Dr. Fantástico, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Era difícil traduzir o título original deste quarto filme de Kubrick, Dr. Strangelove, para o português. Pode ser que tenham feito isso em Portugal, onde se costuma fazer traduções literais. Dr. Strangelove é a versão anglicizada do nome do cientista alemão, Dr. Merkwürdigliebe, personagem interpretado por Peter Sellers. O subtítulo do filme é mais curioso ainda: “Como aprendi a parar de me preocupar e a amar A Bomba“. A estória se passa no contexto da paranóia durante a Guerra Fria. O General Ripper, da USAF, comandante de um grupo de bombardeiros nucleares, isola sua base e aciona o Plano R de ataque, uma ordem para os seus B-52 na fronteira russa avançarem e atacarem alvos em territórios inimigos.

§ 2. Esse plano, como muitos na época, foi feito para nunca ser usado: significava apenas uma prevenção para que os russos não presumam imunidade caso lançassem um ataque surpresa que incapacitasse o comando político nos EUA, de modo que os comandantes militares tivessem essa provisão para lançar um ataque retaliatório. Ripper usou esta brecha para falsificar um ataque russo e colocar em marcha as ordens do Plano R. Apenas ele tem o poder de ordenar o cancelamento do ataque, através de seu código especial. Os chefes militares americanos, por sua vez, pressionam o Presidente a ordenar um ataque generalizado para neutralizar a possibilidade de retaliação dos russos. Este (também interpretado por Sellers) nega essa alternativa, e faz um acordo com os russos para que eles abatam todos os aviões, caso a contra-ordem não pudesse ser enviada à tempo. A base aérea de Ripper é atacada pelas forças americanas, e ele acaba se matando para não revelar o código. Porém, o seu Oficial Executivo (também interpretado por Sellers!) consegue desvendar o código e enviar a mensagem para que os B-52 possam voltar. Apenas um avião não retorna, no entanto, porque seu equipamento de comunicação foi danificado. Graças à grande diligência de seu comandante, eles conseguem fazer o seu ataque.

§ 3. O problema com esse único ataque que escapou é que ele será suficiente para acionar a Máquina do Dia do Juízo (Doomsday Machine). Conforme informa o embaixador russo, tentando copiar uma idéia americana concebida inicialmente pelo Dr. Strangelove os soviéticos criaram esse sistema de destruição em massa do planeta inteiro em caso de sofrerem qualquer ataque nuclear. A idéia, como sempre, era a dissuasão do adversário, mas tragicamente o mundo ainda não tinha sido informado da construção da máquina, o que a tornou não só ridiculamente inútil mas absurdamente desastrosa.

§ 4. Entra o Dr. Strangelove. Ele primeiro explica como funciona a Máquina do Dia do Juízo, e depois que todos aceitam a inevitabilidade do acionamento da mesma, ele então concebe um plano de sobrevivência da humanidade que envolve um programa de seleção eugenista para um novo sistema político no subterrâneo, onde a radiação não os afetaria e onde todos esses líderes poderiam viver vidas bastante satisfatórias, com todo o poder e benefícios, etc. Este personagem é um símbolo óbvio da Operação Paperclip que trouxe cientistas nazistas para contribuir com os americanos durante a Guerra Fria contra a URSS. Possivelmente foi inspirado até no Dr. Wernher von Braun, o especialista na tecnologia de foguetes que foi praticamente o fundador intelectual da NASA.

§ 5. Isso nos indica a intenção de Kubrick de testemunhar pela Vigilância, o tema espiritual que será o mais importante da sua carreira como um todo. Provavelmente podemos contar Dr. Fantástico como a primeira das “obras conspiratórias” de Kubrick. O filme zomba das incompetências militares de todos os lados da guerra, e denuncia o belicismo e a estupidez militarista como um todo. Especialmente com a figura do personagem do Dr. Strangelove a idéia do bom-mocismo dos líderes políticos e militares cai por terra. Eles querem apenas manter e expandir seu poder, mesmo que isso custe a segurança e a vida de todo o resto da população.

§ 6. Mas a denúncia de conspirações não significa nenhuma sucumbência à paranóia. Bem ao contrário, este é o sentimento de origem de todo o problema do filme. O enlouquecido General Ripper acredita numa grande conspiração comunista de sabotagem e subversão para “sugar e envenenar os preciosos fluídos corporais” da população americana. É uma referência às teorias da conspiração que entraram em moda nesta época (e que nunca saíram totalmente de moda nos EUA, por sinal), tanto à respeito dos danos da fluoretagem da água, quanto à respeito da liberação sexual. Essa abordagem de Kubrick não nos permite dar-lhe uma nota muito alta para seu testemunho da Vigilância, afinal algum fundo de verdade havia por trás da paranóia anticomunista durante a Guerra Fria.

§ 7. Este filme, do ponto de vista espiritual, mistura qualidades com defeitos. Por um lado temos testemunhos de Humildade através da denúncia da incompetência militar e política, de Soberania pela resistência de alguns personagens contra a narrativa belicista (com destaque para o Presidente dos EUA e o Oficial Executivo de Ripper), e de Vigilância pela exibição da frieza e monstruosidade da lógica do poder, principalmente com o próprio Dr. Strangelove. Por outro lado, há uma dose de Idolatria na desconsideração de como todo o drama da ação humana é na verdade uma comédia nas mãos de Deus, e por decorrência disso uma inclinação para o espírito de Terror (ou Pacto com o Inferno), como se não existisse recurso espiritual para se suportar quaisquer eventos gerados pela estupidez humana na história. Felizmente um certo tom humorístico que perpassa todo o filme atenua esses elementos negativos. O que faltou foi a oferta da verdadeira cura da paranóia para o público americano, que é o repouso e a confiança no Amor divino, e não na razoabilidade de quaisquer lideranças humanas. É um filme que se salva, mas por pouco.

Nota espiritual: 5,1 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,1

Lolita, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Com os excelentes James Mason e Peter Sellers, nosso terceiro filme de Kubrick é uma adaptação da famosa novela homônima de Nabokov. O Professor Humbert (Mason) se apaixona pela jovem Lolita, filha da viúva Charlotte Haze. Casa-se com a pobre Sra. Haze apenas para estar perto da garota, e sua paixão converte-se aos poucos em obsessão. Com a morte da esposa, que perde o controle depois de descobrir os sentimentos do marido a respeito de sua filha registrados num diário deste, Humbert decide avançar para cima de Lolita e desenvolve uma possessividade doentia por ela. Eventualmente ele perde o controle da garota, que foge. Só depois ele descobre que ela sempre preferiu como amante o charmoso e um tanto doido Quilty (Sellers), que foi o responsável pela saída dela de sua vida. Vingativo, Humbert mata Quilty.

§ 2. Humbert falhou ao querer consumar seu falso amor. Podia ter mantido um ideal platônico, mas não resistiu. Lolita o acusa: “você não me ama“. Ela tem razão. Ele não a ama, e nem a si próprio, ama apenas a imagem que tem dela para a satisfação de seu apego mórbido. Se a amasse, amaria a sua liberdade e o seu desenvolvimento integral. E se amasse a si próprio, desejaria em primeiro lugar a liberdade em face ao próprio desejo. Ao contrário, ele a reprime, um claro sinal de falta de amor, e o faz porque ele mesmo é escravo de seu desejo. O problema de Humbert não se trata de nenhum moralismo com relação às diferenças das idades. Esses moralismos são disfarces de recalques de pessoas infelizes e ressentidas, como a Sra. Haze. Ele realmente não a ama, e nem ama a si próprio, e esse é o problema. Esse amor é uma mentira.

§ 3. Podemos partir disso para uma filosofia ainda mais avançada do que nos permitiria o platonismo, esclarecida pelo dom do Louvor. Quem é Lolita, realmente? Para si mesma, e para Humbert, ou Quilty? E o que é o amor verdadeiro? Lolita é uma mônada, uma singularidade indeterminada destinada à perpétua contemplação da Glória infinita de Deus. Só poderia ser amada enquanto tal. Por outro lado, todos os caracteres amáveis da manifestação concreta de Lolita tanto para Humbert quanto para Quilty, seu charme, sua formosura, enfim toda a sua graça, são primícias da Beleza divina para esses amantes que deveriam ver, através dela, o seu Deus, e a Eternidade. Esse é amor verdadeiro e libertador.

§ 4. Da ontologia monádica do ser como Substância Simples com a forma da Unidade, para a epistemologia do conhecimento do Uno através da percepção do Múltiplo pelo intelecto finito da mônada criada, alcançamos a ética amorosa da Monadofilia. Vejamos Humbert: se tivesse suficiente amor-próprio, não se sujeitaria a agir de forma pequena, mesquinha, ardilosa, como agiu, mas preservaria a sua paz com Deus, e através de Lolita amaria a Deus como fonte de toda beleza possível. Veria então a Sra. Haze como uma mulher digna de misericórdia, ou até a própria Lolita.

§ 5. Ao invés de agir de forma predatória, poderia dar o testemunho consolador do Amor divino. A Sra. Haze seria livre para continuar iludida com a possibilidade de um novo casamento, se o quisesse, mas esta teria que ser a sua escolha diante de opções melhores, e não perante um aproveitador inescrupuloso, que foi o papel que Humbert desempenhou e que a desesperou. Perante Lolita, por sua vez, ele poderia ser um amigo com quem ela pudesse contar para se prevenir contra tipos como Quilty. Mais ainda, em espírito de imitação da virtude, ela poderia não só se livrar das mentiras desses conquistadores, mas também do destino de esposa e mãe que terminou por prendê-la ao final da estória. Entende-se, aliás, como o matrimônio é um contrato espiritualmente razoável diante da frieza desses Humbert e Quilty, pois ao menos nominalmente confere à pobre Lolita alguns direitos em contrapartida ao que oferece.

§ 6. Desde o início o Professor Humbert aparece como um humanista esclarecido, um erudito, ou mesmo um scholar. Isso não significa nada em termos de Discernimento espiritual. Diante dessa manifestação bruta da Beleza divina na forma da jovem Lolita o nosso Professor fica indefeso aos impulsos mais primitivos, como uma besta, um animal enfeitiçado. Enxergamos bem como vive angustiado, sem liberdade, diante daquele deslumbramento. E acompanhamos quando ele nos confessa seus sentimentos em seu diário o quanto mistura a experiência da beleza potencial de Lolita com projeções convenientes às suas fantasias. Lolita é como Eva no Paraíso: vítima do espírito desse eterno Adão que não a quer senão como sua posse, seja quando esse espírito vem por meio de Humbert, ou por meio de Quilty.

§ 7. Infelizmente o filme não mostra nenhuma alternativa espiritual aos problemas. Toda fé é desprezada como sentimentalismo inútil, principalmente na pessoa da Sra. Haze. Lolita está cercada de demônios na forma desses espíritos chiques e esclarecidos como os de Humbert e Quilty. Por mais tentadora que ela fosse na sua formosura, a verdade é que não há clemência da parte desses homens, nenhum autocontrole, nenhuma transcendência, apenas um apetite voraz, monstruoso.

Nota espiritual: 4,3 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte2
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo3
Nota final4,3

Spartacus, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Não só Spartacus não conseguiu libertar-se de Roma, como não pôde se libertar da condição humana. Gerado pelo desejo de poder de Spartacus, e também de seu desejo declarado pela Gnose (“quero saber tudo“), seu filho supostamente livre poderia a qualquer momento se tornar um cidadão proprietário de escravos, ou um novo escravo ele próprio. Dependeria que sua mãe lhe testemunhasse as origens e certos valores, mas essa transmissão sempre poderia falhar, ou simplesmente ser rejeitada pela pressão muito mais imediata e inclemente das necessidades e circunstâncias da vida humana. Esses mesmos elementos que geraram a prática da escravidão em primeiro lugar. Essa é a falha dos rebeldes: não percebem que são como os romanos, apenas desde um outro ponto de vista. Qual é, enfim, a natureza real da escravidão, e da própria liberdade? Isso é apenas muito levemente tocado por esta história de luta contra a opressão romana.

§ 2. O próprio Spartacus assume as suas incertezas. Está consciente, pela liberdade conquistada, da indeterminação moral da sua recém adquirida condição de homem livre. Ser livre é ser responsável, mas quem sabe o que é o Bem? Nosso protagonista tem um conhecimento intuitivo do que é viver como escravo, e já antecipa a solução da morde nesta condição, ainda que não conheça a promessa da Ressurreição. Mas já tem metade do Caminho da Salvação. Diz: “um escravo, ao morrer, perde a sua dor“. Já sabe que a morte é uma espécie e libertação. Mais tarde, no seu grande discurso ao exército dos escravos libertos, ele afirma: “talvez não haja paz neste mundo, nem para nós nem para ninguém“. É um testemunho espiritual contra a grande ilusão do Paraíso terrestre, embora ainda esteja bastante inconsciente desse sentido mais profundo. E confessa finalmente para sua esposa, Varínia, que está grávida de seu filho, antes da última grande batalha em que será derrotado: “sinto que começamos uma coisa que não acabará nunca“. Exato. Ele já ouviu o galo cantar, mas ainda não sabe onde. Spartacus diz para a mulher que sente-se sozinho, mesmo ao lado dela, e que reza para um Deus desconhecido, o Deus dos escravos, e lhe pede apenas que lhe dê um filho que seja livre. Uma grande ironia cheia de simbolismo. Querendo produzir a liberdade, só reproduziu a escravidão. Ainda assim, sua confissão de ignorância dá-nos um toque suficientemente inspirador no sentido do dom da Humildade.

§ 3. Sem a renúncia voluntária e consciente ao Pacto Ouroboros não pode haver o fim da verdadeira escravidão, que é a do Pecado Original, da Pretensão e da Idolatria da vida sem Deus. Todas as revoluções políticas são apenas giros da roda da história em torno do eixo fixo do Pecado Original, movimentos internos da Dialética do Ouroboros. Solve et coagula, ordo ab chaos. A verdadeira liberdade não é uma conquista humana, mas uma concessão divina. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará“. A conquista humana é a do sacrifício do Orgulho, um sacrifício de comunhão que é agradável à Deus. E a verdade libertadora é a do Evangelho, dos dons de Presença e os demais, inclusive o da Vigilância através do qual o Espírito Santo nos denuncia as mentiras do espírito do mundo, especialmente a perversidade do Pacto Ouroboros.

§ 4. O que Spartacus encontra enquanto liberto no mundo? A Queda e a Maldição. Em outros termos, reencontra Roma na sua forma mais primária: fome, sede, frio, doença, guerra e morte, mas também os riscos das riquezas, da opulência, e de todas as fraquezas morais decorrentes do domínio da natureza. O que é Roma? É um sistema de vida no estado da Mistura. Se a escravidão é, certamente, um mal, igual certeza temos de que não é o único, e mais ainda, devemos saber que não é o primeiro dos males. Primeiro vem a soberba, o orgulho, a Pretensão. Depois vem a Idolatria. E o resto vêm a reboque. Ignorando isso, o que Spartacus e sua comunidade de libertos estão fadados a fazer é a refundação de Roma sob outra forma, Roma que por seu próprio turno foi uma refundação de Babel, a cidade da Idolatria e da usurpação, capital dos traidores do Amor divino. Toda a humanidade que põe suas esperanças em si mesma quer a falsa paz e segurança de uma Roma, de uma Babel.

§ 5. Se queremos ser revolucionários de fato, não podemos aceitar o fim da marcha da liberdade: depois dos escravos, as mulheres também precisam ser libertas, e finalmente os filhos. Esse seria o caminho da Melhor Geração, da Última Geração, uma humanidade totalmente reconciliada com Deus. Já vimos que as profecias contem uma outra história. E a vemos se desdobrando ao nosso redor todos os dias, na direção do Anticristo. Por outro lado, uma outra falsa liberdade, com o sabor do esoterismo gnóstico, prospera espalhando sua própria reserva de mentiras pelo mundo.

§ 6. Spartacus não possui, ainda, a verdadeira liberdade. Quando nosso protagonista diz rezar para o Deus dos escravos, já fala do Jesus Cristo que ele ainda não conhece. Mas ainda não entende que a escravidão não é de Roma, e sim do Pecado Original. Seu desejo e sua luta pela liberdade são admiráveis, mas a essência dessa Salvação só poderá ser conhecida através do Evangelho. Não é maravilhoso como tudo aponta para Jesus?

Nota espiritual: 4,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,4

Glória feita de sangue, filme por Stanley KUBRICK

§ 1. Alguém me pediu para comentar o filme De olhos bem fechados, de Kubrick. Pensando em fazê-lo, me veio a idéia de assistir todos os filmes mais conhecidos desse famoso diretor, o que me fez listar dez títulos. Começando pelo mais antigo entre esses dez, reassisti essa jóia do cinema e que já não via faz tempo, que é o Glória feita de sangue (Paths to Glory), com Kirk Douglas, de 1957.

§ 2. A história conta do destino dos infelizes soldados do 701º Regimento do Exército da França durante a Primeira Guerra Mundial. O ano é 1916. A frente ocidental é um moedor de carne. Ninguém avança. Nenhum ataque faz sentido, e de fato apenas em 1918 os Aliados conseguiriam contra-atacar com sucesso e acabar com a guerra. Mas os oficiais franceses têm a sua própria batalha de ambições e vaidades a travar. Não bastasse viverem em condições extraordinariamente melhores do que os soldados sob o seu comando na frente de batalha, os membros do alto oficialato desejam promover-se às custas do sofrimento e da morte de seus soldados. É assim que começa o nosso filme. O General Broulard, do Estado-Maior francês, pede que o General Mireau ordene um ataque de suas tropas à uma posição fortificada inimiga chamada de “Formigueiro”. Mireau imediatamente afirma que a ordem é absurda e não pode ser executada. É uma missão muito arriscada, para não dizer impossível de ser cumprida. Broulard oferece então uma promoção em caso de sucesso, embora de forma disfarçada, com um certo decoro repulsivo. Para Mireau o custo pessoal é baixo em caso de derrota, mas os ganhos são vantajosos. Isso porque a vida e a segurança de seus soldados já não vale mais nada para ele, é claro.

§ 3. Acontece que Mireau vai precisar da colaboração do comandante do 701º Regimento, o Coronel Dax (Kirk Douglas), para que este conduza o ataque na linha de frente. Dax está cético e relutante: não é um jogador com a vida de seus homens, como Mireau e Broulard. Mas Mireau simplesmente ameaça removê-lo do comando por motivo de exaustão. Dax aceita a ordem e lidera o desastroso ataque. O resultado é medonho. Os alemães trucidam os franceses. Uma parte da tropa mal conseguiu sair de sua posição inicial na trincheira. Possuído de ódio, Mireau ordena que sua própria artilharia bombardeie aquela posição, para forçar os soldados a se moverem. Seu comando é rejeitado: deve dar a sua ordem por escrito, o que obviamente ele não faz.

§ 4. O ataque falhou, como era previsível. Mireau pede algumas cabeças da tropa para uma corte marcial exemplar. Três soldados são escolhidos para serem acusados de covardia, julgados e condenados. Dax tenta persuadir Broulard a interferir no processo, ameaçando revelar publicamente a ordem de Mireau para bombardear suas próprias tropas, mas o General carreirista interpreta essa iniciativa como uma chantagem de Dax para que fosse promovido à posição de Mireau. Os homens são fuzilados, e então Broulard oferece a promoção para Dax, que fica completamente enojado. Na melhor cena do filme, Dax diz para Broulard: “você é apenas um velho degenerado e sádico“.

§ 5. Logo depois, na última cena do filme, Dax tem uma experiência maravilhosa ao observar a sua tropa se divertindo num café no tempo de descanso antes de serem enviados novamente ao front. Uma alemã é levada a se apresentar para os soldados. Alvoroçados, se comportam como os animais desprezíveis compatíveis com o tratamento dispensado a eles pelos altos comandantes. Mas então a bela jovem começa a cantar e aos poucos os homens se apaziguam e se comovem, como se tivessem voltado para a casa materna como meninos novamente. E assim eles acompanham a cantora e Dax os vê como os seres dignos de misericórdia que ele sempre acreditou que eles fossem. É a sua vitória moral depois de tantas agonias.

§ 6. O filme é humanitário, antes de ser humanista. A diferença é importante, para não dizer decisiva. Porque ele desperta compaixão, e não orgulho. Não há nada de que se orgulhar. Mesmo Dax, no fim das contas, se comporta apenas dignamente no meio da insanidade da guerra, como um ser humano normal na posse plena de suas faculdades. Isso já nos livra daquele engano fatal da romantização da guerra, para não falar da romantização da condição humana como um todo. Espiritualmente, temos duas questões importantes trazidas por esta obra de Kubrick.

§ 7. A primeira é o testemunho favorável ao dom de Vigilância. O Coronel Dax é uma testemunha privilegiada de como opera o Sistema da Besta, e também o Pacto Sadomasoquista. Vê nas ambições e vaidades de Broulard e Mireau a monstruosidade demoníaca do desejo de poder. E fica horrorizado que Broulard tenha lhe tido como um dos seus, e não como um defensor das vidas de três soldados. Eventualmente isso sempre acontece com lideranças de segundo escalão: são convidadas a tomar assento na mesa dos grandes servidores voluntários do inferno. Broulard e Mireau são Cavalos no Xadrez do Diabo. Dax se recusa a tornar-se um deles.

§ 8. Mas a questão vai além. Um dos soldados escolhido para ser executado agride o Padre Dupree, questionando o sentido da salvação que lhe é oferecida nesse momento de aflição. O religioso só diz que é preciso aceitar os caminhos de Deus, que são misteriosos. Mas nenhuma fé pode ser adquirida assim, e nenhum esclarecimento. Dupree poderia ter denunciado todo o mal do mundo e levado a Boa Notícia de que em breve os três estariam livres de todos os demônios da Terra, a começar pelo Papa e pelo Presidente da França. Mas ele não pode fazer nada disso. Sua Ressurreição é fraca, quase vazia, um eco morto. Seu papel não é o de levar o Evangelho aos pobres, mas de garantir que os prisioneiros se comportem bem durante a execução, que é um evento público. Está à serviço do mesmo Sistema da Besta, no papel de Bispo, associado com o Cavalo. E, não surpreendentemente, mais tarde o asqueroso Mireau dirá a Dax: “parabéns, seus homens morreram muito bem“.

§ 9. O tema mais relevante do filme, porém, é o da inevitabilidade da morte. Para ser justo, o Padre Dupree fala disso, mas é apenas uma consolação formal e protocolar bem superficial, dentro do seu papel social. Não há fervor, não há um testemunho digno de Jesus Cristo. Um dos condenados à execução pergunta, muito sincero: “por que preciso morrer?” A necessidade dessa experiência, a mais universal e unificante das experiências humanas (além apenas do nascimento), mostra que a disputa moral entre corajosos e covardes é um tanto fútil. Quem escapará da morte, depois de ter nascido? E se um homem tem o defeito da covardia, quantos defeitos não tinham também os que morreram corajosamente? O que importa é dar uma resposta universal à essa pergunta universal: por que precisamos morrer? E a resposta cristã é: não precisamos, e não morreremos. Nossos corpos, frutos das Obras da Carne, esses sim precisam morrer, e isso justamente para que nós possamos viver para sempre de fato. Se o grão que cair na Terra não morrer, não gerará o fruto para a Eternidade. Isto nos leva ao mais importante dos papéis do Sistema da Besta. Seria o do Rei? Ou da Rainha? Nada disso. É o do Peão. Sem o Pecado Original não há fonte de poder para os Mireau, os Broulard, ou para qualquer vilão que seja neste mundo. Essa é a fonte de poder para o Ouroboros e todos os seus associados no mundo, e continuará sendo até o fim do mundo. Mas como poderiam gozar da paz provinda desse entendimento aqueles pobres soldados que não só não receberam o verdadeiro Evangelho, como possivelmente também nunca o procurariam mais tarde, mesmo que fossem poupados e que vivessem longas vidas?

§ 10. A chave está naquela última cena. Digo, talvez esteja. A arte nos permite projetar idéias e sentidos com essa facilidade. Mas me parece muito viável pensar assim, e acho que me entenderão. Aqueles soldados brutalizados não foram apenas iniciados nos males da guerra, mas na própria essência perversa da Queda, da rejeição do Amor divino. Por isso parecem inicialmente animalescos. O Ouroboros os quer como animais ao seu dispor. Enquanto o Deus verdadeiro quer filhos livres, o Usurpador quer animais escravizados. E será como animais que eles reagirão inicialmente à aparição daquela jovem alemã no café. Mas então ela canta. E eles voltam aos poucos à inocência do seu paraíso perdido, ao seio materno de onde vieram antes de serem iniciados no Pacto Ouroboros e em toda malícia do mundo. Não eram animais. Só tinham se esquecido de que eram humanos.

§ 11. Convém-nos até reconsiderar esta última cena como a melhor de todas do filme, e certamente uma das mais belas de toda a história do cinema. E as repercussões espirituais dela são tremendas. A menina que canta é a mulher que pisa na cabeça da Serpente defendendo seus filhos. Por isso é tão relevante reconsiderar, urgentemente, o simbolismo do Puer Aeternus à luz da doutrina esotérica do Pecado Original. Ser humano diante de Deus é voltar à inocência que é incompatível com a pactuação da iniciação na malícia deste mundo decaído e amaldiçoado. Não surpreende que nem três décadas depois dessa exibição de bravura da parte dos franceses, eles decidissem desconfiar da inescrupulosidade de seus chefes militares e políticos, e oferecessem então pouca resistência ao ataque alemão na Segunda Guerra Mundial. E não surpreende também todo o pacifismo que permeará o Século XX, para não falar das liberações sociais, do reconhecimento dos direitos das minorias, etc. Tudo isso sai de um movimento em reação ao cúmulo das mentiras da Velha Ordem. Mas não quer dizer que o diabo não esteja produzindo já essa Nova Ordem que também lhe servirá no fim das contas. Não há salvação no belicismo ou no pacifismo. Só há Salvação verdadeira em Jesus Cristo e na renúncia individual a todo o mal, que é o sentido da Cruz para cada um de nós. Neste sentido o filme é positivo, não parece querer nos iludir, justamente por ser mais humanitário do que humanista.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno6
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,6

Fratura, filme por Brad ANDERSON

§ 1. Aquele que não acredita no Amor pode crer em qualquer coisa, inclusive em si mesmo e em suas mentiras. Nosso infeliz protagonista, Ray, foi traumatizado pelo acidente que causou a morte de sua esposa anterior, especialmente pelo agravante moral de que ele estava dirigindo embriagado na ocasião. Ray, ao invés de enfrentar o demônio da culpa e, principalmente, do Terror em face da sua perda, fugiu para um abrigo típico.

§ 2. O abrigo do dever de estado, na forma de uma renovada e ampliada responsabilidade como marido de sua nova esposa, Joanne, e como pai da pequena Peri. Isso nos leva aos eventos mais recentes, retratados no início do filme. Retornando de uma viagem de carro de uma frustrante visita aos sogros, Ray entra em discussão com Joanne, ao mesmo tempo em que se irrita bastante com Peri.

§ 3. Eles param num posto de gasolina onde a menina sofrerá um acidente fatal, uma queda. Apesar de não ser culpado, por estar presente e envolvido na situação Ray não tem condições emocionais e psicológicas de lidar com o ocorrido, e muito menos com o desespero de sua esposa diante da cena trágica. Empurrando Joanne para longe, acaba causando também a sua morte. A partir daí, não só motivado pelo trauma, mas também por uma concussão que ele mesmo sofreu também em uma queda, tudo muda para Ray.

§ 4. Ele produzirá toda uma ilusão na qual ambas Joanne e Peri estão ainda vivas, e em que ele tenta então levar a filha machucada para se tratada no hospital mais próximo. Lá chegando, algumas coisas estranhas acontecem que o faz começar a ficar paranóico, especificamente com a hipótese de que há uma operação de tráfico de órgãos no local. Ray, mesmo subconscientemente, está construindo a sua mentira, uma estória que lhe é conveniente.

§ 5. Sua filha é encaminhada para um procedimento acompanhada da mãe. Cheio de suspeitas, Ray adormece na recepção do hospital, enquanto aguarda a saída das duas. Quando desperta, já não está mais na ilusão anterior, mas ainda bloqueia a memória do que realmente aconteceu. Vai em busca de informação sobre a filha e a esposa, mas descobre que ninguém as viu em nenhum momento. Sua paranóia explode.

§ 6. Depois de muitas idas e vindas com os funcionários do hospital e até da polícia, forçado a confrontar suas mentiras, Ray tem um novo surto que termina com mortos e feridos, e nosso protagonista acaba fugindo do hospital com um paciente que ele quer crer que é a sua mulher. Toda essa insanidade resultou da fraqueza espiritual de Ray, que não soube agir corretamente desde aquele seu primeiro trauma, e vem carregando uma conta pesada, com juros, por toda a sua vida.

§ 7. Já lhe tinha faltado então a melhor solução: se reconciliar com Deus para se livrar das mentiras do Acusador com relação à culpa da morte da sua primeira esposa, e repousar então na esperança da ressurreição da falecida. Isso lhe poderia ter poupado de ter a Presunção de corrigir seus males antigos com novos males, isto é, com novas responsabilidades que apenas o aborrecerão. E isso poderia ter poupado tanto Joanne quanto Peri de seus males sofridos.

§ 8. Por nem sequer sugerir algo que pareça com uma solução espiritual, o filme peca por vários lados. Nos fazendo crer em fatos trágicos e inescapáveis, dá testemunho tanto da Idolatria quanto do Terror, o Pacto com o Inferno. Onde está Deus? Não há, nem como referência de algo ausente na vida de Ray. Por outro lado, não há remédio suficiente para o sofrimento, porque não há vida espiritual, só um protagonista imbecil que vive inconsciente do sentido de suas ações, quase como um animal. Como se não bastasse isso, ainda há essa insinuação de que é mais fácil uma pessoa ser doida, paranóica, do que médicos e hospitais praticarem o tráfico de órgãos, o que é um testemunho de Ingenuidade. É pior do que isso: há médicos e hospitais envolvidos com o tráfico de pessoas, inclusive com o propósito de fornecer os “insumos” para rituais satânicos. Tudo isso existe, mas o filme quer que todos nos sintamos como Ray ao cogitar essas hipóteses: como uma pessoa que perdeu a razão. Por fim, e em linha com esse direcionamento, Ray é visto ao fim como um paciente com um mal psíquico adequadamente diagnosticado pela Dra. Jacobs, e nunca como um agente moral que tomou decisões espiritualmente relevantes que foram a causa fundamental dos seus enganos, especialmente o desespero pelo trauma original da morte da primeira esposa, em que ele se deicou levar pela Idolatria e pelo Terror. Que ele tenha distúrbios psíquicos, isso não pode ser negado, mas como ele chegou nisso em primeiro lugar? Foi se afastando da Presença de Deus. Isso a Dra. Jacobs não poderia reconhecer, porque não convém: este filme quer dar o testemunho do Psiquismo, e não do Discernimento. Por tudo isso não podemos recomendar este filme. Sendo uma denúncia do mal da paranóia, ironicamente ele deve causar apenas mais paranóia ainda, porque não oferece nem uma sombra de uma solução real para a condição humana, supostamente trágica.

Nota espiritual: 3,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno1
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo1
Nota final3,1

O abandono à divina providência, livro por Jean Pierre de CAUSSADE

§ 1. Caussade dá preciosíssimos testemunhos da Presença e da Paixão, e as suas virtudes do Abandono e da Rendição Total são frutos evidentes do dom da Humildade. Acusado de Quietismo pela maledicência religiosa da sua época, Caussade precisou reintroduzir, ao menos nominalmente, o risco da Presunção sob a forma de “inspirações” ou “inclinações”. Essa fraqueza nos mostra toda a força brutal da opressão religiosa, mesmo depois dos movimentos de Reforma e Contra-Reforma na cultura européia.

§ 2. Mas Caussade não é infalível também em outros termos que emprega e que podem causar confusão ou até mesmo malefícios. “Espírito”, por exemplo, não é o que habita o Coração como sede da Vontade, mas é especificamente a Presunção. Por outro lado, quando fala das sensações, Caussade não resiste ao emprego das idéias do gnosticismo espiritualista da Religião, quando o seu problema não é a experiência sensível, mas a Idolatria. Ele está na pista correta, mas sua linguagem contém defeitos.

§ 3. O autor nos empolga ao atacar a soberba dos estudiosos das letras, um elogio da Soberania, mas nos desanima ao fizer que “só conhecemos perfeitamente o que a experiência nos ensinou pela realidade do sofrimento“. Uma expressão sem sentido. Qualquer sofrimento só pode ser reconhecido através da experiência prévia do prazer e do repouso. Caussade é um místico, não um filósofo.

§ 4. Seu alvo é justo. O que ele quer nos dizer é que só a experiência do Limite e da Mistura nos permite assentir com todo o poder libertador na recepção dos dons de Humildade e Presença, porque é a experiência necessária da Forma do Escolhido e da Condição da Escolha, respectivamente. O Limite nos apresenta o Ilimitado, e a Mistura nos oferece o Separado, o Santo dos Santos. Nossa mente dialética precisa disso para informar a Vontade a respeito da conveniência da escolha do Amor. Certamente, com sua profundidade mística e teológica, Caussade quis dar este testemunho, e não o da ignorância de um masoquismo religioso.

§ 5. Nosso autor dá um tremendo testemunho da Soberania quando afirma que a santidade é algo fácil, para a consolação das freiras atormentadas com a literatura hagiográfica. Algo temível para a Religião, como muitas coisas que saíram dos arredores de Albi. Isso tudo me faz gostar muito de seu trabalho. Mas ainda, além disso, me é querido por seu amor ao fiat voluntas Tua, essa sabedoria que já animava a minha antiga doutrina do Acceptus Universum (2007).

§ 6. Quando ele explica que a Sabedoria divina age empobrecendo os sentidos para enriquecer o coração, Caussade está no limite entre o Gnosticismo e a Presença, onde o fiel da balança é o idealismo transcendental sobre o qual, infelizmente, o autor não diz nada, por não ser e não querer ser filósofo. À luz de sua obra vista como um todo, no entanto, terminamos pendentes generosamente para o lado da segunda alternativa. Ele está falando, em seus termos, do dom do Louvor que reconhece Deus na beleza de todas as coisas.

§ 7. Caussade nos diz algo maravilhoso: queremos saber o que Deus disse aos outros, mas não o que Ele diz a nós mesmos. Um grande ataque direto contra a Tradição Oral, um dos quatro pilares do esquema mentiroso da Religião. Corajosamente, ele nos afirma que não vai mais buscar a virtude dos santos, que são como “gotas” no oceano, como “átomos que desaparecem no abismo”. Vendo isso, o que me espanta é que Caussade tenha sido tolerado e mesmo autorizado pela Igreja.

§ 8. Não bastasse o já dito, ainda afirma: “A nossa semelhança ao tipo divino não nos pode vir senão da impressão deste selo misterioso, e esta impressão não se faz no espírito por idéias, mas na vontade pelo abandono”. Testemunha, assim, tanto à favor da Humildade quanto da Soberania. Sua concepção da Providência é tão vasta que não pode levar à nada senão à mais plena Salvação. Neste contexto a Perdição é apenas uma tolice evitada ao máximo no que depende do invencível Amor divino. Imaginem o que o nosso padre poderia nos dizer, se nos dissesse tudo…

Nota espiritual: 7,4 (Calaquendi)

Humildade/Presunção10
Presença/Idolatria10
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte7
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno9
Soberania/Gnosticismo7
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo5
Nota final7,4

Drácula de Bram Stoker, filme por Francis Ford COPPOLA

Com um surpreendente final feliz, este filme trata da triste história do Conde Drácula, originalmente um governante de uma região da Romênia, na fronteira na guerra dos cristãos contra os muçulmanos durante a Idade Média.

Chefe político e militar, ele lidera a defesa dos territórios cristãos contra a invasão islâmica com grande violência, e obtém o sucesso.

Porém, tragicamente, o inimigo consegue infiltrar no castelo de Drácula a notícia falsa de que ele teria morrido em batalha, o que faz com que a sua companheira decida tirar a própria vida num ato de desespero. Ao chegar de volta de seu triunfo militar, ele descobre o acontecido e enlouquece:

Esta é a minha recompensa por defender a igreja de Deus? Eu renuncio à Deus! Eu renuncio à Ele! Eu voltarei de minha própria morte para vingar a dela com todos os poderes das trevas.”

Esta é uma fórmula típica de maldição, e um ato de comunhão com espíritos infernais pelo caminho da Ira. Ele se torna então um vampiro, um morto-vivo que deve se alimentar do sangue alheio para subsistir indefinidamente.

É claro que precisamos avaliar tudo isto de acordo com o ponto de vista monadofílico.

O simbolismo dessa prática equivale ao da Queda de Adão em Gênesis 3: não podendo suportar a vida exclusivamente sustentada pelo Amor divino, o homem entra em “guerra” contra Deus, o que significa que tentará viver sem que seja pela Graça recebida, mas sim pela Graça roubada. O sangue simboliza a vida. A vida é dada a cada nova geração produzida pelo Pecado Original, de modo que impedido de viver com Deus a verdadeira imortalidade, que é da alma, o homem traidor, submetido à Maldição, produz pelo caminho das Obras da Carne, simbolizadas pelo sangue, a falsa imortalidade através de uma descendência carnal. O vampiro significa, espiritualmente, um ladrão da vida alheia (representada pelo sangue). Não podendo viver, por si, pelo Amor divino, precisa sugar a vida daqueles que ainda possuem relação com Deus: os inocentes, gerados pelas Obras da Carne, mas também chamados para a vida com Deus, isto é, todos aqueles que ainda não pactuaram com o Pecado Original, o Pacto Ouroboros. Essa prática, por sua vez, imita espiritualmente a prática de Lúcifer: caído e exilado, impotente na sua derrota interior em consequência da rejeição do Amor divino, tudo o que resta a este espírito, depois de ter seduzido um terço dos anjos à decadência da sua imitação, é a parasitagem daqueles que ainda são amados por Deus e que podem ser corrompidos pelas suas mentiras. Desde Adão, todos os seres humanos que desconfiam do Amor divino tornam-se inevitavelmente candidatos a adoradores do diabo, ou seja, rebeldes em comunhão com o espírito infernal de rejeição do Amor. Ou seja, haverá sobrevida para Satanás, o Ouroboros, enquanto ele conseguir convencer os homens a manterem a prática do Pecado Original e a continuidade da rejeição do Amor divino como costume. Lúcifer vive, portanto, como um vampiro, e pode-se dizer que ele foi o primeiro dos vampiros: exilado da comunhão com o Amor do Criador, ele precisa viver pela exploração da vida alheia daqueles que ainda possuem o vínculo da Graça com o divino. Essa é a iniciação satânica-luciferina, é uma doutrina vampírica. Os poderes das trevas sabem que as almas que ainda possuem chance de entrar na Eternidade são mantidas vivas pela Graça divina, e eles querem parasitar essa vida até o último suspiro, querem “viver” através dessas vítimas, como que experimentando ainda algo da Graça perdida da qual obviamente sentem a falta, mais ou menos como uma sombra emula os movimentos da luz. É essencial que essa dimensão da Mistura seja mantida a todo custo: por isso é tão poderoso o costume de legitimação da Mistura e da prática da continuidade do Pecado Original como algo sagrado.

Voltando à nossa história, o sonho do nosso pobre Conde Drácula é a consumação daquele amor perdido pela sua donzela. A vingança que sua alma trama é a da realização de seu sonho através dos poderes das trevas, através do vampirismo: aguardando, pelos séculos, a encarnação de uma alma na condição mais semelhante possível a de sua musa originária, Drácula encontra finalmente em Mina a substituta perfeita para Elisabeta. Com seus poderes demoníacos, podendo transformá-la em morta-viva como ele, conseguiria assim produzir finalmente o seu “paraíso na Terra”.

Mas o detalhe importante é que há, ainda, uma luta contra o mal na forma de um resquício de sanidade.

Primeiro isso ocorre no próprio Drácula, que no momento de transformação da sua amada numa morta-viva experimenta o horror da realidade do que faz e vive um instante de hesitação. No fundo ele sabe, mesmo depois de tantos séculos vivendo em comunhão com os espíritos das trevas, que aquilo não é o ideal que sempre quis, que aquilo é triste e mórbido. Eis um traço breve e tênue, mas valioso o suficiente, da lembrança do ideal divino, e um reconhecimento velado mas não menos verdadeiro de que só Deus pode dar a vida verdadeira, e que toda essa ação prodigiosa e sobrenatural na verdade é uma farsa espiritual, em uma palavra: Drácula sabe que essa sua forma de amar é mentirosa.

Segundo, isso ocorre na própria Mina que, apesar de se dispor voluntariamente a realizar as vontades do monstro, por ter testemunhado a hesitação dele consegue descobrir por si, numa luta interna, a superioridade de um amor baseado num ideal divino, e que aquela era a vontade originária de Drácula.

Ao fim, quando o monstro está para morrer depois de muitas idas e vindas, ela consegue oferecer essa esperança final para si mesma e para o vampiro. Juntos, eles compreendem de algum modo a verdade do Amor divino, da solução pela via da verdadeira Eternidade. E conseguem alcançar uma Redenção. A Golconda de Drácula é a sua rendição à Graça da execução do decreto divino de Gênesis 3, de modo que através da morte das Obras da Carne se realizem, finalmente, as Obras do Espírito.

Como podemos interpretar essa experiência redentora da forma mais simples?

Drácula sempre amou a Deus, embora tenha se recusado a admitir isso enquanto comungava com os espíritos infernais. Elisabeta, ou depois Mina, o que eram para sua alma? A manifestação da Graça divina para a singularidade de Drácula. Era a Deus que Drácula amava através de seu amor por Elisabeta, ou depois por Mina. Sempre foi Deus. Mas com a morte de sua primeira amada, ele considerou ter perdido o seu bem. Isso é impossível, no entanto, porque em Deus tudo é preservado. Nenhum bem verdadeiro pode jamais ser perdido.

Mas Drácula sabe disso? Não. A sua igreja foi aquela que em nome de um poder temporal o mandou guerrear: dominar, destruir e matar. Quando ele retorna dessa missão em nome desses poderes temporais (jamais em nome do Deus verdadeiro) e descobre a morte trágica de sua companheira, qual é o consolo que a religião que o mandou para a guerra lhe oferece? A notícia de que por ter se suicidado Elisabeta estaria para sempre perdida, condenada ao Inferno. Pois bem, é contra essa mentira (a da perda permanente de um bem) que Drácula se desespera e acaba fazendo pacto com uma mentira maior, a de que é possível viver sem a Graça divina.

A mentalidade do pobre Drácula esteve desde o início envolvida na cultura do cativeiro deste mundo dominado pelo diabo: a Idolatria. Foi esta insanidade que o fez valorizar seu reino, seu poder, seu papel como defensor da Cristandade, sua vitória militar, etc., e que depois o fez desesperar pela perda de Elisabeta. O mesmo mundo onde idolatramos falsos bens como se o pudéssemos dominar temporalmente é o mundo onde podemos perder tudo. Daí a sabedoria de Cristo: “junteis tesouros no Céu…”. Se Drácula soubesse, pelo dom da Presença que liberta de toda idolatria, que o que ele sempre amou foi a Deus, a Árvore da Vida da qual Elisabeta foi como uma flor desabrochada a partir de um ramo seu, ele jamais cairia na mentira das trevas. Rejeitaria a doutrina insana dessa “igreja” comandada por demônios, e repousaria na verdadeira Esperança no Amor divino. Ao fim, foi assim que ele conseguiu finalmente repousar e partir deste mundo, reconhecendo a mentira do sangue e a verdade do espírito: sua verdadeira Elisabeta sempre esteve com Deus, e é apenas com Deus que ele pode consumar o seu amor de forma verdadeira.

E digo mais, sendo as coisas espirituais tão misteriosas, eu não me surpreenderia se Drácula entrasse no Paraíso com mais facilidade do que aqueles “homens santos” que lhe desesperaram ao condenar Elisabeta ao Inferno. Afinal, Jesus mesmo disse que alguns lhe dirão “Senhor, Senhor…”, mas ele pedirá que se apartem dele, pois negaram o pão e a água aos famintos e sedentos. Ora, famintos e sedentos do quê? Do Espírito, da consolação, da Esperança, do testemunho do Amor.

Existem duas lógicas em operação. Uma é a espiritual, da liberdade através do Amor divino. E a outra é carnal, da escravidão de uma Maldição que gera obsessão com a carne e o sangue. O erotismo corrompido dessa humanidade escrava do Ouroboros é um tema importante neste filme, especialmente do papel feminino na arte da sedução para este esquema de falência espiritual.

Há uma personagem lateral, Lucy, que se torna uma vítima de Drácula antes do grande desfecho com Mina. Em certo ponto o Dr. Van Helsing, especializado no tema do vampirismo (e talvez tratado como uma reencarnação de alguma antiga liderança da igreja da época originária de Drácula), diz a respeito de Mina:

Guarde-a bem. Caso contrário, a sua preciosa Lucy se tornará a cadela do diabo. Uma prostituta das trevas! Escute-me, meu jovem. Lucy não é uma vítima aleatória, atacada por mero acidente, você entende? Não. Ela é uma recruta voluntária, uma ansiosa seguidora, desenfreada. Eu ouso dizer, uma discípula devota. Ela é a concubina do diabo!

O Dr. Van Helsing possui conhecimentos meio esclarecidos e meio intuitivos sobre a natureza do problema espiritual do homem. Diz ele: “Civilização e sifilização avançaram juntos.” E: “Nos tornamos todos loucos de Deus, todos nós.” Mas sabe que os poderes infernais estão no lado derrotado e inferior da história, como um parasita que teme a perda de seu hospedeiro: “Nós aprendemos muito. Drácula nos teme. Ele teme o tempo. Se não temesse, não teria porque correr tanto.”

Drácula dá vários testemunhos também relevantes e intrigantes. Ao exaltar o poder do sangue, ele mostra a sua miserável condição de dependente. Ao comparar-se com animais (e mesmo ao transformar-se em algumas bestas), ele mostra como o decaimento espiritual do homem se dá na forma de uma redução a uma forma animalesca.

Diz ele, referindo-se aos lobos famintos, como se sua fome de sangue fosse sua virtude: “Escute-os: as crianças da noite. Que doce música eles produzem.” E diz também: “Há muito a se aprender com as feras.” Não nos lembra os argumentos do natalismo naturalista, nas idéias da equivalência do nomos divino à Lei Natural?

Algo honesto, ele sabe que sua graça é uma maldição: “Eu te condeno à viver na morte. À eterna fome pelo sangue vivo.”

E, ainda mentiroso, ele ainda se defende em nome de sua falsa justiça: “Eu, que servi a Cruz. Eu, que comandei nações, centenas de anos antes de você nascer. Eu fui traído. Veja o que o seu Deus fez comigo!

Drácula chega a emular Jesus em algumas situações, obviamente quando oferece seu sangue como origem da “vida”, de modo que quem dele tomar “viverá para sempre”, ou mesmo quando se lamenta: “Onde está o meu Deus? Ele me abandonou. Está tudo acabado.”

Mas é só no fim que existe o plot twist, a surpreendente virada com o final feliz.

Diz Mina: “Ali, na presença de Deus, eu entendi finalmente como o amor poderia nos libertar de todos os poderes das trevas. Nosso amor é mais forte que a morte.” A ênfase no termo “presença” é minha. É, afinal, na Presença de Deus que se desfaz toda a mentira. Vejam o detalhe curioso: se Drácula não confiasse que sua Elisabeta estaria salva para si por toda a Eternidade com Deus, jamais se desfaria a mentira daquela igreja que deu o falso testemunho que o desesperou originalmente.

O amor mais forte do que a morte é o testemunho que aquela antiga igreja não conseguiu dar para o pobre Conde Drácula, mas que Mina pôde, tantos séculos mais tarde. Era o que ele precisava. Drácula não estava, enfim, com fome de sangue, mas da promessa do Amor eterno.

E Drácula finalmente pede: “Me dê a paz.”

A paz é a morte das Obras da Carne e a rendição confiante ao Amor divino.

Nota espiritual: 6,1 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte7
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno6
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo7
Nota final6,1

As negações dos conceitos sinóticos da Monadofilia (Sakura-Tsuna)

Bem entendidos os princípios e as idéias da Monadofilia, qualquer pessoa seria capaz de concluir pela conveniência dos cinco conceitos sinóticos desta filosofia resumidos pelo esquema Sakura-Tsuna, e a partir destes, com o destravamento dos impeditores da Coruscância (Paraíso, o “Escolhido”), alcançar a phronesis final com o esquema Kiku, a “Consciência Profunda” (Arayashiki, correspondente às virtudes teologais temporais da Fé e da Esperança), e o “Tesouro do Céu” (Tenbu Horin, correspondente à virtude eterna do próprio Amor).

Se a causa final do Ser em geral é o Sumo-Bem, a própria essência divina, por outro lado a causa final do ser em particular é o bem próprio da criatura limitada, que deve ser ao fim o objeto da sua escolha espiritual, isto é, o Paraíso, que chamo de Coruscância.

O Sumo-Bem é a felicidade de Deus em si mesmo. O Paraíso é a felicidade do Sumo-Bem de acordo com o limite que define a minha forma substancial, ou seja, é todo o bem que me completa de modo total.

Assim seria razoável supor que as pessoas desejassem obter o mais rápido possível os lucros das três virtudes teologais do esquema Kiku, e então viver a felicidade equivalente a da Noiva que confia e espera (Fé e Esperança), mas sobretudo porque ama a vida que é possível acima desta vida presente, sabe porque a ama, e sabe porque a quer para sempre (Amor). A rotina de quem atingisse esse nível de simplicidade espiritual seria portanto a de experimentar em tempo real a obra divina de Separação (Santificação) pela atuação do dom do Discernimento que entende as coisas que são divinas e as distingue das que não são. Essa seria a melhor condição de dar e receber testemunho, e de repouso na Providência divina.

Porém, é inegável que a maior parte das pessoas luta ainda, e talvez o faça pelo resto de suas vidas, para vencer os desafios dos primeiros conceitos sinóticos introdutórios à liberação do Escolhido, o Paraíso, ou Coruscância. Em suma: a maioria das pessoas não aceita seriamente a hipótese do Paraíso.

Convém investigarmos quais são, portanto, as negações daqueles conceitos introdutórios, para que ao menos possa ficar claro qual é o desafio espiritual que deve ser vencido para que possamos nos deleitar com toda a potência da Graça divina.

Montei esta tabela para facilitar esta reflexão e responder a pergunta: afinal, por que uma pessoa não crê e não deseja o Paraíso?

CONCEITO SINÓTICONEGAÇÃOEXPRESSÃO DA NEGAÇÃO
Condição do Escolhido (Sumo-Bem)Idolatrias do Nada, Caos, Natureza ou HomemDeus não é bom, ou a bondade de Deus não tem forma particular para um Eu
Forma do Escolhido (Limite)Esoterismo Gnóstico, Lado Esquerdo da Dialética do Ouroboros, RevoluçãoO Limite não é bom, a única felicidade possível é a do Ser Absoluto, Infinito, Eterno
Condição da Escolha (Mistura)Exoterismo Gnóstico, Lado Direito da Dialética do Ouroboros, Tradição, ReligiãoA Mistura é boa como Lei Natural, só existe Bem se existir Mal, só existe Luz se existir Trevas, só existe Prazer se existir Dor, só existe Alegria se existir Sofrimento
Operação da Escolha (Arbitragem)Determinismo, Fatalismo, Astrologia, PsicologismoNão é possível uma criatura arbitrar livremente a sua definição espiritual, porque ela é condicionada pelas circunstâncias de modo determinante (o arbítrio não pode ser puro)

Leibniz: An Intellectual Biography, livro por Maria Rosa ANTOGNAZZA

Nascido em 1646 e morto em 1716, Leibniz foi grande, mas consumiu-se em projetos talvez grandiosos e otimimistas demais. A combinação de extraordinárias diligência, tenacidade, inteligência e positividade o levaram talvez mais longe do que o que seria prudente se ele fosse um pouco mais realista. Ele não quis sacrificar e comprometer duas coisas muito tentadoras para um intelecto do seu porte: a exploração das muitas possibilidades ramificadas de entendimento, e a qualidade do trabalho intelectual. Entre fazer pouco bem feito e fazer muito mal feito, ele quis fazer muito e bem feito, e por isso era comum que começasse mais coisas do que podia terminar.

Felizmente, para nós, ele não nasceu na nobreza alemã. Isso permitiu que ele fosse forçado a provar seu valor por mérito. Por temperamento, é fácil vê-lo perder-se com uma vida mais fácil: como mero diplomata e cortesão, fazendo as duas coisas que ele mais amava, acima até do trabalho intelectual, ou seja, viajar e visitar os amigos.

O contexto político e religioso de sua vida foi o das terríveis guerras de religião que assolaram a Europa até que o secularismo finalmente vencesse, isto é, até que o messianismo milenarista da Igreja Católica fosse forçado a enclausurar-se dentro dos muros do Vaticano. Leibniz trabalhou muito para que a Europa vivesse em paz, como advogado, jurista, inventor, cientista, diplomata informal, ministro sem pasta e finalmente como filósofo de primeiro calibre.

A respeito do poder intelectual de Leibniz, até hoje posso afirmar: não encontrei uma inteligência superior a dele ou à de Aristóteles na forma do testemunho de suas obras.

A biografia desse filósofo mostra como intelectos de uma certa potência não cabem direito dentro das estruturas sociais. Provavelmente a maior vantagem de Leibniz foi a de explorar o seu autodidatismo desde cedo, principalmente com a descoberta da biblioteca do pai aos 8 anos de idade, ainda em Leipzig, por influência do incentivo de um desconhecido que recomendou a abertura do acesso à criança, que tinha então seus 8 ou 9 anos de idade. Uma inteligência superior ganha muito com a possibilidade de ensinar-se a si mesma os assuntos que lhe interessam, pois não precisa passar pelo gargalo de aprender com mentes mais lentas ou menos capazes: pode logo dirigir-se aos melhores testemunhos que seria capaz de absorver, e no limite da velocidade de sua capacidade. Até hoje a maneira correta de incentivar esses intelectos superiores parece ser dificultosa, e esses raros indivíduos acabam por ter que descobrir por si mesmos como lidar da melhor forma com seus dons. os sistemas coletivos são feitos para a média, isto é, para o medíocre, e por isso mesmo essa realidade social se torna opressiva e torturante para as inteligências mais capazes. A Providência, porém, não deixou de guiar Leibniz desde cedo, começando pela intervenção desse misterioso desconhecido.

Para além das particularidades mais imediatas da vida intelectual do jovem Leibniz, há a força maior da influência dos esquemas políticos e sociais do seu ambiente que acabaram por contribuir na formação de seu pensamento. O ideal da Unidade da Verdade foi um dos frutos dessa força: é o princípio por trás da idéia do Sacro Império Romano, a unidade do Cristianismo (entre Católicos e Protestantes), e também o da unidade da Filosofia (Antigos e Modernos), para não falar da unidade entre Ciência e Teologia. Leibniz estava, como disse Olavo em sua História Essencial da Filosofia, “no olho do furacão”. Ele aprende com os antigos e escolásticos medievais tanto quanto com todos os modernos filósofos e cientistas do Iluminismo. Ele se recusa a acreditar numa verdade como posse de qualquer grupo filosófico, ou como parte de uma época da História, assim como crê que o Cristianismo universal transcende todas as igrejas, inclusive a romana. Este ponto de vista sempre foi uma grande vantagem intelectual para Leibniz, porque ele se permitia aprender com todo mundo. Diante da perda de tempo dos sectarismos, ele largava sempre na frente.

O objetivo de Leibniz em sua vida ficou claro desde cedo: glorificar a Deus e melhorar a condição da vida humana, dois propósitos que para ele significavam sempre a mesma coisa. Este seu progressismo fazia e faz sentido até hoje, pelo menos na teoria, no sentido de que quanto melhor viverem os seres humanos, mais estariam livres e dispostos para reconhecer as coisas divinas. Na realidade, porém, ocorre uma dispersão muito maior da atenção humana com suas vantagens técnicas e econômicas, o que parece ter escapado de Leibniz, que não era muito ligado ao sentido mais místico e contemplativo da vida espiritual. Era um homem de ação, e ambicioso. E não nos enganemos, com isso ele também desejava obter a sua própria glória científica, num espírito até certo ponto benéfico de uma boa ambição temporal. No aspecto mais decadente de sua alma, Leibniz podia se perder indefinidamente com a rotina de um diletante, cortesão e viajante. Observamos essa luta na sua alma, entre a produtividade intelectual e o dolce far niente.

Vamos agora ler algumas passagens interessantes da obra:

Tradução livre:

Em sua obra Formação das Reflexões para o estabelecimento de uma Academia ou Sociedade na Alemanha para a Promoção das Artes e Ciências Leibniz revelou o mais profundo fundamento desse projeto de teologia, metafísica e ética. Em suma, o avanço da ciência seria feito para a glória de Deus, o que coincidia com o bem comum. O avanço do nosso conhecimento da natureza aumentava nossa consciência da harmonia universal em operação na natureza e celebrava o reflexo na natureza da perfeita harmonia do poder, sabedoria, e amor na própria natureza divina. Nossa consciência da perfeita harmonia da natureza divina por sua vez sustentaria nosso amor a Deus; e o amor a Deus constituiria nosso maior bem. Por essa razão, ‘amar a Deus sobre todas as coisas’ é ‘nada mais que amar o bem comum [amare bonum publicum] e a harmonia universal’. Esse amor deve assumir a forma de uma atividade prática: deve ser um ‘amor eficaz’ (caritas efficax) que é encontrado na realização de ‘boas obras’ (bona opera). Realizado neste espírito, o avanço da ciência celebrava o poder de Deus, sua sabedoria e seu amor, não apenas através de uma contemplação teorética da beleza da Sua criação, mas também através da aplicação prática do conhecimento para promover o bem comum. Até o fim de sua vida, escrevendo em 16 de Janeiro de 1712 para o chanceler russo, Gavriil Ivanovic Golovkin, Leibniz resumiu esses compromissos de vida, declarando que desde sua juventude ele quis contribuir para a glória de Deus através do avanço das ciências.

Vejamos parte a parte.

Primeiramente, a glorificação de Deus coincide com a promoção do bem comum? Apenas acidentalmente. Aqui Leibniz confundiu a Cidade de Deus com a Cidade dos Homens, algo ainda bem possível no bojo de uma vasta influência remanescente da ideologia católica, milenar, messiânica e totalitária, herdada por sua vez do judaísmo. A Salvação não é a instauração do Reino de Deus na Terra, mas é a Ressurreição. A visão espiritual de Leibniz é religiosa. Mas isto não quer dizer que acidentalmente não possamos enxergar no progresso humano a habilitação prática de uma humanidade com a potência do desenvolvimento espiritual. Mas isto é indireto. O avanço técnico, prático, econômico e social leva a uma maior liberdade individual, e isto sim pode, em tese, melhorar a condição para o exercício mais pleno da vida espiritual.

Em segundo lugar, a ampliação do nosso conhecimento da natureza amplia o conhecimento da harmonia divina da realidade? De novo, apenas acidentalmente. Parece que o nosso filósofo está medindo a humanidade com sua régua. Claramente, como já vemos na Bíblia em diversas partes, e mesmo na denúncia específica do Apóstolo Paulo, há aqueles condenáveis por possuírem a ciência da obra e mesmo assim ignorarem o seu Criador. Para a inteligência de Leibniz a necessidade de honrar a Deus mediante a observação do ordenamento divino da realidade é um processo natural e inegável. Mas isto é ingenuidade, aquela mesma ingenuidade das Filhas do Rio que não acreditavam que alguém seria estúpido o suficiente a ponto de amaldiçoar o Amor para roubar o Ouro do Reno. É um otimismo exagerado, que não quer enxergar a profundidade da traição humana contra Deus, e o costume derivado dessa traição no seio da cultura, inclusive e principalmente a cultura religiosa. Isso me faz simpatizar muito com ele.

Já sobre a questão do valor do valor prático dos conhecimentos em contraste com uma atividade mais contemplativa, isso refletia o temperamento de Leibniz, mais ativo e sanguíneo, o que o dispensava de compreender com profundidade o valor de uma vida interior menos envolvida com o progresso da civilização. Isto não quer dizer que Leibniz não estivesse enganado em seu otimismo ingênuo com relação à idéia da Humanidade como um todo. Era um dos piores defeitos de sua weltanschauung.

Outro trecho:

Tradução livre:

Essa exortação da nação alemã não estava dirigida a promover um nacionalismo estreito. Evidência de um desígnio muito mais abrangente está contida num texto memorável escrito por volta de 1669 em que Leibniz concebeu na Societas Philadelphica o objetivo proposto que era o de ‘promover a utilidade para a humanidade (acima de tudo através da medicina)’. Perseguindo este objetivo, o trabalho colaborativo de uma sociedade traria infinitamente mais frutos do que os esforços de indivíduos ou até mesmo de nações individuais, que Leibniz comparava a ‘arena sine calce’ (‘areia sem cal’). Essa sociedade deveria abarcar divisões religiosas e políticas, abarcando o Imperador e o Papa, o Rei da França, os grandes e pequenos principados alemães, a inglesa Royal Society, a Companhia Holandesa das Índias Orientais, e as ordens religiosas de estudos. A Sociedade de Jesus em particular provia um modelo para uma sociedade internacional, com a diferença crucial de que a nova fundação proposta por Leibniz não teria natureza confessional. Ao contrário, era modelada para preparar a reconciliação das Igrejas cristãs de acordo com uma idéia mais desenvolvida num texto do mesmo período que descrevia a Societas Confessionum Conciliatrix.”

Essa é uma espécie de síntese da ingenuidade leibniziana, na total ignorância do sentido e da repercussão histórica de Gen 3, do sentido do humanismo da Torre de Babel, bem como do sentido do Apocalipse, e de Deus que fará novas “todas as coisas”.

Esta biografia de Leibniz coteja os pensamentos do filósofo com as circunstâncias de seu trabalho intelectual, como é sempre devido para mostrar a realidade de qualquer pensador. A importância das conexões de Leibniz com seus patronos nunca pode ser diminuída.

Por exemplo, numa dada época, com as mortes do Barão von Schönberg (diplomata da Saxônia, morto em 1669) e depois Boineburg (conselheiro do Eleitor de Mainz, morto em 1672), Leibniz subitamente perde seus principais apoiadores.

Leibniz não consegue estar onde quer, e nem fazer o que quer. Nem Paris, nem Londres: a corte de Hanover é o destino de um alemão sem origem nobre. Por outro lado, a mistura das ambições puramente teoréticas, especialmente as filosóficas, com as mais mundanas, políticas e econômicas, certamente diminuíram a contribuição leibniziana para a Humanidade, o que é irônico porque gerou o resultado exatamente oposto ao desejado pelo filósofo. A escala do gênio de Leibniz possivelmente escapou a ele próprio. Querendo ser grande em seu tempo, não percebeu como poderia e que seria grande para todos os tempos. Mas entendemos o ser humano na sua circunstância: Leibniz sempre precisava trabalhar no desenvolvimento de meios de sustentação de seus projetos intelectuais, e esses meios eram essas ocupações intelectuais secundárias. Mas até que ponto o dinheiro servia apenas às causas puramente intelectuais, e a partir de que ponto servia também aos interesses particulares do próprio Leibniz? Em seu auge, sua renda alcançava o que hoje equivaleria a uns R$ 2,5 milhões por ano, e ao morrer ele teria deixado ao menos o dobro disso para seu único herdeiro, um sobrinho. E que fique claro: o problema não é a renda ou a propriedade de qualquer montante, mas o custo existencial para a formação dessas rendas e propriedades.

A forma mais concreta do seu comprometimento foi a ambição de financiar um projeto coletivo de progresso científico e cultural, o que o fez dedicar muito tempo para o problema do aumento das rendas do principado de Hanover, especialmente com os projetos ligados à mineração de prata em Harz, e depois finalmente da ambiciosa pesquisa histórica da dinastia da Casa Braunschweig-Lüneburg (Guelfos). Muito tempo e energia foram dedicados a essa ambição de ganhos financeiros como meios para alimentar a outra ambição, a de institucionalizar um organismo estatal de pesquisa e desenvolvimento. Qual teria sido o resultado, por exemplo, para a Metafísica, se Leibniz tivesse dedicado toda a sua capacidade para esse âmbito específico do conhecimento?

Mas Leibniz não é Descartes, nem Kant, e nem Espinosa: ele não queria apenas explorar sua própria alma e as verdades transcendentes, mas queria explorar todo o mundo concreto, viajar, travar conhecimentos com os poderes estabelecidos, interferir no curso da história, etc. Não queria aumentar seu entendimento individual. Queria que todos o acompanhassem, como um projeto coletivo, social, nacional e até internacional para toda a Cristandade (para não dizer o mundo, como mostra o seu entusiasmo com a China). Isso certamente diminuiu a eficiência de seus projetos. Leibniz colecionou muitas frustrações, mas curiosamente nada parecia desanimá-lo. Era muito enérgico e disposto, com uma capacidade aparentemente inesgotável de se dedicar ao trabalho.

Vejamos outro trecho:

Tradução livre: “Durante todo este período, debaixo do nível visível e impressionante das várias atividades públicas de Leibniz, um nível mais privado provia as motivações profundas de seus projetos orientados para a prática, e de sua busca por um patronato esclarecido. Essa dimensão mais profunda consistia de seu plano enciclopédico de máxima abrangência de reforma e avanço das ciências para a promoção do bem comum –o plano que ele considerava ser a celebração da glória de Deus como expressa na harmonia universal que governa a Sua criação. Como ele escreveu em 1678, ‘todas essas coisas estão conectadas e devem ser dirigidas ao mesmo objetivo, que é a glória de Deus e o avanço do bem comum através de criações úteis e belas descobertas’. E de novo em 1699: ‘Contribuir para o bem comum e para a glória de Deus é a mesma coisa. Parece que o objetivo de toda a humanidade deveria ser acima de tudo nada além do conhecimento e desenvolvimento das maravilhas de Deus, e foi por isso que Deus deu à humanidade o domínio sobre este globo.”

Leibniz claramente ignora o sentido espiritual da última tentação de Cristo, bem como a declaração de Jesus de que ele “venceu o mundo”, para não falar de muitas outras verdades evangélicas óbvias. Isso não diminui o valor parcial de seu entendimento, de que o bem comum serve a Deus de algum modo, mas esse tipo de progresso não altera a condição da liberdade espiritual humana, e nem modifica a predisposição das almas para suas escolhas particulares.

Não devemos nos enganar sobre a visão de Leibniz sobre o Evangelho: ela é religiosa. Não há a menor chance de este filósofo considerar o sentido mais profundo da Queda em Gen 3, nem a possibilidade do Sistema da Besta. Infelizmente o seu otimismo não tinha apenas aplicações metafísicas, que incentivariam o idealismo transcendental, mas também repercussões históricas em vastos planos para a Cidade dos Homens, que incentivam o idealismo imanentista, o que converte esse seu otimismo filosófico em ingenuidade espiritual. Ainda que mantivesse sua confissão luterana, seu coração era ideologicamente católico, no sentido da universalidade da Civitas Dei na sua forma temporal (a própria Igreja institucionalmente estabelecida ao lado do Sacro Império Romano), e na verdade na idéia da fusão das suas cidades. Ele só não se converteu à religião de Roma porque fazê-lo implicaria em renunciar à esperança do ecumenismo, e porque no fim sabia de algum modo, como veremos, que a igreja romana era totalitária e contrária a liberdade do homem. Do ponto de vista prático, por que ele se preocuparia em modificar sua confissão, se essa particularidade fosse espiritualmente indiferente diante de Deus? E motivos práticos para sua conversão não faltavam, por certo. No seio do Sacro Império Romano, servia a tantos católicos proeminentes, que só poderia ter vantagens: Schönberg, Boineburg, Johann Friedrich, etc., para não falar de seu interesse em fazer boa imagem na poderosa França católica de Luís XIV, bem como na grande Viena de Leopoldo I. Realmente podemos constatar a fidelidade de Leibniz ao ideal se suas Demonstrationes Catholicae. Um homem menos honrado teria abandonado o luteranismo.

Mais um trecho:

Tradução livre:

Essa concepção da verdade e do conhecimento como envolvendo uma redução analítica de proposições e conceitos complexos à proposições idênticas e conceitos primitivos explica porque Leibniz perseguiu tão energicamente a identificação dos conceitos primitivos das quais todas as verdades são formadas em última análise. Daí a sua incansável compilação de listas de tais conceitos e de cadeias de definições que eram dedicadas para formar o ‘alfabeto do pensamento humano’ defendido desde pelo menos 1668 na Dissertatio de Arte Combinatoria.

A identificação desses conceitos era também um passo na direção do desenvolvimento da characteristica universalis. Tão logo esses conceitos (ou pelo menos o máximo possível deles) fossem encontrados, as tarefas subsequentes seriam a identificação dos ‘caracteres’, ‘signos’ ou ‘símbolos’ apropriados para representá-los e a formulação das regras para a sua correta ‘combinação’. O desenvolvimento da characteristica universalis tinha portanto tanto um aspecto analítico (levando à identificação dos conceitos primitivos) quanto um aspecto sintético e ‘combinatorial’.”

A apreciação desta intenção filosófica de Leibniz é clara para quem quer que tenha trabalhado com a descrição de uma visão universal da realidade, ou seja, com uma Filosofia no sentido mais estrito. A combinação da clareza com a simplificação até o limite é uma obsessão natural e inescapável de quem deseja contemplar o Ser com a máxima fidelidade, bem como a produção de uma linguagem cada vez mais apropriada a essa visão é uma busca igualmente incontornável.

O que deve parecer óbvio a quem quer que seja é que a ambição intelectual de Leibniz só poderia ser realizada através de um imenso aparato coletivo, o que justifica a sua busca incessante por um patronato rico e poderoso, um grande principado esclarecido. Mas Leibniz possivelmente ignorava que a qualidade de tal trabalho exigiria algo ainda mais difícil que um patrocinador poderoso: intelectos abrangentes como o dele próprio. Afinal, a Europa de então tinha fortes candidatos a essa função de patronato, seja o Rei da França, o Rei da Inglaterra, o Rei da Prússia, ou mesmo o Czar. Mas quantos Leibniz existiam nessa mesma Europa?

Outro trecho:

Tradução livre:

Apenas Deus –que (como ensina a tradição) não precisa da razão discursiva ou demonstrativa típica de seres limitados, mas que sabe tudo por um conhecimento intuitivo adequado– vê imediatamente a contenção do predicado no sujeito em todos os tipos de proposições, inclusive as contingentes:

E aqui se descobre a diferença escondida entre verdades necessárias e contingentes, o que não é fácil de entender para quem não entende ao menos os rudimentos da matemática. Em proposições necessárias, é claro, qualquer um alcança uma equação idêntica pelo meio da análise continuada até certo ponto; e isso é precisamente o que significa demonstrar a verdade com rigor geométrico. Nas proposições contingentes, porém, a análise procede infinitamente [in infinitum], através de razões de razões [per rationes rationum], de maneira que nunca há uma demonstração total; ainda assim, a razão [ratio] da verdade sempre subsiste, ainda que só possa ser conhecida perfeitamente apenas por Deus, que sozinho pode percorrer a série infinita numa intuição singular.’

Essa doutrina da análise infinita marcou um desenvolvimento chave no pensamento de Leibniz. Embora, por um lado, ela foi introduzida para dar conta da distinção entre verdades necessárias e contingentes, por outro lado, ela apontava para a sua identidade estrutural. No caso de ambas as verdades, necessárias e contingentes, o predicado está contido no sujeito, mas enquanto a demonstração dessa contenção está disponível para nós apenas no caso das verdades necessárias, tal demonstração não é possível no caso das verdades contingentes desde que elas envolvem o infinito. Este é o motivo pelo qual seres humanos nunca poderão conceber o conceito completo correspondente a uma substância individual, e porque o adequado conhecimento de substâncias individuais está disponível apenas para a mente infinita de Deus.”

A contenção do predicado no sujeito corresponde à operação intelectual, na Mônada, da Percepção do reflexo de si mesma. Leibniz já estava na pista de uma metafísica muito mais avançada do que a sua época podia conceber, ou mesmo que até hoje se possa. Mas o componente moral dessa inteligência continua oculto: o da premissa de que o Intelecto infinito possuidor da intuição da Unidade é bom e, portanto, confiável. Essa não era a investigação de Leibniz, porque a teologia revelada da sua época deveria pressupor tal virtude como premissa, mas é nossa obrigação observar como uma coisa não funciona sem a outra, ou ainda, como pensaria Sócrates: sem virtude não existe conhecimento.

A seguir, vejamos mais um trecho relevante:

Não poderei traduzir este trecho completo, mas o deixo à disposição para consulta. A linguagem diádica, ou binária, que Leibniz desenvolveu nada mais significou do que a recuperação daquela antiga investigação iniciada no Ocidente por Pitágoras, e então continuada por Parmênides, Platão e Plotino, da relação entre o Uno e o Múltiplo. Segue a tradução livre das partes mais importantes do trecho acima, palavras do próprio Leibniz:

Pode bem ser que uma única coisa é concebida através de si mesma, nomeadamente o próprio Deus, ao lado da qual não há nada, ou a privação. Isto é esclarecido por um admirável símile. Quanto contamos, nós geralmente usamos o sistema decimal, de modo que quando chegamos a dez, nós reiniciamos à partir da unidade. Que isso é conveniente, eu não disputo agora; enquanto isso, eu vou mostrar que é possível usar em seu lugar um sistema binário… Não tocarei agora nas imensas vantagens desse sistema; é o suficiente notar de que modo maravilhoso todos os números são expressos assim através da unidade e do nada.”

Desde que todos os espíritos são unidades, poder-se-ia dizer que Deus é a unidade primordial expressa por todas as outras de acordo com suas capacidades. Sua bondade o moveu a agir, e há nele três primícias, o poder, o conhecimento, e a vontade; disso resulta a operação ou a criatura, que é variada de acordo com diferentes combinações da unidade com o zero, isto é, do positivo com o privativo, desde que o privativo não é nada além de um limite, e há limites por toda a parte na criatura tanto quanto há pontos por toda a linha.”

A privação de Ser não o possui, mas o limita na forma substancial da operação da Mônada criada que intelige e apetece parcialmente a totalidade da Unidade. Toda operação intelectual e volitiva fora do ser divino se dá pelo limite em face do Ser divino, tanto quanto o Múltiplo deriva do Uno, etc. Isso não é exatamente uma novidade, e Leibniz sabia disso, mas a novidade vem da intuição de uma nova metafísica mais radical que continue a depuração iniciada desde os primeiros antigos, até as últimas consequências. Em suma, além de contribuir com pesquisas científicas e tecnológicas com a sua intuição da linguagem binária, Leibniz faz a ponte da pesquisa da relação entre o Uno e o Múltiplo de modo que essa intuição filosófica atravesse as mutações da histórias e possa alcançar o tempo moderno.

Vejamos mais um trecho:

Aqui o que importa é a expressão de Leibniz em resposta ao trabalho de John Locke: “não há nada no intelecto que não estivesse antes nos sentidos, exceto pelo próprio intelecto“. É uma correção educada da estupidez de uma filosofia materialista, assim como depois ele corrigiria Berkeley ao afirmar que o corpo pode não existir como substancial por si mesmo, mas não deixa de existir como objeto da nossa percepção, o que é suficiente para que exista de algum modo, algo óbvio. Percebe-se assim como Leibniz estava filosoficamente posicionado como um adulto no meio de crianças, tentando ensinar a ler, escrever, pensar, etc. Mas talvez o seu primeiro aluno realmente capaz viria só com Kant.

Vejamos mais um trecho:

Aqui o que interessa é a sua idéia de “propagação da fé através da ciência”, um eco moderno da idéia medieval da philosophia ancilla theologiae. Nesse contexto, traduzindo o trecho final, para este plano “o diádico em particular oferece seu simbolismo da criação ex nihilo e sua poderosa conexão com a metafísica das mônadas ou ‘unidades reais‘”. Estou convencidíssimo disso, especialmente do potencial que a hipótese monádica oferece para destruir racionalmente todo tipo de idolatria. Nesse sentido, essa metafísica da Mônada é como a tradução filosófica do conteúdo espiritual do Primeiro Mandamento.

E vejam que todo o desenvolvimento desse potencial da linguagem binária se dava no contexto de uma abrangente reflexão matemática diante da qual a chamada “guerra do cálculo” com Newton não era mais do que uma nota de rodapé irritante.

Para além do que pude observar num livro anterior sobre o tema da disputa sobre a invenção do Cálculo, parece que a polêmica foi mais alimentada pela ação dos do lado de Dover do que do lado de Calais. Leibniz simplesmente tinha mais o que fazer. Esta pode ser a diferença decisiva: Newton parece se ocupar trabalhando para a glória de Newton, enquanto Leibniz parece se ocupar no trabalho para a glória de Deus. É verdade que o alemão já repousava na fama de ter inventado o Cálculo, mas ele aceitava a autoria paralela de Newton. Este último é que não podia aceitar não ter a precedência. Se há vaidades dos dois lados, convém compreender quem foi vaidoso primeiro. E, se da parte de Newton seria tão importante a prioridade temporal, por que raios ele não publicou seu estudo completo antes do alemão?

Vejamos, por fim, mais um trecho do livro:

Tradução livre:

Leibniz escreveu uma longa carta para Bouvet na qual ele incluiu uma exposição detalhada da sua aritmética binária, apresentada como uma ‘admirável representação da Criação’ porque ‘seguindo este método todos os números são expressos pela mistura da unidade com o zero, mais ou menos como todas as criaturas provém apenas de Deus e do nada.’ Bouvet respondeu de Pequim em 4 de Novembro de 1701, anunciando para Leibniz a descoberta de uma fantástica analogia entre o diádico e os hexagramas do I Ching, onde o zero era representado pela linha dividida e o um pela linha contínua. Na carta Bouvet incluiu uma representação da assim chamada ordem Fuxi dos hexagramas mostrando a correspondência entre o I Ching, a notação binária de Leibniz, e a notação decimal de zero a sessenta e três.”

Essa passagem mostra o alcance da visão leibniziana que fazia uma antecipação simbólica do potencial filosófico da interpretação do I Ching, algo que significa apenas que ele estava de fato buscando a universalidade da verdade. Ele não se importava de conversar com católicos (jesuítas) para descobrir sabedorias chinesas, e nem de colaborar com eles dando testemunho de suas próprias intuições. Imagine-se o maravilhamento de Leibniz ao descobrir que na China havia um simbolismo que antecipava o seu antigo ideal filosófico-linguístico da characteristica universalis?

Seguindo para o fim, convém declarar a importância das duas Sofias na vida de Leibniz, a Sofia Princesa Eleitora de Hanôver, e a Sofia Charlote, Rainha da Prússia. É no mínimo curioso um filósofo ser tão amado por duas Sofias importantes em sua vida, mas mais do que isso, a importância delas mostra a dependência de qualquer filósofo, mesmo um Leibniz, de circunstâncias favoráveis. Isso nos mostra o valor das mulheres como realizadoras: ele inventava, elas incentivavam, apoiavam etc. É bem possível que não veríamos a obra de Leibniz ter sucesso sem a presença dessas duas mulheres, que o instigavam, que se correspondiam tanto com ele, etc.

É notável a preocupação de Leibniz, em paralelo com o projeto ecumênico de reconciliação entre as igrejas europeias, com a garantia do futuro de uma Europa protestante. Especialmente no que toca à manutenção da liberdade de pensamento. Ele viu muitos refugiados, pensadores e cientistas, escapando das católicas Espanha e França para as protestantes Inglaterra, Holanda e Alemanha, pessoas que sem essa possibilidade de asilo estariam fadadas à censura, ou a coisa ainda pior. Sua atitude conciliatória com a Igreja Católica vinha de seu temperamento apaziguador, de sua mentalidade pacifista, e de seu talento diplomático, e não de uma admiração pelo sistema de Roma. É difícil, nos nossos tempos, entender o que era o poder tirânico da opressão religiosa ainda naquela época. Já somos usufrutuários por séculos de uma liberdade que nunca foi (e continua não sendo) garantida. Sobretudo os católicos de hoje parecem ser muito ingênuos ou simplesmente ignorantes do histórico da sua mater et magistra.

Por fim, mesmo com alguma noção prática dos problemas religiosos, Leibniz ainda falhou na sua ingenuidade de não reconhecer a realidade da religião como pura fonte de poder: não há interesse de conciliação entre os que ambicionam não a paz e a verdade, mas o domínio dos seres humanos. Se uma religião pode ser tão boa quanto a outra, os seguidores podem mudar de religião, e isso é um enorme risco econômico e político para aqueles que lucram com o status quo. À uma fragilidade humana que é a decadência moral natural e a carência por um poder estruturante corresponde esse sistema religioso que lucra com a maldade.

Leibniz não foi um servidor voluntário, mas foi um servidor ingênuo do Sistema da Besta, o que torna sua parte aproveitável muito benéfica para o propósito da glorificação de Deus e benefício da condição humana, que foi o objetivo declarado de seu trabalho. Neste sentido, foi mais bem-sucedido do que talvez imaginasse, e de modos misteriosos, o que nos faz agradecer a Deus por sua vida.

Nota espiritual: 5,0 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo5
Nota Final5,0

As Três Marias: a Virgem, a Prostituta e a Esposa e Mãe

Um tema recorrente volta à minha mente nestes dias, e evidencio essa repetição quando penso, por exemplo, em fazer análises e comentários a certos filmes e séries que assisti recentemente (O Iluminado, Drácula de Bram Stoker, e White Lotus): o tema da inocência da mulher, e do dever espiritual do homem.

Quem me conhece sabe que não costumo ligar muito para a temática do gênero, ou pelo menos não costumava até receber algumas influências, como da filosofia de Weininger.

Mas a própria Bíblia nos chama a uma reflexão sobre essa diferenciação naquela importantíssima passagem de Gênesis, Capítulo 3, quando a Maldição é distinta aos praticantes da traição contra o Amor divino. A mulher, particularmente, é condenada às dores do parto, e mais, “teu desejo te impelirá ao teu marido, e ele te dominará“.

Isto quer dizer que o domínio do homem sobre a mulher não é natural, ao menos não no sentido da realidade preternatural do Éden, no Paraíso inicialmente designado por Deus. Esta relação de domínio já é determinada por uma situação de decaimento espiritual, como consequência da rebelião contra Deus.

E assim como o homem desde Adão tinha a responsabilidade de servir como testemunha da Redenção, ele continuará sendo o responsável por isso até o Fim do Mundo.

Estamos entrando na Semana Santa, e assim nos convém lembrar do seguinte: com a exceção do discípulo amado, o jovem João, quem ficou com Jesus até a morte? Quem alcançou esse grau de fidelidade? Foram as mulheres, especialmente as Três Marias: a sua mãe, Maria Madalena, e Maria de Cléofas.

Qual é a mensagem por trás dessa realidade?

Quando recebe a oferta da verdadeira Redenção, aquela que Jesus ofereceu, qualquer mulher é capaz de ser fiel a Deus: tanto a Virgem, quanto a Prostituta, quanto a Esposa e Mãe. Esse é o nível da universalidade da Salvação, do poder do Amor divino, para todos os casos de desobediência e de envolvimento com as mentiras do Ouroboros.

Os grandes traidores, por outro lado, são todos homens, Adão, Judas, e o Anticristo, vilões com outros planos, incapazes de se render ao Amor divino.

Simbolicamente, a força ascendente, o Masculino, é freado e impedido de completar seu curso pela força descendente, o Feminino, que lhe seduz e prende abaixo. Esse objeto que gera a força descendente, porém, é sem forma própria, pois representa uma pura possibilidade. É Eva antes da Queda: pode ser irmã e amiga, tanto quanto esposa e mãe. A determinação da forma sedutora é gerada pela vontade masculina. Essa mesma vontade pode desejar a ascenção e a redenção, ou a traição e a decadência. A mulher acompanha a decisão masculina, e toma a forma produzida pelo idealismo do homem. É assim que o Ouroboros destrói o homem: ele faz este desejar a realização de seu poder de usurpação, e a falsa imortalidade das Obras da Carne. E a mulher é o objeto da realização desse poder, não porque possua essa forma, mas porque possui a característica passiva de aceitar qualquer forma idealizada por aquele a quem quer agradar, o homem. Isso se dá por razões metafísicas, porque para que a Liberdade seja real, é preciso que a possibilidade da rejeição do Amor divino seja real. Por isso essa qualidade indeterminada do Feminino serve para a realização da vontade do Masculino. A qualidade dessa relação entre os elementos ativo e passivo não alteram, porém, a integridade da liberdade tanto do homem quanto da mulher. A mulher continua livre e responsável, tanto quanto o homem, por sua própria decisão. Mas ela não é responsável por dar-se uma solução que só pode ser eminentemente idealizada pelo homem. Assim, Eva errou ao ouvir e crer na Serpente, mas ela não se deu essa falsa imagem da verdade. E na sua inocência ela poderia (e deveria) ter sido corrigida pelo testemunho redentor de Adão, se ele tivesse esse desejo. A partir da iniciativa do homem, de sua idealização, a mulher livremente escolhe assentir ou rejeitar, mas ela não cria por si mesma os elementos da sua decisão, que lhe são postos. Eva, culpada por ouvir e acreditar na Serpente, foi submetida à vontade do homem, mas este também foi culpado por ouvir e acreditar em sua mulher. As duas liberdades existem, mas a hierarquia das responsabilidades é clara.

Isso se confirma hoje mesmo, até depois das revoluções liberais dos costumes. O que faz afinal a feminista que quer se libertar de Gen 3? Ela apenas confirma a sua submissão espiritual, querendo ser como o homem, seguindo o seu guiamento moral em busca de emancipação, independência, poder, prestígio, etc. Ela está imitando o homem, está se guiando pelo exemplo dele. Ele quer poder? Ela quer poder. Ele quer fama? Ela quer fama. Ele quer prazer? Ela quer prazer. Ele quer dinheiro? Ela quer dinheiro.

E se ele quiser a santidade, ela também vai querer. Mas ele precisa querer antes.

A sedução da Serpente faz o homem desejar a emancipação do Amor divino e enxergar na mulher o objeto de realização do seu desejo.

O Hexagrama representa a prisão dos sexos pelo Ouroboros, e o Pentagrama representa a consumação da Queda, o antropoteísmo, a traição e a usurpação, especialmente na consecução do Pecado Original.

O homem é o responsável por realizar esse pacto com a Serpente, e por usar a mulher para a sua finalidade de traição e usurpação. Já apontei como até nos elementos da fecundação nós temos o simbolismo natural dessa relação de poder entre o homem e a mulher, comparando o sentido de vontade ativa representado pelo sêmen, e o sentido da receptividade passiva representado pelo óvulo.

Por mais que a mulher queira a sua liberdade, a Serpente a envolveu no Pacto Ouroboros de tal modo que sua luta é incessante e não tem fim até que o homem, o grande responsável por escolher a usurpação ou a redenção, se digne a mudar de idéia com relação às suas cobiças e ganâncias. Gerando filhos vítimas desse mesmo Pecado Original, as mulheres sofrem: querem seus filhos livres (a “linhagem” da mulher), e pisam a cabeça da Serpente, mas voltam a se submeter aos estúpidos falsos idealismos dos homens, seus pais, maridos e filhos (a “linhagem” da Serpente), e então a Serpente morde seus calcanhares. A linhagem da Serpente é a dos traidores e usurpadores, dos algozes do Pacto Ouroboros, e a linhagem da mulher é a das suas vítimas.

As Três Marias que ficam até o fim com Jesus mostram o que a mulher realmente quer: o testemunho da Salvação, da sua Redenção verdadeira.

Mas dignar-se-á o homem a dar o primeiro passo?

Libertar-se-á ele da sedução da Antiga Serpente, ouvindo o chamado de Jesus?