Livra-me do cativeiro e livrai de mim os meus cativos

Entre as mais interessantes idéias da exploração de 2017 encontrei três delas boas o suficiente para uma reciclagem atual, a saber:

  1. Que a Humildade é a chave do Coração, o Coração é a chave do Amor, e o Amor é a chave da Vida, assunto já tratado tanto neste blog quanto no meu canal do Youtube;
  2. Que esta vida é uma grande lição de Humildade, cujo exame final é a velhice, um assunto ainda pendente de reciclagem;
  3. Que a prece mais importante que eu aprendi além da Prece do Senhor foi aquela em que disse “livra-me do cativeiro e livrai de mim os meus cativos“, assunto que desejo trabalhar agora.

Convém-nos lembrar em primeiro lugar que nenhuma ação de prece pode mover a Deus que, em sua perfeição, não pode ser movido a qualquer disposição melhor do que a já informada pela santidade da sua própria Vontade.

Em segundo lugar que a realidade da prece é a da vida de oração, isto é, da consciência da vida na Presença de modo que qualquer movimento exterior da boca ou dos joelhos são apenas índices do movimento interior da alma, e que este tipo de movimento e não aquele é o que importa espiritualmente, de modo que a verdadeira boca e o verdadeiro joelho estão sempre no coração diante de Deus, a quem as aparências não podem enganar a realidade das substâncias.

Assim, toda e qualquer prece tem apenas duas outras duas funções possíveis, descartado o impossível melhoramento da disposição divina: (1) servir para o aumento da consciência humana a respeito da excelência divina, uma legítima função espiritual para a realização da vida na Presença e para o desenvolvimento do dom do Discernimento, e (2) servir para uma prática idolátrica, seja na tentativa de se ter poder sobre o Deus verdadeiro (antropolatria), ou na tentativa de se relacionar com qualquer entidade que usurpe o lugar de Deus, como para obter favores (a idolatria dos Avari).

Dito isso, aprendi em 2017 a pedir a Deus que me libertasse do cativeiro no qual vim a nascer, e isso de todas as formas possíveis (econômica, política, intelectual, e principalmente espiritual), ao mesmo tempo em que reconheci a validade simétrica do meu correspondente dever de libertar quaisquer vítimas que sofram em virtude de uma ambição de poder de minha parte, quer fosse de vontade de poder sobre elas, ou de poder sobre outro objeto que implicasse no uso delas como meios para uma conquista.

A qualidade dessa prece consiste, em primeiro lugar, da observação de que Deus não teve jamais a vontade de me ver nascido num mundo decaído e amaldiçoado, tanto que posso contar com a sua Graça para me libertar de tal estado, no mínimo através do decreto da morte deste Corpo de Queda.

Em segundo lugar, consiste na identificação da origem do mal no mundo na ambição humana de poder. E, nesta linha, na desproporção que há entre a luta contra o mal fora de mim, que resulta na impotência da Revolução Exterior, a utopia de reformar o mundo, e a luta contra o mal dentro de mim, que resulta na verdadeira vitória do Amor através da Revolução Interior, a reforma do homem.

Reconhece-se, assim, através desta prece, que apenas Deus tem a autoridade e o poder de derrotar o mal, cabendo-nos desejar uma salvação que parte sempre da sua Graça, e então negar a participação voluntária nas Obras da Carne através da renúncia de toda forma de poder originada da nossa ambição pretensiosa.

Essa prece nos permite viver de forma mais relaxada e dócil, aceitando e confiando na Providência com a segurança de quem já se desarmou interiormente de todo espírito de rebelião e de desejo desregulado de poder, isto é, de querer atuar para além do que é determinado pelo estado de coisas ditado pela circunstância governada pela mesma Providência na qual se decidiu confiar.

Essa é a justiça que os Noldor, os Príncipes, fazem ao reinado espiritual do Rei dos Reis, fiéis à promessa da sua eleição para um reinado junto ao seu soberano, no tempo e no modo corretos, conforme a pureza do desejo do Espírito Santo de Deus.

A Sagrada Família que a religião adora louvar e odeia imitar

Já falamos antes da grande diferença que há entre as Obras da Carne, personificadas no mito por Adão e Eva, e as Obras do Espírito, personificadas por Jesus e Maria. E já falamos que pelos frutos se conhecerá a árvore: quem segue Adão e Eva os imita e produz o mesmo que eles produziram, e quem segue Jesus e Maria os imita e produz o mesmo que eles produziram.

Essa diferença dos dois tipos de destino humano já mostra tudo o que precisamos saber sobre a essência da vida espiritual: a escolha humana se dá entre a obediência e a rebelião, entre a dependência do Amor divino e a busca do Poder de emancipação. De um lado aceita-se a exclusividade da santidade divina de criar, e do outro presume-se poder criar vida por procuração, e não qualquer vida, mas o tipo mais sagrado que pode haver na corporeidade da carne e do sangue.

A decisão humana de tomar o lugar de Deus sempre me parecerá assombrosa, por todos os lados em que eu a possa considerar. Não só espiritualmente, aliás, mas também psicologicamente: cá entre nós, como pode uma personalidade livre de qualquer narcisismo se achar boa o suficiente para criar uma vida humana? Eu SEI que não sou competente nem para cuidar de um cachorro, e que vou fazer injustiça ao animal. Mas de algum modo presume-se que eu deveria ter grandes pretensões, do contrário a minha vida não serviria para nada, afinal, de que vale uma alma fraca que é apenas capaz de glorificar o santo Nome do Eterno e confiar na sua Providência? Isso parece pouco.

Mas voltemos ao tema central.

Um fato igualmente impressionante, e que novamente corrobora a opinião muito razoável de que a nossa raça é cheia de traição e mentira, é o quanto se dissocia a virtude da Sagrada Família dos fatos que a sustentam espiritualmente. Será que toda a religião cristã é uma forma de esquizofrenia?

Senão vejamos: a religião cristã parece adorar o valor simbólico e totêmico, ou fetichista, da Sagrada Família, e ao mesmo tempo detestar a imitação do seu exemplo.

Pensemos nesta época do ano. É difícil entrar em uma galeria comercial, ou um shopping center, neste período natalino, e não encontrar presépios montados para mostrar a reunião da Sagrada Família. Nas escolas e em várias comunidades encena-se a Natividade, com o mesmo cenário e os mesmos personagens de sempre. E, é claro, nas igrejas celebra-se de várias maneiras o Advento, seguindo o calendário das festas. Tudo muito tocante, e não fosse o fato de que provavelmente Jesus não nasceu nesta época do ano (talvez tenha sido em Setembro, e há quem diga Março), já que a data de 25 de Dezembro foi uma escolha romana para substituir as festas pagãs com a mitologia cristã, não teríamos muito o que observar a respeito.

Mas eis que tudo o que a cena do nascimento de Jesus aponta espiritualmente é diretamente desprezado pelas massas religiosas.

Aquela Sagrada Família é composta de pessoas obedientes a Deus de uma maneira bastante peculiar e não acidental.

Em primeiro lugar temos José e Maria, que renunciam à realidade de um casamento ao modo convencional (a Tradição de Adão e Eva ensinada pelo Ouroboros) para obedecer a um desígnio divino. A tão venerada (ou até adorada?) Virgem Maria é, afinal, e não casualmente, uma virgem, e isso por alguma razão especialíssima. Maria faz o que Eva jamais quis ou conseguiu fazer: renunciar à sedução do Pacto Ouroboros, ao poder das Obras da Carne. Maria aceitou viver somente pela Graça do Altíssimo. Eva quis poder sobre o seu marido e sobre os seus filhos. Não lhe bastava amar a Deus como Pai e a Adão como seu irmão. Não, ela precisava ser esposa e mãe, e tudo por “amor”, claro. E pelos frutos conhecereis a árvore: da obediência e virgindade de Maria nasceu Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus encarnado Filho do Homem; já de Eva nasceu a traição e o assassinato. E antes que digam que de Eva não nasceu apenas isso, atentem para a realidade de que a cada geração é o Espírito Santo quem converte as almas à adoração do Deus verdadeiro, e não o costume da carne, como Jesus mesmo declarou a Pedro quando este o reconheceu com o Filho de Deus, bendizendo-o porque somente o Espírito Santo do Pai o poderia ter revelado, e não a carne e o sangue.

Em segundo lugar, mas não por último, temos o próprio Jesus Cristo que viveu para realizar o crescimento e a multiplicação do Espírito, e não da Carne: ensinou, curou, perdoou, amou plenamente. E nos ensinou a amarmos uns aos outros como ele nos amou, como IRMÃOS que somos uns dos outros, e não como instrumentos de Poder. Jesus nunca casou e nunca teve filhos, mas cresceu e multiplicou no Espírito, e sendo o Caminho, abriu as portas da filiação espiritual ao Pai, a quem veio revelar. Ele dizia: a minha família são estes que acreditam em mim. E desprezou diretamente todos os méritos da carne e do sangue, humilhando os judeus ao afirmar que até de pedras Deus pode fazer filhos de Abraão. Jesus fez o que Adão jamais quis ou pôde fazer: renunciou a todo o poder sobre o mundo quando resistiu à última tentação da Serpente, poder o qual aliás ele tinha a autoridade real de reivindicar, bem ao contrário de Adão que fez pacto com a Serpente e traiu o Amor de Deus. A religião de Jesus era perfeita: não deixou viúva ou órfão, e amou até o fim quando deu à sua mãe o Apóstolo Amado como filho, e a este àquela como mãe.

Eis a Sagrada Família na sua virtude: Jesus, Maria e José, amantes verdadeiros e cheios do espírito de renúncia ao Poder ilegítimo.

Essa Sagrada Família é muito venerada na sua IMAGEM, já que como em qualquer religião, também na religião cristã o que se pratica é idolatria. Muitos “cristãos” louvam não o exemplo de virtude e santidade da Sagrada Família, mas a sua imagem de virtude e santidade, e para isso produzem todo tipo de arte humana que sustenta o poder da Tradição Primordial: esculpem, pintam, compõem músicas, cantam, atuam, etc.

Fazem tudo, tudo menos imitar a Sagrada Família.

O que importa é desprezado, isto é, a substância da vida espiritual, o viver na Presença de Deus com confiança na exclusividade do Amor divino.

Enquanto isso tudo o que tem a aparência e a imagem da santidade é adorado, venerado e louvado, como se por efeito mágico a conexão com esses ícones produzisse um efeito espiritual independentemente do sentido real da vida do crente, exatamente como ocorre com qualquer tipo de idolatria pagã, como com o totemismo, o fetichismo, etc., na total ignorância da realidade espiritual humana que diz respeito exclusivamente à crença livre no interior dos corações, independentemente das aparências das coisas.

Se aparecer uma pessoa pronta a viver de acordo com o exemplo real da Sagrada Família, enquanto desprezar o culto religioso de imagens, esta será considerada no mínimo estranha, senão mesmo como antagonista da vida cristã.

O que nos resta é amar a verdade e buscá-la incessantemente, desprezando as aparências e ligando-nos à realidade do sentido espiritual de tudo o que vivemos. Este é o meu conselho: saiamos dessa coletividade, desse grupo de mentirosos. Não temamos pela solidão.

Reparem bem: não estamos sozinhos quando confiamos no nosso Deus e nos movemos por amor à verdade. Os enganados são aqueles que se aglomeram, achando que sua imitação ao costume lhes empresta virtude por osmose. Estes estão muito mais sozinhos do que imaginam, e talvez suspeitem disso no fundo de suas almas, isto é, se não acreditam totalmente em sua própria mentira.

A ousadia da verdade obrigatória por decreto humano

Se há algo forte o suficiente para se manter firme por sua própria virtude, é certamente a própria Verdade.

Resolvida qualquer confusão que possa haver entre a experiência subjetiva de uma verdade relativa e a necessidade de uma verdade objetiva, mesmo que esta escape completamente ao nosso domínio, resta-nos a tranquilidade do repouso de saber que o que é, é, e que o que não é, não é. Tiramos da autoevidência da supremacia da Verdade até mesmo os nossos princípios elementares de qualquer lógica possível, a saber, os de identidade, não-contradição, e terceiro excluso, razões supremas de qualquer conhecimento possível não produzidas como invenções, mas deduzidas como descobertas.

Vencida essa etapa epistemológica que ainda pode amolecer algumas mentes menos acostumadas com os rigores da ontologia geral, ou Filosofia Primeira, podemos entender como escapa obviamente ao domínio humano o poder de decretar que algo seja verdadeiro, de vez que a força da evidência torna o testemunho humano apenas um indicador de uma realidade transcendente a todo discurso possível. O papel humano não é o de produzir a verdade, mas de reconhecê-la e apontar para ela com maior ou menor eficiência. E faz parte desse recurso humano à investigação do império da Verdade que lhe é exterior e invencível, desnecessitada de defesa, a manutenção da liberdade de investigação e inquirição de tudo aquilo que não for universalmente considerado pacífico.

Assim, discute-se tudo o que é discutível, e o indiscutível não precisa ser defendido pela razão mesma –e exclusiva!– de que ninguém quer, ou consegue, fazer isso.

Mas quem segura a criatividade da nossa espécie para a propagação da mentira e para a perversão de todas as coisas?

Há “verdades” que são tão obviamente contestáveis, e diríamos que perigosamente contestáveis para determinados interesses de certos poderes, que precisam ser ridiculamente obrigadas por decretos humanos. A ousadia desse absurdo não precisaria ser explicada, é claro, mas aqui estamos nós, à beira do Fim do Mundo, tentando dar conta dos tempos em que vivemos.

Podemos usar como princípio elementar que qualquer verdade obrigatória por lei humana –e que fique claro que se trata de uma versão histórica da verdade, e não de um princípio moral necessário para a manutenção da ordem social– e cuja contestação incorra em punição, deve ser imediatamente considerada falsificável ainda mais do que o seria normalmente pelo método científico, justamente pelo agravante do uso do poder público para a sua proteção.

Quer fazer uma experiência para verificar que tipo de assunto entra nessa sistemática?

Experimente, por exemplo, gravar um vídeo no Youtube que verse claramente sobre quaisquer um desses temas:

  • Mudanças climáticas
  • Holocausto
  • Covid-19
  • Família Rothschild
  • Maçonaria
  • Atentados de 11/Setembro

Provavelmente você vai receber uma sinalização da plataforma indicando que há uma verdade estabelecida sobre o assunto, com a indicação, por exemplo, de um artigo no site Wikipedia.

Nosso dever de consciência é o de mantermos a mínima dignidade necessária à estatura da inteligência humana e recusar interiormente qualquer verdade imposta por vontade ou capricho de desejo de um grupo de interesses, qualquer que seja.

Reparem que não estou falando que esta ou aquela teoria da conspiração tenha embasamento real. Não é disso que se trata. Falo da absurdidade da proibição de um assunto como tema de investigação, pesquisa e entendimento.

O que honra realmente a Verdade na sua completude não é a sua imposição num molde acabado, mas a sua busca com a premissa de que ela nunca nos pertence completamente.

Vitória garantida: crie a Condenação e jogue os seus inimigos dentro dela

Como já disse várias vezes, a Arte da Guerra é a arte de mentir, de enganar o seu adversário, fazendo-o jogar o seu próprio jogo, onde a sua vitória é uma premissa do jogo todo, já que ele será disputado com as suas próprias regras que lhe darão toda a vantagem.

Este poder insidioso deveria ser considerado também, ou até principalmente, no cenário da guerra espiritual.

Uma prática que dá vitória garantida ao diabo é o de criar a certeza de uma Condenação, e depois jogar as almas humanas dentro dessa certeza, com o truque de forjar a aparência da verdade ou até da virtude naquele mesmo esquema onde mais tarde se revelará o truque.

Foi assim que o Cristianismo foi inventado pelo diabo, na forma das várias religiões cristãs que se espalham pelo mundo, trocando o objeto do culto espiritual verdadeiro, que é o Amor do Pai revelado pelo Filho, por objetos de idolatria e práticas condenáveis, como a adoração de imagens, santos, livros, relíquias, e a prática de sacrifícios de sangue, necromancia, magia na forma de sacramentos, etc.

Sei que tudo isso pode ser muito escandaloso, e peço a mim a proteção do Espírito Santo para que só uma alma madura persista na avaliação das coisas que escrevo e digo, contando para isso com a óbvia conveniência de que só me lê e me assiste quem quer, porque graças a Deus fui dispensado de qualquer falso papel de autoridade, ou da posse de um poder ilegítimo.

O ser humano nasce desde o Pecado Original, o Pacto Ouroboros, sob a Maldição e a Queda, e é criado em cativeiro sob a mentira do mundo, sendo tentado, assim, a considerar todas as coisas carnalmente.

Assim, o ser humano comum entende a sua relação com o Altíssimo, desconsiderado da pureza da sua santidade, como entende a relação entre um proprietário e um escravo, ou entre um negociante e um mercenário, comparando as coisas espirituais com as carnais com as quais foi condicionado a conviver desde que nasceu pelos seus pais. Também é deste modo que o ser humano aprende a ser idólatra, crente não só de relações de poder e troca, mas também de sinais e prodígios, menos disposto a ser afetado pela virtude e santidade das coisas de Deus do que pela impressão do sobrenatural.

Digo isso para que se entenda a realidade com o devido contexto, antes que caiamos na tentação de condenar o próximo que foi vendido como escravo ao diabo, sem chance de defesa senão a misericórdia divina da qual devemos ser os embaixadores neste mundo, se é que ousamos assumir a filiação adotiva do Pai em associação com Jesus Cristo como o Filho perfeito.

O que o diabo quer no fim das contas lhe será negado.

Porque não triunfará essa mentira toda, especialmente no caso dos cristãos que foram enganados pela invenção do Cristianismo, e isso pela intenção reta dos seus corações, que o Altíssimo experimentará infalivelmente.

Lembremos que por mais que a mentira tenha se insurgido no meio da veneração ao Deus verdadeiro, o testemunho legítimo da confiança no Amor de Deus nunca abandonou o seio da Igreja espiritual, o verdadeiro Corpo de Cristo. E isso porque o astuto inimigo do homem nunca foi capaz de produzir qualquer substituto da Verdade, dependendo sempre da parasitagem, o que o forçou a trabalhar a favor do plano divino para o esclarecimento daqueles fiéis que desejaram de fato a vida espiritual na Presença do seu Criador. É assim que todas as coisas serão justificadas no fim.

A vitória garantida no fim das contas se revelará uma derrota garantida: querendo corromper, perverter e subverter, o adversário apenas executou a providência divina que sempre odiou, servindo à força, para a sua maior humilhação.

Redenção vs. Normalização

Toda a perspectiva colaboracionista, de comprometimento e acordo com o espírito do mundo, deve ser entendida como componente do processo de Normalização dentro do Sistema da Besta, especialmente no desempenho da função do Bispo, como vemos, por exemplo, no papel das igrejas cristãs.

Qualquer Igreja Cristã verdadeira deveria ser em primeiro lugar isto mesmo: cristã.

O que isto quer dizer?

Cristão quer dizer Messiânico, a crença numa Unção especial designada para a Redenção de uma realidade decaída, desordenada, amaldiçoada e caótica.

Todo processo de Normalização vai no sentido contrário, o da justificação do estado caótico como derivação de um jusnaturalismo, isto é, de uma visão idólatra da natureza, de um naturalismo com sentido espiritual.

Ser cristão é o mesmo que ser Redencionista, crente numa Redenção, na consumação de um desígnio divino que implica na restauração do ideal criativo do Deus que ordena todas a coisas a sua finalidade ótima.

Deste modo entendemos, em confirmação com o que já pude explicar em A Coruscância a respeito do conservadorismo diabólico, que há uma perspectiva algo revolucionária na verdadeira visão cristã das coisas, embora esta revolução possa ser sempre pervertida ela mesma para uma finalidade equivocada, quando seu alvo é identificado fora da alma humana, ao invés de localizar seu objeto no interior do próprio ser humano.

Isto quer dizer que de todo modo a conservação do status quo sempre valida o Pacto Ouroboros com as suas consequências, ou seja, o governo de Satanás sobre este mundo, ao passo que a rejeição da traição contra o império de Deus não é inequívoca, sendo ambiguamente interpretável no sentido da revolução exterior do messianismo histórico, a reforma do mundo, ou no sentido da revolução interior do messianismo espiritual, a reforma do homem.

A ação de toda igreja “cristã” que serve apenas para a legitimação e normalização do governo do mal sobre o mundo é, assim, sempre equivocada, embora a solução de rompimento com esse estado de coisas não seja sempre inequívoca, conforme a exterioridade ou interioridade da ruptura com o Pacto Ouroboros se revele gnóstica e iniciática, com o objetivo de dominar o processo histórico na presunção da execução de um mandato divino (a origem das revoluções que implantam todo tipo de desordem no mundo, o alvo principal da iniciativa das defesas conservadoras), ou baseada na Humildade, com consciência e responsabilidade, com o objetivo de renunciar a todo poder que constitua traição ou usurpação contra a autoridade divina.

Por uma reabilitação da filosofia moderna e do ceticismo

Já pude verificar abundantemente a conveniência de uma filosofia cínica contra o triunfo dos vários iluminismos humanos, como verificamos na avaliação do poder espiritual do enfoque moral sobre o epistemológico na sucessão do legado socrático.

Convém-nos, porém, avançar com uma mais generosa reabilitação da filosofia moderna, ou de partes dela, entendendo que tudo o que sucedeu ao império das luzes antigas e medievais se deveu a um desdobramento daquelas explorações filosóficas. Longe de um historicismo falacioso (post hoc ergo propter hoc, “depois de então por causa de”), essa visão deve nos levar a um equilíbrio ponderado que aceita erros em todos os tempos, sob a ótica muito razoável de que os seres humanos sempre foram mais ou menos do mesmo jeito, moral e intelectualmente. Vejam que com a rejeição de uma vantagem antiga ou moderna, o processo histórico não se revela como dedutivo e fatal, mas certamente como consequência no mínimo do ponto de vista da adaptação e evolução dos interesses humanos a respeito de determinado tema. Por exemplo, desanimados com a dispersão e quase futilidade da degeneração do período helenístico da filosofia antiga, os filósofos medievais tiveram legítimo interesse em renovar as investigações sob a inspiração da renovação da metafísica à luz da universalidade tanto do Evangelho quanto das redescobertas obras aristotélicas. Igualmente, depois os modernos, desanimados por sua vez com a aridez extrema dos últimos desdobramentos da escolástica medieval, puderam redirecionar seus interesses na direção de um reavivamento humanístico na revitalização da filosofia.

Mas para não cairmos numa questão impossível de resolução a respeito do sentido da História da Filosofia, podemos conciliar da forma mais simples a orientação que Jesus Cristo nos deu, de sermos “astutos como as serpentes”, no sentido da confirmação de certo ceticismo moderno, ao menos até certo ponto.

Encontramos suficientes absurdidades na defesa de certos teísmos extremos, talvez fundamentalistas do pior modo, como na supervalorização das aparências externas, ou na insuportável taxação dos códices moralistas. Todo esse modo de proceder denigre a vida humana, o ser feito à imagem e semelhança do Altíssimo para viver uma muito mais elevada realidade espiritual, não centrada nessas práticas fetichistas, totêmicas, animistas, etc., em uma palavra, práticas pagãs, no sentido de ignorantes.

Diante desses horrores que rebaixam a dignidade do ser humano, o Ceticismo prudente, que não seja extremo e dogmático ele mesmo, como na forma de Ateísmo, é um colaborador do espírito cristão verdadeiro que fica tão abalado quanto o de qualquer outro ao enxergar a decadência da religião.

Repito o que já disse antes: a maior invenção do diabo foi a Religião.

Responsável ele mesmo pela ruptura, já criou a alternativa da religação ao seu modo, isto é, colocando-se no lugar de Deus para o falso resgate da mesma raça que ele fez se perder. Bem típico.

É verdade que o Cientificismo moderno é uma nova forma de religiosidade, de culto dogmático, de justificação de uma casta sacerdotal cujas razões são inacessíveis ao laicato, e nesse sentido não configura a solução para o problema da Religião, sendo apenas o outro braço do mesmo mecanismo dialético, opondo a um mal outro simetricamente análogo, apenas com sinal invertido.

Um verdadeiro Ceticismo deve ser capaz de abalar a legitimação de toda presunção dogmática, seja do modo da antiga religião, ou de qualquer nova, e assim uma filosofia moderna que não pretenda demonstrar o que não pode –principalmente a inviabilidade de qualquer metafísica–, mas que queira somente questionar uma autoridade humana que se proponha definitiva, será sempre aliada do interesse cristão verdadeiro que consiste numa rendição à majestade divina, já que os dois processos, o filosófico e o espiritual, colaboram no sentido da realização da virtude da Humildade, cada qual ao seu modo.

A Questão Abraâmica: O Deus dos cristãos é o mesmo dos judeus e muçulmanos?

Toda vez em que o espírito do Anticristo, aquele que nega que Jesus Cristo seja o Filho de Deus, atua no mundo com uma nova proposta que obviamente viola a verdade revelada, nós aprendemos algo novo sobre como funciona o esquema da mentira.

É uma fatalidade para o inimigo que ele tenha que se mostrar toda vez que avança na conquista de novos poderes neste mundo. Bem acostumado às trevas que lhes são peculiares, o Adversário precisa se esconder não só porque é, como sempre foi, covarde diante do Espírito Santo, mas também porque, sendo mentiroso, a sua exposição à luz sempre evidencia a sua fraqueza, sua verdadeira natureza de perdedor e vencido, humilhado e rebaixado.

Ora, contemporaneamente temos o caso não só da proposta das Leis de Noé (Noahide Laws) pelo messianismo cabalista, como também o dos chamados Acordos de Abraão (Abraham Accords). O primeiro versa sobre a universalização da Torá para as Nações, especialmente na forma da condenação como idolatria, sob pena de capitação, para os cristãos que reconheçam Jesus Cristo como Filho de Deus. E o segundo versa sobre a paz e segurança no Oriente Médio, entre os povos que descendem dos filhos de Abraão, isto é, entre Ismael e Isaac.

Pois bem, nas duas situações judeus e muçulmanos muito convenientemente se irmanam com grande facilidade, podendo reconhecer facilmente o seu deus como o mesmo, tanto quanto reconhecem o seu ancestral comum como o mesmo, o velho Abraão, igualmente Patriarca de Israel e Profeta do Islam.

Na linha do que já investigamos antes a respeito de outros temas próximos, principalmente o da questão da instituição do sacrifício de sangue, é conveniente refletir sobre o que os cristãos verdadeiros têm a ver com essa linhagem judaico e muçulmana, ou melhor, e já indo à conclusão, refletir sobre tudo o que não há em comum entre essas mentalidades.

Se judeus e muçulmanos rejeitam Jesus Cristo como o Filho de Deus, essa decisão lhes associa ao espírito do Anticristo. É por esta razão que podem instalar com suposta justiça os tribunais para a sentença e execução dos cristãos como idólatras, o que aliás farão em associação com os falsos cristãos conduzidos pela maçonaria.

Do mesmo modo, com a sua paz em nome da descendência comum de Abraão, sob o poder da carne e do sangue, tanto judeus quanto muçulmanos rejeitam a descendência cristã de Abraão, sob o poder do Espírito Santo.

Aceitando que o Ouroboros vêm se colocando diante do homem no lugar de Deus desde o início dos tempos, se a exclusividade da libertação vem do Filho de Deus que é o único que pode revelar o Pai (“Eu Sou o Caminho, a Verdade, e a Vida, ninguém vai ao Pai senão por Mim“), é bem possível e até viável que o Deus dos cristãos não seja o mesmo que o dos judeus e muçulmanos, principalmente se verificarmos a negação de Jesus Cristo como o Filho de Deus, e a presunção das obras da carne contra as obras do Espírito na questão da filiação carnal ou espiritual de Abraão.

Muitos cristãos tradicionalistas, escravos do Culto do Ouroboros na forma do Cristianismo, negarão essa possibilidade, justamente pela necessidade da indicação da descendência de Jesus a partir de Abraão. Ora, Jesus mesmo desprezou essa descendência, já que ela servia, assim como o conhecimento da Lei mosaica, apenas para o reconhecimento da sua autoridade, coisa em que os judeus flagrantemente falharam. Ou seja, no que importava a associação com Abraão e Moisés, de nada adiantou que os judeus possuíssem o Antigo Testamento. Pode-se pensar diversamente com a alegação de que os Apóstolos foram os primeiros cristãos enquanto judeus, mas isso viola a realidade da supremacia do Evangelho sobre todas as nações, sendo uma corrupção da verdadeira universalidade da Salvação e do Amor de Deus. Os Apóstolos não aceitaram Jesus Cristo por serem judeus, mas apesar de o serem.

Em nada a escravidão da religião cristã institucionalizada ao Culto do Ouroboros é tão evidente quanto na aceitação do sacrifício de sangue como mandamento divino. E nisso os religiosos se associam, percebendo ou não, com os assassinos de Jesus, os mesmos que até hoje entendem o Cristianismo como manifestação da vontade de Deus de converter as nações ao messianismo judaico.

Aos descendentes carnais de Abraão, entre os quais podem se incluir ao lado dos descendentes de Isaac também os de Ismael, por associação ideológica e espiritual, Jesus disse como continua dizendo: “por isso não me ouvis, pois sois do vosso pai, o diabo“.

De que adiantou a descendência carnal, do sangue de Abraão, se a descendência espiritual daqueles que recusam Jesus Cristo como Filho de Deus os associa com o espírito do Anticristo?

Pior do que tudo isso, obviamente, é a perversão do Cristianismo que se associa com o culto de sangue do paganismo disfarçado.

Sendo assim, devemos condenar totalmente qualquer noção cultural ou histórica de sociedade “judaico-cristã”, bem como o valor da falsa paz dos Acordos de Abraão, já que tudo isso só serve para a execução das Leis de Noé, produzindo a confusão entre o Deus verdadeiro, revelado como Pai pelo Filho, com o falso deus dos judeus e muçulmanos, que é o Ouroboros que institui como principal ritual o assassinato.

Este é o Príncipe deste mundo, um mentiroso, ladrão e assassino: mente sobre ser deus quando não o é, rouba os méritos do Criador colocando-se no lugar santo, e legitima o assassinato de todos os que se opõe à sua maldade, como se isso fosse a obra de Deus.

O verdadeiro filho da promessa veio nos libertar do cativeiro do mundo decaído e amaldiçoado denunciando a traição cometida pelos nossos pais. Ele é quem deu a verdadeira alegria a Abraão, não sendo constituído pela virtude da carne e do sangue, mas da fidelidade espiritual que revelou da forma perfeita que o seu ascendente carnal não pôde fazer.

Do outro lado, o filho da falsa promessa da redenção pelo sangue não só executou o assassinato de Jesus Cristo na cruz, como vai levar o mundo à total apostasia sendo reconhecido no lugar de Deus sendo apenas um homem, filho do pecado, descendente da carne e do sangue de Abraão.

Os judeus dizem que Abraão foi sacrificar Isaac no Monte do Templo.

Os muçulmanos dizem que Abraão foi sacrificar Ismael no Monte do Templo.

Mas o Deus verdadeiro poupou Abraão de fazer o que não poupou a Si mesmo: o Filho de Deus se fez homem para entregar-se como Cordeiro de Deus para ser aceito pelos seus, submetendo-se à rejeição daqueles que o odiaram sem motivo e o executaram injustamente.

Realizou-se assim a Revelação perfeita: a da pureza do Amor de Deus, e ao mesmo tempo a da mentira do Acusador que não resistiu à tentação de condenar Jesus, revelando assim a sua verdadeira natureza assassina.

Do mesmo modo, quando os usurpadores se levantarem para a execução dos cristãos verdadeiros, pelos frutos conhecereis a árvore: os fiés a Deus aceitarão o martírio com a felicidade da confirmação da sua filiação espiritual, ao passo em que os traidores de Deus praticarão a injustiça confirmando a também a sua própria filiação espiritual.

No que Abraão repetiu o pecado de Adão, ele produziu a continuidade da traição contra Deus.

No que Abraão precedeu a virtude de Jesus, ele produziu o testemunho da verdade em favor de Deus.

Quanto aos cristãos religiosos, institucionalizados, principalmente associados com a prática do reconhecimento do ritual de sangue, digo-vos alinhado com a orientação já recebida antes: sai dela, povo meu.

Abraão não pôde sacrificar a sua obstinação por ter uma descendência carnal em imitação ao Pacto de Adão, do qual seu Criador quis lhe poupar. Mas Deus não se poupou de tomar a forma do Filho do Homem para trazer a Redenção a todos os prisioneiros da mentira e da injustiça que quisessem aceitá-lo como o executor do espólio espiritual de Abraão, o que o próprio Abraão não pôde fazer através da descendência do seu sangue.

Amplia-se, assim, o sentido das palavras de Jesus quando este revelou: “antes que Abraão fosse, EU SOU“.

Jesus Cristo é o filho da promessa para a verdadeira redenção que não é da carne nem do sangue, mas do espírito.

O Japão contra o Ouroboros

É muito interessante observar como as duas ferramentas fundamentais do governo do diabo sobre este mundo, isto é, (1) a reprodução da próxima safra de escravos, e (2) a manutenção destas novas safras sob império das religiões, são corroídas com o desenvolvimento humano na forma de prosperidade material e então das liberdades civis correspondentes ao fortalecimento da classe média.

Por esta razão o Conservadorismo é a arma mais formidável do Ouroboros para governar o mundo (como já expliquei no meu livro A Coruscância, no capítulo “O diabo, esse conservador”), tornando toda possibilidade de liberdade absurda sob a falsa Revolução exterior gnóstica que promove valores anti-humanos, de modo a levar uma humanidade assustada a agarrar para sua proteção todo tipo de solução reacionária, na forma dos costumes que reforçam o Ouroboros, como uma tribo amedrontada se prostrando diante de seu totem.

Entre as nações que mais desafiam o império do Ouroboros encontramos o Japão.

Peço que observem os seguintes mapas:

A) Importância da Religião:

B) Importância da Religião:

C) Taxa de Natalidade:

D) Equidade econômica ajustada pelo Desenvolvimento Humano:

Com as ilustrações acima podemos visualizar duas informações importantes sobre os japoneses:

1) que eles não acham que a prática de uma religião seja algo importante para as suas vidas;

2) que eles não estão interessados em encarnar novas almas neste mundo amaldiçoado, já que taxa de natalidade média do país fica abaixo dos 2.0, que é a taxa mínima de reposição da população.

Inversamente, tanto a importância da religião quanto a taxa de natalidade são altas justamente nos países com menor desenvolvimento humano e econômico, como em boa parte da África, do Oriente Médio, e parcialmente na América Latina.

No Japão temos uma sociedade que já se desenvolveu por tempo suficiente para que as novas gerações tirassem as conclusões mais óbvias a respeito da condição humana, contra o Pacto Ouroboros, algo que lhes foi permitido justamente pelo encontro das duas variáveis em questão.

Vejam que em outras sociedades razoavelmente desenvolvidas também por tempo suficiente, e talvez até por mais tempo, principalmente como o caso dos Estados Unidos, não vemos o mesmo fenômeno. E isso pela razão muito simples de que os EUA foram fundados sob a forte influência da tradição do Cristianismo e da Maçonaria, braços da Tradição Primordial como desenvolvimentos posteriores do Judaísmo.

No caso do Japão, a invasão cultural da Tradição Primordial pela via do Cristianismo jesuítico foi bloqueada e exterminada pelo shogunato Tokugawa.

Dir-se-ia que o Shintoísmo, ou mesmo o Budismo, ambos presentes na cultura japonesa, são manifestações da mesma Tradição Primordial subordinada ao Ouroboros. Porém observamos pelos fatos mesmo que estas culturas não possuem a mesma força de submissão que o Cristianismo ou o Islamismo, por exemplo, já que o povo japonês flagrantemente prefere se abster tanto da prática religiosa quanto da reprodução de descendência, coisa que não se permitiria fazer se tivesse sido convertido por qualquer tradição abraâmica.

Isto quer dizer que se em outros países, como nos EUA, a redução da natalidade entra em choque contra uma resistência cultural provinda da religião, no Japão o Ouroboros não tem essa defesa à sua disposição, por causa da indiferença da população local com relação a esse tipo de poder (o papel do Bispo no Sistema da Besta).

Convém observar que em outras nações, como no caso da China e da Coréia do Norte, o comunismo ateístico não concede necessariamente liberdade contra o Ouroboros, já que a natalidade pode ser incentivada ou até mesmo exigida por força de um governo totalitário que tem entre as suas metas mais óbvias a conservação da sua existência. Porém, também aí o japonês sempre se destacou da média ao seu redor, sendo extremamente contrário a todo tipo de socialismo político importado do exterior, já que tem acesso a uma forma interna de amparo coletivo que funciona bem por si. É um país com uma das menores desigualdades sociais do mundo em relação ao seu desenvolvimento econômico (imagem D) e, ao mesmo tempo, um dos mais contrários a toda utopia política do tipo de revolução externa gnóstica e messiânica que contaminou as nações atacadas pelo comunismo. Os japoneses não querem fundar o paraíso na Terra: eles querem ir embora daqui.

O Japão pode, assim, maravilhosamente, escapar duplamente do Ouroboros, da sua dialética perversa, constituindo-se como uma nação disposta a aceitar espontaneamente a sua extinção voluntária como resultado de um progresso moral.

Dificilmente poderemos encontrar esse grau de renúncia voluntária ao poder na sua forma mais elementar, que é a da subsistência na condição decaída e amaldiçoada, em qualquer outra nação do mundo no mesmo grau, talvez com a exceção da Coréia do Sul, e mesmo assim nem tanto porque a Coréia do Sul sofreu uma maior invasão do Cristianismo.

Na Europa os países escandinavos são os candidatos mais óbvios a seguir o exemplo japonês, mas com o agravante da participação num organismo político maior, o da União Européia, o que dá alguma permeabilidade a influência de outras culturas através do processo migratório, especialmente na forma do Islamismo.

No Japão, além dos elementos culturais já assinalados, tem-se ainda uma forte cultura isolacionista contra a imigração.

Tudo isso junto leva ao provável cenário de um grande declínio populacional naquela nação.

Seria o Japão o primeiro país na fila da aceitação plena do sentido do decreto da Maldição de Gênesis 3? Uma nação disposta a voltar ao pó?

Uma coisa é certa: o Ouroboros não deve estar nada feliz com a liberdade japonesa contra os seus mecanismos de controle, o que nos leva a crer que a Nova Ordem Mundial deve querer agir contra o Japão de modo especial, no mínimo com a intenção de conter essa cultura de liberdade para que não se corra o risco de que ela se espalhe pelo mundo.

A liberdade é, afinal, perigosamente contagiante.

A pedra rejeitada pelos construtores se tornou a pedra angular

Já vimos que os maçons, pedreiros ou templários são espiritualmente definidos pela sua associação com o projeto da construção do Templo de Jerusalém, no que se envolvem fraternalmente com a Sinagoga de Satanás contra a revelação da verdade do Amor de Deus.

O que ainda não vimos e talvez muito nos convenha é que sendo essa associação maligna uma organização a serviço do Príncipe deste mundo, a Velha Serpente, também é viável verificar o quanto o Culto do Ouroboros é representado nessa traição em outra forma de culto.

Isto é, sendo o corpo humano reconhecido pelo seu propósito espiritual, reconhecemos que serve como um templo onde o local mais sagrado é o coração, o altar do sacrifício, em que são queimadas as ofertas (a comida) à divindade adorada pelo administrador do templo, o que o mantém em funcionamento (o sangue bombeado que mantém vivo o corpo).

Ora, sendo assim, se o templo vivo do ser humano for criado em traição ao Espírito Santo, e as pessoas que guardam esses corpos viverem em cativeiro, alienadas da verdade de Deus e dirigidas ao culto dos ídolos e principalmente da Serpente do Mundo, então há uma função óbvia na reprodução humana em associação com essa perversão, desde que os encarnados num estado amaldiçoado e decadente são conduzidos ao culto, no templo de seus corpos e no altar de deus corações, aos falsos deuses deste mundo, entre os quais e em especial o próprio Ouroboros.

Os templários podem ser vistos, assim, como todos os construtores destes templos vivos dirigidos para a idolatria, de modo que os Avari continuem a usurpação do lugar de Deus no coração dos homens escravos da mentira do mundo.

Desde o Pecado Original a raça humana constituiu, assim, essa fraternidade de construtores de templos de idolatria, e traindo a Deus desde o início, rejeitaram a pedra angular, que era o Amor de Deus totalmente revelado mais tarde em Jesus Cristo, que encarnou justamente não do pecado humano, mas da virtude da santidade divina.

A pedra rejeitada pelos construtores, o Amor de Deus, que é o único legítimo Criador de todas as coisas para todo o sempre, se tornou a pedra angular, e isto é maravilhoso para nós, já que agora vivemos libertos da grande mentira do mundo e podemos reconstituir o culto verdadeiro nos altares dos nossos templos vivos.

Entendam que muito antes de qualquer organização templária ou maçônica querer erguer um edifício feito de pedras, o Terceiro Templo de Jerusalém, muito antes o Culto do Ouroboros ergueu milhões ou até bilhões de templos vivos dirigidos para o seu culto mentiroso e abominável, templos construídos pelos partícipes por omissão ou comissão do Pecado Original, como será feito até o fim do mundo.

A dupla humilhação da Segunda Ressurreição

Diz-se que o Destino se realiza por bem ou por mal, pelo amor ou pela dor.

Talvez em nenhum caso isto seja tão óbvio como na comparação entre a Primeira Ressurreição e a Segunda Ressurreição.

A Segunda Ressurreição é um gesto vastíssimo de salvação da parte do Criador e amante de todas as coisas, o Deus verdadeiro que a tudo fez para o propósito da satisfação do seu Amor.

Já dissemos aqui que este momento, naquele Dia do Juízo Final, é o mais terrível de todos, quando abrir-se-ão os livros que condenarão, de maneira inequívoca e inapelável, todos os que recusaram o Amor de Deus. Isto porque abundarão as razões divinas que mostrarão as muitas oportunidades perdidas para se tomar uma decisão mais razoável e benéfica, e tudo por fraqueza, timidez, medos e vaidades mesquinhas, bobagens que serão muito humilhantes diante da majestade da Glória divina. O desprezo pela salvação se mostrará na sua total indignidade e tolice.

Este momento serve, porém, como já dissemos, para que num último suspiro de vida o ressuscitado se declare culpado sem reservas, atraindo assim, para si, o poder invencível da misericórdia divina, que ninguém tem autoridade ou poder para conter. Só escaparão dessa destinação designada pelo Amor divino as almas obstinadas na sua recusa, que persistirão na sua mentirosa alegação de inocência.

Pois bem, além de toda essa santa humilhação a que todos nós assistiremos, sem exceção, soma-se uma segunda razão humilhante que será revelada na leitura dos livros, quando se mostrará então o quanto foi possível ao poder divino converter todos os males humanos e demoníacos em uma solução aprazível ao Espírito Santo de Deus, de modo que serão revelados como servidores do Altíssimo mesmo aqueles todos que mais furiosamente se recusaram a aceitar o império do Eterno sobre todas as coisas.

Esta é a dupla humilhação: que além de ter recusado o maior de todos os bens, uma alma tenha servido de qualquer modo ao projeto divino de salvação universal, forçados por uma sabedoria providencial inigualável, que é a Arte Divina por excelência.

Não é pouca coisa. Será, de fato, muito humilhante, mas será maravilhoso ao mesmo tempo. Tudo estará pronto e acabado para que qualquer alma ainda capaz de alguma humildade consiga finalmente reconhecer, em seu último suspiro, a Glória do Criador de todas as coisas, e a grandeza do seu Amor.

Para quem quiser meditar mais sobre este tema, recomendo a leitura dos Capítulos 40 a 50 do livro do Gênesis, onde a história de José do Egito evidencia a vitória divina apesar de todas as perversidades humanas que tentam disputar inutilmente contra o triunfo do Bem.