Esta quase profética comédia mostra uma visão do futuro com base numa insuspeita consequência da evolução depois das maiores conquistas tecnológicas, econômicas e sociais do Século XX: acostumado a viver sem um predador natural, e com uma vida razoavelmente fácil de se manter, o ser humano médio não precisa ser mais esperto para sobreviver, e o mecanismo da seleção natural passa a premiar os mais burros, ao invés dos mais inteligentes.
Desde a premissa evolucionária, temos que até certo momento da história os indivíduos que mais tinham chance de se reproduzir eram os mais adaptáveis, portanto com maiores chances de ter um intelecto superior. Porém, a partir do momento em que a espécie humana domina o mundo e os indivíduos não precisam mais se adaptar ao ambiente que já está bastante controlado, a equação se inverte: os mais inteligentes se reproduzem menos, e os mais estúpidos se reproduzem mais.
Esta é uma premissa interessante que contestaria a minha idéia de concomitância do progresso moral na evolução natural da senciência, se não fosse a evidência contrária na queda da taxa média de natalidade em níveis globais, ao menos por ora. É claro que períodos mais extensos podem mostrar resultados diferentes, talvez próximos a um cenário como o apresentado no filme, que se passa no Século XXVI. Podemos até mesmo conceber uma noção de Ciclo com base nessa premissa, de modo que o Great Reset talvez não passe de um colapso natural quando a capacidade intelectual média de uma civilização atinge níveis catastróficos que tornam a vida impossível.
O filme não precisa especular seriamente sobre nada, por se tratar justamente de uma comédia.
A melhor parte, logo no início, mostra a diferença de mentalidade entre Trevor e Clevon, o primeiro, mais inteligente, relutante em multiplicar a sua genética, e o segundo, mais burro, incapaz de qualquer ato de continência, multiplicando grandemente a sua genética.
O que é mais perigoso é a tendência eugenista desse tipo de narrativa, a sugestão de uma tentação no sentido de controlar o processo ao se mostrar, mesmo que comicamente, as sinistras perspectivas do futuro da humanidade.
No que tem de mais favorável, e que chega a contar um ponto positivo como testemunho da Vigilância, é a observação das características dessa sociedade tola, formada por pessoas estúpidas: o grande papel da tecnologia que torna o seu usuário cada vez menos qualificado individualmente, a grande obsessão com sexo e dinheiro que permeia toda a cultura, o desprezo contra qualquer noção de valor intelectual ou cultural (“isso é coisa de veado”), e a transformação de tudo em marketing e comércio, onde até os nomes de pessoas famosas são acrescidos de marcas de produtos.
O patético protagonista, de inteligência média, que por acidente foi parar cinco Séculos adiante depois que foi esquecido num programa de teste de criogenia, acaba por salvar essa humanidade futura com o simples expediente de substituir a irrigação das lavouras com Gatorade por água.
É claro que com o advento da Inteligência Artificial, e com a preocupação constante da Elite de permanecer no controle de todas as coisas, o cenário final da humanidade apresentado em Idiocracia dificilmente se concretizaria.
Mas o filme não deixa de ter uma função no diagnóstico da atual condição humana, e talvez um uso dentro de uma certa estratégia de programação preditiva que quer justificar antecipadamente as medidas eugênicas a serem implantadas (ou já em andamento?) para submeter a humanidade a um controle artificial.
E isso não é nenhuma novidade. A burrice da humanidade, inaugurada com a traição de Adão e Eva contra seu Criador, sempre foi uma suficiente justificativa legal para a legitimação da escravidão da mesma.
Antes mesmo de entrar no tema do diálogo, Sócrates, perguntado a respeito de sua opinião sobre o questionamento da validade de certos mitos, já nos dá um excelente testemunho de Humildade, realmente de grande valor:
Ele diz que as mitologias são “coisas sem relevância”, em comparação com o autoconhecimento, e que não faz sentido se dar ao trabalho de investigar esses temas diante da muito mais urgente tarefa de saber quem se é. Esse testemunho não só constitui elogio da Humildade, mas é uma certa disciplina monadológica, e um certo testemunho indireto também do dom da Presença, desde que tudo o que experimentamos parte do sujeito da experiência, esse Eu com que lidamos desde que nascemos e que, não obstante, permanece misterioso, de modo que partimos para a investigação das coisas do mundo –para não falar de planos de conquistas e domínios– sem nem ao menos realmente compreender a nossa própria natureza, dando-a por subentendida como se não fosse misteriosa. Ora, de certo modo Sócrates está na pista da Mônada, porque a conclusão da busca do autoconhecimento é a descoberta da singularidade indeterminada da Substância Simples, e mais ainda, a descoberta também da imagem e semelhança de Deus. Por outro lado, a dispersão pelos elementos do mundo, e especialmente o foco nos caracteres simbólicos que simulam o conhecimento (produzem a imagem da verdade), costuma levar para a Idolatria.
Eventualmente começa a discussão do tema do diálogo, a partir da leitura de um esboço do discurso de Lísias que o interlocutor de Sócrates, Fedro, vai fazer.
Em resumo, o discurso de Lísias elogiava o amor da amizade, philia, sobre o amor da paixão, eros, afirmando que os amigos fazem maior bem a si mesmos e aos outros do que os apaixonados, por diversas razões, mas principalmente por fidelidade aos seus reais interesses, e pela perenidade da amizade em face da leviandade da paixão, de tal modo que alguém interessado em escolher um amante deveria priorizar o não-apaixonado, movido tanto pelo desejo erótico quanto pela amizade, do que o apaixonado que se move apenas pelo desejo erótico.
Dando continuidade ao raciocínio de Lísias expresso por Fedro, Sócrates evidencia como a paixão tende a resultar em desejo de controle e poder, ao contrário da amizade que busca o melhor do outro. Vejamos a passagem que ilustra isto com clareza:
Isso se qualifica como um testemunho atenuado do Discernimento, contrário aos racionalismos psíquicos que apenas tendem a reforçar a busca do poder. Reconhecer o interesse do outro contra o nosso próprio só pode ser fruto de um dom espiritual de Discernimento.
Continuando a exibição da inferioridade da paixão, é afirmado que para além do intelecto, o amante apaixonado também prejudica o desenvolvimento do seu alvo, nas suas relações familiares, de amizade, etc., por causa de sua obsessão possessiva. Porém, passada a febre da paixão, todas as promessas serão quebradas pelo novo desinteresse, e aquele que poderia se achar amado se verá na verdade traído e abandonado por um mentiroso. A paixão leva à essa mentira, porque é um desejo de poder, e a busca do poder é um empreendimento como que o da conquista militar, isto é, requer a astúcia, o engano, a arte da guerra. Esta citação da fala de Sócrates resume tudo: “tal como o lobo acolhe com amizade o cordeiro, assim age como amigo o amante com seu amado“.
Pude experimentar todas as variáveis dessa exposição na minha própria vida, como costuma ser o privilégio de quem já tem alguma experiência: já desejei, apaixonado, e prometi o que não devia, me tornando depois um tanto traidor; já desejei e me censurei na minha ambição, praticando o autocontrole e me distanciando do objeto de desejo por ter mais medo de fazer o mal do que de fruir um prazer; e já desejei com a liberdade do amigo que considera o bem do amado tão valioso quanto o meu, sendo essa, sempre, a mais abençoada de todas as relações. Até mesmo os velhos casais que ainda se amam afirmarão isso todas as vezes: que a sua amizade é mil vezes superior à sua paixão no que determinou o sucesso da sua relação, embora a paixão às vezes cumpra o papel das aproximações e da vitória sobre a timidez, etc., o que pode ser muito importante ou até decisivo no início de um relacionamento. Assim, o desejo erótico, regulado pelo autodomínio que impede a cegueira da paixão, pode produzir bons resultados, como estímulo para a aproximação e geração de intimidade, embora isso requer que pelo menos uma das partes, geralmente a mais experiente, tenha mais apreço pela amizade do que pela satisfação sexual. Infelizmente essa arte parece perdida num mundo soterrado pela cultura da gratificação instantânea, do prazer superficial, etc. Sobram quase que apenas dois horrores: a escravidão das obrigações dos contratos de casamento, e a escravidão do impulso pelo desejo sexual que vê no outro apenas um objeto de prazer. Os maiores prazeres, possíveis apenas através do autodomínio e do amor verdadeiro, já são a exceção nesse mundo de escravos. Mas a minha digressão já foi muito longe.
Voltando ao Fedro, Sócrates, como de costume, depois de nos dar um discurso que parece suficiente e final, resolve nos desmoralizar defendendo o oposto de tudo o que afirmou. Apela para a mitologia de Eros, afirmando que o deus não poderia ser maligno, e até para o elogio da loucura como fonte divinatória de certa sabedoria. Mas não é tão difícil quanto possa parecer fazer o ajuste disto ao que se observava antes, bastando que se entenda o valor positivo da paixão no contexto de um bem maior que será possibilitado pela mesma, nos termos em que eu mesmo já disse. O ser humano muito centrado na sua racionalidade, totalmente baseado no autocontrole, pode tender a uma apatia que impede o desenvolvimento de realidades desejadas pela providência divina. E um modo apropriado pelo qual Deus pode quebrar a frieza, a timidez, ou simplesmente o medo, é através de um desejo incontrolável, desde que este seja tão logo quanto possível temperado por virtudes superiores, assim que isso se tornar mais conveniente, ou seja, assim que a resistência inicial ao desenvolvimento tenha sido vencida. Do contrário estamos presos na petrificação exemplificada na censura apocalíptica contra a Igreja de Éfeso.
Em seguida, para dar razão a sua idéia numa perspectiva mais aprofundada, Sócrates anunciará a imortalidade da alma, no que para mim parece ser mais uma doutrina platônica do que socrática. Essa idéia não deixa de ter seus méritos laterais, embora nos leve a certos enganos gnósticos. De fato, a origem do movimento deve ser a permanência, e a origem do que foi gerado deve ser aquilo que não foi gerado e que, portanto, também não possa ser destruído, porque sempre foi o que é. Então deve haver algo de imortal para que outras coisas não o sejam, e algo de não gerado e automovente, para que haja o que é gerado e movido. Esta, é claro, é a Unidade, a forma do ser, que chamamos de Mônada ou Substância Simples, e que dá origem ao Múltiplo. O problema é que a própria multiplicação dessas unidades implicam na sua relatividade ao Princípio Absoluto, ou seja, à Unidade perfeita, fora que o não início de uma pré-existência não pode ser atribuído à individualidade humana senão por crença. Aqui é onde Platão provavelmente interfere na doutrina de Sócrates, atribuindo veracidade a certas crenças gnósticas, inclusive e principalmente de participação na divindade.
Logo Platão se referirá a uma alma presa a um corpo numa forma animal, e às respectivas viagens de ascensão e decadência, conforme o Intelecto busca a verdade das coisas, que é a origem remota da alma, ou conforme busque a aparência das mesmas (opinião), distanciando-se dessa origem. De qualquer modo o empreendimento é árduo. Nenhuma alma volta ao ponto de origem, isto é, obtém a ciência das coisas reais e se liberta das ilusões da opinião, sem antes passar por dez mil anos de experiências em diversas reencarnações, com a exceção dos filósofos sinceros. Fica um tanto difícil unir essa concepção com a cristã, exceto por analogia com as diferenças entre a Primeira e a Segunda Ressurreição, onde talvez encontremos uma aplicação mais aproximada, sendo nesse particular o filósofo aquele que busca a verdade por trás da mentira, e que dá o testemunho dessa busca. É afirmado que todo aquele que é encarnado como ser humano já viu alguma vez a verdade, porque só isso explicaria a sua capacidade de reconhecimento das idéias (ou formas) por trás dos fenômenos. Platão justifica, assim, a sua ontologia pela sua epistemologia, não encontrando outra solução para o milagre da inteligência humana. Quem utiliza adequadamente as memórias dessa experiência divina são aqueles “iniciados nos perfeitos mistérios“, que obviamente serão desprezados e censurados pelas pessoas ordinárias, que não fazem o mesmo uso de sua potência intelectual. Podemos ouvir Jesus nos dizendo que sua escolha “nos separou do mundo, e por isso o mundo nos odeia”, mas é somente uma adaptação.
Retomando a explicação da justificação da loucura da paixão, Platão conecta essa idéia com a noção de que aqueles que contemplam uma beleza que lhes lembra o que é divino tendem a ser dominados por essa contemplação, e é por isso que com justiça ficam obcecados, isto é, perdem aquilo que achamos que é a sanidade apenas porque normalmente não temos a mesma memória feliz daquilo que é excelente.
A partir daí Platão se dedica mais detidamente ao problema particular do relacionamento do tipo que gerou a discussão, ou seja, como aquele entre Lísias e um jovem a quem este convenceria a ser seu amante através do discurso que Fedro memorizou e agora reproduz para Sócrates. Vai justificar essa paixão particular como muito vantajosa para o filósofo, motivo pelo qual a reclama para si, como se fosse um artista reclamando o seu direito de se inspirar numa musa. Mas tem dificuldades para mostrar porque Sócrates é melhor do que Lísias, na disputa pela atenção de qualquer amante, apenas acusando o sofista de fingir continência e autocontrole, mas sem poder provar realmente isso, senão pela distinção de que um é Filósofo e o outro é Sofista. O ideal do amor platônico deve transcender a queda aos usos mais baixos da paixão, e é assim que se realiza o “παιδεραστήσαντος μετὰ φιλοσοφίας” (“paiderastésantos metà philosophías“, “amante filosófico de rapazes”), que consegue usar a paixão para uma elevação da alma, enquanto os incapazes de tal ascese se vêem presos ao uso baixo da paixão. Eu estaria disposto a indicar que isso é um elogio do Louvor, se tão somente Platão reconhecesse que o mal não está na fruição de um prazer, mas na busca deste através da injustiça, seja contra si próprio ou contra o outro. Como ele não faz isso e, ao contrário, faz questão de afirmar que a satisfação com prazeres é o que ancora a alma na falsidade das aparências, sou obrigado a recusar a dação dessa nota positiva. Podemos até reconhecer que ele não dá o testemunho da Sedução, ou Pacto com a Morte, mas também não anuncia a verdadeira liberdade do dom de Louvor, pois precisa fugir do prazer como se ele fosse mal. Ao mencionar as tais asas que podem crescer ou diminuir, e permitir vôos mais altos ou causar quedas mais bruscas, Platão está literalmente identificando a condição da Mistura com um decaimento espiritual, e recomendando a solução numa certa forma de transhumanismo. E, o que é o pior de tudo, e a marca realmente gnóstica dessa doutrina, a salvação da alma depende de um esforço humano, e não de uma pura Graça divina que pode ser aceita ou rejeitada. Detalhe: como podemos saber que Sócrates, senão o filósofo real ao menos o personagem platônico de Fedro, não mente, para si e para outros, tanto quanto acusa a virtude de Lísias de ser falsa? Tenho que confiar nele, porque se diz Filósofo?
Depois de tudo isso, o diálogo passa a versar sobre a arte do discurso, um tema muito comum para Platão, e da questão sobre se essa arte pode ser usada para a expressão da verdade, ou apenas para a produção da imagem da verdade.
Afirma-se que a arte retórica, usada pelos Sofistas, tende à mentira, ou no mínimo à indiferença com relação ao que é verdade, pois convence-se mais facilmente um juiz, ou audiência, a respeito do que é mais provável, do que a respeito do que é mais verdadeiro. Mais especialmente nós verificamos o dano desse procedimento humano, da arte do convencimento, nos âmbitos públicos da Política e da Justiça, quando justamente a verdade mais conveniente é a mais difícil de ser apreciada, por se tratar, com frequência, de uma excepcionalidade que fere o senso comum no sentido da probabilidade. Assim, é mais fácil convencer uma platéia do mérito da continuidade do Pecado Original do que do seu rompimento, e da conveniência do enriquecimento e do armamento da sociedade, do que do cultivo do espírito, etc. As coisas mais nobres e belas são as mais difíceis de se defender em termos populares, no convencimento através da razoabilidade das probabilidades. O bom, que per se é a regra do Ser, por ser sua forma, no âmbito da experiência da Mistura se torna excepcional. É assim que se despreza, publicamente e coletivamente, os méritos do perdão, da contrição, da humildade, etc., e se exalta os seus opostos, como a vingança, a vaidade, o orgulho, etc.
Em uma passagem muito notável que merece ser relida e meditada, Platão defende a propriedade humana, interior, da Sabedoria, como qualidade viva de um ser vivo, contra a pretensão da produção de uma verdade fora da consciência, especialmente na forma de um discurso escrito. Esta parte do Fedro, sozinha, seria capaz de destruir a idolatria de textos sagrados, como aquela que se pratica no âmbito das religiões bíblicas, etc. Vejamos:
Entenda-se corretamente que a palavra escrita pode ser muito útil, sim, para aquele que a tem originalmente registrada interiormente, isto é, para quem a tem como conteúdo de consciência através da qual a leitura serve como mero instrumento que facilita a memória.
Isso pode parecer estranho desde que aprendemos que através de leitura nos educamos a respeito de coisas novas, mas se o estudo do que quer que seja não reproduz algum conhecimento já possuído anteriormente na alma do estudante, como ele poderá reconhecer a veracidade daquilo que supostamente aprende? No que se difere uma pura ficção, de um aprendizado real, senão essa qualidade da semelhança com o que já é posse da alma do aprendiz?
Por outro lado, a idéia de que a Sabedoria se encontra nos livros, essa grande tolice, faz o ser humano ser escravizado, e com razão, pelos doutores das letras, seja no âmbito político do entendimento das Leis, seja no religioso no âmbito das Escrituras etc.
Entende-se assim, também, como é precioso o autoconhecimento, porque uma alma cuja visão está embaçada pela confusão interior não pode fazer nada além da coleção de imagens exteriores e a repetição do sentido das mesmas, de acordo com o valor de face destas atribuído por terceiros, sem nunca se apropriar realmente do que lhe interessa. Muitas pessoas podem viver assim, e isso é lamentável. O que as move a essa vida de imitação? Provavelmente o medo da responsabilidade por sua vida interior.
Em nossa última citação, e num excelente elogio do dom da Humildade, encontramos Sócrates recomendando o domínio interior da busca da verdade, contra os registros externos, as repetições, as memorizações, etc.:
Mas este indivíduo capaz de responder por si, essa pessoa inteligente e realmente interessada na verdade, por maior que seja, não é ainda um sábio, porque só Deus o pode ser; mas é filósofo, o amante da Sabedoria.
Dramático, sangrento e visceral, como costumam ser os filmes de Mel Gibson, Apocalypto apresenta o caso de sobrevivência do protagonista, Pata de Jaguar, que tem que lutar para resistir aos seus inimigos e para proteger sua esposa e seus filhos (um ainda a nascer).
O sentido espiritual do filme é o de um certo louvor naturalista, dando a entender que a vida era linda e maravilhosa antes de a tribo de Pata de Jaguar ser atacada por seus conquistadores. Isso é mentira. O que havia antes era uma versão atenuada, mais pacífica, da condição humana que é miserável, amaldiçoada.
Gibson trabalha com a idéia de restauração a um certo ideal imanentista tradicionalista, inicialmente representado pela vida da tribo de Pata de Jaguar antes de serem atacados, e depois com a sugestão de um Tradicionalismo mais pujante personificado pela chegada dos europeus.
Não existe, assim, horror na condição humana em si, mas na maldade de alguns seres humanos, como aquela tribo de conquistadores que cultuavam o Sol e faziam sacrifícios de sangue. O bem pode ser buscado no tempo, com a restauração da condição original da tribo de Pata de Jaguar, ou então, e talvez melhor ainda na cabeça de Gibson, com a instauração do Reino de Deus representado pela religião cristã que vem imbuída com a autoridade da Sucessão Apostólica, basicamente trazendo para as Américas a tradição judaica que liga o homem de hoje ao culto originário de Adão e Eva, com o objetivo da restauração do mundo inteiro.
A citação exibida no início do filme, “uma grande civilização não é conquistada desde fora até que tenha se destruído desde dentro“, cunhada por Will Durant a respeito de Roma, transmite exatamente a idéia de um processo histórico em que o bem e o mal lutam no tempo, como se existisse uma civilização boa em si, e não somente uma realidade relativamente melhor do que outra dentro de um contexto particular.
Não é difícil mesmo verificar a vantagem do culto cristão, que abole os sacrifícios pagãos, mesmo que esse benefício custe a crença religiosa de que Jesus tinha que morrer, entre outras idéias anti-evangélicas.
O nosso problema com esta idéia, porém, é o mesmo que vai fazer as pessoas aceitarem o Anticristo: o que parece ser um mal menor, no fim das contas pode constituir o maior de todos os males. Se o diabo quer se colocar no lugar de Deus, é óbvio que na sua Dialética ele terá que terminar como o salvador. O que não se deve esquecer é que essa salvação é falsa. Omite que os males maiores foram produzidos pela mesma fonte de “salvação” (o famoso criar dificuldade para vender facilidade), e principalmente esconde os verdadeiros desígnios dos usurpadores, que são totalmente tirânicos.
Por fim, a obra de Gibson é extremamente apelativa ao sentimentalismo em torno da família e da religiosidade. Foi perdida uma chance de dar o testemunho da Vigilância, com a denúncia dos sacrifícios de sangue que a civilização dos Maias faziam como exemplo de religião como culto de entidades demoníacas. Ao contrário, a condição humana foi exaltada, e a grande operação de conversão do sofrimento e dos sacrifícios em méritos morais foi produzida na tela diante de todos nós.
Denunciando um ramo oriundo da Tradição Primordial do Pacto Ouroboros, Gibson apenas reforça outro ramo, legitimando o Sistema da Besta e normalizando a Mistura.
Os revolucionários são iguais à nobreza, na sua essência humana, divergindo apenas no lado que ocupam na Dialética Histórica.
A função da Revolução é apenas a de mudar o Poder das mãos de um grupo para o outro, produzindo a imagem da mudança, mas apenas com o intuito de não mudar realmente a continuidade da história do Pacto Ouroboros.
Ordem, dissolução, estabilização, e uma nova ordem.
Sal velho, mercúrio, enxofre, e um novo cristal.
Não há nada de novo sob o sol. Napoleão foi apenas um escolhido para liderar parte desse processo histórico, e apenas por um breve período.
Neste sentido o filme Napoleão mostra, em contraste com a grandeza histórica do ponto de vista humanista, a pequenez do fenômeno real, mas isso não é oferecido claramente, é uma oportunidade só para quem a busca.
Por si, no máximo o filme continua a dar a impressão de importância e valor àquilo que não tem.
Neste breve diálogo Sócrates questiona o sofista Hípias a respeito de um discurso que este havia proferido sobre o tema da obra de Homero. Foi afirmado que a Ilíada seria um poema que superava em beleza (no sentido lato do kálos grego) a Odisseia pela razão de que Aquiles era um herói superior a Odisseu.
Hípias reafirma a superioridade de Aquiles em virtude da sua postura franca, direta e simples, em contraste com a astúcia dissimulada de Odisseu. Dá seu exemplo inclusive com citação da obra homérica, mas Sócrates questiona isso também com citações, mostrando como Aquiles poderia ser considerado tão ou ainda mais falso do que Odisseu.
Tratando, em seguida, do problema da falsidade, Hípias defende Aquiles afirmando que este, quando faltou com a verdade, o fez involuntariamente, enquanto Odisseu o fazia propositadamente. Mas Sócrates o obriga a admitir que quem faz o mal involuntariamente é pior, no sentido de menos hábil, do que quem o faz voluntariamente, o que tornaria Odisseu superior a Aquiles nos termos do próprio Hípias.
O diálogo termina abruptamente, sem maiores consequências, e com ambos os debatedores assumindo a sua insatisfação com o resultado. Eles não gostam da afirmação de que a capacidade para o mal voluntário constitui uma virtude maior do que a daquele que faz o mal involuntariamente.
Com isto o Hípias Menor parece não ter um sentido filosófico importante, a não ser que destaquemos a veracidade da crítica literária, por assim dizer, feita por Sócrates, o qual aponta que embora Odisseu seja chamado de astuto e ardiloso, não obstante age com franqueza e lealdade, enquanto Aquiles, tido por simples e honesto, nas suas ações mente e manipula. É um eco de uma recomendação da Vigilância, já que o elogio do heroísmo de Aquiles era um costume grego importante, inclusive com função religiosa.
Curiosamente, Sócrates não estaria acusando Homero, mas os tradicionalistas gregos, seguidores e proponentes de costumes etc., mais ou menos como, mutatis mutandis, Jesus nunca teve nenhum problema com Moisés, e sim com os seus supostos seguidores.
A primeira questão relevante neste diálogo, proposta por Sócrates, é a pergunta do motivo pelo qual os sábios de antigamente, como Tales de Mileto, não se envolviam em questões de Estado, ou seja, com a política.
Hípias afirma, aceitando uma sugestão de Sócrates, que isto se dava por uma limitação da capacidade desses sábios, já que a virtude política ainda seria desenvolvida futuramente. Mas Sócrates apenas criou uma armadilha para fazer Hípias revelar a sua pretensão de sofista.
O diálogo então chegará no seu objeto principal, que é a investigação sobre o que é o Belo. Lembremos que esse Belo é o kálos grego, um conceito mais amplo do que aquilo que entendemos como valor estético.
Hípias escapará da definição do Belo buscando refúgio na predicação da beleza, dizendo que isto ou aquilo pode ser belo, mas sem afirmar o que é o Belo em si. Sócrates, mais à serviço de Platão do que de si mesmo, defenderá a idéia superior do Belo, embora sem definições satisfatórias. Assim como para Hípias o Belo é o que agrada, para Sócrates (Platão) o Belo é o que torna aquilo que de si participa algo agradável, isto é, situam o Belo nas coisas ou as transcendendo, sem uma identificação suficiente.
E esta provavelmente jamais nos seria possível, dado o limite de nosso intelecto. Monadofilicamente, o mais próximo que podemos chegar da verdade é o que segue: o Belo é a propriedade do Ser que satisfaz a Apetição da Vontade, tanto quanto a Verdade é a propriedade do Ser que satisfaz a Percepção do Intelecto. Em melhores termos, enquanto a Verdade é o aspecto do Ser que atende ao Logos, o Belo é o aspecto do Ser que atende ao Telos. O Verdadeiro mostra a forma, o Belo mostra a finalidade. Aletheia para o Logos, Kálos para o Telos. Porém, a Unidade do Ser é suprema, porque o Ser é a Mônada, e sua forma de Substância Simples é a Unidade. O Ser é Belo e Verdadeiro. O Belo é a Glória de Deus que nos apetece. Se pudéssemos definir o Belo para além desse nível, com a precisão do conhecimento dos contingentes, nós teríamos o domínio intelectual do que nos transcende, o que é impossível. Não existem definições precisas nem do Belo, e nem do Verdadeiro, mas apenas aproximações por critérios de reconhecimento.
A investigação socrático-platônica não é improdutiva, porém, porque serve para mostrar o limite do nosso Intelecto, e para a admiração contemplativa do Transcendente. Auxilia, assim, na recepção dos dons de Humildade e Presença. E Platão, cá entre nós, chegou muito longe, praticamente pronto para afirmar o que precisamos para chegar no ponto de que a Verdade é o Bem do Ser de acordo com o Intelecto, tanto quanto o Belo é o Bem do Ser de acordo com a Vontade.
Outros detalhes são dignos de nota.
Por exemplo, quando Sócrates insiste na diferença entre o ser belo e o parecer belo, na pista da diferença entre episteme e doxa, entre opinião e conhecimento, como aplicação da metafísica ao problema do Belo, é Platão quem nos leva ao dualismo gnóstico que cria novos problemas. Entre a evidência do que é aparente e do que é real, qual é a distinção senão entre uma Percepção e outra? Como se pode afirmar que o que é tido como realmente belo agora não será entendido como aparente mais tarde? Não se pode. Diante disso só se pode ter uma solução idealista, isto é, se não queremos perder o mínimo Princípio de Identidade, que é o poder de afirmar as coisas. Porém, existem dois tipos de idealismo. O platônico é imanentista quando propõe que o conhecimento pode ser dominado pelo Filósofo, a Pretenção gnóstica. Já o idealismo transcendental propõe a Unidade do Ser pela sua forma de Substância Simples: ou seja, somente o Intelecto divino possui a Percepção plena, sem nenhuma “aparência”, enquanto os intelectos criados só podem possuir a Percepção limitada do Belo, ou o acesso a uma “aparência” do Ser integral. Dito isso, Platão não perde o seu grande mérito de apontar para a necessidade metafísica dessa Unidade do Ser. Não seria possível alcançarmos as alturas plotinianas, scotianas, e leibnizianas, sem antes sermos erguidos pela potência platônica.
Uma outra observação que pode ser feita a partir das indagações socráticas é a da questão da diferença entre o que parece ser belo para sujeitos diferentes. Essa questão está obviamente ligada à anterior (e tudo isso não passa de uma tentativa de resolver o problema parmenídico da permanência da Unidade do Ser). O tal do Belo em si mesmo precisa ser o mesmo para todos, é claro. Mas ele não pode ser conhecido como o mesmo, porque os intelectos criados possuem uma Percepção parcial e relativa da Unidade do Ser. A experiência real dos intelectos criados é tão particular e determinada pela sucessividade, que não só o que parece belo para um difere do que parece belo para outro, mas até o que parece belo para alguém agora já pode não parecer mais tão belo depois para o mesmo sujeito. E isso não constitui defeito, ao contrário, é uma condição da satisfação humana. Até mesmo sob a Coruscância, embora não haja alternância no contexto da Mistura, há movimento entre o que equivale à passagem do que parece “menos belo” ao que parece “mais belo” na forma da satisfação da sucessão das Percepções, porque a nova experiência é sempre apetecida para completar a anterior. A visão gnóstica, porém, diverge radicalmente.
Transhumanista, contrária à forma substancial da mônada criada, a crença gnóstica propõe a plenitude divina para todos, ou seja, que o Belo seja conhecido enquanto tal por todos os intelectos criados, o que por ser impossível implica que o Gnosticismo seja um culto de morte, inclusive, e de modo escandaloso, nos cultos religiosos cristãos, que deveriam dar o testemunho da Ressurreição mas propõem não a Comunhão do Homem com Deus, mas a transformação do Homem em Deus (uma mentira), com idéias de “visão beatífica”, “união mística”, etc., o objeto da promessa da Serpente no Paraíso.
Vejamos uma citação do diálogo:
Sócrates chega perto da identificação do Belo com o Bem, mas empaca no problema da diferenciação pela causalidade, quando é proposto que o Belo é a causa do Bem. Esse problema é interessante porque ilustra a dificuldade comum com o entendimento das relações de identidade e diferença entre as Pessoas da Santíssima Trindade. E até convenientemente, Sócrates mesmo usa como exemplo a relação entre as figuras de pai e filho. Ele resolve por abolir a identidade, ou negar a causalidade, ou seja, não é possível o Belo e o Bem serem Um e ao mesmo tempo o primeiro causar o segundo. Toda a dificuldade está na distinção entre causalidade contingente e processão hipostática, ou seja, tomar o que é divino e transcendente sob o entendimento das coisas criadas e imanentes.
Mas Platão não é Plotino, e o desenvolvimento das idéias de Unidade e de Analogia ainda dependiam de muitos séculos para alcançarem seu ápice histórico.
O Ser é Bom, Belo e Verdadeiro, sendo a Beleza a bondade do Ser enquanto objeto da Apetição, e a Verdade a bondade do Ser enquanto objeto do Intelecto. Porém, mesmo essas qualificações não exprimem bem a simplicidade nem da realidade nos seus termos, e nem da nossa experiência dela. Porque refletem um certo abstracionismo filosófico, isto é, reconhece uma separação na mente que não existe nas coisas. O Intelecto que percebe as formas é o mesmo que se satisfaz com as suas qualidades. Só existe uma Percepção. A multiplicação das abstrações pode servir para um entendimento mais extenso, mas não deve ser usada para a ruptura da Unidade do Ser. Fico feliz com que esta leitura do Hípias Maior tenha servido para essa reflexão. Não se deve ter a falsa impressão de que o Belo, enquanto bondade do Ser como objeto da Apetição, não o seja também do Intelecto, algo que seria absurdo, pois a Apetição é o desejo de uma boa Percepção, o que quer dizer concretamente o Belo é sempre objeto do Intelecto, e é bom para o Intelecto, e é por isso que satisfaz a Apetição da Vontade. Dito de outro modo, Beleza e Verdade não são duas coisas diferentes, mas dois aspectos do mesmo Ser.
Ao fim do diálogo, depois de debaterem sobre como o que é belo pode ser tanto percebido pela visão quanto audição, Sócrates avança novamente na direção do entendimento do problema de como algo pode ter unidade e distinção ao mesmo tempo, isto é, o problema do Múltiplo a partir do Um, mas Hípias desiste. Reafirma a razão sofista dos discursos com finalidades tangíveis e debocha da filosofia, ao que Sócrates reage com resignação irônica, ao citar um adágio que diz “tudo que é belo é difícil”, obviamente cientificando a limitação de Hípias, pela sua desistência, e não a sua própria.
CAPÍTULO UM: A ENCARNAÇÃO — Na chegada dos tempos adequados o Filho de Deus, Jesus Cristo, decide encarnar como Filho do Homem, o Anti-Adão, através da obediência de uma mulher obediente a Deus, Maria, a Anti-Eva que aceita o rompimento com o Pecado Original e dá origem à Encarnação do Santo dos Santos. Encarnado, o Filho de Deus mostra a perfeição da obra divina, e como o mal foi trazido ao mundo apenas por um vício espiritual.
CAPÍTULO DOIS: A FÉ E OS MILAGRES — Jesus vive entre os homens pelo tempo necessário para que todos os que precisassem tivessem a oportunidade de experimentar a sua própria liberdade de acreditar no Amor de Deus, ou em seu Poder. Encontrando em poucos o desejo da fé, mas em muitos a busca pelos milagres, Jesus já sabia o que havia no coração dos homens, mas era preciso que eles também soubessem, e através deles, nós mesmos.
CAPÍTULO TRÊS: A CRUZ — Jesus aceita a sua injusta condenação para fazer da Cruz o instrumento da sua Revelação final. Mostra o Amor do Pai, pronto a perdoar e salvar mesmo os participantes da maior das injustiças, contanto que estes queiram ser salvos, e mostra a maldade do Acusador que finge promover a Justiça mas é apenas um espírito mentiroso e assassino. O véu está rasgado, e Deus revela que quem estava no Templo era o pai dos religiosos, o diabo enganador, enquanto Ele mesmo, o próprio Deus verdadeiro, estava na Cruz, dando sua vida para revelar a Verdade de seu Amor.
CAPÍTULO QUATRO: A RESSURREIÇÃO — Jesus ressuscita na carne, com seu Corpo de Glória, para mostrar que o Paraíso desejado para o homem não consiste em nenhuma confusão espiritualista, mas na promessa fiel que todos os homens sempre puderam conhecer em seus corações. Parte deste mundo prometendo que tem muito ainda a ensinar, coisas que aqueles seus Apóstolos ainda não poderiam suportar, mas que com o tempo seu Espírito revelaria tudo para os verdadeiros buscadores.
O diálogo cujo assunto é a erística, ou seja, a arte da discussão como fim em si mesmo, é aberto com a exibição da capacidade de jogar com palavras ignorando-se a verdade de seus sentidos particulares e qualificados, um expediente que obviamente não impressiona Sócrates, e na verdade só pode nos irritar, principalmente a reação de riso debochado e escarnecedor da plateia ao ver um amante de discussões perturbar a paz e “vencer” um amante da sabedoria. De todo modo esse tipo de ensino propunha tornar virtuosos os seus aprendizes, e Sócrates não deixa de querer investigar essa possibilidade.
Mas então, depois de algumas falas sem sentido da parte dos sofistas, Sócrates assume o comando da situação com sua própria proposta de exortação da virtude (a Filosofia, ou amor pela sabedoria), iniciando pela demonstração que acima de todos os bens mundanos, como a saúde, a riqueza, a beleza, etc., está a sabedoria, pois sem ela todos esses bens tornam-se potencialmente males, pelo seu mau uso, de modo que a sabedoria é o principal dos bens, já que permite ao ser humano o usufruto adequado de todos os demais. Essa concepção clássica é irrefutável enquanto ideal de conhecimento, mas é inviável enquanto realidade pela limitação constitutiva da sabedoria humana. É no limiar dessa fronteira que encontramos a distinção dos territórios de Sócrates e Platão, o primeiro mais satisfeito com a condição humana, e o segundo mais pretensioso em seu Gnosticismo.
Em seguida, porém, os sofistas Eutidemo e Dionisodoro continuam produzindo seus truques verbais no intuito de causar perplexidade e paralisia. Um adversário deles, Ctesipo, chega ao cúmulo da irritação, mas é apaziguado por Sócrates, que oferece a muito mais digna e sólida posição de se levar a sério o discurso alheio até o fim, uma deliberação que é na verdade invencível, embora seja muitas vezes difícil de se manter, se não se possuir a necessária frieza.
Até o fim deste diálogo parece que Sócrates apenas ironiza a suposta sabedoria dos adversários, mas há que se considerar uma outra possibilidade. Quando dizem grandes e óbvios absurdos, como que o conhecimento de uma coisa constituiria o conhecimento de todas (e desde sempre), bem como que a paternidade de um ser significaria a paternidade de todos, etc., a prática desconstrucionista dos sofistas não deixa de ser um reflexo dos limites da linguagem humana, e de todo discurso no fim das contas: não é possível produzir um testemunho completo a respeito de nada, porque as predicações e qualificações tenderiam ao infinito e nunca bastariam. Tanto a premissa quanto a conclusão de um argumento encontram-se numa realidade que transcende a linguagem necessariamente. A prática erística apenas evidencia que a comunicação humana é um jogo que depende da credulidade dos participantes, e embora evidencie isso com exemplos muito exagerados, nos dá o que pensar a respeito dos casos menos óbvios e mais sutis, sobre o quanto também não são efetivos com base na mesma lógica de crença numa suficiência que nunca é esgotada no discurso. Isto quer dizer que, mesmo que indiretamente, a erística favorece a recepção dos dons de Humildade e de Soberania.
Gnosiologicamente, compreendemos isso pelo limite da Percepção da mônada criada, determinada pela sua forma substancial. A linguagem humana, afinal de contas, repercute apenas parte do que é objeto de sua Percepção, mas esta própria experiência de perceber só realiza, de cada vez, uma ínfima parte daquilo que é possível de ser percebido, no infinito escopo da Possibilidade Universal. Assim sendo, apenas o Intelecto da Mônada Incriada possui em si a satisfação da plenitude da sua Percepção, enquanto a mônada criada, por seu turno, se realiza na satisfação determinada pela sua forma limitada de ser, em que cada Percepção é sempre parcial e finita, e só precisa atender também a uma Apetição igualmente parcial e finita. Filosoficamente, isso implica na admissão dos limites do conhecimento humano com espírito de contentamento e gratidão, o espírito exatamente contrário ao Gnosticismo luciferino. O objetivo da linguagem humana nunca deve ser o da Pretensão, isto é, o de desejar o domínio da verdade, já que aquilo que é verdadeiro o é tão mais quanto é divino, isto é, o quanto escape do nosso controle e nos transcenda. Há, na postura de Sócrates, em contraste com a de Platão, um aceite muito mais adequado a essa condição humana. E, bem tratado, sem preconceitos, o testemunho a respeito das provocações de Eutidemo e Dionisodoro, vemos que esses irresponsáveis acabam tendo sua função na desmoralização da falsa veracidade de alguns responsáveis, mais ou menos como desempenham seus papéis os bobos da côrte ao ridicularizar aqueles que não podem perder a pose de suas supostas seriedades.
Note-se que Platão, mesmo sendo tão empolgado com as perspectivas gnósticas da Filosofia, não deixa de ser fiel em seu testemunho, nos permitindo ligar pontos que ele talvez não pudesse, ou não quisesse ligar. Onde os sofistas parecem argumentar com a mesma lógica dos eleatas, há um rastro de investigação da Unidade do Ser e, portanto, da forma da mônada. Senão vejamos: quando afirmam que o conhecimento de uma coisa é o mesmo que o conhecimento de todas, não estão falando da Percepção potencial? Embora apenas em Deus a atualidade da Percepção seja total, ela não é virtualmente total também na mônada criada, que apenas passa de uma Percepção para a próxima, mas sempre o tendo podido fazer diversamente, ou seja, sempre tendo podido de fato conhecer qualquer coisa? Essa possibilidade não é simultânea? E mesmo não sendo conhecimento em ato, não é em potência? O conhecimento de uma coisa não implica, por definição, a potência de conhecer todas as demais? E essa potência não é imediata? Platão mesmo, de certo modo, não vai poder escapar disso mais tarde, quando apelar para a Reminiscência, já que o problema existe: como algo pode vir a ser conhecido, isto é, reconhecido na sua idéia ou forma, se antes não fosse conhecido de algum modo antes de maneira que permitisse o seu reconhecimento depois? Pois bem, esse antes e depois que separam, no tempo, as diversas Percepções da mônada criada nada mais são do que funções da realização do Intelecto limitado: não existe, de fato, separação na Unidade da própria Substância Simples. De modo que o Intelecto apenas reconhece na sua intuição aquilo que é sucessivamente percebido de forma distinta e múltipla, mas que possui substância unificada e singular. Dito de outro modo: apenas em Deus o Intelecto apreende a Unidade, porque é infinito. Nas criaturas, o Intelecto finito só pode apreender representações parciais do seu ser. O ser da mônada criada continua sendo a Unidade da Substância Simples, mas a Percepção é a da representação da sua Multiplicidade. É deste modo, então, que o conhecimento de uma coisa pode ser o conhecimento de todas, na possibilidade virtual do Intelecto, já que a Unidade do Ser contém, de maneira simultânea, todas as potências intuitivas. Se, obviamente, tanto a Apercepção humana quanto a linguagem do seu testemunho não podem produzir essa Unidade, isso não se dá por um defeito, mas por um limite. É claro que estes sofistas não quiseram dizer nada disso. Mas, brincando com as palavras, nos forçaram a reconhecer esses limites da linguagem humana não como defeitos, mas como realidades constitutivas, assim como os Céticos o farão no futuro. Porque o impulso na direção contrária, da Pretensão de um discurso terminativo com todas as distinções de todas as predicações possíveis, mostrar-se-á tão ou mais absurdo ainda quanto esta lógica erística. É nisso que vai dar o Gnosticismo filosófico: na crítica e finalmente na desistência da filosofia moderna contra a sabedoria medieval dos “contadores de fios de cabelo”, e dos “lenhadores da lógica”. Mesmo quando os sofistas afirmam, no Eutidemo, mais absurdamente ainda, que a paternidade de um significaria a paternidade de todos, todo o erro dessa proposição está contido na Pretensão da atribuição de veracidade a uma relação historicamente condicionada por uma causalidade particular. Sendo a paternidade contingente tão restrita e condicionada, com que direito o ser humano pode chamar isso de paternidade no sentido de uma verdade plena? Com nenhum direito. E se o pudesse, então as proposições dos sofistas teriam que ser admitidas, o que resultaria numa redução ao absurdo. Uma verdade parcial, temporalmente condicionada, causalmente contingenciada, não deixa de ser uma verdade, mas o é tanto quanto qualquer outra na vasta manifestação da Multiplicidade, isto é, não tem a força unificante da verdade apodíctica. Isso não é um detalhe filosófico. Na verdade é essencial e repercute a sabedoria do dom da Presença. Quando Jesus mesmo, pessoalmente, nos ensina a não chamar a ninguém de “pai”, mas apenas a Deus, ele está dizendo a mesma coisa: a paternidade no sentido verdadeiro e transcendente, só pode ser uma qualidade divina. E aí entendemos como a verdadeira paternidade é exatamente como a que estes sofistas do Eutidemo apregoam: o verdadeiro Pai é de tudo e de todos. É claro que eles não produziram essa consciência, e nem sequer uma Filosofia digna desse nome, e ficam restritos ao trabalho mais negativo, destruidor. Mas isso tem a sua função na história das idéias.
Por fim, mas não por último, encontramos um curioso testemunho do interlocutor original de Sócrates em Eutidemo, Críton, que pode ser bastante significativo para nós:
Críton percebe que a forma convencional que o seu desejo pelo bem dos filhos costuma tomar perde o sentido diante da atividade socrática, já que todo o bem que é mundanamente considerado se torna no mínimo relativo, ou mesmo fútil, diante da busca filosófica. Uma prova disso pode ser obtida com facilidade no próprio conteúdo do Eutidemo, quando Sócrates afirma que a Sabedoria é o maior dos bens, já que sem ela todos os outros se tornam inúteis. Críton entende, assim, que na busca do bem de seus filhos negligenciou a parte mais importante, que é a educação deles. Porém, quando se dirige àqueles seres humanos que se propõe a realizar a educação, principalmente no sentido do ensino da virtude, verifica que eles não são capazes de fazer o que prometem. Críton, enfim, não sabe como persuadir seu filho a ser filósofo.
A resposta de Sócrates é bem convencional: faça o melhor que pode, e fique alerta, mesmo contra os filósofos.
Mas podemos e devemos explorar o testemunho de Críton. Ele está perto de admitir que o maior bem para seus filhos seria que os estimulasse a buscarem a Sabedoria, ou seja, a serem filósofos. Porém, a verdadeira Filosofia não é uma atividade que confirmará as pretensões iniciais do próprio Críton: não servirá para validar a razão das instituições do casamento, da paternidade, do comércio, da guerra, ou da educação cívica (política). Isso é o que o transtorna. Para amar verdadeiramente seus filhos, Críton teria que os ver completamente livres e desimpedidos para perseguir a Sabedoria que transcende todas essas instituições e costumes que parecem concentrar os bens humanos, mas que no fim são parciais ou até mesmo falsos. Ora, para fazer isso, Críton teria que ser capaz de um ato extremamente liberal e altruísta, bem difícil: o de estimular seu filho a buscar um bem que transcende os falsos bens nos quais ele mesmo acreditou até a véspera.
Amar o próximo, inclusive um filho, é desejar, afinal, a liberdade deste inclusive contra o próprio interesse paterno, quando for descabido. Amar é desejar a liberdade do amado.
Este filme conta a história de uma enfermeira confusa e sobrecarregada com o espírito de Terror, por conta de algum episódio obscuro de seu passado sobre o qual não sabemos os detalhes.
Vinda desse trauma, e também de uma vida mais ou menos desregrada sobre a qual também não temos maiores detalhes, Maud aceitou a culpa advinda da tentação desse espírito de Terror e buscou refúgio no abrigo da experiência da superficialidade da Religião. É claro que isso não vai dar certo. Ao invés de se apoiar na firmeza deontológica da condição humana, cuidando da sua vida da melhor forma que pudesse, ela se arrisca nas ilusões dessa mistura indigesta que a doença mental da Religião oferece de moralismo, superstição e sentimentalismo. Imediatamente após se condenar nas suas ações, é óbvio que a recém-convertida buscará o mais rápido possível alojar-se no conforto da situação de julgar e condenar os outros desde a sua suposta santidade justificada pelas suas patéticas penitências. A Religião é a mais eminente escola do Orgulho, embora não seja a única, e o Ateísmo não fique muito atrás.
Ela passa a atuar como empregada particular para uma senhora com um perfil artístico e liberal que passará, naturalmente, a questionar e até a zombar da fé de Maud. A enfermeira, porém, também não ajuda muito ao presume-se chamada a um destino especial que a faz se colocar em situações moralmente arriscadas, como quando tenta ser a salvadora de sua patroa. Tendo subido, por si, a um patamar que nunca lhe foi devido, é evidente que depois sofrerá uma queda doída.
Incapaz de se recolher à interioridade onde poderia obter os verdadeiros dons espirituais que só podem advir de uma legítima contrição, Maud tenta forçar sua comunicação com a divindade, o que abre as portas para enganos profundos, com sugestões e influências demoníacas que eventualmente a levarão ao assassinato e ao suicídio.
A loucura da protagonista é de sua inteira responsabilidade. Se não pretendesse ser a santa e salvadora, poderia aprender a se contentar com o Deus verdadeiro, e receber um consolo poderoso de fato. Por sua soberba crescente, encontra-se forçada a assumir cada vez mais profundamente todos os contornos da sua insanidade como um sentido verídico, e finalmente cruza a última linha da qual não terá mais volta.
Apesar do tom sombrio do filme, a sua mensagem espiritual é legítima, no mínimo por três razões:
1- Maud poderia e deveria ancorar-se nos seus deveres de estado e, sendo humilde, aceitar todas as tentações e provocações com firmeza e perseverança. Sua fé é falsa, religiosa, superficial e supersticiosa, e isso é sua responsabilidade. Ela não busca um aprofundamento para fora de seu próprio sentimentalismo;
2- Quando sua ex-colega Joy lhe procura, logo antes que dê os próximos passos em direção à sua loucura sem retorno, isso consiste num recurso de misericórdia da parte de Deus, que nunca fechou a porta para Maud. Ela é que teria que acreditar na verdadeira bondade divina, cheia de perdão, misericórdia e compaixão. Mas o deus dela é o Diabo, o Acusador que se alimenta de suas culpas e punições, e lhe impinge um senso de missão absurdo (julgar, condenar, punir, etc.);
3- Quando o próprio diabo, seja verdadeiramente ou em alucinação, lhe acusa de ser fraca na fé por não ser suficiente a confiança em Deus, isto é no mínimo um alerta legítimo de sua própria subconsciência, ou uma intervenção divina fazendo uso do impulso acusatório do demônio para revelar uma verdade.
Crer em Deus é o mesmo que confiar Nele.
Se desejamos ver ou conhecer Deus para diminuir, no mínimo que seja, a pureza do nosso amor a Ele, estamos jogando no campo adversário e imitando Lúcifer, esse grande desconfiado que ensinou sua malícia para a humanidade.
Como a história acaba muito mal para Maud, o filme surpreendentemente tem um sentido espiritualmente positivo. Talvez este nem tenha sido o objetivo dos criadores do filme, mas a coisa é o que ela é.
Se a protagonista fosse uma heroína, o sentido seria o contrário.
Mas, como vítima de si mesma, Maud serve de exemplo para não tomarmos levianamente o dom da vida na Presença.
No mundo de Sowell o ser humano vive sob uma condição trágica inescapável, diante da qual a solução mais responsável se dá através da observação da experiência e do costume, e da preservação da liberdade individual de atuação em defesa dos interesses próprios. É, assim, um autor conservador e liberal, uma combinação típica nos quadros da direita moderada.
Se nós estivéssemos presos a esta realidade que Sowell descreve, dificilmente haveria uma solução política e social melhor do que a que ele descreve.
Acontece que nós não estamos estamos presos, porque a perpetuidade dessa condição é fruto da volição humana.
Toda a discussão do mérito dos argumentos de Sowell, portanto, é posterior e, na verdade, desqualificada por esta questão prévia que sustenta a validade da sua posição: o ser humano vive, de fato, numa condição trágica?
Não posso, ao mesmo tempo, invalidar a premissa da visão trágica de Sowell, e aprovar a solução que ele propõe como corretas desde que esta mesma premissa fosse válida.
Toda a discussão econômica, seja do ponto de vista socialista ou liberal, gira em torno do fenômeno da Escassez. Esta, por sua vez, é gerada pela condição humana que combina recursos limitados com desejos ilimitados. Quando enxergamos a Escassez como um fato inescapável e incontornável, dirigimo-nos às respectivas soluções econômicas para esse problema humano. Porém, se a Escassez é produzida por uma condição arbitrada pela vontade humana, cabe àqueles que legitimam e aprovam a produção dessa condição o dever de solucionar o problema que foi produzido pela ação ou pelo aval do seu arbítrio.
É claro que, já dado o nosso nascimento nessa condição, convém organizarmos a sociedade e a economia do melhor modo, e a partir deste ponto podemos concordar indefinidamente com Sowell, bem como com qualquer outro pensador dos problemas sociais e econômicos, sobre quaisquer pontos que entendermos convenientes.
Mas essa discussão jamais deve superar a importância da premissa básica, que é a da discussão da responsabilidade humana pela perpetuação da condição que gera o fenômeno da Escassez.
Espiritualmente, pouco importa como decidimos carregar a nossa cruz na contingência desta vida limitada, se de um modo mais liberal ou socialista, mas importa muito entender como viemos parar nessa condição e, principalmente, saber que somos responsáveis pela continuidade ou pelo rompimento com o costume que gerou essa realidade, ou seja, o Pecado Original.
Quem quiser entender a prioridade desse entendimento da origem da condição humana na Maldição de Gênesis 3, leia a Introdução ao meu livro Monadofilia, especialmente onde explico como nós nos acostumamos, sendo criados em cativeiro, a entender como normais e legítimas as condições de Causalidade, Irreversibilidade e Escassez.
Onde o autor mais acerta, no contexto da sua lógica da visão trágica, é na observação de que toda concentração de poder gera mais corrupção e injustiça, bem como na constatação da assimetria entre o poder de influência dos intelectuais e a sua responsabilização profissional.
Outro acerto de Sowell é a denúncia da Presunção dos intelectuais de forma geral, pela sua incapacidade de reconhecer que há uma massa enorme de conhecimentos particulares distribuídos dentro de uma sociedade e que são totalmente ignorados pela intelligentsia.
É um livro aproveitável no contexto particular da sua discussão, mas preso na Dialética do Ouroboros desde uma perspectiva mais ampla. E diante disto eu lhes pergunto: que interesse temos em soluções particulares que constituem a continuidade de um problema geral muito maior?
O autor denuncia o empreendimento dos intelectuais ungidos contra a coesão, a unidade e a integração social. Talvez deseje solucionar o problema de Babel? Estaria Sowell ciente de que Deus mesmo instalou a discórdia para impedir a consecução dos planos dos Usurpadores? Estaria ele na posse do testemunho de Jesus que disse que não veio trazer a paz, mas a espada, e que os inimigos do homem estão na sua própria casa? Estaria Sowell lembrando da profecia apocalíptica que declara que a Grande Tribulação tem início justamente com a declaração de “paz e segurança”, ao que no entanto se seguirá uma “repentina destruição”? É claro que não. Sowell não dá o testemunho do amor a Deus em primeiro lugar, porque é um humanista. O homem em primeiro lugar, e Deus, se tem algum valor, só pode ser porque criou o homem, é claro.
Por que Sowell não admite o ônus da parte dos proponentes da bondade do status quo? O ser humano sendo um animal simbólico que busca o sentido, precisaria e poderia ser satisfeito na sua carência de significado pela demonstração do grande mérito dessa maravilhosa ordem social e histórica que Sowell defende.
O que vemos aqui é a manifestação de um dos lados da disputa na dinâmica da Dialética do Ouroboros: Sowell, tomando o lado do Behemoth, acusa a loucura do Leviathan. Tem suas razões, mas não tem razão. A vitória do seu argumento depende da restrição da visão de mundo fatalista que ele defende. Vencida essa escolha, que afinal de contas não passa de uma crença entre tantas outras, todo o seu empreendimento cai por terra.