Saber que não se sabe para a admissão do arbítrio das proposições dogmáticas, a partir de Kant

O empirista, enquanto cético, retoma a antiga labuta socrática de determinar limites à especulação da Razão natural, isto é, a este poder ilimitado que a psique tem de produzir a imagem da verdade.

Com isto a ciência, bem como a própria filosofia em geral, pode seguir seu custo sem ser incomodada com quaisquer obstruções do dogmatismo de qualquer parte, tanto da parte das credulidades quanto das incredulidades, para reconhecer o que é o seu domínio próprio de clareza.

Isto significa que uma boa Razão serve para assumir o arbítrio das proposições dogmáticas, e de criticar se essa espécie de proposição convém ou não à estrutura da possibilidade cognitiva do ser humano.

Como cristãos, somos obrigados a desconfiar da sabedoria dos homens (que é loucura para Deus), o que inicialmente nos poderia dar a idéia de rejeitar in limine todo tipo de especulação filosófica que não se baseasse em dados diretos da Revelação, inclusive a filosofia kantiana.

Mas um ser humano livre, consciente e responsável, não deveria antes indagar-se sobre se a investigação da Crítica da Razão não está justamente trabalhando a favor da denúncia da loucura da sabedoria dos homens, de modo a restringir o entendimento ao que é razoável? E não seria isto um estímulo ao dom de Humildade?

Pode ser que sim, mas também pode ser que não.

A resposta vai depender de como o limite da Crítica é usado pelo fiel que quer entender, com base na Graça divina, e com a finalidade de glorificar o Santo Nome, a condição da vida humana, principalmente a realidade de amar a Deus e ao próximo. Neste sentido a obra kantiana é indiferente: pode ser usada para este ou outro propósito, como uma ferramenta que pode ser usada para construir ou destruir, dependendo da intenção do seu usuário.

Kant contra o transhumanismo da alma humana como substância separada

Ou seja, o sujeito transcendental, como já explicado antes, não pode existir.

Ou existe o sujeito absoluto, Ato Puro, que é a Substância divina, ou existe o sujeito relativo, com as duas potências de Percepção e Apetição, movidas pela ação do Intelecto e da Vontade, que atualizam sempre um limite dentro do Ser divino que é o único objeto de qualquer intuição possível.

Isto quer dizer que as idéias de “união mística”, “visão beatífica”, etc. correspondem mais ao gnosticismo de uma falsa deificação que nega a forma substancial do ser humano enquanto ser limitado, do que ao ideal cristão de reencarnação e de vida paradisíaca conforme o que Deus revelou sem confusão já nos fatos da vida humana atual.

A felicidade do ser limitado está em reconhecer a Graça própria de realizar a sua Apetição dentro do seu limite, pois nada que transcendesse a razão de ser da sua limitação lhe faria jamais sentido.

Assim, ao invés de querer ser como Deus, uma idéia transhumanista que nega a forma criada pelo Altíssimo, o que sempre é uma mentira e, no fundo, um desejo de morte, a satisfação da nossa forma substancial está em querer viver com Deus, ou seja, não a idéia de uma união que significaria apenas dissolução, mas a idéia de comunhão que é a condição de realização, no ser limitado, da sua Apetição.

A imagem e semelhança divina na transcendência moral do homem, em Kant

A experiência natural da vida humana requer, desde que não se aceite limites artificiais que são impostos, não raramente, como uma reação amedrontada diante da própria liberdade, que se entenda todo princípio imediato de finalidade das disposições naturais como um limite transponível pela sugestão de transcendência contida na própria forma substancial do homem.

Ou seja, criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano possui no seu ser o sinal da transcendência possível que lhe obriga a enxergar todo o campo das disposições naturais como mero cenário da sua agência moral de ser livre e responsável, não diante da função imanente, mas diante de um Ser infinitamente transcendente.

Isto é o que nos permite renunciar a bens imediatos, e ao exercício de funções naturais imediatas, em face de bens sustentados por um ideal transcendente, de tal modo que as disposições naturais passam de ser o fundamento da normatividade (Lei Natural) para ser um cenário moralmente indiferente (mera função da liberdade), e até mesmo a chegar a ser uma fonte de oposição ao discernimento e proximidade com Deus (mundo decaído e amaldiçoado, natureza submetida à corrupção, etc.)

Aquele que no mínimo não problematiza a sua experiência moral num mundo, questionando a integridade das disposições naturais em face de um ideal mais simples e puro, não só não alcança a dignidade que se supõe como dever moral de um ser livre criado à imagem e semelhança de Deus, como possivelmente se restringe, por hábito, à idolatria naturalista da Multiplicidade contingente.

A teleologia metaracional do Sumo Bem como premissa da Monadofilia

Por que é tão improvável a aceitação, da parte de qualquer pessoa que pense com a forma mentis contemporânea, das idéias monadofílicas?

Isso ocorre porque o nosso mundo de hoje aprendeu a bitolar a sua inteligência em torno das causas material e eficiente, aquelas mais adequadas ao método de investigação e domínio da gnose moderna, de modo que a esseidade das coisas é proibida e relegada ao submundo dos esoterismos e das pseudociências. Quando falo de esseidade, refiro-me às grandes causas dos seres, a formal e final.

A questão sobre o de quê as coisas são feitas, ou sobre como elas são feitas, deriva de uma visão de mundo restrita à quantificação e mensuração, um vício derivado da ótica experimental, empirista e utilitária. Embora isso ajude a ampliar o domínio humano sobre a natureza, serve também para sequestrar o foco da alma humana nos aspectos mais periféricos do reino da Multiplicidade, perfazendo um caminho contrário ao da contemplação da Unidade, ou seja, fazendo o caminho contrário tanto ao do espírito de Moisés quanto ao da filosofia de Platão.

As questões proibidas perguntam sobre o que as coisas são, e sobre qual é a finalidade delas. Ambas as questões exigem o enquadro dos elementos do mundo num panorama maior, dentro de alguma perspectiva de transcendência, isto é, fora do costume do pleno domínio da razão humana. E isso parece insuportável demais às mentes que já se adaptaram aos seus jogos de poder.

Ou seja, tudo o que exigiria a virtude da Humildade parece defeituoso, uma projeção psíquica do defeito humano da Soberba. Porque é a obsessão pelo poder que torna intratáveis os objetos contemplativos da alma humana.

Vencido, porém, esse obstáculo, podemos alcançar grandes e preciosos entendimentos.

A causa formal aponta, na quididade das substâncias simples, ou Mônadas, as características de Percepção e Apetição. Esta última potência, por sua vez, aponta para a finalidade do ser. A causa final da substância simples é a satisfação da sua Apetição.

Desde que a Mônada possua Apetição, seu bem próprio é incontestável tanto quanto o próprio Sumo Bem como forma absoluta e originária de todos os seres. Você pode até questionar se Deus é real ou bom como uma figura de linguagem, isto é, como ato de mera lógica discursiva, mas não pode questionar se o Bem é bom, ou seja, se é desejável ou não, o que nos obriga a reconhecer que Deus é real e bom, porque Ele é esse Sumo Bem supremo que constitui a forma substancial de todos os seres, já que não há forma mais simples e transcendente do que a do Bem que é a essência da divindade e, ao mesmo tempo, a carência particular de todos os contingentes que os ligam à sua fonte criadora.

A amabilidade das substâncias é determinada pela forma do seu ser, independentemente da não atualização da sua potência, de modo que com justiça podemos questionar se a Apetição se satisfaz ou não dadas as várias restrições da nossa ignorância, mas jamais podemos questionar se é conveniente ou não a sua satisfação de forma absoluta.

Convém, finalmente, que a origem das substâncias possua a forma desse Sumo Bem que satisfaça eventualmente a causa final de todas elas.

Essa é a premissa da Monadofilia: uma teleologia metaracional que confessa um dever-ser ao mesmo tempo inquestionável na sua forma e contingente na sua concretude, pois é dependente de um Ser supremo cuja própria forma pode ser intuída e contemplada, mas nunca dominada pela razão ordinária. Ou seja: a Unidade e o seu Bem são objetos de amor e não de gnose. Nós não podemos dominar o bem divino e muito menos o nosso próprio, mas podemos confiar e confessar o desejo do bem, e isto é o que alinha mais perfeitamente a nossa liberdade à nossa forma de ser.

A concomitância do progresso moral na evolução natural da senciência

Por que os que questionam a queda da natalidade de um ponto de vista naturalista ou agnóstico não concebem a hipótese de que a mudança no comportamento da espécie humana é uma decorrência natural do progresso moral concomitante à evolução natural da senciência?

Igualmente, por que não concebem que essa hipótese seria uma explicação satisfatória tanto para o Paradoxo de Fermi quanto também para qualquer cenário de desaparecimento de antigas civilizações terrestres que poderiam, supostamente, ter sido mais avançadas que a nossa no tempo presente?

Ocorre que se ignora a concomitância do progresso moral junto à evolução natural da senciência. Qual é, afinal, o efeito moral de um progresso material rápido e em massa numa civilização que alcançou a senciência?

Já concebemos, anteriormente, o atingimento de três níveis diferentes de civilizações sencientes:

1 – Fase de Sobrevivência

2 – Fase de Normalização

3 – Fase de Reflexão

Na Fase de Sobrevivência, uma espécie senciente possui a potência da consciência, mas ainda precisa usar toda a sua capacidade intelectual para garantir que atinja a sobrevivência como novo status quo, seja através de avanço da técnica, manejo de recursos, etc.

Na Fase de Normalização, uma espécie senciente já obteve o domínio dos meios de sobrevivência e possui finalmente uma consciência atual da sua condição, diante da qual passa a usar toda a sua capacidade intelectual para a normalização do status quo, seja através de ajustes no manejo dos recursos já dominados, seja na produção de uma cultura simbólica que justifique a sua condição (religião, filosofia, arte, etc.).

Na Fase de Reflexão, uma espécie senciente já alcançou o limite da normalização da sua condição e possui finalmente a reflexão da sua própria consciência, usando sua capacidade intelectual para o questionamento do status quo e a transcendência do mesmo, alcançando, por exemplo, a consciência da Mônada, do Idealismo Transcendental, da Metafilosofia, etc.

Quando uma espécie senciente atinge o nível civilizacional da Fase 3, ela naturalmente vai produzir gradativamente, entre seus indivíduos, de forma mais ou menos prática, a conveniência do Antinatalismo como consequência do questionamento da sua condição existencial.

Isto explica as atuais taxas de natalidade em decadência nas partes mais desenvolvidas do mundo, bem como explica as possibilidades tanto da extinção voluntária de civilizações terrestres antigas, bem como de eventuais civilizações extraterrestres.

A única maneira de ignorar ou mesmo de invalidar completamente esta hipótese seria através de uma resposta alternativa como resultado do progresso moral, o que esbarra necessariamente na vasta barreira da Antropodicéia: se o Paradoxo de Epicuro aboliu a validade da Teodicéia e Deus está injustificado, tanto mais ainda o ser humano também o estaria. O modo de superação desta barreira é a confiança numa fonte superior (transcendente) de moralidade, como algum tipo de panteísmo naturalista, mas isso teria então que ser defendido abertamente como crença teísta em contraste com as demais hipóteses de teísmo, justamente o que o pensamento ateísta e agnóstico evita fazer, porque então a sua crença poderia ser comparada como forma de teísmo com outras igualmente possíveis e talvez mais convenientes.

Metareflexividade: a pedra filosofal da Monadofilia?

Recentemente alguém observou, a partir de uma explicação que dei num vídeo publicado, que aquilo que se costuma atribuir ao mérito das virtudes humanas na verdade é dom de Deus. Eu falava particularmente de generosidade e magnanimidade, mas podia falar de qualquer outra qualidade.

A visão do conteúdo vida interior como dom puro da Graça divina nos permite entender o que é a vida na Presença sob um ponto de vista interessante. Porém, falar disso não é tão fácil, dependendo do quanto cada pessoa está envolvida com o espírito de idolatria, seja do objeto da sua percepção, ou seja da sua própria subjetividade. Somos inclinados à idolatria por uma natureza decaída e por uma criação de cativeiro. E entendemos a realidade sob a ótica da causalidade natural, um código embutido na realidade percebida exatamente para o exercício da nossa função de amar livremente, seja a criação ou o Criador.

Convém-nos entender esse tema com maior profundidade, usando o entendimento do que é a Mônada, e usando qualquer recurso que nos auxilie, como por exemplo o funcionamento do simbolismo do Sol e da Lua, entre outras idéias.

A Mônada possui essas potências já muito referidas, de Percepção e Apetição, às quais Leibniz mesmo acrescentou a potência da Apercepção (que é a Percepção da Percepção), e às quais eu acrescento agora a hipótese da Metareflexividade.

A Percepção é a visão que a Mônada tem do seu próprio reflexo, que também chamamos de Intelecto.

A Apetição é o desejo que a Mônada tem da próxima Percepção, que também chamamos de Vontade.

A Apercepção é a visão que a Mônada tem da sua própria Percepção, que também chamamos de Consciência.

Já a Metareflexividade é a visão da visão que a Mônada tem da sua própria Percepção, que também chamamos de Discernimento, ou consciência da Presença.

Iniciemos, como exemplo, uma analogia com a operação da nossa visão física.

A Percepção é como a visão que o olho tem do seu objeto.

A Apetição é como o desejo que o olho tem, por assim dizer, de ver o próximo objeto.

A Apercepção é como a visão que o olho tem de si mesmo, por exemplo vendo-se num espelho.

A Metareflexividade é como a visão que o olho tem de si mesmo e de seus objetos como aspectos da mesma substância, isto é, de que tanto a qualidade do objeto quanto a do olho são dados pelo mesmo ser, como um olho do olho, ou visão da visão.

Existe a qualidade daquilo que é visto, e a qualidade da visão em si mesma.

A qualidade do que é visto é a Nitidez da Percepção, ou na sua ausência, Ofuscação.

Já a qualidade do olho que vê é a Cristalinidade da Percepção, ou na sua ausência, Opacidade.

Com a Metareflexividade compreendemos que a qualidade das coisas percebidas são aspectos da luz divina refletidos pela nossa Percepção, tanto enquanto a qualidade do nosso perceber é dada pela luz divina que anima o nosso espírito (ou com o qual entramos em comunhão através do livre-arbítrio). Tanto Nitidez quanto Cristalinidade são dons divinos para o ato humano de Percepção: Deus dá o bem que percebemos, e dá o bem de perceber, ou ainda, Deus nos dá o que amamos e nos dá a capacidade de amar.

A consciência disto é um recurso tremendo, para o qual já usei o nome de Discernimento. Com essa noção entendemos que a nossa reação ao que percebemos, conduzida pelo costume da idolatria naturalista da causalidade, normalmente ignora a origem divina tanto da qualidade do percebido quanto do nosso ânimo de perceber. As coisas não são boas ou ruins independentemente da Providência como causa fundamental, e nem temos um bom ou mau ânimo por causa do nosso psiquismo, porque tudo é dom divino. Viver na Presença, com Discernimento, ou na Metareflexividade, é ter a consciência simples do Amor divino como causa do que é percebido e da própria Percepção.

No simbolismo do Sol e da Lua apreendemos esse esquema facilmente ao verificar que a virtude da Lua diante do Sol é a de uma total passividade, a capacidade de receber um dom externo, que é o poder solar. Por si mesma a Lua é Nova, pura potencialidade, e se nunca for iluminada pelo Sol, permanecerá na sua própria obscuridade indefinidamente. O que temos, por nós, é essa obscuridade da mônada que não atualiza nenhuma Percepção se não for a do reflexo da luz divina no seu próprio ser.

Vejamos na tabela abaixo alguns outros termos que podem ajudar a compreender a idéia da Metareflexividade:

PERCEPÇÃOAPERCEPÇÃOMETAREFLEXIVIDADE
Nitidez/Ofuscação Cristalinidade/OpacidadeDiscernimento
Qualidade do Objeto percebidoQualidade do Sujeito que vêQualidade da Origem da Relação Objeto-Sujeito
Clareza na visão do bem divino (objetos em Deus)Clareza na visão da visão do bem divino (sujeito em Deus)Clareza na visão da visão da visão do bem divino (tudo em Deus)
Consciência do ReflexoConsciência da consciênciaConsciência da consciência da consciência
Consciência em PotênciaConsciência em Ato PrimeiroConsciência em Ato Segundo
Satisfação primária da Apetição (qualidade do percebido)Satisfação secundária da Apetição (qualidade do percipiente)Satisfação plena da Apetição (qualidade da consciência de ser amado através da Percepção)
Ciência do SerCiência da PossibilidadeCiência da Presença
Consciência primária, “sensação inteligente” (Zubiri)FilosofiaMetafilosofia

Podemos traçar um exemplo através de uma cena ordinária: João vê seu gato dormindo e fica contente (Percepção, Potência, vida inteligente); João vê que vê seu gato dormindo e fica contente (Apercepção, Ato Primeiro, vida psíquica); e João vê que vê que vê seu gato dormindo e fica contente (Metareflexão, Ato Segundo, vida espiritual, ou vida na Presença).

Em termos do testemunho bíblico e evangélico a respeito da Metareflexividade, talvez não haja sinal mais evidente dessa realidade do arbítrio da consciência do que esta expressão de Jesus:

A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se teu olho estiver são, todo teu corpo ficará iluminado; mas se teu olho estiver doente, todo teu corpo ficará escuro. Pois se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as trevas!

Jesus está dizendo, entendendo nos nossos termos, que a verdade e a luz não são propriedades externas ao nosso ser, mas realidades da vida interior. O Reino de Deus está dentro de nós. Não adianta buscar isso fora. Não existe fora. O “fora” é uma ilusão da nossa idolatria. Só existe a Presença e a nossa Percepção dela. Qualquer realidade externa pode ser vista através de um olhar sadio ou doente. E cabe a nós cultivar ou não o dom da luz divina que nos permite ter um olhar luminoso. A Metareflexividade é a busca da consciência da vida na Presença, a busca de Deus no que é percebido e também no nosso ânimo de perceber, pois tudo é dom Dele.

O que é, afinal, a Metareflexividade? É a visão da visão, noesis noeseos, o encontro do Amor divino nas duas pontas da Percepção, naquilo que é visto e no espírito que vê o que é visto. Com isto entendemos finalmente que nós vivemos somente para amar e ser amados. A função da vida humana é a mais simples que se possa conceber, eficientemente e monadologicamente pela apreensão da natureza da substância simples, e finalisticamente e monadofilicamente pela apreensão do bem próprio da substância simples.

E esta pode ser a pedra filosofal da Monadofilia porque, se isto for atingido, o que mais pode ser necessário?

Não é esta reflexão a descoberta do Reino de Deus dentro de nós?

É exatamente isto.

Quem faz esta descoberta prescinde de qualquer outro recurso espiritual, pois tem a única coisa necessária, o verdadeiro Evangelho: a Boa Notícia de que Deus é Amor, e de que nisto consiste o Amor, em que não fomos nós que amamos, mas que foi Deus quem nos amou primeiro.

O Incondicionado no Prefácio da 2ª Edição da Crítica de Kant

Aquilo que nos impulsiona necessariamente a ir além dos limites da experiência é o incondicionado, que a razão exige necessariamente nas coisas em si mesmas e, com toda justiça, em todos os condicionados e, portanto, na série das condições como uma série completa. Se, quando se assume que o nosso conhecimento por experiência se regula pelos objetos como coisas em si mesmas, verifica-se que o incondicionado não poderia ser pensado sem contradição; se, ao contrário, quando se assume que a nossa representação das coisas, tal como nos são dadas, não se regula por estas como coisas em si mesmas, mas os objetos é que se regulam pelo nosso modo de representação, verifica-se que a contradição desaparece; e se, portanto, o incondicionado tem de ser encontrado não nas coisas enquanto as conhecemos (enquanto nos são dadas), mas sim enquanto não as conhecemos, enquanto coisas em si mesmas: assim se evidencia que tem fundamento aquilo que, no começo, assumíamos apenas a título de tentativa.”

Kant está nos dizendo que, por um lado, o Incondicionado é necessário para que o Condicionado seja possível, e que, por outro lado, se só possuímos conhecimento do que é Condicionado (ou através do Condicionado), o Incondicionado perde a sua qualidade de necessário, o que é impossível. Esta contradição só pode ser resolvida se considerarmos todo o conhecimento do Condicionado como uma representação de um conhecimento, e não como conhecimento direto.

Ele nada mais está fazendo do que uma recuperação de um dos temas mais antigos e importantes –se não for o mais importante–, da História da Filosofia: a diferença entre o que é por si e o que não é por si. Vejamos os nomes dados a esse contraste nas terminologias dos filósofos:

Parmênides-HeráclitoPermanenteTransitório
PlatãoIdéiaImagem
Aristóteles 1SubstânciaPredicado
Aristóteles 2PossibilidadeSer
Aristóteles 3FormaMatéria
Aristóteles 4EssênciaAcidente
Aristóteles 5AbstratoConcreto
Pitágoras-PlotinoUnoMúltiplo
AgostinhoAlmaMundo
Descartes 1Substância PensanteSubstância Extensa
Descartes 2Qualidade do DiscretoQualidade do Contínuo
Kant 1Coisa-em-SiRepresentação Fenomênica
Kant 2IncondicionadoCondicionado
LeibnizMônadaReflexo

Além da Filosofia, a Teologia também apresenta essa importante distinção na visão das coisas espirituais.

Quando Deus é chamado de “A Rocha”, por exemplo, estamos falando da mesma Substância permanente diante do qual todo os outros seres possuem uma substância derivada, ou relativa. Quando os Profetas acusam os ídolos afirmando que cada um é “Vazio”, é uma repetição da mesma coisa. Quando Deus diz para Adão, em Gênesis 3, que ele por si é apenas “pó”, é a mesma afirmação por novo ângulo. Já Jesus afirma que apenas uma coisa é necessária, e que devemos procurar em primeiro lugar o Reino de Deus diante do qual nada mais interessa (nada mesmo, inclusive a família, a religião, etc.), e ainda por cima diz que o Reino de Deus está dentro de cada um de nós. A contemplação disso é fundamental para o entendimento do dom da Presença.

Voltando ao Kant, procurando pelo “conceito racional transcendente do incondicionado”, que é a antiga Substância, ele tateia igualmente na direção da Unidade plotiniana e da Mônada leibniziana.

Ele verifica, com razão, que se conhecemos a verdade somente através dos objetos da experiência da transitoriedade, não podemos conceber o Incondicionado que é, aprioristicamente, necessário pela própria Razão, do contrário toda a lógica do pensamento é destruída, a começar pelo Princípio de Identidade. Só se pode preservar a necessidade do Incondicionado ao se relativizar o conhecimento obtido por experiência como uma representação da verdade, e não como domínio da mesma. Para que o Incondicionado mantenha a sua integridade, é preciso que o conhecimento experimental seja uma representação.

A repercussão dessa intuição é tremenda.

Monadofilicamente, por exemplo, afirmamos que as mônadas sem janelas do Leibniz só se conhecem pela mútua representação, de tal modo que todos amamos a Deus no fim das contas, através de vários reflexos, e é impossível conhecer o inefável, que é a singularidade monádica de outra pessoa (o tal do João não ama Maria, mas ama João na forma de Maria).

Também afirmamos, com tranquilidade, que é impossível uma mônada vir a ser por um processo natural de geração, tanto quanto é impossível que seja corrompida por um processo natural de entropia, podendo apenas ser criada ou aniquilada por ato puramente divino, resultando assim em absurda a hipótese de que qualquer alma humana dependa do processo natural de geração e corrupção da procriação animal da espécie para vir a ser.

As aplicações dessa intuição são intermináveis, é uma fonte ilimitada de sabedoria.

Tautologias da Razão no Prefácio da 2ª Edição da Crítica de Kant

Eles [cientistas modernos] compreenderam que a razão só entende aquilo que ela mesma produz.”

A física deve ser grata por procurar na natureza aquilo que a própria razão nela introduziu.”

Só podemos conhecer a priori das coisas aquilo que nós mesmos nelas colocamos.”

Qualquer gnosiologia responsável deveria concluir, ao fim da investigação do seu objeto, que a razão humana sempre vê a si mesma em reflexo quando abstrai totalmente a qualidade própria da representação. Nisto reconhecemos o mérito da filosofia kantiana que força a razão humana a reconhecer os seus próprios jogos. Mas porque esta investigação falhou na busca da noesis noeseos, a ponto de que a consecução desta filosofia não foi mais do que o engrandecimento do humanismo?

Poderíamos colocar a culpa nos discípulos, como sempre convém considerar, já que é uma situação tão comum, mas neste caso talvez não tanto assim. Se Kant assumisse como forma provável do ser aquela que mais conviesse a todos os possíveis contingentes, ele não poderia assumir a conveniência do Sumo Bem, nem que por hipótese? E se o fizesse, mesmo que dividindo claramente a tarefa da Razão Pura de uma Metafísica especulativa, não poderia progredir no avanço desta sem detrimento daquela? Talvez caiba-nos avaliar outras idéias da mente kantiana, como em suas Lições de Metafísica. O fato é que –e aí encontramos sem enganos a escolha do discipulado– seus sucessores decidiram erguer a Crítica ao cume mais elevado de todos, e este foi o legado histórico que recebemos até hoje. Mas não foi isso algo decorrente da escolha do mestre prussiano de trabalhar mais na ferramenta do que no produto final?

O fato é que a força do arbítrio humano sempre foi assustadora, e o prussiano, como tantos outros, talvez não tenha resistido ao puro medo dela. Ele precisava garantir a segurança moral do homem livre da Religião. Precisava expulsar o moralismo dogmático e fazê-lo sair por uma porta, para dar as boas vindas a um novo moralismo liberal e racional entrando por outra. Mas quando ele força a Razão humana a assumir a sua forma limitada, o que ele encontra, senão um arbítrio inexplicável? Diante da imagem e semelhança de Deus, não há forma de controle e de governo fora do autocracia do Amor divino, ao qual Kant não podia apelar. Ou seja, se todos os jogos humanos são arbitrados, este ser só pode fazer o bem porque o ama livremente, com aquele grau de pureza que assusta até hoje os críticos do voluntarismo escotista. Quando a Mônada se vê no espelho, pode encontrar nele a Esperança na forma da carência do Amor divino, mas também pode encontrar o terror do Nada que é o seu ser próprio. A convexidade da Mônada translúcida pode ser igualmente um convite ao Paraíso, bem como uma condenação ao Inferno. Estaria um neokantismo hoje pronto a reconhecer a Soberania da Mônada pela descoberta da Singularidade do Observador na Física, por exemplo? Ficamos na incógnita.

Segunda contraposição na citação de F. Bacon na C.R.P. de Kant

…e que estejam convencidos de que lutamos para assentar os fundamentos não de alguma seita ou opinião arbitrária, mas sim para a utilidade e o engrandecimento da humanidade.”

Continuemos com o contraponto à citação de Francis Bacon escolhida por Kant para a abertura da sua obra magna, a Crítica da Razão Pura.

Para um professor membro da Real Academia de Ciências de Berlim, até que o nosso cuidadoso e criterioso filósofo prussiano foi mais desleixado do que se poderia supor que seria ao escolher a supracitada frase de Bacon, porque não é difícil produzir o contraponto e ilustrar a inconsistência.

O referido autor quer que sejamos convencidos de que está fazendo um bem contrário a um mal, e designa o primeiro com os termos UTILIDADE e ENGRANDECIMENTO DA HUMANIDADE, em oposição ao que seria o assentamento de uma SEITA ou OPINIÃO ARBITRÁRIA.

Mas será que as idéias, respectivamente, de utilitarismo e de exaltação da humanidade (ou progresso), são tão separadas e opostas das idéias de seita e opinião arbitrária?

É o que se teria que ter como premissa autoevidente para que o argumento funcionasse. Mas não é o caso.

Por um lado, o utilitarismo, que é um sistema de valoração que atribui bondade ao que é útil e maldade ao que não é, ao contrário de ser uma verdade óbvia acima de qualquer questionamento, é uma idéia altamente questionável, especialmente do ponto de vista moral, mas não somente (dado o óbvio problema do relativismo de uma ética utilitarista).

Por outro lado, o humanismo, que é um outro sistema de valoração que atribui bondade ao ser humano e aos seus empreendimentos civilizacionais, culturais e históricos, também pode ser questionado facilmente, como aliás era o caso na cultura imediatamente antecedente, a medieval, para não falar da antiga.

Ambos, tanto utilitarismo quanto humanismo, podem ser aderidos como opiniões arbitrárias e também servir de base para a fundamentação de uma seita, como a seita dos iluministas, e acabam que devem ser, pois o contrário sempre é igualmente crível: que há valores superiores ao do critério de utilidade, assim como que há possíveis objetos superiores acima da devoção à idéia da humanidade.

Isso só poderia passar despercebido ao momento do Aufklärung justamente porque este movimento cultural faz parte da dialética histórica, ou seja, de um mero ajuste contra um excesso histórico que já havia produzido muita cristalização na outra direção, especialmente através da concentração de poder nas mãos da Igreja Católica. Esse era o verdadeiro problema, cuja solução iluminista, ao invés de temperar na medida certa e buscar uma correção mais afinada, causou excesso para o outro lado, o que teria então que ser novamente corrigido dialeticamente, e assim por diante.

Tudo ficaria mais fácil, ou, em outros termos, o ajuste seria mais refinado, se o ser humano se concentrasse no seu fenômeno moral como centro da sua realidade, e produzisse a visão de mundo mais adequada ao respeito à sua liberdade, ao invés de compensar um gnosticismo com o outro. Já falamos aqui sobre a dialética gnóstica do Ouroboros. Esse é o perigo constante das reações para os dois lados da história. A dor é real: uma agressão contra a liberdade humana, dom divino de um ser feito à imagem e semelhança do Criador. Mas a solução é falsa, pois custará a clareza da liberdade por outro lado. Exatamente como ocorre com os iluministas. Eles reagiram a uma dor causada pela opressão da liberdade em decorrência do dogmatismo da ortodoxia religiosa. Se apenas defendessem a realidade do império da liberdade, sua correção operaria com a restrição devida. Mas a pancada vem como uma reação violenta proporcional ao dano sentido, gerando um novo dogmatismo. Liberta-se do antropocentrismo que idolatrava o homem ideal do passado, religioso ortodoxo, para prender-se no antropocentrismo que idolatra o homem ideal do futuro, racionalista iluminista.

Jogou-se fora, na reação contra a forma concreta da fé religiosa, a sabedoria da fé como dom puro decorrente do fenômeno liberdade humana de crer, e entronizou-se assim esses totens como a Utilidade ou a Humanidade, em atitude de total desprezo ao Amor de Deus. A culpa por todas as insanidades iluministas deve recair sobre a Religião: se não fosse o abuso religioso, nunca teria havido a abuso da reação contra ele.

Além do desprezo ao Amor de Deus, há o desprezo ao próprio ser humano, algo que é irônico numa agenda humanista, mas esta é a realidade: o humanismo é anti-humanitário por violar, enquanto crença arbitrária no ídolo do homem, o verdadeiro valor humano que está na liberdade de crer num ideal muito superior ao humanista, que é o divino.

Rejeita-se não apenas o Amor de Deus, mas a própria Soberania humana.

A linguagem de Bacon, preferida por Kant para ilustrar a sua própria intenção, propõe crenças como razões contrárias ao pensamento de seita e ao arbítrio humano, uma óbvia cegueira, falta de visão da visão, noesis noeseos, que é a verdadeira consciência humana: consciência da liberdade, e da força da Vontade para arbitrar os objetos do Intelecto. Se os iluministas tivessem investigado isso, estariam muito mais pertos de realmente superar a escolástica medieval, pois corrigiria o que realmente carecia de correção, para não falar de destruição: a Gnose.

Porém, a citação de Bacon não se encontra no fim da Crítica, mas no seu começo, o que é significativo. Kant, ao seu modo, mesmo que ainda algo iludido com as luzes do racionalismo, pretende criticar o próprio sonho de Bacon e colocar-lhe limites, ainda que não pelas razões certas. Monadofilicamente, a obra do prussiano parece-me ambígua. Se considerarmos a sua preocupação de defender uma moral degradante em face do próprio Iluminismo, podemos tê-lo, senão como um verdadeiro amante da sabedoria, ao menos como um inimigo da ignorância, o que já é alguma coisa.

Revisão da origem dos Sindar e Teleri a partir da RSMM

Com a Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM) evidenciamos finalmente que embora nenhuma alma tenha jamais “pedido para nascer”, todas elas possuem a sua medida de experiência necessária para a solução ótima (Coruscância Calaquendi) que torna eventualmente conveniente o seu nascimento sob determinada condição, inclusive a Sindar.

Seria absurdo presumir que a acidentalidade da escolha particular de uma mônada interferisse nesse grau na experiência de uma outra. Esta dificuldade sempre me incomodou. Já havia reduzido o problema ontológico com a Mútua Representação, mas permanecia essa dificuldade da força das obras da carne como um arbítrio que, embora fosse sempre permitido por Deus, teria sua razão em suspenso. É claro que poderíamos manter essa razão no grande conjunto dos mistérios divinos, mas com a RSMM detectamos que a força da liberdade de cada mônada de carecer de certa experiência para alcançar o ponto ótimo de decisão, já conhecido desde a Eternidade por Deus, seria um fator muito mais determinante desse condicionamento do que a força de um terceiro.

Dito isso, qualquer alma particular poupada de nascer pela virtude de abstinência de seus potenciais pais num mundo determinado conserva em si a sua carência de experimentar a melhor condição possível, considerada a RSMM, em outra realidade em que seus pais realizem a sua potência generativa. Isso não só preserva a integridade da Mútua Representação, como reforça o aspecto interior da experiência humana com Deus, quase alcançando a analogia pura da Simulação. Em outros termos: a imitação de Cristo, ou a vocação da Abstenção do Poder, em nada interfere no destino das demais mônadas, mas apenas naquela que exerce a sua discricionariedade diante de Deus. A rejeição do Pecado Original é um ato totalmente interior: na sua intenção, na sua realização, e nos seus efeitos. Em nada convém que a arbitrariedade de uma mônada interfira no exercício da liberdade de outra diante de Deus. As coisas são como devem ser, se não exatamente, marginalmente próximas do ótimo com a variação mínima da latitude necessária para a própria RSMM.

Quem se abstém de agir com Presunção na reprodução das obras da carne, embora evite a causa de um malefício particular percebido como imediato, não tem o poder de poupar uma alma de passar pela experiência análoga em qualquer outra realidade, porque a necessidade dessa experiência é determinada pela RSMM do próprio nascituro. Vivemos todos sempre e apenas para Deus, na Presença. Aquele que evita a produção do mal realiza a sua ação diante de Deus, para se aproximar Dele. E aquele que nasce é vítima, por assim dizer, de si mesmo, desde que precisa realizar a sua liberdade com algum grau inescapável de experiência do mal. Não abolimos, assim, a realidade moral. A responsabilidade, na verdade, aumenta, porque a renúncia do mal não implica apenas na mudança de um acidente, mas sempre numa ação moral diante do Altíssimo. O amor ao próximo como dom de perdão pode atingir, através da compreensão disto, o seu auge: não depende daquele que é perdoado alcançar um benefício moral, mas daquele que perdoa, porque aceita a sua condição como Cruz determinada pela Providência. Vemos, assim, como a moralidade do Antinatalismo está perto e longe ao mesmo tempo da verdade da condição humana: compreende o mal da Pretensão e da irresponsabilidade moral, mas não entende como a realidade do nascimento é permitida por Deus para a realização da sua própria liberdade. Os que seguem esta linha de pensamento evitam, na sua cegueira, a graça de descobrirem o maior mérito da sua posição de rejeição do Pacto Ouroboros, que é a vida na Presença. E não vamos nos esquecer que tanto quanto a RSMM explica a necessidade que tais e quais almas nasçam na condição Sindar, ela também explica porque muitas devam experimentar a particularidade da paternidade e maternidade. Ninguém pode privar realmente uma alma de participar no Pecado Original: àquelas que prescindiriam dessa experiência, outra realidade já lhes seria providenciada, como esterilidade, acidentes, etc. Desejar que o outro não exerça a sua liberdade é na melhor das hipóteses um incômodo que não muda o dever-ser da mônada, e na pior é um indicador da dureza da alma daquele que quer interferir.

Resta-nos revisar a origem dos Teleri nos tempos interressurreicionais como exclusivamente dedicada às almas que sempre possuíram uma RSMM adequada a essa modalidade criativa. Deste modo, os filhos potenciais que nunca teriam a oportunidade de nascer como Sindar podem encarnar como Teleri, sempre uma multidão muito maior do que os que nasceram neste mundo. Mas os não nascidos por abstenção, se tivessem que nascer o farão de qualquer modo, em qualquer outra realidade que lhes seja apropriada, com pais dispostos, etc.

Antes entendíamos, erroneamente, que o ato de preservar uma alma de nascer numa condição particular como resultado de participação no Pacto Ouroboros teria o poder de enviá-la imediatamente à melhor condição de criação direta por Deus no âmbito do Milênio. Somente Deus teria esse poder, e o exerceria obviamente se isso correspondesse ao ótimo determinado pela RSMM de cada mônada. Se esse fosse o caso, porém, nenhum de nós teríamos o poder, ao contrário, de encarnar uma alma neste mundo, se ela pudesse ser criada em outro melhor. Não podemos assassinar quem não seria assassinado de qualquer forma, assim como não podemos poupar uma pessoa de experimentar o mal se isto for condição da RSMM, mas podemos apenas poupar a nós mesmos de experimentá-lo e produzi-lo. Se alguém tem que ser assassinado, por assim dizer, só podemos evitar que sejamos nós quem cometamos o crime, mas não que o crime em si seja cometido, se isto é uma experiência requerida por aquela mônada. Com a RSMM temos a medida delicada da fina fronteira entre Determinismo e Livre-Arbítrio: modificamos a nossa vontade livre, com a condição que aceitemos a impossibilidade de modificar a alheia.