Não espere um final feliz em nenhuma estória que tenha sido contada ou inspirada pelo mestre do terror Stephen King. E para a nossa finalidade aqui também não adianta esperar nada espiritualmente produtivo, por razões óbvias.
Eu até gostaria de dizer que este filme é apenas ruim, mas a nossa situação é ainda pior, porque é um filme estúpido.
Temos um pai de família ilhado com seu filho num supermercado enquanto a sua cidade é cercada por uma névoa misteriosa cheia de monstros perigosos. Todo o filme gira em torno do mistério do que está acontecendo.
No original em inglês o sentido do título é mais completo, já que Mist quer dizer névoa, ou nevoeiro, que é um termo que também dá a etimologia de “mistério”. O desconhecido gera todo tipo de reação no ser humano, e esse é o tema do filme.
Em primeiro lugar existe a reação de descrença e ceticismo da parte de figuras antagônicas que obviamente vão pagar caro o preço por sua visão crítica, da forma mais sangrenta possível, do jeito que o povo gosta.
Em segundo lugar existe a reação de integração entre o fenômeno atual e a visão mística e religiosa da população local, estimulada pela personagem de uma mulher mais ou menos histérica e carismática que vai vincular os fatos vividos pela comunidade com um certo senso meio desencaixado das profecias bíblicas a respeito do fim dos tempos.
A realidade nua e crua, nos termos mais materialistas, é a de um incidente numa base militar próxima, onde as forças armadas teriam supostamente aberto um portal por onde a névoa e seus monstros puderam entrar no nosso mundo, vindo de uma outra dimensão.
De fato, quem faz o mal entrar no mundo é o ser humano, mas o terror mais real é o mais prosaico e ignorado de todos, já que ninguém seria obrigado a experimentar nem a primeira das maldades se sua exposição não fosse forçada pelo nascimento num mundo decaído e amaldiçoado. Mas vamos deixar isso para lá.
Eventualmente o fanatismo da líder religiosa do supermercado faz com que o nosso protagonista resolva empreender uma fuga com alguns aliados, algo que vai terminar da forma mais estúpida possível quando o combustível do carro de fuga acaba e eles surpreendentemente não sabem o que fazer com esse fato mais previsível do que o pôr-do-sol de todo santo dia. Desesperado, o nosso herói resolve matar todos os seus companheiros de fuga, inclusive seu filho. Mas ao término da estória, descobre que a salvação estava muito próxima, com a chegada de um comboio militar de resgate. Uma última olhada acusatória da parte de uma mulher à qual o nosso herói recusou ajudar no início do filme soma ao remorso uma última pitada de culpa.
O que dizer de um final tão patético, para não dizer mesmo, como já disse, estúpido?
Só posso dizer que é uma apologia do mal como triunfo do caos e do absurdo, e essa é a intenção não digo nem do gênero do terror no cinema como um todo, mas do espírito mesmo de Terror, ou Pacto com o Inferno, que é o maior beneficiário desse tipo de “arte”.
Não existe redenção, nem superação, nem salvação de nenhuma espécie.
Ao fim até mesmo a pentelhíssima chefe religiosa do supermercado, apesar de seu absurdo radicalismo de líder teocrática, ao confiar numa providência do jeito mais torto e corrompido possível, estava mais próxima de alcançar uma solução para o problema através do seu sistema de sobrevivência, que apesar de nefasto tinha alguma eficiência ao manter certa ordem social, do que nosso herói ilustrado e esclarecido que não aguentou nem mesmo a tentação de matar seu próprio filho.
Neste sentido este filme mostra os horrores da religião ao mesmo tempo em que mostra a sua necessidade, de vez que diante do desconhecido até a fé mais deturpada e desviada é mais forte do que a crença na salvação que dependa de recursos próprios, a qual tende a acabar na sua fraqueza cedendo ao desespero inevitável de quem não crê em nada além e acima de si mesmo.
O filme conta esta estória espiritual: o filho inocente de um pai descrente é apresentado a um mundo cheio de perigos e ameaças desconhecidas, e quando seu progenitor é desafiado a protegê-lo até o fim depois de já ter escolhido encarnar a criança neste mundo, falha miseravelmente ao sucumbir ao desespero derivado da sua falta de fé.
Não querendo ir muito a fundo agora, mas interessado não obstante em notar algumas particularidades da nossa cultura mais tradicionalista, conservadora e direitista, quero chamar a atenção para o uso que se faz daquelas figuras bíblicas monstruosas no Livro de Jó, o Behemoth e o Leviathan, dentro do discurso político contemporâneo, ao menos dentro de certo pensamento que pretende ser entendido de simbolismos e misticismos, ao estilo ocultista.
Se algo aliás precisasse ser levantado como prova contra a pretensa caridade cristã desse pensamento político, seria suficiente apontar para esses segredos esotéricos. As coisas de Deus são simples e claras, embora possam ser, e muitas vezes são, também profundas e sutis. Mas os mistérios de Deus não estão ocultos de forma que uma coisa signifique outra, ou seja, uma violação à veracidade do valor de face da Revelação. E este é o problema mais antigo do cabalismo e da tradição como um todo (e de todas as religiões), porque advém de uma esperteza humana que se diz a herdeira mais fiel possível da Revelação, mas na qual só podemos confiar através de seres humanos iguais a quaisquer outros: eles invertem as coisas. Tudo pode ser falsificado, inclusive a santidade e a caridade com maneiras pirotécnicas que traem a pureza das coisas divinas com sinais, prodígios, milagres, e todo tipo de truque que se possa imaginar.
Idealmente, porém, não precisamos nem levantar essas reflexões, porque a desmoralização do político cristão se dá pela força mesma da sua incongruência de querer misturar a Cidade de Deus com a Cidade dos Homens. Quem quer se eleger em nome de Jesus Cristo para ter poder sobre os homens pretende ser justo diante de Deus e sábio diante do próximo, e as duas coisas são condenáveis. Uma realidade completamente diferente é a do dever de estado de quem se vê, por circunstâncias providenciais, com o poder político que nunca desejou e nem tramou a posse. Nestes casos aplica-se a filosofia política, como na situação da herança de um poder que legitima o direito divino dos reis. Mas uma eleição já não é um processo cuja origem viola essa integridade moral? Quem se candidata não tem pretensão de ter o poder e, assim, não se coloca como sábio ou justo o suficiente? O governante mais justo é sempre relutante, e faz o contrário de um candidato: foge do poder com todas as suas forças, porque teme o mal, isto é, tem a verdadeira inteligência. Este é quem deveria governar, aquele que nunca se colocaria no poder por si mesmo, mas que só pode ser colocado pela ação de uma força divina inescapável, como vemos no caso de Davi em contraste com Saul. Por isso os “governos cristãos” desde a época dos reis medievais já não existem mais nem sequer como possibilidade. A própria democracia garante isso, que só o mal possa triunfar, porque só quem se pretende bom o suficiente para ser candidato pode ser eleito. Daí só resta a escolha do mal, mesmo que seja do chamado “mal menor”, essa pobre e fraca consolação moral, um remédio sempre insuficiente. E se disserem que todas as outras formas de poder sustentam tiranos, então está provado com isso não o mérito da democracia, mas o demérito de toda a sociedade humana que pretende governar a si mesma, quando o seu único governante deveria ser Deus. O governo de Deus equivaleria ao mútuo desarmamento e à multiplicação dos reinos e nações, junto com grande paz e prosperidade, o amplo direito migratório, e por fim o aumento progressivo da adesão das pessoas livres à vida consagrada, significando a superação do Pacto Ouroboros e o chamado voluntário da humanidade ao Segundo Advento e ao governo do Rei dos Reis, Jesus Cristo (v. Capítulo “A melhor geração” em A Coruscância).
Mas voltando ao tema principal, o ocultismo. Enquanto a menção divina aos monstros bíblicos presta santamente à inspiração de humildade e temor no coração de Jó, a Gnose (a salvação pelo conhecimento secreto) quer nos dizer que sempre tem algo mais por trás, e que esse algo é mais importante do que o que pensamos sobre a primeira impressão, ao ponto de que pode ser chamada de “a verdade” de fato, oculta sob as primeiras impressões e decifrável somente pelo sábio especialista, o ocultista, o esotérico, o iniciado nas etimologias, numerologias, etc. Essa mentalidade valoriza o segredo e um certo elitismo esotérico que é típico de todas as religiões, que é o que as torna comuns e enraizadas no grande segredo de todos que é a Tradição Primordial, isto é, o próprio Pacto Ouroboros.
Quando William Blake produz a imagem da luta entre os monstros, sua idéia não é aquela simples da inspiração do temor e da humildade. Essas virtudes são para os ignorantes, não iniciados. A idéia de Blake é a de um processo de produção de realidades pelo controle de oposições, como na alquimia. E é por isso que a identificação do Ouroboros com o Leviathan é equivocada (assim como a identificação dele com o Behemoth, ou Demiurgo): antes, o Ouroboros se liga à figura do controlador de ambos os monstros, já que é a relação entre os dois que constitui o ciclo de criação, destruição e renovação que mantém tudo sob o controle do “criador”. Mas este, se cria algo, é como criador de uma mentira, aquela mesma que será destruída pelo sopro da verdade de Jesus Cristo. O “deus” da imagem de Blake não é o verdadeiro Criador de todas as coisas, que na pureza da sua santidade nunca precisou fazer uso do mal para produzir o bem, mas é o usurpador do lugar de Deus, que precisa fazer o uso dialético de forças antagonistas para obter o controle dialético a realidade. O Ouroboros, como já expus antes, controla as oposições ao seu propósito, que é o de manter almas escravas do seu sistema de dominação, gerando ao lado da tese a antítese, e ao lado do Behemoth, o Leviathan.
Agora, entre os entendidos (ou iniciados?), tradicionalistas de certo direitismo contemporâneo, temos figuras como Olavo de Carvalho no Brasil, ou Alexandr Dugin na Rússia, que concordam com o misticismo esotérico de Blake.
De minha parte não posso disputar, falando simbolicamente, contra a idéia de que haja uma guerra de monstros, mas esta pode ser identificada dentro do ser humano desde a origem e mais apropriadamente, como em Gênesis 3, do que na mitologia dos monstros do livro de Jó.
Quando a mulher e a serpente são condenadas a perpetuamente manter-se em conflito até o fim dos tempos, a mulher pisando na serpente, e a serpente mordendo o pé da mulher, já temos aí a imagem da dominação do Ouroboros: a mulher servindo à perpetuação do estado decaído, querendo livrar-se da maldição e da perseguição da serpente, e a serpente atormentando a mulher e sua descendência com a sua acusação da desobediência a Deus. Exatamente as duas faces do Gnosticismo, o exotérico e o esotérico, Behemoth e Leviathan, a Tradição e a Revolução.
Aqui no Brasil, Olavo trouxe a imagem dos monstros em luta e o uso simbólico dessa figura na introdução do seu livro A Nova Era e a Revolução Cultural. Aliás, usou até mesmo a ilustração de Blake na capa do seu livro, e o mencionou no texto. Vejamos algo do que ele diz sobre o tema:
Não conheço essa “aplicação rigorosa do simbolismo cristão” que foi mencionada, e até poderia ir atrás, mas suspeito de que se trata de segredos impossíveis aos não iniciados, porque na minha modestíssima leitura bíblica não entendi nada disso do livro de Jó. Mas, novamente, não sou iniciado nesses mistérios, e cá entre nós não estou muito interessado em ser.
O fato é que até este ponto Olavo elogiava o recurso da vida interior, como vida espiritual (ou ao menos um resquício dela), em direção ao escape da dialética dos monstros, embora já tenha apontado para a obediência de Behemoth em contraste com a rebelião de Leviathan, o que é uma idéia problemática para dizer o mínimo. Ou talvez não seja, se pensarmos que o criador de Behemoth e Leviathan é o Ouroboros que se coloca no lugar de Deus, e a quem ambas as reações significa submissão ao seu poder, seja a obediência ou a rebelião, o gnosticismo exotérico das religiões, ou o gnosticismo esotérico das seitas e heresias.
Senão vejamos quais são as qualidades do “obediente” Behemoth: ele impera “pesadamente sobre o mundo“, criado em “unidade de essência” com o homem, um “poder macrocósmico e uma força latente na alma humana“, um “poder material“, ele é o “peso maciço da necessidade natural“, ele é a “natureza” que combate contra “as forças rebeldes antinaturais“, e é a “necessidade implacável“.
Quais dessas qualidades apontam para a santidade de Deus? Nenhuma.
Deus é Amor, ele é revelado assim pelo Filho de Deus em pessoa, que pessoalmente renunciou ao seu poder de julgar e destruir para indicar a natureza da essência divina no perdão e na misericórdia.
Literalmente Jesus abriu mão do seu poder para exercer o seu amor.
Transformar pedras em pães, ser resgatado de um salto no abismo ou governar todas as nações da Terra, todas essas tentações resistidas por Jesus Cristo mostram a supremacia da sua santidade, do que é a verdadeira realeza espiritual, sobre a falsa majestade de um poder cego e monstruoso que trai o Amor, que é a essência do monstro Behemoth.
O Behemoth é um monstro que, se tem função, como veremos, é a de no fim ser destruído com o seu insuspeito parceiro, o Leviathan, para que seja revelada a perversidade da mentira do Oubororos, a Serpente do Mundo.
Isso quer dizer que o Behemoth é o deus dos tradicionalistas, assim como o Leviathan é o deus dos revolucionários.
Um arrasta o homem para a servidão da carne e do sangue, e o outro domina a revolta contra essa servidão dirigindo-a contra o Deus verdadeiro, acusando-o de ser o Demiurgo deste mundo com a intenção de aprisionar almas inocentes sob a escravidão da matéria.
Ambos os monstros servem ao Ouroboros, ou até mesmo constituem o espírito da Serpente do Mundo, porque seja como obedientes ao diabo na manutenção da terra decaída e amaldiçoada, ou seja como aliados dele na rebelião contra o Deus verdadeiro, de qualquer modo ambos tradicionalistas e revolucionários são servos do mesmo mal que quer manter o império da sua usurpação.
Aqui está o ponto marcante que evidencia essa interpretação: o poder de Behemoth reside no ventre. Esse é o deus dos tradicionalistas: o ventre humano através do qual se perpetua o Pacto Ouroboros. Já verificamos várias vezes o valor desse simbolismo da união do masculino e do feminino, quando falamos do hexagrama, do esquadro e compasso da maçonaria, etc. O encontro dos sexos é o poder que sustenta o Ouroboros. A “obediência” ao poder da “necessidade implacável” sustenta uma natureza que não é posta como decaída e amaldiçoada por decorrência da queda em Gênesis 3, obviamente, mas como se fosse a pura manifestação do desejo de Deus e não uma realidade decorrente da ruptura espiritual com o Criador. Afinal, esse “deus” gnóstico faz uso das trevas junto com a luz, do mal junto com o bem, etc.
Olavo devia ter alguma intuição ou mesmo esclarecimento dessas coisas, quando chama a ambos de monstros e de “forças cegas”, aos quais opõe a vida interior na qual o ser humano poderia vencer “com a ajuda” de Jesus Cristo. Obviamente essa é uma diminuição iniciática da verdadeira salvação, já que a vitória contra o mal e a mentira é uma ação divina, e ao homem cabe apenas aceitar e receber a Graça da sua salvação. Mas pelo menos parecia haver até aqui uma certa possibilidade de superação da dialética dos monstros, ou, se quiserem, das alternativas políticas. De forma ambígua e obscura, é verdade, mas possível de qualquer modo.
Em outra parte, num escrito separado e futuro, Olavo parece ter dado notícia disso com outra menção a esses símbolos:
De novo o Behemoth é o “monstro do bem”, o “hipopótamo da ordem divina” contra o “crocodilo da rebelião“, uma idéia provavelmente advinda do simbolismo egípcio onde o enfrentamento dessas feras nas cercanias do Nilo sempre sugeriu noções espirituais àquele povo. E perguntemo-nos: por quais meios veio o esoterismo egípcio impressionar a visão moderna, senão pela influência das sociedades ocultistas?
Mas, e de novo ambiguamente, parece que o confinamento do conflito espiritual entre os monstros “no interior da alma” poderia levar à sabedoria. E isso eu não posso negar, já que o entendimento do propósito comum entre os gnosticismos exotérico e esotérico me ajudou muito a compreender a dimensão da dominação do Ouroboros sobre esta humanidade de cativos. Essa conclusão, porém, Olavo não pode tirar, porque para ele justamente um lado da monstruosidade deste mundo têm a suposta razão do serviço obediente a Deus.
E para mostrar como o modesto erro dessa noção poderia levar a grandes erros como consequências futuras, temos o desenvolvimento da idéia desde uma perspectiva de confinamento do conflito no interior da alma até uma ação justificada no próprio conflito externo, com a desculpa da dialética histórica:
Aqui já não se trata apenas de vida interior, mas de ação externa, com efeitos na cultura, na política, etc. É engraçado que se lermos atentamente ao que Olavo diz aqui, percebemos que ele ainda tem uma linguagem que dá conta do quadro maior, embora ele não assuma as necessárias repercussões disso. Ele mesmo diz que a esquerda não é o mal encarnado, e que o espírito revolucionário pode ser ora direitista, ora esquerdista. Isso poderia levar a conclusões excelentes, se o filósofo buscasse a essência comum dos monstros a serviço do Ouroboros, porque a verdadeira revolução contra o governo de Deus é a traição do Pecado Original. Mas ele não faz isso. E se não faz, é porque já decidiu sair da esfera do esclarecimento da luta interior para o da participação na dialética histórica. Olavo já não quis somente buscar e dar o testemunho da verdade para a glorificação de Deus àquelas poucas almas interessadas. Não lhe basta. Quer ser influente, quer alterar o curso das coisas, o destino das massas (a “rocha nua” que os maçons querem transformar no “Estado” para construir o Reino de Deus na Terra), e por isso se engaja também na atualidade onde supostamente a esquerda teria de ser combatida até que certo equilíbrio de forças pudesse ser restaurado (“até que a roda da História complete seu giro“). Por isso podemos dizer que, até onde enxergamos, Olavo escolheu ser um Bispo no Sistema da Besta ao deixar de denunciar o esquema do Ouroboros, e ao participar da legitimação do mesmo pela validação do Tradicionalismo, do Behemoth.
Tive o privilégio de verificar a consolidação dessa decisão no decorrer de uma década na qual acompanhei mais de perto o trabalho do filósofo. Aos poucos Olavo deixou de se importar com a sua pesquisa de maior valor, aquela que só tinha repercussão com uns poucos –e qualquer aluno mais antigo sabe que ele sempre deixou seus grandes projetos pelo meio do caminho–, e passou cada vez mais tempo se engajando na cultura de massas, com o incentivo da busca do poder político e religioso na suposta missão de treinar uma futura elite política brasileira.
Olavo morreu, mas o Tradicionalismo continua firme e forte. E temos o exemplo daquele outro filósofo russo, Dugin, com quem aliás Olavo chegou a disputar certa vez o tema da Nova Ordem Mundial.
Dugin também interpreta o Leviathan como a força do ateísmo, da desordem e da modernidade. O monstro das águas precisa ser derrotado. Seu adversário é o monstro da terra, da tradição, da religião, da ordem, etc., o Behemoth. Puxando esse simbolismo para o que lhe interessa, que é a justificação do papel histórico e, porque não dizer, messiânico, da Rússia, no “coração da terra”, Dugin afirma que o Leviathan está encarnado no processo histórico derivado da manifestação do poder do Império Britânico, marítimo, colonialista, mercantilista, capitalista e globalista, em oposição ao Behemoth que se encarna na manifestação do poder do Império Russo, terrestre, tradicionalista, nacionalista, socialista. As ideologias que representam a concentração dessas duas manifestações, por sua vez, são o Atlantismo e o Eurasianismo.
Talvez o que escape (ou não?) a Dugin, como escaparia a Olavo, é a evidência de que o processo histórico inteiro de desobediência a Deus se dá através desse conflito dialético, porque é o desenvolvimento do Ouroboros contra Deus, usando de ambas as forças de obediência e de rebelião para dirigir a sua grande e primordial rebelião contra o governo divino.
Escatologicamente, enxergamos isso no Fim dos Tempos quando tudo é revelado, finalmente (daí que o último livro bíblico se chama Revelação, ou “Apocalipse” em grego, porque é o tempo da revelação não só de Deus na pessoa do Filho, mas do inimigo como o Ouroboros, o Pai da Mentira): a Besta do Mar e a Besta da Terra se unem contra o Criador de todas as coisas, revelando sua verdadeira natureza.
De um lado, pela Gnose Tradicional, ou Exoterismo Gnóstico, o Tradicionalismo identificava o Ouroboros como se fosse o Deus verdadeiro, exigindo a perpetuação do Pecado Original, o sacrifício de sangue, o temor do inferno, e a obediência à tradição.
De outro lado, pela Gnose Revolucionária, ou Esoterismo Gnóstico, para controlar as oposições e dominar as dissidências, o Revolucionarismo identificava o Deus verdadeiro como Demiurgo que fez a substância espiritual decair para a material, aprisionando almas inocentes no seu esquema de poder.
No Fim dos Tempos finalmente Behemoth e Leviathan juntam-se para fazer guerra aberta e declarada contra Deus, a Besta da Terra e a Besta do Mar, o Falso profeta e o Anticristo. Uma humanidade unida no espírito da grande rebelião.
Note-se: a Besta da Terra fará com que todas as nações do mundo adorem a imagem da Besta do Mar.
Isto quer dizer que o fingimento da ortodoxia religiosa no suposto serviço do Deus verdadeiro se converterá na validação da grande rebelião luciferina, de modo que a Tradição Primordial, que é o Culto do Ouroboros, será revelada como a Religião Universal.
É por isso que qualquer desejo sincero de obediência ao Deus verdadeiro sempre vai entrar em conflito com a ortodoxia religiosa, inevitavelmente, porque o Espírito Santo dá o testemunho da verdade que está fora das mentiras da Tradição. O Senhor nos antecipa desde já aquela última Revelação, mostrando-nos, pelo menos até onde nos for suportável, que todas as religiões estão enraizadas naquela Tradição Primordial que é o Culto da Serpente.
A Serpente do Mundo, o Ouroboros, terá a sua mentirosa rebelião destruída com o sopro da verdade que sairá da boca do Filho de Deus, como sabemos.
Até lá o que podemos fazer é fechar os livros dos “mestres” do simbolismo oculto, Olavo, Dugin e tutti quanti, e reabrir o Livro de Jó, o primeiro dos livros de sabedoria, para reaprender o sentido mais simples e profundo da lição divina: o de que a vitória divina é garantida, infalível e devastadora, e que a salvação humana está na humildade que sai da frente do seu Senhor, que lhe abre o espaço para sua obra, a Ele que já declarou: “a mim pertence a vingança“.
Não temos que realizar nenhuma missão social, cultural ou política, porque estas vitórias são vazias e capturadas pelo engenho dialético do Ouroboros.
Nossa vitória é interior, na dimensão da nossa alma, na forma da renúncia ao mal e da participação na corrupção do espírito do mundo, com o desejo da realização da ação divina na nossa alma e no mundo.
Nossa submissão ao Ouroboros se dá pelas ambições da vida mundana: familiar, econômica, política, cultural, etc., o querer participar do destino do mundo, um mundo que já foi acusado, julgado e condenado pelo Espírito Santo.
A nossa entrega ao Deus verdadeiro se dá pela vida espiritual, que é o desejo de participar da Eternidade.
Presta um bom serviço quem honra a própria natureza em fidelidade ao ideal que a formou, no lugar de prestar culto e pagar tributos a outras demandas estranhas a sua essência. É assim que nos aproximamos de Deus conforme estranhamos tudo no mundo que diminua a evidência da sua bondade e do seu governo justo, como o que deriva da história da usurpação humana contra o Trono.
Digo essas coisas em caráter de introdução dos meus leitores ao problema, bem típico, que ando enfrentando agora: o da escolha entre a fidelidade a uma forma de trabalho mais ideal e perfeita, porém menos funcional, ou outra mais adequada ao sistema do mundo humano, mas menos adequada para a chamada do próximo a um nível melhor de entendimento da realidade.
Pode-se pensar que esse tipo de questão é menor, ou até uma futilidade, mas só julga assim quem não possui mais (se é que já possuiu) o poder de apreciação da verdade das formas das coisas. Somos humanos e, portanto, capazes pela nossa liberdade para definir os mais sutis e efetivos caracteres das nossas ações, de modo a produzir influência em nós mesmos e nos outros de modos muito variados e ricos, com tanto mais poder quanto mais algumas almas queiram manter-se ignorantes do sentido daquilo que lhes impressiona. Quando dizemos, por exemplo, que alguém sofre de apeirokalia, estamos falando disso certamente: de uma profunda incapacidade de percepção de sutilezas. E pois bem, eis a questão mesma que se me apresenta: tratar de temas que requerem uma riqueza maior na sua lida da forma como merecem, ou na forma de um mundo que as despreza na sua sutileza.
Ora, se o mundo detesta o valor do detalhe das coisas, e o meu trabalho é o de “pescar homens”, ou seja, resgatar os que tiverem olhos e ouvidos para receberem um chamado para fora da confusão em que foram enfiados, como farei isso se me preocupar com a forma que mais agrada ao espírito do mundo de cujas garras mesmas eu desejo livrar aqueles irmãos que estão perdidos por força dele?
Usar do mundo sem se deixar escravizar por ele: essa é a lição do Apóstolo, e é uma grande tarefa que exige uma sabedoria que apenas Deus pode nos dar. É assim que uso a língua portuguesa, os computadores, a internet, etc. E devo ir além, abandonando a preocupação de agradar o mundo nas suas preferências que tendem à dissolução das almas, e produzindo o que tem maior valor de acordo com uma régua mais benéfica.
Essa medida mais positiva leva em conta a essência espiritual do ser humano: a sua liberdade. E a liberdade é a primeira coisa vendida no altar dos sucessos mundanos. Faz-se o que é preciso ser feito, e assim aos poucos o comprador da vitória vende dia a dia a sua integridade moral, a sua felicidade, a sua liberdade de ser quem é.
É preciso escolher entre ser feliz ou ter razão.
A felicidade é uma realidade interior que resulta da ação da paz de Deus no nosso coração, porque estamos reconciliados com Ele e conosco mesmos. Esse estado só pode resultar da fidelidade à verdade tal como ela está refletida na nossa consciência. A verdade plena pertence apenas a Deus, ela nunca é nossa posse plena, mas algum reflexo dela sempre toca nossa alma, e uma consciência limpa é a que resulta da fidelidade à verdade que está refletida no nosso interior.
O ser humano aprendeu a mentir dizendo assim para si mesmo: já que não tenho aquele conhecimento divino e perfeito das últimas realidades, não preciso ser fiel ao pouco que vejo, porque não posso garantir plenamente nem esse pouco, então vivo com certa permissão para mentir, fingir, presumir, etc. É o caminho do orgulho, da soberba, da presunção.
Muito mais prudente é o passo que vai na direção da humildade e que aprende a valorizar o pouco que tem em si: por menor que seja a verdade na qual posso acreditar, se isso que tenho é o suficiente para que eu viva bem de acordo com a minha consciência, sem traição ao que já percebo e intuo, devo viver honestamente em fidelidade a esse pouco, confiante de que o muito que me escapa de algum modo está de acordo com o pouco que me foi dado. Esse é o caminho da humildade.
Querer ter razão neste mundo é o equivalente a total prostituição moral e intelectual, isto é, à venda da nossa herança divina de seres livres e inteligentes em troca de qualquer sucesso temporário que nos é oferecido.
Digo “mundo” num sentido muito específico, aquele do bolchevismo espiritual que denunciei na minha Monadofilia. É a grande corrupção da carência de pertencimento, uma consequência da força da parte mais animalesca do nosso ser, que tende a querer se agrupar, imitar, seguir, etc., violando aquela natureza divina que exige de nós o contrário: a individuação, a separação, a consciência singular, etc.
Posso (e até devo) querer ter razão e sucesso num sentido particular, que é o de impressionar e influenciar o próximo no sentido do reconhecimento das coisas divinas, da bondade, da verdade, da beleza, da justiça, etc. A minha ação parte da unidade e chega na unidade: da unidade divina que me resgatou da confusão e atualizou minha própria unidade de ser criado com a grande honra da imagem e semelhança da unidade divina, realizo-me agindo para afetar o espírito de unidade do próximo, da outra alma humana que continua experimentando alguma confusão derivada da idolatria do mundo, de modo que essa unidade se reconheça na mesma honra da criação divina e deseje por si realizar sua unidade na unidade de Deus.
Por isso digo que não se trata de um quietismo, como pode parecer o elogio da vida interior a quem falte o discernimento dessas coisas. Não é nada disso. É uma ação forte, decisiva, cheia de desejo de sucesso, e por que não até mesmo cheia de ambição. Mas tudo do jeito certo, com a orientação certa, e isto quer dizer que devemos desprezar os modos do mundo, ainda que usemos dele e dos seus recursos para fazer avançar a ação mais conveniente para a nossa vida espiritual.
Como posso despertar o desejo de realização da liberdade individuante no próximo, se para isso eu usar dos meios que o mundo usa para a finalidade contrária, isto é, para a dispersão das almas na idolatria generalizada e no desprezo da Presença e das coisas de Deus?
Não devemos nos impressionar com números, embora queiramos que eles cresçam quando forem na direção correta. Tudo que é quantitativo deve ser qualificado, porque se não for não significa nada. É assim que vemos os grandes empreendimentos da cultura de massas, e até de certa alta cultura, todo esse testemunho produzido pelo Bispo do Sistema da Besta para afastar as pessoas da consciência do Criador. São massas e massas, mas dirigem-se ao vazio, e por isso anulam a força do seu agregado, porque vão se tornando um agregado sem substância verdadeira, conforme aproximam-se do nada que tanto amam, do vazio que é próprio dos seus ídolos.
Um de meus grandes interesses é o de transmitir precisamente esta mensagem: a de que cada um de nós deve se encorajar pela perdição do mundo, e não o contrário.
Sim! Encorajar e até aprender a gostar da dissolução mundana. Mas como?
Simples: quando vejo o mundo mergulhando no seu próprio caos, só posso enxergar essa realidade porque não participo dela. E se não participo, é porque Deus me separou na sua obra de salvação.
É assim que “estar sozinho” na verdade se revela o contrário disso: afastados da confusão do mundo, estamos com Deus, a melhor companhia por toda a Eternidade, e estamos em comunhão espiritual uns com os outros, por mais ilhados que nos sintamos.
Grandes tristezas são futilmente sentidas por almas desavisadas que se atormentam com o desejo de participar de um mundo no qual já sabem que não há esperança de nada verdadeiro, já que suas próprias consciências lhes serviram para denunciar as grandes e pequenas mentiras que sustentam esse espetáculo humano. Meu trabalho deve ser o de afetar esse tipo de alma com a mensagem correta, e é claro que não poderei fazer isso usando do mesmo espírito do mundo que deve ser denunciado.
Digo todas essas coisas com quase quatro décadas de experiência do mundo. Aprendi a desconfiar confiando, a desacreditar acreditando, a despertencer pertencendo, a desengajar engajando. Quis ser muitas coisas e uma a uma aprendi a desgostar de todas elas: de ser acadêmico, de ser rico, de ser religioso, de ser político, etc. Finalmente entendi que é melhor querer ser algo muito mais simples, porém mais misterioso: aquilo a que o Criador de todas as coisas me destinou, ser amado por Ele. E hoje, aqui e agora, isso significa ser uma testemunha, ou um pescador de almas, se formos imitar aqueles que quiseram imitar Jesus Cristo.
Essa pescaria é a arte de ser fiel e íntegro à verdade que denuncia o mundo e elogia a Deus. E por isso mesmo, quanto melhores formos nessa arte, mais o mundo nos odiará e desejará a nossa destruição. Ótimo: aquilo que sempre esteve oculto virá a ser revelado. Ou por acaso os espíritos imundos que me queriam acadêmico, rico, religioso ou político não me odiaram sempre por desprezar os seus prêmios mundanos, e não quiseram sempre me destruir? Isso sempre foi verdade. É isso que os perdidos do mundo devem entender, e o quanto antes: a função da sua perdição no mundo é o seu encontro em Deus. Feita a primeira parte, falta a segunda, a própria causa final desse desajuste.
Falo aos desajustados, despertencidos e disfuncionais, porque estes eu tenho certeza de que o mundo não conseguiu enganar, ou pelo menos não completamente. Porque não há ninguém que está mais perdido para Deus do que aquele que está totalmente achado no mundo, que se levanta sobre todos os seus irmãos com grande vaidade e orgulho. Por acaso vamos invejar esse destino miserável e infeliz? Não se inveje a suposta felicidade e alegria dos soberbos, porque tudo isso é falso e está para ser destruído num piscar de olhos. A esperança dos enaltecidos se revelará uma total farsa. Mas a nossa esperança no Eterno, quem a destruirá, se é o próprio Criador quem a constituiu? Quem chamará a Deus de mentiroso e infiel?
Um por um, tudo aos poucos, mantendo a fidelidade e a integridade, é assim que eu penso sobre o meu trabalho. O dia em que quisesse seguir as modas da maioria, seria o dia da minha perdição. E isso sempre foi impossível para mim, graças a Deus, porque o Altíssimo sempre me deu um ânimo de profundo desgosto com a falsidade do mundo, na verdade desde que eu sou criança. Sim, desde bem pequeno vejo como o meu semelhante é mentiroso, horripilantemente falso, farsante, e que a sua canalhice começa quando mente para si mesmo e vai se convencendo da virtude da sua safadeza. Tudo isso que o mundo faz é baseado na desconfiança de Deus. O ser humano que aprendeu a desconfiar do Criador é um aprendiz do primeiro ser que fez isso, sim, aquele coitado.
Eis a essência da mentira que provém da desconfiança: é uma escolha livre.
Quem desconfia do Amor de Deus se dá mil e uma razões que seriam supostamente suficientes para a justiça da sua posição, mas toda essa arquitetura de idéias está baseada numa única coluna, que é uma crença livre, a crença de que Deus não é bom. A mentira consiste no fingimento de que toda essa estrutura posterior não está baseada numa decisão totalmente livre e arbitrária, de vez que se a alma do desconfiante desejasse seriamente produzir as evidências no sentido inverso, da confiança no Amor de Deus, poderia fazer isso plenamente, e a grande safadeza consiste no fingimento de que isso não seria possível. Eis a arrogância e o orgulho no seu estado mais puro: a postura de sabedoria que tem um segredo escondido, aquele primeiro pecado oculto nas profundezas da alma, tido como esquecido para sempre, mas que será resgatado e evidenciado no fim de todas as coisas, para uma grande humilhação. Grande humilhação! Meu Deus, eu quero ver o Dia do seu Juízo, o dia do triunfo da justiça, mas mesmo assim meu coração tem medo.
Todas essas vergonhas terminarão escancaradas. O homem mentiroso não terá mais onde se esconder, o seu truque será desfeito num instante. Sua proeza teatral, seu fingimento todo, tudo isso desabará numa grande catástrofe, e sua realidade será exibida, como está escrito: está pobre, cego e nu.
Mas não quero falar dessa gente. Deixe que eles estão aproveitando o prêmio da sua traição no pouco de tempo que têm. Voltemos aos chamados de Deus, os que ainda não sabem mas querem ser pescados. A estes o melhor serviço deve honrar a sua vontade de fidelidade e integridade, e por isso deve ser um serviço fiel e íntegro, sem cultuar o espírito do mundo, nem lhe pagar tributos. Não é fácil fazer isso, se alguém quer fazer por si mesmo, mas Deus é mestre e seu guiamento é perfeito. Ele nos ensinará a arte da sua pescaria espiritual.
Neste livro encontramos uma tentativa de explicar tudo o que existe de mal no mundo desde a perspectiva cristã pelo projeto do espírito do Anticristo especificamente encarnado ou identificado com o judaísmo.
Para a sensibilidade mais moderna essa visão pode parecer estranha, mas é uma questão de perspectiva. A antiguidade e o medievo cristãos entendiam com facilidade e clareza que aqueles que eram verdadeiramente seguidores de Moisés aceitaram a Revelação Cristã como legítima, e os que a rejeitaram são justamente aqueles que se dizem judeus mas não o são, a Sinagoga de Satanás daqueles que acreditam em mandamentos humanos. Apesar de alguma tolerância ser possível, no seio da cristandade esta realidade sempre apresentou conflitos. Um dos problemas que deu inclusive margem para o desenvolvimento da história apontada por Medrano foi a reserva ao povo judeu do exercício da usura e do mercantilismo, contra a cultura cristã política e econômica da caridade, do preço justo, etc.
Embora o autor acerte em revelar muitos dos vais e vens das conspirações em nível global, seja de uma certa gangue de financistas internacionais, ou das várias conspirações políticas revolucionárias através de organismos como a Maçonaria, como católico ele erra ao não reconhecer a contribuição da sua própria religião ao problema que denuncia. É fácil culpar uma conspiração judaico-maçônica por todos os males do mundo, na segurança de uma religião institucional supostamente isenta de participação no governo do diabo sobre o mundo. Difícil é aceitar até que ponto a própria fundação da sua religião está enraizada em valores e princípios que vêm daquela traição ancestral contra o Amor de Deus.
Nas suas conclusões preditivas o autor também erra ao tentar reconhecer a Rússia como nação resistente ao Anticristo, exatamente como o fazem hoje muitos conservadores e tradicionalistas cegos ao amplo esquema dialético do Ouroboros.
Apesar de tudo isto, podemos considerar esta obra produtiva no sentido da informação do leitor sobre diversos temas e fatos que costumam escapar totalmente à imaginação e entendimento do público em geral. Seu mérito está no favor de abrir várias brechas no estudo histórico, em resgate a uma visão cristã mais pura e menos compromissada com os modernismos do mundo atual.
Vejamos algumas passagens relevantes.
Eventualmente vem à minha mente a idéia de que de certa forma nós vivemos num mundo inventado pelos judeus. Mas eu corrijo esse pensamento com a evidência de que a única coisa que se pode dizer a respeito dos judeus é que eles têm uma tradição bastante antiga, o que lhes deu mais experiência com o Pacto Ouroboros e com todas as decorrências da traição contra o Amor de Deus. Ou seja, a única coisa pela qual se destacam é pela grande experiência na maldade, estando apenas um tanto na frente de todos os outros povos que de um jeito ou de outro acabam fazendo a mesma opção espiritual dos judeus, isto é, continuam perpetuando o mal a cada geração. Os filhos dos santos só conhecem o Paraíso. Todos os outros nascidos neste mundo são filhos de traidores, de um modo ou de outro. Os judeus não são especialmente perversos, são apenas mais experientes.
A base da cidade terrena é o Pacto Ouroboros a qual todas a religiões cristãs subscrevem quando recomendam o casamento como um sacramento e a multiplicação dessa nossa espécie decaída e amaldiçoada. Se os judeus se aproveitam dessa falta de discernimento dos outros povos, isso apenas lhes beneficia lateralmente, como aos Avari que tiram vantagens da desobediência humana em geral.
A denúncia do Naturalismo é um dos pontos mais altos do trabalho de Medrano, que acerta em cheio no reconhecimento da idolatria naturalista como origem da decadência espiritual do homem que se identifica com o pó e se torna assim, como diz a escritura, “escravo da maldição e do poder“.
Mas não adianta acusar o judaísmo de ser o promotor dessa mentalidade, quando os cristãos são muito mais culpáveis por acreditarem nela, já que conheceram uma Revelação muito mais excelente a respeito da essência da sua vida espiritual.
Aqui temos um dos elementos mais importantes no entendimento da geopolítica moderna desde o ponto de vista do milenarismo messiânico, que é a total concordância e colaboração entre os conceitos de Globalismo e Sionismo: a restauração do mundo (tikkun olam) requer simultaneamente a dissolução de todas as identidades nacionais ao redor da legitimidade da nação dos sacerdotes que realização o Reino de Deus na Terra, a nação de Israel, cuja capital Jerusalém se tornará o centro não só do mundo, mas até mesmo do universo.
Quem não compreender imediatamente que qualquer tentativa de realizar o Reino de Deus neste mundo redundará no governo do Anticristo, não entendeu nada da escatologia cristã.
Para começar, Hitler foi uma expressão política da visão prussiana e protestante, de mundo, sendo criatura do Exército alemão e de mentalidades antijudaicas e antimaçônicas como de um Ludendorff. Se existem méritos de uma reação nacionalista contra as revoluções, estes vieram desde uma cultura que não era particularmente eclesiástica. Por outro lado e de diversas maneiras, a Igreja Católica do Século XX pode ser entendida como muito mais colaboracionista com as revoluções do que o autor estaria disposto a admitir.
Hitler não estaria em melhores condições de vencer se tivesse feito uma cruzada cristã contra os bolcheviques, porque Deus não tem nenhuma satisfação com qualquer política deste mundo, senão com os indivíduos que ouvem o seu chamado de libertação. Ao contrário, providencialmente o governo do Anticristo é confirmado como consequência da desobediência que persiste e é mais perversa justamente do lado cristão da história. Que todos os demais queiram manter-se em estado de traição, é compreensível dada a sua ignorância, mas que os cristãos façam isso, eis o que mais justifica, moralmente, a vitória da conspiração anticristã.
Não é incrível como Medrano está tão perto da verdade, mas ainda mantém-se longe o suficiente de qualquer chance importante de libertação da mentira por isentar o seu próprio cristianismo católico de participação no culto naturalista?
Como é possível que ele não consiga ver a repetição do Culto do Ouroboros, revelado pelo cabalismo que denuncia, dentro da sua própria tradição católica?
Isto é assim porque, como eu já disse antes, nunca existiu e nunca vai existir uma tradição cultural de liberdade contra o Ouroboros.
Medrano, como todos nós que já nascemos neste mundo, é filho da participação da Tradição Primordial pela desobediência de seus pais. Quem são o Ele-Ela que dão vida à Serpente do Mundo? São os pais, imitadores de Adão e Eva, e não de Jesus e Maria.
Ele chegou muito longe nas suas descobertas, mas não conseguiu ligar os últimos pontos da sua investigação que o levariam a esquecer finalmente o problema dos judeus e entender a essência do governo do Anticristo. Para isso precisaria entender que Jesus não veio trazer a paz, mas a espada, e que os inimigos do homem estão dentro da sua própria casa.
Provavelmente não existe assunto mais excelente do que o Amor de Deus, e nem maior alegria do que contemplar a promessa divina para as criaturas feitas à imagem e semelhança de seu Criador.
Ocorre que os vários expedientes de dispersão distraem o ser humano e o afastam de si mesmo, sendo que é no seu interior que ele pode encontrar tanto a confirmação da supremacia do Amor, quanto a validade da sua promessa.
O que é um ídolo? É um objeto externo de culto que leva o homem a procurar a verdade e a salvação fora de si mesmo, quando o Deus verdadeiro se revela na intimidade do coração contrito, humilde e “esmagado” pela majestade do Eterno. Um ídolo é uma mentira, uma ilusão, um vazio.
Quem puder ter apreciado o que disse a respeito da Coruscância, ou da Eleuteriodiceia, já pode ter entendido do que se trata toda a experiência humana, isto é, a causa final da nossa vida.
Entendeu o Espírito Santo do Criador que não haveria maior felicidade que lhe glorificasse na Eternidade do que a de seres criados à sua imagem e semelhança para o usufruto da mais plena liberdade possível a qualquer criatura. Isto é a salvação: levar as almas a aceitarem espontaneamente a individuação das suas singularidades como indeterminações particulares tornadas infalíveis pela comunhão voluntária com o Espírito Santo.
Por outro lado, a Perdição nada mais é do que o desvio de uma alma que rejeitou a infalibilidade que lhe permitisse a individuação na Eternidade.
“Irmãos, cada um permaneça diante de Deus na condição em que estava quando Deus o chamou.” (I Corínthios 7:24)
A invenção de falsos deveres de estado como defesa contra a falta de sentido de uma vida sem Fé apenas multiplica os sofrimentos a que o homem já está submetido por nascimento.
É sem mentira que se cumprirá toda a Justiça. Quando mente, o homem apenas fala do que lhe é próprio e reflete as suas trevas interiores, tentando encontrar no reflexo das boas intenções da sua alma algo que nunca esteve lá, porque somente a Deus pertence o Amor.
A grande beleza dos verdadeiros deveres de estado consiste justamente na sua integridade espiritual, já que certamente eles derivam da vontade ou da permissão divina.
Toda a visão de confiança na Providência divina por trás de cada circunstância da vida nos permite alcançar o verdadeiro repouso, a paz do Senhor que é confiado como o nosso Bom Pastor.
O homem foi criado reto, porém procura complicações sem conta.
Pior, esse mentiroso quer ser respeitado na sua escolha de desprezar o Amor do Pai. É claro que esses nossos irmãos e irmãs devem ser amados. Mas que amor pode existir na confirmação da ilusão? Se respeitamos como legítima qualquer decisão autodestrutiva, não estamos encorajando a mentira e incentivando o afastamento de Deus?
Devemos, portanto, ter todo o cuidado para que nossa compaixão e caridade não sofra sequestro para o serviço da mentira. Quando o próximo carece de Discernimento, devemos compensar isso com a nossa própria prudência, mesmo que ao preço de desagradar.
Quando as famílias migram do meio rural para o urbano e decidem ter menos filhos, isso evidencia que a anterior elevada taxa de natalidade não se justificava por razões altruístas e espirituais, mas meramente por um cálculo de conveniência econômica: os filhos que antes eram contabilizados como ativos (mão-de-obra) que garantiriam um envelhecimento com maior conforto e segurança, agora se tornaram passivos geradores de despesas.
Do mesmo modo, se há algum resíduo na natalidade urbana, esta se deve ainda em parte a uma preocupação com a velhice desamparada da parte dos progenitores, e em parte ao novo problema urbano do vazio existencial pela falta de objetos externos de devoção e sacrifício imanentes, ou seja, por uma conveniência psicológica.
Nunca foi Deus. Sempre foi o homem.
Sem a Esperança no Amor do Pai, este ser decaído e amaldiçoado tenta realizar a promessa da Serpente no Éden. E assim pula da frigideira para o fogo: do medo da miséria ao medo da falta de sentido numa vida espiritualmente vazia.
Todo o sentimentalismo que já conhecemos muito bem sempre foi e continua sendo uma superestrutura que cobria com um véu de autoengano a realidade da infraestrutura econômica e psicológica.
Em suma, a especialidade humana é a criação de um disfarce mentiroso que sirva para cobrir a sua nudez espiritual.
Essa nudez espiritual não só foi herdada dos costumes da cultura de cativeiro, mas continua sendo confirmada pela recusa a uma vida entregue à Graça divina.
Um dos pensamentos que me ocorreu enquanto eu trabalhava na avaliação do livro O fim da infância para o Livro das Tendências foi o de que Stormgren, o Secretário-Geral da ONU, encarnou perfeitamente o espírito de Esaú quando defendeu a política de Karellen pelo motivo de que agora a humanidade tinha o seu pão garantido.
Não é disso que se trata toda a tradição ancestral contra Deus? Em buscar garantias contra a necessidade da dependência do Amor do Criador?
Esaú é, assim, o sucessor espiritual de Adão, assim como Stormgren. Por outro lado, Jacó foi o antecessor espiritual do segundo Adão, Jesus Cristo, por confiar na herança do verdadeiro Pai.
Esaú confiou na virtude de Isaac, mas o valor deste sempre esteve na bênção divina. O primogênito falhou ao confiar na força da carne e do sangue, crendo-se superior ao caçula por ser popular com seu povo, um grande guerreiro, um caçador, enquanto o caçula Jacó secretamente era um adorador mais perfeito da verdadeira fonte de toda a força, o Amor de Deus. Quando Esaú vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, creu que lhe valia muito mais o seu poder pessoal do que a justiça da eleição divina. Justificou-se, assim, a sucumbência do mais velho diante do mais novo.
Voltando ao livro e indo mais além, a promessa do progresso transhumanista é justamente a realização daquela emancipação desejada por Adão e Esaú, para conquistar uma suposta vida independente e emancipada do Amor de Deus. É o ser humano disposto a vender a sua herança como criatura feita à imagem e semelhança de Deus para obter a ilusão de uma libertação através de garantias e seguranças falsas.
Por esta razão é que devemos fazer um elogio do maravilhoso dom da Paixão (v. Capítulo 12 de Monadofilia). Com a Vigilância que nos permite entender o fundamento espiritual do Sistema da Besta, e com o Discernimento que nos deixa distinguir entre as opções espirituais, podemos aceitar os pesados decretos decorrentes da Maldição de Gen 3 de tal modo que quando um Karellen vier nos oferecer algo como a transcendência da condição humana amaldiçoada, nós saberemos honrar o Eterno recusando essa suposta “salvação”.
Ocorreu-me recentemente lembrar de um episódio no qual contribuí na discussão da negação de Galileu Galilei a respeito da transubstanciação das espécies eucarísticas, por ocasião de uma leitura que venho fazendo para o meu Livro das Tendências, do livro Discurso sobre el nombre de Dios, por Arnau de Vilanova.
Este filósofo do século XIII apontou para a diferença que há, no processo de fecundação, entre o papel da semente masculina e da semente feminina, de modo que ficasse explicada a razão pela qual nas pessoas divinas há uma relação entre Pai e Filho, e não entre Mãe e Filho.
Seu argumento me fez lembrar-me do meu próprio de anos atrás, na época daquela discussão na internet, quando tentei ajudar certos católicos a resolver o problema da negação da transubstanciação por Galileu. Aquele pensador negava a realidade da presença real na eucaristia em virtude da ausência de diferença de peso entre as espécies antes e depois da consagração. Em minha visão isso se devia ao fato de que a transubstanciação era análoga à realidade da Encarnação, onde justamente toda a substância extensa foi fornecida pelo corpo da Virgem, enquanto a substância anímica foi encarnada pela ação do Espírito Santo em substituição à ação da semente masculina que tem como função apenas a introdução de informação genética no processo de concepção. Deste modo não seria adequado esperar por qualquer alteridade na medição dos pesos das espécies eucarísticas, já que a transubstanciação, tal como a Encarnação, não modificou a substância extensa em nada, mas apenas informou-a, como a semente masculina informa a feminina que concede, de sua parte, a base material da formação do corpo.
Minha contribuição, se me lembro bem, foi ignorada. Possivelmente porque eu não fazia parte da panela que discutia o tema, e dou graças a Deus por isso. Não me é tão incomum assim sentir-me mais próximo de um autor de oito séculos atrás (alguém que aliás não temia acusações de heresia na sua pesquisa) do que com qualquer grupinho de militantes católicos, geralmente uns bons pentelhos.
Voltando ao nosso tema, é interessante notar como a composição de corpos pela união das causas formal e material se realiza diversamente em dependência da vontade primária de Deus ou, secundariamente, das criaturas decaídas que tomam o lugar de Deus na formação dos compostos.
Idealmente, a forma sempre determina a substância da matéria, como elemento ativo que domina o passivo. A matéria sem forma sempre equivale ao nada, ou possibilidade (a materia-prima anterior a matéria secundum quid), e a forma sem a matéria sempre equivale a uma força de realização, ou atualização. A substância, ou ser concreto, só pode existir pela combinação da forma e da matéria, a primeira “informando” a segunda, para usar uma linguagem computacional, e isto significa que a forma é o elemento ordenador que estrutura a matéria de acordo com a sua razão interna, seu logos.
Nos processos de reprodução natural alguma analogia se realiza com este princípio da criação das coisas, porque é um processo subsidiário ao princípio que determina a concreção de qualquer substância. O mesmo se dá até em produtos artificiais, onde por exemplo um escultor informa a matéria da sua obra a respeito da forma ideal que pretende realizar.
Dito isso, reconhecemos que não há causa formal mais excelente do que a própria vontade divina, em todos os casos possíveis.
É assim que entendemos a superioridade absoluta que há entre a criação de Adão ou a Encarnação do Filho de Deus, e a concepção de Caim e Abel, por exemplo.
Na primeira comparação, uma matéria até mais rudimentar e caótica, como o barro, pôde ser informada pela ação divina para a produção de um Corpo de Graça, aquele de Adão antes da Queda, superior em tudo aos Corpos de Queda gerados por Adão e Eva através do Pecado Original, apesar de estes serem feitos a partir de um material muito mais nobre e ordenado do que aquele barro primordial.
Na segunda comparação, a santidade de Deus realizou a encarnação do Filho de Deus tornando a matéria da semente de Maria um veículo para a Revelação do Amor do Pai ao mundo, enquanto a soberba de Adão realizou a proliferação do pecado de desobediência na geração de Caim e Abel, tornando a matéria da semente de Eva um veículo para a encarnação do mal no mundo.
O que mais nos interessa aqui é entender como o elemento ativo, ou formal, determina o ser da substância gerada, e é por isso que qualquer produto originado do Pecado Original refletirá apenas aquela rebelião ancestral de Adão, ao tomar novamente o lugar de Deus como o único e legítimo Criador de todas as coisas.
E isto é o que eu chamo de informação da vontade na fecundação, quando o agente ativo formal realiza a sua própria vontade livre e deste modo se torna sujeito moral de uma ação de sentido espiritual.
Ora, somente Deus tem uma vontade perfeita, pura e santa.
Daí que quando o homem quer tomar o lugar de Deus e pretende conhecer o bem e o mal por si mesmo, torna-se um rebelde, traidor e usurpador da autoridade divina, e desde a sua vontade autodestrutiva só pode gerar substâncias fadadas ao mal que lhe é peculiar, razão esta pela qual o Criador fez por bem amaldiçoar a sua própria Criação, de modo a limitar os efeitos da desobediência da sua criatura.
Desde toda essa raça de filhos da traição contra o Amor de Deus só pôde nascer a decadência e a corrupção, até que pela obediência de Maria, que rejeitou o acordo com a Serpente, contrariando o costume de Eva, Jesus Cristo encarnasse como Filho de Deus e se tornasse, como Filho do Homem, o que Adão nunca pôde ser, isto é, perfeitamente fiel ao Pai.
A Encarnação de Jesus Cristo, Filho de Deus, demonstra tanto que a matéria é dócil à forma (isto é, mostrou que o mal é sempre espiritual, formal), redimindo uma realidade decaída ao tomar posse da matéria de Maria, como que somente a vontade de Deus é boa o suficiente para a formação de qualquer substância.
O que Adão quis fazer, no entanto, assim como qualquer pessoa que queira casar, ter filhos, enriquecer, crescer em fama e prestígio, etc., foi explorar a promessa divina da Vida Eterna, embora tenha errado ao querer fazer isso por si mesmo, desejando obter a felicidade emancipado do Amor divino.
Assim podemos compreender como o processo de informação da vontade na fecundação, quando ocorre por iniciativa humana, é análogo à manifestação da criatividade monádica, isto é, é um sucedâneo ou substituto do verdadeiro poder que só poderá ser liberado com a total comunhão com o Espírito Santo na Vida Eterna (o que chamei de “Coruscância”).
Há uma imensa promessa de felicidade no coração de todos os seres humanos, correspondente à expectativa justa da concessão da Graça divina, porém é preciso que cada ser humano responda pessoalmente pelo seu desejo do bem: se quer ser amado ou quer ter poder por si próprio.
Só se pode realizar perfeitamente o desígnio divino em total alinhamento com a vontade do Criador, que é a única vontade santa, pura e perfeita. É em comunhão com Espírito Santo que o ser humano poderá realizar a sua criatividade monádica, em analogia limitada ao ser divino, consubstanciando todos os seres que desejar produzir desde a sua forma tornada perfeita pelo seu estado glorificado.
Qualquer fecundação reprodutiva na carne funciona apenas como uma sombra, como uma imitação ou farsa, mentira e ilusão, em analogia com aquela verdadeira perfeição da criatividade monádica.
A chave da felicidade reside no casamento do Poder com o Amor, de toda matéria ilimitada com uma forma santa, realidade que só se realiza no ser humano quando ele ajusta a sua vontade à obediência e esperança em Deus, de modo que a comunhão com o Espírito Santo seja voluntária e perfeita.
Podemos nos perguntar sobre qual foi o olhar com que, no mito do Éden, Adão viu Eva, que lhe fez vê-la como carne da sua carne, como propriedade sua e como objeto do seu poder. Adão viu Eva com vontade de poder, e por isso ela se tornou sua esposa e mãe de seus filhos. Se a visse com vontade de amor, renunciaria a qualquer ambição de poder e ela restaria livre, como sua irmã, para desejar o Amor de Deus tanto quanto ele.
A informação da vontade de poder de Adão na fecundação de Eva operou, em analogia com a criatividade monádica que só era possível pela virtude divina, a realização da Queda, produzindo corrupção e decadência.
Já a informação da vontade de Amor do Espírito Santo na fecundação de Maria operou a realização da Redenção, produzindo o testemunho do Amor do Pai na Revelação perfeita do Filho.
É possível algum ser humano duvidar seriamente ao menos da hipótese da programação preditiva, em pleno ano de 2023, ao assistir o filme Contágio, de Steven Soderberg, lançado em Setembro de 2011?
O filme trata de uma pandemia originada na China (pela ação de um vírus cuja origem veio de morcegos através da contaminação de porcos) que leva o mundo inteiro ao caos das quarentenas enquanto os heróis da humanidade correm para pesquisar a solução de uma vacina para aplicação global.
Eventualmente alcança-se a salvação e a humanidade sobrevivente passa por um sorteio de loteria para definir quem vai receber a solução primeiro. Há um suspense para saber quem vai ser sortudo, com direito a reportagens de televisão, com grandes dramas, etc. Tudo isso torna positiva a idéia da solução, é claro. O filme não foi feito para isso?
Como obra de “arte”, este filme é uma perda de tempo.
Como obra de engenharia social, parece ser muito produtivo.
Senão vejamos:
Primeiro, a solução parece ser um milagre que veio dos Céus para salvar uma humanidade destinada a outra coisa além da morte. Grandes histerias por mais quinze minutos de sobrevivência, como de costume.
Segundo, as autoridades constituídas, principalmente as “científicas” são exaltadas ao suprassumo, são heróis, sacrificando-se por nós como personagens de uma nova mitologia. Possuem o conhecimento arcano, determinam a diferença entre o Bem e o Mal, e detém o poder de salvar a humanidade que se prostra diante da sua sabedoria. É o caso do Dr. Cheever (Lawrence Fishburne) e de seus associados.
Terceiro, o dissidente que contesta a autoridade é colocado como um mentiroso cheio de cobiça e irresponsabilidade, o arauto do caos e de toda a maldade, papel encarnado no personagem interpretado por Jude Law. É um jornalista inescrupuloso cuja função é indicar a falência moral de toda crítica que ouse questionar a infalibilidade olímpica das autoridades científicas. Ele só pensa em lucro, poder, fama, enquanto suas vítimas são praticamente versões modernas da antiga santidade cristã, com a inocência de cordeiros.
Quarto, normaliza-se a noção da vantagem da aplicação da solução desenvolvida. Os beneficiários dessa medida são vistos como ganhadores de loteria (literalmente), e também é normalizada a idéia da restrição dos controles dos acessos a determinados locais pela confirmação eletrônica de participação na solução.
Com tudo isso temos uma receita pronta para execução pela NOM, contra os interesses de uma população que não só já foi acostumada com a idéia da sua submissão a um sistema, mas que também dá anuência pela sua omissão de um discernimento que foi possível inclusive pela maneira como a cultura preditiva concedeu acesso ao recurso da crítica. Decisivamente, pelo Annuit Coeptis alcança-se o Novus Ordo Seclorum.
Este é um filme de terror distópico, no fim das contas, mas travestido de draminha.
Pelo menos que o filme não fosse tão chato!
Mas é, e bastante.
Ao fim a humanidade se salva, é claro, mas quem a salvará de si mesma?
O ser humano está preso na sua própria fantasia macabra de viver sem Deus, literalmente perdido no espaço, já espiritualmente morto por dentro e apenas aguardando a destruição da sua carcaça exterior.
Nota espiritual: 2,7
Humildade
4
Presença
3
Louvor
5
Paixão (histeria com o terrorismo da morte)
2
Soberania (cientificismo)
2
Vigilância (creditação das autoridades constituídas, CDC, WHO, etc.)