“Tomados da velha perspectiva imediatista.”

Citação L0036-C02, em Os Intelectuais e a Sociedade, livro por Thomas SOWELL.

Os líderes e representantes do Sistema da Besta vivem de explorar o sofrimento com promessas de falsas soluções, e em nenhum momento a premissa da perpetuidade é questionada seja por socialistas ou por liberais.

Sowell questiona, com razão, as políticas imediatistas que reinstauram uma situação que poderia (e deveria) ser imediatamente constatada como de alto risco. Os mesmos líderes políticos que gastam o dinheiro público com o resgate de populações que vivem em áreas de risco de desastres naturais mais tarde usam de seu poder e dos recursos estatais para reinstalar essas populações nas mesmas áreas, ou seja, perpetuam a condição problemática que justifica a sua existência como agentes públicos.

Lula, por exemplo, aqui no Brasil, deu graças a Deus pela “pandemia”, porque isso reabilitaria a visão pública da necessidade de um Governo e um Estado forte. Estamos muito perto de uma confissão de que certos problemas públicos são necessários para se justificar certas soluções públicas.

O que Sowell não assume, porém, é que não há nenhuma condição “com um histórico definido e cujo futuro pode ser previsto” mais antecipável do que a da escravidão de uma humanidade que deve servir ao ideal de progresso civilizacional, como aqueles antigos escravos do Faraó. Por que Sowell não questiona a validade desse projeto? Porque ele serve a esse projeto, como liberal, tanto quanto qualquer outro intelectual socialistas também serve, apenas com sinais trocados. Se não servisse, Sowell poderia imediatamente questionar a conveniência dessa perspectiva.

É óbvio que os amantes do projeto, como Sowell, vão afirmar que nunca antes na história da humanidade os seres humanos foram tão capazes de garantir uma qualidade de vida tão elevada, com os confortos promovidos pelo progresso tecnológico, econômico, etc., comparando-se com os dados históricos.

Isso pode até ser verdade, mas não muda os fatos mais brutais da equação:

1- Que nenhuma alma jamais foi encarnada com seu consentimento, ou seja, a participação no projeto do progresso da humanidade é tratada como compulsória, produzida por um fait accompli;

2- Que nenhum progresso tecnológico e econômico pode evitar as dores, traumas e sofrimentos humanos, mas apenas produzir uma condição de remediação e compensação, no espírito da legitimação da Mistura de Luz e Trevas. Por outro lado, existem novas formas de sofrimento geradas pelo mesmo progresso, e que não podem ser desconsideradas nesta equação;

3- Que mesmo que o projeto seja justificado por um progresso futuro que alcance a solução de todos os problemas humanos num futuro distante, além dessa promessa não ter nenhuma garantia de cumprimento, qualquer um ainda terá sempre o poder e o direito de crer que este projeto não convém à verdadeira finalidade da forma substancial do ser humano, e até ao contrário, pode-se crer que este projeto signifique exatamente aquilo que é relatado como empreendimento contrário, por exemplo, ao desígnio divino, como se vê nos relatos a respeito do Dilúvio, da Torre de Babel, e nas profecias a respeito do Apocalipse.

Talvez quem esteja tomado da velha perspectiva imediatista seja o próprio Sowell, já que mesmo sem nenhuma consideração espiritual que releve o desígnio divino, também opta por ignorar a possibilidade de um progresso moral concomitante ao progresso material e tecnológico da humanidade, o que leva por exemplo à queda generalizada das taxas de natalidade.

Sowell serve ao pensamento econômico que traduz o crescimento do PIB como uma benfeitoria social, sempre relativizando o status quo mediante a ameaça de uma miséria muito maior que em nenhum momento ele imagina que possa ser impedida pela mera ruptura do costume do Pecado Original.

É claro que é melhor ter acesso à uma rede de eletricidade, ou de água encanada, do que não ter.

Mas melhor ainda é não precisar de nada disso, considerada a simples hipótese de uma dispensação mais favorável pela provisão de um poder superior cuja autoridade foi usurpada.

Sowell, exatamente do mesmo modo que qualquer socialista que se encontrasse no exato ponto oposto no quadro geral das ideologias do mundo, deixa subentendido que os seres humanos não possuem nenhuma escolha com relação à continuidade da condição humana tal como ela é, por ser um crente naquilo que ele chama de “visão trágica”. Isto é mentira.

Nós temos o poder de fazer uma escolha melhor, e essa escolha foi abundantemente atestada e realizada por vários modelos de santidade, seja no oriente ou no ocidente, e em especial, no quadro da cultura cristã, por ninguém menos que Jesus Cristo, e também pela Virgem Maria.

Não estamos presos à imitação de Adão e Eva, e do Pecado Original.

Mas é claro que o deus deste mundo, a Serpente que se alimenta da perpetuação da Mistura de Luz e Trevas, jamais aprovará que seu Pacto seja denunciado, e tentará de toda forma que a liberdade do Evangelho seja reprimida e deturpada tanto quanto possa, por todos os recursos de que dispõe, entre os quais e especialmente o recurso do domínio da própria Religião Cristã.

Santa Maud, filme por Rose GLASS

Análise F0021, Santa Maud, filme por Rose GLASS.

Este filme conta a história de uma enfermeira confusa e sobrecarregada com o espírito de Terror, por conta de algum episódio obscuro de seu passado sobre o qual não sabemos os detalhes.

Vinda desse trauma, e também de uma vida mais ou menos desregrada sobre a qual também não temos maiores detalhes, Maud aceitou a culpa advinda da tentação desse espírito de Terror e buscou refúgio no abrigo da experiência da superficialidade da Religião. É claro que isso não vai dar certo. Ao invés de se apoiar na firmeza deontológica da condição humana, cuidando da sua vida da melhor forma que pudesse, ela se arrisca nas ilusões dessa mistura indigesta que a doença mental da Religião oferece de moralismo, superstição e sentimentalismo. Imediatamente após se condenar nas suas ações, é óbvio que a recém-convertida buscará o mais rápido possível alojar-se no conforto da situação de julgar e condenar os outros desde a sua suposta santidade justificada pelas suas patéticas penitências. A Religião é a mais eminente escola do Orgulho, embora não seja a única, e o Ateísmo não fique muito atrás.

Ela passa a atuar como empregada particular para uma senhora com um perfil artístico e liberal que passará, naturalmente, a questionar e até a zombar da fé de Maud. A enfermeira, porém, também não ajuda muito ao presume-se chamada a um destino especial que a faz se colocar em situações moralmente arriscadas, como quando tenta ser a salvadora de sua patroa. Tendo subido, por si, a um patamar que nunca lhe foi devido, é evidente que depois sofrerá uma queda doída.

Incapaz de se recolher à interioridade onde poderia obter os verdadeiros dons espirituais que só podem advir de uma legítima contrição, Maud tenta forçar sua comunicação com a divindade, o que abre as portas para enganos profundos, com sugestões e influências demoníacas que eventualmente a levarão ao assassinato e ao suicídio.

A loucura da protagonista é de sua inteira responsabilidade. Se não pretendesse ser a santa e salvadora, poderia aprender a se contentar com o Deus verdadeiro, e receber um consolo poderoso de fato. Por sua soberba crescente, encontra-se forçada a assumir cada vez mais profundamente todos os contornos da sua insanidade como um sentido verídico, e finalmente cruza a última linha da qual não terá mais volta.

Apesar do tom sombrio do filme, a sua mensagem espiritual é legítima, no mínimo por três razões:

1- Maud poderia e deveria ancorar-se nos seus deveres de estado e, sendo humilde, aceitar todas as tentações e provocações com firmeza e perseverança. Sua fé é falsa, religiosa, superficial e supersticiosa, e isso é sua responsabilidade. Ela não busca um aprofundamento para fora de seu próprio sentimentalismo;

2- Quando sua ex-colega Joy lhe procura, logo antes que dê os próximos passos em direção à sua loucura sem retorno, isso consiste num recurso de misericórdia da parte de Deus, que nunca fechou a porta para Maud. Ela é que teria que acreditar na verdadeira bondade divina, cheia de perdão, misericórdia e compaixão. Mas o deus dela é o Diabo, o Acusador que se alimenta de suas culpas e punições, e lhe impinge um senso de missão absurdo (julgar, condenar, punir, etc.);

3- Quando o próprio diabo, seja verdadeiramente ou em alucinação, lhe acusa de ser fraca na fé por não ser suficiente a confiança em Deus, isto é no mínimo um alerta legítimo de sua própria subconsciência, ou uma intervenção divina fazendo uso do impulso acusatório do demônio para revelar uma verdade.

Crer em Deus é o mesmo que confiar Nele.

Se desejamos ver ou conhecer Deus para diminuir, no mínimo que seja, a pureza do nosso amor a Ele, estamos jogando no campo adversário e imitando Lúcifer, esse grande desconfiado que ensinou sua malícia para a humanidade.

Como a história acaba muito mal para Maud, o filme surpreendentemente tem um sentido espiritualmente positivo. Talvez este nem tenha sido o objetivo dos criadores do filme, mas a coisa é o que ela é.

Se a protagonista fosse uma heroína, o sentido seria o contrário.

Mas, como vítima de si mesma, Maud serve de exemplo para não tomarmos levianamente o dom da vida na Presença.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo7
Nota final5,6

Hípias Maior, livro por PLATÃO

A primeira questão relevante neste diálogo, proposta por Sócrates, é a pergunta do motivo pelo qual os sábios de antigamente, como Tales de Mileto, não se envolviam em questões de Estado, ou seja, com a política.

Hípias afirma, aceitando uma sugestão de Sócrates, que isto se dava por uma limitação da capacidade desses sábios, já que a virtude política ainda seria desenvolvida futuramente. Mas Sócrates apenas criou uma armadilha para fazer Hípias revelar a sua pretensão de sofista.

O diálogo então chegará no seu objeto principal, que é a investigação sobre o que é o Belo. Lembremos que esse Belo é o kálos grego, um conceito mais amplo do que aquilo que entendemos como valor estético.

Hípias escapará da definição do Belo buscando refúgio na predicação da beleza, dizendo que isto ou aquilo pode ser belo, mas sem afirmar o que é o Belo em si. Sócrates, mais à serviço de Platão do que de si mesmo, defenderá a idéia superior do Belo, embora sem definições satisfatórias. Assim como para Hípias o Belo é o que agrada, para Sócrates (Platão) o Belo é o que torna aquilo que de si participa algo agradável, isto é, situam o Belo nas coisas ou as transcendendo, sem uma identificação suficiente.

E esta provavelmente jamais nos seria possível, dado o limite de nosso intelecto. Monadofilicamente, o mais próximo que podemos chegar da verdade é o que segue: o Belo é a propriedade do Ser que satisfaz a Apetição da Vontade, tanto quanto a Verdade é a propriedade do Ser que satisfaz a Percepção do Intelecto. Em melhores termos, enquanto a Verdade é o aspecto do Ser que atende ao Logos, o Belo é o aspecto do Ser que atende ao Telos. O Verdadeiro mostra a forma, o Belo mostra a finalidade. Aletheia para o Logos, Kálos para o Telos. Porém, a Unidade do Ser é suprema, porque o Ser é a Mônada, e sua forma de Substância Simples é a Unidade. O Ser é Belo e Verdadeiro. O Belo é a Glória de Deus que nos apetece. Se pudéssemos definir o Belo para além desse nível, com a precisão do conhecimento dos contingentes, nós teríamos o domínio intelectual do que nos transcende, o que é impossível. Não existem definições precisas nem do Belo, e nem do Verdadeiro, mas apenas aproximações por critérios de reconhecimento.

A investigação socrático-platônica não é improdutiva, porém, porque serve para mostrar o limite do nosso Intelecto, e para a admiração contemplativa do Transcendente. Auxilia, assim, na recepção dos dons de Humildade e Presença. E Platão, cá entre nós, chegou muito longe, praticamente pronto para afirmar o que precisamos para chegar no ponto de que a Verdade é o Bem do Ser de acordo com o Intelecto, tanto quanto o Belo é o Bem do Ser de acordo com a Vontade.

Outros detalhes são dignos de nota.

Por exemplo, quando Sócrates insiste na diferença entre o ser belo e o parecer belo, na pista da diferença entre episteme e doxa, entre opinião e conhecimento, como aplicação da metafísica ao problema do Belo, é Platão quem nos leva ao dualismo gnóstico que cria novos problemas. Entre a evidência do que é aparente e do que é real, qual é a distinção senão entre uma Percepção e outra? Como se pode afirmar que o que é tido como realmente belo agora não será entendido como aparente mais tarde? Não se pode. Diante disso só se pode ter uma solução idealista, isto é, se não queremos perder o mínimo Princípio de Identidade, que é o poder de afirmar as coisas. Porém, existem dois tipos de idealismo. O platônico é imanentista quando propõe que o conhecimento pode ser dominado pelo Filósofo, a Pretenção gnóstica. Já o idealismo transcendental propõe a Unidade do Ser pela sua forma de Substância Simples: ou seja, somente o Intelecto divino possui a Percepção plena, sem nenhuma “aparência”, enquanto os intelectos criados só podem possuir a Percepção limitada do Belo, ou o acesso a uma “aparência” do Ser integral. Dito isso, Platão não perde o seu grande mérito de apontar para a necessidade metafísica dessa Unidade do Ser. Não seria possível alcançarmos as alturas plotinianas, scotianas, e leibnizianas, sem antes sermos erguidos pela potência platônica.

Uma outra observação que pode ser feita a partir das indagações socráticas é a da questão da diferença entre o que parece ser belo para sujeitos diferentes. Essa questão está obviamente ligada à anterior (e tudo isso não passa de uma tentativa de resolver o problema parmenídico da permanência da Unidade do Ser). O tal do Belo em si mesmo precisa ser o mesmo para todos, é claro. Mas ele não pode ser conhecido como o mesmo, porque os intelectos criados possuem uma Percepção parcial e relativa da Unidade do Ser. A experiência real dos intelectos criados é tão particular e determinada pela sucessividade, que não só o que parece belo para um difere do que parece belo para outro, mas até o que parece belo para alguém agora já pode não parecer mais tão belo depois para o mesmo sujeito. E isso não constitui defeito, ao contrário, é uma condição da satisfação humana. Até mesmo sob a Coruscância, embora não haja alternância no contexto da Mistura, há movimento entre o que equivale à passagem do que parece “menos belo” ao que parece “mais belo” na forma da satisfação da sucessão das Percepções, porque a nova experiência é sempre apetecida para completar a anterior. A visão gnóstica, porém, diverge radicalmente.

Transhumanista, contrária à forma substancial da mônada criada, a crença gnóstica propõe a plenitude divina para todos, ou seja, que o Belo seja conhecido enquanto tal por todos os intelectos criados, o que por ser impossível implica que o Gnosticismo seja um culto de morte, inclusive, e de modo escandaloso, nos cultos religiosos cristãos, que deveriam dar o testemunho da Ressurreição mas propõem não a Comunhão do Homem com Deus, mas a transformação do Homem em Deus (uma mentira), com idéias de “visão beatífica”, “união mística”, etc., o objeto da promessa da Serpente no Paraíso.

Vejamos uma citação do diálogo:

Sócrates chega perto da identificação do Belo com o Bem, mas empaca no problema da diferenciação pela causalidade, quando é proposto que o Belo é a causa do Bem. Esse problema é interessante porque ilustra a dificuldade comum com o entendimento das relações de identidade e diferença entre as Pessoas da Santíssima Trindade. E até convenientemente, Sócrates mesmo usa como exemplo a relação entre as figuras de pai e filho. Ele resolve por abolir a identidade, ou negar a causalidade, ou seja, não é possível o Belo e o Bem serem Um e ao mesmo tempo o primeiro causar o segundo. Toda a dificuldade está na distinção entre causalidade contingente e processão hipostática, ou seja, tomar o que é divino e transcendente sob o entendimento das coisas criadas e imanentes.

Mas Platão não é Plotino, e o desenvolvimento das idéias de Unidade e de Analogia ainda dependiam de muitos séculos para alcançarem seu ápice histórico.

O Ser é Bom, Belo e Verdadeiro, sendo a Beleza a bondade do Ser enquanto objeto da Apetição, e a Verdade a bondade do Ser enquanto objeto do Intelecto. Porém, mesmo essas qualificações não exprimem bem a simplicidade nem da realidade nos seus termos, e nem da nossa experiência dela. Porque refletem um certo abstracionismo filosófico, isto é, reconhece uma separação na mente que não existe nas coisas. O Intelecto que percebe as formas é o mesmo que se satisfaz com as suas qualidades. Só existe uma Percepção. A multiplicação das abstrações pode servir para um entendimento mais extenso, mas não deve ser usada para a ruptura da Unidade do Ser. Fico feliz com que esta leitura do Hípias Maior tenha servido para essa reflexão. Não se deve ter a falsa impressão de que o Belo, enquanto bondade do Ser como objeto da Apetição, não o seja também do Intelecto, algo que seria absurdo, pois a Apetição é o desejo de uma boa Percepção, o que quer dizer concretamente o Belo é sempre objeto do Intelecto, e é bom para o Intelecto, e é por isso que satisfaz a Apetição da Vontade. Dito de outro modo, Beleza e Verdade não são duas coisas diferentes, mas dois aspectos do mesmo Ser.

Ao fim do diálogo, depois de debaterem sobre como o que é belo pode ser tanto percebido pela visão quanto audição, Sócrates avança novamente na direção do entendimento do problema de como algo pode ter unidade e distinção ao mesmo tempo, isto é, o problema do Múltiplo a partir do Um, mas Hípias desiste. Reafirma a razão sofista dos discursos com finalidades tangíveis e debocha da filosofia, ao que Sócrates reage com resignação irônica, ao citar um adágio que diz “tudo que é belo é difícil”, obviamente cientificando a limitação de Hípias, pela sua desistência, e não a sua própria.

Nota espiritual: 5,1 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo4
Nota final5,1

“Ceder a si mesmo nada mais é senão ignorância, e controlar a si mesmo nada mais é senão sabedoria.”

Citação L0033-C03, em Protágoras, livro por PLATÃO.

Nesta parte valorosa do diálogo platônico encontramos testemunhos com potencial para importantes repercussões na nossa vida espiritual, e que merecem ser entendidos com maior detalhe.

Para começar, a expressão “preservação de nossa vida” deve ser entendida num sentido bastante amplo, significando a consumação ou realização da vida em todo o seu potencial, incluindo aí não apenas as causas material e eficiente que seriam mais facilmente compreendidas pela mentalidade moderna, mas também as causas formal e final, numa visão mais completa do que é o ser humano. Perdemos isso de vista na nossa cultura contemporânea, quase que totalmente. A preservação da vida condiz com toda a sua significação, inclusive e especialmente o sentido que existe na finalidade da vida, qual seja, aquilo que chamamos de felicidade.

Em seguida Platão, por meio de Sócrates, nos dá um grande testemunho gnóstico ao afirmar que “não há nada que seja mais poderoso do que o conhecimento”, mas isto, desde um ponto de vista, digamos, operacionalmente filosófico, é inevitável. Para o filósofo que opera a busca da sabedoria, o conhecimento é a coisa mais poderosa, e não seria possível discutir em favor de qualquer outra hipótese, desde que qualquer alternativa teria também ela a forma de um discurso, isto é, de um conhecimento. Psiquicamente, só existe o Logos. Neste âmbito, tudo é discurso, tudo é conhecimento. Assim, epistemologicamente, ou gnosiologicamente, o conhecimento é a coisa mais poderosa de todas, mas não ontologicamente. O ser humano que, embora só possa pensar psiquicamente, não vive apenas psiquicamente, mas integralmente no âmbito da totalidade de seu ser, pode e deve reconhecer aquilo que é mais forte, ou ao menos tão forte quanto o conhecimento, como o Bem, e o Amor. Neste ponto não podemos culpar Sócrates, ou Platão, por não ter dito o que gostaríamos de ouvir, se isso não fazia parte da sua busca particular, mas podemos sempre questionar porque não quiseram fazê-lo.

Sobre o conhecimento ideal “ser o da medição” do que é bom e mal, ou prazeroso e doloroso, o valor espiritual desta arte é o mesmo que nos qualifica para confiar nas promessas evangélicas. Por que, afinal, suportamos o peso temporário das coisas deste mundo, senão para o usufruto de um bem eterno com Deus? E se escolhemos confiar nesta promessa divina, não é por fazer uso de um muito razoável dispositivo de medição que calcula que o bem eterno é maior que o bem temporário? Isso tudo é evidente. Mas peço que me acompanhem na valorização particular da premissa do amor-próprio, ou daquilo que chamo de Monadofilia Primeira, como base de toda essa lógica, inclusive para sustentar a confiança na promessa divina. A crença numa vida eterna transhumanista, onde deixamos de ser humanos para viver uma “união mística”, ou para alcançar a “visão beatífica”, é uma violação da integridade dessa escolha racional. Deus mesmo diz: não me procurai no Caos. E nem na morte, aliás. De certo modo, o espírito desses gregos livres como Sócrates e Platão estava mais próximo da simplicidade do Evangelho do que os de muitas autoridades “cristãs” que vieram depois e que deveriam saber melhor.

A confissão explícita de que “o prazeroso é bom, e o doloroso, mau”, ainda que seja uma afirmação combinada com a do elogio da arte da medição do maior e do menor, é uma direta afirmação da bondade da realidade da vida humana tal como criada por Deus e, neste sentido, um testemunho anti-gnóstico. No que consiste, afinal, as consequências da Maldição, senão numa restrição da forma humana? Não há defeito na forma humana, mesmo quando vivemos sob uma condição decaída e amaldiçoada. Se houvesse tamanho engano, estaríamos na prisão gnóstica do Demiurgo, o que eventualmente será até proposto, senão como crença válida, ao menos como hipótese por Platão. Mas o Platão que escreveu Protágoras, e que deu testemunho destas palavras particulares de seu mestre Sócrates, fala contra essa concepção, e em defesa da confiança da bondade do prazer, e da maldade da dor, ainda que com a relativização temporal advinda da arte da medida.

Fazendo um breve aparte em favor da minha Monadofilia, esse testemunho é precioso, porque faz referência direta à operação elementar da mônada, isto é, a Percepção. Se entendermos que o prazer é a experiência subjetiva da Percepção de uma manifestação da Beleza divina, tudo fica correto na experiência humana desde já, ainda que experimentemos as restrições da Maldição, porque não desconfiamos do penhor da nossa esperança, isto é, do Amor de Deus que já nos agraciou com os sinais da sua Glória, as primícias da Eternidade.

Por fim, Platão dá um grande testemunho a favor dos dons de Louvor e Paixão ao afirmar que “ceder a si mesmo nada mais é senão ignorância, e controlar a si mesmo nada mais é senão sabedoria.” Quer dizer: a situação presente é apenas um ponto de passagem em direção ao futuro, e é só na contemplação panorâmica de toda a composição da nossa vida, incluindo aí especialmente a promessa da vida eterna, que podemos agir com sabedoria no momento atual.

Reparem que o autocontrole não significa não viver no presente, mas bem ao contrário, quer dizer viver ao máximo no presente, justamente com toda a sabedoria que podemos para entender o valor deste momento diante do Eterno.

Podemos, a qualquer momento, como diz o Apóstolo Paulo, usufruir das coisas do mundo, mas sem jamais nos deixarmos escravizar por nada. Isto é, sem trocar o bem maior por um bem menor, exatamente no ajuste que a arte da medição do maior e do menor nos auxilia.

E isto ocorre pela Graça de Deus: mesmo que Sócrates ou Platão não o reconheçam, esse não deixa de ser o nosso privilégio.

“Se Deus tinha permitido isso, então tinha que ser uma Celebração.”

Citação L0034-C01, em O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL.

Parece que o nosso treinamento na confusão da mistura de Luz e Trevas continua no quarto volume da série Filho do Fogo de Daniel Mastral (e Isabela).

Logo de cara a dupla está engajada na celebração do seu casamento, e encontramos esse testemunho acima, saído da pena de Isabela, que já requer a nossa análise e comentário. Esse tipo de coisa não pode passar despercebidamente. Meu trabalho é justamente o de fazer todos os apontamentos necessários para destacar o sentido espiritual das coisas que podem passar sem uma reflexão na leitura de terceiros.

Para começar, Isabela menciona as Bodas de Caná, e diz que “não havia mal algum em festejar“. Quer dizer, a mera presença de Jesus numa festa de casamento, por misericórdia, já serviu como aval para o sentido daquela ação humana. Uma visão mais extensa e compreensiva sobre o tema no âmbito da Bíblia, porém, poderia revelar sentidos diferentes, se Isabela quisesse ir atrás disso. Mas ela quer um endosso, um aval, para o desejo do seu coração. Mais adiante ela mesma confessa isso, o que nos dá a idéia de que, pelo menos da parte dela (de Daniel não sabemos), há mais ingenuidade do que malícia.

Para deixar claro, a presença de Jesus entre todas as pessoas, sempre foi uma ação de misericórdia, e não um aval divino à conduta humana. Mesmo quando estava entre seus amigos, os discípulos após o Pentecostes, Jesus afirma categoricamente que é melhor ele partir do que ficar entre a nossa raça, e que se soubessem para onde ele iria, todos concordariam. Isto é, a precariedade da condição humana, mesmo após a unção do Espírito Santo, é inescapável, e Deus não tem interesse em endossar nossos costumes e tradições. A presença de Jesus entre os nascidos das obras da carne não constitui aprovação desta situação, e muito menos das práticas oriundas dessa condição.

Ainda cabe-nos observar que se a ação de Isabela fosse totalmente de boa fé, ela não se veria na necessidade de justificar. Bendito é aquele que não se condena na decisão que toma. E toda ação que não é feita de boa fé, é pecado. Estou citando literalmente o Novo Testamento. Por que Isabela estaria justificando o seu desejo de festejar, se não fosse por uma luta contra uma condenação interior, e uma dúvida por falta de boa fé?

Mais adiante, Isabela reforça a sua linguagem no sentido que o seu casamento com Daniel fosse uma “Celebração“. Ela não quer que o matrimônio seja somente uma prática de acordo com um costume. Ela quer que isso tenha sentido espiritual, o que nos remete ao se tornar uma só carne, do Gênesis, possivelmente uma formulação que representa o sentido espiritual do Pacto Ouroboros. É importante pontuar isso para que fique claro que quem quer dar sentido maior ao matrimônio do casal Mastral não sou eu, mas Isabela e, a reboque, Daniel. Se eu busco o sentido espiritual deste testemunho, foi por uma provocação da parte deles neste sentido.

Mais adiante ela novamente declara a sua insegurança, apelando para o “se Deus tinha permitido isso“. Que engraçado. Desde a fundação do mundo Deus permitiu todos os homicídios, torturas, estupros, guerras, tirania e escravidão do mundo. Isto implica numa aprovação? É óbvio que não. O argumento de Isabela está totalmente vazio. Aliás, por um acaso (ou não?), a legitimação da ação humana com base na permissividade da Providência é um argumento satanista para o abuso da Liberdade humana. Teria Isabela talvez aprendido isso com Daniel?

O Altíssimo não permite o Mal, Ele permite a Liberdade.

É nossa responsabilidade desejar o Discernimento e, em todos os casos omissos, assumir humildemente, pela nossa ignorância, que não sabemos o que fazemos. O que Isabela faz é o contrário: abraçar o espírito de Presunção.

Logo adiante Isabela insiste nessa idéia de “Celebração”, e chega a afirmar que isto condiz com uma fidelidade de Deus à “Sua Aliança para conosco“. Que aliança é essa?

É a do Espírito Santo, revelada por Jesus Cristo, que mandou que amássemos a Deus acima de tudo, e não a Tradição dos homens, e que amássemos uns aos outros como irmãos? É desta Aliança que Isabela está falando?

Obviamente que não é. No contexto, essa “aliança” nada mais é do que o próprio Pacto Ouroboros, o Pecado Original, através do qual os casais se consagram ao Usurpador e oferecem suas vidas e as de seus filhos ao diabo.

Isabela afirma em seguida que “Deus já tinha preparado cada pedacinho do nosso casamento desde a fundação do mundo“. Quer dizer: Deus não tinha preparado a sua conversão ao seu Amor, e a busca da plena santidade. Deus não tinha preparado a sua fortaleza para carregar a cruz. Deus não tinha preparado a sua mansidão para o aceite da morte. Deus não tinha preparado a sua expectativa para a esperança da ressurreição. Não, tudo isso parece secundário. De todas essas coisas santas, Deus escolheu preparar, desde a fundação do mundo, o casamento do casal Mastral. Isto é o ser humano no seu elemento: colocando Deus a serviço de seus caprichos.

E para não me deixar mentir nessa interpretação, a citação encerra com Isabela afirmando que apresentou para Deus cada desejo, “especialmente do meu coração“. Isabela não está nem um pouco preocupada em entender qual é o desejo do coração de Deus, nem em discernir as coisas espirituais. Ela só quer saber de realizar a vontade do seu próprio coração, e Deus que sirva a Isabela. É a total inversão do “seja feita a Vossa vontade“.

Isto constitui quase que a total obscuridade da mônada, é a idolatria humanista em estado puro, configurada na forma da Tradição, isto é, no idealismo imanentista do passado, pelo costume da Religião.

“Com as bênçãos do abismo que jaz embaixo”

Citação L0034-C02, em O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL.

Quando eu achava que já tinha visto toda a maluquice imaginável nos testemunhos do casal Mastral, de repente sou surpreendido com um novo nível de insanidade, desta vez da parte de Grace, uma mulher supostamente avançadíssima na batalha espiritual contra as Trevas, e no discernimento das coisas de Deus. Esta mulher encerrou a cerimônia de casamento dos Mastral com estas palavras, que evidentemente requerem a nossa avaliação sobre o seu sentido espiritual.

Para começar, quem foi “Aquele que caminhou em íntima comunhão com o primeiro casal nos dias da sua felicidade pura“? Para saber isso, temos que entender o que qualifica a relação de Adão e Eva como a de um primeiro casal. Bem lido, o Gênesis mostra que apesar de estabelecida a união íntima, carnal (“uma só carne”), como um mandamento divino, se o testemunho da Palavra foi adulterado pelos mentirosos a serviço do Usurpador (“transformaram em mentira o cálamo do escriba”), em nenhum momento existe a consumação dessa união antes da Queda. Isto implica no mínimo na possibilidade de que Deus tenha criado uma companheira para Adão, Eva, que não possuía ainda a diferenciação de ser uma esposa, porque a liberdade adâmica ainda não tinha escolhido essa hipótese entre outras. Isto é, aquilo que Jesus afirma ao fim, que devemos nos amar por sermos irmãos uns dos outros, era uma possibilidade humana desde o início. Adão poderia ver Eva como sua companheira, irmã e amiga abaixo de Deus, e guardar em Deus todas a expectativa do próximo passo, isto é, esperar pela felicidade como um fruto do Amor divino, e não como conquista do seu Poder. A união carnal se consuma de fato após a Queda, e podemos entender facilmente que o que realmente constituiu a rejeição do Amor foi o desejo de consumar a felicidade como realização do Poder humano, isto é, que o Pecado Original foi a escolha, por Adão e Eva, de terem poder sobre si mesmos e sobre a natureza, à revelia do Amor divino. Assim, se entendermos o primeiro casal como aqueles que se uniram carnalmente para produzir as Obras da Carne, e não espiritualmente como irmãos e filhos de Deus, para produzir as Obras do Espírito, então “Aquele que caminhava com o primeiro casal” foi o Usurpador, a contraparte do Pacto Ouroboros.

Em seguida, novamente é mencionada as Bodas de Caná, como se fosse um endosso de Jesus ao costume do casamento, pela sua mera presença naquela festa. Aquilo que é uma misericórdia de Deus, e no máximo uma permissão para a consecução da Liberdade humana, se torna um aval. Quando foi que a Presença de Deus transformou o Mal em Bem? Quando foi que a participação de Jesus nas rotinas dos pecadores constituiu um endosso dele ao pecado? Nunca, jamais. Isso é uma perversão e um abuso da bondade divina.

No puro espírito de usurpação, Grace então diz “eu os abençoo“, como se isso estivesse em seu poder, exatamente na imitação de Jacó em suas bênçãos, que é o modelo da sua manifestação. Não temos problemas com Jacó, porque não podemos cobrar um personagem milenar pela linguagem traduzida aos nossos dias. Mas podemos cobrar os tradutores de hoje por, no mínimo, mal gosto, se não por algo pior.

Grace diz que eles são “ramos frutíferos“, mas de qual tipo de fruto? Fruto das Obras da Carne, ou fruto das Obra do Espírito? E então, quando ela afirma que eles são os ramos “cujos galhos ultrapassam os seus limites“, isto é uma manifestação da própria usurpação humana, ou da ação divina? Não poderia ser uma expressão a atividade divina, porque nenhum ramo ultrapassa o alcance da substância de Deus, de seu Amor. Os galhos que ultrapassam os limites de seus ramos são as descendências carnais que funcionam como imortalidade simbólica para os signatários espirituais do Pacto Ouroboros.

Depois, sem mais nem menos, Grace então menciona as estranhíssimas “bênçãos do abismo que jaz embaixo“, continuando no uso das fórmulas de bênção de Gênesis 49, especialmente as proferidas em favor de José. Embora naquela etapa da antiguidade nós pudéssemos aceitar essa linguagem, que seria apenas uma referência às águas primordiais da Criação, conforme ensina a tradição, um ouvido moderno pode e talvez deva entender outras acepções da mesma terminologia, especialmente da idéia do Abismo como Inferno, ou esconderijo das Trevas. Para um usuário rigoroso da linguagem bíblica, conhecedor das etimologias, etc., a fórmula pode parecer indiferente, ou até positiva, mas a maioria de nós não ocupa essa posição, e o Abismo é no mínimo uma imagem ambígua, se não for mesmo negativa. A ambiguidade não serve a Deus. Mas sabemos a quem pode servir. Por fim, cabe-nos ainda afirmar que Jacó, ao proferir suas bênçãos, estava mais produzindo uma Profecia a respeito da Casa de Israel, inclusive com a antecipação de males e desgraças, do que uma mera manifestação do desejo de um bem. Quando foi que recebemos de Deus a autonomia e o domínio para usar esse tipo tão particular de linguagem, que foi proferida no contexto de uma situação tão específica, para quaisquer circunstâncias que nos aprouvesse?

Na melhor das hipóteses, a manifestação da Grace é de mau gosto e gera confusão. Na pior das hipóteses, trata-se de uma manifestação no contexto de uma Celebração com fins espirituais obscuros.

“Temos procurado fazer a nossa parte, Ele tem que fazer a Dele.”

Citações L0034-C03/04, em O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL.

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Embora estas passagens tenham sido atenuadas, mais tarde, por um testemunho maior de entrega (para o nosso alívio), não deixa de ser uma formulação que merece ser comentada e criticada.

Para começar, a tal “unanimidade em todas as pessoas“, como uma “confirmação” da parte de Deus, não faz sentido nenhum. Ao contrário, biblicamente o que nós vemos é a confirmação pela quantidade gerar apenas o testemunho das Trevas, isto em vários casos, mas especialmente no caso da participação do povo no processo contra Jesus. Pedir confirmações para Deus já é um primeiro engano. E tomar a unanimidade dentro de um grupo como manifestação da confirmação de Deus, é outro engano.

Daí Eduardo (Daniel) continua num outro engano, sobre essa questão de que “Deus tem que nos sustentar!“, o que não é verdade desde Gênesis 3. Sob nenhum aspecto a Aliança de Reconciliação através de Jesus Cristo aboliu qualquer decreto divino anterior, e nem a total transcendência da razão divina que governa a Providência e está dispensada de dar suas razões aos seres humanos. Deus nos ama: nosso papel é apenas confiar nisso, repousar no Amor do Pai. Essa é a nossa verdadeira alegria e paz. Os Mastral estão lutando contra o Espírito Santo.

Na próxima citação, Daniel especula sobre o casamento tal como Deus o teria “idealizado”. Isso é uma doutrina humana baseada na Tradição Oral e no costume, e biblicamente na idéia da união carnal que pode (e deve) receber uma interpretação espiritual mais abrangente. Quando fala do “padrão bíblico”, Daniel faz uma série de escolhas nessa visão, e é por isso que afirma, por exemplo, que como homem ele precisa ser o provedor. A adesão dos Mastral ao Tradicionalismo, ou ao idealismo imanentista do passado, fica cada vez mais clara.

Por fim ele chega aos abusos mais tremendos, dizendo que “agora Ele tem que cuidar de nós“, e “Ele tem que fazer a [parte] Dele“, querendo dizer que por ter se convertido e buscado viver com Deus e para Deus, agora isso se converteu numa espécie de direito por contrapartida.

Eu preciso explicar o tamanho dessa ignorância?

O que atenua um pouco esse testemunho é a afirmação, mais tarde, de que é preciso se entregar mais e aceitar o que quer que seja do arbítrio divino, então estas citações merecem a ressalva da sua tempestividade. Apesar disso, que tal tenha sido o pensamento dos Mastral, ou pelo menos de Daniel, já mostra o quanto a conversão pelo meio religioso é fraca, mesmo depois de tantos vai e vens com as igrejas evangélicas. Nem o básico eles sabiam discernir. Do contrário, esse testemunho seria impossível.

“Agora preciso ver!”

Citação L0034-C05, em O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL.

Grace, a personagem super esclarecida, ungida, preparada, etc., afirma que o Apóstolo Paulo “nos incentiva a buscar o sobrenatural de Deus“. Isto é uma interpretação enviesada, para não dizer pervertida, do que significa buscar os dons do Espírito Santo. Temos vários exemplos do ensino de uma doutrina claríssima que dá o testemunho da vida espiritual como vida interior, pela Fé e não por sinais.

Bem ao contrário, a busca do sobrenatural por sinais e prodígios é exatamente o que o Anticristo espera, da parte dos ignorantes, como meio de confirmação do seu Poder e da sua Autoridade sobre o mundo que jaz na total mentira diabólica.

O que devemos buscar como consequência da vida na Presença é o dom espiritual de confiar o Amor divino, também chamado de Fé, e não sinais do sobrenatural. É exatamente a inversão da verdade. Por isso mesmo disse que parece ser uma perversão.

Quando Isabela diz “não vou conseguir continuar se Deus não me atender“, ela mostra que não discerniu os dons espirituais que recebeu no seu coração, que seriam mais do que suficiente para lidar com quaisquer tribulações. E isto nós evidenciamos facilmente pela própria linguagem dela: Deus só é valorizado como um veículo da realização dos desejos do casal, ou seja, para o sucesso dos seus planos. Em nenhum momento Isabela, ou mesmo Daniel, mostra a menor dúvida a respeito da vontade divina não ser igual a deles.

O que é que Isabela diz que “precisa ver”, afinal?

Ela quer ver o sucesso dos seus planos.

Mesmo quando ela afirma quer ver as coisas sobrenaturais que Daniel vê, isso só serve para obter através delas a confiança de que eventualmente os seus planos seriam realizados.

A intenção de Isabela está totalmente formada pela sua obsessão com uma vida em que Deus não é o centro nem a prioridade, mas apenas um auxiliar para os desejos do seu coração. É um espírito de Presunção.

Não me entendam mal: não há defeito no desejo humano, desde que ele seja entregue aos pés de Deus. Não sabemos se queremos o bem ou não, mas Deus sabe. Por isso devemos desejar a realização da vontade de Deus, e não a nossa, porque Deus sabe melhor. Isso é a Humildade.

O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL

Apesar de ser um livro chato, cheio de expressões feias e gerúndios irritantes (muito irritantes!), ao menos em O Treinamento Continua o casal Mastral pôde dar sinais de alguma Humildade em decorrência do seu sofrimento. Infelizmente isso custou muito mais caro do que deveria. Mas parece que entenderam que é preciso aceitar toda a vontade de Deus, o que sempre se resume na docilidade diante do decreto de Gênesis 3. Ainda assim abundam as infantilidades de Isabela, e aquelas expressões meigas que tanto entediam: é “Gatinha” para cá, “Neném” para lá, etc. É preciso ter paciência para ler isto. Se não me tivesse sido dado como tarefa, eu mesmo abandaria a leitura rapidamente.

Neste livro descobrimos, ou confirmamos uma suspeita anteriormente aventada, que Daniel é filho de Marlon, seu iniciador na Irmandade satanista.

O que não ocorre aos autores é o simbolismo desta história, já que bem observados os fatos da realidade da condição humana, desde a perspectiva maior do Pacto Ouroboros (o Pecado Original), todos os filhos gerados pelas Obras da Carne desde Adão são voluntaria ou involuntariamente oferecidos para o diabo como oferta para a continuidade da construção da civilização da Usurpação. Isto é: o que Marlon fez com Daniel nada mais é do que uma ação explícita que revela o sentido do que em geral significa a paternidade em todos os casos.

Ultimamente tenho eu mesmo voltado a esse tema na minha mente com mais profundidade. Percebi que é preciso ter essa clareza específica: embora a RSMM de uma alma indique a conveniência do seu nascimento enquanto Sindar, se todos as almas com o potencial de assumir a contrapartida (maternidade ou paternidade) se recusarem terminantemente a fazê-lo (por não constituir a sua própria RSMM), aquela alma carente desse tipo de experiência da mistura pode ser um novo Adão a qualquer momento, ou, caso precise especificamente da experiência da filiação carnal, pode ser filho ou filha de um Periannath com esta função específica, o que poderia resultar num caso de Simulação total, ou uma mistura de Simulação com Mútua Representação. De qualquer modo, e em qualquer caso, é importante entender, de uma vez por todas, que se uma pessoa precisa experimentar a Queda, isso não exige que nenhuma alma livre seja obrigada a produzir isto, senão por arbítrio da sua própria RSMM.

De resto, o casal continua com suas confusões anteriores, todas produzidas certamente pela sua formação no âmbito da religião cristã (especificamente Evangélica), o que obstrui e complica a pureza da vida espiritual todas as vezes. Vira e mexe Isabela vem com a novidade de tributar graças a um tal de “Jeová Jireh”, supostamente uma mera referência a “o Senhor proverá” de Abraão no caminho do sacrifício, mas porque raios não usa o português, que sabe o que significa com clareza, e mantém o uso de uma língua que não conhece? Deus se torna mais Deus, ou nós nos tornamos seus melhores amantes, se usamos a língua hebraica?

Eles quiseram publicar o livro O Filho do Fogo, mas não em primeiro lugar para dar um testemunho bom para o próximo, e sim para se beneficiarem disso. Quem afirma isso é a nossa amável praticante de sincericídios em massa, Isabela: “esse seria um final absurdo para essa história: eu morrer alguns dias antes da publicação do livro. Se isso acontecer, não tem sentido publicar nada. E dois meses depois da publicação, se Eduardo morrer, também fica sem sentido“. Nenhuma entrega da morte ao comando divino, nenhuma paz e alegria na Providência, só essa maluquice do toma-lá-dá-cá. Gostaria de dizer que Isabela mostra sinais apenas de egoísmo, eventualmente, mas sua carência chega ao ponto do narcisismo muitas vezes, quando ela mostra um desligamento psíquico quase que total das circunstâncias reais de sua vida, e se dispõe a ver o mundo somente desde o ponto de vista de seu capricho pessoal, como uma menina mimada.

Daniel, por outro lado, também continua se comportando irresponsavelmente, faz o que não convém e depois diz que esqueceu, como se estivesse fora de si por uma influência demoníaca, principalmente quando brigava com a esposa, para não ter que dar satisfações pelas suas ações. Muito conveniente. Por que alguém que presa tanto por sua independência e liberdade desejou justamente se casar, ou seja, dividir sua independência e liberdade com outra alma? Ou ele não sabia o que estava fazendo, como grande parte da humanidade, ou, o que é muito pior, sabia o que estava fazendo. Existe a hipótese, por menor que seja, que Daniel tenha empreendido uma grande manipulação no seu casamento com Isabela, já que ela tem a característica de ser muito vulnerável pela sua carência excessiva. Infelizmente, devido ao teor muito fantástico da história como um todo, não podemos descartar essa hipótese de manipulação, e nem que Daniel Mastral não tenha inventado a maior parte das coisas relatadas na coleção Filho do Fogo. Só Deus sabe, e só Deus julga. Mas não podemos ser ingênuos, porque a Vigilância é nossa responsabilidade. Não é culpa nossa que outros queiram nos enganar, mas é culpa nossa se nos deixamos enganar por influência do espírito de Ingenuidade.

Sendo generosos como nos manda o bom Deus, no mínimo Daniel manteve aberta a porta espiritual da ira, o que foi possivelmente o mais antigo e persistente meio de influência dos espíritos infernais.

De modo geral é possível enxergar a obra Filho do Fogo, como um todo (pelo menos até o quarto volume), como um trabalho com a intenção do elogio da Vigilância, embora na prática isso de pouco tenha servido devido ao engano da escolha do outro lado da dialética do Ouroboros como alternativa, isto é, contra o esoterismo gnóstico da Irmandade, a recomendação do exoterismo gnóstico da Religião.

É conveniente para Mastral afirmar que viveu uma história interessante, como experiência real, mas contar com a proteção de uma obra “baseada em fatos reais”, e registrada como Literatura de Ficção. Qual foi a porcentagem de ganhos auferidos pela confusão, perante o público geral, entre realidade e ficção? Quando Daniel afirma que ele, pessoalmente, foi escolhido como o quarto grande líder global debaixo do Anticristo, para encarnar o demônio Leviatã em pessoa, perguntamo-nos: cui bono? Os Mastral.

Nota espiritual: 4,3 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota Final4,3

“Aquele que não conhece será mais convincente ao dirigir-se aos ignorantes do que aquele que conhece.”

Citação L0035-C01, em Górgias, livro por PLATÃO.

Temos um grande, e na verdade insolúvel, problema aqui: os ignorantes não podem conferir quem possui ou não a autoridade para discursar a respeito daquilo que ignoram.

A conclusão deve ser a de que todas as provisões sociais de certificação são em última análise precárias no que concerne aos temas mais fundamentais que não podem ser conferidos por resultados, como a qualidade da vida espiritual, a Salvação da alma, etc.

Apesar de o objetivo inicial da filosofia platônica em um documento como o Górgias ser o descrédito da doxa, ao fim, bem entendidos os limites intransponíveis da ignorância humana, e os perigos da Presunção, terminamos por obter uma recomendação indireta do dom da Soberania.

Sócrates (e/ou Platão) foi responsável por essa importante conquista do espírito humano na história: a admissão da sua falibilidade, e da sua grande capacidade para transformar a mentira numa arte.