A salvação das indeterminações particulares para a Eternidade

O Reino de Deus está dentro de vós.” (Lc 17:21)

Provavelmente não existe assunto mais excelente do que o Amor de Deus, e nem maior alegria do que contemplar a promessa divina para as criaturas feitas à imagem e semelhança de seu Criador.

Ocorre que os vários expedientes de dispersão distraem o ser humano e o afastam de si mesmo, sendo que é no seu interior que ele pode encontrar tanto a confirmação da supremacia do Amor, quanto a validade da sua promessa.

O que é um ídolo? É um objeto externo de culto que leva o homem a procurar a verdade e a salvação fora de si mesmo, quando o Deus verdadeiro se revela na intimidade do coração contrito, humilde e “esmagado” pela majestade do Eterno. Um ídolo é uma mentira, uma ilusão, um vazio.

Quem puder ter apreciado o que disse a respeito da Coruscância, ou da Eleuteriodiceia, já pode ter entendido do que se trata toda a experiência humana, isto é, a causa final da nossa vida.

Entendeu o Espírito Santo do Criador que não haveria maior felicidade que lhe glorificasse na Eternidade do que a de seres criados à sua imagem e semelhança para o usufruto da mais plena liberdade possível a qualquer criatura. Isto é a salvação: levar as almas a aceitarem espontaneamente a individuação das suas singularidades como indeterminações particulares tornadas infalíveis pela comunhão voluntária com o Espírito Santo.

Por outro lado, a Perdição nada mais é do que o desvio de uma alma que rejeitou a infalibilidade que lhe permitisse a individuação na Eternidade.

Da nulidade espiritual dos falsos deveres de estado

Irmãos, cada um permaneça diante de Deus na condição em que estava quando Deus o chamou.” (I Corínthios 7:24)

A invenção de falsos deveres de estado como defesa contra a falta de sentido de uma vida sem Fé apenas multiplica os sofrimentos a que o homem já está submetido por nascimento.

É sem mentira que se cumprirá toda a Justiça. Quando mente, o homem apenas fala do que lhe é próprio e reflete as suas trevas interiores, tentando encontrar no reflexo das boas intenções da sua alma algo que nunca esteve lá, porque somente a Deus pertence o Amor.

A grande beleza dos verdadeiros deveres de estado consiste justamente na sua integridade espiritual, já que certamente eles derivam da vontade ou da permissão divina.

Toda a visão de confiança na Providência divina por trás de cada circunstância da vida nos permite alcançar o verdadeiro repouso, a paz do Senhor que é confiado como o nosso Bom Pastor.

O homem foi criado reto, porém procura complicações sem conta.

Pior, esse mentiroso quer ser respeitado na sua escolha de desprezar o Amor do Pai. É claro que esses nossos irmãos e irmãs devem ser amados. Mas que amor pode existir na confirmação da ilusão? Se respeitamos como legítima qualquer decisão autodestrutiva, não estamos encorajando a mentira e incentivando o afastamento de Deus?

Devemos, portanto, ter todo o cuidado para que nossa compaixão e caridade não sofra sequestro para o serviço da mentira. Quando o próximo carece de Discernimento, devemos compensar isso com a nossa própria prudência, mesmo que ao preço de desagradar.

A eminente natureza econômica e psicológica da descendência

Quando as famílias migram do meio rural para o urbano e decidem ter menos filhos, isso evidencia que a anterior elevada taxa de natalidade não se justificava por razões altruístas e espirituais, mas meramente por um cálculo de conveniência econômica: os filhos que antes eram contabilizados como ativos (mão-de-obra) que garantiriam um envelhecimento com maior conforto e segurança, agora se tornaram passivos geradores de despesas.

Do mesmo modo, se há algum resíduo na natalidade urbana, esta se deve ainda em parte a uma preocupação com a velhice desamparada da parte dos progenitores, e em parte ao novo problema urbano do vazio existencial pela falta de objetos externos de devoção e sacrifício imanentes, ou seja, por uma conveniência psicológica.

Nunca foi Deus. Sempre foi o homem.

Sem a Esperança no Amor do Pai, este ser decaído e amaldiçoado tenta realizar a promessa da Serpente no Éden. E assim pula da frigideira para o fogo: do medo da miséria ao medo da falta de sentido numa vida espiritualmente vazia.

Todo o sentimentalismo que já conhecemos muito bem sempre foi e continua sendo uma superestrutura que cobria com um véu de autoengano a realidade da infraestrutura econômica e psicológica.

Em suma, a especialidade humana é a criação de um disfarce mentiroso que sirva para cobrir a sua nudez espiritual.

Essa nudez espiritual não só foi herdada dos costumes da cultura de cativeiro, mas continua sendo confirmada pela recusa a uma vida entregue à Graça divina.

Transhumanismo: a troca da herança divina por um prato de lentilhas

Um dos pensamentos que me ocorreu enquanto eu trabalhava na avaliação do livro O fim da infância para o Livro das Tendências foi o de que Stormgren, o Secretário-Geral da ONU, encarnou perfeitamente o espírito de Esaú quando defendeu a política de Karellen pelo motivo de que agora a humanidade tinha o seu pão garantido.

Não é disso que se trata toda a tradição ancestral contra Deus? Em buscar garantias contra a necessidade da dependência do Amor do Criador?

Esaú é, assim, o sucessor espiritual de Adão, assim como Stormgren. Por outro lado, Jacó foi o antecessor espiritual do segundo Adão, Jesus Cristo, por confiar na herança do verdadeiro Pai.

Esaú confiou na virtude de Isaac, mas o valor deste sempre esteve na bênção divina. O primogênito falhou ao confiar na força da carne e do sangue, crendo-se superior ao caçula por ser popular com seu povo, um grande guerreiro, um caçador, enquanto o caçula Jacó secretamente era um adorador mais perfeito da verdadeira fonte de toda a força, o Amor de Deus. Quando Esaú vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, creu que lhe valia muito mais o seu poder pessoal do que a justiça da eleição divina. Justificou-se, assim, a sucumbência do mais velho diante do mais novo.

Voltando ao livro e indo mais além, a promessa do progresso transhumanista é justamente a realização daquela emancipação desejada por Adão e Esaú, para conquistar uma suposta vida independente e emancipada do Amor de Deus. É o ser humano disposto a vender a sua herança como criatura feita à imagem e semelhança de Deus para obter a ilusão de uma libertação através de garantias e seguranças falsas.

Por esta razão é que devemos fazer um elogio do maravilhoso dom da Paixão (v. Capítulo 12 de Monadofilia). Com a Vigilância que nos permite entender o fundamento espiritual do Sistema da Besta, e com o Discernimento que nos deixa distinguir entre as opções espirituais, podemos aceitar os pesados decretos decorrentes da Maldição de Gen 3 de tal modo que quando um Karellen vier nos oferecer algo como a transcendência da condição humana amaldiçoada, nós saberemos honrar o Eterno recusando essa suposta “salvação”.

A informação da vontade na fecundação como analogia da criatividade monádica

Ocorreu-me recentemente lembrar de um episódio no qual contribuí na discussão da negação de Galileu Galilei a respeito da transubstanciação das espécies eucarísticas, por ocasião de uma leitura que venho fazendo para o meu Livro das Tendências, do livro Discurso sobre el nombre de Dios, por Arnau de Vilanova.

Este filósofo do século XIII apontou para a diferença que há, no processo de fecundação, entre o papel da semente masculina e da semente feminina, de modo que ficasse explicada a razão pela qual nas pessoas divinas há uma relação entre Pai e Filho, e não entre Mãe e Filho.

Seu argumento me fez lembrar-me do meu próprio de anos atrás, na época daquela discussão na internet, quando tentei ajudar certos católicos a resolver o problema da negação da transubstanciação por Galileu. Aquele pensador negava a realidade da presença real na eucaristia em virtude da ausência de diferença de peso entre as espécies antes e depois da consagração. Em minha visão isso se devia ao fato de que a transubstanciação era análoga à realidade da Encarnação, onde justamente toda a substância extensa foi fornecida pelo corpo da Virgem, enquanto a substância anímica foi encarnada pela ação do Espírito Santo em substituição à ação da semente masculina que tem como função apenas a introdução de informação genética no processo de concepção. Deste modo não seria adequado esperar por qualquer alteridade na medição dos pesos das espécies eucarísticas, já que a transubstanciação, tal como a Encarnação, não modificou a substância extensa em nada, mas apenas informou-a, como a semente masculina informa a feminina que concede, de sua parte, a base material da formação do corpo.

Minha contribuição, se me lembro bem, foi ignorada. Possivelmente porque eu não fazia parte da panela que discutia o tema, e dou graças a Deus por isso. Não me é tão incomum assim sentir-me mais próximo de um autor de oito séculos atrás (alguém que aliás não temia acusações de heresia na sua pesquisa) do que com qualquer grupinho de militantes católicos, geralmente uns bons pentelhos.

Voltando ao nosso tema, é interessante notar como a composição de corpos pela união das causas formal e material se realiza diversamente em dependência da vontade primária de Deus ou, secundariamente, das criaturas decaídas que tomam o lugar de Deus na formação dos compostos.

Idealmente, a forma sempre determina a substância da matéria, como elemento ativo que domina o passivo. A matéria sem forma sempre equivale ao nada, ou possibilidade (a materia-prima anterior a matéria secundum quid), e a forma sem a matéria sempre equivale a uma força de realização, ou atualização. A substância, ou ser concreto, só pode existir pela combinação da forma e da matéria, a primeira “informando” a segunda, para usar uma linguagem computacional, e isto significa que a forma é o elemento ordenador que estrutura a matéria de acordo com a sua razão interna, seu logos.

Nos processos de reprodução natural alguma analogia se realiza com este princípio da criação das coisas, porque é um processo subsidiário ao princípio que determina a concreção de qualquer substância. O mesmo se dá até em produtos artificiais, onde por exemplo um escultor informa a matéria da sua obra a respeito da forma ideal que pretende realizar.

Dito isso, reconhecemos que não há causa formal mais excelente do que a própria vontade divina, em todos os casos possíveis.

É assim que entendemos a superioridade absoluta que há entre a criação de Adão ou a Encarnação do Filho de Deus, e a concepção de Caim e Abel, por exemplo.

Na primeira comparação, uma matéria até mais rudimentar e caótica, como o barro, pôde ser informada pela ação divina para a produção de um Corpo de Graça, aquele de Adão antes da Queda, superior em tudo aos Corpos de Queda gerados por Adão e Eva através do Pecado Original, apesar de estes serem feitos a partir de um material muito mais nobre e ordenado do que aquele barro primordial.

Na segunda comparação, a santidade de Deus realizou a encarnação do Filho de Deus tornando a matéria da semente de Maria um veículo para a Revelação do Amor do Pai ao mundo, enquanto a soberba de Adão realizou a proliferação do pecado de desobediência na geração de Caim e Abel, tornando a matéria da semente de Eva um veículo para a encarnação do mal no mundo.

O que mais nos interessa aqui é entender como o elemento ativo, ou formal, determina o ser da substância gerada, e é por isso que qualquer produto originado do Pecado Original refletirá apenas aquela rebelião ancestral de Adão, ao tomar novamente o lugar de Deus como o único e legítimo Criador de todas as coisas.

E isto é o que eu chamo de informação da vontade na fecundação, quando o agente ativo formal realiza a sua própria vontade livre e deste modo se torna sujeito moral de uma ação de sentido espiritual.

Ora, somente Deus tem uma vontade perfeita, pura e santa.

Daí que quando o homem quer tomar o lugar de Deus e pretende conhecer o bem e o mal por si mesmo, torna-se um rebelde, traidor e usurpador da autoridade divina, e desde a sua vontade autodestrutiva só pode gerar substâncias fadadas ao mal que lhe é peculiar, razão esta pela qual o Criador fez por bem amaldiçoar a sua própria Criação, de modo a limitar os efeitos da desobediência da sua criatura.

Desde toda essa raça de filhos da traição contra o Amor de Deus só pôde nascer a decadência e a corrupção, até que pela obediência de Maria, que rejeitou o acordo com a Serpente, contrariando o costume de Eva, Jesus Cristo encarnasse como Filho de Deus e se tornasse, como Filho do Homem, o que Adão nunca pôde ser, isto é, perfeitamente fiel ao Pai.

A Encarnação de Jesus Cristo, Filho de Deus, demonstra tanto que a matéria é dócil à forma (isto é, mostrou que o mal é sempre espiritual, formal), redimindo uma realidade decaída ao tomar posse da matéria de Maria, como que somente a vontade de Deus é boa o suficiente para a formação de qualquer substância.

O que Adão quis fazer, no entanto, assim como qualquer pessoa que queira casar, ter filhos, enriquecer, crescer em fama e prestígio, etc., foi explorar a promessa divina da Vida Eterna, embora tenha errado ao querer fazer isso por si mesmo, desejando obter a felicidade emancipado do Amor divino.

Assim podemos compreender como o processo de informação da vontade na fecundação, quando ocorre por iniciativa humana, é análogo à manifestação da criatividade monádica, isto é, é um sucedâneo ou substituto do verdadeiro poder que só poderá ser liberado com a total comunhão com o Espírito Santo na Vida Eterna (o que chamei de “Coruscância”).

Há uma imensa promessa de felicidade no coração de todos os seres humanos, correspondente à expectativa justa da concessão da Graça divina, porém é preciso que cada ser humano responda pessoalmente pelo seu desejo do bem: se quer ser amado ou quer ter poder por si próprio.

Só se pode realizar perfeitamente o desígnio divino em total alinhamento com a vontade do Criador, que é a única vontade santa, pura e perfeita. É em comunhão com Espírito Santo que o ser humano poderá realizar a sua criatividade monádica, em analogia limitada ao ser divino, consubstanciando todos os seres que desejar produzir desde a sua forma tornada perfeita pelo seu estado glorificado.

Qualquer fecundação reprodutiva na carne funciona apenas como uma sombra, como uma imitação ou farsa, mentira e ilusão, em analogia com aquela verdadeira perfeição da criatividade monádica.

A chave da felicidade reside no casamento do Poder com o Amor, de toda matéria ilimitada com uma forma santa, realidade que só se realiza no ser humano quando ele ajusta a sua vontade à obediência e esperança em Deus, de modo que a comunhão com o Espírito Santo seja voluntária e perfeita.

Podemos nos perguntar sobre qual foi o olhar com que, no mito do Éden, Adão viu Eva, que lhe fez vê-la como carne da sua carne, como propriedade sua e como objeto do seu poder. Adão viu Eva com vontade de poder, e por isso ela se tornou sua esposa e mãe de seus filhos. Se a visse com vontade de amor, renunciaria a qualquer ambição de poder e ela restaria livre, como sua irmã, para desejar o Amor de Deus tanto quanto ele.

A informação da vontade de poder de Adão na fecundação de Eva operou, em analogia com a criatividade monádica que só era possível pela virtude divina, a realização da Queda, produzindo corrupção e decadência.

Já a informação da vontade de Amor do Espírito Santo na fecundação de Maria operou a realização da Redenção, produzindo o testemunho do Amor do Pai na Revelação perfeita do Filho.

Da conveniência espiritual do sistema reprodutor

Tudo é feito para o bem daqueles que amam a Deus, desde que o bem próprio do Eterno é a realização do benefício da sua Criação, sendo Ele mesmo livre de qualquer carência e tendo restante toda a sua potência voltada para a perfeição das suas criaturas.

Igualmente, é preciso dizer que nada é feito senão pela atividade divina que é a única capaz de trazer ao ser quaisquer possibilidades que o próprio Altíssimo percebe em si como convenientes para a atualização do maior grau de felicidade possível.

Dadas essas duas premissas, já é tempo de resolvermos uma questão que eventualmente vive ressurgindo, a saber, a da razão de ser de um sistema reprodutor nos seres humanos que, sendo tido como instrumento fundamental da traição contra Deus através do Pacto Ouroboros, precisa ser explicado na sua origem e na sua finalidade a tal ponto que não nos reste dúvida da sua justificação.

Ajudando-nos o próprio Criador como sempre foi o caso, parece que a solução não difere muito daquela que encontramos ao lidar com a questão do Antinatalismo (v. “Contra o Antinatalismo” em A Coruscância), tendo aliás os dois temas uma conexão muito óbvia e até mesmo essencial.

Tendo o Todo-Poderoso antevisto a necessidade que certas almas tinham de determinada experiência do mal para que a sua escolha pelo bem fosse a mais plena e perfeita possível (uma realidade por sua vez justificada no nosso estudo da Eleuteriodiceia), foi apropriado permitir que estas almas explorassem aquilo que não lhes era benéfico a priori, mas que constituiria um bem secundário em virtude da fraqueza do seu caráter, um elemento fundado na razão suficiente de que é melhor para estas almas sofrerem e causarem algum sofrimento e, não obstante, obterem com isso a grande felicidade da Vida Eterna, do que dispensar essa experiência limitada do mal e com isso desperdiçar um bem muito superior, tão superior que a proporção da sua vantagem é incalculável e imediatamente recomendável.

Vejam bem: não foi Deus quem instituiu a necessidade do mal e de qualquer espécie de sofrimento para a salvação de qualquer criatura, mas foi a própria criatura, perdida e obstinada, soberba e pretensiosa, que se propôs um caminho mais difícil para que a sua escolha pelo Amor de Deus fosse suficientemente qualificada.

Ora, tudo isso de algum modo já compunha o entendimento anterior daquele juízo contrário ao Antinatalismo. Mas poderia se realizar a decisão humana de procriar e, com isso, de experimentar certa medida do mal como reflexo de suas trevas interiores, sem que tivesse ao seu dispor os recursos necessários ao desempenho da sua vontade? É claro que não. E é por isso que enxergamos com clareza a conveniência espiritual do sistema reprodutor do ser humano como mera concessão de Deus para a realização do propósito maior da sua Obra.

Não foi de bom grado, ou por desígnio originário, que Deus concedeu ao ser humano um sistema mais complexo do que aquele que poderia refletir mais fielmente a simplicidade do seu Ser, mas para que esta criatura levasse a termo os seus propósitos e experimentasse a sua carência do Amor, de modo que pudesse voltar-se do seu pecado para a reconciliação com o Pai.

Este é o sentido da parábola do Filho Pródigo, que tem que viver a sua rebeldia para conhecer sua própria fidelidade no fim. O coração do Pai se contorce com a dor de ver essa decisão de rompimento com o seu Amor, mas aceita e deixa estar, e até contribui com a distribuição de parte da sua herança, porque sabe que isto tudo será necessário para o melhor resultado ao fim.

Há uma teologia rasteira que entende o ser humano como co-criador eleito como veículo de uma absurda dependência divina, como a que diz que a função da história é a salvação dos eleitos e inclui nisso, obviamente, a reprodução de novas safras de escravos, como se Deus precisasse do mal para fazer o bem. Este é o ser humano que aprendeu a mentir com o seu tutor, o próprio diabo, e finge que está executando um mandamento divino quando na verdade está apenas fazendo a sua própria vontade.

Deus nunca desejou a degeneração da sua Criação no aumento da complexidade dos entes manifestados, mas o ser humano quis experimentar as trevas, e isso lhe foi permitido para a realização de uma escolha perfeita pela verdade da luz divina.

Sendo assim, dizemos que o sistema reprodutor do ser humano foi feito por Deus, como não poderia deixar de ser, e com o propósito benéfico da salvação daqueles que, realizando a sua rebelião, poderiam assim escolher o Amor como seu destino final. Convém entender que este sistema foi criado em latência, dependendo de uma ativação pela vontade humana que resolve atualizar essa possibilidade, de modo que os Corpos de Queda são particularmente definidos como produtos dessa atualização da liberdade do homem. Assim, os Vanyar, por exemplo, teriam um sistema análogo preservado em latência e jamais ativado, mais ou menos como uma pessoa nascida Sindar pode viver uma vida inteira sem sofrer de pericoronarite (a inflamação e infecção decorrente da erupção de dente do siso) ou de apendicite.

Resta-nos apontar brevemente que o mesmo se dá por analogia em todos os seres vivos que se reproduzem de acordo com processos submetidos ao Princípio de Geração e Corrupção, a partir do momento em que estes seres existem num modo de reflexão da experiência da liberdade humana e vivem igualmente uma queda da simplicidade originária da criatividade divina, e aguardam igualmente pela sua redenção para se verem livres de seus próprios processos complexos de reprodução (assim como os de nutrição). Um mundo Vanyar, portanto, é povoado por todo tipo de ser vivo que experimenta a multiplicação de suas espécies e a sustentação nutritiva de seus membros sem que em nada isso constitua complexidade e corrupção, e portanto sem nenhuma experiência de dor ou sofrimento (como se promete sobre a realidade redimida em Is 11:6-9).

Por fim, a conexão essencial entre a justificação da rejeição do Antinatalismo com a da realidade do sistema reprodutor se dá obviamente pelo entendimento de que este sistema foi criado para realizar, como causa eficiente, o desígnio que permitiu a procriação como causa final de salvação.

Tudo isso deve servir para o desarmamento das idolatrias naturalista e antropocentrista que disputavam autoridade com Deus, já que a verdade não está em nenhuma razão subsidiária à simplicidade do Amor divino. As resoluções morais dos seres humanos que não se submetem à supremacia do Amor divino são decadentes e pervertidas, e em consequência os processos naturais que introduziram maior complexidade na Criação não resultam de um reflexo da Sabedoria divina, mas da medida de concessão da bondade de Deus com vistas ao melhor resultado possível.

O Cristianismo é o culto do Mashiach ben Yoseph

O Cristianismo é o culto do Mashiach ben Yoseph para preparar o mundo para a chegada do Anticristo e a implantação das Leis de Noé.

Ou pelo menos é assim que parece que as coisas são quando associamos a probabilidade da ambiguidade bíblica entre o culto do Amor e o do Poder com a forma com que os cristãos religiosos estão sendo enquadrados pelos proponentes do noeísmo.

Digo por mim mesmo, neste blog já recebi comunicações de quem tivesse conexão com essa agenda, justamente para indicar que o que o cristão chama de “Graça” tem uma função religiosa bem diferente dentro do cabalismo, significando, etimologicamente, “Sacrifício”. A observação dessa alegação me fez prestar atenção à importância do sacrifício de sangue dentro da soteriologia cristã.

Se você procurar, como eu fiz, pela pergunta “Jesus tinha que morrer?“, ou “Did Jesus have to die?“, você só vai encontrar as expressões confirmativas, mesmo na forma de questão, como “Por que Jesus tinha que morrer?“, ou “Why did Jesus have to die?“, subentendendo sempre que essa necessidade está acima de qualquer suspeita.

Seria de se supor que as explicações fossem todas muito convincentes a esse respeito, porém o que encontramos é o atendimento à antiga Lei, chamada mosaica (já veremos como isso é questionável), principalmente com as indicações no Livro de Hebreus. Se o sacrifício de sangue for retirado da equação, toda essa “salvação” cai por terra imediatamente.

Mas convém que todo e qualquer cristão seja capaz de apelar imediatamente para as razões da sua Fé, como diria o Apóstolo Pedro, sem precisar fundar a sua crença num dogma inquestionável. Mistérios existem, sem dúvida, e devem ser aceitos na sua inefabilidade. Mas será que a Salvação é tão misteriosa assim? Será que não existe uma deliberada confusão religiosa com a intenção de manter como prisioneiros da mentira as vítimas do Ouroboros?

Podemos seguir uma linha simples e clara de raciocínio para verificar a viabilidade do sacrifício de sangue como pagamento pelos pecados. Lembrando que não se trata aqui de questionar a intercessão e a petição de salvação, quando estas coisas são puras, ou seja, baseadas com exclusividade na Graça divina. Estamos tratando da crença de que para que haja remissão dos pecados seja preciso derramar sangue (Heb 9).

E que o sim seja sim, e o não seja não, sem meias palavras.

Questão 1: Jesus tinha que morrer?

Sim ou não?

Se não, então já escapamos do paradigma do sacrifício de sangue. Jesus não tinha que morrer: ele tinha que ser reconhecido como o Filho de Deus e Rei dos Reis. Foi assassinado injustamente, e na Cruz sacrificou a sua majestade e provou duplamente tanto o Amor do Pai quanto a mentira assassina do Acusador. A Salvação não se dá por magia de sangue, mas pela aceitação do Amor de Deus, especialmente na forma de Misericórdia através de um arrependimento sincero por toda participação na traição contra Deus das Obras da Carne.

Se sim, cabe então uma próxima pergunta.

Questão 2: Quem matou Jesus tinha a liberdade de não fazê-lo?

Se não, então não é uma ação de responsabilidade imputável, de modo que isso equivaleria a dizer que Jesus se matou, ou ainda que não teve nenhum sentido a petição dele na Cruz quando disse “perdoa-os, eles não sabem o que fazem“. Se eles não sabiam o que faziam, praticavam um mal, ainda que ignorantes da natureza de seu ato. Em suma, se não fossem livres para decidir da forma que decidiram, os assassinos de Jesus não seriam assassinos, e sim executores da Justiça divina. Se a Crucificação foi real e moralmente substantiva, ela não pode ser uma farsa. Essa hipótese deve ser descartada como absurdo.

Se sim, cabe-nos então uma última pergunta.

Questão 3: Quem matou Jesus praticou o Bem?

Se não, então Jesus não tinha que morrer: sua execução foi um assassinato. Saímos novamente do paradigma.

Se sim, então voltamos ao absurdo da negativa anterior, ou até pior que isso. Pois não só Jesus seria novamente, neste caso, uma espécie de suicida, como também seria absurdo o seu pedido de perdão a favor dos seus assassinos, que não seriam homicidas, mas executores do Bem.

O Cordeiro de Deus não se entregou em sacrifício para a morte certa, como forma de Justiça, pois essa só poderia ser exigida por Deus mesmo.

Ele se entregou para ser reconhecido na majestade do Amor sem defesas, de modo que a crença na Graça fosse pura da parte dos fiéis, como é de fato até hoje e será até o Fim dos Tempos.

Uma questão final talvez se imponha como a decisiva:

Quem pediu pelo sangue de Jesus?

Se o sacrifício de sangue é legítimo, isto quer dizer que a divindade, como na pessoa do Pai, pediria pelo sangue de uma vítima de sacrifício, como o do Filho. E se assim fosse, novamente nos caberia reconhecer que a morte de Jesus não seria uma injustiça, e seus assassinos não seriam imputáveis.

Por outro lado, se o sacrifício não era legítimo, quem pediu pelo sangue de Jesus foi o Acusador, o Pai da Mentira, que se coloca diante dos homens no lugar de Deus.

A verdade do sacrifício da Cruz foi a da entrega de Jesus à condição de Filho de Homem para que pela sua inocência ficasse provada a bondade de Deus e a maldade do Acusador.

Satisfazendo-se injustamente com o sangue do Cordeiro de Deus, a Serpente do Mundo, o Ouroboros, expôs a sua verdadeira natureza, não a de Promotor de Justiça, mas de Mentiroso e Assassino.

Assim, a Religião Cristã, ou Cristianismo, independente de sua forma mais ou menos tradicional, está ligada ao culto do assassinato como ritual de sangue iniciado pelo Ouroboros desde o princípio dos tempos.

E, cabalisticamente, isso se conecta com o mito messiânico judaico que reconhece, com Maimônides e muitos outros, que em Jesus realizou-se a profecia concernente ao Mashiach ben Yoseph, com a função de converter as nações à Torá e preparar o mundo para a chegada do seu Maschiach ben David, o Messias Triunfante, que implantará então as Leis de Noé num mundo previamente preparado pelo Messias Sofredor.

A verdade é que o verdadeiro Messias é um só, e que ele já veio como Cordeiro Sofredor para os seus, até que os tempos se completem e ele volte como Leão Triunfante para o Juízo Final. É preciso que o trigo cresça junto com o joio, para que no tempo da colheita o agricultor possa fazer a separação entre eles.

Jesus disse que não veio abolir a Lei, mas levá-la a perfeição.

Mas de que Lei ele está falando?

Da Lei de Moisés, na forma dos Dez Mandamentos determinados diretamente pela autoridade divina, ou da Lei de Aarão, na forma da Legislação Levítica e Sacerdotal, inventada pelos homens a partir do que aprenderam com seus pactos com o Ouroboros, desde a Tradição Primordial?

Sendo a verdadeira Lei mosaica aquela que os judeus desprezaram, já que se amassem a ela, reconheceriam o seu verdadeiro Messias, o aperfeiçoamento que Jesus trouxe foi a revelação do Pai e do seu Amor, com os definitivos Mandamentos de amor a Deus e ao próximo.

O Cristianismo é o culto do Maschiach ben Yoseph para a conversão das nações à autoridade da Besta, o falso deus que instaurou o culto mentiroso do derramamento do sangue do Cordeiro de Deus como administração da Justiça. Revelando a sua própria verdade, o Anticristo reiniciará no Terceiro Templo as ofertas de sangue, até que estas sejam cessadas na Grande Tribulação, antes do Fim dos Tempos.

Durante muitos séculos e para muitos povos o Ouroboros pôde sustentar a legitimidade da continuidade da traição contra o Amor de Deus com base na mentira, com a anuência dos fiéis que viveram seus tempos de usurpação e miséria sustentados pelo culto do sacrifício do Cordeiro. E Deus assim o permitiu, até a consumação dos tempos, para que a sua colheita fosse a mais completa.

Nenhuma religião se sustenta espiritualmente, de vez que a substância da vida espiritual é a vida na Presença de Deus, a realidade individual de cada alma totalmente independente das aparências.

Muito menos ainda se sustenta o Cristianismo, na perfídia da mentira travestida de uma verdade muito próxima, mas sempre omitida.

Tire de qualquer Religião, inclusive da Cristã, as funções de lavanderia moral, validação da superstição e cultura sentimentalista, e o que sobrará? A ignorância equivalente a de qualquer paganismo.

O ponto central do entendimento desta verdade, para os cristãos, é a observação da pureza da santidade da Graça divina em contraste com a graça que não é divina justamente por não ser gratuita, mas somente um produto de troca na espelunca espiritual do diabo, esse farsante.

O fardo levíssimo dos Eunucos

Penso que se algum tipo de preexistência fosse possível (no que aliás não acredito), eu escolheria a vida mais fácil possível em que, ao mesmo tempo, toda a dificuldade que eu tivesse que viver seria experimentada logo de uma vez no começo da vida, de modo que me bastasse aguentar a pior parte de início para daí viver um melhoramento contínuo até o momento de partir deste mundo.

Talvez essa seja a realidade dos Eunucos em geral, e aqui falo num sentido estritamente espiritual daqueles que não casam e não têm filhos por quaisquer razões imediatas e que relacionam providencialmente essa realidade ao desígnio do Amor divino.

Ou seja, Eunuco é aqui entendido como alguém que por qualquer razão não casou e não teve filhos e que decidiu relacionar esse fato com um desejo de Deus que tornou a sua vida diferenciada por esta razão especial, obedecendo àquela instrução divina que ensinou: em tudo e o tempo todo dai glória a Deus.

Ora, o cristão já é convidado por Jesus a viver sob um fardo leve, livre da taxação do diabo através da mentira das religiões que reproduzem o Culto do Ouroboros da Tradição Primordial.

O Eunuco, entre os cristãos, é assim convidado para um fardo mais leve ainda, imitando não só o próprio Filho de Deus quando este encarnou como Filho do Homem, mas também os mais excelentes entre os Profetas e Apóstolos, tornando assim a sua vida desembaraçada das várias formas de ônus carnal que obstruem a clareza de consciência e devoção da vida espiritual.

Um Eunuco, afinal, é alguém liberado da participação na perpetuação carnal do Pacto Ouroboros, que é o veículo da manutenção do poder da Antiga Serpente sobre este mundo.

Obviamente, não casar e não ter filhos não são fatos que constituem uma virtude por si mesmos, já que a participação no Pacto Ouroboros é sempre uma adesão espiritual a uma traição contra o Amor de Deus sob quaisquer formas. Já dei até, em outra oportunidade, o exemplo de um Padre ou Pastor que recomenda e celebra tanto o casamento quanto a reprodução e que assim, mesmo sendo solteiro, participa com grande profundidade no Pacto Ouroboros, atuando como o Bispo no Sistema da Besta.

Ser Eunuco não constitui virtude automática, mas facilita o caminho para quem busca o Amor de Deus, e por isso fiz alusão a um fardo mais leve ainda àqueles que decidirem viver na aceitação desse fato por motivos exclusivamente espirituais.

Temos evidências escriturais da preferência divina pela renúncia às Obras da Carne, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

Vejamos uma referência do AT:

Aos Eunucos que viverem na minha Presença, que escolherem o que me é agradável e se afeiçoarem à minha Aliança, eu darei na minha casa e dentro de minhas muralhas um monumento e um nome de maior valor que filhos e filhas; eu lhes darei um nome que jamais perecerá.” (Isaías 56:4-5)

E uma do NT:

Seus discípulos disseram-lhe: ‘Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!’ Respondeu Jesus: ‘Nem todos são capazes de compreender o sentido dessa palavra, mas somente aqueles a quem foi dado compreender. Porque há Eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há Eunucos tornados tais pelas mãos dos homens, e há Eunucos que a si mesmos se fizeram assim por amor ao Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.’ Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: ‘Deixei vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos Céus é para aqueles que se lhes assemelham.'” (Mateus 19:10-14)

Se eu precisasse deixar as coisas ainda mais claras depois de tudo isso, acho que não conseguiria.

O que nos importa é a clareza com tranquilidade e serenidade que se baseia na experiência humana que nós já temos das coisas do mundo e das coisas de Deus. Não é preciso muito misticismo, ao contrário do que alguns possam pensar, para concluir, com pura lógica amparada na confiança plena no Amor de Deus, que o homem cria para si todos os seus problemas, e que a nossa salvação consiste na renúncia às nossas mentiras e à uma entrega total ao amparo do Pai.

Ser Eunuco não garante nada, mas facilita certamente, e quem se viu nesta condição pelo império de forças maiores pode ter mais confiança ainda de que isto se dá por um recurso extraordinário da Misericórdia divina.

A Sagrada Família que a religião adora louvar e odeia imitar

Já falamos antes da grande diferença que há entre as Obras da Carne, personificadas no mito por Adão e Eva, e as Obras do Espírito, personificadas por Jesus e Maria. E já falamos que pelos frutos se conhecerá a árvore: quem segue Adão e Eva os imita e produz o mesmo que eles produziram, e quem segue Jesus e Maria os imita e produz o mesmo que eles produziram.

Essa diferença dos dois tipos de destino humano já mostra tudo o que precisamos saber sobre a essência da vida espiritual: a escolha humana se dá entre a obediência e a rebelião, entre a dependência do Amor divino e a busca do Poder de emancipação. De um lado aceita-se a exclusividade da santidade divina de criar, e do outro presume-se poder criar vida por procuração, e não qualquer vida, mas o tipo mais sagrado que pode haver na corporeidade da carne e do sangue.

A decisão humana de tomar o lugar de Deus sempre me parecerá assombrosa, por todos os lados em que eu a possa considerar. Não só espiritualmente, aliás, mas também psicologicamente: cá entre nós, como pode uma personalidade livre de qualquer narcisismo se achar boa o suficiente para criar uma vida humana? Eu SEI que não sou competente nem para cuidar de um cachorro, e que vou fazer injustiça ao animal. Mas de algum modo presume-se que eu deveria ter grandes pretensões, do contrário a minha vida não serviria para nada, afinal, de que vale uma alma fraca que é apenas capaz de glorificar o santo Nome do Eterno e confiar na sua Providência? Isso parece pouco.

Mas voltemos ao tema central.

Um fato igualmente impressionante, e que novamente corrobora a opinião muito razoável de que a nossa raça é cheia de traição e mentira, é o quanto se dissocia a virtude da Sagrada Família dos fatos que a sustentam espiritualmente. Será que toda a religião cristã é uma forma de esquizofrenia?

Senão vejamos: a religião cristã parece adorar o valor simbólico e totêmico, ou fetichista, da Sagrada Família, e ao mesmo tempo detestar a imitação do seu exemplo.

Pensemos nesta época do ano. É difícil entrar em uma galeria comercial, ou um shopping center, neste período natalino, e não encontrar presépios montados para mostrar a reunião da Sagrada Família. Nas escolas e em várias comunidades encena-se a Natividade, com o mesmo cenário e os mesmos personagens de sempre. E, é claro, nas igrejas celebra-se de várias maneiras o Advento, seguindo o calendário das festas. Tudo muito tocante, e não fosse o fato de que provavelmente Jesus não nasceu nesta época do ano (talvez tenha sido em Setembro, e há quem diga Março), já que a data de 25 de Dezembro foi uma escolha romana para substituir as festas pagãs com a mitologia cristã, não teríamos muito o que observar a respeito.

Mas eis que tudo o que a cena do nascimento de Jesus aponta espiritualmente é diretamente desprezado pelas massas religiosas.

Aquela Sagrada Família é composta de pessoas obedientes a Deus de uma maneira bastante peculiar e não acidental.

Em primeiro lugar temos José e Maria, que renunciam à realidade de um casamento ao modo convencional (a Tradição de Adão e Eva ensinada pelo Ouroboros) para obedecer a um desígnio divino. A tão venerada (ou até adorada?) Virgem Maria é, afinal, e não casualmente, uma virgem, e isso por alguma razão especialíssima. Maria faz o que Eva jamais quis ou conseguiu fazer: renunciar à sedução do Pacto Ouroboros, ao poder das Obras da Carne. Maria aceitou viver somente pela Graça do Altíssimo. Eva quis poder sobre o seu marido e sobre os seus filhos. Não lhe bastava amar a Deus como Pai e a Adão como seu irmão. Não, ela precisava ser esposa e mãe, e tudo por “amor”, claro. E pelos frutos conhecereis a árvore: da obediência e virgindade de Maria nasceu Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus encarnado Filho do Homem; já de Eva nasceu a traição e o assassinato. E antes que digam que de Eva não nasceu apenas isso, atentem para a realidade de que a cada geração é o Espírito Santo quem converte as almas à adoração do Deus verdadeiro, e não o costume da carne, como Jesus mesmo declarou a Pedro quando este o reconheceu com o Filho de Deus, bendizendo-o porque somente o Espírito Santo do Pai o poderia ter revelado, e não a carne e o sangue.

Em segundo lugar, mas não por último, temos o próprio Jesus Cristo que viveu para realizar o crescimento e a multiplicação do Espírito, e não da Carne: ensinou, curou, perdoou, amou plenamente. E nos ensinou a amarmos uns aos outros como ele nos amou, como IRMÃOS que somos uns dos outros, e não como instrumentos de Poder. Jesus nunca casou e nunca teve filhos, mas cresceu e multiplicou no Espírito, e sendo o Caminho, abriu as portas da filiação espiritual ao Pai, a quem veio revelar. Ele dizia: a minha família são estes que acreditam em mim. E desprezou diretamente todos os méritos da carne e do sangue, humilhando os judeus ao afirmar que até de pedras Deus pode fazer filhos de Abraão. Jesus fez o que Adão jamais quis ou pôde fazer: renunciou a todo o poder sobre o mundo quando resistiu à última tentação da Serpente, poder o qual aliás ele tinha a autoridade real de reivindicar, bem ao contrário de Adão que fez pacto com a Serpente e traiu o Amor de Deus. A religião de Jesus era perfeita: não deixou viúva ou órfão, e amou até o fim quando deu à sua mãe o Apóstolo Amado como filho, e a este àquela como mãe.

Eis a Sagrada Família na sua virtude: Jesus, Maria e José, amantes verdadeiros e cheios do espírito de renúncia ao Poder ilegítimo.

Essa Sagrada Família é muito venerada na sua IMAGEM, já que como em qualquer religião, também na religião cristã o que se pratica é idolatria. Muitos “cristãos” louvam não o exemplo de virtude e santidade da Sagrada Família, mas a sua imagem de virtude e santidade, e para isso produzem todo tipo de arte humana que sustenta o poder da Tradição Primordial: esculpem, pintam, compõem músicas, cantam, atuam, etc.

Fazem tudo, tudo menos imitar a Sagrada Família.

O que importa é desprezado, isto é, a substância da vida espiritual, o viver na Presença de Deus com confiança na exclusividade do Amor divino.

Enquanto isso tudo o que tem a aparência e a imagem da santidade é adorado, venerado e louvado, como se por efeito mágico a conexão com esses ícones produzisse um efeito espiritual independentemente do sentido real da vida do crente, exatamente como ocorre com qualquer tipo de idolatria pagã, como com o totemismo, o fetichismo, etc., na total ignorância da realidade espiritual humana que diz respeito exclusivamente à crença livre no interior dos corações, independentemente das aparências das coisas.

Se aparecer uma pessoa pronta a viver de acordo com o exemplo real da Sagrada Família, enquanto desprezar o culto religioso de imagens, esta será considerada no mínimo estranha, senão mesmo como antagonista da vida cristã.

O que nos resta é amar a verdade e buscá-la incessantemente, desprezando as aparências e ligando-nos à realidade do sentido espiritual de tudo o que vivemos. Este é o meu conselho: saiamos dessa coletividade, desse grupo de mentirosos. Não temamos pela solidão.

Reparem bem: não estamos sozinhos quando confiamos no nosso Deus e nos movemos por amor à verdade. Os enganados são aqueles que se aglomeram, achando que sua imitação ao costume lhes empresta virtude por osmose. Estes estão muito mais sozinhos do que imaginam, e talvez suspeitem disso no fundo de suas almas, isto é, se não acreditam totalmente em sua própria mentira.

Livra-me do cativeiro e livrai de mim os meus cativos

Entre as mais interessantes idéias da exploração de 2017 encontrei três delas boas o suficiente para uma reciclagem atual, a saber:

  1. Que a Humildade é a chave do Coração, o Coração é a chave do Amor, e o Amor é a chave da Vida, assunto já tratado tanto neste blog quanto no meu canal do Youtube;
  2. Que esta vida é uma grande lição de Humildade, cujo exame final é a velhice, um assunto ainda pendente de reciclagem;
  3. Que a prece mais importante que eu aprendi além da Prece do Senhor foi aquela em que disse “livra-me do cativeiro e livrai de mim os meus cativos“, assunto que desejo trabalhar agora.

Convém-nos lembrar em primeiro lugar que nenhuma ação de prece pode mover a Deus que, em sua perfeição, não pode ser movido a qualquer disposição melhor do que a já informada pela santidade da sua própria Vontade.

Em segundo lugar que a realidade da prece é a da vida de oração, isto é, da consciência da vida na Presença de modo que qualquer movimento exterior da boca ou dos joelhos são apenas índices do movimento interior da alma, e que este tipo de movimento e não aquele é o que importa espiritualmente, de modo que a verdadeira boca e o verdadeiro joelho estão sempre no coração diante de Deus, a quem as aparências não podem enganar a realidade das substâncias.

Assim, toda e qualquer prece tem apenas duas outras duas funções possíveis, descartado o impossível melhoramento da disposição divina: (1) servir para o aumento da consciência humana a respeito da excelência divina, uma legítima função espiritual para a realização da vida na Presença e para o desenvolvimento do dom do Discernimento, e (2) servir para uma prática idolátrica, seja na tentativa de se ter poder sobre o Deus verdadeiro (antropolatria), ou na tentativa de se relacionar com qualquer entidade que usurpe o lugar de Deus, como para obter favores (a idolatria dos Avari).

Dito isso, aprendi em 2017 a pedir a Deus que me libertasse do cativeiro no qual vim a nascer, e isso de todas as formas possíveis (econômica, política, intelectual, e principalmente espiritual), ao mesmo tempo em que reconheci a validade simétrica do meu correspondente dever de libertar quaisquer vítimas que sofram em virtude de uma ambição de poder de minha parte, quer fosse de vontade de poder sobre elas, ou de poder sobre outro objeto que implicasse no uso delas como meios para uma conquista.

A qualidade dessa prece consiste, em primeiro lugar, da observação de que Deus não teve jamais a vontade de me ver nascido num mundo decaído e amaldiçoado, tanto que posso contar com a sua Graça para me libertar de tal estado, no mínimo através do decreto da morte deste Corpo de Queda.

Em segundo lugar, consiste na identificação da origem do mal no mundo na ambição humana de poder. E, nesta linha, na desproporção que há entre a luta contra o mal fora de mim, que resulta na impotência da Revolução Exterior, a utopia de reformar o mundo, e a luta contra o mal dentro de mim, que resulta na verdadeira vitória do Amor através da Revolução Interior, a reforma do homem.

Reconhece-se, assim, através desta prece, que apenas Deus tem a autoridade e o poder de derrotar o mal, cabendo-nos desejar uma salvação que parte sempre da sua Graça, e então negar a participação voluntária nas Obras da Carne através da renúncia de toda forma de poder originada da nossa ambição pretensiosa.

Essa prece nos permite viver de forma mais relaxada e dócil, aceitando e confiando na Providência com a segurança de quem já se desarmou interiormente de todo espírito de rebelião e de desejo desregulado de poder, isto é, de querer atuar para além do que é determinado pelo estado de coisas ditado pela circunstância governada pela mesma Providência na qual se decidiu confiar.

Essa é a justiça que os Noldor, os Príncipes, fazem ao reinado espiritual do Rei dos Reis, fiéis à promessa da sua eleição para um reinado junto ao seu soberano, no tempo e no modo corretos, conforme a pureza do desejo do Espírito Santo de Deus.