Protágoras, livro por PLATÃO

Análise L-0033, de Protágoras, livro por PLATÃO.

Sócrates vai questionar o sofista Protágoras, para o auxílio de um aluno interessado em aprender com este, no que consiste a sabedoria ensinada pelos sofistas, ou seja, qual é o objeto dessa atividade de ensino.

Protágoras alega que o objeto do seu ensino é a areté, a virtude cívica.

Sócrates questiona se a virtude pode ser ensinada, pois ele entende que não poderia.

Protágoras justifica o ensinamento da virtude mediante o conto de um mito originário da humanidade, onde primeiramente os homens foram prejudicados por uma falta de provisão de qualidades compensatórias da sua vulnerabilidade, por culpa da divindade Epimeteu, o que foi remediado pela ação de Prometeu que rouba o fogo e a sabedoria prática de Hefesto e Atena, respectivamente, para favorecer o homem na sua fragilidade. Mais tarde, com a aglomeração dos homens em cidades para otimizar a sua sobrevivência na natureza que lhes é hostil, Zeus teria notado que o homem se tornou incapaz de viver em comunidade por não conhecer a Justiça, a civilidade, etc. E então uma última medida é tomada, com o envio da Hermes como mensageiro para ensinar aos homens a arte política, a sabedoria da justiça e da virtude cívica, de modo que todos os homens viessem a ter acesso a isto igualmente.

É óbvio que a atratividade dessa mitologia esconde o problema de que se todos os homens recebem a sabedoria, ela não seria aprendida de homens por outros homens, mas seria um dom divino, o que não resolveria em nada o problema de Protágoras. Por isso mesmo ele vai desenvolver um argumento apostado ao mito.

Antes de entendermos essa argumentação adicional, convém-nos ver como o mito citado por Protágoras tem tudo a ver com a Tradição Primordial, o Culto do Ouroboros, já que existe alguma injustiça ou engano na criação de origem do homem, e essa realidade precisa ser corrigida com a aquisição de conhecimento (Gnose) obtido através dos “deuses”, que são obviamente demônios, anjos caídos.

Na argumentação consequente a respeito da justificação da posse universal da justiça ou civilidade, ou ao menos do potencial dela por parte de todos os seres humanos, Protágoras alega a inviabilidade social da ignorância dessas coisas, ou seja, que isso é esperado de todos, do contrário a ordem social e política, e portanto toda a civilização, seria inviável. O Estado seria impossível se os homens não tivessem todos acesso a essa virtude política.

Ao argumento fraco, tanto do ponto de vista da questão sobre o que habilitaria alguns a ensinarem a outros a arte política, ou a virtude em geral, quanto do ponto de vista de porque seria necessário ensinar e cultivar algo que todos já tivessem possuído por uma dispensação divina, Sócrates contrapõe sua própria série de chicanas que acabam por irritar e aborrecer Protágoras.

Possivelmente Sócrates poderia chegar a bom termo se obrigasse seu adversário a admitir a Unidade do Bem, assim como a sua transcendência total ao homem, mas Protágoras escapa do diálogo com um discurso longo, do tipo que impede a clareza do método socrático. Sócrates acusa isso diretamente, usando da arma do elogio ao pedir que Protágoras diminua o seu ritmo e fale parte a parte, como misericórdia ao seu esquecimento. Mas não deixa de dizer que entende serem bem diferentes as artes do diálogo e do discurso, já introduzindo conotação moral da diferença entre a filosofia e a sofística. Em determinado momento, com Sócrates já querendo partir, e com a insistência de um ouvinte (Cálias), para que Sócrates aceitasse a conversa com Protágoras nos termos deste, Alcebíades sai em defesa de Sócrates e afirma que Protágoras tem a prerrogativa de se render se não for capaz de dialogar, mas caso se considere capaz de tanto, que se digne a fazê-lo.

Em seguida, depois de muitos vais e vens, inclusive com um aparte de Hípias que já analisamos separadamente, empacamos de novo quando Protágoras, em seu argumento, tenta identificar uma contradição entre duas citações de uma obra do poeta Simônides, ao que Sócrates buscará fazer a importante distinção entre o que é ser, e o que é vir-a-ser, isto é, entre o que classificaríamos aristotelicamente como Ato e Potência, mas no que é impedido por novas interrupções. Seu argumento ia muito bem, novamente, no sentido da Unidade do Bem, já que o ser bom é uma propriedade divina, enquanto que da parte da criatura, como o homem, só corresponde o desejo de inclinação em direção a este bem inalcançável, isto é, um vir-a-ser bom. O entendimento disto completa a idéia perfeita de que a Sabedoria é divina, e é concedida como dom: não é difícil para Deus ser bom, mas é muito difícil para o ser humano vir-a-ser bom, porque a Bondade é uma qualidade divina, e não humana. Por decorrência, assim também ocorre com a Sabedoria. E se isto é assim, a virtude é dom divino, e não humano, portanto não passível de aprendizado. Conclui-se facilmente, a partir de tudo isto, que o Filósofo está muito melhor que o Sofista, pois ele ama uma Sabedoria que não lhe pertence, enquanto o outro se engana considerando que ela é sua propriedade.

Depois de mais esta vitória socrática contra o sofismo, embora de modo elegante e civilizado, Sócrates vencerá novamente Protágoras na última parte do confronto, quando retomará o tema da Unidade do Bem, ou seja, de todas as partes da virtude, ao que seu adversário teimosamente tentará sustentar as diferenças essenciais entre as mesmas.

Para resumir (já que conseguimos ver as partes mais valorosas do discurso socrático em citações analisadas à parte), Sócrates vence novamente, desta vez com a demonstração cabal, e um tanto humilhante para Protágoras, de como a virtude da Coragem está totalmente baseada na da Sabedoria, isto é, que o saber é fundamental para todas as virtudes que se sustentam nele, e que esta é a unidade da virtude que o ser humano pode ter, isto é, o da Sabedoria.

Protágoras reconhece sua derrota e elogia a sabedoria de Sócrates.

O que nos importa, neste desfecho, é reconhecer a inconclusão, que o próprio Sócrates menciona ao fim, do problema da possibilidade de se ensinar a Sabedoria, isto é, de se ensinar a verdadeira virtude. Como é comum que ocorra em discussões filosóficas, o problema inicial permanece sem solução.

A mim parece que a distinção que nos ajuda a tratar o problema é a que separa a origem da Sabedoria, a efetividade da sua transmissão, e a liberdade da sua recepção e do seu cultivo.

Por um lado, a Sabedoria em si é divina, e ela só pode ser dada por concessão da Graça divina.

Por outro lado, como diz a Bíblia, “a Sabedoria não entra numa alma devedora ao pecado“, isto é, existe uma disposição correta, da parte de quem é livre, para receber ou não o dom divino da Sabedoria. Essa recepção é arbitrada livremente. E, assim como o homem é livre para aceitar ou não a Sabedoria divina doada por concessão, ele também é livre para dar ou não o respectivo testemunho dela.

Ora, o que é o testemunho correto da recepção do dom divino da Sabedoria?

É aquilo de mais próximo que podemos encontrar do “ensino da virtude”, que Sócrates e Protágoras tanto procuravam.

Mas aqui entendemos a superioridade tremenda da Filosofia em relação a Sofística.

Isso porque o testemunho é um ato de liberdade, por amor à Sabedoria, através do qual aquele que testemunha fala da sua liberdade em favor da liberdade daquele que recebe o testemunho, para que também se liberte da mentira e do engano.

Por outro lado, o ensino escolar, acadêmico, ou magisterial, é um ato de escravidão, por amor ao Poder de produzir a imagem da verdade e de dominar o outro através dela.

Nota espiritual: 5,9 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte8
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno8
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final5,9

“A convenção, que tiraniza a humanidade, constrange-nos contra a natureza.”

Citação L0033-C01, em Protágoras, livro por PLATÃO.

Essa manifestação do assim chamado “sábio” Hípias seria excelente, se terminasse na observação da verdadeira divergência entre a realidade humana, dos arbítrios individuais e das afinidades naturais, e a convenção social que tem como objetivo encontrar um denominador que só servirá, para a garantia do bem comum, para o prejuízo dos bens particulares, ao ponto de constituir, às vezes, uma tirania.

Porém, ao promover a sua proposta de um acordo entre Sócrates e Protágoras, não está Hípias pavimentando o caminho para que se suceda justamente aquilo que ele acabou de condenar?

Ora, esse ajuste só funcionaria se forçasse ambas as partes a modificar a sua melhor ação, nos seus próprios termos, a uma restrição conveniente para o objetivo social: da parte de Sócrates, a restrição da sua liberdade de ser mais breve, conciso, exato e claro, e da parte de Protágoras, a restrição da sua liberdade de ser mais retórico, estender o discurso, etc.

Dir-se-ia que esse bem comum está acima dos bens particulares, porque atende ao interesse de um número maior de pessoas, mas de onde nós tiramos essa idéia? Essa própria concepção é arbitrada, já que ninguém pode demonstrar como não seria mais efetivo que cada um, Sócrates e Protágoras, seguisse o seu caminho, tornando-se o melhor que pudesse ser nos seus próprios termos, e como isso beneficiaria mais a totalidade da comunidade do que o acordo proposto por Hípias. O termo médio, afinal, é o que dá origem àquilo que chamamos de mediocridade. Supondo que qualquer um dos dois adversários tenha qualidades excelentes, nas quais se superam mutuamente, que vantagem ganhamos com o acordo para que eles restrinjam a sua melhor capacidade, apenas para a satisfação desse desejo de acordo?

Todos nós desejamos que a Verdade seja universalmente conhecida e reconhecida, mas precisamos abandonar o sonho humanista de uma posse coletiva da mesma.

A Verdade plena é propriedade divina, o que aliás é justamente o tema disputado por Sócrates e Protágoras, o primeiro defendendo a prerrogativa divina de possuir a bondade e a sabedoria, e o segundo defendendo a relatividade da subjetividade humana.

De certo modo os dois estão certos, cada um no que diz em particular.

Mas importa-nos mais saber que a Sabedoria que individualmente contemplamos de forma única, irredutível a esse mínimo denominador comum humanista (e neste ponto tanto Protágoras quanto Hípias estão equivocados), em si mesma é uma posse exclusiva de Deus.

“Homens bons ocultam o transtorno e se obrigam ao louvor.”

Citação L0033-C02, em Protágoras, livro por PLATÃO.

Nesta breve passagem deste diálogo socrático podemos ver o testemunho valioso de duas verdades universais de grande repercussão para a nossa vida espiritual, quais sejam: a do engano da escolha pelo Mal, e a da maior Justiça do suportar os males do que da atitude de se vingar ou murmurar.

É notável que para alguns obcecados com certas visões religiosas totalitárias, esse tipo de sabedoria jamais teria alcançado o coração humano se não fosse por um envelopamento bíblico. Platão nos prova que isto não é verdade. Seria bastante complicado, para não dizer impossível, afirmar que a origem desse testemunho tenha sido uma certeira influência hebraica, e seria mais ainda improdutivo forçar essa associação de vez que a liberdade requer, da parte daquele que concorda com qualquer preceito bíblico em qualquer ponto da face da Terra, que tenha a liberdade de fazê-lo, isto é, a confiança de por si mesmo acreditar no Bem.

Do engano na escolha do Mal, ou das Trevas, que Sócrates diz que é “involuntário”, o que ele quer dizer está muito próximo do testemunho que o próprio Apóstolo Paulo disse quando confessou que quando faz o mal, o faz contra a sua vontade, por uma fraqueza, e não por não reconhecer um Bem que está além das suas forças.

Isto é tremendamente importante, do ponto de vista espiritual, já que esta consciência nos aproxima de Deus fazendo uso de nossa própria fraqueza confessada. Ao mesmo tempo, ajuda a ganhar grande tolerância e magnanimidade com relação à fraqueza alheia, ao compreendermos que todos compartilhamos da mesma precária condição humana. É um recurso que auxilia tanto a experiência do Primeiro quanto do Segundo Mandamento.

Já da questão de ser mais justo suportar os males do que querer vingá-los ou de murmurar por conta deles, isto está em total associação com o Espírito Santo de Deus, quando Jesus Cristo ensina: “aprendei de mim, que sou humilde e manso de coração.” O que afinal significaria “pacificar e harmonizar seus sentimentos”, como Sócrates diz, senão o aceite das qualidades divinas de humildade e mansidão?

Especialmente, num tema que pode ser sensível além do comum para o meu público, gostaria de enfatizar a paz e alegria que existe no cumprimento do mandamento de honrar pai e mãe.

Essa honra não consiste no elogio do pecado, nem na permissão ao mal. Jesus mesmo corrige a idolatria da família declarando que nossos primeiros inimigos estão na nossa própria casa, que veio fazer os filhos se voltarem contra os pais, e que quem não odiar sua família não poderá segui-lo. O mandamento divino não fala da idolatria da família, mas do amor ao próximo, da aplicação do Segundo Mandamento, por um ato de misericórdia, em favor daqueles que são os nossos primeiros próximos na vida, isto é, nossos próprios pais. Bem entendidas as coisas, percebemos rapidamente como dificilmente eles tiveram malícia congênita, sendo o mais das vezes mais vítimas eles mesmos da sua criação em cativeiro, debaixo da Maldição, do que grandes cúmplices do Pacto Ouroboros.

Górgias, livro por PLATÃO

Em Górgias, o diálogo se dá em torno do tema da Retórica, iniciando pela disputa do objeto desta arte, mais ou menos no mesmo padrão que vimos na discussão sobre o objeto da arte sofística no livro anteriormente analisado, Protágoras.

É afirmado, e com razão, que há uma grande diferença entre a persuasão que move a crença e o ensino que transmite o conhecimento, sendo a Retórica uma atividade dirigida para o primeiro tipo de objetivo.

Um agravante no resultado da conduta do retor, em linha com a sua disposição mais interessada no convencimento do que no conhecimento, isto é, com amor maior à produção da imagem da verdade do que à descoberta da verdade, é que ele se torna mais convincente, sendo ignorante da matéria sobre a qual discursa, do que o especialista que possui maior conhecimento do assunto, mas menor conhecimento da arte retórica.

Mas fica implícito também, e entendemos isso em análise apartada já publicada, que se o público ignorante não distingue a competência de um conhecedor da de um argumentador para produzir o seu próprio juízo, e igualmente não pode confiar indiscriminadamente numa solução de certificação institucional –já que a sociedade não é mais capaz de eliminar o engano do que o são os indivíduos que a compõem–, ao fim parece ser mais razoável que cada um tenha mais amparo na solidez de uma Soberania esclarecida enquanto dom, respondendo à sua própria consciência, do que na impossível tarefa de desfazer-se de todo tipo de ignorância que prejudica um juízo.

O componente mais nobre do Górgias é a defesa socrática do bem próprio da Justiça, usufruído na alma do seu amante (ou seja, um testemunho da vida interior), na fórmula de que é melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la, e que é melhor ser punido por um mal do que sair impune. Analisamos isto de forma apartada, como foi muito merecido. No contexto desse tema, Sócrates exalta a sua posição de requerer apenas o testemunho do seu interlocutor (seja Pólo ou o próprio Górgias), em contraste com o procedimento sofístico de buscar o ganho das causas com o arrolamento de testemunhas em maior número e de maior prestígio. O discernimento moral da parte de Sócrates é espetacular. Como que, diante disso, até hoje as pessoas perdem tempo com filosofias tão inferiores, como o estoicismo, etc., para não falar das várias idolatrias religiosas que colocam o foco no exterior do homem, quando existe um testemunho tão excelente como este, pagão, com mais de vinte séculos de história?

Do meio do diálogo para o fim, Sócrates disputa com o mais enfezado e arrogante de seus adversários, Cálicles, que faz uma defesa absurda da lei da natureza (do mais forte), ao modo nietzscheano, darwinista, nazista, etc. Sócrates o humilha, embora faça uso de uma mistura entre convenções e intuições genuínas. Elogia a religiosidade, e até cita, ao fim, o mito de um juízo final com punições aos tiranos, mas não sem deixar a marca da sua humildade declarando que um dia algo melhor poderia ser revelado, e sem terminar por enfatizar que o maior objetivo do bem é ele mesmo, praticar a justiça, a moderação, etc.

Sutilmente, no meio do caminho Platão evidencia como a alma é mais livre e soberana da parte de quem resiste à produção do mal, do que da parte de quem quer resistir ao sofrimento do mal, já que ao primeiro basta a Vontade, mas ao segundo se exige que à Vontade seja somado o Poder, o que tende a corromper todo aquele que teme ser vítima de injustiça, porque ambiciona um domínio que vai para além de si mesmo. Um elogio formidável ao dom de Paixão.

Nota espiritual: 5,9 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno9
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,9

“Essas são as atitudes de Deus, o Justo, o Amoroso!”

Vejamos mais uma passagem de O Descortinar da Alta Magia, de Daniel Mastral:

Screenshot

Esta passagem mostra uma grande ignorância das coisas divinas, como é de costume na cultura geral, e mesmo entre as mentiras dos vários cultos iniciáticos.

São dois os grandes erros nesse grosseiro juízo a respeito da conduta divina:

Primeiro erro: o procedimento defendido pelo autor é obviamente injusto, já que constitui Justiça da parte daquele que é Juiz não fazer acepção de pessoas, isto é, não dar preferência para quem é próximo em detrimento do distante, para o conhecido em prejuízo do desconhecido, etc. Assim, se os filhos de Aarão pecaram e isso lhes foi imputado como erro, a sua filiação não lhes poderia salvar sem que isso maculasse a Justiça divina.

Nem se fala, aqui, da dúvida a respeito de qual foi a realidade por trás dos fatos do caso em questão, já que sempre convém verificar a interferência do Ouroboros, que tipicamente age para prejudicar a integridade do testemunho da Palavra. Não é necessário nem mesmo entrar nesse tipo de mérito, para verificar a ignorância do argumento, a respeito do mais superficial e óbvio aspecto do que um proceder justo da parte de qualquer Juiz. Basicamente o autor da citação reclama que Deus não é injusto como se poderia desejar que o fosse, mundanamente, e ainda chama isso de injustiça.

Segundo erro: a suposição, por premissa oculta, de que qualquer relacionamento com Deus implique em qualquer tipo de garantia, mostra uma profunda ignorância da realidade da vida espiritual, e do que significa viver na Presença de Deus. A malícia típica dos seguidores do Usurpador é tosca e grosseira demais para compreender a força da confiança no Amor divino, e de como que qualquer idéia de garantia só significaria uma diminuição nessa alegria da entrega confiante no Bem de Deus. Novamente, o autor reclama por algo que seria indigno até dos fiéis que amam a Deus, nem para falar da ofensa contra o próprio Deus.

E aqui, novamente, nem precisamos falar de segundas implicações na alegação da qualidade de Aarão como “Sumo Sacerdote”. Como já vimos, na nossa leitura do Êxodo, este ofício religioso foi provavelmente instituído no contexto do Culto do Ouroboros, e não na adoração livre ao Deus verdadeiro, como Moisés fazia. Mas não é preciso sequer levantar este tema. A fraqueza do argumento já o destrói por dentro, sem ser necessária esta análise secundária.

“A doutrina passou a ser sutilmente modificada.”

Citação L0030-011, em O Descortinar da Alta Magia, por Daniel MASTRAL:

É Jesus Cristo em pessoa, e ninguém menos do que ele mesmo, quem afirma que não se deve imitar os ignorantes que vivem da repetição de orações, achando que com isso vão ganhar o favor divino, e é ele mesmo quem ensina que o Pai já sabe do que nós necessitamos, de modo que nos basta viver na Presença Dele, reconciliados com o seu Espírito Santo, amando-o acima de tudo e ao próximo como a nós mesmos, e que confiemos que Ele já conhece e providencia o nosso bem, para muito além do que nós mesmos poderíamos jamais pedir em nosso favor, dadas as nossas limitações, ignorância, etc.

Jesus ensina a orar assim: “seja feita a vossa vontade“.

Por outro lado, aprendemos que a culpa do primeiro casal, no Pecado Original, foi justamente o da sua presunção de conhecimento direto do bem e do mal. Ora, como a nossa oração poderia ser boa, se ela partisse a qualquer momento deste mesmo espírito de Presunção?

Assim, o testemunho da modificação da doutrina é mentiroso. Não apenas a dispensa da oração exterior (já que a vida de oração é a vida na Presença) não é uma doutrina nova, como não é nem mesmo uma doutrina religiosa, mas uma doutrina cristã ensinada diretamente por Jesus.

Dizer que Deus é Pai e que Ele já conhece todas as nossas necessidades é confiar em Jesus e seguir o seu modelo, em suma, é a própria vida de cristão.

“É preciso que o nosso domínio seja completo e inexpugnável.”

Citações L0030-012 e 013, em O Descortinar da Alta Magia, de Daniel MASTRAL.

Screenshot

Aqui encontramos finalmente um indício sólido, depois de dois volumes e meio de trabalho literário-autobiográfico, da qualidade espiritual da obra de Mastral, já que ele tende a cair ou ao menos a levar ao engano do espírito da Ingenuidade.

Isto se dá por duas razões.

A primeira é mais universal e óbvia: este mundo já jaz no Maligno. Lúcifer não precisa fazer mais nada para que seu domínio seja “completo e inexpugnável”, ele já o fez quando fez pacto com os primeiros pais de toda a humanidade, Adão e Eva, ou ao menos com todos os nossos ascendentes que ratificaram a decisão mitológica em atos que implicam a mesma imputabilidade moral.

Há muitas evidências disso, mas entre as mais claras está a declaração do próprio Ouroboros diante de Jesus na última tentação do deserto: “porque tudo isto me pertence, e eu dou a quem eu quiser“. Isto poderia ser uma mentira, mas daí toda a tentação careceria de credibilidade, de modo que a mentira não estava nesse domínio, mas no pedido de louvor no lugar de Deus, onde justamente Jesus se recusou a fazer aquilo que Adão e Eva fizeram.

Embora a evolução do processo histórico nos leve necessariamente para mais perto do governo do Anticristo, como cúmulo do domínio de Lúcifer sobre este mundo, isto apenas implica numa manifestação mais clara de uma realidade que já é atual. Jesus mesmo disse que seu Reino não é deste mundo. As esferas de influência e domínio estão bem claras. E sendo assim, o testemunho desses ativistas e militantes satanistas só faz sentido no muito pequeno e mesquinho contexto das suas breves vidas de vaidade e vazio.

A segunda razão, e esta sim mais substancial para o discernimento da Ingenuidade, é a alegação de que o Mal combate especificamente a atuação e o crescimento das igrejas chamadas Evangélicas. Esta caracterização é parte do mecanismo da Dialética do Ouroboros: toda vez que uma religião é preterida ou preferida como caminho de salvação, isto só funciona para dividir e causar discórdia.

O que salva é o Amor de Deus, e o testemunho que revela a Salvação é o do Evangelho.

O Evangelho é a Boa Notícia de que Deus nos ama como um Pai.

Essa notícia é propriedade do Espírito Santo que pode inspirar a quem quiser, do jeito que quiser, sem precisar prestar contas para quaisquer criaturas, nem mesmo aos anjos, quanto menos aos seres humanos, com suas confusas religiões e culturas, etc.

Lúcifer e sua gangue não tem nenhum poder para impedir que o Espírito Santo faça o que quiser. O poder é exercido sobre as vítimas que são tentadas a evitar a Presença de Deus, e a cair nas várias mentiras da Idolatria. Ainda assim, enquanto existir prerrogativas legais da parte dos prejudicados, nada pode impedir a ação divina.

É, portanto, apenas indiretamente que Deus precisa fazer algum uso das organizações das religiões cristãs sobre a Terra, e ainda assim Ele as usa como bem entender, sem precisar dar satisfações aos espíritos infernais. Pelos meios de que dispõe, e que são incontáveis e que estão fora do controle alheio, Deus pode converter tanto um Católico quanto um Evangélico, quanto um Ortodoxo ou um Ateu, etc.

Pior, há o crescimento do fenômeno dos cristãos que seguem a Jesus e acreditam no Evangelho sem a participação em nenhum culto religioso institucional. A Obra de Deus não se interrompe, como se vê.

Assim, a diminuição do número de fiéis religiosos, ou mesmo de fiéis declarados por controles estatísticos sob qualquer denominação, não significa nada realmente, ainda mais em face da descarada e óbvia corrupção das Religiões que leva massas de pessoas a omitir ou negligenciar qualquer forma social de religião, embora pessoalmente possa viver com proximidade indeterminada ao Espírito Santo.

O máximo que o testemunho citado produz é a angústia de um sentimento de urgência que pode levar uma pessoa ingênua a endossar soluções religiosas quaisquer, como se Deus estivesse precisando de uma ajudinha.

Resta, então, a questão: por que Mastral quer nos colocar dentro da “salvação” da Igreja Evangélica?

O Descortinar da Alta Magia, livro por Daniel MASTRAL

Finalmente, encerrada a leitura do segundo volume da série Filho do Fogo, o que posso concluir é que Mastral, tendo ele dado o testemunho de uma história real, ou de uma ficção, ou ainda de uma mistura das duas coisas, relatou de modo fraco o tamanho da Salvação e do Amor de Deus.

Ainda que tenha se impressionado com a maior força de Deus diante de todos os demônios do inferno, ao descobrir o Criador por esse exame de forças, ainda dá um testemunho débil da qualidade da excelência divina. Entendemos que o impacto que experimentou, da sua conversão particular, lhe tenha sido imenso, e importante para si próprio, por óbvio, mas isto porque era a sua história. Para cada um de nós a nossa trajetória particular parece ser mais importante do que é de fato, considerando todas as coisas.

O autor nos leva, ao fim do seu relato neste livro, a uma confirmação das verdades divinas em diversas paráfrases bíblicas, num estilo que me é familiar porque eu mesmo já o empreguei antes. Quando nos desenganamos das mentiras do mundo –e no meu caso estas não vieram por participação em seita satânica, como ele, mas por uma crença ilusória nas filosofias e sabedorias dos homens–, a primeira coisa que podemos fazer é isto mesmo: simplesmente reiterar as palavras do testemunho de Salvação que descobrimos na Bíblia. Isto é normal.

Mas o que importa é o que vem depois, isto é, a prática da nossa vida, assumindo a responsabilidade da nossa liberdade que nunca é alienada. E aqui é que encontramos alguns problemas na obra de Mastral.

Ele dá o testemunho contrário a um lado da Dialética do Ouroboros, mas não percebe que favorece o outro lado, isto é, o da Tradição Primordial. Faz isso, por exemplo, quando fala da necessidade do Sangue de Jesus, o qual ainda não é encarado como símbolo da Graça pura, mas como meio de pagamento de uma dívida, legitimando a idéia de Hebreus 9, etc. Também dá, embora aí já de maneira mais fraca, o testemunho da ameaça do Inferno.

Por fim, reclama contra a falta de União das igrejas evangélicas, como se esta tivesse algum dia sido uma preocupação de Deus. O segundo mandamento manda que nos amemos uns aos outros, sem acepção de pessoas, indiscriminadamente. E a liberdade humana vai levar, até o fim do mundo, a uma separação nos entendimentos das coisas divinas, porque ainda que a Verdade seja uma só, ela não é dominada por nenhuma criatura, e cada pessoa conhece aquilo que lhe compete do que Deus desejar revelar.

Em suma, embora o testemunho de Mastral possa impressionar desde o ponto de vista de onde ele veio, isto é, do próprio esgoto do Sistema da Besta, de forma geral é um testemunho espiritualmente fraco e até, na minha visão, contraproducente.

O Deus de Mastral é grande o suficiente para lhe salvar, e isto lhe bastou, mas ainda é pequeno demais para sublimar as categorias pequenas da religião cristã. O poder do Amor divino é muito, muito superior ao que Mastral declara. E a ênfase na perspectiva negativa acabou por viciar a lógica do testemunho, como se existisse de fato uma guerra, um risco, um perigo. Só há mal para quem escolher o mal, e isto não será feito levianamente, porque a Obra de Deus é plenamente justa. Um tanto da ansiedade e do desamparo deste tipo de testemunho provém, ainda, da confusão entre vida espiritual e vida religiosa. E isso deriva, por sua vez, do que parece ter sido uma vida muito dedicada às coisas menos importantes. Parece que Mastral simplesmente passou muito tempo buscando o que não interessava. Mesmo quando se vê liberto das maiores mentiras e enganos, sua forma mentis continua atinando com um senso de proporções e grandezas equivocado, especialmente no entendimento do Amor divino.

Talvez seria pedir demais que Mastral testemunhasse a esse respeito, da verdadeira liberdade cristã contra toda a Dialética do Ouroboros, mas tendo sido ele inteligente e capaz, creio que poderia tê-lo feito se quisesse.

Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo5
Nota espiritual4,1

Sofista, livro por PLATÃO

Neste diálogo que antecipa a investigação aristotélica das Categorias, Platão investiga o problema do Ser na discussão da atividade dos sofistas, através da conversa entre o Estrangeiro de Eleia (discípulo de Parmênides), e o jovem Teeteto.

Desejando sobretudo denunciar a figura do sofista, busca-se determinar como este produz um discurso sobre aquilo que não é, e desta busca se chega no problema de como é possível que o discurso sobre aquilo que não é seja algo que é.

Hoje em dia este tipo de argumentação pareceria dispensável, até certo ponto ao menos, mas precisamos recordar que a já muito desenvolvida linguagem atual dependeu dessas muitas definições prévias de conceitos e categorias. Somos herdeiros desses esforços ancestrais.

No que tem até hoje a maior importância filosófica, o Sofista mostra que há uma relação entre o Ser e o Não-Ser, uma relação que se dá pelo movimento em torno da permanência, ou ainda da manifestação do Múltiplo a partir da Unidade. Ainda não se alcança, ontologicamente, a precisão da Mônada, isto é, da Substância Simples. Mas algum caminho nesta direção já era certamente trilhado.

Já no que tem de mais enganoso, o Sofista propõe uma excelência filosófica muito mais ideal do que real, partindo da sólida posição de Humildade de Sócrates para os tenebrosos sonhos da Razão humana. Bastaria verificar que o bom idealismo só poderia ser transcendental, isto é, dirigido a Deus, para colocar a boa intenção dos filósofos acima do engano dos sofistas não por uma virtude humana, mas divina, e portanto não como uma realidade, mas como uma esperança. Os filósofos, assim, estariam sempre acima dos sofistas não por serem melhores, mas por desejarem o que é melhor: por amarem a Sabedoria que não lhes pertence, ao invés de presumirem possuí-la através da sua imagem. Mas esta oportunidade foi perdida.

Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo3
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,1

Os Rejeitados, filme por Alexander PAYNE

Neste filme três pessoas frustradas se consolam mutuamente, demonstrando algum amor mútuo, mas sem alcançar nenhuma grande sublimação da situação geral de sofrimento: O Professor, o Aluno e a Cozinheira.

O Professor não teve a carreira acadêmica que teria desejado, tornando-se um tanto ressentido, e um pouco alcoólatra; o Aluno perdeu a presença do pai para uma doença mental, e se viu afastado da mãe que se casou novamente e o matriculou num internato, nem sequer pode passar o Natal em família; e finalmente, a Cozinheira perdeu o filho, morto na Guerra do Vietnã.

Apesar da última nota positiva, que se dá por um bonito sacrifício do Professor em favor do Aluno (para que ele não seja expulso e enviado para uma escola militar, o que equivaleria a enviar o pobre coitado para o Vietnã), em geral o filme é deprimente e não passa muito disso.

Existem vitórias morais inúteis no contraste entre os nossos três personagens e os outros seres humanos que não são tão sensíveis e corretos, mas isto não chega a lugar nenhum, já que o filme teve que mostrar sucessivamente a fraqueza moral própria dos protagonistas, com exceção da Cozinheira.

O fracasso profissional ou familiar, inclusive o luto, deveria servir para nos aproximar de Deus. O filme não dá a mínima bola para essa possibilidade espiritual. Embora a Cozinheira seja religiosa, ela mal consegue rebater o ateísmo do Professor, que está convencido da superioridade doutrinária das filosofias humanas, especialmente na forma do estoicismo de Marco Aurélio.

Onde está a felicidade da Vida na Presença? Onde está o repouso na Providência divina? Onde está a consolação na Ressurreição?

Nenhuma notícia… tudo o que importava era ser feliz nesta vida, aqui e agora, e nos termos que se pressupunha corretos.

O filme não faz bem, além de ser bastante chato. Até mesmo a trilha sonora é cansativa, e o texto cheio de clichês. As melhores coisas do filme são a paisagem e a beleza de alguns atores, ou seja, justamente aquilo que foi Deus quem fez, e não o próprio homem.

Nota espiritual: 3,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final3,7