Os Intelectuais e a Sociedade, livro por Thomas SOWELL

No mundo de Sowell o ser humano vive sob uma condição trágica inescapável, diante da qual a solução mais responsável se dá através da observação da experiência e do costume, e da preservação da liberdade individual de atuação em defesa dos interesses próprios. É, assim, um autor conservador e liberal, uma combinação típica nos quadros da direita moderada.

Se nós estivéssemos presos a esta realidade que Sowell descreve, dificilmente haveria uma solução política e social melhor do que a que ele descreve.

Acontece que nós não estamos estamos presos, porque a perpetuidade dessa condição é fruto da volição humana.

Toda a discussão do mérito dos argumentos de Sowell, portanto, é posterior e, na verdade, desqualificada por esta questão prévia que sustenta a validade da sua posição: o ser humano vive, de fato, numa condição trágica?

Não posso, ao mesmo tempo, invalidar a premissa da visão trágica de Sowell, e aprovar a solução que ele propõe como corretas desde que esta mesma premissa fosse válida.

Toda a discussão econômica, seja do ponto de vista socialista ou liberal, gira em torno do fenômeno da Escassez. Esta, por sua vez, é gerada pela condição humana que combina recursos limitados com desejos ilimitados. Quando enxergamos a Escassez como um fato inescapável e incontornável, dirigimo-nos às respectivas soluções econômicas para esse problema humano. Porém, se a Escassez é produzida por uma condição arbitrada pela vontade humana, cabe àqueles que legitimam e aprovam a produção dessa condição o dever de solucionar o problema que foi produzido pela ação ou pelo aval do seu arbítrio.

É claro que, já dado o nosso nascimento nessa condição, convém organizarmos a sociedade e a economia do melhor modo, e a partir deste ponto podemos concordar indefinidamente com Sowell, bem como com qualquer outro pensador dos problemas sociais e econômicos, sobre quaisquer pontos que entendermos convenientes.

Mas essa discussão jamais deve superar a importância da premissa básica, que é a da discussão da responsabilidade humana pela perpetuação da condição que gera o fenômeno da Escassez.

Espiritualmente, pouco importa como decidimos carregar a nossa cruz na contingência desta vida limitada, se de um modo mais liberal ou socialista, mas importa muito entender como viemos parar nessa condição e, principalmente, saber que somos responsáveis pela continuidade ou pelo rompimento com o costume que gerou essa realidade, ou seja, o Pecado Original.

Quem quiser entender a prioridade desse entendimento da origem da condição humana na Maldição de Gênesis 3, leia a Introdução ao meu livro Monadofilia, especialmente onde explico como nós nos acostumamos, sendo criados em cativeiro, a entender como normais e legítimas as condições de Causalidade, Irreversibilidade e Escassez.

Onde o autor mais acerta, no contexto da sua lógica da visão trágica, é na observação de que toda concentração de poder gera mais corrupção e injustiça, bem como na constatação da assimetria entre o poder de influência dos intelectuais e a sua responsabilização profissional.

Outro acerto de Sowell é a denúncia da Presunção dos intelectuais de forma geral, pela sua incapacidade de reconhecer que há uma massa enorme de conhecimentos particulares distribuídos dentro de uma sociedade e que são totalmente ignorados pela intelligentsia.

É um livro aproveitável no contexto particular da sua discussão, mas preso na Dialética do Ouroboros desde uma perspectiva mais ampla. E diante disto eu lhes pergunto: que interesse temos em soluções particulares que constituem a continuidade de um problema geral muito maior?

O autor denuncia o empreendimento dos intelectuais ungidos contra a coesão, a unidade e a integração social. Talvez deseje solucionar o problema de Babel? Estaria Sowell ciente de que Deus mesmo instalou a discórdia para impedir a consecução dos planos dos Usurpadores? Estaria ele na posse do testemunho de Jesus que disse que não veio trazer a paz, mas a espada, e que os inimigos do homem estão na sua própria casa? Estaria Sowell lembrando da profecia apocalíptica que declara que a Grande Tribulação tem início justamente com a declaração de “paz e segurança”, ao que no entanto se seguirá uma “repentina destruição”? É claro que não. Sowell não dá o testemunho do amor a Deus em primeiro lugar, porque é um humanista. O homem em primeiro lugar, e Deus, se tem algum valor, só pode ser porque criou o homem, é claro.

Por que Sowell não admite o ônus da parte dos proponentes da bondade do status quo? O ser humano sendo um animal simbólico que busca o sentido, precisaria e poderia ser satisfeito na sua carência de significado pela demonstração do grande mérito dessa maravilhosa ordem social e histórica que Sowell defende.

O que vemos aqui é a manifestação de um dos lados da disputa na dinâmica da Dialética do Ouroboros: Sowell, tomando o lado do Behemoth, acusa a loucura do Leviathan. Tem suas razões, mas não tem razão. A vitória do seu argumento depende da restrição da visão de mundo fatalista que ele defende. Vencida essa escolha, que afinal de contas não passa de uma crença entre tantas outras, todo o seu empreendimento cai por terra.

Nota espiritual: 4,0 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,0

Metropolis, filme por Fritz LANG

Análise do título F0020, Metropolis, filme por Fritz LANG.

O filme começa facilitando a nossa vida com o seguinte Epigrama: “o mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!” A película terminará com um final feliz, repetindo a mesma idéia.

O coração, porém, é enganador e traiçoeiro, e pode nos fazer iludir e mentir para nós mesmos e para os outros. O amor, que é o desejo do bem, por outro lado, é infalível, desde que seja dirigido ao seu objeto mais adequado, isto é, a um Bem transcendente que só pode ser concebido idealmente na presente condição humana.

O filme não quer saber de nada disso, porém. O problema do ser humano é presente, mundano, temporal, terreno. Apesar disso, não nos engana muito com relação à qualidade dessa experiência. É um retrato fiel do Sistema da Besta e do Pacto Sadomasoquista, embora omita que esse mecanismo seja alimentado pela grande falta do povo, o Pecado Original.

Por exemplo, quem é Moloch, que recebe os sacrifícios das vidas humanas para a manutenção do sistema? É a máquina social, política e econômica? Não. É um operador do Ouroboros que depende diretamente da continuidade da Tradição Primordial. O sofrimento humano é congênito, ou melhor, herdado como condição adjacente à continuidade do costume.

O filme gosta de trabalhar simbolismos profundos, como o da imagem da Besta do Apocalipse que ganha vida, e que se torna a própria Grande Prostituta. Esta representaria, inicialmente, a vitória contra o Decreto de Gênesis 3. Mas esse homem-máquina, por fim, levará a humanidade à beira da destruição, culminando o processo mais ou menos natural da dialética histórica na luta de classes.

O herói, Freder, apaixona-se por Maria, a heroína que profetizará a vinda do Mediador (Mittler) para conciliar a Cabeça com as Mãos, isto é, a classe dos capitalistas com a classe dos trabalhadores. Ela conta o mito de uma Torre de Babel em que os homens se desentendem por conflitos de interesses (de classes), o que impede a consecução de um projeto de triunfo da humanidade. O lema dessa civilização é o de que “grande é o mundo e seu criador, e grande é o homem“. O verdadeiro Criador de todas as coisas não disputa lugar e nem qualidade com o que quer que seja. Logo, esse “criador” é na verdade o Usurpador, o Ouroboros.

O filme parece ter antecipado um tema que será muito comum na cultura cinematográfica mais tarde, que é a idéia do cancelamento do fim do mundo.

No fim o herói intermedia a cabeça e o coração, isto é, as partes da luta de classes. Isto pode representar a intelligentsia como um todo, inclusive e especialmente os artistas, que é o papel do Bispo no Sistema da Besta: normalizar e legitimar a Mistura.

É preciso nos aprofundarmos mais para explicar a qualidade espiritual de um roteiro que reconhece e embeleza o projeto da Torre de Babel?

Nota espiritual: 2,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção2
Presença/Idolatria1
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo2
Nota final2,4

Eutidemo, livro por PLATÃO

O diálogo cujo assunto é a erística, ou seja, a arte da discussão como fim em si mesmo, é aberto com a exibição da capacidade de jogar com palavras ignorando-se a verdade de seus sentidos particulares e qualificados, um expediente que obviamente não impressiona Sócrates, e na verdade só pode nos irritar, principalmente a reação de riso debochado e escarnecedor da plateia ao ver um amante de discussões perturbar a paz e “vencer” um amante da sabedoria. De todo modo esse tipo de ensino propunha tornar virtuosos os seus aprendizes, e Sócrates não deixa de querer investigar essa possibilidade.

Mas então, depois de algumas falas sem sentido da parte dos sofistas, Sócrates assume o comando da situação com sua própria proposta de exortação da virtude (a Filosofia, ou amor pela sabedoria), iniciando pela demonstração que acima de todos os bens mundanos, como a saúde, a riqueza, a beleza, etc., está a sabedoria, pois sem ela todos esses bens tornam-se potencialmente males, pelo seu mau uso, de modo que a sabedoria é o principal dos bens, já que permite ao ser humano o usufruto adequado de todos os demais. Essa concepção clássica é irrefutável enquanto ideal de conhecimento, mas é inviável enquanto realidade pela limitação constitutiva da sabedoria humana. É no limiar dessa fronteira que encontramos a distinção dos territórios de Sócrates e Platão, o primeiro mais satisfeito com a condição humana, e o segundo mais pretensioso em seu Gnosticismo.

Em seguida, porém, os sofistas Eutidemo e Dionisodoro continuam produzindo seus truques verbais no intuito de causar perplexidade e paralisia. Um adversário deles, Ctesipo, chega ao cúmulo da irritação, mas é apaziguado por Sócrates, que oferece a muito mais digna e sólida posição de se levar a sério o discurso alheio até o fim, uma deliberação que é na verdade invencível, embora seja muitas vezes difícil de se manter, se não se possuir a necessária frieza.

Até o fim deste diálogo parece que Sócrates apenas ironiza a suposta sabedoria dos adversários, mas há que se considerar uma outra possibilidade. Quando dizem grandes e óbvios absurdos, como que o conhecimento de uma coisa constituiria o conhecimento de todas (e desde sempre), bem como que a paternidade de um ser significaria a paternidade de todos, etc., a prática desconstrucionista dos sofistas não deixa de ser um reflexo dos limites da linguagem humana, e de todo discurso no fim das contas: não é possível produzir um testemunho completo a respeito de nada, porque as predicações e qualificações tenderiam ao infinito e nunca bastariam. Tanto a premissa quanto a conclusão de um argumento encontram-se numa realidade que transcende a linguagem necessariamente. A prática erística apenas evidencia que a comunicação humana é um jogo que depende da credulidade dos participantes, e embora evidencie isso com exemplos muito exagerados, nos dá o que pensar a respeito dos casos menos óbvios e mais sutis, sobre o quanto também não são efetivos com base na mesma lógica de crença numa suficiência que nunca é esgotada no discurso. Isto quer dizer que, mesmo que indiretamente, a erística favorece a recepção dos dons de Humildade e de Soberania.

Gnosiologicamente, compreendemos isso pelo limite da Percepção da mônada criada, determinada pela sua forma substancial. A linguagem humana, afinal de contas, repercute apenas parte do que é objeto de sua Percepção, mas esta própria experiência de perceber só realiza, de cada vez, uma ínfima parte daquilo que é possível de ser percebido, no infinito escopo da Possibilidade Universal. Assim sendo, apenas o Intelecto da Mônada Incriada possui em si a satisfação da plenitude da sua Percepção, enquanto a mônada criada, por seu turno, se realiza na satisfação determinada pela sua forma limitada de ser, em que cada Percepção é sempre parcial e finita, e só precisa atender também a uma Apetição igualmente parcial e finita. Filosoficamente, isso implica na admissão dos limites do conhecimento humano com espírito de contentamento e gratidão, o espírito exatamente contrário ao Gnosticismo luciferino. O objetivo da linguagem humana nunca deve ser o da Pretensão, isto é, o de desejar o domínio da verdade, já que aquilo que é verdadeiro o é tão mais quanto é divino, isto é, o quanto escape do nosso controle e nos transcenda. Há, na postura de Sócrates, em contraste com a de Platão, um aceite muito mais adequado a essa condição humana. E, bem tratado, sem preconceitos, o testemunho a respeito das provocações de Eutidemo e Dionisodoro, vemos que esses irresponsáveis acabam tendo sua função na desmoralização da falsa veracidade de alguns responsáveis, mais ou menos como desempenham seus papéis os bobos da côrte ao ridicularizar aqueles que não podem perder a pose de suas supostas seriedades.

Note-se que Platão, mesmo sendo tão empolgado com as perspectivas gnósticas da Filosofia, não deixa de ser fiel em seu testemunho, nos permitindo ligar pontos que ele talvez não pudesse, ou não quisesse ligar. Onde os sofistas parecem argumentar com a mesma lógica dos eleatas, há um rastro de investigação da Unidade do Ser e, portanto, da forma da mônada. Senão vejamos: quando afirmam que o conhecimento de uma coisa é o mesmo que o conhecimento de todas, não estão falando da Percepção potencial? Embora apenas em Deus a atualidade da Percepção seja total, ela não é virtualmente total também na mônada criada, que apenas passa de uma Percepção para a próxima, mas sempre o tendo podido fazer diversamente, ou seja, sempre tendo podido de fato conhecer qualquer coisa? Essa possibilidade não é simultânea? E mesmo não sendo conhecimento em ato, não é em potência? O conhecimento de uma coisa não implica, por definição, a potência de conhecer todas as demais? E essa potência não é imediata? Platão mesmo, de certo modo, não vai poder escapar disso mais tarde, quando apelar para a Reminiscência, já que o problema existe: como algo pode vir a ser conhecido, isto é, reconhecido na sua idéia ou forma, se antes não fosse conhecido de algum modo antes de maneira que permitisse o seu reconhecimento depois? Pois bem, esse antes e depois que separam, no tempo, as diversas Percepções da mônada criada nada mais são do que funções da realização do Intelecto limitado: não existe, de fato, separação na Unidade da própria Substância Simples. De modo que o Intelecto apenas reconhece na sua intuição aquilo que é sucessivamente percebido de forma distinta e múltipla, mas que possui substância unificada e singular. Dito de outro modo: apenas em Deus o Intelecto apreende a Unidade, porque é infinito. Nas criaturas, o Intelecto finito só pode apreender representações parciais do seu ser. O ser da mônada criada continua sendo a Unidade da Substância Simples, mas a Percepção é a da representação da sua Multiplicidade. É deste modo, então, que o conhecimento de uma coisa pode ser o conhecimento de todas, na possibilidade virtual do Intelecto, já que a Unidade do Ser contém, de maneira simultânea, todas as potências intuitivas. Se, obviamente, tanto a Apercepção humana quanto a linguagem do seu testemunho não podem produzir essa Unidade, isso não se dá por um defeito, mas por um limite. É claro que estes sofistas não quiseram dizer nada disso. Mas, brincando com as palavras, nos forçaram a reconhecer esses limites da linguagem humana não como defeitos, mas como realidades constitutivas, assim como os Céticos o farão no futuro. Porque o impulso na direção contrária, da Pretensão de um discurso terminativo com todas as distinções de todas as predicações possíveis, mostrar-se-á tão ou mais absurdo ainda quanto esta lógica erística. É nisso que vai dar o Gnosticismo filosófico: na crítica e finalmente na desistência da filosofia moderna contra a sabedoria medieval dos “contadores de fios de cabelo”, e dos “lenhadores da lógica”. Mesmo quando os sofistas afirmam, no Eutidemo, mais absurdamente ainda, que a paternidade de um significaria a paternidade de todos, todo o erro dessa proposição está contido na Pretensão da atribuição de veracidade a uma relação historicamente condicionada por uma causalidade particular. Sendo a paternidade contingente tão restrita e condicionada, com que direito o ser humano pode chamar isso de paternidade no sentido de uma verdade plena? Com nenhum direito. E se o pudesse, então as proposições dos sofistas teriam que ser admitidas, o que resultaria numa redução ao absurdo. Uma verdade parcial, temporalmente condicionada, causalmente contingenciada, não deixa de ser uma verdade, mas o é tanto quanto qualquer outra na vasta manifestação da Multiplicidade, isto é, não tem a força unificante da verdade apodíctica. Isso não é um detalhe filosófico. Na verdade é essencial e repercute a sabedoria do dom da Presença. Quando Jesus mesmo, pessoalmente, nos ensina a não chamar a ninguém de “pai”, mas apenas a Deus, ele está dizendo a mesma coisa: a paternidade no sentido verdadeiro e transcendente, só pode ser uma qualidade divina. E aí entendemos como a verdadeira paternidade é exatamente como a que estes sofistas do Eutidemo apregoam: o verdadeiro Pai é de tudo e de todos. É claro que eles não produziram essa consciência, e nem sequer uma Filosofia digna desse nome, e ficam restritos ao trabalho mais negativo, destruidor. Mas isso tem a sua função na história das idéias.

Por fim, mas não por último, encontramos um curioso testemunho do interlocutor original de Sócrates em Eutidemo, Críton, que pode ser bastante significativo para nós:

Críton percebe que a forma convencional que o seu desejo pelo bem dos filhos costuma tomar perde o sentido diante da atividade socrática, já que todo o bem que é mundanamente considerado se torna no mínimo relativo, ou mesmo fútil, diante da busca filosófica. Uma prova disso pode ser obtida com facilidade no próprio conteúdo do Eutidemo, quando Sócrates afirma que a Sabedoria é o maior dos bens, já que sem ela todos os outros se tornam inúteis. Críton entende, assim, que na busca do bem de seus filhos negligenciou a parte mais importante, que é a educação deles. Porém, quando se dirige àqueles seres humanos que se propõe a realizar a educação, principalmente no sentido do ensino da virtude, verifica que eles não são capazes de fazer o que prometem. Críton, enfim, não sabe como persuadir seu filho a ser filósofo.

A resposta de Sócrates é bem convencional: faça o melhor que pode, e fique alerta, mesmo contra os filósofos.

Mas podemos e devemos explorar o testemunho de Críton. Ele está perto de admitir que o maior bem para seus filhos seria que os estimulasse a buscarem a Sabedoria, ou seja, a serem filósofos. Porém, a verdadeira Filosofia não é uma atividade que confirmará as pretensões iniciais do próprio Críton: não servirá para validar a razão das instituições do casamento, da paternidade, do comércio, da guerra, ou da educação cívica (política). Isso é o que o transtorna. Para amar verdadeiramente seus filhos, Críton teria que os ver completamente livres e desimpedidos para perseguir a Sabedoria que transcende todas essas instituições e costumes que parecem concentrar os bens humanos, mas que no fim são parciais ou até mesmo falsos. Ora, para fazer isso, Críton teria que ser capaz de um ato extremamente liberal e altruísta, bem difícil: o de estimular seu filho a buscar um bem que transcende os falsos bens nos quais ele mesmo acreditou até a véspera.

Amar o próximo, inclusive um filho, é desejar, afinal, a liberdade deste inclusive contra o próprio interesse paterno, quando for descabido. Amar é desejar a liberdade do amado.

Nota espiritual: 5,7 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,7

Napoleão, filme por Ridley SCOTT

O homem não pode salvar a si próprio.

Os revolucionários são iguais à nobreza, na sua essência humana, divergindo apenas no lado que ocupam na Dialética Histórica.

A função da Revolução é apenas a de mudar o Poder das mãos de um grupo para o outro, produzindo a imagem da mudança, mas apenas com o intuito de não mudar realmente a continuidade da história do Pacto Ouroboros.

Ordem, dissolução, estabilização, e uma nova ordem.

Sal velho, mercúrio, enxofre, e um novo cristal.

Não há nada de novo sob o sol. Napoleão foi apenas um escolhido para liderar parte desse processo histórico, e apenas por um breve período.

Neste sentido o filme Napoleão mostra, em contraste com a grandeza histórica do ponto de vista humanista, a pequenez do fenômeno real, mas isso não é oferecido claramente, é uma oportunidade só para quem a busca.

Por si, no máximo o filme continua a dar a impressão de importância e valor àquilo que não tem.

Nota espiritual: 4,3 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,3

Apocalypto, filme por Mel GIBSON

Dramático, sangrento e visceral, como costumam ser os filmes de Mel Gibson, Apocalypto apresenta o caso de sobrevivência do protagonista, Pata de Jaguar, que tem que lutar para resistir aos seus inimigos e para proteger sua esposa e seus filhos (um ainda a nascer).

O sentido espiritual do filme é o de um certo louvor naturalista, dando a entender que a vida era linda e maravilhosa antes de a tribo de Pata de Jaguar ser atacada por seus conquistadores. Isso é mentira. O que havia antes era uma versão atenuada, mais pacífica, da condição humana que é miserável, amaldiçoada.

Gibson trabalha com a idéia de restauração a um certo ideal imanentista tradicionalista, inicialmente representado pela vida da tribo de Pata de Jaguar antes de serem atacados, e depois com a sugestão de um Tradicionalismo mais pujante personificado pela chegada dos europeus.

Não existe, assim, horror na condição humana em si, mas na maldade de alguns seres humanos, como aquela tribo de conquistadores que cultuavam o Sol e faziam sacrifícios de sangue. O bem pode ser buscado no tempo, com a restauração da condição original da tribo de Pata de Jaguar, ou então, e talvez melhor ainda na cabeça de Gibson, com a instauração do Reino de Deus representado pela religião cristã que vem imbuída com a autoridade da Sucessão Apostólica, basicamente trazendo para as Américas a tradição judaica que liga o homem de hoje ao culto originário de Adão e Eva, com o objetivo da restauração do mundo inteiro.

A citação exibida no início do filme, “uma grande civilização não é conquistada desde fora até que tenha se destruído desde dentro“, cunhada por Will Durant a respeito de Roma, transmite exatamente a idéia de um processo histórico em que o bem e o mal lutam no tempo, como se existisse uma civilização boa em si, e não somente uma realidade relativamente melhor do que outra dentro de um contexto particular.

Não é difícil mesmo verificar a vantagem do culto cristão, que abole os sacrifícios pagãos, mesmo que esse benefício custe a crença religiosa de que Jesus tinha que morrer, entre outras idéias anti-evangélicas.

O nosso problema com esta idéia, porém, é o mesmo que vai fazer as pessoas aceitarem o Anticristo: o que parece ser um mal menor, no fim das contas pode constituir o maior de todos os males. Se o diabo quer se colocar no lugar de Deus, é óbvio que na sua Dialética ele terá que terminar como o salvador. O que não se deve esquecer é que essa salvação é falsa. Omite que os males maiores foram produzidos pela mesma fonte de “salvação” (o famoso criar dificuldade para vender facilidade), e principalmente esconde os verdadeiros desígnios dos usurpadores, que são totalmente tirânicos.

Por fim, a obra de Gibson é extremamente apelativa ao sentimentalismo em torno da família e da religiosidade. Foi perdida uma chance de dar o testemunho da Vigilância, com a denúncia dos sacrifícios de sangue que a civilização dos Maias faziam como exemplo de religião como culto de entidades demoníacas. Ao contrário, a condição humana foi exaltada, e a grande operação de conversão do sofrimento e dos sacrifícios em méritos morais foi produzida na tela diante de todos nós.

Denunciando um ramo oriundo da Tradição Primordial do Pacto Ouroboros, Gibson apenas reforça outro ramo, legitimando o Sistema da Besta e normalizando a Mistura.

Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,1

Fedro, livro por PLATÃO

Antes mesmo de entrar no tema do diálogo, Sócrates, perguntado a respeito de sua opinião sobre o questionamento da validade de certos mitos, já nos dá um excelente testemunho de Humildade, realmente de grande valor:

Ele diz que as mitologias são “coisas sem relevância”, em comparação com o autoconhecimento, e que não faz sentido se dar ao trabalho de investigar esses temas diante da muito mais urgente tarefa de saber quem se é. Esse testemunho não só constitui elogio da Humildade, mas é uma certa disciplina monadológica, e um certo testemunho indireto também do dom da Presença, desde que tudo o que experimentamos parte do sujeito da experiência, esse Eu com que lidamos desde que nascemos e que, não obstante, permanece misterioso, de modo que partimos para a investigação das coisas do mundo –para não falar de planos de conquistas e domínios– sem nem ao menos realmente compreender a nossa própria natureza, dando-a por subentendida como se não fosse misteriosa. Ora, de certo modo Sócrates está na pista da Mônada, porque a conclusão da busca do autoconhecimento é a descoberta da singularidade indeterminada da Substância Simples, e mais ainda, a descoberta também da imagem e semelhança de Deus. Por outro lado, a dispersão pelos elementos do mundo, e especialmente o foco nos caracteres simbólicos que simulam o conhecimento (produzem a imagem da verdade), costuma levar para a Idolatria.

Eventualmente começa a discussão do tema do diálogo, a partir da leitura de um esboço do discurso de Lísias que o interlocutor de Sócrates, Fedro, vai fazer.

Em resumo, o discurso de Lísias elogiava o amor da amizade, philia, sobre o amor da paixão, eros, afirmando que os amigos fazem maior bem a si mesmos e aos outros do que os apaixonados, por diversas razões, mas principalmente por fidelidade aos seus reais interesses, e pela perenidade da amizade em face da leviandade da paixão, de tal modo que alguém interessado em escolher um amante deveria priorizar o não-apaixonado, movido tanto pelo desejo erótico quanto pela amizade, do que o apaixonado que se move apenas pelo desejo erótico.

Dando continuidade ao raciocínio de Lísias expresso por Fedro, Sócrates evidencia como a paixão tende a resultar em desejo de controle e poder, ao contrário da amizade que busca o melhor do outro. Vejamos a passagem que ilustra isto com clareza:

Isso se qualifica como um testemunho atenuado do Discernimento, contrário aos racionalismos psíquicos que apenas tendem a reforçar a busca do poder. Reconhecer o interesse do outro contra o nosso próprio só pode ser fruto de um dom espiritual de Discernimento.

Continuando a exibição da inferioridade da paixão, é afirmado que para além do intelecto, o amante apaixonado também prejudica o desenvolvimento do seu alvo, nas suas relações familiares, de amizade, etc., por causa de sua obsessão possessiva. Porém, passada a febre da paixão, todas as promessas serão quebradas pelo novo desinteresse, e aquele que poderia se achar amado se verá na verdade traído e abandonado por um mentiroso. A paixão leva à essa mentira, porque é um desejo de poder, e a busca do poder é um empreendimento como que o da conquista militar, isto é, requer a astúcia, o engano, a arte da guerra. Esta citação da fala de Sócrates resume tudo: “tal como o lobo acolhe com amizade o cordeiro, assim age como amigo o amante com seu amado“.

Pude experimentar todas as variáveis dessa exposição na minha própria vida, como costuma ser o privilégio de quem já tem alguma experiência: já desejei, apaixonado, e prometi o que não devia, me tornando depois um tanto traidor; já desejei e me censurei na minha ambição, praticando o autocontrole e me distanciando do objeto de desejo por ter mais medo de fazer o mal do que de fruir um prazer; e já desejei com a liberdade do amigo que considera o bem do amado tão valioso quanto o meu, sendo essa, sempre, a mais abençoada de todas as relações. Até mesmo os velhos casais que ainda se amam afirmarão isso todas as vezes: que a sua amizade é mil vezes superior à sua paixão no que determinou o sucesso da sua relação, embora a paixão às vezes cumpra o papel das aproximações e da vitória sobre a timidez, etc., o que pode ser muito importante ou até decisivo no início de um relacionamento. Assim, o desejo erótico, regulado pelo autodomínio que impede a cegueira da paixão, pode produzir bons resultados, como estímulo para a aproximação e geração de intimidade, embora isso requer que pelo menos uma das partes, geralmente a mais experiente, tenha mais apreço pela amizade do que pela satisfação sexual. Infelizmente essa arte parece perdida num mundo soterrado pela cultura da gratificação instantânea, do prazer superficial, etc. Sobram quase que apenas dois horrores: a escravidão das obrigações dos contratos de casamento, e a escravidão do impulso pelo desejo sexual que vê no outro apenas um objeto de prazer. Os maiores prazeres, possíveis apenas através do autodomínio e do amor verdadeiro, já são a exceção nesse mundo de escravos. Mas a minha digressão já foi muito longe.

Voltando ao Fedro, Sócrates, como de costume, depois de nos dar um discurso que parece suficiente e final, resolve nos desmoralizar defendendo o oposto de tudo o que afirmou. Apela para a mitologia de Eros, afirmando que o deus não poderia ser maligno, e até para o elogio da loucura como fonte divinatória de certa sabedoria. Mas não é tão difícil quanto possa parecer fazer o ajuste disto ao que se observava antes, bastando que se entenda o valor positivo da paixão no contexto de um bem maior que será possibilitado pela mesma, nos termos em que eu mesmo já disse. O ser humano muito centrado na sua racionalidade, totalmente baseado no autocontrole, pode tender a uma apatia que impede o desenvolvimento de realidades desejadas pela providência divina. E um modo apropriado pelo qual Deus pode quebrar a frieza, a timidez, ou simplesmente o medo, é através de um desejo incontrolável, desde que este seja tão logo quanto possível temperado por virtudes superiores, assim que isso se tornar mais conveniente, ou seja, assim que a resistência inicial ao desenvolvimento tenha sido vencida. Do contrário estamos presos na petrificação exemplificada na censura apocalíptica contra a Igreja de Éfeso.

Em seguida, para dar razão a sua idéia numa perspectiva mais aprofundada, Sócrates anunciará a imortalidade da alma, no que para mim parece ser mais uma doutrina platônica do que socrática. Essa idéia não deixa de ter seus méritos laterais, embora nos leve a certos enganos gnósticos. De fato, a origem do movimento deve ser a permanência, e a origem do que foi gerado deve ser aquilo que não foi gerado e que, portanto, também não possa ser destruído, porque sempre foi o que é. Então deve haver algo de imortal para que outras coisas não o sejam, e algo de não gerado e automovente, para que haja o que é gerado e movido. Esta, é claro, é a Unidade, a forma do ser, que chamamos de Mônada ou Substância Simples, e que dá origem ao Múltiplo. O problema é que a própria multiplicação dessas unidades implicam na sua relatividade ao Princípio Absoluto, ou seja, à Unidade perfeita, fora que o não início de uma pré-existência não pode ser atribuído à individualidade humana senão por crença. Aqui é onde Platão provavelmente interfere na doutrina de Sócrates, atribuindo veracidade a certas crenças gnósticas, inclusive e principalmente de participação na divindade.

Logo Platão se referirá a uma alma presa a um corpo numa forma animal, e às respectivas viagens de ascensão e decadência, conforme o Intelecto busca a verdade das coisas, que é a origem remota da alma, ou conforme busque a aparência das mesmas (opinião), distanciando-se dessa origem. De qualquer modo o empreendimento é árduo. Nenhuma alma volta ao ponto de origem, isto é, obtém a ciência das coisas reais e se liberta das ilusões da opinião, sem antes passar por dez mil anos de experiências em diversas reencarnações, com a exceção dos filósofos sinceros. Fica um tanto difícil unir essa concepção com a cristã, exceto por analogia com as diferenças entre a Primeira e a Segunda Ressurreição, onde talvez encontremos uma aplicação mais aproximada, sendo nesse particular o filósofo aquele que busca a verdade por trás da mentira, e que dá o testemunho dessa busca. É afirmado que todo aquele que é encarnado como ser humano já viu alguma vez a verdade, porque só isso explicaria a sua capacidade de reconhecimento das idéias (ou formas) por trás dos fenômenos. Platão justifica, assim, a sua ontologia pela sua epistemologia, não encontrando outra solução para o milagre da inteligência humana. Quem utiliza adequadamente as memórias dessa experiência divina são aqueles “iniciados nos perfeitos mistérios“, que obviamente serão desprezados e censurados pelas pessoas ordinárias, que não fazem o mesmo uso de sua potência intelectual. Podemos ouvir Jesus nos dizendo que sua escolha “nos separou do mundo, e por isso o mundo nos odeia”, mas é somente uma adaptação.

Retomando a explicação da justificação da loucura da paixão, Platão conecta essa idéia com a noção de que aqueles que contemplam uma beleza que lhes lembra o que é divino tendem a ser dominados por essa contemplação, e é por isso que com justiça ficam obcecados, isto é, perdem aquilo que achamos que é a sanidade apenas porque normalmente não temos a mesma memória feliz daquilo que é excelente.

A partir daí Platão se dedica mais detidamente ao problema particular do relacionamento do tipo que gerou a discussão, ou seja, como aquele entre Lísias e um jovem a quem este convenceria a ser seu amante através do discurso que Fedro memorizou e agora reproduz para Sócrates. Vai justificar essa paixão particular como muito vantajosa para o filósofo, motivo pelo qual a reclama para si, como se fosse um artista reclamando o seu direito de se inspirar numa musa. Mas tem dificuldades para mostrar porque Sócrates é melhor do que Lísias, na disputa pela atenção de qualquer amante, apenas acusando o sofista de fingir continência e autocontrole, mas sem poder provar realmente isso, senão pela distinção de que um é Filósofo e o outro é Sofista. O ideal do amor platônico deve transcender a queda aos usos mais baixos da paixão, e é assim que se realiza o “παιδεραστήσαντος μετὰ φιλοσοφίας” (“paiderastésantos metà philosophías“, “amante filosófico de rapazes”), que consegue usar a paixão para uma elevação da alma, enquanto os incapazes de tal ascese se vêem presos ao uso baixo da paixão. Eu estaria disposto a indicar que isso é um elogio do Louvor, se tão somente Platão reconhecesse que o mal não está na fruição de um prazer, mas na busca deste através da injustiça, seja contra si próprio ou contra o outro. Como ele não faz isso e, ao contrário, faz questão de afirmar que a satisfação com prazeres é o que ancora a alma na falsidade das aparências, sou obrigado a recusar a dação dessa nota positiva. Podemos até reconhecer que ele não dá o testemunho da Sedução, ou Pacto com a Morte, mas também não anuncia a verdadeira liberdade do dom de Louvor, pois precisa fugir do prazer como se ele fosse mal. Ao mencionar as tais asas que podem crescer ou diminuir, e permitir vôos mais altos ou causar quedas mais bruscas, Platão está literalmente identificando a condição da Mistura com um decaimento espiritual, e recomendando a solução numa certa forma de transhumanismo. E, o que é o pior de tudo, e a marca realmente gnóstica dessa doutrina, a salvação da alma depende de um esforço humano, e não de uma pura Graça divina que pode ser aceita ou rejeitada. Detalhe: como podemos saber que Sócrates, senão o filósofo real ao menos o personagem platônico de Fedro, não mente, para si e para outros, tanto quanto acusa a virtude de Lísias de ser falsa? Tenho que confiar nele, porque se diz Filósofo?

Depois de tudo isso, o diálogo passa a versar sobre a arte do discurso, um tema muito comum para Platão, e da questão sobre se essa arte pode ser usada para a expressão da verdade, ou apenas para a produção da imagem da verdade.

Afirma-se que a arte retórica, usada pelos Sofistas, tende à mentira, ou no mínimo à indiferença com relação ao que é verdade, pois convence-se mais facilmente um juiz, ou audiência, a respeito do que é mais provável, do que a respeito do que é mais verdadeiro. Mais especialmente nós verificamos o dano desse procedimento humano, da arte do convencimento, nos âmbitos públicos da Política e da Justiça, quando justamente a verdade mais conveniente é a mais difícil de ser apreciada, por se tratar, com frequência, de uma excepcionalidade que fere o senso comum no sentido da probabilidade. Assim, é mais fácil convencer uma platéia do mérito da continuidade do Pecado Original do que do seu rompimento, e da conveniência do enriquecimento e do armamento da sociedade, do que do cultivo do espírito, etc. As coisas mais nobres e belas são as mais difíceis de se defender em termos populares, no convencimento através da razoabilidade das probabilidades. O bom, que per se é a regra do Ser, por ser sua forma, no âmbito da experiência da Mistura se torna excepcional. É assim que se despreza, publicamente e coletivamente, os méritos do perdão, da contrição, da humildade, etc., e se exalta os seus opostos, como a vingança, a vaidade, o orgulho, etc.

Em uma passagem muito notável que merece ser relida e meditada, Platão defende a propriedade humana, interior, da Sabedoria, como qualidade viva de um ser vivo, contra a pretensão da produção de uma verdade fora da consciência, especialmente na forma de um discurso escrito. Esta parte do Fedro, sozinha, seria capaz de destruir a idolatria de textos sagrados, como aquela que se pratica no âmbito das religiões bíblicas, etc. Vejamos:

Entenda-se corretamente que a palavra escrita pode ser muito útil, sim, para aquele que a tem originalmente registrada interiormente, isto é, para quem a tem como conteúdo de consciência através da qual a leitura serve como mero instrumento que facilita a memória.

Isso pode parecer estranho desde que aprendemos que através de leitura nos educamos a respeito de coisas novas, mas se o estudo do que quer que seja não reproduz algum conhecimento já possuído anteriormente na alma do estudante, como ele poderá reconhecer a veracidade daquilo que supostamente aprende? No que se difere uma pura ficção, de um aprendizado real, senão essa qualidade da semelhança com o que já é posse da alma do aprendiz?

Por outro lado, a idéia de que a Sabedoria se encontra nos livros, essa grande tolice, faz o ser humano ser escravizado, e com razão, pelos doutores das letras, seja no âmbito político do entendimento das Leis, seja no religioso no âmbito das Escrituras etc.

Entende-se assim, também, como é precioso o autoconhecimento, porque uma alma cuja visão está embaçada pela confusão interior não pode fazer nada além da coleção de imagens exteriores e a repetição do sentido das mesmas, de acordo com o valor de face destas atribuído por terceiros, sem nunca se apropriar realmente do que lhe interessa. Muitas pessoas podem viver assim, e isso é lamentável. O que as move a essa vida de imitação? Provavelmente o medo da responsabilidade por sua vida interior.

Em nossa última citação, e num excelente elogio do dom da Humildade, encontramos Sócrates recomendando o domínio interior da busca da verdade, contra os registros externos, as repetições, as memorizações, etc.:

Mas este indivíduo capaz de responder por si, essa pessoa inteligente e realmente interessada na verdade, por maior que seja, não é ainda um sábio, porque só Deus o pode ser; mas é filósofo, o amante da Sabedoria.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria8
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo3
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo6
Nota final5,6

Idiocracia, filme por Mike JUDGE

Esta quase profética comédia mostra uma visão do futuro com base numa insuspeita consequência da evolução depois das maiores conquistas tecnológicas, econômicas e sociais do Século XX: acostumado a viver sem um predador natural, e com uma vida razoavelmente fácil de se manter, o ser humano médio não precisa ser mais esperto para sobreviver, e o mecanismo da seleção natural passa a premiar os mais burros, ao invés dos mais inteligentes.

Desde a premissa evolucionária, temos que até certo momento da história os indivíduos que mais tinham chance de se reproduzir eram os mais adaptáveis, portanto com maiores chances de ter um intelecto superior. Porém, a partir do momento em que a espécie humana domina o mundo e os indivíduos não precisam mais se adaptar ao ambiente que já está bastante controlado, a equação se inverte: os mais inteligentes se reproduzem menos, e os mais estúpidos se reproduzem mais.

Esta é uma premissa interessante que contestaria a minha idéia de concomitância do progresso moral na evolução natural da senciência, se não fosse a evidência contrária na queda da taxa média de natalidade em níveis globais, ao menos por ora. É claro que períodos mais extensos podem mostrar resultados diferentes, talvez próximos a um cenário como o apresentado no filme, que se passa no Século XXVI. Podemos até mesmo conceber uma noção de Ciclo com base nessa premissa, de modo que o Great Reset talvez não passe de um colapso natural quando a capacidade intelectual média de uma civilização atinge níveis catastróficos que tornam a vida impossível.

O filme não precisa especular seriamente sobre nada, por se tratar justamente de uma comédia.

A melhor parte, logo no início, mostra a diferença de mentalidade entre Trevor e Clevon, o primeiro, mais inteligente, relutante em multiplicar a sua genética, e o segundo, mais burro, incapaz de qualquer ato de continência, multiplicando grandemente a sua genética.

O que é mais perigoso é a tendência eugenista desse tipo de narrativa, a sugestão de uma tentação no sentido de controlar o processo ao se mostrar, mesmo que comicamente, as sinistras perspectivas do futuro da humanidade.

No que tem de mais favorável, e que chega a contar um ponto positivo como testemunho da Vigilância, é a observação das características dessa sociedade tola, formada por pessoas estúpidas: o grande papel da tecnologia que torna o seu usuário cada vez menos qualificado individualmente, a grande obsessão com sexo e dinheiro que permeia toda a cultura, o desprezo contra qualquer noção de valor intelectual ou cultural (“isso é coisa de veado”), e a transformação de tudo em marketing e comércio, onde até os nomes de pessoas famosas são acrescidos de marcas de produtos.

O patético protagonista, de inteligência média, que por acidente foi parar cinco Séculos adiante depois que foi esquecido num programa de teste de criogenia, acaba por salvar essa humanidade futura com o simples expediente de substituir a irrigação das lavouras com Gatorade por água.

É claro que com o advento da Inteligência Artificial, e com a preocupação constante da Elite de permanecer no controle de todas as coisas, o cenário final da humanidade apresentado em Idiocracia dificilmente se concretizaria.

Mas o filme não deixa de ter uma função no diagnóstico da atual condição humana, e talvez um uso dentro de uma certa estratégia de programação preditiva que quer justificar antecipadamente as medidas eugênicas a serem implantadas (ou já em andamento?) para submeter a humanidade a um controle artificial.

E isso não é nenhuma novidade. A burrice da humanidade, inaugurada com a traição de Adão e Eva contra seu Criador, sempre foi uma suficiente justificativa legal para a legitimação da escravidão da mesma.

Nota espiritual: 4,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,9

O Evangelho de acordo comigo mesmo

CAPÍTULO UM: A ENCARNAÇÃO — Na chegada dos tempos adequados o Filho de Deus, Jesus Cristo, decide encarnar como Filho do Homem, o Anti-Adão, através da obediência de uma mulher obediente a Deus, Maria, a Anti-Eva que aceita o rompimento com o Pecado Original e dá origem à Encarnação do Santo dos Santos. Encarnado, o Filho de Deus mostra a perfeição da obra divina, e como o mal foi trazido ao mundo apenas por um vício espiritual.

CAPÍTULO DOIS: A FÉ E OS MILAGRES — Jesus vive entre os homens pelo tempo necessário para que todos os que precisassem tivessem a oportunidade de experimentar a sua própria liberdade de acreditar no Amor de Deus, ou em seu Poder. Encontrando em poucos o desejo da fé, mas em muitos a busca pelos milagres, Jesus já sabia o que havia no coração dos homens, mas era preciso que eles também soubessem, e através deles, nós mesmos.

CAPÍTULO TRÊS: A CRUZ — Jesus aceita a sua injusta condenação para fazer da Cruz o instrumento da sua Revelação final. Mostra o Amor do Pai, pronto a perdoar e salvar mesmo os participantes da maior das injustiças, contanto que estes queiram ser salvos, e mostra a maldade do Acusador que finge promover a Justiça mas é apenas um espírito mentiroso e assassino. O véu está rasgado, e Deus revela que quem estava no Templo era o pai dos religiosos, o diabo enganador, enquanto Ele mesmo, o próprio Deus verdadeiro, estava na Cruz, dando sua vida para revelar a Verdade de seu Amor.

CAPÍTULO QUATRO: A RESSURREIÇÃO — Jesus ressuscita na carne, com seu Corpo de Glória, para mostrar que o Paraíso desejado para o homem não consiste em nenhuma confusão espiritualista, mas na promessa fiel que todos os homens sempre puderam conhecer em seus corações. Parte deste mundo prometendo que tem muito ainda a ensinar, coisas que aqueles seus Apóstolos ainda não poderiam suportar, mas que com o tempo seu Espírito revelaria tudo para os verdadeiros buscadores.

“Felicidade não era ser livrado do mal, mas não tê-lo contraído em tempo algum.”

Citação L0035-C03, em Górgias, livro por PLATÃO.

Nesta passagem que pode parecer ter menor importância, encontramos o testemunho direto de que a pureza, ou separação, de bem e mal, é algo superior à qualquer nível de mistura.

É verdade que, dada a condição da mistura, é melhor se livrar da maldade do que se corromper pela mesma. E ainda é melhor que, se corrompido, pague-se uma pena purgatória, do que não pagar nenhuma.

Mas o estado original de separação e imunidade, um estado ótimo da alma, não pode ser ignorado como o maior dos bens, como a maior das felicidades.

Embora não diga, Platão poderia discorrer sobre os motivos da mistura, já que considera a separação como o estado ideal. Nisto talvez se perdesse com uma mitologia mais ou menos gnóstica, como de costume. Nossa tarefa aqui, no entanto, é verificar que o ideal, na sua pureza própria, dispensa a mistura.

Se todos os seres humanos preservassem essa noção –algo que provavelmente em algum ponto da nossa criação no meio do cativeiro, enquanto ainda éramos bem jovens, ainda percebíamos com alguma clareza–, eles poderiam dispensar todos os maiores envolvimentos com a mistura sob a ilusão da obtenção de benefícios mundanos, e assim estariam livres do carregamento de um peso excessivo em suas vidas.

Digo por mim: ainda que de forma obscura, não deixo de me lembrar vagamente de ter essa noção de ser forçado, pelas pessoas mais velhas ao meu redor, em optar por algum tipo de anuência com relação a esta vida na forma de uma troca do aceite do pior pela ambição do melhor. O cultivo da filosofia platônica, ou ao menos de algum idealismo mínimo, já seria suficiente para contrapor a influência dessa cultura de cativeiro.

“Não te parece vergonhoso estar no estado em que julgo que estás?”

Citação L0035-C04, em Górgias, livro por PLATÃO.

Encontramos aqui as ousadas proposições de Cálicles, o interlocutor de Sócrates que conseguiu somar, à sua tolice, a sinceridade. O próprio Sócrates elogia essa postura, pois finalmente pode responder a um questionamento que muitos teriam desejado propor, mas que poucos quiseram assumir.

Não é esta, afinal, uma opinião comum a respeito da Filosofia até hoje?

A vontade de buscar uma Verdade que transcende o domínio humano sempre vai separar os seres humanos: aqueles, afinal, que querem sobretudo servir ao Amor sempre serão desprezados por aqueles que querem sobretudo servir ao Poder.

A diferença que resta é a seguinte, porém: qual destino é imortal?

O dos amantes, ou o dos ambiciosos? Dos amorosos ou dos furiosos?

Toda a administração das coisas mundanas que Cálicles elogia está destinada a continuar a futilidade da vaidade humana, como a que vimos denunciada no Eclesiastes. É tudo “correr atrás do vento”, pois nada muda realmente, e “não há nada de novo sob o sol”.

Já a consideração das coisas eternas dispensa os amantes dessa Eternidade de desgastar-se demasiadamente com aquilo que é transitório, mas ao risco de colocá-los nas mãos desses mais espertos e ambiciosos vilões desse pesadelo chamado História.

Curiosamente, Cálicles reconhece algum mérito da Filosofia na nutrição das almas dos jovens, como o aprendizado de uma arte inspiradora que será passageiramente aproveitada num processo com finalidades bem assentadas no sucesso mundano, isto é, nas grandes ambições das famílias, tribos, nações, e da Humanidade como um todo.

O adulto, porém, que continua nutrindo esses interesses que deveriam ser passageiros e temporários, é chamado no mínimo de tolo, isso quando não for um corruptor da juventude, exatamente como Sócrates será qualificado pelos seus acusadores mais tarde no processo que o levou à morte.

Vejam como isso antecipa a consciência cristã: Jesus deixou claro que quem o seguisse, ou seja, quem desejasse essa liberdade das coisas mundanas pelo amor das coisas eternas, seria perseguido e odiado pelo espírito do mundo.

Nós precisamos absorver com toda intensidade o impacto desse testemunho de Cálicles: é o próprio espírito do Anticristo, avant la lettre, anunciando a nossa condenação por cumprir o Primeiro Mandamento, ou seja, por amar a Deus e tudo aquilo que é divino acima de todas as coisas.