Como já disse várias vezes, a Arte da Guerra é a arte de mentir, de enganar o seu adversário, fazendo-o jogar o seu próprio jogo, onde a sua vitória é uma premissa do jogo todo, já que ele será disputado com as suas próprias regras que lhe darão toda a vantagem.
Este poder insidioso deveria ser considerado também, ou até principalmente, no cenário da guerra espiritual.
Uma prática que dá vitória garantida ao diabo é o de criar a certeza de uma Condenação, e depois jogar as almas humanas dentro dessa certeza, com o truque de forjar a aparência da verdade ou até da virtude naquele mesmo esquema onde mais tarde se revelará o truque.
Foi assim que o Cristianismo foi inventado pelo diabo, na forma das várias religiões cristãs que se espalham pelo mundo, trocando o objeto do culto espiritual verdadeiro, que é o Amor do Pai revelado pelo Filho, por objetos de idolatria e práticas condenáveis, como a adoração de imagens, santos, livros, relíquias, e a prática de sacrifícios de sangue, necromancia, magia na forma de sacramentos, etc.
Sei que tudo isso pode ser muito escandaloso, e peço a mim a proteção do Espírito Santo para que só uma alma madura persista na avaliação das coisas que escrevo e digo, contando para isso com a óbvia conveniência de que só me lê e me assiste quem quer, porque graças a Deus fui dispensado de qualquer falso papel de autoridade, ou da posse de um poder ilegítimo.
O ser humano nasce desde o Pecado Original, o Pacto Ouroboros, sob a Maldição e a Queda, e é criado em cativeiro sob a mentira do mundo, sendo tentado, assim, a considerar todas as coisas carnalmente.
Assim, o ser humano comum entende a sua relação com o Altíssimo, desconsiderado da pureza da sua santidade, como entende a relação entre um proprietário e um escravo, ou entre um negociante e um mercenário, comparando as coisas espirituais com as carnais com as quais foi condicionado a conviver desde que nasceu pelos seus pais. Também é deste modo que o ser humano aprende a ser idólatra, crente não só de relações de poder e troca, mas também de sinais e prodígios, menos disposto a ser afetado pela virtude e santidade das coisas de Deus do que pela impressão do sobrenatural.
Digo isso para que se entenda a realidade com o devido contexto, antes que caiamos na tentação de condenar o próximo que foi vendido como escravo ao diabo, sem chance de defesa senão a misericórdia divina da qual devemos ser os embaixadores neste mundo, se é que ousamos assumir a filiação adotiva do Pai em associação com Jesus Cristo como o Filho perfeito.
O que o diabo quer no fim das contas lhe será negado.
Porque não triunfará essa mentira toda, especialmente no caso dos cristãos que foram enganados pela invenção do Cristianismo, e isso pela intenção reta dos seus corações, que o Altíssimo experimentará infalivelmente.
Lembremos que por mais que a mentira tenha se insurgido no meio da veneração ao Deus verdadeiro, o testemunho legítimo da confiança no Amor de Deus nunca abandonou o seio da Igreja espiritual, o verdadeiro Corpo de Cristo. E isso porque o astuto inimigo do homem nunca foi capaz de produzir qualquer substituto da Verdade, dependendo sempre da parasitagem, o que o forçou a trabalhar a favor do plano divino para o esclarecimento daqueles fiéis que desejaram de fato a vida espiritual na Presença do seu Criador. É assim que todas as coisas serão justificadas no fim.
A vitória garantida no fim das contas se revelará uma derrota garantida: querendo corromper, perverter e subverter, o adversário apenas executou a providência divina que sempre odiou, servindo à força, para a sua maior humilhação.
Olhando a história sob a perspectiva vantajosa da noção de Revelação contínua da vontade deliberada de um Deus Todo-Poderoso (Pantokrator Theos) que governa sobre todas as coisas, não é difícil enxergar a perspectiva judaizada de um Maimônides que viu, com o crescimento do movimento cristão, uma indicação da confirmação da profecia em favor do “seu lado da história”, por assim dizer.
O que a Sinagoga de Satanás ainda não entendeu, porém, é que a profecia pode ser vista dos dois modos, o antigo e o novo. Se a velha Aliança perdeu efeito com a flagrante desobediência dos seus subscritores, e as profecias apontaram para Jesus Cristo como o cumpridor perfeito da nova Aliança, as profecias não podem ser vistas justamente do modo novo, cristão?
Assim, Mashiach ben Yoseph e Mashiach ben David (respectivamente, Messias filho de José e Messias filho de David) não são pessoas diferentes com funções diferentes, mas são a mesma pessoa em posições diferentes no tempo, realizando aquilo que é designado pela providência divina de acordo com o componente fundamental do livre-arbítrio humano.
A visão de certo rabinato instruído pelas luzes de Maimônides é que a função de Jesus Cristo foi a de servir, como Mashiach ben Yoseph, para que através do seu sofrimento as nações fossem preparadas, convertidas ao messianismo a ser plenamente realizado pelo Maschiach ben David, para aceitar a revelação final da supremacia da Torá e do povo eleito para ensiná-la às nações. O sucesso da religião cristã indicaria a razão dessa interpretação, mostrando a revelação, através da História, da vontade de Deus.
Acontece que se as profecias de Isaías forem interpretadas de acordo com a Nova Aliança, o Filho de Deus se revela consecutivamente primeiro como o Messias sofredor, rejeitado pelo seu povo, para depois retornar como o Messias triunfante, conquistador do mundo.
Revelado primeiro como Cordeiro para os seus, convertidos pelo perdão e pela misericórdia, Jesus Cristo se revelaria então, ao Fim dos Tempos, como Leão para os que lhe rejeitaram, convertidos pela plena Revelação (ou Apocalipse).
Do mesmo modo, aqueles entre os gentios que interpretam o Cristianismo unicamente como uma conspiração para a destruição da independência das nações devem responder, em primeiro lugar, pela evidência da supremacia de tal projeto vitorioso, concedendo que se Deus não está com os judeus, pelo menos eles merecem vencer por sua grande capacidade; e então, em segundo lugar, devem responder pela hipótese de que a interpretação de Maimônides desde a validade da Antiga Aliança pode estar equivocada se, justamente como foi revelado pelo Evangelho, o que tem valor atual e que explica o sentido da História é a validade da Nova Aliança realizada pelo Filho de Deus.
Ou seja, incapazes de atribuir ao mero desígnio humano a consecução de tamanho projeto de conversão de boa parte dos povos do mundo, podemos aceitar a perspectiva de interpretação histórica de Maimônides, enxergando a História como plano de realização da vontade divina, porém deixando em aberto a dupla interpretação possível da validade da Antiga ou da Nova Aliança, conforme aceitamos ou não a validade da revelação evangélica.
É o próprio Deus Vivo quem condena a Teologia Dogmática de vez que nenhuma criatura poderia ter o poder de fechar o conhecimento das coisas sagradas num sistema definitivo, e a vida da Fé verdadeira requer uma concepção aberta em espírito de aprendizado e confiança sem garantias, ao modo típico da relação amorosa com o Criador.
Acontece que esse modo realista, necessariamente provisório, de viver em resposta contínua à direção do Espírito Santo, a vida na Presença, não pode constituir fonte de poder e autoridade para o governo da sociedade. Isto quer dizer que aqueles que são os descendentes dos traidores da Aliança de Deus, e que são tipicamente os continuadores desta Tradição de usurpação, têm o desafio de administrar uma sociedade cuja disposição à obediência pode ser muito convenientemente afetada pela presunção de autoridade espiritual. E tal situação leva o poder temporal a buscar suporte, usando de todos os elementos corruptores que lhes são comuns, no poder espiritual que deveria servir apenas para o convencimento das consciências dos homens livres.
Foi Jesus Cristo mesmo quem disse: “tenho muito mais a vos dizer, mas agora não podeis suportar“.
Reparem que ele não fala que teremos muito mais a descobrir, como num processo histórico de revelação contínua, como natural e temporal.
Não: ele diz que tem pessoalmente o que nos dizer como instrução direta, ensino, doutrina, capacitação espiritual, guiamento, magistério. E isto obviamente se dá pela ação do Espírito Santo, que já tinha prometido que nos enviaria para dizer-nos esse muito mais que precisaríamos saber, mas que então, à época apostólica, não seria suportável.
Isto quer dizer que não somente não é condenável, mas é ao contrário recomendável, que cada geração de cristãos esteja atenta ao seu momento de experiência da instrução do Espírito Santo. Essa experiência não invalidará nenhuma instrução anterior, obviamente, mas pode servir ao esclarecimento daquilo que foi experimentado antes por um viés que não continha a figura completa do seu sentido.
É assim que o verdadeiro respeito à Fé dos cristãos antepassados exige que eles sejam entendidos no seu contexto, o que não é historicismo, mas é justiça à correspondente incapacidade que cada geração tem de absorver o ensino do Espírito Santo sem incorrer no risco do escândalo. Ou seja, o insuportável aos apóstolos pôde ser melhor suportado pelas gerações seguintes que já teriam convivido com os desdobramentos históricos que eram indistintos para a mentalidade anterior.
Isto é desafiador, de vez que há uma percepção errônea do Pentecostes que confunde a missão específica da pregação às nações com infalibilidade dogmática, algo que contraria o próprio testemunho direto de Jesus Cristo, que é o único Mestre e autoridade realmente inquestionável. Quer dizer, ele mesmo já havia dito que aquela geração não poderia suportar uma verdade que desafiaria a fraqueza da sua Fé, e nisto foi, como em tudo, misericordioso, ao mesmo tempo em que provou que a comunhão daquela unção espiritual tinha um propósito específico que não tornava a teologia dos Apóstolos terminal como supõe a Tradição cristã.
Obviamente a supremacia do Espírito Santo na orientação de cada geração presente de cristãos supera infinitamente o testemunho indireto dessa orientação na expressão das gerações anteriores, mas como pode uma igreja institucional montada naquela forma anterior de testemunho passado estar ao mesmo tempo disposta a receber, de forma aberta, o testemunho presente? Não pode, porque o seu problema não é a vida na Presença de Deus –que é algo do domínio da substância monádica da vida espiritual, isto é, de cada indivíduo–, e sim a organização do poder temporal.
Em uma palavra: nas coisas espirituais o passado não é mais certo do que o presente. O mais certo é domínio divino, e o Espírito sopra onde, quando, como e a quem quiser.
Só que esta integridade espiritual está fora do controle dos domínios institucionais, sempre e por definição.
Se Deus quiser me revelar, por exemplo, a extensão da traição humana ancestral, e ao mesmo tempo a profundidade da mentira diabólica desde essa condição humana tão antiga, Ele dependerá de que eu primeiro me desarme dos meus dogmatismos que bloquearão essa nova consciência como proteção contra o risco do escândalo.
Por isso é que quando digo que é séria a hipótese de que o sacrifício de sangue tenha sido instituído, desde o início e muito coerentemente, pelos demônios e principalmente pelo Ouroboros, que é Lúcifer querendo tomar o lugar de Deus, isto obviamente viola a concepção religiosa que está ancorada naquela mesma consciência antiga.
A estes, como Jesus já dizia, diremos novamente hoje: não podeis suportar.
Dada a realidade da individualidade ou singularidade da substância espiritual, segue que todo entendimento da salvação ou da recepção da Graça na forma de uma coletividade implica numa corrupção do desígnio divino.
O Um por natureza criou cada alma na sua unicidade peculiar para a experiência do Amor com a função do exercício da liberdade individual de responder livremente e com total responsabilidade pessoal.
Aliás, pessoalidade é uma característica fundamental da relação amorosa entre os seres, analógica ao Amor perfeito entre Pai e Filho, as Pessoas divinas. Este é um indicativo muito forte do modo elementar de realização dos seres espirituais.
Que sentido faz então afirmar que um povo foi eleito por Deus para a salvação ou recepção da Graça, senão para servir de referência simbólica para a união espiritual da Igreja? Além disso o que nos restaria é a presunção da eleição de uma coletividade contra a consciência de Deus, o que seria absurdo de de esperar como desejo do próprio Criador.
A dispersão na Multiplicidade implica na corrupção da forma da Unidade, a forma mesma escolhida por Deus para a realização do seu projeto de salvação. O que interessa é o assentimento de cada alma, uma por uma, ao Amor divino. A manifestação do conjunto da Igreja em adoração a Deus é um resultado posterior da conversão de cada uma das almas que compõe o Corpo Espiritual de Cristo.
É verdade que o conjunto dos fiéis compõe uma potência de testemunho e confirmação no Espírito Santo que pode atuar a qualquer momento, mas apenas como agente intermediário. Antes o que há é a ação do Deus que moveu essa Igreja, então há a abertura individual para a verdade que a Igreja pode testemunhar, e por fim há a conversão de cada alma que pode reagir livremente às impressões recebidas.
A agência intermediária da coletividade é sempre verificável, mesmo quando pareça ser de outro modo, pelos vários enganos no entendimento das várias relações de causalidade, onde já se tem por costume ignorar as maiores potências tanto da divindade quanto da alma humana como singularidades, como quando Deus, por moção remota dos fatores interferentes, é preterido pela figura mais evidente das causas próximas que foram movidas por aquela Graça original.
Sendo as coisas assim, convém reconhecer como é que o Novo Israel se assemelha ao Antigo Israel, quando justamente o corpo espiritual dos crentes em Deus quer se tornar algo maior que a soma das suas partes, como que tomando propriedade superior à que Deus mesmo definiu como o propósito da salvação de cada alma.
O que Deus desde sempre desejou foi a afirmação da individuação humana capaz de reconhecê-lo na sua majestade. No Dia do Juízo abrir-se-ão os livros: um para cada alma. Não há um livro para o povo eleito, mas para cada eleito, isto é, se realizar o destino da sua eleição.
Todas as igrejas cristãs institucionalizadas, isto é, materializadas na forma de um poder temporal, desde a Igreja Católica até a última denominação protestante inaugurada ontem, incorrem por costume no erro do Israel temporal, carnal, coletivista: o bolchevismo espiritual.
Só há uma Igreja de Cristo, a espiritual da qual Jesus é a cabeça e nós somos o corpo, os crentes de que ele é o Filho de Deus, e é por participação na confissão dessa Revelação que católicos, ortodoxos, evangélicos ou quaisquer outros vão estar lado-a-lado no momento em que a execução das Leis de Noé pedir pela sua morte. Podem ter se estranhado enquanto viviam nas suas peculiaridades, mas reconhecerão uns aos outros na hora do testemunho da verdade. Não o farão, porém, enquanto membros de um grupo religioso, mas a despeito disso, já que as lideranças religiosas, instigadas pelo Falso Profeta (um Papa?), direcionarão as suas ovelhas para que caiam nas garras do Anticristo.
Cada vez que um “cristão” se levanta, como membro de um grupo, para atestar a eleição sua e dos seus contra a perdição de todos os demais, este representa, como Novo Israel, o mesmo vício do Antigo Israel, aquela nação que assassinou seus Profetas até chegar ao cúmulo de pedir a morte do próprio Messias.
Estando certamente e por definição mais pertos do Fim como nunca antes, convém fazer alguns esclarecimentos tempestivos para que não haja confusão sobre o que é especulação e o que é crença firme na minha visão espiritual das coisas.
Primeiramente, com relação a questão da Trindade, recentemente eu disse que não via como tão necessária a pessoa do Espírito Santo quanto a de Jesus Cristo, exatamente porque a salvação reconhecendo Jesus como o Filho de Deus deve ser considerada sempre suficiente. Dizia eu que o que mais importa ao cristão é que reconheça em Jesus a revelação de Deus como Pai e Filho, já que isto revela a perfeição do Amor divino na própria essência de quem Deus é.
Mas isto não quer dizer que prudentemente não possamos considerar o Espírito Santo como pessoa, na nossa guerra aberta contra a Tradição. Não foi isto o que eu quis dizer, isto é, que não se deve considerar o Espírito Santo como pessoa divina. Meu problema é, como continua sendo, crer por convicção e não por costume. E isso porque o costume é o veículo da Cabala, da Tradição, que contaminou todas as religiões do mundo para produzir um grande engano com relação a quem Deus é e com relação ao sentido da condição humana neste mundo.
Isto quer dizer que a qualquer momento o Espírito Santo de Deus pode me esclarecer a sua pessoalidade quando isso lhe for conveniente para o propósito da minha mais perfeita conversão à Revelação de Deus. Cabe a Ele, e não a mim, assim o decidir. Vejam que até na minha linguagem eu já me alinho com todos os cristãos trinitários, atribuindo ação divina ao Espírito Santo. E de fato não tenho nenhum problema com isso deste modo, porque está muito de acordo com a natureza da santidade do Altíssimo.
Podemos ter problemas com a manifestação do Espírito em modos que possam ser falíveis, isto é, aparições, prodígios, milagres, etc.
Só para dar um exemplo, recentemente ouvi a exposição de um trinitário bastante escolado no tema, mostrando mais uma perversão talmúdica, que seria a equivalência do Anjo do Senhor a uma entidade criada com dignidade superior a dos anjos, mas inferior à de Deus, chamada Metatron. Isto é, para não reconhecer a pessoa do Espírito Santo, que tomou a forma de Anjo do Senhor nesta ou naquela situação, os rabinos deram um jeito de reconhecer um Anjo que teria a perfeição do Nome em si como um procurador, sem compartilhar a substância divina.
Isso nos indica que a Santíssima Trindade poderia ter sido reconhecida com mais facilidade se não fosse uma obstrução da tradição judaica. Mas a tradição cristã supostamente teria vencido isso e trazido a Verdade ao conhecimento dos fiéis. Acredito que possa ter sido assim e, para ficar bem claro, não vou disputar a doutrina da Trindade divina. E não o farei porque não o preciso fazer, simples assim. Não tenho nenhum problema com essa crença, desde que ela não fere qualquer princípio fundamental da vida espiritual.
Mas eis que se eu tivesse que reconhecer a pessoalidade do Espírito Santo numa atuação manifestada de tal maneira que eu pudesse dizer “sim” ou “não” em uma situação concreta, como um teste, eu teria que recuar com o Temor do Senhor, o medo do mal, porque o Apóstolo já alertou que Satanás pode se apresentar como Anjo de Luz, tendo sido Lúcifer desde o princípio. Esta questão é muito preciosa para mim, na linha do que está escrito: “é sem mentira que se cumprirá a Palavra“. Ou seja: assim como é um grande erro testar o Amor de Deus, é um grande erro supor que Deus queira nos testar para ser dignos do seu Amor. Tendo sempre o Amor como premissa, e não como conclusão, entendo que é parte constituinte da misericórdia do Espírito Santo de Deus que não condicione nenhum ser humano a uma situação de risco, de temeridade, de jogo, e bem ao contrário, que Ele entregue o seu Amor incondicionalmente como já o fez, esperando que façamos o mesmo. É uma doação mútua de confiança, e não de cobranças e testes, como pode pensar uma crendice bastante corrompida e supersticiosa.
Outro esclarecimento tempestivo concerne a questão da pregação cristã.
Uma coisa é afirmar que a Igreja, ou seja, aqueles que receberam a Revelação Cristã e que acreditam em Jesus Cristo realmente, tenha a eleição divina da Salvação.
Outra coisa é afirmar que a Igreja tem toda a salvação possível, de modo que quem não receber a Revelação ou não acreditar em Jesus Cristo plenamente, na forma da religião cristã, não possa ser salvo de forma nenhuma.
Existe um plano excelente de Salvação a que todo cristão deve aderir integralmente: o de dar o testemunho da verdade em que crê. Essa é a nossa tarefa de pregação ao próximo, o que não tem nada a ver com proselitismo religioso. A ação religiosa apenas reforça a Tradição Primordial a qual está conectada, e afasta as pessoas de Deus. Pessoalmente, individualmente, monadofilicamente, podemos e devemos dar o testemunho toda e cada vez em que isso for circunstancialmente apontado como um dever de estado pela ação da Providência divina. Ou seja, a pregação cristã não deve violar a soberania da consciência individual que recebe o dom do Discernimento do Espírito, de modo que é sempre uma ação singular e nunca uma ação coletiva, religiosa, eclesiástica, etc.
Dito isso, apesar do plano excelente de Deus, “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos“, e “estreita é a porta“.
Há muitos religiosos que querem se achar como aqueles fariseus, partes de uma elite minoritária de salvos, mas a questão não é essa.
Deus esclarece-nos que nada pode ultrapassar o seu gesto de salvação, senão a liberdade da vontade humana que Ele mesmo nos concedeu.
É por isso que há duas Ressurreições: uma para os santos, os eleitos, aqueles que disseram “sim” sem a evidência do Bem, por pureza da sua confiança, e uma outra para os perdidos, aqueles que não foram capazes de dizer o mesmo “sim” por falta de confiança, mas a quem o Amor de Deus pode salvar por mérito da Sua própria glorificação.
Na minha terminologia falo dos destinos dos nascidos Sindar que podem ser Noldor ou Falmari, participando respectivamente da Primeira Ressurreição, ou da Segunda Ressurreição.
Não entendam mal: o Dia do Juízo Final é para a condenação de todos aqueles que não confiaram no Amor de Deus.
Mas aqueles que são chamados de volta à vida o são para viver, e não para morrer, porque Deus não faz uso da Justiça sem a perfeição da Misericórdia: é para que se declarem culpados e arrependidos, em terrível humilhação, que os Falmari, os Últimos, ressuscitarão. E com a sua anuência ao Amor, o Eterno será muito mais glorificado e exaltado por toda a Criação.
Posso ter dado, equivocadamente, a impressão de que seria contra a pregação cristã. Não sou. Não poderia ser! O que eu faço não é um trabalho de pregação?
Aquilo que eu combati e vou combater sempre é a hipocrisia mentirosa da Religião que se pretende santa e mestra, quando já se prostituiu faz tempo com o mundo.
Vamos pregar, sim, graças a Deus, e livres de toda mentira.
A justificativa de Deus, ou Teodiceia, se dá pela incompatibilidade da natureza divina com qualquer ato criativo que viole a sua essência, ao mesmo tempo em que toda a razão limitada das criaturas contingentes deve ser entendida na sua posição de finitude como incapaz de produzir um juízo suficiente das razões que a transcendem.
Dado o rompimento da humanidade iluminista contra toda Metafísica que mantinha a segurança naquela noção da essência divina, restou à nossa época a desmoralização da Antropodiceia, ou a justificativa do homem por si mesmo.
Mas tudo que o ser humano encontra quando se enxerga no espelho é o pó que é por si mesmo e que nunca vai deixar de ser: uma arbitrariedade vaidosa e mentirosa. Sem Deus, seu caminho é o culto do Caos e do Nada, aquelas forças inferiores de que falavam os antigos quando se referiam ao tempo anterior ao Cosmos. Ou seja, esta humanidade tende à dissolução de uma entropia natural.
No entanto, podemos a qualquer momento romper com a própria ruptura. Maravilhosamente, ganhamos uma tal condição de distinção individual e de liberdade que conseguimos observar o resultado do movimento da história das ideias e julga-lo como insuficiente ou errôneo, ao ponto de nos movermos particularmente apartados da mentalidade da época. Isso sempre foi possível, é claro. Mas talvez nunca tenha sido tão fácil, ao menos para as almas mais desejosas que, em quantidade, podem ser inversamente as mais escassas de todos os tempos.
Voltamos, se quisermos, à justiça da Teodiceia, e ainda a qualificamos com uma crença cristã que torna a consciência ainda mais clara e pura na contemplação da majestade divina. E de tal ponto de vista privilegiado, com total confiança no Amor divino como causa fundamental, podemos avançar no que sempre foi mais interessante do que a disputa da legitimidade da Providência, isto é, o entendimento das razões mais profundas da realidade a partir da pacificação do tema da justiça maior do Ser.
Nesse intuito encontramos a Liberdade como eixo central, nas mônadas criadas à imagem e semelhança da Mônada Incriada, que explica a necessidade do mal realmente possível para que a escolha mais conveniente seja também uma possibilidade real e não mera intenção.
Entramos, assim, no território da Eleuteriodiceia, ou a justificativa da Liberdade.
Em Deus, a perfeição da sua Vontade já comunica a essência perfeitamente benéfica e amorosa para a total integridade do Arbítrio divino.
Mas na liberdade dos contingentes o mesmo não ocorre. Eles precisam receber uma justiça que lhes ultrapassa. Essa garantia transcendente é o próprio Amor divino que designa a perfeição das criaturas de acordo com a sua forma de ser desde a sua origem.
Há, de modo crítico, um ápice ou cume nas várias formas das mônadas possíveis, que consiste naquela semelhança com a essência divina e que permite por esse recurso extraordinário a satisfação de uma perfeição incomparavelmente maior que a das demais mônadas não livres. Isto é assim ao ponto de que uma mônada livre, como a de um anjo ou de um ser humano que viva num estado de Comunhão e Glória (Coruscância), pode ser reconhecida como divina diante das demais mônadas que lhes são inferiores.
Sendo essa forma de ser tão mais perfeita a mais conveniente para a felicidade divina e para a maior glória do Nome de Deus, ela deve ser realizada necessariamente, do contrário a Criação não restaria perfeita e acabada.
É assim que o mal deve ser permitido pois, contido pela Providência da Maldição, tem seus efeitos temporalmente limitados, o que compensa infinitamente a bem-aventurança daqueles que aceitarem a vida como Graça pelo Amor de Deus.
Convém por fim lembrar do totalitarismo espiritual do Paraíso, ou da vida em total comunhão com o Espírito Santo, onde o estado voluntário de participação na perfeição divina significa a sublimação da liberdade específica de negação da bondade de Deus, de modo que não poderíamos existir como almas livres num estado de perfeição imediato pois não teríamos o poder de rejeitar essa realidade, o que significa que não poderíamos ser quem somos, mas somente análogos, como criaturas menores do Omniverso Interior. Para que recebamos a Vida Eterna é preciso antes passar pela mediação de uma experiência temporal que nos permita aceitar ou rejeitar o Amor sem sermos oprimidos pela supremacia da sua perfeição paradisíaca.
Justifica-se, assim, com a Eleuteriodiceia, tanto a realidade atual de qualquer mal temporal, como a nossa presença num mundo que contenha esse tipo de realidade.
Aprendi com o próprio Jesus Cristo, com seus apóstolos João e Paulo, e com cristãos de outras épocas como Agostinho, que existe sempre uma leitura espiritual e uma leitura carnal das Sagradas Escrituras, determinada pelo grau de consciência e discernimento de cada alma, o que por sua vez é definido pela intenção livre de cada coração humano de aceitar ou não a instrução do Espírito Santo.
Jesus faz um alerta terrível que deve abalar muitas almas por aí até hoje, quando disse que há quem o chame de Senhor e até faça muitas obras em seu Nome, mas que no momento da salvação pedirão por sua intervenção sem sucesso, quando ele dirá: “nunca vos conheci, apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade“.
Isso é maravilhoso e bem em linha com a maturidade espiritual cristã que identifica na mentira da hipocrisia o verdadeiro mal contra a santidade de Deus, e não na fraqueza humana. Até aí tudo bem.
O problema vem quando Jesus diz que ao perguntarem sobre a razão dessas coisas, ele afirma que falharam aqueles que, ao pedido de pão e água pelos menores irmãos, negaram essas coisas.
Imediatamente pensamos nos miseráveis da Terra, na caridade do amparo material, etc., o que parece confuso porque o que Jesus dizia era que justamente esse tipo de obra exterior era espiritualmente vazia se não correspondesse a uma inclinação correta do coração, de modo que alguém que seja honesto, mesmo que fraco nas obras, ou até omisso, poderia ser tido como fiel verdadeiro, enquanto que alguém muito bem sucedido nas obras externas poderia ser tido como falso e mentiroso, se a essa atitude exterior não correspondesse uma honestidade interior, principalmente no sentido da compra da salvação, ou seja, em um desejo de fazer negócios com o Amor divino.
Como resolver esse problema?
Resolvemos pela leitura espiritual.
Toda confusão deriva da leitura carnal, que tenta voltar sempre ao poder que o ser humano quer ter de se salvar por si mesmo, ou seja, de forçar Deus a agir de forma “amorosa” não como emanação livre da sua natureza, mas como contrapartida de uma relação de troca.
O que Jesus realmente quer dizer é que se você é um religioso que se nega a dar o testemunho do Amor de Deus na sua pureza e simplicidade quando isso lhe é pedido, você está negando o pão e a água aos fiéis.
Estas espécies são sempre símbolos do testemunho da verdade na linguagem divina. Deveria ficar muito evidente que é disto que o Filho de Deus está falando, já que ele veio para salvar os pecadores não com uma panacéia socialista, ou com uma revolução militar contra Roma, mas com o testemunho do Amor do Pai. Nunca que a fraqueza derivada dos medos humanos, muito naturais, frutos da condição de encarnação num mundo amaldiçoado e decaído, seria usada contra os fiéis. Mas a sua omissão ao dar testemunho do Amor do Pai revelado pelo Filho e, principalmente, nem tanto na forma da pregação, mas pela vida amorosa na forma do perdão e da misericórdia, isto sim é condenável, porque é uma falsidade, não é o esperado de um seguidor de Jesus Cristo.
Lembrem-se que Jesus, tentado no deserto, respondeu ao tentador: “nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra de Deus“.
O Filho não veio emendar uma humanidade decaída e amaldiçoada que só poderá ter remédio com a destruição destas coisas velhas. Ele veio dar o testemunho do Amor do Pai, de modo que todo aquele que confie nesta promessa receba a herança a que está destinado. Isso é assim para todo que creia neste Amor e aja de acordo com esta crença, sendo sal da terra e luz do mundo, vivendo o perdão e a misericórdia. É uma obra muito mais excelente e santa, universal e poderosa.
Deste modo podemos parafrasear a sentença de Jesus, por exemplo, assim:
Apartai-vos de mim os que quiseram comprar a salvação diminuindo o Amor do Pai com seus próprios méritos, esforços, obras e virtudes.
Nunca vos conheci, pois vocês nunca quiseram ser salvos, mas só desejaram salvar a si mesmos.
Isso é o que condiz com a guerra de Deus contra a mentira da idolatria e da presunção, que é o único verdadeiro obstáculo que impede o trinfo do seu Amor: a recusa direta da salvação pela presunção do mérito espiritual.
Um avarento, um fraco qualquer, é apenas mais um pecador que pode a qualquer momento dizer “sim” para a salvação do Amor divino, a partir mesmo do reconhecimento de que não foi tão caridoso nas coisas materiais quanto poderia ou deveria ter sido. Este pode confiar no Amor de Deus que lhe salve de sua miséria espiritual.
Mas e o rico em obras aparentes, carnais, inclusive e principalmente com caridades materiais, especialmente as mais pirotécnicas?
Esse não sabe que precisa da misericórdia de Deus tanto quanto o avarento que se sabe pecador, e eis o seu grande engano, e a sua ruína: é um mentiroso que acha não não vive a mesma miséria espiritual do seu irmão mais fraco.
É assim que o pobre de espírito é um bem-aventurado, pois não se orgulha de si e assume a sua miséria, e por isso se diz que é na fraqueza humana que a força de Deus mostra todo o seu poder, pois sua força é o Amor para aqueles que desejam ser amados, e não recompensados por seus falsos méritos, já que diante de Deus ninguém se justifica, somente o Filho o faz diante do Pai.
Devemos ter, em primeiro lugar e sempre, a clareza da natureza e origem sobrenatural dos dons espirituais que sustentam a vida interior do cristão, a saber, a Fé, a Esperança e o Amor, que são concessões da Graça divina a favor daqueles que aceitam voluntariamente a sua formação pela comunhão com o Espírito Santo de Deus.
Dito isso, convém compreender como pode ser movida a vontade humana no sentido da aceitação dessa direção espiritual da Graça divina.
Não nos cabe questionar a dispensação da Graça aos fiéis, mas interessa o entendimento do concurso das faculdades humanas na direção da recepção da vontade divina.
Ora, o que cabe ao ser humano é o esvaziamento da sua pretensão, a renúncia, a fuga do mal, a abstenção na participação do espírito do mundo, um deixar de ser por si, em suma, o fim da idolatria em geral, mas em especial particularmente do antropoteísmo humanista.
Então o que o ser humano deve fazer é deixar de ser idólatra de si mesmo, especialmente na forma da sua razão humana, que é o psiquismo gnóstico, que foi a forma da traição originária contra a Aliança com Deus no princípio dos tempos. Se todos nascemos do pecado original que se consubstancia na mentira da salvação sem Deus através da emancipação gnóstica, é preciso fazer a renúncia que os nossos pais não fizeram a esta mentira. E a reafirmação da verdade traída da Aliança com Deus é a confissão da condição humana decaída e amaldiçoada, o que nos livra da mentira de ser orgulhosos e pretensiosos.
Numa palavra: a primeira chave da vida espiritual é a Humildade.
Não foi nada casual o testemunho do próprio Filho de Deus quando este nos ensinou: “aprendei de mim, que sou humilde.”
Este é o ponto mais alto da tradição cristã, quando grandes ou pequenas autoridades das igrejas reafirmaram o valor da virtude da Humildade em face de todas as outras, já que tudo é Graça de Deus, o que valida o tributo humano ao Amor divino que é o próprio reconhecimento da exclusividade da origem divina das virtudes, de modo que esta virtude é a mais propriamente humana, embora obviamente também sustentada pela Graça como fundamento.
Quem não puder se esvaziar da mentira não terá lugar para o abrigo da verdade que não lhe pertence. E em nada isso fica mais claro do que no questionamento da vida psíquica do ser humano como sede da consciência, que dá lugar ao reconhecimento da vida espiritual como a verdade da substância humana diante de Deus.
Isto quer dizer que a sede da alma é o coração e não a mente: não vivemos diante de Deus respondendo pelo que dominamos com o nosso intelecto, mas sim pelo que acreditamos com a nossa liberdade.
Nossa imagem e semelhança à natureza divina não só se refere ao dom intelectual, mas também e sobretudo ao dom do livre-arbítrio, já que este supera aquele quando se permite questionar dialeticamente qualquer verdade evidenciada pelo intelecto (ou seja, mentir), como também projetar a imagem da verdade sobre o que é desconhecido na forma da crença. Se a vontade não fosse superior, não teria soberania sobre o intelecto, tanto na forma do questionamento legítimo quanto na forma da mentira, e nem daria uma resposta de valor moral com base em princípios e valores autoevidentes que a própria vontade assente livremente e reconhece como premissas ao poder racional da mente humana. Assim, a vida psíquica parte de crenças e termina em crenças, ou seja, age sob o império da soberania da vontade: inicia sua atividade a partir do que é assentido como verdadeiro e termina formulando a razoabilidade daquilo que será proposto como o verdadeiro.
O aporte do Intelecto na vida espiritual certamente existe e se dá na autoevidência das verdades metafísicas que confirmam a condição humana, inclusive a da soberania do livre-arbítrio sobre tudo o que não é matéria de evidência intelectual. Abaixo deste nível de atuação noético, a potência intelectual se torna um recurso dialético que trabalha na produção da imagem da verdade, a convite da soberania da liberdade da vontade humana.
Perceba-se que até mesmo a evidência mais inquestionável, de natureza lógica e noética, aletheia apodeixis, é convidada pela vontade livre que assente com o reconhecimento da legitimidade do império da verdade que é evidenciada.
Assim, o psiquismo gnóstico deve ser derrotado na nossa vida interior, ao assumirmos que não obteremos nenhuma salvação pelas luzes dos nossos domínios cognitivos que são servos da vontade livre, e o que interessa é o condicionamento dessa vontade livre ao seu objeto mais perfeito, que é o Amor de Deus.
A Humildade vence o psiquismo gnóstico e aponta para o Coração, sede da vontade livre, único lugar onde pode habitar o Espírito Santo do Deus verdadeiro.
O Coração é a segunda chave da vida espiritual, porque é o instrumento da ação da consciência, da responsabilidade e do poder de assentimento ao Discernimento do Espírito Santo. Vencida a pretensão do psiquismo gnóstico, resta-nos a consciência e responsabilização da vontade livre em acordo com o dom divino que nos permite discernir o sentido do nosso viver.
O ser humano deve reconhecer que se define pelos seus termos, e deve tornar translúcido o seu segredo, de modo que saia das trevas o motor do viver que se escondia atrás do maquinário raciocinante. A segunda chave derrota o segundo nível de mentira. Primeiro, destrói-se a mentira de que o domínio do intelecto move a vontade, quando o contrário é a realidade. Segundo, destrói-se a mentira de que a vontade é movida por forças exteriores numa dinâmica causal independente, quando a realidade é que a vontade move-se por si mesma ao seu arbítrio, de modo que essa moção deve ser consciente e responsável.
Tanto quanto a verdade da Humildade levou à verdade do Coração, a verdade deste levará então à verdade do Amor, que é a última chave da vida espiritual.
Pois nenhum outro objeto é tão perfeito e desejável para toda a liberdade, como o confirma facilmente o recurso ao dom do Intelecto, quanto o Bem, de modo que a única crença verdadeira é a que se dirige ao Amor divino, como o Amor é o desejo do Bem, e a única vida plenamente vivida diante de Deus uma vida em que a consciência humana assuma a responsabilidade de crer no Amor de Deus, com todas as consequências que derivam dessa decisão.
Humilde, o ser humano se rende à verdade do Coração, isto é, da sua liberdade de mover-se, inclusive intelectualmente, na direção do objeto do seu desejo, e finalmente se rende à verdade do Amor que é o objeto mais perfeito da vida espiritual.
Quando finge que domina uma verdade que lhe transcende, o ser humano se incha da pretensão gnóstica, e a sua cura está na libertação dessa presunção assumindo que o que lhe move é o desejo da sua vontade, mas que então nenhum objeto é tão amável quando o Bem de Deus, provido pelo Amor do Criador. Esse é o caminho da rendição espiritual desde a soberba gnóstica até a humildade cristã.
Não é para ser senhor da verdade que o ser humano recebeu o dom do seu Intelecto, mas para ilustrar, com a Graça de Deus que lhe provê as luzes da razão natural, a necessidade da rendição ao Amor divino como solução exclusiva da condição humana, justamente pela sua fraqueza, e não por uma falsa força. A suficiência é mentirosa, é o erro básico da emancipação da idolatria, e a renúncia humilde a essa pretensão é a correção do erro dos nossos ancestrais. O que resta é o ser humano corrigido pela sua causa final, que não é a de sábio, mas a de vivente, amante e amado.
A Humildade é a chave do Coração, o Coração é a chave do Amor, e o Amor é a chave da Vida.
Ouvi recentemente, de certo tomista renomado no país, que a “história serve para a salvação dos eleitos”. Aliás, esta afirmação foi repetida mais de uma vez em circunstâncias diferentes, em conversas diversas.
Gosto da lógica do serviço da existência contingente para a realização de uma causa final superior, e uso o tempo todo esse tipo de lógica. De fato, tudo o que é material e eficientemente causado o é para a realização das causas formal e final, de acordo com a designação de um decreto transcendente. O Logos divino chama todas as coisas a existir para um propósito bem designado e dentro de uma ordem bem definida.
Dito isto, não posso concordar tanto com a colocação do referido tomista, ou pelo menos não totalmente.
Realmente há uma função soteriológica na história deste mundo presente, como na de qualquer outro mundo que exista em condição análoga, isto é, para a definição da liberdade de aceitação ou rejeição do Amor divino.
Porém, a história deste nosso mundo em particular não decorre somente do arbítrio divino que determinou o campo de ação da liberdade humana. Esta liberdade humana já se manifestou ancestralmente na forma de uma traição fundamental que já foi bem localizada até mesmo pela tradição religiosa: o Pecado Original. E em decorrência dessa ruptura com o gesto de Aliança a partir da vontade do Criador, foi decretada uma também muito bem definida e ainda vigente Maldição contra a usurpação do erro humano da busca de emancipação do Amor do Eterno.
E eis o nosso problema: do jeito que se propõe, parece que é Deus quem deseja que mais almas se encarnem neste estado decadente e amaldiçoado, e não justamente os descendentes daquela traição ancestral que reproduzem, com seus atos, e por sua responsabilidade, o mesmo gesto de desobediência de seus pais. Esse gesto é o que que sustenta a justiça do próprio estado de Queda do qual cada nova geração nascida sem defesa, inocentemente, é obrigada a participar.
Assim, quando ouvimos a justificação das coisas presentes neste mundo, isto é, das mais variadas formas de sofrimento humano, tal situação é colocada na conta dos planos divinos, como se Deus tivesse que fazer uso de toda a miséria e loucura humana para a salvação dos seus, quando a verdade é que é o ser humano que ainda requer a experiência da vida na traição e usurpação, como seus pais, para alcançar o completamento da sua experiência espiritual diante de Deus.
É preciso desmontar e desmoralizar completamente essa narrativa trágica e fatalista que entende como inevitável o presente estado de coisas neste mundo, pois esta é uma fuga muito conveniente e covarde da realidade de que o ser humano é o responsável, pelo seu arbítrio, pela produção e perpetuação de todo o mal. Isto não deveria jamais entrar na consideração de uma necessidade divina, o que é indigno e desonroso perante a santidade do Criador. Quem tem necessidade da experiência do mal é essa raça maldita de traidores e mentirosos que ainda hoje continua debitando da economia salvífica de Deus aquilo que deveria pesar apenas sobre as suas próprias costas, como aliás acaba pesando por força da justiça do decreto da Maldição.
Por idolatria masoquista do sofrimento, por exemplo no símbolo da Cruz cristã, ou na idolatria naturalista da animalidade humana, ou qualquer outra, nossos irmãos continuam omitindo seu dever de consciência e responsabilidade. Preferem se comparar a animais, escravos e mercenários, do que assumir o chamado à dignidade da eleição filial ao Amor de Deus. E no maior descaramento depõem contra o Amor divino, dando testemunho das Trevas que lhes são peculiares, confundindo propositalmente o que Deus quer com o que Deus permite.
Se questionassem a qualquer momento o que Deus quer mesmo, veriam no Filho de Deus, encarnado Filho do Homem, o seu exemplo de vida perfeito e acabado: uma alma humilde e mansa, despretensiosa, separada da mistura do mundo, ansiosa apenas para o retorno à perfeição no seio do Pai. Isso obviamente não tem nada a ver com as formas de poder neste mundo, seja familiar, econômico, militar, político ou cultural. Ao contrário, é a renúncia de tudo isto.
Não falta nada a um cristão que queira cair em si, ainda menos a um tomista cujas luzes da razão natural já lhe deram privilégio maior ainda para aproveitar a oportunidade de assumir a verdade das coisas.
Será possível que aqueles que se dizem amantes da verdade possam começar a desejar de fato o objeto do seu amor?
A História serve sim para a salvação dos eleitos, mas não porque Deus quisesse que esta História fosse assim, e sim porque não deram outra chance a Ele, e o traíram desde o começo, forçando o seu Amor ao gesto mais extremo de misericórdia, como fazem até hoje.
Desde a primeira geração a nossa raça errou, e não satisfeita com sua rebeldia, repudiou todo testemunho verdadeiro que viesse da Palavra de Deus, assassinou cada Profeta do Senhor e finalmente completou a sua medida com a injustiça contra o próprio Cordeiro de Deus.
Pois bem, o Cordeiro está voltando como Leão para praticar o último gesto de misericórdia que é possível para com essa humanidade que permanece lhe traindo obstinadamente, dizendo que essa traição é a própria vontade do Senhor: vai salvar o seu resto que lhe pertence, e então exterminar completamente tudo o mais que não lhe tem serventia.
Meus amigos, hoje eu vou complicar as suas vidas. Ou o contrário? Depende de vocês.
Vou trazer uma especulação difícil, mas inevitável, sobre a qual devemos meditar não porque nos seja agradável, mas porque não podemos nos furtar a conceber que as coisas possam ser assim.
Desde que se assuma que aquele livro chamado Bíblia Sagrada não possua a infalibilidade da qual um cristão verdadeiro, discípulo do Espírito Santo, não só prescinde como precisa prescindir, podemos entender como foi profunda a traição dos cabalistas, os amantes da Tradição, contra o testemunho da verdadeira Revelação de Deus. Sabemos que ambos os Testamentos já fizeram essa denúncia (“transformou-a em mentira o cálamo do escriba“, e “invalidastes a palavra por causa da vossa tradição“). Mas será que temos coragem de enxergar até onde essa traição possa ter chegado?
Ora, eu já rompi até com a teologia do sacrifício de sangue, como vemos em Hebreus 9. E essa ousadia que alguns classificariam como temerária me fez ir até os confins do Gênesis para tentar entender a origem dessa história.
Um investigador da corrupção política segue aquele princípio elementar da pesquisa criminal: follow the money (“siga o dinheiro”).
Sendo assim, um investigador da corrupção espiritual deveria seguir um princípio semelhante, um análogo, a que eu dou o nome de follow the blood (“siga o sangue”).
Isto porque o sangue é espiritualmente considerado como a matéria da vida, o elemento da substância vital, aquilo que circula e mantém vivo qualquer ser. Não por um acaso, todas as entidades espirituais que disputaram poder com o Criador sempre pediram pagamentos na forma de sacrifícios de sangue. E até mesmo o Deus verdadeiro, Criador de todas as coisas, aceitaria esse tipo de oferta como já vimos inúmeras vezes no Antigo Testamento (apesar de que há uma estranha passagem em que Deus pergunta quando foi que Ele pediu por essas coisas).
Mas e a traição da Tradição? Não poderia ter contado toda essa história de forma errada? Será que o sangue não foi sempre pedido não pelo Deus verdadeiro, mas pelo Mentiroso que quer se colocar no lugar de Deus desde o princípio dos tempos?
Isto é perfeitamente possível e essa reflexão é muito conveniente, por difícil que possa parecer. Quando mais uma pessoa é religiosa, mais isso será difícil, é claro. O preço que eu pago é barato porque eu não tributo mais no altar da Tradição Primordial, do Culto do Ouroboros que governa todas as religiões do mundo. Cada um faça a sua escolha.
Na minha investigação eu encontrei teses gnósticas a esse respeito, e foi justamente na avaliação das alegações desses outros traidores de Deus que eu pude contemplar a sinistríssima possibilidade de uma tal conspiração para dominar as mentes dos seres humanos, que só mesmo a confiança no Amor do Altíssimo me permitiu manter a sanidade suficiente para não temer o cálculo da arte do inimigo.
Ocorre que alguns gnósticos cultuam Caim como o primeiro deles, seu patriarca, justamente como o primeiro herói contra a mentira do falso deus que seria o Demiurgo. Mas, já ciente de que o gnosticismo é um erro por razões muito claras, pude então compreender como é que existe uma dialética secreta na própria Gnose, montada de tal modo que nenhuma criatura pudesse escapar senão por uma providência divina de salvação.
Vejam bem, não digo que o diabo tenha escrito a Bíblia, porque ele é incapaz de criar qualquer coisa, só sabe mentir, perverter e corromper. Mas, sendo capaz de influenciar a humanidade a produzir grandes e profundas mentiras, até onde Lúcifer teria ido?
Durante um certo tempo, enquanto fazia os meus estudos bíblicos, tive a impressão de que a Revelação era criptografada pelo Espírito Santo, escondida dentro de um livro que seria mais ou menos indiferente espiritualmente, uma mera coleção de textos. Assim, a vida espiritual permitiria ativar o sentido da verdadeira Palavra escondida no texto bíblico. Hoje, porém, sou obrigado a considerar a hipótese de que o texto não é tão indiferente assim em si mesmo, e que na verdade a criptografia espiritual vence uma camada espessa de mentiras tão sofisticadas e consolidadas com o passar dos séculos, que a consideração da hipótese dessa conspiração bíblica se torna quase impossível para quem queira se dar a uma análise sóbria das coisas.
Mas graças a Deus eu não tenho medo. E cheguei então numa hipótese que explica a dialética da Gnose, que teria uma Tradição Primordial (a matriz de todas as religiões) e uma Revolução Primordial (a matriz de todas as heresias), dominando assim praticamente todo o panorama da espiritualidade humana, não fosse a intervenção de Deus com a Revelação de Jesus Cristo, para efeito naqueles que tem olhos e ouvidos para isso, os “espirituais” de Agostinho, contra os demais “carnais”.
De um lado temos a Gnose exotérica, a Tradição Primordial, o Culto Ouroboros: o Behemoth.
De outro lado temos a Gnose esotérica, a Revolução Primordial, a Iniciação Luciferina: o Leviatã.
E é nessa teratologia que a forma mentis da humanidade está afundada até o pescoço, e da qual o Filho de Deus veio nos tirar, se tivermos a coragem de acreditar nele contra toda a idolatria praticada pelos nossos pais.
Tudo teria começado com a traição do primeiro casal contra o governo de Deus no Jardim do Éden: tendo desejado conhecer o Bem e o Mal por si mesmos, acreditaram na mentira da Serpente.
Ora, a partir daí a Serpente do Mundo, o Ouroboros, se tornou o deus de Adão e Eva, o objeto de seu culto. O Deus verdadeiro os amaldiçoou para que morressem.
Mas o diabo fez pacto com eles: os ajudaria a enfrentar a Maldição com suas luzes, a primeira Gnose, dominando a Terra e fazendo guerra contra o governo divino, desde que em troca o adorassem como seu deus.
Foi aí que se estabeleceu o Culto do Ouroboros, a Tradição Primordial, selada com o ritual do sacrifício de sangue à Serpente do Mundo como forma de adoração.
Na primeira geração subsequente temos Caim e Abel convidados por seus pais a participarem do Pacto Ouroboros. Ambos, porém, foram certamente tocados pelo Espírito Santo do Deus verdadeiro, que jamais abandonou nenhuma das gerações nascidas da traição. O primogênito Caim teria então ouvido e aceitado a correção de Deus, enquanto o caçula Abel teria ouvido e aceitado a orientação de seus pais. O primeiro ofertou ervas e incenso ao Deus verdadeiro, e o segundo ofertou o sangue de um animal sacrificado ao falso deus. A Serpente obviamente preferiu o sacrifício de Abel.
É aí que se inicia o esoterismo gnóstico: dizem que Caim, tendo descoberto a traição de seus pais contra o Deus verdadeiro, decidiu fazer guerra contra o irmão para impedir a perpetuação da mentira no mundo, razão pela qual teria sido um “herói” gnóstico ao matar Abel.
Mas não podemos descartar a idéia de que Abel era inocente apesar de sua obediência aos pais, e que Caim cometeu assassinato por não suportar o triunfo do irmão num mundo decaído e mentiroso, apesar de ter sido alertado pelo Deus verdadeiro que lhe tinha chamado à Aliança que seus pais traíram.
Aqui é preciso observar que quando a nossa Bíblia fala que Deus disse isso ou aquilo, sendo o diabo esse grande mentiroso, nós temos uma mistura do que é uma Revelação verdadeira do que Deus fez e disse, e o que é ação e discurso da Serpente do Mundo que sempre quis disputar o lugar de Deus diante do homem.
Como fazer então esse discernimento entre a verdade e a mentira? Parece-nos que isso é impossível.
E certamente é impossível para nós, mas não é impossível para o nosso Deus que pode nos dar Discernimento. E Jesus Cristo já deu a instrução mais poderosa de todas: pelos frutos conhecereis.
Se o derramamento de sangue é a forma mais evidente de prática da violência, a própria transformação do assassinato em prática ritual, quem então pediu sangue como forma de culto?
Se, por outro lado, o perdão e a misericórdia é a forma mais evidente de prática do Amor, quem foi que alertou Caim para que não caísse na tentação de matar o seu irmão?
Pelos frutos conhecereis.
Abel era inocente, mas seu irmão não resistiu à humilhação de ser diminuído pela mentira do mundo e o matou, querendo fazer justiça contra o Ouroboros, sendo incapaz de perdoar e aceitar a instrução do Deus verdadeiro, como seus pais também não puderam fazer.
A partir de Caim temos então a dialética gnóstica: o exoterismo vindo de Set, que imitou seus pais como Abel teria feito, e o esoterismo vindo de Caim, em luta contra a Serpente por outros meios iluministas que também acabam cultuando o mesmo Lúcifer por outros modos.
Com a regra do follow the blood podemos ir longe na revisão de todos os relatos das Sagradas Escrituras, culminando obviamente na perversão da religião cristã contra a pureza da salvação de Jesus Cristo como se a morte deste fosse um justo e bom pagamento de sangue exigido pelo Pai, quando na verdade quem quis matar Jesus foi a Serpente.
E até hoje a maioria dos cristãos religiosos pedem pelo sangue do Filho como se fosse isso que os salvasse de uma dívida, e não a Revelação do Pai como Amor puro.
Jesus veio para revelar o Amor do Pai e a mentira da Serpente, e fez isso na Cruz justamente porque não merecia a morte.
Jesus morreu para a satisfação dos que acreditam no Assassinato, e ressuscitou para a satisfação dos que acreditam no Amor.
E pelos frutos conhecereis: quem odeia pede sangue, e quem ama pede misericórdia.