Já falamos, múltiplas vezes, da pena de morte por decapitação para todos os cristãos que reafirmarem a divindade de Jesus como Filho de Deus como punição pela desobediência à primeira das Leis de Noé (Noahide Laws) a serem implantadas durante o período da Grande Tribulação.
Mas a consciência do cristão deve estar tranquila com relação a sua própria crença, não movida por uma obediência a uma programação externa, como é o caso dos religiosos que perseguirão os cristãos espirituais a mando dos seus líderes, mas por uma convicção interior. No intuito de esclarecer a razão dessa convicção, convém entender porque a realidade espiritual vai na direção contrária ao suposto motivo que justificaria a perseguição dos cristãos na aplicação das Leis de Noé.
A verdade é que a negação de Jesus como Filho de Deus é a verdadeira idolatria, pela simples razão de que o nosso Deus, revelado como o puro e supremo Amor, não pode ser quem Ele é, íntegro e perfeito, se não realizar a sua natureza em Si Mesmo, ou seja, se depender de uma Criação exterior para ser um amante verdadeiro.
Isto quer dizer que o “deus” que não é Pai e Filho não é amante e amado em si mesmo, de modo que o seu relacionamento com a criação não é gratuito e analógico ao relacionamento entre o Pai e o Filho, mas uma necessidade para que pudesse ser amante de fato. Ora, o “deus” que precisa criar algo exterior para ser deus não é deus de fato, pois não tem uma essência absoluta, somente relativa (é somente um “deus” perante uma criatura que o reconheça como tal neste relacionamento). Assim, o “deus” que precisa de uma criação para ser deus plenamente não tem em si a verdadeira substância divina do Deus que é sempre suficiente em sua natureza interior, e portanto é sempre um falso deus, um ídolo.
Quando Jesus revelou o Pai como Amor, revelou-se a si mesmo como o Filho que satisfez eternamente a natureza amorosa de Deus.
As Pessoas divinas do Pai e do Filho não negam a unidade de Deus, ao contrário, reafirmam essa unidade, desde que para ser apenas Um e Absoluto, Deus experimenta a realidade de ser amante e amado eternamente em Si Mesmo de modo perfeito, totalmente independente de qualquer ato criativo no tempo, ato este que sempre é gratuito e analógico ao Amor perfeito que Deus realiza eternamente em sua própria essência divina.
Quem tiver olhos para ver e ouvidos para ouvir compreenderá esta mensagem. Através de Jesus Cristo nós adoramos ao Deus verdadeiro.
Por isso Jesus é O Caminho.
Por isso o Pai disse: “Eis meu Filho, em quem tenho prazer“, e o Filho disse: “Ninguém vai ao Pai senão por mim.”
É um testemunho do Amor verdadeiro que o Eterno realiza em Si Mesmo, e do qual provém todo gesto amoroso a toda criatura.
É evidente que isso tudo não muda o relacionamento do cristão com os seus irmãos menos esclarecidos.
Judeus e muçulmanos podem querer arrancar as nossas cabeças porque nisso darão o testemunho da sua filiação espiritual.
Nós não pediremos por nenhum ato de violência, ao contrário, incentivaremos a consciência e a responsabilidade, o perdão e a misericórdia, dando testemunho da nossa própria filiação espiritual.
Logo no começo daquele filme cheio de esoterismos iniciáticos, Matrix, encontramos um número comum no ocultismo na porta do apartamento de Neo, o neófito da história: 101.
Não por um acaso, o passaporte de Neo vence em 11/09/2001, como que dizendo que haverá uma nova passagem nesta data, e de fato pode-se dizer que a humanidade passou pelas duas torres que caíram em direção a um novo mundo no novo milênio.
Pode-se encontrar a referência ao número 101, ou alternativamente, e mais frequentemente, ao simbolismo das duas torres, em várias outras produções culturais de várias épocas. O que nos falta é o sentido profundo e simples desse símbolo, que só pode ser compreendido com o entendimento do seu fundamento real.
A iniciação do ser humano no mal se realiza com a sua encarnação neste mundo amaldiçoado. Por outros meios temos essa mesma noção, como quando verificamos aquele simbolismo do hexagrama com o Ouroboros que representa a união do masculino com o feminino como base de poder para a Serpente do Mundo, reabastecendo este plano de existência com almas novas. Exemplos abaixo:
Uma alma humana é iniciada no mal ao encarnar por um nascimento forçado, invocado por duas outras almas humanas que se juntaram para essa finalidade (por omissão ou comissão, mas de qualquer modo irresponsavelmente).
O número 101 ou o símbolo das duas torres representa a mesma coisa, desde que se entenda que as duas colunas representam a entrada, como um portal, por onde uma alma inocente vai transitar e passar do estado de Graça para o de Queda. Pai e Mãe, masculino e feminino, Sol e Lua, Yin e Yang, formam as duas colunas desse portal.
Podemos afirmar sem sobressaltos que este é um Portal do Inferno desde que os seres que habitam numa dimensão inferior precisam da realização desse ritual para a sua subsistência, como um parasita precisa da existência e da permanência de um hospedeiro à sua disposição. E é pela sugestão, influência e possessão desses seres infernais que o mal entra no mundo através da manipulação do livre-arbítrio humano.
Em suma: cada alma encarnada passa por esse portal e se torna ela mesma, consequentemente, um portal para a realização das potências ínferas que por si seriam incapazes de afetar essa dimensão superior, não fosse pela anuência dessas almas encarnadas num mundo que é amaldiçoado e dominado pelo Sistema da Besta. O que dá poder à Serpente do Mundo é o sacrifício humano contínuo das gerações dos filhos de Adão e Eva.
O mistério das duas torres, do 101, não é um mistério quando se tem a referência da perfeição da pureza do Amor divino que não requereria jamais a experiência do Mal para o exercício da liberdade, ou seja, a Queda é sempre uma escolha humana.
Há um engano comum no entendimento do sentido do que expliquei a respeito da Vida Espiritual, tanto com a Monadofilia quanto com A Coruscância, que é a de que minhas idéias são fundamentalmente gnósticas.
É fácil refutar isso desde que se reconheça que o Gnosticismo como culto requer a presença de dois elementos fundamentais na sua doutrina que são totalmente refutados na minha visão espiritual:
1) a identificação da manifestação material/corporal como um decaimento da substância espiritual;
2) que o mundo material foi gerado por uma entidade com poderes criativos chamado Demiurgo.
Mas é possível forçar uma comparação entre as figuras do Demiurgo gnóstico e do Ouroboros na minha exposição, de modo que nos convém agora fazer uma avaliação das diferenças entre essas duas figuras.
Demiurgo
Ouroboros
Criado através de um erro espiritual
Criado impecavelmente, erra por iniciativa própria
Tem poderes criativos
Não cria nada, apenas corrompe e perverte
Se opõe ao governo do Deus verdadeiro, com o poder de separar as criaturas livres do verdadeiro Criador
Se opõe ao governo do Deus verdadeiro, mas sem o poder de separar as criaturas livres do verdadeiro Criador
Corrompe a Criação num processo alheio à vontade dos entes livres
Corrompe a Criação num processo dependente da vontade dos entes livres
Gera um mundo material corrompido por essência (decaimento da substância espiritual)
Corrompe um mundo material criado impecavelmente pelo Deus verdadeiro
É enfrentado pela salvação através da Gnose que revela a verdade escondida
É enfrentado pela rejeição do mal na experiência responsável e consciente da vida
Uma das maiores dificuldades –se não mesmo a maior de todas–, na apresentação da liberdade da vida espiritual do ponto de vista cristão, surge do conflito com a mentalidade religiosa que já capturou o imaginário das pessoas a respeito dos temas fundamentais.
Quando digo que o diabo inventou a religião, à parte de um mero desejo de causar algum espanto que gere uma reflexão, sou movido também por uma evidência muito forte de que o tema do sentido da vida humana foi totalmente dominado por uma visão institucional criada com a única finalidade de garantir que ninguém vai chegar a lugar nenhum, e que tudo continue mais ou menos como está.
É por isso que vale a pena analisar a questão com maior atenção, para chamar a atenção para estas diferenças, de modo que as pessoas entendam, de uma vez por todas, que quando falamos de vida espiritual nós não estamos falando de vida religiosa, embora estas tenham evidentemente pontos de convergência, ao menos nos temas de que tratam.
Exterior vs. Interior: A Vida Religiosa é voltada a um resultado exterior, ao mundo das aparências, dos gestos e palavras corretos, para produzir a imagem de correção de acordo com o código religioso. Já a Vida Espiritual é voltada a um resultado interior, ao mundo dos significados, da consciência e da responsabilidade, para produzir um resultado que agrade a Deus em fidelidade ao seu Amor. Essa diferença é destacada por exemplo em Jo 2:23-25: “Enquanto estava em Jerusalém, para a festa da Páscoa, vendo os sinais que fazia, muitos creram em seu nome. Mas Jesus não tinha confiança neles, porque os conhecia a todos e não necessitava de que lhe dessem testemunho sobre o homem, porque ele conhecia o que havia no homem.”
Templos mortos vs. Templos vivos: A Vida Religiosa é realizada com foco em templos de pedra, em locais onde o culto a Deus é supostamente preferido, e onde a comunidade pode se reunir para reafirmar a sua unidade cultural. A Vida Espiritual é realizada com foco no templo de carne e sangue, o próprio corpo do fiel que leva para onde vai o seu culto a Deus, e dá o testemunho da sua experiência espiritual a quem for conveniente, não precisando da participação numa comunidade para viver plenamente a sua crença;
Ritos próprios vs. Vida comum: A Vida Religiosa requer a prática de determinados ritos próprios que reafirmam o conteúdo da sua crença, de tal maneira que sem essa ação específica a realização do sentido da fé fica prejudicado. A Vida Espiritual implica na experiência imediata do sentido de toda e cada experiência humana diante do Criador, de modo que tudo ganha valor espiritual e a força da fé depende apenas de um comprometimento interior de conectar todas as coisas ao plano do sentido transcendente;
Calendário de Festas vs. Cotidiano: A Vida Religiosa faz a contagem dos dias para separar alguns para a prática da memória do culto e dos ritos. A Vida Espiritual considera que todos os dias são igualmente vividos diante de Deus, e mais ainda, que o que o ser humano vive no seu cotidiano tem maior valor espiritual do que o que ele representa em momentos separados no qual pode fingir que não é a pessoa que é quando leva a sua vida de cada dia;
Conferência vs. Mistério: A Vida Religiosa é estruturada de tal forma que permite a contínua conferência da correção do comportamento alheio, o que favorece o julgamento do próximo, assim como permite o fingimento da correção própria. A Vida Espiritual é eminentemente uma realidade diante de Deus que não pode ser verificada exteriormente, senão indiretamente pelos frutos das crenças que se mostram com o tempo, o que significa que no fim das contas somente Deus sabe qual é a realidade no coração de cada ser humano, e cada um está livre e impedido, ao mesmo tempo, de julgar o próximo e de fingir que possui valor espiritual;
Salvação como Conclusão vs. Salvação como Premissa: A Vida Religiosa entende que o Amor de Deus não é garantido e a Salvação só decorre como conclusão de um processo que pode eventualmente falhar à revelia da intenção do religioso, ou seja, a Vida Religiosa busca um o sucesso do Amor como resultado. A Vida Espiritual entende que o Amor de Deus é garantido pela própria infalibilidade da bondade divina, e que a Salvação é uma premissa para o relacionamento com Deus, desde que a vontade genuína pela salvação é a única exigência para a garantia dessa realidade, ou seja, a Vida Espiritual busca a glorificação do Amor como resultado.
Vale a pena lembrar que uma pessoa que vive uma vida religiosa pode também viver uma vida espiritual, aliás, por definição isso é necessário, já que o sentido espiritual da vida humana não pode ser “desligado”, só pode ser esquecido.
Sempre que falamos de vida espiritual, ao menos do ponto de vista cristão, estamos tratando do que foi exposto aqui, à revelia ou até mesmo em oposição com o que se entende como vida religiosa.
Se não soubermos fazer essa separação estaremos sempre expostos à confusão demoníaca que quer obrigar cada nova geração a submeter sua liberdade espiritual de relacionamento com o Criador aos protocolos e sistemas institucionais que foram justamente criados para impedir a verdadeira consciência e responsabilidade humana.
Em uma linha totalmente independente e na verdade diretamente contrária à moralidade conservadora das religiões, a moralidade cristã verdadeira, baseada num discernimento espiritual que favorece a consciência e a responsabilidade individual, leva a uma constante e progressiva libertação do ser humano por si mesmo.
Para entender este processo é preciso distinguir claramente entre o que é a moralidade religiosa, e o que é a moralidade espiritual.
A primeira é formada por uma tradição cuja função principal é a preservação do status quo, ou seja, é uma moralidade fundada na continuidade de todo o esquema de poder, e contra qualquer libertação que perturbe essa realidade.
A segunda é formada por um discernimento espiritual através do qual o Espírito Santo esclarece a supremacia do Amor e a necessidade do jubileu moral, da libertação de toda servidão através da renúncia ao Poder de todos os modos não determinados pela Providência divina através das circunstâncias históricas.
Isto quer dizer que a libertação cristã verdadeira é uma ação divina que faz uso da consciência humana para levar as pessoas que são amigas de Deus a uma solução contra a escravidão criada pelos atos ancestrais de usurpação contra o Amor divino. É a rejeição da tradição e das justificativas dos costumes de opressão das vítimas dos vários esquemas de poder instalados neste mundo decaído.
Podemos identificar, dentro deste processo como um todo, ao menos três grandes eras de libertação do ser humano:
Libertação dos Escravos: Era da emancipação dos servos tratados como posse material de seus proprietários, de modo que possam vender seus serviços conforme desejarem, algo que não diminui a escravidão da Maldição, mas retira ou atenua uma escravidão adicional do Poder humano;
Libertação das Mulheres: Era de emancipação das mulheres, principalmente de seus papéis de esposas e mães, de modo que possam escolher o seu destino com maior autonomia, inclusive o dos papéis familiares se desejarem, mas sem que sejam forçadas a nada e sem que sejam diminuídas caso escolham viver alheias ao que é tradicionalmente esperado delas (vivemos no começo desta era);
Libertação dos Filhos: Era de emancipação dos filhos pelo reconhecimento do direitos dos não concebidos de serem poupados do nascimento em condições amaldiçoadas, e de serem criados por uma autoridade legítima em circunstâncias adequadas ao que merecem.
É claro que o Ouroboros, a Antiga Serpente do Mundo, não deseja perder seu poder, e pretende lutar contra o processo de libertação do ser humano, especialmente contra a última era, a da liberação da descendência.
Isso pode ser feito com desculpas humanitárias, em nome da defesa da espécie humana, ou algo assim, com a proposta de uma solução estatal, como por exemplo a criação de seres humanos por um sistema que colete o DNA da população com essa finalidade de engenharia genética e social, como sugerido por Huxley em Admirável Mundo Novo. Mas este já é outro assunto para outro dia.
Já falei tudo o que precisava ser dito para esclarecer a questão do Antinatalismo na última edição de meu último livro (A Coruscância, 3ª Edição, que terminou com um capítulo chamado “Contra o Antinatalismo”), mas convém distribuir uma breve visão cristã do assunto também por outros meios.
Em suma o Antinatalismo é a crença de que a procriação humana é moralmente condenável. A partir dessa base comum, várias linhas de pensamento se desenvolveram. Para termos uma visão cristã do Antinatalismo, convém primeiro explorar essas várias linhas de pensamento, representadas pelo esquema abaixo:
Natalismo: A crença de que os seres humanos têm o direito natural de se reproduzir;
Antinatalismo Utilitarista Marginal: A crença de que os seres humanos não têm o direito de se reproduzir porque a ausência de um benefício é melhor do que a presença de um malefício (argumento de Benatar), de modo que nenhuma existência é melhor do que uma existência que contenha malefícios. Esta linha de pensamento também explora malefícios para além da experiência humana imediata, como o colapso do funcionamento da sociedade, a mudança climática supostamente provocada pelo homem, o vegetarianismo, o ambientalismo, e o protesto geral contra guerras, pandemias e a fome;
Antinatalismo Moral Absolutista: A crença de que os seres humanos não têm o direito de se reproduzir porque esta ação nunca é moralmente justificável sob nenhum ponto de vista, representando sempre apenas o interesse próprio dos procriadores. É a visão de que todo nascimento é um ato de violência, um fait accompli, uma decisão feita à total revelia do interesse da pessoa não concebida. Também afirma a total desproporcionalidade dos poderes de, por um lado, gerar uma vida cheia de necessidades e, por outro lado, não conseguir garantir de nenhuma forma a satisfação dessas necessidades. Por fim, esta visão consegue identificar na procriação humana a origem de todos os males, aproximando-se da visão espiritual do Pecado Original;
Antinatalismo Evolucionário: A crença de que os seres humanos não devem se reproduzir conforme alcancem o ponto da sua evolução natural onde o grau da sua senciência lhes esclarece o dever da abstenção. O Antinatalismo seria, assim, uma realidade inevitável da evolução da senciência em qualquer cenário possível. Esta hipótese resolve o Paradoxo de Fermi, explicando que outras civilizações alienígenas não são observáveis porque elas não subsistiram, já que a partir do momento em que fosse viável o progresso material que permitiria o transporte ou a comunicação interestelar, ao mesmo tempo seria viável também o progresso moral que indicaria a conveniência da abstenção da procriação. Os aliens não aparecem porque eles estão todos mortos. Esta é a mesma linha de pensamento que indica que qualquer civilização senciente evolui para um terceiro estágio (depois dos dois primeiros de sobrevivência e sustentabilidade) que é o da escolha pela extinção voluntária;
Antinatalismo Transcendental: A crença de que os seres humanos não devem procriar porque isso vai contra o desígnio divino do Criador de todas as coisas. A procriação humana é uma usurpação do direito divino de criar. É o Pecado Original no mito de Adão e Eva, o próprio Pacto Ouroboros. Esta linha de crença afirma que o ser humano carrega o fardo da Antropodicéia, a justificação da humanidade por si mesma (argumento de Cabrera), a qual jamais consegue dar conta senão por um ato de arbitrariedade sem base. Este Antinatalismo pode ser considerado o mais infalível se partir da hipótese do Omniverso, ou seja, de que Deus poderia criar todas as almas humanas dispensadas de nascer neste mundo em particular, o que elimina quaisquer resquícios não egoístas da crença Natalista (este argumento, na verdade, é invencível, partindo da inquestionável bondade divina como premissa, junto com a onipotência);
Antinatalismo Final: A crença que eu mesmo desenvolvi com as noções de Monadofilia e Coruscância, entendendo que a nossa função espiritual é a da crença no Amor, de que nenhuma mônada deve possuir poder arbitrário sobre outra, e de que os Calaquendi experimentarão a solução da ânsia da vida no momento da sua realização eterna, pelos meios da Providência divina entre os quais está a produção dos Periannath, esposos e esposas legítimos, assim como filhos e filhas também legítimos, gerados em total comunhão com a pureza do Amor divino. Esta era a crença que eu tinha até antes da conclusão de que a liberdade humana deve ser preservada custe o que custar, dentro da confiança no plano divino. Alguns seres humanos simplesmente devem passar por certas experiência de vida para aceitar melhor o Amor divino no fim.
Entendendo todas essas linhas de argumentação em favor do Antinatalismo, a visão cristã do tema deve concluir pela condenação dessa idéia, por ser uma crença que tem razões, mas não tem razão: acerta na condenação da pretensão humana, mas erra na condenação da liberdade humana de agir pretensiosamente. Há uma razão espiritual para que neste mundo em particular as pessoas tenham esse poder de procriar como forma de realizar plenamente a sua liberdade, uma necessidade para a consecução do plano divino de salvação. Para maiores detalhes, recomendo a leitura do capítulo no qual trato deste assunto em particular.
No pleno espírito de Ingenuidade algumas pessoas podem crer que vivem num mundo razoável, dentro de uma normalidade esperada, de modo que a qualquer momento uma breve mas violenta ruptura nesse véu de mentiras pode fazer toda a visão de mundo dessas pessoas ruir subitamente, num grande choque.
Mas o pior é quando você não apenas não sabe onde está, mas decide enfiar mais pessoas inocentes neste mundo, ampliando o erro da Ingenuidade para o da Pretensão.
Com o intuito de tentar remediar ao menos em parte essa desesperadora linha de desastres, devemos fazer algumas observações aos desavisados a respeito do período do ano ao qual estamos nos aproximando, que no calendário popular do ocidente moderno se chama “Halloween”:
Há seres humanos seriamente empenhados em práticas de magia, bruxaria, esoterismos e ocultismos que são orientados por um calendário astrológico que os indica os momentos corretos para realizar os seus rituais;
Desde o primórdios dos tempos muitos desses rituais envolvem o sacrifício de sangue às diversas entidades espirituais que são invocadas e adoradas nesses rituais;
Faz parte da preferência das entidades servidas nessas práticas ritualísticas o sacrifício de sangue de seres que possuam maior inocência, o que leva os praticantes desses rituais a buscar vítimas apropriadas para agradar a estas entidades, como animais, seres humanos em geral, mas especialmente crianças;
Logo antes do início do período indicado pelo calendário astrológico que seja adequado aos rituais de sacrifício de sangue, os responsáveis pela preparação dos mesmos devem providenciar todas as coisas necessárias, inclusive as vítimas de sacrifício;
Isto quer dizer que todo o tempo imediatamente anterior ao Halloween é propício a um aumento na incidência de raptos de crianças para essas finalidades ritualísticas.
Desaparecimentos e sequestros são relatados durante todo o ano, mas esta época que antecede o Halloween tende a apresentar um aumento no risco desse tipo de situação.
O que quer dizer que quaisquer pais e mães desavisados, ingênuos e pretensiosos, que já colocaram vidas inocentes num mundo decaído e amaldiçoado, podem pelo menos tomar o cuidado para que o pior não aconteça.
As tarefas são simples: redobrar a atenção, evitar deixar filhos aos cuidados de estranhos mesmo que por breves momentos, evitar frequentar qualquer local em que haja aglomeração de pessoas, e se possível preferir uma programação mais caseira pelo menos até a passagem dessa época do ano. Já que colocaram essas crianças aqui, cumpram o seu dever de guardiões e protejam-nas custe o que custar.
Vamos partir da premissa elementar de que todas as lideranças religiosas servem ao diabo, no papel de Bispo no Sistema da Besta, para legitimar a usurpação contra o governo divino e no incentivo da perpetuação do Pacto Ouroboros.
Segunda premissa da nossa análise: tatu não sobe em toco. Se o tatu está em cima do toco, alguém colocou ele lá. Quer dizer: Deus, o Criador de todas as coisas, não produziu essa situação hedionda que se vê. Foram os seres humanos que se colocaram nisso.
Terceira premissa: como a natureza profunda de todos os problemas humanos é a vida espiritual, e esta é um fenômeno individual, a única solução verdadeira é individual, a saber, a renúncia voluntária a todo tipo de poder não ditado por deveres de estado circunstanciais. Não existem soluções coletivas, políticas, para problemas fundados na traição individual de cada ser humano. Vivemos no meio da manifestação do encontro de cadeias complexas de ação e consequência, mas no fim das contas só temos a mesma realidade fundamental que deve ser vivida individualmente, com consciência e responsabilidade individual.
Dito isso, quando vemos a questão da guerra atual na região da Palestina entre Israel e o Hamas, podemos nos questionar sobre qual é o dever moral dos líderes cristãos nessa questão, ou seja, qual seria a indicação da solução do problema do ponto de vista dos seguidores de Jesus Cristo.
Tenham em mente, levando em conta a nossa premissa inicial, que não estamos falando dos office-boys do inferno, como o Papa ou os Bispos da religião católica, os Patriarcas Ortodoxos, ou dos ditos pastores e guias do rebanho evangélico. Quem é cristão confia e segue a Jesus Cristo, que mandou não chamar a ninguém de mestre, nem de pai, e nem de guia.
Se existisse uma liderança assim, o que ela diria a respeito desta situação toda que estamos vivendo hoje no Oriente Médio?
Que um judeu, como qualquer outro ser humano que tenha qualquer outra religião, pode participar de uma nacionalidade qualquer como, por exemplo, os cristãos e os muçulmanos fazem, preservando a sua cultura religiosa dentro dessa coexistência pacífica;
Que a opção Sionista, como solução de sobrevivência, se baseia na instrução de rabinos messiânicos que alarmam seus seguidores com os perigos da assimilação, o que obviamente incentiva a discórdia, o anti-semitismo e a perseguição nos países de origem;
Que a mesma opção, ao justificar a fundação do Estado de Israel, propõe resolver um problema que ela mesma criou gerando um outro pior ainda, porque a Palestina já existia como realidade política dentro da qual poderia haver coexistência pacífica entre todos os credos, ordem essa rompida com a solução Sionista;
Que a opção Sionista, representando uma segregação com base na presunção da eleição divina, vai gerar os resultados negativos que devem ser aceitos como consequência inevitável da discordância com o ponto de vista dos outros povos do mundo, em especial do povo Palestino e dos Árabes em geral;
Que individualmente cada judeu é convidado a aceitação de Jesus Cristo como o verdadeiro messias, o que significa a liberação imediata desse condicionamento religioso e político que leva à guerra, convite este que por sinal é estendido aos muçulmanos que podem individualmente receber a mensagem da libertação de toda escravidão, e deixar para trás as obsessões de suas próprias lideranças religiosas e políticas;
Que cada judeu, assim como cada muçulmano e cada cristão, pode verificar a maior conveniência da renúncia ao Pacto Ouroboros, impedindo a continuidade do sacrifício humano (o maldito cálculo das “perdas” na guerra) pela renúncia à geração tanto das vítimas quanto dos algozes da guerra.
É óbvio que se existir uma liderança cristã que aponte para esses tópicos, sua mensagem estará inevitavelmente soterrada pela violência da autojustificação religiosa e política que só quer a falsa justiça da continuidade do ódio, da vingança, do assassinato e da destruição.
De qualquer modo, é um dever moral fazer estes apontamentos, mesmo que seja para o desprezo de toda uma humanidade empenhada em seus próprios planos. Ser ignorado é uma prerrogativa a quem quer que queira imitar o amor à verdade dos Profetas, para não falar do próprio Jesus Cristo.
Nada é mais característico da rebelião contra o Amor divino do que o fatalismo derrotista que tenta compensar a sua impotência espiritual com atos de efeito moral numa dimensão inferior, com o objetivo de escandalizar e aterrorizar.
A antiga Serpente do Mundo sabe muito bem que nada pode contra a supremacia divina. Resta-lhe, assim, contar com a fraqueza humana que abre uma brecha através da anuência espiritual da rejeição do Amor. Todo ataque espiritual contra os seres humanos tem sempre o mesmo objetivo final, infalivelmente: abalar a confiança no Amor divino, isto é, a Fé. Sem essa confiança, o ser humano está espiritualmente desarmado, vulnerável e perdido, errante num cosmos hostil e caótico.
Devemos dar um panorama estratégico ao nosso semelhante, compartilhando um pouco do que é a perspectiva do outro lado da frente de batalha, para que se tenha uma idéia do grau de desespero do inimigo. Sobretudo não podemos perder de vista que a agressividade do Mal deriva de sua profunda angústia, e de seu grande e elementar medo de Deus.
O próprio tempo simboliza a inevitabilidade da execução da sentença divina. Por isso podemos dizer, com firmeza, que o tempo é nosso aliado, isto é, se somos buscadores de Deus e amantes de seu Amor. O tempo sempre nos ajuda. Sua passagem garante a contínua consecução de um plano providencial, e a chegada de grandes e importantes determinações nas vidas de todos nós.
O tempo revela que o Amor é sempre vitorioso, mesmo neste mundo decaído, seja como consequência do progresso humano ou da falta deste.
Quando há progresso, fica evidente o abuso contra a crescente liberdade humana permitida pelas conquistas materiais da civilização, o que tende a pressionar na direção da emancipação dos escravos, então das mulheres, e finalmente dos filhos. É o protesto do Amor contra o Poder.
Quando não há progresso por qualquer razão, fica evidente a absurdidade de uma existência amaldiçoada, o que levará a uma negação a esse estado de coisas, sob quaisquer formas, seja pelo processo direto de liberação da descendência, ou indiretamente pela autodestruição, ou pela perseguição da emancipação através de alguma revolução, o que leva de volta ao progresso. É o protesto do Amor contra a Maldição.
De qualquer modo, é o Amor quem dá o Norte a todos os seres, mesmo quando estes estão pervertidos por alguma mentira profunda, como ocorreu com este mundo em particular, submetido à malícia do Pacto Ouroboros. Reparem que o ser humano não teria nenhuma energia para perseguir qualquer alvo, se este ao menos não se assemelhasse ao ideal do Amor verdadeiro, que é o que o leva à busca da liberdade revolucionária, ainda que esta seja desviada para a realidade exterior do homem, o que é evidentemente um erro. O alvo pontual é errado, mas o alvo espiritual é mais ou menos sempre o análogo mais próximo do plano divino. É assim que o diabo e seus auxiliares servem inescapavelmente ao plano do Criador de todas as coisas, levando mesmo o ser humano decaído e corrompido a um final onde o Amor será revelado como a verdadeira meta espiritual. Nosso Deus, que é o único, o verdadeiro, governa sobre todas as coisas com absoluta supremacia. Esquecer isso é descumprir o mandamento do Amor a Deus.
Muitos “cristãos” são confundidos por essa quadrilha de traidores que são os chefes religiosos, levados a crer exatamente no contrário: que o mundo fatalmente jaz no maligno como se algo de errado tivesse acontecido e nós estivéssemos rendidos, entregues ao poder do Inimigo. Nenhuma visão poderia ser mais falsa. Isso é Gnosticismo, a crença no demônio como demiurgo que nos prendeu numa realidade distante da verdadeira divindade. Ora, para o ser humano isso poderia ser verdade, desde o seu miserável ponto de vista. Mas para Deus toda essa configuração é irrelevante, e não há quem possa limitar o seu gesto de salvação no mínimo que seja. Quem pode nos afastar do Amor do nosso Pai? Ninguém a não ser nós mesmos, aprendizes da desconfiança luciferina, da dúvida infernal, da malícia das trevas. Tudo isso é uma questão de escolha.
Entendam, irmãos: até com as mais avançadas técnicas e planejamentos, com o engano mais elaborado e sutil, em tudo isso os Avari e os Moriquendi apenas servem ao nosso Senhor. E quanto mais acham que vencem e crescem em poder, mais se submetem a uma Providência poderosa que os submete.
Toda essa rebelião é passageira e, no devido tempo, observaremos como não passou de um aborrecimento para a história de nossas almas destinadas à imortalidade. O Altíssimo mesmo prometeu que tudo isso será em breve esquecido. Não se deixem intimidar por nada.
O mundo da usurpação felizmente está perdido e tem seus dias contados. Negue o mundo em seu coração e deixe-o para trás, e assim estará deixando toda a Perdição também para trás.
Questão: Essa visão parecerá impraticável e idealista demais aos olhos mundanos, não é?
Isso sempre foi assim e sempre vai ser assim até o fim do mundo. Nossa entrega espiritual ao Amor divino é insuportável aos que já pactuaram com o espírito do mundo. Deixe que os presunçosos se julguem sábios na sua maturidade fingida. Já desprezaram faz tempo toda a dignidade de suas próprias almas, toda Consciência, toda Responsabilidade. Falando francamente, são quase animais, e se identificam profundamente com essa animalidade, embora se julguem detentores de grandes direitos “humanos”, todos esses fundados no pó, é claro, ao qual não vão escapar se não encontrarem logo a santidade da desistência. É curioso que os humanistas são os que mais desprezam a verdadeira dignidade humana, que é o privilégio sagrado da eleição do Amor divino.
Questão: Sobre a questão do progresso, a luta do Conservadorismo contra a Revolução Permanente não conseguiria sair, portanto, dessa dialética?
Claro que não. É uma questão básica de princípios. O que há para ser conservado, se este mundo humano foi fundado numa mentira, no roubo, na traição, na usurpação? É isto o que queremos conservar? O legado de rebelião dos nossos pais contra o Amor divino? Não faz o menor sentido, espiritualmente. Mas faz sentido do ponto de vista do poder, já que a Conservação é necessária como defesa contra o absurdo da Revolução Exterior. É daí que a reação parece ser verdadeira, porque luta contra uma grande ameaça de desordem. Esse esquema é infalível. Poucos seres humanos conseguem superar essa dialética. O escândalo e o terror servem para isso: para consolidar mais profundamente o Grande Pacto Primordial. Toda energia responsiva que poderia ser legítima é desviada e canalizada para essas revoluções inúteis, a impotente tentativa de reforma do homem decaído.
O problema do progresso material, do ponto de vista do adversário, é que ele trará inevitavelmente maior progresso moral na forma da descoberta e do desenvolvimento da individuação humana. É um fato que no começo isso é lento, para poucas almas de cada vez. Mas aos poucos a liberdade contagia e se impregna. E em tempo o inimigo teria diante de si, mesmo que por meios não-teístas, um Antinatalismo naturalista e evolucionista, que apesar de não ser espiritualmente esclarecido poderia ser o suficiente para explicar, por exemplo, o Paradoxo de Fermi, e encaminhar a humanidade nesta direção como uma conclusão espontânea e impecável da sua racionalidade, em resposta à questão da Antropodisséia.
Questão: Isto parece estar tão distante do mundo em que vivemos. Será possível que as coisas chegassem a esse ponto?
Sim, basta refletir com alguma frieza e distanciamento. Ajuda nisso a lembrança da grandeza da Criação, no sentido do Omniverso. Vivemos oprimidos pela mesquinharia deste mundo, e dessa gente que acha que o seu destino mundano é uma grande coisa. Nossos líderes são cegos e mentirosos. Todos eles! Quem é que se levanta para dar o testemunho da pureza do Amor do Eterno? Quem é que revela que o Amor Dele nos basta? Esse testemunho é muito raro, e praticamente inexistente entre aqueles que devem satisfações ao respeito humano, esses escravos cujo deus é o ventre.
Esqueça tudo isso. Verifique a realidade em que vivemos. Onde o progresso já foi suficiente, a mulher já está emancipada. Um ser humano já tem o direito de escolher a mendicância no lugar da participação no Sistema da Besta. Sua escravidão não é nem justificada, e nem recomendada. E a mulher já pode viver uma vida inteira livre dos papéis de esposa e mãe, se quiser, sem que isso lhe seja imputado como crime. Ainda que haja ainda uma cultura de rejeição a essa liberdade, aos poucos as novas gerações abandonam os grilhões dos seus pais, precisamente porque a liberdade custa cada vez menos, materialmente falando. O próximo passo, já antevisto por uma cultura antinatalista embrionária, é a libertação dos filhos.
Isso é algo que os Avari não podem permitir, é claro. Mas a tentação de ter gerações de pessoas submetidas ao seu Sistema, já que isso é uma condição dessa emancipação através do progresso material, é grande demais e irresistível. Nenhum demônio pode abrir mão desse grau de controle, ainda que isso signifique a abertura de um espaço para a liberdade humana. Confiam na sua capacidade de condicionar essa humanidade emancipada numa forma mais sofisticada de escravidão. E não deixa de ser verdade que têm sucesso nisso. A questão é que cada cristão verdadeiro pode tirar proveito dessas condições de progresso material e moral para avançar no seu relacionamento com Deus às expensas desse plano demoníaco.
Questão: Mas isso não chegaria a um ponto em que já não seria possível viver a liberdade verdadeira dentro do Sistema?
Os cristãos espirituais jamais terão problemas com esse tipo de coisa. Porque Deus garante o sucesso da nossa busca espiritual, quando o seu Amor é o alvo. Isso é infalível, mais certo que qualquer conta aritmética ou proposição geométrica. No coração do fiel, ele sabe que é assim.
Se você precisar de uma afirmação disso, reflita sobre como o fim da liberdade já representa uma maior definição espiritual, justamente o tempo da Marca da Besta, quando o Inimigo vai ter que se expor à luz do dia. Não é uma grande ironia? O momento de maior triunfo para o mal será também o momento da sua maior vulnerabilidade. Porque sua subsistência era permitida enquanto ele servia justamente a um desígnio superior. Conforme consolidar-se a armadilha contra toda a liberdade humana, é verdade que os que ainda estiverem neste mundo serão perseguidos, exilados ou exterminados, mas isso só lhes deixará clara a opção espiritual de todas as partes envolvidas.
Entendam: quando o inimigo age nas sombras, ele age ambiguamente, e desse modo está a serviço do Criador que pode converter os meios diabólicos em instrumentos da sua Providência em favor dos seus amantes. Quando finalmente os Avari agirem às claras, não servirão mais da mesma forma, mas porque sua ambiguidade desaparecerá eles servirão no sentido da clareza do testemunho da escolha pela confiança no Amor divino, já que a rejeição do Sistema representará, ipso facto, a rejeição do mal.
Em suma, quem tem que se preocupar com a passagem e com os sinais dos tempos é o outro lado que quer disputar poder com Deus, ou aqueles que servem a esse mal, ou ainda os que preferem a ignorância e a ingenuidade. Deixe que estes se apavorem, porque de fato eles têm motivo.
Questão: Mudando o assunto, o que se pode dizer da idéia de que os poderes infernais querem reclamar a alma humana como sua propriedade, através dos pecados e da revolta contra a autoridade divina?
Não existe Direito onde não há Justiça, e não há Justiça onde não há Misericórdia. O inimigo não age a serviço porque quer, mas porque não tem escolha. O diabo não é um servidor da Justiça. Ele é um mentiroso, ladrão e assassino. Suas reclamações podem ser desprezadas. A Serpente não tem direito a nada. O Acusador foi acusado por Jesus, o véu foi rasgado e a verdade foi revelada, a quem tiver desejado o discernimento.
O pecado humano é a recusa do Amor. Quem recusa o Amor recusa a Misericórdia, e quem recusa a Misericórdia recusa a Justiça. Estes que fazem isso estão nas mãos do diabo não porque este tenha direito a alguma coisa, mas porque são espiritualmente alinhados, porque combinam bem uns com os outros.
Por isso digo que não há maior colaboração com o mal do que a acusação do semelhante através do serviço religioso. Os acusadores são funcionários do inferno. E a religião é uma proposta gnóstica, inescapavelmente, atribuindo poder ao diabo e a salvação ao conhecimento de Deus, como se a santidade fosse um mérito humano.
Isso tudo é assim para que a Obra de Deus seja reconhecida como a mais perfeita possível, mostrando a salvação somente a quem tem a humildade de crer na pureza do seu Amor.
Questão: Quer dizer, esta reclamação dos Avari funciona no máximo como analogia?
Nem como analogia funciona direito.
Se eu minto para você dizendo que uma pessoa deseja o seu mal, e você acredita em mim sem verificar a verdade do que eu disse, e então você colhe como resultado uma grande desgraça porque abriu mão do maior benefício que poderia ter obtido na vida através da relação com aquela pessoa de quem desconfiou e se afastou, eu estou “reclamando” a sua alma?
Não estou reclamando nada. Sou um mentiroso cujo mérito foi espalhar a minha mentira enganando outras pessoas. Diante do benfeitor, que é a única perspectiva que interessa, não estou fazendo nenhuma justiça. No máximo estou colaborando para que uma decisão livre seja tomada por uma pessoa que precisa decidir-se realmente sobre a questão da confiança no benfeitor. Mas não sirvo por amor à justiça, e sim por ódio ao bem.
O diabo não tem o direito de reclamar nada. Ele é escravizado pela sua própria malícia, se você pensar bem, porque através dela é forçado a servir à Justiça que ele mesmo odeia. Serve por mal, contra a sua vontade, e tentando enganar até o fim, inclusive com esse papo de que tem direitos.
Questão: Como é possível que os Avari enganem os cristãos com essa visão?
Eles não enganam os cristãos. Enganam os religiosos, que são os mesmos que vão dar as boas vindas ao Anticristo.
Gosto de soltar frases perigosas por aí, com o deleite de fazer uma provocação aliada a um testemunho verdadeiro.
Uma delas é:
“Amo o ser humano no varejo, mas odeio no atacado. Gosto de pessoas, mas detesto gente.”
Outra, mais relacionada com o nosso tema aqui, é a seguinte:
“Meu problema não é que o mundo acabe. É que ele continue, comigo dentro dele.”
Qualquer exilado espiritual que se sinta suficientemente despertencido vai desejar a mesma coisa, principalmente se confiar numa Providência transcendente que lhe garanta a confiança numa existência alheia à presente. O repouso na esperança em Deus deve chegar a tal ponto que toda a nossa vida atual possa ser considerada uma mera experiência passageira, de modo que tudo o que é desagradável se torna mais tolerável (Paixão), e tudo o que é desejável se torna mais resistível (Louvor). Somos como hóspedes temporários neste mundo. E, nesse espírito, não só a hipótese do Fim do Mundo se torna aceitável, como é algo francamente desejável na proporção da força do chamado daquela esperança. Este é um teste do nosso inquilinato espiritual: a possibilidade do fim de todas essas coisas é algo que nos soa como uma ameaça, ou como uma promessa?
Os moradores da Terra se identificam com ela. Não confiam muito em qualquer possibilidade que esteja para além. A aposta numa esperança que supere esta realidade parece ser algo muito arriscado. Ou até mesmo um tipo de loucura. Na idolatria das coisas presentes, não temem desprezar as ausentes. Ignorantes de sua própria dignidade espiritual, e do tamanho da herança que se lhes é oferecida, não imaginam como viveriam em maior liberdade e leveza se simplesmente confiassem num Amor superior que lhes deseja salvar. Preferem fazer todo tipo de acordo, concessão, compromisso, pacto ou tratado para tornar a sua vida aqui e agora o alvo de todos os seus anseios.
Os inquilinos, já acostumados com que a loucura do mundo julgue como louca a sabedoria fundada na pureza mais perfeita do Amor divino, longe de temerem o Fim do Mundo, anseiam por ele. E o mesmo decreto que estabeleceu a morte dos corpos produzidos em desobediência, o que aterroriza os moradores, é uma realidade aceita como verdadeira consolação divina, como um ato de Misericórdia, pelos inquilinos.
Inquilinos estes para quem muito mais próxima do que aquele evento único está a própria extinção de suas carcaças mortais, completando o ato de generosidade do Criador para com os seus amantes o fato de que este mundo sempre acaba para quem nele morre.