“Se fosse necessário cometer injustiça ou sofrê-la, escolheria sofrê-la de preferência a cometê-la.”

Citação L0035-C02, em Górgias, livro por PLATÃO.

Neste alto ponto moral da filosofia socrática-platônica, reconhecemos já os ecos mais promissores de uma consciência da realidade espiritual, para não dizer até mesmo monádica.

O mal é um fato espiritual que existe, como tal, no interior da alma humana.

Naquilo que normalmente presumiríamos consistir a maldade, isto é, nos seus efeitos na vida exterior, Sócrates vê somente consequências de movimentos interiores que são não somente mais relevantes como causas, mas também mais persistentes por qualificar o estado espiritual de um sujeito agente.

Ser bom, ou ser mau, é algo que está, portanto, totalmente sob o nosso controle: podemos não controlar os efeitos da maldade alheia sobre a nossa vida, mas temos o total domínio da nossa qualidade moral de disposição e da nossa reação ao mundo que nos cerca.

Quando depois os estóicos elogiarão o autocontrole e o autodomínio, nada mais farão do que continuar esse legado da autoconsciência moral humana iniciada pelo menos desde Sócrates.

Igualmente, quando os gregos receberem o Evangelho que recomenda a mansidão contra todo tipo de maldade e agressão, suas almas não serão totalmente surpreendidas com essa solução espiritual. Deus já havia, afinal, visitado as nações com a sua Lei do Amor, cada qual nutrindo aquilo a que pudesse se dispor ouvir.

Reparem, na postura de Sócrates, que ele não deixa de ser humano, e nem recomenda que vivamos uma ilusão: entre sofrer ou causar um mal, ele prefere não participar nem como paciente, e nem como agente. Não há masoquismo, não há nenhuma Cruz forçada, ou voluntária. O que há é uma escolha, quando não existe escapatória, de aceitar o mal infringido como algo melhor do que infringir o mal aos outros.

Terminadas as experiências morais provisórias e temporárias neste mundo, que restará das nossas almas, senão aquilo que cultivamos no nosso interior diante de Deus?

Sócrates tem essa preocupação. Embora use uma mitologia datada e localizada, com os três juízes Aiaco, Radamanto, e Minos, fazendo o papel do Juízo Final de Deus, a idéia de uma Justiça imortal não deixa de acertar ao menos parcialmente no seu alvo. Até a idéia de recompensas ou punições depois da morte terrena é secundária à importância do bem da Justiça em si mesma.

“Ceder a si mesmo nada mais é senão ignorância, e controlar a si mesmo nada mais é senão sabedoria.”

Citação L0033-C03, em Protágoras, livro por PLATÃO.

Nesta parte valorosa do diálogo platônico encontramos testemunhos com potencial para importantes repercussões na nossa vida espiritual, e que merecem ser entendidos com maior detalhe.

Para começar, a expressão “preservação de nossa vida” deve ser entendida num sentido bastante amplo, significando a consumação ou realização da vida em todo o seu potencial, incluindo aí não apenas as causas material e eficiente que seriam mais facilmente compreendidas pela mentalidade moderna, mas também as causas formal e final, numa visão mais completa do que é o ser humano. Perdemos isso de vista na nossa cultura contemporânea, quase que totalmente. A preservação da vida condiz com toda a sua significação, inclusive e especialmente o sentido que existe na finalidade da vida, qual seja, aquilo que chamamos de felicidade.

Em seguida Platão, por meio de Sócrates, nos dá um grande testemunho gnóstico ao afirmar que “não há nada que seja mais poderoso do que o conhecimento”, mas isto, desde um ponto de vista, digamos, operacionalmente filosófico, é inevitável. Para o filósofo que opera a busca da sabedoria, o conhecimento é a coisa mais poderosa, e não seria possível discutir em favor de qualquer outra hipótese, desde que qualquer alternativa teria também ela a forma de um discurso, isto é, de um conhecimento. Psiquicamente, só existe o Logos. Neste âmbito, tudo é discurso, tudo é conhecimento. Assim, epistemologicamente, ou gnosiologicamente, o conhecimento é a coisa mais poderosa de todas, mas não ontologicamente. O ser humano que, embora só possa pensar psiquicamente, não vive apenas psiquicamente, mas integralmente no âmbito da totalidade de seu ser, pode e deve reconhecer aquilo que é mais forte, ou ao menos tão forte quanto o conhecimento, como o Bem, e o Amor. Neste ponto não podemos culpar Sócrates, ou Platão, por não ter dito o que gostaríamos de ouvir, se isso não fazia parte da sua busca particular, mas podemos sempre questionar porque não quiseram fazê-lo.

Sobre o conhecimento ideal “ser o da medição” do que é bom e mal, ou prazeroso e doloroso, o valor espiritual desta arte é o mesmo que nos qualifica para confiar nas promessas evangélicas. Por que, afinal, suportamos o peso temporário das coisas deste mundo, senão para o usufruto de um bem eterno com Deus? E se escolhemos confiar nesta promessa divina, não é por fazer uso de um muito razoável dispositivo de medição que calcula que o bem eterno é maior que o bem temporário? Isso tudo é evidente. Mas peço que me acompanhem na valorização particular da premissa do amor-próprio, ou daquilo que chamo de Monadofilia Primeira, como base de toda essa lógica, inclusive para sustentar a confiança na promessa divina. A crença numa vida eterna transhumanista, onde deixamos de ser humanos para viver uma “união mística”, ou para alcançar a “visão beatífica”, é uma violação da integridade dessa escolha racional. Deus mesmo diz: não me procurai no Caos. E nem na morte, aliás. De certo modo, o espírito desses gregos livres como Sócrates e Platão estava mais próximo da simplicidade do Evangelho do que os de muitas autoridades “cristãs” que vieram depois e que deveriam saber melhor.

A confissão explícita de que “o prazeroso é bom, e o doloroso, mau”, ainda que seja uma afirmação combinada com a do elogio da arte da medição do maior e do menor, é uma direta afirmação da bondade da realidade da vida humana tal como criada por Deus e, neste sentido, um testemunho anti-gnóstico. No que consiste, afinal, as consequências da Maldição, senão numa restrição da forma humana? Não há defeito na forma humana, mesmo quando vivemos sob uma condição decaída e amaldiçoada. Se houvesse tamanho engano, estaríamos na prisão gnóstica do Demiurgo, o que eventualmente será até proposto, senão como crença válida, ao menos como hipótese por Platão. Mas o Platão que escreveu Protágoras, e que deu testemunho destas palavras particulares de seu mestre Sócrates, fala contra essa concepção, e em defesa da confiança da bondade do prazer, e da maldade da dor, ainda que com a relativização temporal advinda da arte da medida.

Fazendo um breve aparte em favor da minha Monadofilia, esse testemunho é precioso, porque faz referência direta à operação elementar da mônada, isto é, a Percepção. Se entendermos que o prazer é a experiência subjetiva da Percepção de uma manifestação da Beleza divina, tudo fica correto na experiência humana desde já, ainda que experimentemos as restrições da Maldição, porque não desconfiamos do penhor da nossa esperança, isto é, do Amor de Deus que já nos agraciou com os sinais da sua Glória, as primícias da Eternidade.

Por fim, Platão dá um grande testemunho a favor dos dons de Louvor e Paixão ao afirmar que “ceder a si mesmo nada mais é senão ignorância, e controlar a si mesmo nada mais é senão sabedoria.” Quer dizer: a situação presente é apenas um ponto de passagem em direção ao futuro, e é só na contemplação panorâmica de toda a composição da nossa vida, incluindo aí especialmente a promessa da vida eterna, que podemos agir com sabedoria no momento atual.

Reparem que o autocontrole não significa não viver no presente, mas bem ao contrário, quer dizer viver ao máximo no presente, justamente com toda a sabedoria que podemos para entender o valor deste momento diante do Eterno.

Podemos, a qualquer momento, como diz o Apóstolo Paulo, usufruir das coisas do mundo, mas sem jamais nos deixarmos escravizar por nada. Isto é, sem trocar o bem maior por um bem menor, exatamente no ajuste que a arte da medição do maior e do menor nos auxilia.

E isto ocorre pela Graça de Deus: mesmo que Sócrates ou Platão não o reconheçam, esse não deixa de ser o nosso privilégio.

“Se Deus tinha permitido isso, então tinha que ser uma Celebração.”

Citação L0034-C01, em O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL.

Parece que o nosso treinamento na confusão da mistura de Luz e Trevas continua no quarto volume da série Filho do Fogo de Daniel Mastral (e Isabela).

Logo de cara a dupla está engajada na celebração do seu casamento, e encontramos esse testemunho acima, saído da pena de Isabela, que já requer a nossa análise e comentário. Esse tipo de coisa não pode passar despercebidamente. Meu trabalho é justamente o de fazer todos os apontamentos necessários para destacar o sentido espiritual das coisas que podem passar sem uma reflexão na leitura de terceiros.

Para começar, Isabela menciona as Bodas de Caná, e diz que “não havia mal algum em festejar“. Quer dizer, a mera presença de Jesus numa festa de casamento, por misericórdia, já serviu como aval para o sentido daquela ação humana. Uma visão mais extensa e compreensiva sobre o tema no âmbito da Bíblia, porém, poderia revelar sentidos diferentes, se Isabela quisesse ir atrás disso. Mas ela quer um endosso, um aval, para o desejo do seu coração. Mais adiante ela mesma confessa isso, o que nos dá a idéia de que, pelo menos da parte dela (de Daniel não sabemos), há mais ingenuidade do que malícia.

Para deixar claro, a presença de Jesus entre todas as pessoas, sempre foi uma ação de misericórdia, e não um aval divino à conduta humana. Mesmo quando estava entre seus amigos, os discípulos após o Pentecostes, Jesus afirma categoricamente que é melhor ele partir do que ficar entre a nossa raça, e que se soubessem para onde ele iria, todos concordariam. Isto é, a precariedade da condição humana, mesmo após a unção do Espírito Santo, é inescapável, e Deus não tem interesse em endossar nossos costumes e tradições. A presença de Jesus entre os nascidos das obras da carne não constitui aprovação desta situação, e muito menos das práticas oriundas dessa condição.

Ainda cabe-nos observar que se a ação de Isabela fosse totalmente de boa fé, ela não se veria na necessidade de justificar. Bendito é aquele que não se condena na decisão que toma. E toda ação que não é feita de boa fé, é pecado. Estou citando literalmente o Novo Testamento. Por que Isabela estaria justificando o seu desejo de festejar, se não fosse por uma luta contra uma condenação interior, e uma dúvida por falta de boa fé?

Mais adiante, Isabela reforça a sua linguagem no sentido que o seu casamento com Daniel fosse uma “Celebração“. Ela não quer que o matrimônio seja somente uma prática de acordo com um costume. Ela quer que isso tenha sentido espiritual, o que nos remete ao se tornar uma só carne, do Gênesis, possivelmente uma formulação que representa o sentido espiritual do Pacto Ouroboros. É importante pontuar isso para que fique claro que quem quer dar sentido maior ao matrimônio do casal Mastral não sou eu, mas Isabela e, a reboque, Daniel. Se eu busco o sentido espiritual deste testemunho, foi por uma provocação da parte deles neste sentido.

Mais adiante ela novamente declara a sua insegurança, apelando para o “se Deus tinha permitido isso“. Que engraçado. Desde a fundação do mundo Deus permitiu todos os homicídios, torturas, estupros, guerras, tirania e escravidão do mundo. Isto implica numa aprovação? É óbvio que não. O argumento de Isabela está totalmente vazio. Aliás, por um acaso (ou não?), a legitimação da ação humana com base na permissividade da Providência é um argumento satanista para o abuso da Liberdade humana. Teria Isabela talvez aprendido isso com Daniel?

O Altíssimo não permite o Mal, Ele permite a Liberdade.

É nossa responsabilidade desejar o Discernimento e, em todos os casos omissos, assumir humildemente, pela nossa ignorância, que não sabemos o que fazemos. O que Isabela faz é o contrário: abraçar o espírito de Presunção.

Logo adiante Isabela insiste nessa idéia de “Celebração”, e chega a afirmar que isto condiz com uma fidelidade de Deus à “Sua Aliança para conosco“. Que aliança é essa?

É a do Espírito Santo, revelada por Jesus Cristo, que mandou que amássemos a Deus acima de tudo, e não a Tradição dos homens, e que amássemos uns aos outros como irmãos? É desta Aliança que Isabela está falando?

Obviamente que não é. No contexto, essa “aliança” nada mais é do que o próprio Pacto Ouroboros, o Pecado Original, através do qual os casais se consagram ao Usurpador e oferecem suas vidas e as de seus filhos ao diabo.

Isabela afirma em seguida que “Deus já tinha preparado cada pedacinho do nosso casamento desde a fundação do mundo“. Quer dizer: Deus não tinha preparado a sua conversão ao seu Amor, e a busca da plena santidade. Deus não tinha preparado a sua fortaleza para carregar a cruz. Deus não tinha preparado a sua mansidão para o aceite da morte. Deus não tinha preparado a sua expectativa para a esperança da ressurreição. Não, tudo isso parece secundário. De todas essas coisas santas, Deus escolheu preparar, desde a fundação do mundo, o casamento do casal Mastral. Isto é o ser humano no seu elemento: colocando Deus a serviço de seus caprichos.

E para não me deixar mentir nessa interpretação, a citação encerra com Isabela afirmando que apresentou para Deus cada desejo, “especialmente do meu coração“. Isabela não está nem um pouco preocupada em entender qual é o desejo do coração de Deus, nem em discernir as coisas espirituais. Ela só quer saber de realizar a vontade do seu próprio coração, e Deus que sirva a Isabela. É a total inversão do “seja feita a Vossa vontade“.

Isto constitui quase que a total obscuridade da mônada, é a idolatria humanista em estado puro, configurada na forma da Tradição, isto é, no idealismo imanentista do passado, pelo costume da Religião.

“Com as bênçãos do abismo que jaz embaixo”

Citação L0034-C02, em O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL.

Quando eu achava que já tinha visto toda a maluquice imaginável nos testemunhos do casal Mastral, de repente sou surpreendido com um novo nível de insanidade, desta vez da parte de Grace, uma mulher supostamente avançadíssima na batalha espiritual contra as Trevas, e no discernimento das coisas de Deus. Esta mulher encerrou a cerimônia de casamento dos Mastral com estas palavras, que evidentemente requerem a nossa avaliação sobre o seu sentido espiritual.

Para começar, quem foi “Aquele que caminhou em íntima comunhão com o primeiro casal nos dias da sua felicidade pura“? Para saber isso, temos que entender o que qualifica a relação de Adão e Eva como a de um primeiro casal. Bem lido, o Gênesis mostra que apesar de estabelecida a união íntima, carnal (“uma só carne”), como um mandamento divino, se o testemunho da Palavra foi adulterado pelos mentirosos a serviço do Usurpador (“transformaram em mentira o cálamo do escriba”), em nenhum momento existe a consumação dessa união antes da Queda. Isto implica no mínimo na possibilidade de que Deus tenha criado uma companheira para Adão, Eva, que não possuía ainda a diferenciação de ser uma esposa, porque a liberdade adâmica ainda não tinha escolhido essa hipótese entre outras. Isto é, aquilo que Jesus afirma ao fim, que devemos nos amar por sermos irmãos uns dos outros, era uma possibilidade humana desde o início. Adão poderia ver Eva como sua companheira, irmã e amiga abaixo de Deus, e guardar em Deus todas a expectativa do próximo passo, isto é, esperar pela felicidade como um fruto do Amor divino, e não como conquista do seu Poder. A união carnal se consuma de fato após a Queda, e podemos entender facilmente que o que realmente constituiu a rejeição do Amor foi o desejo de consumar a felicidade como realização do Poder humano, isto é, que o Pecado Original foi a escolha, por Adão e Eva, de terem poder sobre si mesmos e sobre a natureza, à revelia do Amor divino. Assim, se entendermos o primeiro casal como aqueles que se uniram carnalmente para produzir as Obras da Carne, e não espiritualmente como irmãos e filhos de Deus, para produzir as Obras do Espírito, então “Aquele que caminhava com o primeiro casal” foi o Usurpador, a contraparte do Pacto Ouroboros.

Em seguida, novamente é mencionada as Bodas de Caná, como se fosse um endosso de Jesus ao costume do casamento, pela sua mera presença naquela festa. Aquilo que é uma misericórdia de Deus, e no máximo uma permissão para a consecução da Liberdade humana, se torna um aval. Quando foi que a Presença de Deus transformou o Mal em Bem? Quando foi que a participação de Jesus nas rotinas dos pecadores constituiu um endosso dele ao pecado? Nunca, jamais. Isso é uma perversão e um abuso da bondade divina.

No puro espírito de usurpação, Grace então diz “eu os abençoo“, como se isso estivesse em seu poder, exatamente na imitação de Jacó em suas bênçãos, que é o modelo da sua manifestação. Não temos problemas com Jacó, porque não podemos cobrar um personagem milenar pela linguagem traduzida aos nossos dias. Mas podemos cobrar os tradutores de hoje por, no mínimo, mal gosto, se não por algo pior.

Grace diz que eles são “ramos frutíferos“, mas de qual tipo de fruto? Fruto das Obras da Carne, ou fruto das Obra do Espírito? E então, quando ela afirma que eles são os ramos “cujos galhos ultrapassam os seus limites“, isto é uma manifestação da própria usurpação humana, ou da ação divina? Não poderia ser uma expressão a atividade divina, porque nenhum ramo ultrapassa o alcance da substância de Deus, de seu Amor. Os galhos que ultrapassam os limites de seus ramos são as descendências carnais que funcionam como imortalidade simbólica para os signatários espirituais do Pacto Ouroboros.

Depois, sem mais nem menos, Grace então menciona as estranhíssimas “bênçãos do abismo que jaz embaixo“, continuando no uso das fórmulas de bênção de Gênesis 49, especialmente as proferidas em favor de José. Embora naquela etapa da antiguidade nós pudéssemos aceitar essa linguagem, que seria apenas uma referência às águas primordiais da Criação, conforme ensina a tradição, um ouvido moderno pode e talvez deva entender outras acepções da mesma terminologia, especialmente da idéia do Abismo como Inferno, ou esconderijo das Trevas. Para um usuário rigoroso da linguagem bíblica, conhecedor das etimologias, etc., a fórmula pode parecer indiferente, ou até positiva, mas a maioria de nós não ocupa essa posição, e o Abismo é no mínimo uma imagem ambígua, se não for mesmo negativa. A ambiguidade não serve a Deus. Mas sabemos a quem pode servir. Por fim, cabe-nos ainda afirmar que Jacó, ao proferir suas bênçãos, estava mais produzindo uma Profecia a respeito da Casa de Israel, inclusive com a antecipação de males e desgraças, do que uma mera manifestação do desejo de um bem. Quando foi que recebemos de Deus a autonomia e o domínio para usar esse tipo tão particular de linguagem, que foi proferida no contexto de uma situação tão específica, para quaisquer circunstâncias que nos aprouvesse?

Na melhor das hipóteses, a manifestação da Grace é de mau gosto e gera confusão. Na pior das hipóteses, trata-se de uma manifestação no contexto de uma Celebração com fins espirituais obscuros.

“Tínhamos a certeza de que agora era Ele que daria as diretrizes.”

Citação L-0032-C05, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.

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Esta formulação está até que próxima do acerto, aparentemente, mas ainda apresenta uma linguagem defeituosa que requer uma correção, ou no mínimo uma ressalva.

Quando Isabela diz que “agora era Ele que daria as diretrizes”, ela confunde o que é uma mudança da sua consciência a respeito da realidade, com o que é real em si.

O que muda quando eles fizeram “a nossa parte”? O que aconteceu quando eles entregaram “aquele problema nas mãos de Deus?”

No mundo das realidades, não aconteceu absolutamente nada. Ou melhor, aconteceu que, repousando na Providência, eles diminuíram a sua exposição ao espírito de Terror, ou seja, abriram seus corações para receber o dom da Paixão. Isto é: na melhor das hipóteses, se a oração foi verdadeira, o que mudou foi a disposição espiritual dos fiéis.

Mas a presunção humanista e antropocêntrica é tão forte que na sua linguagem Isabela dá a entender que agora Deus é que teria o domínio da situação, só agora, depois que eles, Isabela e Daniel, entregaram o problema para Deus!

A situação nunca esteve fora do domínio divino, ou Deus não seria Deus.

A fraca fé do casal Mastral dá a entender que Deus depende do arbítrio humano para ser Onipotente, quando no máximo o que depende de nós é o alcance dos dons divinos, como o da Paixão, por termos a liberdade de aceitar ou não a realidade de que Deus está, como sempre esteve, no total domínio de todas as situações.

Por esse tipo de engano comum a respeito desse tipo de coisa é que eu insisto tanto em abordar a vida espiritual como vida interior, e especialmente no ponto de vista monadofílico em que toda a realidade é uma mera manifestação da unidade do nosso ser, de modo que a indeterminação que precisa ser definida é sempre a da nossa disposição de aceitar ou não a supremacia do Amor divino. É só isso o que interessa! E é por isso que o amor a Deus é o Primeiro Mandamento. Isto é a essência e o fundamento da vida espiritual.

Essas considerações a respeito da interferência nas coisas do mundo, e pior ainda, nas consecuções das diretrizes do inimigo, tudo isso é uma perda de tempo derivada do engano da Idolatria. Se vivemos na Presença do Senhor, imediatamente dispensamos todas essas confusões e dispersões da nossa alma, e nos concentramos na única coisa que interessa: a satisfação de viver na confiança amorosa na bondade do nosso Pai.

Mas essa satisfação é restrita àqueles que querem ser amados, e infelizmente parece que essa sempre é uma minoria.

“Eles são inteligentes, muito inteligentes… muito mais do que os homens!”

Citação L0032-C06, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.

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Que testemunho desgraçado e infeliz!

Isso é o contrário de toda a verdade do Evangelho, e mesmo do espírito dos Profetas desde o Antigo Testamento.

A felicidade do fiel está fundada na indiferença quanto à inferioridade da raça humana diante de todo o resto da Criação, inclusive os anjos, justamente porque somos amados pelo Criador de todas as coisas, Aquele que está infinitamente acima de qualquer poder ou inteligência que tenha criado.

Pior ainda, Jesus decreta a nossa paz no seu triunfo, quando afirma que apesar de vivermos tribulações momentâneas, que devemos ter um bom ânimo, porque Ele venceu o mundo. Isto é uma obrigação para os cristãos. A abominação demoníaca não é nada diante da majestade divina, e nós, enquanto fiéis ao Amor divino, somos cobertos pelo verdadeiro Poder.

O testemunho de Isabela é tão abominável que chegamos perto da suspeita de que na verdade Daniel Mastral continuou fiel à sua Irmandade satanista até o fim, e que a sua verdadeira missão não era a de participar da política nacional, mas de infiltrar as fileiras das igrejas e envenenar a cultura evangélica com o testemunho do espírito do Terror, ou Pacto com o Inferno.

Não posso afirmar que isto seja verdade. Mas também não posso afirmar que não o seja, e nem tenho autorização para dispensar esta suspeita. De acordo com a instrução do dom de Vigilância, devemos redobrar agora a guarda sobre quaisquer testemunhos que saiam da pena ou da boca do casal Mastral.

Como pode um cristão ter tempo para exaltar os poderes infernais, ao invés de decretar a absoluta supremacia do Altíssimo?

Por exemplo, falemos apenas de dois aspectos do erro monstruoso desse testemunho das trevas, para dar uma amostra de como seria fácil quebrar toda essa lógica, caso eles quisessem.

Primeiro, se os demônios fossem inteligentes, eles não rejeitariam a vida na Presença, sob a Graça divina. Qual é a inteligência de desprezar o Amor divino? Ao contrário, se há uma grande burrice, uma grande estupidez acima de todas as outras, é justamente a do Orgulho. Inteligência, afinal, é o poder de reconhecer a verdade, e a verdade do Ser é a sua constituição pela forma e finalidade do Sumo Bem. O espírito de Orgulho é uma cegueira arrogante e estúpida, nada mais do que isso. Se os demônios possuem uma inteligência operacional capaz de enganar os seres humanos, isso se dá pela grande justiça que provém da imitação humana daquele espírito de Orgulho infernal. Ou seja, quando a burrice humana decide acompanhar a soberba demoníaca, aí com toda razão a inteligência infernal tem pleno direito de enganar e dominar as suas vítimas humanas, em virtude da perversão do arbítrio destas, especialmente no desprezo ao Amor divino.

Segundo, a “armadilha certeira” dos demônios nunca escapou, desde a Eternidade, dos planos infalíveis da Providência, que tem o poder de converter toda a maldade em um destino adequado para a plena realização da Obra divina. A suposta certidão das armadilhas demoníacas só pode aterrorizar justamente o coração daquele que é fraco na sua fé, e que acha que algo ainda pode escapar do domínio divino de algum modo. O cristão tem o prazer de cair mil vezes, se for o caso, nas armadilhas dos seus inimigos, porque se isso não derivou de seu vício de desconfiança do Amor divino, é apenas mais um abuso que constitui o caminho da Cruz que nosso Senhor já nos convidou a carregar até o fim. E carregamos com alegria, a alegria da confiança amorosa, porque sabemos que nosso Deus é fiel. E esse é o nosso prazer: nos deleitar na fidelidade divina. Qual é o sentido, nesse contexto espiritual, de considerar as armadilhas certeiras de um adversário que não pode nos separar do Amor do Pai? Nenhum. Esse testemunho só serve como tentação do espírito de Terror, ou Pacto com o Inferno, para abalar a nossa fé.

Até agora, essa foi a passagem mais abominável, mais horrível, de todos esses livros de Mastral. Que coisa hedionda!

Vejam bem: todos os pecados são perdoáveis, absolutamente todos, menos o pecado contra Espírito Santo, o pecado mortal de desconfiar da eficácia e do poder do Amor divino.

Quando recebemos qualquer testemunho que nos testa neste sentido, estamos diante de nada menos que uma oferta verdadeiramente infernal, o próprio diabo batendo à nossa porta.

Como já vimos antes, no estudo daquela citação de Moisés, o Negro, desde a Patrística os cristãos têm a clareza de que os demônios nos superam em tudo, menos no que interessa, ou seja, na Humildade da vontade de viver pela Graça divina. A nossa fraqueza é justamente o caminho para a nossa abertura ao Amor divino, para toda a Salvação. Por outro lado, foi justamente a superioridade de Lúcifer que deu ocasião para a sua Queda, na tentação do Orgulho. Isto significa que a nossa pequenez deveria nos alegrar, porque nos aproxima mais do Amor divino do que aquela grandeza do mais elevado querubim. Diante disso, qual é o sentido de exaltar as superioridades demoníacas nos vários âmbitos que não fazem diferença nenhuma na nossa vida na Presença?

…

O pior de tudo, ou a última pá de cal em cima dessa história, foi um outro testemunho que encontrei mais adiante, desta vez do próprio Daniel Mastral, que terminou por reduzir ao máximo várias notas da avaliação espiritual deste livro, como podemos ver abaixo.

Citação L0032-C08, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL:

Esta última expressão, de que “nem o Poder de Deus é forte o suficiente”, é totalmente contraditória.

A definição mais elementar a respeito do Deus verdadeiro é a que o considera Absoluto e, portanto, com a qualidade de total suficiência, em qualquer âmbito considerado.

Isto quer dizer que Mastral, na melhor das hipóteses, apenas considerou o Deus cristão como um entre outros, talvez o maior, mas não o Absoluto, o primeiro e principal, mas não o Único, um primus inter pares.

Na pior hipótese, ele é um satanista infiltrado (qualquer que seja o seu grau de consciência disto) com a função de perverter a Fé verdadeira no meio dos cristãos através desse tipo de testemunho.

Confiar ou não?

Por um lado, confiar é bom, é melhor que desconfiar.

Por outro lado, “maldito é o homem que confia no homem“.

Como resolver a contradição?

Não existe contradição.

Uma coisa é confiar no Bem através das nossas ações, ou seja, naquilo que de nós depende.

Outra coisa é confiar no Bem através da ação alheia, ou seja, no que depende do arbítrio do outro.

Confiar é bom quando precisamos acreditar na boa ação que fazemos, mesmo que não sejamos reconhecidos por quem quer que seja no mundo, inclusive e especialmente os beneficiários da nossa ação. O bem da ação está nela mesma, e o nosso prazer com o bem tem que vir dessa suficiência.

Confiar é ruim quando precisamos acreditar na boa ação da parte dos outros, quando depositamos qualquer esperança numa bondade que não seja a divina.

Em suma: confie para fazer o bem, porque o próprio bem é confiável em si mesmo, mas não confie para esperar o bem, senão de Deus, como se algo de bom pudesse partir do homem ou do mundo que não tenha origem na bondade divina.

“O que adianta, de agora em diante, é dizimar, ofertar, obedecer.”

Citação L0032-C07, em Guerreiros da Luz, por Daniel MASTRAL.

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Eis no que restou toda a experiência de aprendizado depois de três volumes de vai e vem entre a participação no satanismo da Irmandade e na tradição do Cristianismo: a troca de uma escravidão por outra.

Além do erro medonho, psíquico, do quid pro quo nas coisas espirituais, com essa presunção do casal Mastral de que eles foram roubados porque estavam “desprotegidos”, e que esta era a sua condição por não terem ofertado o dízimo, que já seria um problema tremendo (a idéia de que se pode comprar a proteção divina, como se o Céu fosse uma cosa nostra), temos aqui o ainda mais grave erro, por ser mais básico, de confundir o que são princípios espirituais com princípios religiosos.

Tudo o que é espiritual pode ser pervertido para um sentido religioso.

Assim, a Humildade a Deus se torna Modéstia aos Homens, a Gratidão a Deus se torna Bajulação aos Homens, e a Obediência a Deus se torna Subserviência aos Homens.

Quando alguns seres humanos se colocam diante de outros como representantes de Deus, isto constitui imediatamente uma condição de elevado risco moral, por várias razões óbvias. Foi na lida contra esse risco que Jesus trouxe a liberdade do Evangelho e nos revelou Deus como um Pai amoroso, e foi por esta mesma razão que essa raça de víboras desejou a morte do Filho de Deus, pois o triunfo da sua mensagem significava nada menos que a ruína dos poderes religiosos no mundo, a grande sede do domínio do Ouroboros.

Não podemos nos esquecer, desde a leitura de Gênesis 4, de que a primeira imagem do Ouroboros como deus da humanidade se dá por esse formato religioso. Todos os projetos humanos que envolvem a construção de uma civilização emancipada do Amor divino são gerados a partir dessa semente mentirosa, da grande mentira dessa Usurpação ancestral.

O casal Mastral saiu das garras do Leviathan para cair nos braços do Behemoth, pulando apenas de um lado da Dialética do Ouroboros para o outro.

Protágoras, livro por PLATÃO

Análise L-0033, de Protágoras, livro por PLATÃO.

Sócrates vai questionar o sofista Protágoras, para o auxílio de um aluno interessado em aprender com este, no que consiste a sabedoria ensinada pelos sofistas, ou seja, qual é o objeto dessa atividade de ensino.

Protágoras alega que o objeto do seu ensino é a areté, a virtude cívica.

Sócrates questiona se a virtude pode ser ensinada, pois ele entende que não poderia.

Protágoras justifica o ensinamento da virtude mediante o conto de um mito originário da humanidade, onde primeiramente os homens foram prejudicados por uma falta de provisão de qualidades compensatórias da sua vulnerabilidade, por culpa da divindade Epimeteu, o que foi remediado pela ação de Prometeu que rouba o fogo e a sabedoria prática de Hefesto e Atena, respectivamente, para favorecer o homem na sua fragilidade. Mais tarde, com a aglomeração dos homens em cidades para otimizar a sua sobrevivência na natureza que lhes é hostil, Zeus teria notado que o homem se tornou incapaz de viver em comunidade por não conhecer a Justiça, a civilidade, etc. E então uma última medida é tomada, com o envio da Hermes como mensageiro para ensinar aos homens a arte política, a sabedoria da justiça e da virtude cívica, de modo que todos os homens viessem a ter acesso a isto igualmente.

É óbvio que a atratividade dessa mitologia esconde o problema de que se todos os homens recebem a sabedoria, ela não seria aprendida de homens por outros homens, mas seria um dom divino, o que não resolveria em nada o problema de Protágoras. Por isso mesmo ele vai desenvolver um argumento apostado ao mito.

Antes de entendermos essa argumentação adicional, convém-nos ver como o mito citado por Protágoras tem tudo a ver com a Tradição Primordial, o Culto do Ouroboros, já que existe alguma injustiça ou engano na criação de origem do homem, e essa realidade precisa ser corrigida com a aquisição de conhecimento (Gnose) obtido através dos “deuses”, que são obviamente demônios, anjos caídos.

Na argumentação consequente a respeito da justificação da posse universal da justiça ou civilidade, ou ao menos do potencial dela por parte de todos os seres humanos, Protágoras alega a inviabilidade social da ignorância dessas coisas, ou seja, que isso é esperado de todos, do contrário a ordem social e política, e portanto toda a civilização, seria inviável. O Estado seria impossível se os homens não tivessem todos acesso a essa virtude política.

Ao argumento fraco, tanto do ponto de vista da questão sobre o que habilitaria alguns a ensinarem a outros a arte política, ou a virtude em geral, quanto do ponto de vista de porque seria necessário ensinar e cultivar algo que todos já tivessem possuído por uma dispensação divina, Sócrates contrapõe sua própria série de chicanas que acabam por irritar e aborrecer Protágoras.

Possivelmente Sócrates poderia chegar a bom termo se obrigasse seu adversário a admitir a Unidade do Bem, assim como a sua transcendência total ao homem, mas Protágoras escapa do diálogo com um discurso longo, do tipo que impede a clareza do método socrático. Sócrates acusa isso diretamente, usando da arma do elogio ao pedir que Protágoras diminua o seu ritmo e fale parte a parte, como misericórdia ao seu esquecimento. Mas não deixa de dizer que entende serem bem diferentes as artes do diálogo e do discurso, já introduzindo conotação moral da diferença entre a filosofia e a sofística. Em determinado momento, com Sócrates já querendo partir, e com a insistência de um ouvinte (Cálias), para que Sócrates aceitasse a conversa com Protágoras nos termos deste, Alcebíades sai em defesa de Sócrates e afirma que Protágoras tem a prerrogativa de se render se não for capaz de dialogar, mas caso se considere capaz de tanto, que se digne a fazê-lo.

Em seguida, depois de muitos vais e vens, inclusive com um aparte de Hípias que já analisamos separadamente, empacamos de novo quando Protágoras, em seu argumento, tenta identificar uma contradição entre duas citações de uma obra do poeta Simônides, ao que Sócrates buscará fazer a importante distinção entre o que é ser, e o que é vir-a-ser, isto é, entre o que classificaríamos aristotelicamente como Ato e Potência, mas no que é impedido por novas interrupções. Seu argumento ia muito bem, novamente, no sentido da Unidade do Bem, já que o ser bom é uma propriedade divina, enquanto que da parte da criatura, como o homem, só corresponde o desejo de inclinação em direção a este bem inalcançável, isto é, um vir-a-ser bom. O entendimento disto completa a idéia perfeita de que a Sabedoria é divina, e é concedida como dom: não é difícil para Deus ser bom, mas é muito difícil para o ser humano vir-a-ser bom, porque a Bondade é uma qualidade divina, e não humana. Por decorrência, assim também ocorre com a Sabedoria. E se isto é assim, a virtude é dom divino, e não humano, portanto não passível de aprendizado. Conclui-se facilmente, a partir de tudo isto, que o Filósofo está muito melhor que o Sofista, pois ele ama uma Sabedoria que não lhe pertence, enquanto o outro se engana considerando que ela é sua propriedade.

Depois de mais esta vitória socrática contra o sofismo, embora de modo elegante e civilizado, Sócrates vencerá novamente Protágoras na última parte do confronto, quando retomará o tema da Unidade do Bem, ou seja, de todas as partes da virtude, ao que seu adversário teimosamente tentará sustentar as diferenças essenciais entre as mesmas.

Para resumir (já que conseguimos ver as partes mais valorosas do discurso socrático em citações analisadas à parte), Sócrates vence novamente, desta vez com a demonstração cabal, e um tanto humilhante para Protágoras, de como a virtude da Coragem está totalmente baseada na da Sabedoria, isto é, que o saber é fundamental para todas as virtudes que se sustentam nele, e que esta é a unidade da virtude que o ser humano pode ter, isto é, o da Sabedoria.

Protágoras reconhece sua derrota e elogia a sabedoria de Sócrates.

O que nos importa, neste desfecho, é reconhecer a inconclusão, que o próprio Sócrates menciona ao fim, do problema da possibilidade de se ensinar a Sabedoria, isto é, de se ensinar a verdadeira virtude. Como é comum que ocorra em discussões filosóficas, o problema inicial permanece sem solução.

A mim parece que a distinção que nos ajuda a tratar o problema é a que separa a origem da Sabedoria, a efetividade da sua transmissão, e a liberdade da sua recepção e do seu cultivo.

Por um lado, a Sabedoria em si é divina, e ela só pode ser dada por concessão da Graça divina.

Por outro lado, como diz a Bíblia, “a Sabedoria não entra numa alma devedora ao pecado“, isto é, existe uma disposição correta, da parte de quem é livre, para receber ou não o dom divino da Sabedoria. Essa recepção é arbitrada livremente. E, assim como o homem é livre para aceitar ou não a Sabedoria divina doada por concessão, ele também é livre para dar ou não o respectivo testemunho dela.

Ora, o que é o testemunho correto da recepção do dom divino da Sabedoria?

É aquilo de mais próximo que podemos encontrar do “ensino da virtude”, que Sócrates e Protágoras tanto procuravam.

Mas aqui entendemos a superioridade tremenda da Filosofia em relação a Sofística.

Isso porque o testemunho é um ato de liberdade, por amor à Sabedoria, através do qual aquele que testemunha fala da sua liberdade em favor da liberdade daquele que recebe o testemunho, para que também se liberte da mentira e do engano.

Por outro lado, o ensino escolar, acadêmico, ou magisterial, é um ato de escravidão, por amor ao Poder de produzir a imagem da verdade e de dominar o outro através dela.

Nota espiritual: 5,9 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte8
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno8
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final5,9

“A convenção, que tiraniza a humanidade, constrange-nos contra a natureza.”

Citação L0033-C01, em Protágoras, livro por PLATÃO.

Essa manifestação do assim chamado “sábio” Hípias seria excelente, se terminasse na observação da verdadeira divergência entre a realidade humana, dos arbítrios individuais e das afinidades naturais, e a convenção social que tem como objetivo encontrar um denominador que só servirá, para a garantia do bem comum, para o prejuízo dos bens particulares, ao ponto de constituir, às vezes, uma tirania.

Porém, ao promover a sua proposta de um acordo entre Sócrates e Protágoras, não está Hípias pavimentando o caminho para que se suceda justamente aquilo que ele acabou de condenar?

Ora, esse ajuste só funcionaria se forçasse ambas as partes a modificar a sua melhor ação, nos seus próprios termos, a uma restrição conveniente para o objetivo social: da parte de Sócrates, a restrição da sua liberdade de ser mais breve, conciso, exato e claro, e da parte de Protágoras, a restrição da sua liberdade de ser mais retórico, estender o discurso, etc.

Dir-se-ia que esse bem comum está acima dos bens particulares, porque atende ao interesse de um número maior de pessoas, mas de onde nós tiramos essa idéia? Essa própria concepção é arbitrada, já que ninguém pode demonstrar como não seria mais efetivo que cada um, Sócrates e Protágoras, seguisse o seu caminho, tornando-se o melhor que pudesse ser nos seus próprios termos, e como isso beneficiaria mais a totalidade da comunidade do que o acordo proposto por Hípias. O termo médio, afinal, é o que dá origem àquilo que chamamos de mediocridade. Supondo que qualquer um dos dois adversários tenha qualidades excelentes, nas quais se superam mutuamente, que vantagem ganhamos com o acordo para que eles restrinjam a sua melhor capacidade, apenas para a satisfação desse desejo de acordo?

Todos nós desejamos que a Verdade seja universalmente conhecida e reconhecida, mas precisamos abandonar o sonho humanista de uma posse coletiva da mesma.

A Verdade plena é propriedade divina, o que aliás é justamente o tema disputado por Sócrates e Protágoras, o primeiro defendendo a prerrogativa divina de possuir a bondade e a sabedoria, e o segundo defendendo a relatividade da subjetividade humana.

De certo modo os dois estão certos, cada um no que diz em particular.

Mas importa-nos mais saber que a Sabedoria que individualmente contemplamos de forma única, irredutível a esse mínimo denominador comum humanista (e neste ponto tanto Protágoras quanto Hípias estão equivocados), em si mesma é uma posse exclusiva de Deus.