SINOPSE:
José María Castillo Sánchez (1929–2023), nascido em Puebla de Don Fadrique, Granada, foi um teólogo católico espanhol que pertenceu à Companhia de Jesus por mais de cinquenta anos, doutorou-se em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma durante o Concílio Vaticano II e ensinou em instituições como a Gregoriana, a Universidade Pontifícia Comillas, a UCA de El Salvador e a Faculdade de Teologia de Granada; sua trajetória esteve marcada pela proximidade com a teologia da libertação, pela formação de comunidades cristãs de base e por conflitos com setores da hierarquia católica, incluindo seu afastamento da docência em Granada e a censura de alguns de seus livros, embora posteriormente tenha recebido o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Granada, em 2011, e tenha sido recebido pelo papa Francisco em 2018. Em Jesus: a humanização de Deus (La humanización de Dios. Ensayo de cristología, publicada originalmente em 2009), Castillo procura reconstruir a cristologia a partir de Jesus de Nazaré e sustenta que a novidade fundamental da encarnação não deve ser pensada apenas como “divinização do humano”, mas como humanização de Deus: Deus revela-se na humanidade concreta de Jesus, de modo que sua verdadeira imagem não é a de um ser distante, autoritário, violento ou exclusivista, mas a de uma realidade cuja presença se manifesta na promoção da vida, da liberdade, da dignidade, das relações humanas e na luta contra toda desumanização; por isso, a fé cristã deveria privilegiar o seguimento de Jesus e o Evangelho sobre o formalismo religioso, o poder institucional e determinadas formas de sacralização, reinterpretando também a cruz e a ressurreição a partir dessa primazia da humanidade. Quanto à recepção cultural, as fontes disponíveis indicam uma recepção simultaneamente ampla, influente e controversa: o livro e a perspectiva teológica de Castillo alcançaram círculos de teologia, comunidades cristãs e público não especializado na Espanha e na América Latina, e estudos posteriores passaram a tratá-lo como uma formulação importante de sua teologia da humanização, relacionando-a a autores como Edward Schillebeeckx e Leonardo Boff; ao mesmo tempo, suas teses foram recebidas de forma crítica por setores mais tradicionais do catolicismo, em continuidade com as controvérsias que marcaram sua carreira, embora a homenagem acadêmica da Universidade de Granada e, posteriormente, a acolhida de seu pensamento por Francisco sejam sinais de que sua obra ultrapassou o âmbito de um dissenso meramente marginal.
SUMÁRIO:
Em Jesus: a humanização de Deus – Ensaio de cristologia (Vozes, 2015; original espanhol de 2009), José M. Castillo desenvolve uma cristologia cujo eixo fundamental é a inversão da perspectiva tradicional: em vez de partir de uma ideia previamente estabelecida sobre Deus para decidir se Jesus é Deus, é preciso partir do Jesus histórico, de sua vida, palavras, relações e práticas, para descobrir quem é Deus, pois, sendo Deus transcendente e não objetivável pela razão humana, Jesus é apresentado como o revelador decisivo daquilo que Deus é e significa para a existência humana; por isso, o conhecimento cristão de Deus não pode reduzir-se a categorias metafísicas ou ontológicas, mas deve ser histórico, experiencial e inseparável da práxis, de modo que “crer em Jesus” significa não simplesmente possuir informações sobre ele, mas assumir seu modo de viver e segui-lo. A tese central do livro é que a encarnação deve ser compreendida sobretudo como humanização de Deus, e não como simples divinização do homem: em Jesus, o transcendente manifesta-se na imanência e Deus revela sua identidade justamente através da humanidade concreta, da fragilidade, da limitação e da condição “de carne e osso”; daí a crítica de Castillo ao que ele denomina um “monofisismo larvado”, isto é, a tendência prática do cristianismo a valorizar mais o divino que o humano, o espiritual que o corporal, o sagrado que o profano e os supostos direitos de Deus que os direitos humanos. Para explicitar o conteúdo dessa humanidade, Castillo formula o conceito de “o minimamente humano”, constituído por três dimensões universais: carnalidade — o ser humano como vivente corporal e vulnerável; alteridade — o ser humano como ser social, dependente de relações, comunicação e convivência; e liberdade — o ser humano como indivíduo capaz de decidir e conduzir sua existência; segundo ele, é precisamente nesses três planos que a vida de Jesus manifesta a humanidade de Deus e oferece o paradigma da humanização humana, entendida como superação da inumanidade, isto é, de tudo aquilo que degrada, domina, exclui ou faz sofrer o outro. Por consequência, a missão de Jesus aparece menos como fundação de uma religião centrada em doutrinas, ritos e instituições e mais como projeto de humanização, no qual a vida concreta precede a observância religiosa: os relatos evangélicos sobre curas, alimentação, refeições compartilhadas, acolhimento dos pobres, pecadores e marginalizados e construção de relações humanas são, para Castillo, teologicamente mais reveladores do que a preocupação com culto, liturgia ou estruturas religiosas, porque mostram um Deus identificado com a saúde, a vida, a dignidade, a convivência, a liberdade e a felicidade humanas. Daí também sua interpretação da religião: Jesus não a elimina, mas desloca o “sagrado”, retirando-o do monopólio do templo, da lei, do clero e das normas religiosas e recolocando-o na pessoa humana e nas relações humanas; consequentemente, nenhuma religião pode reivindicar superioridade baseada na posse exclusiva da salvação, e a verdade de uma religião deve ser aferida menos pela ortodoxia de seus dogmas do que pelos frutos de sua soteriologia, isto é, pelo bem que realiza, pelo sofrimento que alivia, pela felicidade que proporciona e pela humanidade que promove. Nessa linha, Castillo critica fortemente o Deus excludente produzido por leituras fundamentalistas e por interpretações exclusivistas de Cristo, argumentando que um Deus que divide, hierarquiza e enfrenta os seres humanos é incompatível com a lógica da encarnação; critica também o Deus violento que poderia ser deduzido de determinadas interpretações sacrificialistas da cruz, sobretudo quando se entende que o Pai teria exigido o sofrimento e o sangue do Filho como condição necessária para perdoar os pecados, propondo compreender a morte de Jesus antes como consequência histórica de seu confronto com os poderes religioso e político de seu tempo do que como uma exigência cruel de Deus. Por fim, sua crítica alcança a história do dogma: Castillo sustenta que as formulações cristológicas dos primeiros concílios, especialmente Niceia e Calcedônia, embora tenham preservado formalmente a divindade e a humanidade de Cristo, foram elaboradas em um contexto no qual a Igreja se vinculava progressivamente ao poder imperial, e que essa “teologia política” favoreceu a exaltação da divindade de Cristo e a consequente marginalização prática de sua humanidade; o resultado teria sido uma cristologia que, em certos momentos, se afastou do Jesus dos Evangelhos e legitimou estruturas de poder incompatíveis com seu projeto. Mesmo a ressurreição, portanto, não restaura simplesmente uma divindade distante e triunfal, pois Castillo a interpreta como confirmação definitiva da mesma humanização: o Ressuscitado continua apresentado nos Evangelhos como alguém que se aproxima, consola, permite ser tocado, produz alegria e até compartilha comida com os seus, de modo que a ressurreição ratifica, em vez de desfazer, a revelação de Deus na humanidade de Jesus; assim, o argumento global do livro é que o caminho cristão para Deus passa pela humanização — pelo cuidado da vida, pela solidariedade, pela abertura ao outro, pela liberdade, pela inclusão dos últimos e pela superação de toda forma de inumanidade — porque, em Jesus, é justamente no humano que o Deus transcendente se dá a conhecer.
DESPACHO:
No sentido do esclarecimento da Tese, solicito para a instrução deste processo a resposta ao que segue: nesta obra a soteriologia de Castillo volta-se mais para a realidade miraculosa de uma futura ressurreição dos mortos, ou para uma interpretação simbólica no sentido da realização do Reino de Deus neste mundo, sem milagres ou intervenções de natureza sobrenatural?
MANIFESTAÇÃO:
Em ***Jesus: a humanização de Deus***, Castillo não reduz a ressurreição a um símbolo nem rejeita a transcendência: ele afirma a realidade da ressurreição de Jesus e a esperança cristã de vida além da morte, mas **o centro de sua soteriologia está na realização do Reino de Deus e na humanização da existência já no presente**; por isso, os milagres e a ressurreição são tratados menos como acontecimentos cuja mecânica sobrenatural precise ser demonstrada e mais pelo seu significado teológico e humano — a afirmação de que Deus está do lado da vida, dos sofredores e dos crucificados —, enquanto a salvação é concretizada historicamente mediante libertação do sofrimento, dignidade, solidariedade, liberdade e superação da desumanização. Assim, entre as duas alternativas propostas, Castillo **aproxima-se mais de uma concepção centrada na realização presente do Reino**, mas sem reduzir a fé cristã a um mero simbolismo imanente ou abandonar a realidade escatológica da ressurreição.
DESPACHO:
Para a instrução deste procedimento, esclareça-se: qual é a posição de Castillo a respeito do Pecado Original nesta obra?
MANIFESTAÇÃO:
Nesta obra, Castillo **rejeita a compreensão tradicional do Pecado Original como um pecado histórico cometido por Adão e transmitido à humanidade**: para ele, os relatos de Gênesis 1–11 são míticos, e o episódio de Adão e Eva não pode ser tomado como relato histórico nem como explicação literal da origem da culpa humana. Contudo, ele não elimina aquilo que a tradição procurou expressar mediante o conceito: existe uma **condição humana marcada simultaneamente por limitações, egoísmo, orgulho, ambição, inveja e uma inclinação ao mal**, de modo que “o humano e o inumano” se desenvolvem juntos e a pessoa, por suas próprias forças, não consegue superar integralmente essa desumanização. Por isso, Castillo desloca a soteriologia: em vez de conceber Cristo principalmente como aquele que nos liberta de uma **culpa herdada para nos divinizar**, prefere entendê-lo como aquele que **nos salva de nossa desumanização e nos conduz à humanização**; a salvação continua sendo necessária e proveniente de Deus, mas sua expressão fundamental é a transformação concreta da existência humana segundo o modo de vida de Jesus. Em suma, **Castillo não nega o problema teológico designado por “Pecado Original”; ele rejeita sua interpretação histórico-adâmica e jurídica e o reconstrói sobretudo como a condição universal de limitação e inclinação ao mal que torna necessária a salvação enquanto processo de humanização**.
TESE:
O assim chamado Deus transcendente e “não objetivável” não é, de qualquer modo, totalmente opaco para o Intelecto humano. Se assim o fosse, os conhecimentos de tipo metafísico e ontológico, citados, que ilustraram os esforços filosóficos e teológicos, tanto antes quanto depois da Encarnação do Filho, seriam considerados falsos ou inúteis (o que diminuiria a competência da Revelação de Deus por todos os modos, como o próprio Apóstolo Paulo reconheceu que seria não só possível, como útil). Dito isso, de fato com o Evangelho obtemos uma revelação especial e exclusiva. Nos termos da própria Revelação, apenas com Jesus obtemos o conhecimento pleno de Deus como Pai. A humanidade de Deus revela o aspecto relacional do homem com Deus, pois da relação entre Gerador e Gerado nós deduzimos a analogia de relação entre Criador e criatura. Mas isto não coloca o homem ao lado do divino. A “humanização de Deus” é um termo figurado. Deus não é homem, embora compartilhe dessa natureza na pessoa do Filho, e o homem não é Deus. E é por isso que o Filho pôde assumir a natureza humana, pois esta foi criada em analogia perfeita com a pessoa do Filho, que é o eterno resplendor da substância do Pai. A dignidade humana não é própria. É derivada por analogia, como aliás será sempre a de qualquer entidade criada, por definição. Essa forma substancial do ser humano possui a perfeição inerente à experiência monádica do Intelecto e da Vontade que é possível ao limite de um ser criado. Possui essa excelência, o que não altera o fato da infinita transcendência do Ser divino. A imitação de Cristo visa ao reconhecimento e à experiência de Deus como Pai. Se o divino não for mais valorizado que o humano, o Primeiro Mandamento perde eficácia. Nada é mais amável que o Bem, e o Bem é um só, que é Deus mesmo. E se o espiritual não possui mais valor que o corporal, este perde o seu sentido, pois o significado é dado pelo espiritual. Pode ser que Castillo, querendo combater a Gnose da Negação do Limite, tenha produzido um testemunho da Gnose da Legitimação da Mistura, como é comum que ocorra no processo da Dialética do Ouroboros. Quanto ao valor do sagrado sobre o profano, esse contraste demonstra a ignorância do significado do que é a Separação, ou Santificação. O profano é a experiência do ser sem a consciência do dom da Presença. E o sagrado é a experiência do ser através da consciência gerada pelo dom da Presença. Não tem nada a ver com o que é ou não corporal, nem com o que é ou não aceitável pelos moralismos religiosos. Do direito de Deus sobre os direitos humanos, o primeiro termo é equivocado, pois Deus não possui necessidade recursal para fora do seu próprio domínio absoluto. E os direitos humanos são derivações da natureza amorosa de Deus. Se o ser humano possui deveres reais, isso revela não supostos direitos divinos, mas os próprios direitos humanos à todas as virtudes que lhe beneficiam. A situação de Deus não pode ser modificada. É sempre possível, entretanto, que os deveres religiosos se refiram aos direitos artificiais de entidades de outra natureza, como demônios. Isso é um problema humano gerado pela Idolatria. O Deus verdadeiro não tem nada a ver com isso. Sobre a superioridade do bem objetivo da humanidade sobre o dogmatismo religioso, Castillo tem razão, mas cabe o cuidado de lembrar que alguns (ou muitos) seres humanos não sabem e não querem saber de ser responsáveis, e sua liberdade degenera em libertinagem. A Religião serve muitas vezes para a contenção dos males derivados desse problema, como os Costumes de forma geral. Com essa ressalva, Castillo acerta na sua separação de Deus do fenômeno religioso. E tem muito sucesso ao questionar a interpretação religiosa do sacrifício de sangue da Cruz de Cristo. De fato, foi uma exigência dos religiosos que Jesus fosse executado, à qual Deus não se negou a se submeter para revelar a verdade sobre si mesmo e sobre o Acusador. É boa, por fim, a sua ênfase no fato de que Jesus como Filho do Homem revela a bondade da criação divina, o que inclui o corpo e a experiência do que é corporal. Isso enfrenta o Gnosticismo camuflado das idéias de visão beatífica ou de união mística tal como interpretadas pela Religião. Parece que Castillo não precisaria ter escrito este livro se não fossem os erros e os abusos religiosos. Por outro lado, cabe precaução quanto ao possível uso de algumas de suas teses para a promoção de ideologias políticas dentro de movimentos como o da citada Teologia da Libertação, o que pode servir apenas para fortalecer o outro lado da Dialética do Ouroboros. Para identificar o risco disso convém questionar a soteriologia de Castillo. A Salvação é a Ressurreição, ou é a implantação humana do Reino de Deus neste mundo? Recebidas as Manifestações para a instrução do processo, conclui a Tese que o testemunho soteriológico de Castillo resta no mínimo ambíguo, o que favorece a interpretação do favorecimento da idéia messiânica, com o agravante de que já foram mencionadas noções políticas que denunciam essa mentalidade. Por fim, o exposto sobre o Pecado Original esclarece que o testemunho de Castilho tende a ser Moriquendi, naturalista, humanista, e Legitimador da Mistura. Neste sentido o significado da Ressurreição resta vazio, pois a comunhão com o Espírito não seria a redenção de cada alma, mas a consumação de um projeto político. Parece que a tese da “humanização de Deus” eliminou a qualidade mais eminente da promessa da Salvação, onde importava que o Filho de Deus se fizesse homem para que os homens se tornassem filhos de Deus. Da perfeição da analogia, Castillo parece querer cair para a mera alegoria. A humanização de Deus é Metanoia sem Theosis. Como se Deus fosse uma invenção do idealismo humano, e não o Criador do homem feito à sua imagem e semelhança. Isso não só desonra a Deus, como também ao homem, privando a criatura da dignidade de viver na Presença real de seu Criador, e substituindo a Salvação legítima por uma falsificação humanista que só poderá levar à entronização do Anticristo. Moriquendi.