O Japão contra o Ouroboros

É muito interessante observar como as duas ferramentas fundamentais do governo do diabo sobre este mundo, isto é, (1) a reprodução da próxima safra de escravos, e (2) a manutenção destas novas safras sob império das religiões, são corroídas com o desenvolvimento humano na forma de prosperidade material e então das liberdades civis correspondentes ao fortalecimento da classe média.

Por esta razão o Conservadorismo é a arma mais formidável do Ouroboros para governar o mundo (como já expliquei no meu livro A Coruscância, no capítulo “O diabo, esse conservador”), tornando toda possibilidade de liberdade absurda sob a falsa Revolução exterior gnóstica que promove valores anti-humanos, de modo a levar uma humanidade assustada a agarrar para sua proteção todo tipo de solução reacionária, na forma dos costumes que reforçam o Ouroboros, como uma tribo amedrontada se prostrando diante de seu totem.

Entre as nações que mais desafiam o império do Ouroboros encontramos o Japão.

Peço que observem os seguintes mapas:

A) Importância da Religião:

B) Importância da Religião:

C) Taxa de Natalidade:

D) Equidade econômica ajustada pelo Desenvolvimento Humano:

Com as ilustrações acima podemos visualizar duas informações importantes sobre os japoneses:

1) que eles não acham que a prática de uma religião seja algo importante para as suas vidas;

2) que eles não estão interessados em encarnar novas almas neste mundo amaldiçoado, já que taxa de natalidade média do país fica abaixo dos 2.0, que é a taxa mínima de reposição da população.

Inversamente, tanto a importância da religião quanto a taxa de natalidade são altas justamente nos países com menor desenvolvimento humano e econômico, como em boa parte da África, do Oriente Médio, e parcialmente na América Latina.

No Japão temos uma sociedade que já se desenvolveu por tempo suficiente para que as novas gerações tirassem as conclusões mais óbvias a respeito da condição humana, contra o Pacto Ouroboros, algo que lhes foi permitido justamente pelo encontro das duas variáveis em questão.

Vejam que em outras sociedades razoavelmente desenvolvidas também por tempo suficiente, e talvez até por mais tempo, principalmente como o caso dos Estados Unidos, não vemos o mesmo fenômeno. E isso pela razão muito simples de que os EUA foram fundados sob a forte influência da tradição do Cristianismo e da Maçonaria, braços da Tradição Primordial como desenvolvimentos posteriores do Judaísmo.

No caso do Japão, a invasão cultural da Tradição Primordial pela via do Cristianismo jesuítico foi bloqueada e exterminada pelo shogunato Tokugawa.

Dir-se-ia que o Shintoísmo, ou mesmo o Budismo, ambos presentes na cultura japonesa, são manifestações da mesma Tradição Primordial subordinada ao Ouroboros. Porém observamos pelos fatos mesmo que estas culturas não possuem a mesma força de submissão que o Cristianismo ou o Islamismo, por exemplo, já que o povo japonês flagrantemente prefere se abster tanto da prática religiosa quanto da reprodução de descendência, coisa que não se permitiria fazer se tivesse sido convertido por qualquer tradição abraâmica.

Isto quer dizer que se em outros países, como nos EUA, a redução da natalidade entra em choque contra uma resistência cultural provinda da religião, no Japão o Ouroboros não tem essa defesa à sua disposição, por causa da indiferença da população local com relação a esse tipo de poder (o papel do Bispo no Sistema da Besta).

Convém observar que em outras nações, como no caso da China e da Coréia do Norte, o comunismo ateístico não concede necessariamente liberdade contra o Ouroboros, já que a natalidade pode ser incentivada ou até mesmo exigida por força de um governo totalitário que tem entre as suas metas mais óbvias a conservação da sua existência. Porém, também aí o japonês sempre se destacou da média ao seu redor, sendo extremamente contrário a todo tipo de socialismo político importado do exterior, já que tem acesso a uma forma interna de amparo coletivo que funciona bem por si. É um país com uma das menores desigualdades sociais do mundo em relação ao seu desenvolvimento econômico (imagem D) e, ao mesmo tempo, um dos mais contrários a toda utopia política do tipo de revolução externa gnóstica e messiânica que contaminou as nações atacadas pelo comunismo. Os japoneses não querem fundar o paraíso na Terra: eles querem ir embora daqui.

O Japão pode, assim, maravilhosamente, escapar duplamente do Ouroboros, da sua dialética perversa, constituindo-se como uma nação disposta a aceitar espontaneamente a sua extinção voluntária como resultado de um progresso moral.

Dificilmente poderemos encontrar esse grau de renúncia voluntária ao poder na sua forma mais elementar, que é a da subsistência na condição decaída e amaldiçoada, em qualquer outra nação do mundo no mesmo grau, talvez com a exceção da Coréia do Sul, e mesmo assim nem tanto porque a Coréia do Sul sofreu uma maior invasão do Cristianismo.

Na Europa os países escandinavos são os candidatos mais óbvios a seguir o exemplo japonês, mas com o agravante da participação num organismo político maior, o da União Européia, o que dá alguma permeabilidade a influência de outras culturas através do processo migratório, especialmente na forma do Islamismo.

No Japão, além dos elementos culturais já assinalados, tem-se ainda uma forte cultura isolacionista contra a imigração.

Tudo isso junto leva ao provável cenário de um grande declínio populacional naquela nação.

Seria o Japão o primeiro país na fila da aceitação plena do sentido do decreto da Maldição de Gênesis 3? Uma nação disposta a voltar ao pó?

Uma coisa é certa: o Ouroboros não deve estar nada feliz com a liberdade japonesa contra os seus mecanismos de controle, o que nos leva a crer que a Nova Ordem Mundial deve querer agir contra o Japão de modo especial, no mínimo com a intenção de conter essa cultura de liberdade para que não se corra o risco de que ela se espalhe pelo mundo.

A liberdade é, afinal, perigosamente contagiante.

Esclarecimentos tempestivos

Estando certamente e por definição mais pertos do Fim como nunca antes, convém fazer alguns esclarecimentos tempestivos para que não haja confusão sobre o que é especulação e o que é crença firme na minha visão espiritual das coisas.

Primeiramente, com relação a questão da Trindade, recentemente eu disse que não via como tão necessária a pessoa do Espírito Santo quanto a de Jesus Cristo, exatamente porque a salvação reconhecendo Jesus como o Filho de Deus deve ser considerada sempre suficiente. Dizia eu que o que mais importa ao cristão é que reconheça em Jesus a revelação de Deus como Pai e Filho, já que isto revela a perfeição do Amor divino na própria essência de quem Deus é.

Mas isto não quer dizer que prudentemente não possamos considerar o Espírito Santo como pessoa, na nossa guerra aberta contra a Tradição. Não foi isto o que eu quis dizer, isto é, que não se deve considerar o Espírito Santo como pessoa divina. Meu problema é, como continua sendo, crer por convicção e não por costume. E isso porque o costume é o veículo da Cabala, da Tradição, que contaminou todas as religiões do mundo para produzir um grande engano com relação a quem Deus é e com relação ao sentido da condição humana neste mundo.

Isto quer dizer que a qualquer momento o Espírito Santo de Deus pode me esclarecer a sua pessoalidade quando isso lhe for conveniente para o propósito da minha mais perfeita conversão à Revelação de Deus. Cabe a Ele, e não a mim, assim o decidir. Vejam que até na minha linguagem eu já me alinho com todos os cristãos trinitários, atribuindo ação divina ao Espírito Santo. E de fato não tenho nenhum problema com isso deste modo, porque está muito de acordo com a natureza da santidade do Altíssimo.

Podemos ter problemas com a manifestação do Espírito em modos que possam ser falíveis, isto é, aparições, prodígios, milagres, etc.

Só para dar um exemplo, recentemente ouvi a exposição de um trinitário bastante escolado no tema, mostrando mais uma perversão talmúdica, que seria a equivalência do Anjo do Senhor a uma entidade criada com dignidade superior a dos anjos, mas inferior à de Deus, chamada Metatron. Isto é, para não reconhecer a pessoa do Espírito Santo, que tomou a forma de Anjo do Senhor nesta ou naquela situação, os rabinos deram um jeito de reconhecer um Anjo que teria a perfeição do Nome em si como um procurador, sem compartilhar a substância divina.

Isso nos indica que a Santíssima Trindade poderia ter sido reconhecida com mais facilidade se não fosse uma obstrução da tradição judaica. Mas a tradição cristã supostamente teria vencido isso e trazido a Verdade ao conhecimento dos fiéis. Acredito que possa ter sido assim e, para ficar bem claro, não vou disputar a doutrina da Trindade divina. E não o farei porque não o preciso fazer, simples assim. Não tenho nenhum problema com essa crença, desde que ela não fere qualquer princípio fundamental da vida espiritual.

Mas eis que se eu tivesse que reconhecer a pessoalidade do Espírito Santo numa atuação manifestada de tal maneira que eu pudesse dizer “sim” ou “não” em uma situação concreta, como um teste, eu teria que recuar com o Temor do Senhor, o medo do mal, porque o Apóstolo já alertou que Satanás pode se apresentar como Anjo de Luz, tendo sido Lúcifer desde o princípio. Esta questão é muito preciosa para mim, na linha do que está escrito: “é sem mentira que se cumprirá a Palavra“. Ou seja: assim como é um grande erro testar o Amor de Deus, é um grande erro supor que Deus queira nos testar para ser dignos do seu Amor. Tendo sempre o Amor como premissa, e não como conclusão, entendo que é parte constituinte da misericórdia do Espírito Santo de Deus que não condicione nenhum ser humano a uma situação de risco, de temeridade, de jogo, e bem ao contrário, que Ele entregue o seu Amor incondicionalmente como já o fez, esperando que façamos o mesmo. É uma doação mútua de confiança, e não de cobranças e testes, como pode pensar uma crendice bastante corrompida e supersticiosa.

Outro esclarecimento tempestivo concerne a questão da pregação cristã.

Uma coisa é afirmar que a Igreja, ou seja, aqueles que receberam a Revelação Cristã e que acreditam em Jesus Cristo realmente, tenha a eleição divina da Salvação.

Outra coisa é afirmar que a Igreja tem toda a salvação possível, de modo que quem não receber a Revelação ou não acreditar em Jesus Cristo plenamente, na forma da religião cristã, não possa ser salvo de forma nenhuma.

Existe um plano excelente de Salvação a que todo cristão deve aderir integralmente: o de dar o testemunho da verdade em que crê. Essa é a nossa tarefa de pregação ao próximo, o que não tem nada a ver com proselitismo religioso. A ação religiosa apenas reforça a Tradição Primordial a qual está conectada, e afasta as pessoas de Deus. Pessoalmente, individualmente, monadofilicamente, podemos e devemos dar o testemunho toda e cada vez em que isso for circunstancialmente apontado como um dever de estado pela ação da Providência divina. Ou seja, a pregação cristã não deve violar a soberania da consciência individual que recebe o dom do Discernimento do Espírito, de modo que é sempre uma ação singular e nunca uma ação coletiva, religiosa, eclesiástica, etc.

Dito isso, apesar do plano excelente de Deus, “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos“, e “estreita é a porta“.

Há muitos religiosos que querem se achar como aqueles fariseus, partes de uma elite minoritária de salvos, mas a questão não é essa.

Deus esclarece-nos que nada pode ultrapassar o seu gesto de salvação, senão a liberdade da vontade humana que Ele mesmo nos concedeu.

É por isso que há duas Ressurreições: uma para os santos, os eleitos, aqueles que disseram “sim” sem a evidência do Bem, por pureza da sua confiança, e uma outra para os perdidos, aqueles que não foram capazes de dizer o mesmo “sim” por falta de confiança, mas a quem o Amor de Deus pode salvar por mérito da Sua própria glorificação.

Na minha terminologia falo dos destinos dos nascidos Sindar que podem ser Noldor ou Falmari, participando respectivamente da Primeira Ressurreição, ou da Segunda Ressurreição.

Não entendam mal: o Dia do Juízo Final é para a condenação de todos aqueles que não confiaram no Amor de Deus.

Mas aqueles que são chamados de volta à vida o são para viver, e não para morrer, porque Deus não faz uso da Justiça sem a perfeição da Misericórdia: é para que se declarem culpados e arrependidos, em terrível humilhação, que os Falmari, os Últimos, ressuscitarão. E com a sua anuência ao Amor, o Eterno será muito mais glorificado e exaltado por toda a Criação.

Posso ter dado, equivocadamente, a impressão de que seria contra a pregação cristã. Não sou. Não poderia ser! O que eu faço não é um trabalho de pregação?

Aquilo que eu combati e vou combater sempre é a hipocrisia mentirosa da Religião que se pretende santa e mestra, quando já se prostituiu faz tempo com o mundo.

Vamos pregar, sim, graças a Deus, e livres de toda mentira.

Eleuteriodiceia

Por que existe o mal no mundo?

A justificativa de Deus, ou Teodiceia, se dá pela incompatibilidade da natureza divina com qualquer ato criativo que viole a sua essência, ao mesmo tempo em que toda a razão limitada das criaturas contingentes deve ser entendida na sua posição de finitude como incapaz de produzir um juízo suficiente das razões que a transcendem.

Dado o rompimento da humanidade iluminista contra toda Metafísica que mantinha a segurança naquela noção da essência divina, restou à nossa época a desmoralização da Antropodiceia, ou a justificativa do homem por si mesmo.

Mas tudo que o ser humano encontra quando se enxerga no espelho é o pó que é por si mesmo e que nunca vai deixar de ser: uma arbitrariedade vaidosa e mentirosa. Sem Deus, seu caminho é o culto do Caos e do Nada, aquelas forças inferiores de que falavam os antigos quando se referiam ao tempo anterior ao Cosmos. Ou seja, esta humanidade tende à dissolução de uma entropia natural.

No entanto, podemos a qualquer momento romper com a própria ruptura. Maravilhosamente, ganhamos uma tal condição de distinção individual e de liberdade que conseguimos observar o resultado do movimento da história das ideias e julga-lo como insuficiente ou errôneo, ao ponto de nos movermos particularmente apartados da mentalidade da época. Isso sempre foi possível, é claro. Mas talvez nunca tenha sido tão fácil, ao menos para as almas mais desejosas que, em quantidade, podem ser inversamente as mais escassas de todos os tempos.

Voltamos, se quisermos, à justiça da Teodiceia, e ainda a qualificamos com uma crença cristã que torna a consciência ainda mais clara e pura na contemplação da majestade divina. E de tal ponto de vista privilegiado, com total confiança no Amor divino como causa fundamental, podemos avançar no que sempre foi mais interessante do que a disputa da legitimidade da Providência, isto é, o entendimento das razões mais profundas da realidade a partir da pacificação do tema da justiça maior do Ser.

Nesse intuito encontramos a Liberdade como eixo central, nas mônadas criadas à imagem e semelhança da Mônada Incriada, que explica a necessidade do mal realmente possível para que a escolha mais conveniente seja também uma possibilidade real e não mera intenção.

Entramos, assim, no território da Eleuteriodiceia, ou a justificativa da Liberdade.

Em Deus, a perfeição da sua Vontade já comunica a essência perfeitamente benéfica e amorosa para a total integridade do Arbítrio divino.

Mas na liberdade dos contingentes o mesmo não ocorre. Eles precisam receber uma justiça que lhes ultrapassa. Essa garantia transcendente é o próprio Amor divino que designa a perfeição das criaturas de acordo com a sua forma de ser desde a sua origem.

Há, de modo crítico, um ápice ou cume nas várias formas das mônadas possíveis, que consiste naquela semelhança com a essência divina e que permite por esse recurso extraordinário a satisfação de uma perfeição incomparavelmente maior que a das demais mônadas não livres. Isto é assim ao ponto de que uma mônada livre, como a de um anjo ou de um ser humano que viva num estado de Comunhão e Glória (Coruscância), pode ser reconhecida como divina diante das demais mônadas que lhes são inferiores.

Sendo essa forma de ser tão mais perfeita a mais conveniente para a felicidade divina e para a maior glória do Nome de Deus, ela deve ser realizada necessariamente, do contrário a Criação não restaria perfeita e acabada.

É assim que o mal deve ser permitido pois, contido pela Providência da Maldição, tem seus efeitos temporalmente limitados, o que compensa infinitamente a bem-aventurança daqueles que aceitarem a vida como Graça pelo Amor de Deus.

Convém por fim lembrar do totalitarismo espiritual do Paraíso, ou da vida em total comunhão com o Espírito Santo, onde o estado voluntário de participação na perfeição divina significa a sublimação da liberdade específica de negação da bondade de Deus, de modo que não poderíamos existir como almas livres num estado de perfeição imediato pois não teríamos o poder de rejeitar essa realidade, o que significa que não poderíamos ser quem somos, mas somente análogos, como criaturas menores do Omniverso Interior. Para que recebamos a Vida Eterna é preciso antes passar pela mediação de uma experiência temporal que nos permita aceitar ou rejeitar o Amor sem sermos oprimidos pela supremacia da sua perfeição paradisíaca.

Justifica-se, assim, com a Eleuteriodiceia, tanto a realidade atual de qualquer mal temporal, como a nossa presença num mundo que contenha esse tipo de realidade.

Nunca vos conheci

Aprendi com o próprio Jesus Cristo, com seus apóstolos João e Paulo, e com cristãos de outras épocas como Agostinho, que existe sempre uma leitura espiritual e uma leitura carnal das Sagradas Escrituras, determinada pelo grau de consciência e discernimento de cada alma, o que por sua vez é definido pela intenção livre de cada coração humano de aceitar ou não a instrução do Espírito Santo.

Jesus faz um alerta terrível que deve abalar muitas almas por aí até hoje, quando disse que há quem o chame de Senhor e até faça muitas obras em seu Nome, mas que no momento da salvação pedirão por sua intervenção sem sucesso, quando ele dirá: “nunca vos conheci, apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade“.

Isso é maravilhoso e bem em linha com a maturidade espiritual cristã que identifica na mentira da hipocrisia o verdadeiro mal contra a santidade de Deus, e não na fraqueza humana. Até aí tudo bem.

O problema vem quando Jesus diz que ao perguntarem sobre a razão dessas coisas, ele afirma que falharam aqueles que, ao pedido de pão e água pelos menores irmãos, negaram essas coisas.

Imediatamente pensamos nos miseráveis da Terra, na caridade do amparo material, etc., o que parece confuso porque o que Jesus dizia era que justamente esse tipo de obra exterior era espiritualmente vazia se não correspondesse a uma inclinação correta do coração, de modo que alguém que seja honesto, mesmo que fraco nas obras, ou até omisso, poderia ser tido como fiel verdadeiro, enquanto que alguém muito bem sucedido nas obras externas poderia ser tido como falso e mentiroso, se a essa atitude exterior não correspondesse uma honestidade interior, principalmente no sentido da compra da salvação, ou seja, em um desejo de fazer negócios com o Amor divino.

Como resolver esse problema?

Resolvemos pela leitura espiritual.

Toda confusão deriva da leitura carnal, que tenta voltar sempre ao poder que o ser humano quer ter de se salvar por si mesmo, ou seja, de forçar Deus a agir de forma “amorosa” não como emanação livre da sua natureza, mas como contrapartida de uma relação de troca.

O que Jesus realmente quer dizer é que se você é um religioso que se nega a dar o testemunho do Amor de Deus na sua pureza e simplicidade quando isso lhe é pedido, você está negando o pão e a água aos fiéis.

Estas espécies são sempre símbolos do testemunho da verdade na linguagem divina. Deveria ficar muito evidente que é disto que o Filho de Deus está falando, já que ele veio para salvar os pecadores não com uma panacéia socialista, ou com uma revolução militar contra Roma, mas com o testemunho do Amor do Pai. Nunca que a fraqueza derivada dos medos humanos, muito naturais, frutos da condição de encarnação num mundo amaldiçoado e decaído, seria usada contra os fiéis. Mas a sua omissão ao dar testemunho do Amor do Pai revelado pelo Filho e, principalmente, nem tanto na forma da pregação, mas pela vida amorosa na forma do perdão e da misericórdia, isto sim é condenável, porque é uma falsidade, não é o esperado de um seguidor de Jesus Cristo.

Lembrem-se que Jesus, tentado no deserto, respondeu ao tentador: “nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra de Deus“.

O Filho não veio emendar uma humanidade decaída e amaldiçoada que só poderá ter remédio com a destruição destas coisas velhas. Ele veio dar o testemunho do Amor do Pai, de modo que todo aquele que confie nesta promessa receba a herança a que está destinado. Isso é assim para todo que creia neste Amor e aja de acordo com esta crença, sendo sal da terra e luz do mundo, vivendo o perdão e a misericórdia. É uma obra muito mais excelente e santa, universal e poderosa.

Deste modo podemos parafrasear a sentença de Jesus, por exemplo, assim:

Apartai-vos de mim os que quiseram comprar a salvação diminuindo o Amor do Pai com seus próprios méritos, esforços, obras e virtudes.

Nunca vos conheci, pois vocês nunca quiseram ser salvos, mas só desejaram salvar a si mesmos.

Isso é o que condiz com a guerra de Deus contra a mentira da idolatria e da presunção, que é o único verdadeiro obstáculo que impede o trinfo do seu Amor: a recusa direta da salvação pela presunção do mérito espiritual.

Um avarento, um fraco qualquer, é apenas mais um pecador que pode a qualquer momento dizer “sim” para a salvação do Amor divino, a partir mesmo do reconhecimento de que não foi tão caridoso nas coisas materiais quanto poderia ou deveria ter sido. Este pode confiar no Amor de Deus que lhe salve de sua miséria espiritual.

Mas e o rico em obras aparentes, carnais, inclusive e principalmente com caridades materiais, especialmente as mais pirotécnicas?

Esse não sabe que precisa da misericórdia de Deus tanto quanto o avarento que se sabe pecador, e eis o seu grande engano, e a sua ruína: é um mentiroso que acha não não vive a mesma miséria espiritual do seu irmão mais fraco.

É assim que o pobre de espírito é um bem-aventurado, pois não se orgulha de si e assume a sua miséria, e por isso se diz que é na fraqueza humana que a força de Deus mostra todo o seu poder, pois sua força é o Amor para aqueles que desejam ser amados, e não recompensados por seus falsos méritos, já que diante de Deus ninguém se justifica, somente o Filho o faz diante do Pai.

Este é o testemunho cristão.

Humildade, Coração, Amor: as três chaves da vida espiritual contra a pretensão do psiquismo gnóstico

Devemos ter, em primeiro lugar e sempre, a clareza da natureza e origem sobrenatural dos dons espirituais que sustentam a vida interior do cristão, a saber, a Fé, a Esperança e o Amor, que são concessões da Graça divina a favor daqueles que aceitam voluntariamente a sua formação pela comunhão com o Espírito Santo de Deus.

Dito isso, convém compreender como pode ser movida a vontade humana no sentido da aceitação dessa direção espiritual da Graça divina.

Não nos cabe questionar a dispensação da Graça aos fiéis, mas interessa o entendimento do concurso das faculdades humanas na direção da recepção da vontade divina.

Ora, o que cabe ao ser humano é o esvaziamento da sua pretensão, a renúncia, a fuga do mal, a abstenção na participação do espírito do mundo, um deixar de ser por si, em suma, o fim da idolatria em geral, mas em especial particularmente do antropoteísmo humanista.

Então o que o ser humano deve fazer é deixar de ser idólatra de si mesmo, especialmente na forma da sua razão humana, que é o psiquismo gnóstico, que foi a forma da traição originária contra a Aliança com Deus no princípio dos tempos. Se todos nascemos do pecado original que se consubstancia na mentira da salvação sem Deus através da emancipação gnóstica, é preciso fazer a renúncia que os nossos pais não fizeram a esta mentira. E a reafirmação da verdade traída da Aliança com Deus é a confissão da condição humana decaída e amaldiçoada, o que nos livra da mentira de ser orgulhosos e pretensiosos.

Numa palavra: a primeira chave da vida espiritual é a Humildade.

Não foi nada casual o testemunho do próprio Filho de Deus quando este nos ensinou: “aprendei de mim, que sou humilde.”

Este é o ponto mais alto da tradição cristã, quando grandes ou pequenas autoridades das igrejas reafirmaram o valor da virtude da Humildade em face de todas as outras, já que tudo é Graça de Deus, o que valida o tributo humano ao Amor divino que é o próprio reconhecimento da exclusividade da origem divina das virtudes, de modo que esta virtude é a mais propriamente humana, embora obviamente também sustentada pela Graça como fundamento.

Quem não puder se esvaziar da mentira não terá lugar para o abrigo da verdade que não lhe pertence. E em nada isso fica mais claro do que no questionamento da vida psíquica do ser humano como sede da consciência, que dá lugar ao reconhecimento da vida espiritual como a verdade da substância humana diante de Deus.

Isto quer dizer que a sede da alma é o coração e não a mente: não vivemos diante de Deus respondendo pelo que dominamos com o nosso intelecto, mas sim pelo que acreditamos com a nossa liberdade.

Nossa imagem e semelhança à natureza divina não só se refere ao dom intelectual, mas também e sobretudo ao dom do livre-arbítrio, já que este supera aquele quando se permite questionar dialeticamente qualquer verdade evidenciada pelo intelecto (ou seja, mentir), como também projetar a imagem da verdade sobre o que é desconhecido na forma da crença. Se a vontade não fosse superior, não teria soberania sobre o intelecto, tanto na forma do questionamento legítimo quanto na forma da mentira, e nem daria uma resposta de valor moral com base em princípios e valores autoevidentes que a própria vontade assente livremente e reconhece como premissas ao poder racional da mente humana. Assim, a vida psíquica parte de crenças e termina em crenças, ou seja, age sob o império da soberania da vontade: inicia sua atividade a partir do que é assentido como verdadeiro e termina formulando a razoabilidade daquilo que será proposto como o verdadeiro.

O aporte do Intelecto na vida espiritual certamente existe e se dá na autoevidência das verdades metafísicas que confirmam a condição humana, inclusive a da soberania do livre-arbítrio sobre tudo o que não é matéria de evidência intelectual. Abaixo deste nível de atuação noético, a potência intelectual se torna um recurso dialético que trabalha na produção da imagem da verdade, a convite da soberania da liberdade da vontade humana.

Perceba-se que até mesmo a evidência mais inquestionável, de natureza lógica e noética, aletheia apodeixis, é convidada pela vontade livre que assente com o reconhecimento da legitimidade do império da verdade que é evidenciada.

Assim, o psiquismo gnóstico deve ser derrotado na nossa vida interior, ao assumirmos que não obteremos nenhuma salvação pelas luzes dos nossos domínios cognitivos que são servos da vontade livre, e o que interessa é o condicionamento dessa vontade livre ao seu objeto mais perfeito, que é o Amor de Deus.

A Humildade vence o psiquismo gnóstico e aponta para o Coração, sede da vontade livre, único lugar onde pode habitar o Espírito Santo do Deus verdadeiro.

O Coração é a segunda chave da vida espiritual, porque é o instrumento da ação da consciência, da responsabilidade e do poder de assentimento ao Discernimento do Espírito Santo. Vencida a pretensão do psiquismo gnóstico, resta-nos a consciência e responsabilização da vontade livre em acordo com o dom divino que nos permite discernir o sentido do nosso viver.

O ser humano deve reconhecer que se define pelos seus termos, e deve tornar translúcido o seu segredo, de modo que saia das trevas o motor do viver que se escondia atrás do maquinário raciocinante. A segunda chave derrota o segundo nível de mentira. Primeiro, destrói-se a mentira de que o domínio do intelecto move a vontade, quando o contrário é a realidade. Segundo, destrói-se a mentira de que a vontade é movida por forças exteriores numa dinâmica causal independente, quando a realidade é que a vontade move-se por si mesma ao seu arbítrio, de modo que essa moção deve ser consciente e responsável.

Tanto quanto a verdade da Humildade levou à verdade do Coração, a verdade deste levará então à verdade do Amor, que é a última chave da vida espiritual.

Pois nenhum outro objeto é tão perfeito e desejável para toda a liberdade, como o confirma facilmente o recurso ao dom do Intelecto, quanto o Bem, de modo que a única crença verdadeira é a que se dirige ao Amor divino, como o Amor é o desejo do Bem, e a única vida plenamente vivida diante de Deus uma vida em que a consciência humana assuma a responsabilidade de crer no Amor de Deus, com todas as consequências que derivam dessa decisão.

Humilde, o ser humano se rende à verdade do Coração, isto é, da sua liberdade de mover-se, inclusive intelectualmente, na direção do objeto do seu desejo, e finalmente se rende à verdade do Amor que é o objeto mais perfeito da vida espiritual.

Quando finge que domina uma verdade que lhe transcende, o ser humano se incha da pretensão gnóstica, e a sua cura está na libertação dessa presunção assumindo que o que lhe move é o desejo da sua vontade, mas que então nenhum objeto é tão amável quando o Bem de Deus, provido pelo Amor do Criador. Esse é o caminho da rendição espiritual desde a soberba gnóstica até a humildade cristã.

Não é para ser senhor da verdade que o ser humano recebeu o dom do seu Intelecto, mas para ilustrar, com a Graça de Deus que lhe provê as luzes da razão natural, a necessidade da rendição ao Amor divino como solução exclusiva da condição humana, justamente pela sua fraqueza, e não por uma falsa força. A suficiência é mentirosa, é o erro básico da emancipação da idolatria, e a renúncia humilde a essa pretensão é a correção do erro dos nossos ancestrais. O que resta é o ser humano corrigido pela sua causa final, que não é a de sábio, mas a de vivente, amante e amado.

A Humildade é a chave do Coração, o Coração é a chave do Amor, e o Amor é a chave da Vida.

A História serve para a salvação dos eleitos?

Ouvi recentemente, de certo tomista renomado no país, que a “história serve para a salvação dos eleitos”. Aliás, esta afirmação foi repetida mais de uma vez em circunstâncias diferentes, em conversas diversas.

Gosto da lógica do serviço da existência contingente para a realização de uma causa final superior, e uso o tempo todo esse tipo de lógica. De fato, tudo o que é material e eficientemente causado o é para a realização das causas formal e final, de acordo com a designação de um decreto transcendente. O Logos divino chama todas as coisas a existir para um propósito bem designado e dentro de uma ordem bem definida.

Dito isto, não posso concordar tanto com a colocação do referido tomista, ou pelo menos não totalmente.

Realmente há uma função soteriológica na história deste mundo presente, como na de qualquer outro mundo que exista em condição análoga, isto é, para a definição da liberdade de aceitação ou rejeição do Amor divino.

Porém, a história deste nosso mundo em particular não decorre somente do arbítrio divino que determinou o campo de ação da liberdade humana. Esta liberdade humana já se manifestou ancestralmente na forma de uma traição fundamental que já foi bem localizada até mesmo pela tradição religiosa: o Pecado Original. E em decorrência dessa ruptura com o gesto de Aliança a partir da vontade do Criador, foi decretada uma também muito bem definida e ainda vigente Maldição contra a usurpação do erro humano da busca de emancipação do Amor do Eterno.

E eis o nosso problema: do jeito que se propõe, parece que é Deus quem deseja que mais almas se encarnem neste estado decadente e amaldiçoado, e não justamente os descendentes daquela traição ancestral que reproduzem, com seus atos, e por sua responsabilidade, o mesmo gesto de desobediência de seus pais. Esse gesto é o que que sustenta a justiça do próprio estado de Queda do qual cada nova geração nascida sem defesa, inocentemente, é obrigada a participar.

Assim, quando ouvimos a justificação das coisas presentes neste mundo, isto é, das mais variadas formas de sofrimento humano, tal situação é colocada na conta dos planos divinos, como se Deus tivesse que fazer uso de toda a miséria e loucura humana para a salvação dos seus, quando a verdade é que é o ser humano que ainda requer a experiência da vida na traição e usurpação, como seus pais, para alcançar o completamento da sua experiência espiritual diante de Deus.

É preciso desmontar e desmoralizar completamente essa narrativa trágica e fatalista que entende como inevitável o presente estado de coisas neste mundo, pois esta é uma fuga muito conveniente e covarde da realidade de que o ser humano é o responsável, pelo seu arbítrio, pela produção e perpetuação de todo o mal. Isto não deveria jamais entrar na consideração de uma necessidade divina, o que é indigno e desonroso perante a santidade do Criador. Quem tem necessidade da experiência do mal é essa raça maldita de traidores e mentirosos que ainda hoje continua debitando da economia salvífica de Deus aquilo que deveria pesar apenas sobre as suas próprias costas, como aliás acaba pesando por força da justiça do decreto da Maldição.

Por idolatria masoquista do sofrimento, por exemplo no símbolo da Cruz cristã, ou na idolatria naturalista da animalidade humana, ou qualquer outra, nossos irmãos continuam omitindo seu dever de consciência e responsabilidade. Preferem se comparar a animais, escravos e mercenários, do que assumir o chamado à dignidade da eleição filial ao Amor de Deus. E no maior descaramento depõem contra o Amor divino, dando testemunho das Trevas que lhes são peculiares, confundindo propositalmente o que Deus quer com o que Deus permite.

Se questionassem a qualquer momento o que Deus quer mesmo, veriam no Filho de Deus, encarnado Filho do Homem, o seu exemplo de vida perfeito e acabado: uma alma humilde e mansa, despretensiosa, separada da mistura do mundo, ansiosa apenas para o retorno à perfeição no seio do Pai. Isso obviamente não tem nada a ver com as formas de poder neste mundo, seja familiar, econômico, militar, político ou cultural. Ao contrário, é a renúncia de tudo isto.

Não falta nada a um cristão que queira cair em si, ainda menos a um tomista cujas luzes da razão natural já lhe deram privilégio maior ainda para aproveitar a oportunidade de assumir a verdade das coisas.

Será possível que aqueles que se dizem amantes da verdade possam começar a desejar de fato o objeto do seu amor?

A História serve sim para a salvação dos eleitos, mas não porque Deus quisesse que esta História fosse assim, e sim porque não deram outra chance a Ele, e o traíram desde o começo, forçando o seu Amor ao gesto mais extremo de misericórdia, como fazem até hoje.

Desde a primeira geração a nossa raça errou, e não satisfeita com sua rebeldia, repudiou todo testemunho verdadeiro que viesse da Palavra de Deus, assassinou cada Profeta do Senhor e finalmente completou a sua medida com a injustiça contra o próprio Cordeiro de Deus.

Pois bem, o Cordeiro está voltando como Leão para praticar o último gesto de misericórdia que é possível para com essa humanidade que permanece lhe traindo obstinadamente, dizendo que essa traição é a própria vontade do Senhor: vai salvar o seu resto que lhe pertence, e então exterminar completamente tudo o mais que não lhe tem serventia.

O que a Sinagoga de Satanás ainda não entendeu

Olhando a história sob a perspectiva vantajosa da noção de Revelação contínua da vontade deliberada de um Deus Todo-Poderoso (Pantokrator Theos) que governa sobre todas as coisas, não é difícil enxergar a perspectiva judaizada de um Maimônides que viu, com o crescimento do movimento cristão, uma indicação da confirmação da profecia em favor do “seu lado da história”, por assim dizer.

O que a Sinagoga de Satanás ainda não entendeu, porém, é que a profecia pode ser vista dos dois modos, o antigo e o novo. Se a velha Aliança perdeu efeito com a flagrante desobediência dos seus subscritores, e as profecias apontaram para Jesus Cristo como o cumpridor perfeito da nova Aliança, as profecias não podem ser vistas justamente do modo novo, cristão?

Assim, Mashiach ben Yoseph e Mashiach ben David (respectivamente, Messias filho de José e Messias filho de David) não são pessoas diferentes com funções diferentes, mas são a mesma pessoa em posições diferentes no tempo, realizando aquilo que é designado pela providência divina de acordo com o componente fundamental do livre-arbítrio humano.

A visão de certo rabinato instruído pelas luzes de Maimônides é que a função de Jesus Cristo foi a de servir, como Mashiach ben Yoseph, para que através do seu sofrimento as nações fossem preparadas, convertidas ao messianismo a ser plenamente realizado pelo Maschiach ben David, para aceitar a revelação final da supremacia da Torá e do povo eleito para ensiná-la às nações. O sucesso da religião cristã indicaria a razão dessa interpretação, mostrando a revelação, através da História, da vontade de Deus.

Acontece que se as profecias de Isaías forem interpretadas de acordo com a Nova Aliança, o Filho de Deus se revela consecutivamente primeiro como o Messias sofredor, rejeitado pelo seu povo, para depois retornar como o Messias triunfante, conquistador do mundo.

Revelado primeiro como Cordeiro para os seus, convertidos pelo perdão e pela misericórdia, Jesus Cristo se revelaria então, ao Fim dos Tempos, como Leão para os que lhe rejeitaram, convertidos pela plena Revelação (ou Apocalipse).

Do mesmo modo, aqueles entre os gentios que interpretam o Cristianismo unicamente como uma conspiração para a destruição da independência das nações devem responder, em primeiro lugar, pela evidência da supremacia de tal projeto vitorioso, concedendo que se Deus não está com os judeus, pelo menos eles merecem vencer por sua grande capacidade; e então, em segundo lugar, devem responder pela hipótese de que a interpretação de Maimônides desde a validade da Antiga Aliança pode estar equivocada se, justamente como foi revelado pelo Evangelho, o que tem valor atual e que explica o sentido da História é a validade da Nova Aliança realizada pelo Filho de Deus.

Ou seja, incapazes de atribuir ao mero desígnio humano a consecução de tamanho projeto de conversão de boa parte dos povos do mundo, podemos aceitar a perspectiva de interpretação histórica de Maimônides, enxergando a História como plano de realização da vontade divina, porém deixando em aberto a dupla interpretação possível da validade da Antiga ou da Nova Aliança, conforme aceitamos ou não a validade da revelação evangélica.

Não podeis suportar

É o próprio Deus Vivo quem condena a Teologia Dogmática de vez que nenhuma criatura poderia ter o poder de fechar o conhecimento das coisas sagradas num sistema definitivo, e a vida da Fé verdadeira requer uma concepção aberta em espírito de aprendizado e confiança sem garantias, ao modo típico da relação amorosa com o Criador.

Acontece que esse modo realista, necessariamente provisório, de viver em resposta contínua à direção do Espírito Santo, a vida na Presença, não pode constituir fonte de poder e autoridade para o governo da sociedade. Isto quer dizer que aqueles que são os descendentes dos traidores da Aliança de Deus, e que são tipicamente os continuadores desta Tradição de usurpação, têm o desafio de administrar uma sociedade cuja disposição à obediência pode ser muito convenientemente afetada pela presunção de autoridade espiritual. E tal situação leva o poder temporal a buscar suporte, usando de todos os elementos corruptores que lhes são comuns, no poder espiritual que deveria servir apenas para o convencimento das consciências dos homens livres.

Foi Jesus Cristo mesmo quem disse: “tenho muito mais a vos dizer, mas agora não podeis suportar“.

Reparem que ele não fala que teremos muito mais a descobrir, como num processo histórico de revelação contínua, como natural e temporal.

Não: ele diz que tem pessoalmente o que nos dizer como instrução direta, ensino, doutrina, capacitação espiritual, guiamento, magistério. E isto obviamente se dá pela ação do Espírito Santo, que já tinha prometido que nos enviaria para dizer-nos esse muito mais que precisaríamos saber, mas que então, à época apostólica, não seria suportável.

Isto quer dizer que não somente não é condenável, mas é ao contrário recomendável, que cada geração de cristãos esteja atenta ao seu momento de experiência da instrução do Espírito Santo. Essa experiência não invalidará nenhuma instrução anterior, obviamente, mas pode servir ao esclarecimento daquilo que foi experimentado antes por um viés que não continha a figura completa do seu sentido.

É assim que o verdadeiro respeito à Fé dos cristãos antepassados exige que eles sejam entendidos no seu contexto, o que não é historicismo, mas é justiça à correspondente incapacidade que cada geração tem de absorver o ensino do Espírito Santo sem incorrer no risco do escândalo. Ou seja, o insuportável aos apóstolos pôde ser melhor suportado pelas gerações seguintes que já teriam convivido com os desdobramentos históricos que eram indistintos para a mentalidade anterior.

Isto é desafiador, de vez que há uma percepção errônea do Pentecostes que confunde a missão específica da pregação às nações com infalibilidade dogmática, algo que contraria o próprio testemunho direto de Jesus Cristo, que é o único Mestre e autoridade realmente inquestionável. Quer dizer, ele mesmo já havia dito que aquela geração não poderia suportar uma verdade que desafiaria a fraqueza da sua Fé, e nisto foi, como em tudo, misericordioso, ao mesmo tempo em que provou que a comunhão daquela unção espiritual tinha um propósito específico que não tornava a teologia dos Apóstolos terminal como supõe a Tradição cristã.

Obviamente a supremacia do Espírito Santo na orientação de cada geração presente de cristãos supera infinitamente o testemunho indireto dessa orientação na expressão das gerações anteriores, mas como pode uma igreja institucional montada naquela forma anterior de testemunho passado estar ao mesmo tempo disposta a receber, de forma aberta, o testemunho presente? Não pode, porque o seu problema não é a vida na Presença de Deus –que é algo do domínio da substância monádica da vida espiritual, isto é, de cada indivíduo–, e sim a organização do poder temporal.

Em uma palavra: nas coisas espirituais o passado não é mais certo do que o presente. O mais certo é domínio divino, e o Espírito sopra onde, quando, como e a quem quiser.

Só que esta integridade espiritual está fora do controle dos domínios institucionais, sempre e por definição.

Se Deus quiser me revelar, por exemplo, a extensão da traição humana ancestral, e ao mesmo tempo a profundidade da mentira diabólica desde essa condição humana tão antiga, Ele dependerá de que eu primeiro me desarme dos meus dogmatismos que bloquearão essa nova consciência como proteção contra o risco do escândalo.

Por isso é que quando digo que é séria a hipótese de que o sacrifício de sangue tenha sido instituído, desde o início e muito coerentemente, pelos demônios e principalmente pelo Ouroboros, que é Lúcifer querendo tomar o lugar de Deus, isto obviamente viola a concepção religiosa que está ancorada naquela mesma consciência antiga.

A estes, como Jesus já dizia, diremos novamente hoje: não podeis suportar.

Como o Novo Israel segue os passos do Antigo

Dada a realidade da individualidade ou singularidade da substância espiritual, segue que todo entendimento da salvação ou da recepção da Graça na forma de uma coletividade implica numa corrupção do desígnio divino.

O Um por natureza criou cada alma na sua unicidade peculiar para a experiência do Amor com a função do exercício da liberdade individual de responder livremente e com total responsabilidade pessoal.

Aliás, pessoalidade é uma característica fundamental da relação amorosa entre os seres, analógica ao Amor perfeito entre Pai e Filho, as Pessoas divinas. Este é um indicativo muito forte do modo elementar de realização dos seres espirituais.

Que sentido faz então afirmar que um povo foi eleito por Deus para a salvação ou recepção da Graça, senão para servir de referência simbólica para a união espiritual da Igreja? Além disso o que nos restaria é a presunção da eleição de uma coletividade contra a consciência de Deus, o que seria absurdo de de esperar como desejo do próprio Criador.

A dispersão na Multiplicidade implica na corrupção da forma da Unidade, a forma mesma escolhida por Deus para a realização do seu projeto de salvação. O que interessa é o assentimento de cada alma, uma por uma, ao Amor divino. A manifestação do conjunto da Igreja em adoração a Deus é um resultado posterior da conversão de cada uma das almas que compõe o Corpo Espiritual de Cristo.

É verdade que o conjunto dos fiéis compõe uma potência de testemunho e confirmação no Espírito Santo que pode atuar a qualquer momento, mas apenas como agente intermediário. Antes o que há é a ação do Deus que moveu essa Igreja, então há a abertura individual para a verdade que a Igreja pode testemunhar, e por fim há a conversão de cada alma que pode reagir livremente às impressões recebidas.

A agência intermediária da coletividade é sempre verificável, mesmo quando pareça ser de outro modo, pelos vários enganos no entendimento das várias relações de causalidade, onde já se tem por costume ignorar as maiores potências tanto da divindade quanto da alma humana como singularidades, como quando Deus, por moção remota dos fatores interferentes, é preterido pela figura mais evidente das causas próximas que foram movidas por aquela Graça original.

Sendo as coisas assim, convém reconhecer como é que o Novo Israel se assemelha ao Antigo Israel, quando justamente o corpo espiritual dos crentes em Deus quer se tornar algo maior que a soma das suas partes, como que tomando propriedade superior à que Deus mesmo definiu como o propósito da salvação de cada alma.

O que Deus desde sempre desejou foi a afirmação da individuação humana capaz de reconhecê-lo na sua majestade. No Dia do Juízo abrir-se-ão os livros: um para cada alma. Não há um livro para o povo eleito, mas para cada eleito, isto é, se realizar o destino da sua eleição.

Todas as igrejas cristãs institucionalizadas, isto é, materializadas na forma de um poder temporal, desde a Igreja Católica até a última denominação protestante inaugurada ontem, incorrem por costume no erro do Israel temporal, carnal, coletivista: o bolchevismo espiritual.

Só há uma Igreja de Cristo, a espiritual da qual Jesus é a cabeça e nós somos o corpo, os crentes de que ele é o Filho de Deus, e é por participação na confissão dessa Revelação que católicos, ortodoxos, evangélicos ou quaisquer outros vão estar lado-a-lado no momento em que a execução das Leis de Noé pedir pela sua morte. Podem ter se estranhado enquanto viviam nas suas peculiaridades, mas reconhecerão uns aos outros na hora do testemunho da verdade. Não o farão, porém, enquanto membros de um grupo religioso, mas a despeito disso, já que as lideranças religiosas, instigadas pelo Falso Profeta (um Papa?), direcionarão as suas ovelhas para que caiam nas garras do Anticristo.

Cada vez que um “cristão” se levanta, como membro de um grupo, para atestar a eleição sua e dos seus contra a perdição de todos os demais, este representa, como Novo Israel, o mesmo vício do Antigo Israel, aquela nação que assassinou seus Profetas até chegar ao cúmulo de pedir a morte do próprio Messias.

Como evitar a hipocrisia do anti-semitismo cristão (cabalafobia, rabinofobia)

É tão fácil, como muitas vezes já foi na história, assumir uma postura anti-semita num mundo tão bagunçado como este em que vivemos, já que parece haver um esforço contínuo do outro lado da mesa por criar e manter uma imagem de superioridade que parece insuportável aos olhos do restante do mundo.

A eleição de Israel acima das nações hoje não é tão reconhecida por meios religiosos. Isso com a exceção da atuação das lideranças no mundo cristão evangélico, boa parte delas ou mesmo todas sendo quadros formados dentro da Maçonaria. Em geral, porém, há um reconhecimento indireto dessa eleição pela vitimização de Israel na cultura, não por meios tão religiosos, mas por meios históricos, principalmente com o Holocausto.

Dito isso, qualquer não judeu pode cair rapidamente na tentação anti-semita, e digo tentação porque há uma dialética própria no Sionismo que consegue se alimentar do próprio ódio contra os judeus para fortalecer a causa do Grande Israel no Oriente-Médio.

Falando aos meus, aos cristãos de fato ou de nome, convém fazer o alerta que nos importa mais, na obediência ao nosso Senhor Jesus Cristo que nos alertou contra o pior dos males: a mentira da hipocrisia. Não faz muito sentido dizer que os judeus mataram Jesus, já que foram os judeus que também o seguiram como primeiros apóstolos. Mas faz todo o sentido dizer que foram indivíduos mentirosos e hipócritas que mandaram matar Jesus, principalmente as lideranças religiosas da época.

O Mestre mandou tirarmos a trave do nosso olho antes de querer apontar o cisco no olho do outro.

Ora, eis a hipocrisia do anti-semitismo cristão, do ponto de vista religioso: todo religioso cristão tem a sua Cabala e os seus Rabinos, isto é, a sua Tradição e os seus Mestres. E estes disputam autoridade e poder com o Altíssimo, que é o único Legislador e Mestre de direito sobre os seus fiéis.

Muito mais grave do que o cabalismo e o rabinato dos outros, é o que ocorre dentro da nossa própria casa, por responsabilidade de nós mesmos.

Essa atitude deve ser denunciada todas as vezes. E à denúncia deve vir acompanhado um esclarecimento sobre a natureza maléfica da Tradição e do Magistério.

Toda Tradição é condenável por ter raiz na Tradição Primordial, isto é, no Culto do Ouroboros, e por ser um meio de poder para a perpetuação daquele Pacto Ancestral com a Antiga Serpente do Mundo.

E todo o Magistério é condenável por ser uma usurpação da autoridade divina e um obstáculo ao desenvolvimento do relacionamento verdadeiro com o Criador, obstruindo a verdadeira consciência, discernimento e responsabilidade.

Não precisamos de Tradição e nem de Mestres, pois temos o testemunho do Amor que o Deus vivo instala nos nossos corações, desde que estejamos dispostos a isso. Basta vivermos no Amor e darmos testemunho fidedigno dele.

Toda acusação é vazia: o cristão verdadeiro não acusa, e o cristão religioso acusa como hipócrita mentiroso que finge que não faz igual, quando faz pior ainda, porque pelo menos os judeus podem alegar o desconhecimento do verdadeiro Messias, mas o se dizente cristão não tem desculpa.