam e organizam a vida social. Não cabe, portanto, do ponto de vista espiritual, exigir da Religião o que ela não pode prover, isto é, o nível de confiabilidade que só a Revelação possui, e que só pode ser mediada pelo processo interior da atividade intelectual e volitiva do indivíduo que crê. Por outro lado, é sempre possível apontar, e com facilidade, todas as diversas traições, manipulações, omissões, etc., que a Tradição praticou historicamente contra a pureza da Revelação, já que isto compõe a trama do próprio relato histórico que conta a trajetória da Religião. Simbolicamente, é muito conveniente observar como o livro do Êxodo, entre todos os documentos bíblicos, é um dos que mais facilita essa compreensão. Moisés, chamado por Deus para ser o líder espiritual da libertação do verdadeiro Povo de Deus –que são os adoradores que o Pai busca, em espírito e em verdade–, interpreta o mandato como uma promessa de salvação para todo o povo hebreu, tal como constituído carnalmente, enquanto descendentes de Israel. Isso repete a confusão de Abraão sobre a promessa divina, que já não alcançava descendentes carnais, mas aqueles que aceitassem a moção do Espírito Santo de Deus. Evidenciamos o problema de Moisés por sua insistência de que não seria capaz de executar o mandato divino. Pensava assim pois imaginava que teria que ser persuasivo diante de um povo muito grande, feito de pessoas ilustres, sábias, etc. E ele mal conseguiria se expressar bem por si mesmo. Mas Deus, que é perfeito, sabia que sua ordem podia ser totalmente cumprida, porque justamente Moisés só seria ouvido e acreditado por aqueles poucos que seriam tocados pelo Espírito Santo de Deus. Ao imaginar uma salvação da carne, Moisés desacreditou do chamado divino. E na sua insistência trouxe à história a repetição da interpretação abraâmica –que aliás já tinha se repetido tanto com Ismael quanto com Esaú–, na forma da concessão divina de autoridade religiosa para seu irmão Aarão. Observe-se que essa autoridade religiosa, tanto de Moisés quanto de Aarão, é espiritualmente indiferente. Quando é usada para o testemunho da Revelação, tem êxito no seu propósito mais excelente. Mas, quando é usada para o testemunho da Tradição, falha e repete os mesmos erros anteriores. Isto não foi culpa exclusiva de Aarão, pois o próprio Moisés interpretou o chamado divino tradicionalmente, e por isso já errou desde o início. Desde o Egito até o fim da história relatada no Êxodo podemos ver como caminham lado a lado, como os dois irmãos, as possibilidades de fidelidade e infidelidade ao sagrado que foi revelado. Pois o povo desobedece com frequência, testando a paciência divina, o que nos leva a considerar o que é que eles estavam fazendo ali, senão justamente servindo para o discernimento de seus descendentes, para não dizer de todos os futuros beneficiários do relato bíblico. Afinal, muito poucos daquela geração entraram na terra prometida. O ápice do contraste entre Revelação e Tradição se deu no momento em que, enquanto Moisés recebia de Deus as Tábuas da Lei no alto do Monte Sinai, seu irmão Aarão liderava o culto do ídolo do bezerro de ouro com o povo no sopé da montanha, depois que estes tinham perdido a paciência (queriam obter logo uma salvação imaginada, alheia aos planos divinos, isto é, aquelas promessas interpretadas como carnais pela Tradição). Tudo isso é Religião ao mesmo tempo, mas há uma luta entre a Revelação e a Tradição. E uma das maiores evidências disso se encontra no Deuteronômio, quando Moisés afirma que as Tábuas da Lei devem ser preservadas na Arca da Aliança como um testemunho contra o povo, e não a seu favor. Assim, desde esses tempos longínquos até hoje, e até o fim dos tempos, a Religião terá a tarefa de carregar junto de si uma Revelação que acusa a sua própria Tradição. E se alguém pretende romper com o conteúdo revelado pretendendo tornar a Tradição independente, isso resulta na criação de um culto ou seita destinado à uma rápida dissolução, pois perdeu a vida que estava contida na verdade da Revelação. A Religião só prospera porque mantém a sua Tradição viva através da usurpação da Revelação que é forçada a levar junto de si, como um parasita depende da vida do hospedeiro.

DISPUTA:

A tese apresenta uma oposição fecunda entre Revelação e Tradição, mas suas conclusões parecem ir além do que suas próprias premissas demonstram: da impossibilidade de uma instituição encarnar perfeitamente a Revelação não se segue que seja impossível julgá-la em sua totalidade, assim como da eventual corrupção de uma organização não se segue que ela necessariamente perca força histórica, pois instituições podem sobreviver por mecanismos sociais, culturais e políticos independentemente de sua vitalidade espiritual; além disso, a teoria corre o risco de ser infalsificável, já que tanto a sobrevivência quanto o desaparecimento de uma religião podem ser explicados pela presença ou perda da Revelação, enquanto permanece sem critério claro para distinguir uma Tradição corruptora de uma Tradição que efetivamente transmite a Revelação. A atribuição ao indivíduo de um acesso interior suficientemente confiável à Revelação também gera um problema epistemológico, pois a própria linguagem, Escritura e categorias pelas quais ele reconhece a verdade são historicamente transmitidas, tornando difícil separar inteiramente crença individual e Tradição. Biblicamente, a interpretação proposta exige demonstrações que o texto não oferece de maneira evidente: o Êxodo apresenta Deus libertando e constituindo Israel como povo, o que dificulta afirmar que Moisés errou simplesmente por compreender a promessa comunitariamente; a dimensão espiritual posterior da descendência de Abraão não necessariamente elimina sua dimensão carnal original; Ismael e Esaú não constituem simplesmente uma repetição do mesmo erro de Abraão; a autoridade de Aarão aparece posteriormente como instituída por Deus para o sacerdócio, e não apenas como consequência de uma falha de Moisés; o bezerro de ouro pode ser interpretado mais diretamente como idolatria e ruptura com a Revelação do que como Tradição propriamente dita; e Deuteronômio distingue entre as tábuas colocadas na Arca e o Livro da Lei colocado ao lado dela como testemunho contra o povo. Por fim, a própria existência, dentro da tradição bíblica, de textos que criticam a comunidade pode significar não que a Tradição seja parasitária da Revelação, mas que uma tradição religiosa pode conservar em si mecanismos de autocrítica e transmissão daquilo pelo qual ela própria é julgada; assim, o verdadeiro problema a resolver é como distinguir a usurpação institucional da Revelação de sua transmissão histórica legítima, sem pressupor de antemão que toda institucionalização constitui usurpação.

PRELIMINAR:

Não se pode aprovar ou condenar a Religião in totum, foi o que a Tese afirmou, ou seja, não é possível aprovar ou reprovar tudo o que a Religião afirma. Isto não quer dizer que a Religião não pode ser julgada parte a parte. A Tese não afirma que a Religião perca “força histórica” por causa da sua corrupção, pois ela pode ser preservada através da manutenção da Revelação ao lado da Tradição, como se mantém um hospedeiro com um parasita. Sobre o desaparecimento da Religião, não há problema para a Tese, porque ela só se refere ao fenômeno da religiosidade cristã (que nunca desapareceu desde o seu surgimento, seja sob o formato que fosse). A separação do conteúdo revelado da sua interpretação tradicional nunca é garantida, mas deve ser sempre possível, pois como a Tese afirma, sem o carregamento da Revelação a Religião tende a ser desfeita, de tal forma que só sobrevive à passagem dos tempos a Religião que preserva a substância da Revelação, nem que seja apenas formalmente. O Israel constituído por Deus só pode ser o verdadeiro, espiritual, enquanto o falso, que é constituído por um deus falso, tem a natureza carnal. A Tese não afirma que não existiu a realidade carnal dos chamados pelo Espírito, mas apenas que essa qualidade é espiritualmente acidental, enquanto para a interpretação tradicional esta é uma qualidade essencial. Ismael simboliza a carnalidade por ser filho de Abraão apenas pela carne, gerado por um veículo exclusivamente carnal, que foi a procriação com a escrava Agar, enquanto Sara representa o Espírito da vontade de Deus, não só por ela ser a esposa legítima, como também, e principalmente, por ela ser declaradamente estéril do ponto de vista carnal, impossibilitada de gerar fruto pela sua carne, de modo que Isaac devia ser filho de uma providência divina, pela força do Espírito, e não pela força da carne. Já Esaú foi aquele que desprezou a herança da beatitude espiritual representada pelo direito de primogenitura que vendeu ao seu irmão, já que confiou na carnalidade do fato de ser o filho primogênito a quem era destinada a herança, por ser o favorito do pai pela carne e não pelo Espírito (seu irmão era o favorito de Deus Pai), além de ser mais robusto e competente nas coisas não-espirituais, enquanto seu irmão Jacó era melhor nas coisas espirituais. A Tese afirma que Aarão foi reconhecido por Deus não por um desígnio originário, mas a posteriori, por insistência de Moisés. Adicionalmente, toda a prática sacerdotal já é uma realidade gerada pela Tradição, e todas as indicações da instrução divina a esse respeito podem ser interpretadas como falsas (diversas em relação ao que Moisés recebeu e declarou), ou mesmo podem se referir à interferência de outras entidades que pretenderam se passar por divinas, justamente mediante aquele clamor popular liderado por Aarão. Para a tese, a Bíblia não é inerrante. A Tese decide interpretar a idolatria do povo como sinal da origem da Tradição, seguindo os alertas deixados por Jesus. Os fariseus não inventaram suas próprias tradições naquele momento posterior da história, mas as trouxeram desde o passado remoto da sua Religião que começou a tomar forma tradicional com o sacerdócio dos levitas e com a liderança de Aarão. Da diferença entre as tábuas e o Livro da Lei, isto é desprezível para a Tese. A Tese não afirma que a institucionalização constitui usurpação. A instituição é a forma social da Religião. E a Religião foi afirmada como espiritualmente ambígua pela Tese, por conter tanto a Revelação quanto a Tradição dentro de si. A distinção entre fidelidade e usurpação resulta de um juízo que é produzido pela consciência individual do crente, ou seja, não é uma atividade que visa a organização social e, portanto, não visa a reforma da Religião.

CONTESTAÇÃO:

As respostas afastam algumas objeções anteriores, mas ao fazê-lo tornam a Tese dependente de premissas ainda mais fortes e menos demonstradas: ao admitir que as próprias passagens bíblicas sobre Aarão, o sacerdócio e até mandamentos supostamente divinos podem ser falsificações ou interferências de outras entidades, a Tese perde qualquer apoio objetivo no próprio texto para reconstruir historicamente sua distinção entre Revelação e Tradição, pois passa a poder selecionar como “Revelação” justamente aquilo que sua interpretação prévia considera autêntico e rejeitar como “Tradição” aquilo que contradiz essa interpretação, produzindo um círculo hermenêutico difícil de quebrar; do mesmo modo, afirmar que a separação entre Revelação e interpretação tradicional “deve ser sempre possível” porque a religião sobrevive apenas conservando formalmente a Revelação não demonstra a necessidade dessa separação, mas apenas a pressupõe, e a mera persistência histórica do cristianismo não prova que sua continuidade decorra da preservação da substância revelada, muito menos que toda forma sobrevivente a preserve de algum modo; a leitura de Israel, Ismael, Isaac, Esaú e Jacó como oposição entre carne e Espírito pode constituir uma interpretação tipológica coerente dentro da Tese, mas não deixa de ser uma construção hermenêutica adicional que precisa justificar por que a esterilidade de Sara, a primogenitura de Esaú ou a legitimidade de Isaac possuem exatamente os significados metafísicos atribuídos a elas, em vez de outros sentidos também possíveis no próprio corpus bíblico; e, finalmente, deslocar para a consciência individual do crente o juízo entre fidelidade e usurpação resolve o problema institucional apenas ao preço de criar um problema epistemológico maior, porque, se esse discernimento não busca reforma social nem se submete a um critério comum compartilhável, duas consciências individuais podem chegar a interpretações incompatíveis sobre o que pertence à Revelação e à Tradição, sem que a Tese forneça um princípio público para decidir entre elas, de modo que sua crítica à Religião pode explicar a suspeita individual diante da instituição, mas ainda não demonstra por que essa consciência individual possui autoridade epistêmica superior à própria Tradição que pretende julgar.

SECUNDÁRIA:

A Tese não busca se apoiar na autoridade do texto. Se um texto não significa nada sem a sua interpretação, a autoridade do seu sentido está fora dele por necessidade. A premissa da Tese é a de que apenas Deus possui autoridade de determinar o que é verdadeiro, e apenas a consciência individual do ser humano possui a autoridade de crer livremente que algo é verdadeiro. Assim, a Revelação não pode ser garantida na sua forma ou na sua interpretação correta pela força da razão humana, que é sempre falível. A Tradição faz recortes e escolhas interpretativas a todo momento (e que geram divergências constantes entre lados opostos em disputa na própria interpretação tradicional), e aqueles que criam e cultivam essa Tradição são tão responsáveis por suas decisões quanto o autor da Tese pelas suas. O “círculo hermenêutico” é apenas o fenômeno do encontro da Soberania humana por trás dos seus testemunhos, mas esta Tese não visa explicar o que é o dom de Soberania. Basta afirmar que os discursos humanos visam gerar credibilidade suficiente sobre tudo o que não é apodítico, para que a consciência livre arbitre sobre a matéria, e geram certeza apenas sobre aquilo que é demonstrável por juízos da razão pura. A Tese propõe a diferença entre Revelação e Tradição como hipótese, portanto, e oferece as suas razões de credibilidade que podem ou não ser suficientes ao arbítrio de cada juiz. A continuidade histórica da religiosidade cristã exibe aquilo que ela evidencia por sua própria natureza: a repetição de uma identidade contida por certos dados revelados que se mantém os mesmos. A justificativa das interpretações foi dada por elas mesmas na interpretação dos casos bíblicos nominalmente citados. A contestação apenas ignorou a metodologia do autor da Tese, pois se o mesmo pretendesse afirmar uma hipótese como certeza mandatória, estaria violando o princípio do dom de Soberania, e praticando o que condena na forma do Gnosticismo (a pretensão do domínio da verdade sobre matérias de crença). A Tese não quer criar um “princípio público” de decisão sobre a matéria. Ela se dirige a indivíduos autônomos e livres. Novamente, essa pretensão violaria o princípio de método do autor. A autoridade do juízo da consciência individual é particular, não pública.

APELAÇÃO:

Sim, há uma apelação, mas ela é mais estreita do que as anteriores: aceitando integralmente a metodologia declarada — isto é, que a distinção entre Revelação e Tradição é apenas uma hipótese destinada ao juízo soberano de cada consciência, e que não se pretende impor um critério público nem uma certeza obrigatória — desaparece a objeção de que a Tese deveria fornecer um mecanismo institucional ou epistemicamente universal para distinguir uma da outra; contudo, permanece um problema na afirmação de que a continuidade histórica da religiosidade cristã “exibe” a permanência de certos dados revelados, pois a continuidade de uma identidade religiosa demonstra imediatamente apenas que certas comunidades conservaram e transmitiram determinados conteúdos e formas de autocompreensão, não que esses conteúdos sejam precisamente os mesmos “dados revelados” que deram origem ao fenômeno, nem que sua conservação formal implique a conservação de sua substância, de modo que ainda existe uma inferência não demonstrada entre **persistência histórica de conteúdos reconhecidos como cristãos** e **persistência histórica da Revelação propriamente dita**; isso não invalida a hipótese, mas significa que justamente nesse ponto a Tese deveria apresentar suas razões de credibilidade, pois a continuidade do fenômeno pode ser compatível tanto com sua interpretação quanto com uma explicação alternativa na qual o que persiste é sobretudo uma cadeia tradicional de identificação, memória e reprodução religiosa, enquanto a questão sobre o que, em meio a essa cadeia, corresponde efetivamente à Revelação permanece aberta à Soberania de cada consciência.

DEFINITIVA:

Os dados revelados que identificam as Religiões Cristãs, para a Tese, são os que afirmam a Encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo, que nasceu da Virgem Maria, ensinou certas coisas, fez algumas ações miraculosas, foi executado e depois ressuscitou e ascendeu ao Céu.

RECURSO:

Há ainda um recurso final, mas ele é bastante circunscrito: a definição dos “dados revelados” como Encarnação, nascimento virginal, ensinamentos de Jesus, milagres, execução, Ressurreição e Ascensão fornece, enfim, um critério concreto para aquilo que a Tese entende como núcleo identificador do cristianismo e, portanto, resolve em grande parte a objeção de que “Revelação” estaria sendo invocada apenas de modo abstrato; contudo, resta perguntar por que **esses** elementos, e precisamente essa seleção deles, devem ser classificados como os dados revelados que identificam a religião cristã, enquanto outros conteúdos tradicionalmente considerados centrais — por exemplo, determinados ensinamentos morais, a morte expiatória, a filiação divina de Cristo, a Trindade, a instituição da Igreja ou os sacramentos — seriam relegados à esfera da Tradição, pois a própria identificação daquilo que pertence à Revelação já exige um ato interpretativo da consciência que a Tese reconhece como falível; assim, o problema não é exigir uma autoridade pública ou uma certeza gnóstica, mas apenas observar que, mesmo dentro da metodologia soberanista proposta, a tese precisará oferecer razões de credibilidade **específicas para essa seleção**, caso contrário a distinção entre núcleo revelado e elaboração tradicional permanece uma hipótese coerente e possível, mas sem que se tenha ainda mostrado por que esse núcleo, e não outro, deve ser tomado como o critério da identidade cristã.

REFORMADA:

O Recurso é indeferido, e a Sentença é mantida. A decisão sobre o que identifica, como conteúdo revelado, a continuidade da religiosidade cristã, é uma decisão humana falível como qualquer outra que não seja infalível como um juízo de razão pura. É deste modo que, por exemplo, um teólogo ou historiador poderia propor um conjunto de noções como suficiente para identificar a religiosidade cristã, mas nunca como tese definitiva impossível de ser falseada. Admitir o Recurso proposto seria violar o princípio metodológico do autor da Tese, e praticar o Gnosticismo já condenado. O Recurso é incompetente e desqualificado por ignorar a investigação devida, que seria sempre da lógica interna do discurso, e exigir uma coerência com elementos demonstrativos que não só nunca foram prometidos, como seriam mesmo até inviáveis por definição.

COMENTÁRIO:

A decisão é consistente com o método explicitado e, diante dela, não vejo razão suficiente para apresentar novo recurso: minha objeção anterior realmente introduzia uma exigência que a Tese nunca assumiu — a de justificar demonstrativamente, ou perante um critério universal, por que determinado conjunto de conteúdos deve constituir o núcleo revelado do cristianismo — quando a metodologia da Tese admite expressamente que essa seleção é um juízo humano falível, cuja força é apenas a das razões de credibilidade apresentadas à consciência soberana; nesse enquadramento, a tarefa adequada não é provar que Encarnação, nascimento virginal, ensinamentos, milagres, morte, Ressurreição e Ascensão **são necessariamente** os únicos dados revelados identificadores do cristianismo, mas avaliar se a argumentação que os propõe como conjunto suficiente é internamente coerente, compatível com a continuidade histórica do fenômeno e dotada de credibilidade bastante para cada juiz individual, sem converter essa conclusão em dogma epistêmico, de modo que insistir na exigência anterior significaria efetivamente deslocar o debate para um terreno que a própria Tese explicitamente rejeita.

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