Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM)

Assumida a premissa da Eleuteriodiceia que justificou a liberdade exercida como condição da perfeição da Coruscância, encontramos na esseidade da mônada uma carência tão própria de experiência do mal que a mesma pode ser entendida como tão única quanto a sua própria singularidade.

Isto é o que confunde a imaginação gnóstica na sua noção de complementaridade de luz e trevas, e de bem e mal: a liberdade de um contingente imperfeito. A mistura não é uma determinação derivada do ser divino, mas do criado, e é regulada pela sua vontade de experiência da imperfeição, ou seja, o desejo do mal é uma arbitrariedade da mônada criada. Isto precisa ser permitido, do contrário a mônada não pode escolher livremente a comunhão com o Amor divino pela eternidade, ou seja, não pode entrar no Paraíso. Epistemologicamente, diríamos que o desejo das trevas, ou do mal, corresponde ao requisito de autoconhecimento que a mônada possui antes de entregar-se ao Amor divino como única solução ao seu desejo de Bem. A obscuridade é a propriedade da mônada que por si não possui o seu bem. Conhecendo a si mesma, a mônada se entende como carente do Bem transcendente, e finalmente pode compreender como que a função do seu ser não é o de brilhar por si, mas o de refletir uma luz exterior.

Garantido o conhecimento pleno do Logos, temos por outro lado, no domínio da Onisciência divina, a noção precisa da medida própria de cada mônada na sua arbitragem particular, de tal modo que a Providência determina com precisão infalível qual deve ser a experiência de cada alma no grande concerto da Mútua Representação.

Conhecedor dos futuros contingentes, o Criador, pela sua arte divina, pode produzir o arranjo ótimo que fornece a oportunidade de realização da liberdade de cada mônada na harmonia total da mutualidade.

Essa medida, que podemos chamar de Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM), se encontra exatamente entre os extremos limites restritores, ou seja, entre todo o benefício que constitui a dissolução da Liberdade por um lado, e todo o malefício que seria invencível para o alcance da Liberdade de crença da mônada, por outro. Arbitrada contingencialmente e de solução variável no tempo, a RSMM só pode ser dominada pelo dom divino do Criador, embora possa ser intuída com variados graus de acerto por quem medite sobre isso.

Essa meditação certamente é uma das mais difíceis, dado o seu grau elevado de sutileza. Primeiro convém perceber como o Bem irrestrito extinguiria a possibilidade da Liberdade, como um oceano afogando uma vítima. Segundo, convém verificar como igualmente o Mal irrestrito sufocaria a crença livre da mônada, que apesar de poder desejar o Bem, só o faz dentro da sua capacidade. Por mais que essa capacidade seja arbitrada, Deus já conhece esse limite e nunca o ultrapassaria, pois o objetivo é a realização da liberdade dentro do escopo da possibilidade da mônada. Como podemos ver no diagrama acima, assim como a Cruz pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é ideal, ou seja, entre a experiência atual e o Bem divino, a RSMM pode ser entendida como a extensão do segmento entre o que é percebido e o que é apetecido, ou seja, entre a experiência atual e o Bem presumido, arbitrado pela própria mônada. A experiência de vida mais humilde e mansa, na imitação de Cristo, é aquela em que, enxergando o mais valioso segmento da Cruz, livremente se aceita diminuir a diferença entre o percebido e o apetecido reduzindo a pretensão e, portanto, o sofrimento. O sofrimento da alma é gerado por ela mesma, pela desmesura da sua Pretensão, ou falta de Humildade. Nós geramos o nosso sofrimento. Há analogias em outras filosofias e linhas espirituais, como no “querer é sofrer” de Schopenhauer, ou no budismo, etc., embora somente a visão cristã supere o gnosticismo que desconfia da potência da realidade, e não somente da própria mônada na condição de experiência da Liberdade antes da Coruscância paradisíaca. Essas outras doutrinas podem ajudar no quesito do autoconhecimento necessário para se descobrir as trevas, mas não conseguem superar esta aporia, daí o seu desejo de morte através de conceitos de “absorção na Unidade”, “visão beatífica”, “união mística”, etc. Possuem a negação do mal, mas não conseguem afirmar um bem que não seja o universal, porque não compreendem a propriedade reflexiva da mônada, que é a sua virtude de amar o Criador. Essas doutrinas livram a alma do engano das virgens loucas que se dispersam com os elementos do mundo, mas não ensina a virtude das virgens prudentes que esperam o Noivo. Apenas o Filho de Deus encarnado Filho do Homem pôde prometer o bem próprio das criaturas enquanto tais, sem dissolução, sem absorção, etc., na comunhão perfeita onde há união sem confusão, em analogia com a natureza trinitária das pessoas divinas.

A soteriologia monadofílica, ou ciência da salvação da mônada, afirma que é salva a alma que realiza a sua Fé e Esperança no Amor divino, encontrando-se na sua medida própria que satisfaz a sua arbitragem particular.

Esta proximidade da liberdade da mônada com a condição da sua salvação dá a impressão de um processo de salvação próprio, de iluminação ou ascese, mas bem entendido o único elemento determinante do sucesso da mônada é negativo, como a passividade da Lua que tem como vocação brilhar na sua virtude de refletir a luz do Sol. A virtude humana é a aceitação do Amor divino, ou seja, o triunfo e a glória pertence totalmente ao Criador, restando-nos somente a nossa rendição em êxtase diante da majestade do seu Amor.

A importância da Perfeição para o Argumento Ontológico e a Eleuteriodiceia

Quem medita sobre a Perfeição encontra os grandes recursos das idéias de Limite e Infinito. Enquanto o Limite determina a forma do ser e, portanto, do alcance da sua potência em direção à Perfeição, o Infinito se impõe como necessário para que o primeiro ser se realize no seu próprio Limite.

A Perfeição é a completude de atingimento de possibilidades que só podem ser determinadas por um Limite. Sem o Limite não pode haver Perfeição nos contingentes, porque não haveria completude. Já o Infinito é a causa necessária para que o primeiro ser limitado se realizasse, dado que numa série causal qualquer se o primeiro causado não tivesse o seu limite determinado por um ser sem limites (o Infinito que é causa de si mesmo), a sua potência jamais seria realizada. Deriva-se, assim, da Perfeição, o Limite e o Infinito. Para que haja Perfeição, os dois são necessários.

Ora, se um ser contingente não fosse limitado, nenhum outro lhe seria compossível. Rejeitado qualquer monismo radical, qualquer ser existe no limite entre o que pode ser e o que não pode ser, limite que define a forma dos compossíveis. Mas se cada ser contém a sua perfeição própria, dada pela sua forma, a perfeição do Infinito não é menos possível, quanto é na verdade mais provável. Ocorre que se em um ser particular a perfeição é uma potência essencialmente formal e apenas acidentalmente real, no âmbito do Absoluto (ou seja, do Infinito) a perfeição deve ser real, pois se não o fosse outro ser potencialmente mais perfeito seria possível como real, o que é contraditório com o Absoluto.

A perfeição de qualquer contingente é potência apenas eventualmente atualizável. Já a perfeição do Absoluto, ou Infinito, além de possível deve igualmente ser real, ou existente. Se não o fosse, outro ser maior que contivesse essa qualidade teria que lhe superar, o que contraditaria a sua essência. Em outros termos: para que a Perfeição como qualidade do Infinito seja possível, ela deve ser real, pois o Perfeito sem limites que não é real não é perfeito, já que um outro possível lhe superaria, o que constituiria um limite ao seu ser e, portanto, uma contradição. Em suma: no contingente a perfeição é acidental, já no Absoluto, ou Infinito, a perfeição é essencial. O perfeito que não é real não é perfeito, a não ser nos contingentes, onde essa potência pode não se atualizar. A meditação a respeito de Deus deveria sempre respeitar essa qualidade formal dos conceitos de Infinito e Perfeição, e da necessidade de ambos. Foi isto o que Anselmo da Cantuária quis expressar no seu Argumento Ontológico: se Deus é considerado na sua qualidade presumida, Ele deve ser real necessariamente, por um atributo da sua forma. Escolasticamente se afirma, também, que em Deus não existe diferença entre o ente e a essência (Tomás de Aquino), e que o ser onde essa diferença é abolida não só é possível, como é necessário.

Além disso, encontramos a impossibilidade da hipótese do Paraíso imediato, sem a agência da Cruz, desde que este implica num grau de perfeição que contradiz qualquer falha no exercício da Liberdade das mônadas. A perfeição paradisíaca, por um lado, requer a presença de seres livres que constituam a maior bem-aventurança possível, sendo um paraíso sem liberdade uma contradição; por outro lado, requer uma experiência real de liberdade que lhe anteceda, em alguma medida de individuação que lhe permita a Coruscância de forma plena, ou seja, imaculada.

Esta meditação mostra como da Perfeição, já dada como necessária, se deriva alguma experiência de Cruz também como necessária. Esta necessidade não tem nada a ver com a teologia do sacrifício de sangue, como se supõe na teologia das religiões cristãs. Aliás, o sacrifício perfeito do Cordeiro deveria eliminar qualquer necessidade de sofrimento adicional a partir da conversão. Um convertido deveria ser imediatamente arrebatado assim que se desse a sua conversão. Ao contrário, Jesus indica que cada um deve carregar a sua cruz, independentemente da sua ação sacrificial que tem, na verdade, outra função espiritual (a da Revelação). A Cruz é necessária para que a perfeição paradisíaca se realize. Não há Paraíso sem Perfeição. E não há Perfeição onde tudo não tenha alcançado a sua completude. Duas coisas são incompossíveis, portanto, com o Paraíso: primeiro, a ausência da liberdade, que é a única realidade que torna a bem-aventurança uma plena glorificação do Criador, e segundo, a não realização desta liberdade no ato mesmo de aceitação dessa comunhão espiritual. O aceite deve anteceder a condição  paradisíaca em qualquer grau de perfeição menor, e isto é o que podemos chamar de Cruz no sentido mais universal, aplicável a todos os mundos possíveis, ou melhor, a todas as mônadas. A Coruscância, sendo a comunhão total sem defeitos, requer a Cruz como condição da realização da liberdade.

Citação de Francis Bacon na Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant

Kant é um filósofo iluminista que trabalha na conciliação entre o racionalismo de Descartes e o empirismo de Hume. A verdade deve ser um fruto que vem tanto da Razão quanto da experiência.

Nascido em 22 de Abril de 1724 em Königsberg, Prússia Oriental, sua contribuição ao Aufklärung não pôde evitar a consolidação do hiato entre as futuras filosofias continental e analítica.

O filósofo prussiano abre a sua Crítica da Razão Pura citando Francis Bacon:

Pedimos que os homens não o considerem [a Grande Restauração, ou renovação das ciências] uma opinião, mas um trabalho sério; e que estejam convencidos de que lutamos para assentar os fundamentos não de alguma seita ou opinião arbitrária, mas sim para a utilidade e o engrandecimento da humanidade.”

Esta é uma escolha curiosa de palavras. Nosso dever crítico é o de localizar e exprimir as premissas desse pensamento.

Como de qualquer outro, aliás. Talvez seja importante explicar isso aos meus alunos que ainda não tenham essa noção.

Entender algo é conhecer as suas causas.

Sócrates inaugurou a consciência disso quando inverteu a lógica sofística: ao invés de seguir adiante somando novos argumentos para levar a vítima à conclusão desejada, o que constitui uma ação de Poder sobre o outro, o desejo de dominar e escravizar com a imagem da verdade, um filósofo investiga na direção oposta, para trás, ao se questionar o que deveria ser verdade como premissa para que a idéia proposta seja verdadeira ela mesma, ou seja, uma ação que constitui um ato de Amor sobre o outro, o desejo de libertar da mentira e do engano.

Por isso se diz que um filósofo é um amante, porque ele exerce um ato amoroso, ama a Verdade e ama a liberdade do próximo de conhecê-la. E também por isso a filosofia cristã é uma idéia tão viável, porque é a prática, no âmbito intelectual, dos Mandamentos: amar a Deus e ao próximo, através do amor pela Verdade em si mesma, e através do amor pela libertação do próximo contra a escravidão da mentira.

Dada uma idéia, o entendimento deve buscar as suas causas e não os seus efeitos, por mais desejáveis que estes possam aparentemente ser. A corrupção provém da mentira que legitima uma idéia pelo desejo de alcançar a conclusão. A libertação faz o oposto. Danem-se os nossos interesses mesquinhos, a Verdade deve ser honrada, inclusive e principalmente contra os nossos desejos mais imediatos. Não quero saber dos efeitos do discurso. Quero saber das suas causas. O que as coisas significam? O que deve ser verdadeiro antes, para que uma idéia também o seja depois?

Na citação escolhida por Kant, Francis Bacon contrapõe, em primeiro lugar, a idéia de OPINIÃO com a de SERIEDADE, e em segundo lugar, as idéias de SEITA e OPINIÃO ARBITRÁRIA com as de UTILIDADE e ENGRANDECIMENTO DA HUMANIDADE.

Entender o que Francis Bacon disse, e portanto o que Kant subscreveu, requer entender o que significam essas contraposições.

Ora, comecemos com a seguinte questão: por que uma opinião não pode ser séria?

Se uma opinião é um tipo de idéia, o que torna uma idéia séria ou não séria, para que atribuamos seriedade ou não a ela?

Opinião, ou doxa, é uma imagem da verdade que substitui o conhecimento da mesma, enquanto Ciência, ou episteme, é o próprio conhecimento da verdade.

Evidentemente, quando se possui acesso ao que é verdadeiro, não é preciso e nem conveniente presumir o que de outro modo o seria. A quem sabe algo, presumir qualquer outra possibilidade a respeito do que é sabido significa o que se sabe, e portanto trair a si próprio. É claro que isso deve ser evitado.

O nosso problema é que a ignorância é tão fundamental e constitutiva da situação humana, que a capacidade de se possuir o conhecimento pleno e acabado sobre o que quer que seja termina por ser mais um ideal do que uma realidade. Justamente com certos objetos de abstração pura, como os dados pela geometria e pela matemática, nós alcançamos o grau de perfeição desse ideal, apenas para voltar nossa mente à realidade onde a nossa consciência não consegue atribuir o mesmo tipo de veracidade aos objetos da experiência sensível, mesmo quando possuímos o tipo de conhecimento técnico que nos permite dominar a natureza antes de compreendê-la.

Isto significa que a Opinião (doxa) existe, e deve existir necessariamente, para atribuir possibilidade (eikasia) ou verossimilhança (pistis) àquilo que ainda não se pode conhecer cientificamente (episteme) como mais provável (dianoia) ou mesmo como certo (noesis).

Por outro lado, o que é seriedade?

Seriedade é o tratamento digno que é merecido por uma pessoa, assunto ou coisa. Quer dizer respeitar, honrar, dignificar, etc. O contrário da seriedade é a leviandade, o jogo, a falsidade, etc.

Voltemos à questão, então: porque uma opinião não pode ser séria?

O que torna uma idéia séria ou não séria?

Uma idéia séria é aquela que honra o seu objeto ou assunto, enquanto uma idéia não séria é aquela que o trai com desrespeito.

Ora, honrar e respeitar é uma ação moral que implica ter o objeto como importante e sério.

Por outro lado, opinar é uma ação intelectual que produz uma imagem da verdade na ausência do conhecimento mais provável ou certo da mesma.

Por que uma idéia não pode, na ausência de um conhecimento mais provável ou certo do seu objeto, honrar e respeitá-lo mesmo assim?

A contradição não existe necessariamente, porque a ação moral e a ação intelectual se referem a gêneros diferentes de seres.

Moralmente, escolhemos respeitar ou não o objeto ao qual nos referimos.

Intelectualmente, porém, escolhemos produzir uma idéia que tem um tipo de credibilidade variável conforme possuamos ou não o conhecimento desejado.

Uma opinião pode honrar o seu objeto e tratá-lo seriamente, sem subir seu grau de entendimento ao nível da ciência, tão somente porque isso pode não ser possível dada a condição comum da ignorância humana.

Um assunto ou problema mantém indefinidamente o seu grau de seriedade, independentemente da ignorância daquele que o trata. É assim que sabemos que a guerra em Gaza ou a proliferação de armas nucleares são problemas sérios sobre os quais não há uma solução científica a respeito, mas muitas opiniões que devem ser sérias ao nível desses problemas.

É o que o artista faz com sua imaginação, é o que o político faz com a sua promessa de governo, é o que o crente faz com a sua fé, etc.

Um cientista pode e deve restringir as suas idéias, enquanto científicas, ao âmbito apenas do que pode ser dado como provável ou certo. Mas todos os demais seres humanos que NECESSITAM crer em algo antes de sabê-lo para simplesmente viverem as suas vidas não só podem como devem produzir uma opinião que busque ser a mais séria e responsável possível, dadas as limitações da condição humana e certos valores tidos como princípios gerais para todos os casos, como os que baseiam a moralidade comum.

Opiniões, portanto, não só podem ser sérias como devem ser.

A evidência disso está na realidade humana de cada dia onde, por exemplo, é totalmente comum e esperado a responsabilização moral de uma pessoa pela sua opinião. Se nenhuma opinião pudesse ser séria, nenhuma opinião poderia ser contestada seriamente, por exemplo, pela verificação das suas consequências e pela imputação de responsabilidade aos seus proponentes.

Pior ainda, a motivação por trás da Grande Restauração, ou renovação das ciências, é ela mesma uma opinião e e não uma certeza, dado que se fosse certo seria objeto de demonstração e não de apologia. Veremos isso com mais detalhe mais tarde ao tratar da segunda contraposição.

E para destruir de vez essa noção de contraposição entre opinião e seriedade, convém lembrar que o princípio de qualquer investigação científica é uma opinião inicial, que é tratada como hipótese sobre o verdadeiro, e portanto seriamente, para que se possa seguir para as próximas etapas do processo. Ainda mais, as premissas de qualquer investigação são tomadas como autoevidentes por um ato de crença, e não por uma exaustiva demonstração, do contrário o próprio progresso científico seria inviável. Acredita-se que tal e qual premissa é válida por ter sido eventualmente demonstrada como a mais provável, mas a qualquer momento um pesquisador pode revisar aquilo que se tinha como premissa de método, ao introduzir uma nova hipótese a respeito.

Com isso tudo temos que a primeira contrariedade sugerida por Francis Bacon, e subscrita por Kant, é uma figura de estilo e não um conceito rigoroso.

Ou seja, os nossos amigos aqui querem nos convencer de que são rigorosos no ato mesmo de nos provar que não o são, ao menos no uso mais ligeiro e corrido da linguagem, onde se assemelham aos demais pobres mortais que são cheios de opiniões.

O ideal de ciência é o desejo de libertação da opinião como um tipo inferior e indesejado de idéia.

Pois bem, esse ideal nunca foi realizado na existência humana, nem mesmo no âmbito da ciência, já que a certeza continua sendo extremamente restrita a objetos de pura abstração e o resto depende, no máximo, de opiniões mais qualificadas por diferentes graus de credibilidade. Isso chega ao ponto, com a Falseabilidade de Popper, da confissão de uma consciência da investigação científica como um método de se trocar opiniões menos sérias por outras mais sérias, mas que só podem continuar a ser defendidas exatamente porque podem ser contestadas, ou seja, porque não significam uma certeza. Fazer ciência, quem diria, é fazer opiniões sérias, marginalmente mais qualificadas, justamente aquilo que os iluministas queriam negar, ou seja, o que queriam negar aos outros mas não a si mesmos.

Se o ideal da libertação da opinião nunca foi realizado, isto quer dizer que não passa de um objeto de imaginação e crença nos corações e mentes dos homens. E essa é exatamente a imaginação e a crença do Gnosticismo, a vontade de se libertar da necessidade de crença através da Gnose.

Infelizmente para os gnósticos, isso nunca vai passar de um sonho e de uma farsa. É uma mentira. O Conhecimento pleno só é possível ao Ser pleno, que é Deus. E Deus só tem um. Qualquer ser finito terá, diante do pleno possível que só um Logos divino pode dominar, um conhecimento necessariamente limitado e, portanto, uma condição existencial de ignorância permanente.

A forma do ser humano, como a de qualquer ser contingente, contém uma limitação que o determina constitutivamente. No nosso caso, temos o grande privilégio de sermos feitos, à imagem e semelhança do Criador, com Intelecto e Vontade. Isso significa que, ao contrário dos demais seres, somos agentes morais que completam a sua Percepção com a Apercepção: sabemos que sabemos um pouco, e sabemos que não sabemos todo o resto. A consciência da limitação da nossa forma deveria instruir o nosso Intelecto a assumir a condição humana de ignorância atual com a escolha moral livre e responsável mais compatível e condizente com esta realidade: a opção pelos dons de Soberania e Humildade.

Nos primórdios da História da Filosofia nós temos, na origem do platonismo, essa dupla influência decisiva que vai demarcar o território das possibilidades de todo o futuro filosofar humano: o gnosticismo pitagórico, algo transhumanista, para não dizer prometéico (ou luciferiano), e a responsabilidade socrática, que antecipa na história das idéias o valor moral cristão de humildade e mansidão.

Na minha obra e no meu ensino deixo claro a todos a minha escolha: pela responsabilidade moral contra a ilusão gnóstica. Aqui tratamos de um exemplo disso.

Depois continuamos com a análise da segunda contraposição, entre as noções de “seita” e “opinião arbitrária”, e “utilidade” e “engrandecimento da humanidade”.

A divina comédia, livro por Dante ALIGHIERI

Comentário feito em anotações separadas, a serem lidas em vídeos próprios.

Esta visão é estritamente filosófica e espiritual, sem considerações de âmbito estético, de técnica poética, ou de ocultismo/esoterismo.

Nota espiritual: 2,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno2
Soberania/Gnosticismo1
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo2
Nota final2,9

A conspiração aquariana, livro por Marilyn FERGUSON

A ideia do livro rejeita as máximas bíblicas de que “não há nada de novo sob o sol”, e de que “o que está faltando não se pode contar”.

O livro quer tornar a Maldição não apenas aceitável como até mesmo desejável para o transcorrer de um processo de evolução.

Baseia-se nas idéias de Rejeição da Cruz e de Idealismo imanentista.

Acham que a revolução é exterior, mesmo quando dizem o contrário, porque a mudança do homem só serve para a mudança do mundo e da história.

Se fosse revolucionário de fato, o movimento questionaria o Pecado Original. Como não o faz, não passa de mais um recurso na dialética do Ouroboros para nos dar a ilusão de progresso e liberdade enquanto permanecemos escravizados. Fazem parte da mesma religião do homem, porque não tem a coragem de questionar o verdadeiro costume, a verdadeira Lei de seus antepassados, ou seja, a Usurpação contra o Criador.

A verdadeira revolução é a interior, cristã: o Caminho, a Verdade e a Vida – aceitar o mandamento do Amor divino, A Cruz, a Morte e a Ressurreição.

No cúmulo da ingenuidade , o livro apresenta a proposta transhumanista que é nada menos que a entrega da humanidade ao controle de forças ínferas de uma dimensão inferior, é a escolha de Alberich, a traição contra o Amor em busca do Poder.

O livro parece uma grande masturbação mental, uma esperança no futuro da humanidade sem nenhum fundamento sólido, uma transcendência falsa sem verdadeiro objeto (sem Deus, sem Eternidade).

A maior parte das pessoas que se julgam ilustradas pareceu ainda não compreender que o que há de mais moderno, evoluído e revolucionário é o Evangelho, e que nada pode superar esse nível divino de liberdade: a aceitação da Cruz, da Morte e da Ressurreição.

Deseja-se uma insanidade: viver num “mundo objetivo” que seja bom nele mesmo e para todos ao mesmo tempo, isto está completamente ultrapassado pela simplicidade da Mônada, com sua Percepção e Apetição.

O autor supõe que a mudança possui qualidade positiva para os sujeitos da evolução, uma visão antropocentrista ingênua; o que há é o processo de transformação, solve et coagula, ordo ab chaos etc, dissolução e cristalização do Poder, que é o produto final.

Temos a vantagem em retrospecto de ver no que deu de fato, em termos históricos, o entusiasmo e o otimismo da Conspiração Aquariana: um fiasco, a humanidade nunca esteve tão fraca e desorientada, indefesa na sua ignorância e falta de sabedoria.

Espanta sobretudo a ingenuidade diante das promessas da nova tecnologia: tanto a ideia de que o conhecimento se disseminaria (como se o interesse intelectual se propagasse junto com os meios difusores e o ser humano médio deixasse de ser o que é, uma pessoa perdida e desligada do sentido) e que o poder seria descentralizado. A California, que seria o centro da libertação da humanidade, se tornou a sede da dominação tecnológica global, da espionagem, da engenharia social, da tirania tecnocrática, para não falar do resultado da libertinagem na crise das drogas pesadas, miséria social, ruas literalmente cheia de zumbis e pilhas de merda, etc.

Em suma, onde a maior fonte de escravidão é o Pacto Ouroboros, a Conspiração Aquariana se apresenta como falsa liberdade que só muda a aparência do mesmo Velho jogo de poder.

O que temos na verdade é a Impotência Aquariana, que é a falha do poder de questionar a autoridade atual de reconhecer-se como parte do problema e superar seu próprio humanismo, encontrando a verdadeira solução na Transcendência (Peixes). Aquário sem Peixes é como o eterno retorno do Antropocentrismo sob novas vestes, apenas um novo engano.

Nota espiritual: 1,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção1
Presença/Idolatria0
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo1
Vigilância/Ingenuidade0
Discernimento/Psiquismo1
Nota Final1,9

Acreditavam os gregos em seus mitos?, livro por Paul VEYNE

Autor erudito e hábil

Estilo agradável e fluido

Sua ideia de polígono é análoga a minha concepção da Mônada : ente livre que produz uma versão da verdade desde o seu ponto de vista

Meus dois princípios sobre Mito e História

Função do Mito: transmitir uma ideia através do seu sentido

Função da História: evidenciar as verdades universais e fortalecer a Vigilância, destruir a ingenuidade, isto é, a crença na mentira histórica (a História é produzida e mantida pelos interesses de poderosos que se beneficiam da mentira -o segredo do poder é o poder do segredo)

O problema do autor não existe ou não tem importância : A realidade histórica do mito é irrelevante, porque qualquer verdade plena deve ser suprahistorica, independente da história , especialmente a da forma do Ser como Bem e Unidade, e portanto a Lei do Amor

A poesia é mais filosófica que a história (Aristóteles), pois nela as ideias são expressar numa forma mais pura, ou menos misturada pela contingência , é por isso que imaginamos estórias e as contamos uns aos outros, para explicar as ideias de sentido (vida espiritual, ou metafilosofica) de forma mais direta e profunda

Exemplos clássicos da sabedoria do Evangelho: Jesus costuma fazer uso de Parábolas para ensinar a verdade

Autor peca no seu historicismo típico da sociologia, entendendo-se como parte de uma geração iluminada , e tentando salvar os gregos de si mesmos, como se eles não pudessem ser tão toscos e pouco iluminados. Na verdade os gregos estavam mais próximos da verdade por a entenderem como suprahistorica, aletheia aposeixis, quanto mais acreditassem na veracidade do SENTIDO de seus mitos. Nesse ponto a obra é sintoma da grande decadência da intelectualidade moderna que quer descobrir uma verdade exterior, ou seja, fora da mônada , como num mundo objetivo num espaço-tempo , que é uma forma de idolatria

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Nota espiritual: 5,1 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo4
Nota Final5,1

A Filosofia na Idade Média, livro por Étienne GILSON

Panorama da história das idéias:

História da busca do acordo ou da separação entre Teologia e Filosofia: o encontro da Revelação Cristã do Evangelho e da Patrologia com a Filosofia Grega de Platão, Aristóteles e dos Neoplatônicos

Dentre as valiosas e inteligentes considerações do autor, talvez a mais preciosa seja a de que se enganam tanto aqueles que atribuem mérito a um dogmatismo teológico acabado na filosofia da idade média, quanto aqueles que desmerecem o período como se fosse apenas um intervalo entre as grandes luzes da antiguidade e da modernidade: erram ambos, já que foi a Idade Média que produziu a liberdade, pelo menos em germe, contra todo dogma, e que preservou a capacidade da filosofia, para não falar da cultura em geral, de amar uma verdade que transcende todos os tempos.

O grande desafio e mérito da Filosofia Medieval foi o de aprender com a Teologia cristã a rejeitar os dogmas gnósticos da Filosofia grega, e de aprender com a Filosofia grega a rejeitar os dogmas gnósticos da Religião cristã. Essa noção foi quase que totalmente perdida na história das idéias, exceto por alguns filósofos cristãos que não perderam a pista, como Leibniz. De resto, a historiografia tende a cultuar algum tipo de gnosticismo, seja o da Religião Cristã, ou o da Filosofia Grega, demonstrando que esses impulsos são suprahistóricos, imanentes ao homem como uma constante tentação. A solução é uma fórmula descoberta pelo esforço da cultura filosófica cristã: crer para conhecer e conhecer para crer, isto é, viver a Vontade pelo Intelecto e o Intelecto pela Vontade, mirando no ideal de um Bem sempre transcendente.

Nota espiritual: 5,3 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,3

Natsu 2024

É o San’yaku:

Yokozuna TERUNOFUJI

Ozeki HOSHORYU

Ozeki KOTOZAKURA

Ozeki TAKAKEISHO

Ozeki KIRISHIMA

O privilégio da perspectiva cristã

Quem me dera ter nascido num mundo lotado de cristãos convictos do privilégio da sua perspectiva, anunciando o verdadeiro Evangelho em toda parte, glorificando o Altíssimo de maneira impecável e perfeita todos os dias.

Tenho que me contentar com o suficiente fato de que pelo menos algumas pessoas neste mundo ainda entendem o que é a Boa Notícia, ou pelo menos possuem algum desejo de entender, e que pela santa misericórdia do Eterno eu mesmo pude receber a liberdade de crer em Jesus Cristo.

Façamos as honras? Vamos novamente testemunhar?

Meu sonho é produzir o último discurso, a solução final da questão cristã. Claro que ainda não o posso, mas ao menos tenho a chance de treinar para quem sabe chegar lá um dia (embora já sabemos que não é matéria para esta vida).

Partimos da premissa do idealismo transcendental, de que a Unidade e o Bem são a forma do Ser (unum, verum et bonum convertuntur), e de que na sua infinitude o Bem só pode ser cogitado por uma mente finita como o melhor possível de acordo com a forma do limite de seu próprio intelecto e vontade em dado momento de uma jornada particular de busca e entendimento. Assim, a filosofia cristã é ao mesmo tempo universalidade e particularidade: dá o testemunho do processo do conhecer e desejar, testemunho que deve ser formulado com pretensão universalista, mas que reflete sempre uma experiência particular impossível de ser totalmente replicada em outra alma. O que é a filosofia cristã? É o amor pela verdade do Evangelho no coração de um filósofo cristão que testemunha, numa fórmula universal compreensível por analogia, a experiência da sua vida espiritual. A verdade em si nunca é relativa, ela é absoluta como posse do Intelecto divino, isto é, enquanto conhecimento que o Absoluto tem de si mesmo, ao qual cada alma criada terá o acesso parcial que corresponde à sua forma particular de ser. Isto quer dizer que a verdade em si mesma enquanto conteúdo da consciência divina é absoluta, mas enquanto conteúdo de consciência de um ser finito é relativa à sua forma limitada de ser. E não poderia ser de outra forma, porque só em Deus o objeto do Intelecto é pleno em ato. Daí que qualquer premissa realista é defeituosa por definição, querendo recompor a totalidade desde sua perspectiva limitada, partindo “de baixo para cima”, ou do Múltiplo ao Uno. O que honra a essência divina é o uso que o intelecto criado faz da sua potência para contemplar o que lhe transcende como fonte da compreensão do Ser, “de cima para baixo”, do ideal para o real, e do transcendente para o imanente. Esta forma de ciência é espiritual, superior, porque é uma contemplação amorosa (usando um termo caro ao Olavo), ou seja, é um ato íntegro que sintetiza Intelecto e Vontade, realizando a máxima da filosofia cristã do intellige ut credas, credas ut intelligas (“conhecer para crer, crer para conhecer”).

Dada essa premissa, que podemos afirmar?

O único e verdadeiro Deus, Criador de todas as coisas, sempre foi pleno em si, na substância do seu ser divino. Deus conheceu e amou, satisfeito no seu Ser uno e trino, sendo visão da visão e amor do amor, conhece e é conhecido, ama e é amado pela Eternidade.

Absoluto e imperturbável na sua felicidade, paz e alegria, desejou como manifestação gratuita da sua majestade criar outros seres que vivessem, na sua condição, algo da sua gloriosa felicidade.

Agora, isto pode ser difícil, mas é preciso compreender a inefabilidade do ser abscôndito de Deus, que é o único capaz de conhecer e amar a sua verdadeira natureza infinita. Como poderia então o Absoluto criar seres que pudessem viver, no seu aspecto próprio, limitado e finito, a sua glória divina que só Ele mesmo conhece e ama plenamente? Em suma, como o Santíssimo, o Santo dos Santos, infinitamente separado e transcendente a qualquer substância que não seja a sua própria, poderia imprimir a sua experiência de ser a outro ser?

Só poderia fazê-lo criando seres completamente separados e análogos ao seu ser, singularidades indeterminadas com a potência de realizar o análogo da operação divina em suas próprias substâncias limitadas, e portanto capazes de experimentar, pela recepção da pura luz divina no seu ser, um reflexo da Glória do Criador.

Criou, assim, seres à sua imagem e semelhança, capazes, por seu Intelecto e Vontade, de conhecê-lo e amá-lo no reflexo de suas próprias substâncias.

Cada uma dessas criaturas foi feita para a plenitude designada pela Sabedoria da Providência divina que, já conhecendo eternamente a forma final que limita e define cada criatura, tem um propósito próprio para a realização do ser de cada um que criou, propósito cuja experiência chamamos de Paraíso.

Deus sempre soube, por sua eterna Onisciência que domina a totalidade dos futuros contingentes, que nenhuma criatura poderia realizar plenamente a sua liberdade na condição paradisíaca sem que antes experimentasse o seu próprio arbítrio de aceitar o desígnio divino. Qualquer criatura alcançaria eventualmente um estado paradoxal que constituiria defeito na forma de uma dúvida sem conteúdo, por não poder conceber condição melhor do que aquela em que já estaria, mas por não poder afirmar que de fato e de direito escolheu esta realidade, por perfeita que fosse. Isto quer dizer que este nunca poderia ser um verdadeiro Paraíso, porque a liberdade nunca seria plenamente satisfeita. É preciso que cada criatura livre viva o Paraíso verdadeiro, sem mácula e perfeito, o que exige que cada um decida realizar essa possibilidade como puro arbítrio, o que é impossível ser escolhido no próprio usufruto dela, dado que todas as demais condições fora da própria indeterminação do ser ou não ser já estariam realizadas perfeitamente.

Se tudo é bom, como pode um ser livre decidir escolher o que é bom?

Por outro lado, se um ser livre não pode escolher o que é bom, não se pode dizer que a bondade é plena na sua experiência, por mais que tudo mais o seja, porque a liberdade da própria criatura não é boa para si mesma, já que não possui o conhecimento total de seu próprio arbítrio.

Em suma, a plenitude perfeita do Paraíso exige que a criatura conheça a sua própria liberdade de escolher o Bem divino, e esta escolha só pode ser feita em qualquer condição inferior à plenitude designada pela Providência, no exato grau exigido para que cada criatura não desista do Amor divino, e ao mesmo tempo que não sofra nenhuma imperfeição na sua liberdade interior de dizer “sim” ao Criador de modo impecável e eternamente pleno.

A criatura que vive eternamente no seu estado paradisíaco precisa possuir, nesta perfeição, a consciência plena da sua própria liberdade de ter escolhido esta vida.

A suprema arte divina, a mais bela e sábia de todas, é a Providência da circunstância exata que satisfaça o grau interior de perfeição que cada criatura requer para a aceitação livre do Amor divino, ou seja, a garantia da precisa condição necessária à atualização da fórmula interior de aceite de cada alma.

Conhecendo a sua liberdade interior de amar o Bem, a criatura se torna capaz finalmente de se separar daquelas trevas de que teve de se servir, por sua escolha e integral responsabilidade, para discernir a conveniência do Amor divino para si.

Ser ou não ser amado?

Eis a única questão real que se põe a cada criatura, requerendo de si a confiança naquilo que ainda não se experimenta, já que se experimentasse não poderia confiar e nem escolher o Bem com verdadeira liberdade.

Dito tudo isso, lembremos que são incontáveis os mundos, universos e multiversos possíveis em que Deus realiza a sua obra, dado que cada criatura foi feita, à sua imagem e semelhança, para possuir integralmente as próprias dimensões ilimitadas de ser. O que quer dizer que, substancialmente, são incontáveis as criaturas herdeiras da Glória divina e, portanto, são igualmente incontáveis os seus mundos e dimensões particulares, em potência.

Vivemos a experiência deste mundo particular no qual nascemos como se ele fosse substancial em si mesmo, mas qualquer ciência séria, física ou metafísica, deverá finalmente reconhecer, mais cedo ou mais tarde, a indeterminação de qualquer realidade per se sem a relação com aquele que a percebe, isto é, como diria Leibniz, que o real é a Percepção que a mônada tem de seu próprio reflexo.

Vencida essa questão, resta-nos considerar que há a experiência do comum e universal, isto é, da mutualidade, e esta é mais simplesmente explicável como mútua representação das mônadas sem janelas, atualizada pela luz divina em sincronia e simultaneidade, do que por uma muito mais complexa e problemática série causal que atribuiria realidade a qualquer ser que não seja a substância simples. É inútil fazer com mais aquilo que pode ser feito com menos (Ockham).

Pior: a atribuição de substância à realidade exterior à alma constitui idolatria por um declínio da forma pura da luz refletida na mônada para a atribuição de luminosidade própria ao seu reflexo, como se fosse presumido que a Lua cheia emitisse sua própria luz e não apenas refletisse a luz que recebe do Sol (exemplo histórico: considerar João Batista um “santo” e não enxergar nele apenas o reflexo da glória de Jesus Cristo). Esse erro de idolatria é a origem da parasitagem e usurpação do Amor divino, o culto gnóstico da mistura de Luz e Trevas como origem constitutiva da realidade.

Assim, a natureza daquilo que entendemos como “realidade” não se trata de Simulação ou Holograma, mas da operação divina de criação santificada que produz a mutualidade para que cada criatura possa escolher ser ou não ser amada por si, isto é, crer ou não na transcendência do Bem em face da realidade manifestada.

Em algum grau todas as criaturas na ante-sala do Paraíso deverão realizar a sua escolha de crença na pureza da luz transcendente de Deus, ou na falsidade da mistura de luz e trevas (isto é, entre o ser e o não-ser), de modo que algum mundo terá que ser sempre manifestado para que possa ser crido como ens proprium gerado pela mistura. Esta é, por exemplo, a razão do nosso nascimento neste mundo, ou melhor, da manifestação da representação do nascimento do “nosso corpo” neste mundo.

Por mais que uma teologia honesta alcance a realidade do Pecado Original, como por exemplo na idéia do Pacto Ouroboros, não podemos daí fazer a redução antinatalista, porque esta exclui o propósito da Providência divina, por desconfiar dele ou mesmo desprezá-lo totalmente, o que já constitui uma deliberação de quem tem mais crença na integridade da mistura do ser do que na da sua pureza (como se dá com os que adoram o Caos, o Nada, etc.).

Amar a Deus e ao próximo é amar a liberdade de Deus e também a do próximo: tanto a do Criador de permitir a manifestação da liberdade humana, quanto a de cada criatura de conhecer a sua própria liberdade, já que tudo isto é o próprio sentido da vida presente. O ódio contra essa liberdade é apenas uma fraqueza de fé, facilmente curável pela vida espiritual, mas impossível de se resolver no âmbito exclusivo do psiquismo.

Sobretudo, no espírito de amor ao próximo, devemos receber e cultivar a inteligência de respeitar a jornada individual de cada alma, já que somente o Criador conhece a medida própria da experiência necessária a cada uma para atingir a solução espiritual, bem como as potências particulares que devem ser nutridas para cada caso. Há uma fórmula precisa para cada alma, conhecida apenas pelo Altíssimo. Na nossa ignorância, só podemos respeitar e aceitar esse mistério. A obra de Deus se realiza num muito exato e apropriado PROCESSO, e a integridade desse ultrapassa todos os nossos tolos idealismos, mesmo que supostamente cheios da caridade cristã. Mas que caridade pode superar a confiança no triunfo do Bem?

Entendido tudo isso, o que nos cabe?

A quem ficar clara a necessidade espiritual da liberdade humana, resta terminar o movimento interior de escolha do Bem na própria vida interior, que é o Primeiro Mandamento de amar o Amor divino que livremente nos concedeu a promessa do Bem eterno, bem como o outro movimento interior de produzir o melhor testemunho possível, com ações e palavras, para que as outras almas sejam incentivadas a desejar e escolher a confiança no mesmo Bem, que é o Segundo Mandamento de amar ao próximo como a nós mesmos, isto é, desejando para o outro o melhor que podemos desejar para nós mesmos, que é uma vida cheia de fé, esperança e amor. Certos dons espirituais, quando esclarecidos e assumidos, podem auxiliar nesta jornada (o que já falamos na explicação das várias Libertações, do Realismo Responsável, e da contemplação da Mônada e dos Sete Dons particulares).

Esse é o Evangelho, a Boa Notícia, a verdadeira comida e a verdadeira bebida de que estão esfomeados e sedentos todos os seres humanos.

É o anúncio da Cruz, que é a morte da mentira.

E é o anúncio da Ressurreição, que é a vida da verdade.

Mas só podemos dar o que primeiro recebemos: daí que só pode dar o testemunho do Amor divino quem o recebeu em si.

Se existisse uma escola de filosofia cristã sobre a qual eu fosse o responsável, esse seria o seu mandato: a recepção e a doação do testemunho do Amor, que é o privilégio da perspectiva cristã.

Um testemunho que antes recebemos de Jesus Cristo, porque nisto consiste o Amor: em que não fomos nós que amamos, mas foi Deus quem nos amou primeiro.

Natsu 2024

É o San’yaku:

Yokozuna TERUNOFUJI

Ozeki HOSHORYU

Ozeki KOTOZAKURA

Ozeki TAKAKEISHO

Ozeki KIRISHIMA

Ficção Americana, filme por Cord JEFFERSON

Quando vejo este ator que protagonizou Ficção Americana, só consigo lembrar do Bernard de Westworld, uma das melhores séries, senão mesmo a melhor de todos os tempos (a 1ª Temporada) para o meu gosto.

Aqui o ator representa um personagem culto, um escritor negro que luta contra a indiferença do mundo à sua sofisticação enquanto os estereótipos raciais são elogiados e promovidos. Ao mesmo tempo ele vive um drama familiar: a saúde mental de sua mãe se deteriora, e a sua irmã, maior aliada no cuidado da mãe, morre logo no início do filme. Seu irmão não liga para nada e não dá o suporte necessário, já que está vivendo a sua própria estorinha particular e sagrada de sexo e drogas que não pode ser interrompida por nada deste mundo.

De birra, o nosso autor escreve um livro cheio de tolices e dos clichês que despreza, e manda para ser avaliado por intermédio de seu agente editorial.

Não surpreendentemente, o livro é bem aceito e lhe causa um sucesso espantoso. Conflitado por essa realização inesperada, o autor prossegue na farsa de que é um fugitivo da polícia contando a sua história de marginalizado, já que os lucros disso ajudarão a sustentar a mãe nos cuidados necessários.

Sem entrar em maiores detalhes do filme, o que temos aqui é uma peça de drama leve num mundo em que o noticiário já é suficientemente pesado. Pensando em tudo o que Hollywood costuma produzir, até que o filme não é dos piores.

Mas espiritualmente, que proveito podemos tirar disso, se é que podemos tirar algum?

O grande ganho vem do atenuado senso de Louvor da parte do protagonista. É fraco e meio desqualificado, mas está lá: ele não aprova nem deseja participar de uma porcaria de vida, numa porcaria de sociedade, senão dentro dos limites do que lhe é estritamente necessário. Mantém a sua seriedade até mesmo diante dos apelos do charme de uma candidata a esposa que, apesar de ser muito decente, não passa no teste de integridade moral ao apreciar a obra clandestina do nosso autor. É uma alma pequena que só vai diminuir o valor do outro.

O apelido do personagem principal já lhe profetiza o destino: “Monk”, que quer dizer “monge”, isto é, aquele que prefere a reclusão sagrada do que a mistura com o mundo profano.

Corretamente, Monk não decai ao nível do julgamento moral do próximo, seja de sua família ou de qualquer outro. Ao contrário, até sabe apreciar a alegria alheia, embora saiba que ela é apenas uma tolice e, por esta razão, que não pode participar dela. Isto fica claro na cena mais poderosa do filme, para mim, que é quando ele observa a festa de casamento da empregada de sua mãe.

Falando na mãe de Monk, esta lhe diz que ele é como o pai, um gênio, e que gênios são pessoas que não sabem como lidar com as outras.

Sendo gênio ou não, Monk não tem o valor redentor necessário para emprestar o seu Louvor ao próximo, razão pela qual a parte ruim da estória acaba se tornando mais prejudicial do que a parte boa foi lucrativa: o filme transmite a legitimidade do Sistema da Besta e valida o espírito de Ingenuidade.

Afinal de contas, Monk pode até ser um gênio, mas não é o dono da verdade. No máximo, é dono da sua própria verdade, e isso não melhora a situação de ninguém além dele mesmo.

Um bom monge tem o Evangelho, a verdade realmente redentora e universal, aquela que não só separa a alma do mundo, mas que a faz brilhar sobre ele, atraindo a todos os de boa vontade com a promessa de salvação.

Nota espiritual: 4,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,4

Corra!, filme por Jordan PEELE

Este mundo não é um lugar onde nascemos para viver uma vida cheia de realizações, satisfações e sucessos.

É uma selva cheia de serpentes, uma estepe cheia de lobos, um deserto cheio de escorpiões.

E as selvas, estepes e desertos foram todos dominados pelo pior predador de todos, o ser humano, que inventou o pior dos ambientes que a natureza jamais havia sonhado: a sua civilização, o maior disfarce instalado em cima da realidade violenta e brutal de seu fundador.

Corra! nos mostra essa realidade de maneira crescente e quase insuspeita.

O protagonista é um jovem negro que namora uma moça branca por algum tempo, e que finalmente é convidado para conhecer a família dela.

Quando chegamos lá descobrimos um pessoal estranhamente bem educado e bem disposto com a presença do estranho num ambiente lotado de brancos. Suspeitamos de uma coisa aqui, outra ali: a mãe da menina que dá a entender gostar de usar hipnose com propósitos benéficos, os serviçais negros que trabalham na casa da família como zumbis, etc.

E então finalmente descobrimos o que já era de se esperar, que todo esse pessoal (a namorada inclusa) é racista e desumano, e que montaram um esquema de escravidão com uma metodologia moderna e heterodoxa: a menina serve de isca para atrair incautos namorados negros que eventualmente são hipnotizados pela mãe e dominados a tal ponto que são forçados a participar naquela sociedade do jeito que os brancos desejam, seja como empregados, como amantes, ou até como doadores de órgãos, como será o caso do nosso protagonista que é leiloado como propriedade para um homem cego que deseja enxergar novamente.

A sorte do nosso protagonista foi que descobriu alguns truques em tempo de se libertar do processo de dominação, e por fim que o seu amigo, que é agente do TSA (aquele serviço chato que opera ostensivamente nos aeroportos dos EUA desde o 11/09), resolve investigar o seu sumiço e acaba resgatando-o no final.

Corra! manipula o forte componente racista da cultura norte-americana para criar um terror moderno que se não nos ensina grandes coisas do ponto de vista espiritual, ao menos colabora para a abertura de certo censo de vigilância, e para a idéia crítica de que é uma tolice ingênua querer fazer desta vida um passeio agradável num mundo amigável. Infelizmente isso ficou restrito ao componente racial, mas não é difícil extrapolar o sentido para a condição humana como um todo.

Daí aprendemos a inteligência, que é correr do mal, sempre.

Nota espiritual: 4,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,9