O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL

Apesar de ser um livro chato, cheio de expressões feias e gerúndios irritantes (muito irritantes!), ao menos em O Treinamento Continua o casal Mastral pôde dar sinais de alguma Humildade em decorrência do seu sofrimento. Infelizmente isso custou muito mais caro do que deveria. Mas parece que entenderam que é preciso aceitar toda a vontade de Deus, o que sempre se resume na docilidade diante do decreto de Gênesis 3. Ainda assim abundam as infantilidades de Isabela, e aquelas expressões meigas que tanto entediam: é “Gatinha” para cá, “Neném” para lá, etc. É preciso ter paciência para ler isto. Se não me tivesse sido dado como tarefa, eu mesmo abandaria a leitura rapidamente.

Neste livro descobrimos, ou confirmamos uma suspeita anteriormente aventada, que Daniel é filho de Marlon, seu iniciador na Irmandade satanista.

O que não ocorre aos autores é o simbolismo desta história, já que bem observados os fatos da realidade da condição humana, desde a perspectiva maior do Pacto Ouroboros (o Pecado Original), todos os filhos gerados pelas Obras da Carne desde Adão são voluntaria ou involuntariamente oferecidos para o diabo como oferta para a continuidade da construção da civilização da Usurpação. Isto é: o que Marlon fez com Daniel nada mais é do que uma ação explícita que revela o sentido do que em geral significa a paternidade em todos os casos.

Ultimamente tenho eu mesmo voltado a esse tema na minha mente com mais profundidade. Percebi que é preciso ter essa clareza específica: embora a RSMM de uma alma indique a conveniência do seu nascimento enquanto Sindar, se todos as almas com o potencial de assumir a contrapartida (maternidade ou paternidade) se recusarem terminantemente a fazê-lo (por não constituir a sua própria RSMM), aquela alma carente desse tipo de experiência da mistura pode ser um novo Adão a qualquer momento, ou, caso precise especificamente da experiência da filiação carnal, pode ser filho ou filha de um Periannath com esta função específica, o que poderia resultar num caso de Simulação total, ou uma mistura de Simulação com Mútua Representação. De qualquer modo, e em qualquer caso, é importante entender, de uma vez por todas, que se uma pessoa precisa experimentar a Queda, isso não exige que nenhuma alma livre seja obrigada a produzir isto, senão por arbítrio da sua própria RSMM.

De resto, o casal continua com suas confusões anteriores, todas produzidas certamente pela sua formação no âmbito da religião cristã (especificamente Evangélica), o que obstrui e complica a pureza da vida espiritual todas as vezes. Vira e mexe Isabela vem com a novidade de tributar graças a um tal de “Jeová Jireh”, supostamente uma mera referência a “o Senhor proverá” de Abraão no caminho do sacrifício, mas porque raios não usa o português, que sabe o que significa com clareza, e mantém o uso de uma língua que não conhece? Deus se torna mais Deus, ou nós nos tornamos seus melhores amantes, se usamos a língua hebraica?

Eles quiseram publicar o livro O Filho do Fogo, mas não em primeiro lugar para dar um testemunho bom para o próximo, e sim para se beneficiarem disso. Quem afirma isso é a nossa amável praticante de sincericídios em massa, Isabela: “esse seria um final absurdo para essa história: eu morrer alguns dias antes da publicação do livro. Se isso acontecer, não tem sentido publicar nada. E dois meses depois da publicação, se Eduardo morrer, também fica sem sentido“. Nenhuma entrega da morte ao comando divino, nenhuma paz e alegria na Providência, só essa maluquice do toma-lá-dá-cá. Gostaria de dizer que Isabela mostra sinais apenas de egoísmo, eventualmente, mas sua carência chega ao ponto do narcisismo muitas vezes, quando ela mostra um desligamento psíquico quase que total das circunstâncias reais de sua vida, e se dispõe a ver o mundo somente desde o ponto de vista de seu capricho pessoal, como uma menina mimada.

Daniel, por outro lado, também continua se comportando irresponsavelmente, faz o que não convém e depois diz que esqueceu, como se estivesse fora de si por uma influência demoníaca, principalmente quando brigava com a esposa, para não ter que dar satisfações pelas suas ações. Muito conveniente. Por que alguém que presa tanto por sua independência e liberdade desejou justamente se casar, ou seja, dividir sua independência e liberdade com outra alma? Ou ele não sabia o que estava fazendo, como grande parte da humanidade, ou, o que é muito pior, sabia o que estava fazendo. Existe a hipótese, por menor que seja, que Daniel tenha empreendido uma grande manipulação no seu casamento com Isabela, já que ela tem a característica de ser muito vulnerável pela sua carência excessiva. Infelizmente, devido ao teor muito fantástico da história como um todo, não podemos descartar essa hipótese de manipulação, e nem que Daniel Mastral não tenha inventado a maior parte das coisas relatadas na coleção Filho do Fogo. Só Deus sabe, e só Deus julga. Mas não podemos ser ingênuos, porque a Vigilância é nossa responsabilidade. Não é culpa nossa que outros queiram nos enganar, mas é culpa nossa se nos deixamos enganar por influência do espírito de Ingenuidade.

Sendo generosos como nos manda o bom Deus, no mínimo Daniel manteve aberta a porta espiritual da ira, o que foi possivelmente o mais antigo e persistente meio de influência dos espíritos infernais.

De modo geral é possível enxergar a obra Filho do Fogo, como um todo (pelo menos até o quarto volume), como um trabalho com a intenção do elogio da Vigilância, embora na prática isso de pouco tenha servido devido ao engano da escolha do outro lado da dialética do Ouroboros como alternativa, isto é, contra o esoterismo gnóstico da Irmandade, a recomendação do exoterismo gnóstico da Religião.

É conveniente para Mastral afirmar que viveu uma história interessante, como experiência real, mas contar com a proteção de uma obra “baseada em fatos reais”, e registrada como Literatura de Ficção. Qual foi a porcentagem de ganhos auferidos pela confusão, perante o público geral, entre realidade e ficção? Quando Daniel afirma que ele, pessoalmente, foi escolhido como o quarto grande líder global debaixo do Anticristo, para encarnar o demônio Leviatã em pessoa, perguntamo-nos: cui bono? Os Mastral.

Nota espiritual: 4,3 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota Final4,3

“Agora preciso ver!”

Citação L0034-C05, em O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL.

Grace, a personagem super esclarecida, ungida, preparada, etc., afirma que o Apóstolo Paulo “nos incentiva a buscar o sobrenatural de Deus“. Isto é uma interpretação enviesada, para não dizer pervertida, do que significa buscar os dons do Espírito Santo. Temos vários exemplos do ensino de uma doutrina claríssima que dá o testemunho da vida espiritual como vida interior, pela Fé e não por sinais.

Bem ao contrário, a busca do sobrenatural por sinais e prodígios é exatamente o que o Anticristo espera, da parte dos ignorantes, como meio de confirmação do seu Poder e da sua Autoridade sobre o mundo que jaz na total mentira diabólica.

O que devemos buscar como consequência da vida na Presença é o dom espiritual de confiar o Amor divino, também chamado de Fé, e não sinais do sobrenatural. É exatamente a inversão da verdade. Por isso mesmo disse que parece ser uma perversão.

Quando Isabela diz “não vou conseguir continuar se Deus não me atender“, ela mostra que não discerniu os dons espirituais que recebeu no seu coração, que seriam mais do que suficiente para lidar com quaisquer tribulações. E isto nós evidenciamos facilmente pela própria linguagem dela: Deus só é valorizado como um veículo da realização dos desejos do casal, ou seja, para o sucesso dos seus planos. Em nenhum momento Isabela, ou mesmo Daniel, mostra a menor dúvida a respeito da vontade divina não ser igual a deles.

O que é que Isabela diz que “precisa ver”, afinal?

Ela quer ver o sucesso dos seus planos.

Mesmo quando ela afirma quer ver as coisas sobrenaturais que Daniel vê, isso só serve para obter através delas a confiança de que eventualmente os seus planos seriam realizados.

A intenção de Isabela está totalmente formada pela sua obsessão com uma vida em que Deus não é o centro nem a prioridade, mas apenas um auxiliar para os desejos do seu coração. É um espírito de Presunção.

Não me entendam mal: não há defeito no desejo humano, desde que ele seja entregue aos pés de Deus. Não sabemos se queremos o bem ou não, mas Deus sabe. Por isso devemos desejar a realização da vontade de Deus, e não a nossa, porque Deus sabe melhor. Isso é a Humildade.

“Temos procurado fazer a nossa parte, Ele tem que fazer a Dele.”

Citações L0034-C03/04, em O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL.

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Embora estas passagens tenham sido atenuadas, mais tarde, por um testemunho maior de entrega (para o nosso alívio), não deixa de ser uma formulação que merece ser comentada e criticada.

Para começar, a tal “unanimidade em todas as pessoas“, como uma “confirmação” da parte de Deus, não faz sentido nenhum. Ao contrário, biblicamente o que nós vemos é a confirmação pela quantidade gerar apenas o testemunho das Trevas, isto em vários casos, mas especialmente no caso da participação do povo no processo contra Jesus. Pedir confirmações para Deus já é um primeiro engano. E tomar a unanimidade dentro de um grupo como manifestação da confirmação de Deus, é outro engano.

Daí Eduardo (Daniel) continua num outro engano, sobre essa questão de que “Deus tem que nos sustentar!“, o que não é verdade desde Gênesis 3. Sob nenhum aspecto a Aliança de Reconciliação através de Jesus Cristo aboliu qualquer decreto divino anterior, e nem a total transcendência da razão divina que governa a Providência e está dispensada de dar suas razões aos seres humanos. Deus nos ama: nosso papel é apenas confiar nisso, repousar no Amor do Pai. Essa é a nossa verdadeira alegria e paz. Os Mastral estão lutando contra o Espírito Santo.

Na próxima citação, Daniel especula sobre o casamento tal como Deus o teria “idealizado”. Isso é uma doutrina humana baseada na Tradição Oral e no costume, e biblicamente na idéia da união carnal que pode (e deve) receber uma interpretação espiritual mais abrangente. Quando fala do “padrão bíblico”, Daniel faz uma série de escolhas nessa visão, e é por isso que afirma, por exemplo, que como homem ele precisa ser o provedor. A adesão dos Mastral ao Tradicionalismo, ou ao idealismo imanentista do passado, fica cada vez mais clara.

Por fim ele chega aos abusos mais tremendos, dizendo que “agora Ele tem que cuidar de nós“, e “Ele tem que fazer a [parte] Dele“, querendo dizer que por ter se convertido e buscado viver com Deus e para Deus, agora isso se converteu numa espécie de direito por contrapartida.

Eu preciso explicar o tamanho dessa ignorância?

O que atenua um pouco esse testemunho é a afirmação, mais tarde, de que é preciso se entregar mais e aceitar o que quer que seja do arbítrio divino, então estas citações merecem a ressalva da sua tempestividade. Apesar disso, que tal tenha sido o pensamento dos Mastral, ou pelo menos de Daniel, já mostra o quanto a conversão pelo meio religioso é fraca, mesmo depois de tantos vai e vens com as igrejas evangélicas. Nem o básico eles sabiam discernir. Do contrário, esse testemunho seria impossível.

“Com as bênçãos do abismo que jaz embaixo”

Citação L0034-C02, em O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL.

Quando eu achava que já tinha visto toda a maluquice imaginável nos testemunhos do casal Mastral, de repente sou surpreendido com um novo nível de insanidade, desta vez da parte de Grace, uma mulher supostamente avançadíssima na batalha espiritual contra as Trevas, e no discernimento das coisas de Deus. Esta mulher encerrou a cerimônia de casamento dos Mastral com estas palavras, que evidentemente requerem a nossa avaliação sobre o seu sentido espiritual.

Para começar, quem foi “Aquele que caminhou em íntima comunhão com o primeiro casal nos dias da sua felicidade pura“? Para saber isso, temos que entender o que qualifica a relação de Adão e Eva como a de um primeiro casal. Bem lido, o Gênesis mostra que apesar de estabelecida a união íntima, carnal (“uma só carne”), como um mandamento divino, se o testemunho da Palavra foi adulterado pelos mentirosos a serviço do Usurpador (“transformaram em mentira o cálamo do escriba”), em nenhum momento existe a consumação dessa união antes da Queda. Isto implica no mínimo na possibilidade de que Deus tenha criado uma companheira para Adão, Eva, que não possuía ainda a diferenciação de ser uma esposa, porque a liberdade adâmica ainda não tinha escolhido essa hipótese entre outras. Isto é, aquilo que Jesus afirma ao fim, que devemos nos amar por sermos irmãos uns dos outros, era uma possibilidade humana desde o início. Adão poderia ver Eva como sua companheira, irmã e amiga abaixo de Deus, e guardar em Deus todas a expectativa do próximo passo, isto é, esperar pela felicidade como um fruto do Amor divino, e não como conquista do seu Poder. A união carnal se consuma de fato após a Queda, e podemos entender facilmente que o que realmente constituiu a rejeição do Amor foi o desejo de consumar a felicidade como realização do Poder humano, isto é, que o Pecado Original foi a escolha, por Adão e Eva, de terem poder sobre si mesmos e sobre a natureza, à revelia do Amor divino. Assim, se entendermos o primeiro casal como aqueles que se uniram carnalmente para produzir as Obras da Carne, e não espiritualmente como irmãos e filhos de Deus, para produzir as Obras do Espírito, então “Aquele que caminhava com o primeiro casal” foi o Usurpador, a contraparte do Pacto Ouroboros.

Em seguida, novamente é mencionada as Bodas de Caná, como se fosse um endosso de Jesus ao costume do casamento, pela sua mera presença naquela festa. Aquilo que é uma misericórdia de Deus, e no máximo uma permissão para a consecução da Liberdade humana, se torna um aval. Quando foi que a Presença de Deus transformou o Mal em Bem? Quando foi que a participação de Jesus nas rotinas dos pecadores constituiu um endosso dele ao pecado? Nunca, jamais. Isso é uma perversão e um abuso da bondade divina.

No puro espírito de usurpação, Grace então diz “eu os abençoo“, como se isso estivesse em seu poder, exatamente na imitação de Jacó em suas bênçãos, que é o modelo da sua manifestação. Não temos problemas com Jacó, porque não podemos cobrar um personagem milenar pela linguagem traduzida aos nossos dias. Mas podemos cobrar os tradutores de hoje por, no mínimo, mal gosto, se não por algo pior.

Grace diz que eles são “ramos frutíferos“, mas de qual tipo de fruto? Fruto das Obras da Carne, ou fruto das Obra do Espírito? E então, quando ela afirma que eles são os ramos “cujos galhos ultrapassam os seus limites“, isto é uma manifestação da própria usurpação humana, ou da ação divina? Não poderia ser uma expressão a atividade divina, porque nenhum ramo ultrapassa o alcance da substância de Deus, de seu Amor. Os galhos que ultrapassam os limites de seus ramos são as descendências carnais que funcionam como imortalidade simbólica para os signatários espirituais do Pacto Ouroboros.

Depois, sem mais nem menos, Grace então menciona as estranhíssimas “bênçãos do abismo que jaz embaixo“, continuando no uso das fórmulas de bênção de Gênesis 49, especialmente as proferidas em favor de José. Embora naquela etapa da antiguidade nós pudéssemos aceitar essa linguagem, que seria apenas uma referência às águas primordiais da Criação, conforme ensina a tradição, um ouvido moderno pode e talvez deva entender outras acepções da mesma terminologia, especialmente da idéia do Abismo como Inferno, ou esconderijo das Trevas. Para um usuário rigoroso da linguagem bíblica, conhecedor das etimologias, etc., a fórmula pode parecer indiferente, ou até positiva, mas a maioria de nós não ocupa essa posição, e o Abismo é no mínimo uma imagem ambígua, se não for mesmo negativa. A ambiguidade não serve a Deus. Mas sabemos a quem pode servir. Por fim, cabe-nos ainda afirmar que Jacó, ao proferir suas bênçãos, estava mais produzindo uma Profecia a respeito da Casa de Israel, inclusive com a antecipação de males e desgraças, do que uma mera manifestação do desejo de um bem. Quando foi que recebemos de Deus a autonomia e o domínio para usar esse tipo tão particular de linguagem, que foi proferida no contexto de uma situação tão específica, para quaisquer circunstâncias que nos aprouvesse?

Na melhor das hipóteses, a manifestação da Grace é de mau gosto e gera confusão. Na pior das hipóteses, trata-se de uma manifestação no contexto de uma Celebração com fins espirituais obscuros.

“Se Deus tinha permitido isso, então tinha que ser uma Celebração.”

Citação L0034-C01, em O Treinamento Continua, livro por Daniel MASTRAL.

Parece que o nosso treinamento na confusão da mistura de Luz e Trevas continua no quarto volume da série Filho do Fogo de Daniel Mastral (e Isabela).

Logo de cara a dupla está engajada na celebração do seu casamento, e encontramos esse testemunho acima, saído da pena de Isabela, que já requer a nossa análise e comentário. Esse tipo de coisa não pode passar despercebidamente. Meu trabalho é justamente o de fazer todos os apontamentos necessários para destacar o sentido espiritual das coisas que podem passar sem uma reflexão na leitura de terceiros.

Para começar, Isabela menciona as Bodas de Caná, e diz que “não havia mal algum em festejar“. Quer dizer, a mera presença de Jesus numa festa de casamento, por misericórdia, já serviu como aval para o sentido daquela ação humana. Uma visão mais extensa e compreensiva sobre o tema no âmbito da Bíblia, porém, poderia revelar sentidos diferentes, se Isabela quisesse ir atrás disso. Mas ela quer um endosso, um aval, para o desejo do seu coração. Mais adiante ela mesma confessa isso, o que nos dá a idéia de que, pelo menos da parte dela (de Daniel não sabemos), há mais ingenuidade do que malícia.

Para deixar claro, a presença de Jesus entre todas as pessoas, sempre foi uma ação de misericórdia, e não um aval divino à conduta humana. Mesmo quando estava entre seus amigos, os discípulos após o Pentecostes, Jesus afirma categoricamente que é melhor ele partir do que ficar entre a nossa raça, e que se soubessem para onde ele iria, todos concordariam. Isto é, a precariedade da condição humana, mesmo após a unção do Espírito Santo, é inescapável, e Deus não tem interesse em endossar nossos costumes e tradições. A presença de Jesus entre os nascidos das obras da carne não constitui aprovação desta situação, e muito menos das práticas oriundas dessa condição.

Ainda cabe-nos observar que se a ação de Isabela fosse totalmente de boa fé, ela não se veria na necessidade de justificar. Bendito é aquele que não se condena na decisão que toma. E toda ação que não é feita de boa fé, é pecado. Estou citando literalmente o Novo Testamento. Por que Isabela estaria justificando o seu desejo de festejar, se não fosse por uma luta contra uma condenação interior, e uma dúvida por falta de boa fé?

Mais adiante, Isabela reforça a sua linguagem no sentido que o seu casamento com Daniel fosse uma “Celebração“. Ela não quer que o matrimônio seja somente uma prática de acordo com um costume. Ela quer que isso tenha sentido espiritual, o que nos remete ao se tornar uma só carne, do Gênesis, possivelmente uma formulação que representa o sentido espiritual do Pacto Ouroboros. É importante pontuar isso para que fique claro que quem quer dar sentido maior ao matrimônio do casal Mastral não sou eu, mas Isabela e, a reboque, Daniel. Se eu busco o sentido espiritual deste testemunho, foi por uma provocação da parte deles neste sentido.

Mais adiante ela novamente declara a sua insegurança, apelando para o “se Deus tinha permitido isso“. Que engraçado. Desde a fundação do mundo Deus permitiu todos os homicídios, torturas, estupros, guerras, tirania e escravidão do mundo. Isto implica numa aprovação? É óbvio que não. O argumento de Isabela está totalmente vazio. Aliás, por um acaso (ou não?), a legitimação da ação humana com base na permissividade da Providência é um argumento satanista para o abuso da Liberdade humana. Teria Isabela talvez aprendido isso com Daniel?

O Altíssimo não permite o Mal, Ele permite a Liberdade.

É nossa responsabilidade desejar o Discernimento e, em todos os casos omissos, assumir humildemente, pela nossa ignorância, que não sabemos o que fazemos. O que Isabela faz é o contrário: abraçar o espírito de Presunção.

Logo adiante Isabela insiste nessa idéia de “Celebração”, e chega a afirmar que isto condiz com uma fidelidade de Deus à “Sua Aliança para conosco“. Que aliança é essa?

É a do Espírito Santo, revelada por Jesus Cristo, que mandou que amássemos a Deus acima de tudo, e não a Tradição dos homens, e que amássemos uns aos outros como irmãos? É desta Aliança que Isabela está falando?

Obviamente que não é. No contexto, essa “aliança” nada mais é do que o próprio Pacto Ouroboros, o Pecado Original, através do qual os casais se consagram ao Usurpador e oferecem suas vidas e as de seus filhos ao diabo.

Isabela afirma em seguida que “Deus já tinha preparado cada pedacinho do nosso casamento desde a fundação do mundo“. Quer dizer: Deus não tinha preparado a sua conversão ao seu Amor, e a busca da plena santidade. Deus não tinha preparado a sua fortaleza para carregar a cruz. Deus não tinha preparado a sua mansidão para o aceite da morte. Deus não tinha preparado a sua expectativa para a esperança da ressurreição. Não, tudo isso parece secundário. De todas essas coisas santas, Deus escolheu preparar, desde a fundação do mundo, o casamento do casal Mastral. Isto é o ser humano no seu elemento: colocando Deus a serviço de seus caprichos.

E para não me deixar mentir nessa interpretação, a citação encerra com Isabela afirmando que apresentou para Deus cada desejo, “especialmente do meu coração“. Isabela não está nem um pouco preocupada em entender qual é o desejo do coração de Deus, nem em discernir as coisas espirituais. Ela só quer saber de realizar a vontade do seu próprio coração, e Deus que sirva a Isabela. É a total inversão do “seja feita a Vossa vontade“.

Isto constitui quase que a total obscuridade da mônada, é a idolatria humanista em estado puro, configurada na forma da Tradição, isto é, no idealismo imanentista do passado, pelo costume da Religião.

Protágoras, livro por PLATÃO

Análise L-0033, de Protágoras, livro por PLATÃO.

Sócrates vai questionar o sofista Protágoras, para o auxílio de um aluno interessado em aprender com este, no que consiste a sabedoria ensinada pelos sofistas, ou seja, qual é o objeto dessa atividade de ensino.

Protágoras alega que o objeto do seu ensino é a areté, a virtude cívica.

Sócrates questiona se a virtude pode ser ensinada, pois ele entende que não poderia.

Protágoras justifica o ensinamento da virtude mediante o conto de um mito originário da humanidade, onde primeiramente os homens foram prejudicados por uma falta de provisão de qualidades compensatórias da sua vulnerabilidade, por culpa da divindade Epimeteu, o que foi remediado pela ação de Prometeu que rouba o fogo e a sabedoria prática de Hefesto e Atena, respectivamente, para favorecer o homem na sua fragilidade. Mais tarde, com a aglomeração dos homens em cidades para otimizar a sua sobrevivência na natureza que lhes é hostil, Zeus teria notado que o homem se tornou incapaz de viver em comunidade por não conhecer a Justiça, a civilidade, etc. E então uma última medida é tomada, com o envio da Hermes como mensageiro para ensinar aos homens a arte política, a sabedoria da justiça e da virtude cívica, de modo que todos os homens viessem a ter acesso a isto igualmente.

É óbvio que a atratividade dessa mitologia esconde o problema de que se todos os homens recebem a sabedoria, ela não seria aprendida de homens por outros homens, mas seria um dom divino, o que não resolveria em nada o problema de Protágoras. Por isso mesmo ele vai desenvolver um argumento apostado ao mito.

Antes de entendermos essa argumentação adicional, convém-nos ver como o mito citado por Protágoras tem tudo a ver com a Tradição Primordial, o Culto do Ouroboros, já que existe alguma injustiça ou engano na criação de origem do homem, e essa realidade precisa ser corrigida com a aquisição de conhecimento (Gnose) obtido através dos “deuses”, que são obviamente demônios, anjos caídos.

Na argumentação consequente a respeito da justificação da posse universal da justiça ou civilidade, ou ao menos do potencial dela por parte de todos os seres humanos, Protágoras alega a inviabilidade social da ignorância dessas coisas, ou seja, que isso é esperado de todos, do contrário a ordem social e política, e portanto toda a civilização, seria inviável. O Estado seria impossível se os homens não tivessem todos acesso a essa virtude política.

Ao argumento fraco, tanto do ponto de vista da questão sobre o que habilitaria alguns a ensinarem a outros a arte política, ou a virtude em geral, quanto do ponto de vista de porque seria necessário ensinar e cultivar algo que todos já tivessem possuído por uma dispensação divina, Sócrates contrapõe sua própria série de chicanas que acabam por irritar e aborrecer Protágoras.

Possivelmente Sócrates poderia chegar a bom termo se obrigasse seu adversário a admitir a Unidade do Bem, assim como a sua transcendência total ao homem, mas Protágoras escapa do diálogo com um discurso longo, do tipo que impede a clareza do método socrático. Sócrates acusa isso diretamente, usando da arma do elogio ao pedir que Protágoras diminua o seu ritmo e fale parte a parte, como misericórdia ao seu esquecimento. Mas não deixa de dizer que entende serem bem diferentes as artes do diálogo e do discurso, já introduzindo conotação moral da diferença entre a filosofia e a sofística. Em determinado momento, com Sócrates já querendo partir, e com a insistência de um ouvinte (Cálias), para que Sócrates aceitasse a conversa com Protágoras nos termos deste, Alcebíades sai em defesa de Sócrates e afirma que Protágoras tem a prerrogativa de se render se não for capaz de dialogar, mas caso se considere capaz de tanto, que se digne a fazê-lo.

Em seguida, depois de muitos vais e vens, inclusive com um aparte de Hípias que já analisamos separadamente, empacamos de novo quando Protágoras, em seu argumento, tenta identificar uma contradição entre duas citações de uma obra do poeta Simônides, ao que Sócrates buscará fazer a importante distinção entre o que é ser, e o que é vir-a-ser, isto é, entre o que classificaríamos aristotelicamente como Ato e Potência, mas no que é impedido por novas interrupções. Seu argumento ia muito bem, novamente, no sentido da Unidade do Bem, já que o ser bom é uma propriedade divina, enquanto que da parte da criatura, como o homem, só corresponde o desejo de inclinação em direção a este bem inalcançável, isto é, um vir-a-ser bom. O entendimento disto completa a idéia perfeita de que a Sabedoria é divina, e é concedida como dom: não é difícil para Deus ser bom, mas é muito difícil para o ser humano vir-a-ser bom, porque a Bondade é uma qualidade divina, e não humana. Por decorrência, assim também ocorre com a Sabedoria. E se isto é assim, a virtude é dom divino, e não humano, portanto não passível de aprendizado. Conclui-se facilmente, a partir de tudo isto, que o Filósofo está muito melhor que o Sofista, pois ele ama uma Sabedoria que não lhe pertence, enquanto o outro se engana considerando que ela é sua propriedade.

Depois de mais esta vitória socrática contra o sofismo, embora de modo elegante e civilizado, Sócrates vencerá novamente Protágoras na última parte do confronto, quando retomará o tema da Unidade do Bem, ou seja, de todas as partes da virtude, ao que seu adversário teimosamente tentará sustentar as diferenças essenciais entre as mesmas.

Para resumir (já que conseguimos ver as partes mais valorosas do discurso socrático em citações analisadas à parte), Sócrates vence novamente, desta vez com a demonstração cabal, e um tanto humilhante para Protágoras, de como a virtude da Coragem está totalmente baseada na da Sabedoria, isto é, que o saber é fundamental para todas as virtudes que se sustentam nele, e que esta é a unidade da virtude que o ser humano pode ter, isto é, o da Sabedoria.

Protágoras reconhece sua derrota e elogia a sabedoria de Sócrates.

O que nos importa, neste desfecho, é reconhecer a inconclusão, que o próprio Sócrates menciona ao fim, do problema da possibilidade de se ensinar a Sabedoria, isto é, de se ensinar a verdadeira virtude. Como é comum que ocorra em discussões filosóficas, o problema inicial permanece sem solução.

A mim parece que a distinção que nos ajuda a tratar o problema é a que separa a origem da Sabedoria, a efetividade da sua transmissão, e a liberdade da sua recepção e do seu cultivo.

Por um lado, a Sabedoria em si é divina, e ela só pode ser dada por concessão da Graça divina.

Por outro lado, como diz a Bíblia, “a Sabedoria não entra numa alma devedora ao pecado“, isto é, existe uma disposição correta, da parte de quem é livre, para receber ou não o dom divino da Sabedoria. Essa recepção é arbitrada livremente. E, assim como o homem é livre para aceitar ou não a Sabedoria divina doada por concessão, ele também é livre para dar ou não o respectivo testemunho dela.

Ora, o que é o testemunho correto da recepção do dom divino da Sabedoria?

É aquilo de mais próximo que podemos encontrar do “ensino da virtude”, que Sócrates e Protágoras tanto procuravam.

Mas aqui entendemos a superioridade tremenda da Filosofia em relação a Sofística.

Isso porque o testemunho é um ato de liberdade, por amor à Sabedoria, através do qual aquele que testemunha fala da sua liberdade em favor da liberdade daquele que recebe o testemunho, para que também se liberte da mentira e do engano.

Por outro lado, o ensino escolar, acadêmico, ou magisterial, é um ato de escravidão, por amor ao Poder de produzir a imagem da verdade e de dominar o outro através dela.

Nota espiritual: 5,9 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte8
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno8
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final5,9

“Ceder a si mesmo nada mais é senão ignorância, e controlar a si mesmo nada mais é senão sabedoria.”

Citação L0033-C03, em Protágoras, livro por PLATÃO.

Nesta parte valorosa do diálogo platônico encontramos testemunhos com potencial para importantes repercussões na nossa vida espiritual, e que merecem ser entendidos com maior detalhe.

Para começar, a expressão “preservação de nossa vida” deve ser entendida num sentido bastante amplo, significando a consumação ou realização da vida em todo o seu potencial, incluindo aí não apenas as causas material e eficiente que seriam mais facilmente compreendidas pela mentalidade moderna, mas também as causas formal e final, numa visão mais completa do que é o ser humano. Perdemos isso de vista na nossa cultura contemporânea, quase que totalmente. A preservação da vida condiz com toda a sua significação, inclusive e especialmente o sentido que existe na finalidade da vida, qual seja, aquilo que chamamos de felicidade.

Em seguida Platão, por meio de Sócrates, nos dá um grande testemunho gnóstico ao afirmar que “não há nada que seja mais poderoso do que o conhecimento”, mas isto, desde um ponto de vista, digamos, operacionalmente filosófico, é inevitável. Para o filósofo que opera a busca da sabedoria, o conhecimento é a coisa mais poderosa, e não seria possível discutir em favor de qualquer outra hipótese, desde que qualquer alternativa teria também ela a forma de um discurso, isto é, de um conhecimento. Psiquicamente, só existe o Logos. Neste âmbito, tudo é discurso, tudo é conhecimento. Assim, epistemologicamente, ou gnosiologicamente, o conhecimento é a coisa mais poderosa de todas, mas não ontologicamente. O ser humano que, embora só possa pensar psiquicamente, não vive apenas psiquicamente, mas integralmente no âmbito da totalidade de seu ser, pode e deve reconhecer aquilo que é mais forte, ou ao menos tão forte quanto o conhecimento, como o Bem, e o Amor. Neste ponto não podemos culpar Sócrates, ou Platão, por não ter dito o que gostaríamos de ouvir, se isso não fazia parte da sua busca particular, mas podemos sempre questionar porque não quiseram fazê-lo.

Sobre o conhecimento ideal “ser o da medição” do que é bom e mal, ou prazeroso e doloroso, o valor espiritual desta arte é o mesmo que nos qualifica para confiar nas promessas evangélicas. Por que, afinal, suportamos o peso temporário das coisas deste mundo, senão para o usufruto de um bem eterno com Deus? E se escolhemos confiar nesta promessa divina, não é por fazer uso de um muito razoável dispositivo de medição que calcula que o bem eterno é maior que o bem temporário? Isso tudo é evidente. Mas peço que me acompanhem na valorização particular da premissa do amor-próprio, ou daquilo que chamo de Monadofilia Primeira, como base de toda essa lógica, inclusive para sustentar a confiança na promessa divina. A crença numa vida eterna transhumanista, onde deixamos de ser humanos para viver uma “união mística”, ou para alcançar a “visão beatífica”, é uma violação da integridade dessa escolha racional. Deus mesmo diz: não me procurai no Caos. E nem na morte, aliás. De certo modo, o espírito desses gregos livres como Sócrates e Platão estava mais próximo da simplicidade do Evangelho do que os de muitas autoridades “cristãs” que vieram depois e que deveriam saber melhor.

A confissão explícita de que “o prazeroso é bom, e o doloroso, mau”, ainda que seja uma afirmação combinada com a do elogio da arte da medição do maior e do menor, é uma direta afirmação da bondade da realidade da vida humana tal como criada por Deus e, neste sentido, um testemunho anti-gnóstico. No que consiste, afinal, as consequências da Maldição, senão numa restrição da forma humana? Não há defeito na forma humana, mesmo quando vivemos sob uma condição decaída e amaldiçoada. Se houvesse tamanho engano, estaríamos na prisão gnóstica do Demiurgo, o que eventualmente será até proposto, senão como crença válida, ao menos como hipótese por Platão. Mas o Platão que escreveu Protágoras, e que deu testemunho destas palavras particulares de seu mestre Sócrates, fala contra essa concepção, e em defesa da confiança da bondade do prazer, e da maldade da dor, ainda que com a relativização temporal advinda da arte da medida.

Fazendo um breve aparte em favor da minha Monadofilia, esse testemunho é precioso, porque faz referência direta à operação elementar da mônada, isto é, a Percepção. Se entendermos que o prazer é a experiência subjetiva da Percepção de uma manifestação da Beleza divina, tudo fica correto na experiência humana desde já, ainda que experimentemos as restrições da Maldição, porque não desconfiamos do penhor da nossa esperança, isto é, do Amor de Deus que já nos agraciou com os sinais da sua Glória, as primícias da Eternidade.

Por fim, Platão dá um grande testemunho a favor dos dons de Louvor e Paixão ao afirmar que “ceder a si mesmo nada mais é senão ignorância, e controlar a si mesmo nada mais é senão sabedoria.” Quer dizer: a situação presente é apenas um ponto de passagem em direção ao futuro, e é só na contemplação panorâmica de toda a composição da nossa vida, incluindo aí especialmente a promessa da vida eterna, que podemos agir com sabedoria no momento atual.

Reparem que o autocontrole não significa não viver no presente, mas bem ao contrário, quer dizer viver ao máximo no presente, justamente com toda a sabedoria que podemos para entender o valor deste momento diante do Eterno.

Podemos, a qualquer momento, como diz o Apóstolo Paulo, usufruir das coisas do mundo, mas sem jamais nos deixarmos escravizar por nada. Isto é, sem trocar o bem maior por um bem menor, exatamente no ajuste que a arte da medição do maior e do menor nos auxilia.

E isto ocorre pela Graça de Deus: mesmo que Sócrates ou Platão não o reconheçam, esse não deixa de ser o nosso privilégio.

“Homens bons ocultam o transtorno e se obrigam ao louvor.”

Citação L0033-C02, em Protágoras, livro por PLATÃO.

Nesta breve passagem deste diálogo socrático podemos ver o testemunho valioso de duas verdades universais de grande repercussão para a nossa vida espiritual, quais sejam: a do engano da escolha pelo Mal, e a da maior Justiça do suportar os males do que da atitude de se vingar ou murmurar.

É notável que para alguns obcecados com certas visões religiosas totalitárias, esse tipo de sabedoria jamais teria alcançado o coração humano se não fosse por um envelopamento bíblico. Platão nos prova que isto não é verdade. Seria bastante complicado, para não dizer impossível, afirmar que a origem desse testemunho tenha sido uma certeira influência hebraica, e seria mais ainda improdutivo forçar essa associação de vez que a liberdade requer, da parte daquele que concorda com qualquer preceito bíblico em qualquer ponto da face da Terra, que tenha a liberdade de fazê-lo, isto é, a confiança de por si mesmo acreditar no Bem.

Do engano na escolha do Mal, ou das Trevas, que Sócrates diz que é “involuntário”, o que ele quer dizer está muito próximo do testemunho que o próprio Apóstolo Paulo disse quando confessou que quando faz o mal, o faz contra a sua vontade, por uma fraqueza, e não por não reconhecer um Bem que está além das suas forças.

Isto é tremendamente importante, do ponto de vista espiritual, já que esta consciência nos aproxima de Deus fazendo uso de nossa própria fraqueza confessada. Ao mesmo tempo, ajuda a ganhar grande tolerância e magnanimidade com relação à fraqueza alheia, ao compreendermos que todos compartilhamos da mesma precária condição humana. É um recurso que auxilia tanto a experiência do Primeiro quanto do Segundo Mandamento.

Já da questão de ser mais justo suportar os males do que querer vingá-los ou de murmurar por conta deles, isto está em total associação com o Espírito Santo de Deus, quando Jesus Cristo ensina: “aprendei de mim, que sou humilde e manso de coração.” O que afinal significaria “pacificar e harmonizar seus sentimentos”, como Sócrates diz, senão o aceite das qualidades divinas de humildade e mansidão?

Especialmente, num tema que pode ser sensível além do comum para o meu público, gostaria de enfatizar a paz e alegria que existe no cumprimento do mandamento de honrar pai e mãe.

Essa honra não consiste no elogio do pecado, nem na permissão ao mal. Jesus mesmo corrige a idolatria da família declarando que nossos primeiros inimigos estão na nossa própria casa, que veio fazer os filhos se voltarem contra os pais, e que quem não odiar sua família não poderá segui-lo. O mandamento divino não fala da idolatria da família, mas do amor ao próximo, da aplicação do Segundo Mandamento, por um ato de misericórdia, em favor daqueles que são os nossos primeiros próximos na vida, isto é, nossos próprios pais. Bem entendidas as coisas, percebemos rapidamente como dificilmente eles tiveram malícia congênita, sendo o mais das vezes mais vítimas eles mesmos da sua criação em cativeiro, debaixo da Maldição, do que grandes cúmplices do Pacto Ouroboros.

“A convenção, que tiraniza a humanidade, constrange-nos contra a natureza.”

Citação L0033-C01, em Protágoras, livro por PLATÃO.

Essa manifestação do assim chamado “sábio” Hípias seria excelente, se terminasse na observação da verdadeira divergência entre a realidade humana, dos arbítrios individuais e das afinidades naturais, e a convenção social que tem como objetivo encontrar um denominador que só servirá, para a garantia do bem comum, para o prejuízo dos bens particulares, ao ponto de constituir, às vezes, uma tirania.

Porém, ao promover a sua proposta de um acordo entre Sócrates e Protágoras, não está Hípias pavimentando o caminho para que se suceda justamente aquilo que ele acabou de condenar?

Ora, esse ajuste só funcionaria se forçasse ambas as partes a modificar a sua melhor ação, nos seus próprios termos, a uma restrição conveniente para o objetivo social: da parte de Sócrates, a restrição da sua liberdade de ser mais breve, conciso, exato e claro, e da parte de Protágoras, a restrição da sua liberdade de ser mais retórico, estender o discurso, etc.

Dir-se-ia que esse bem comum está acima dos bens particulares, porque atende ao interesse de um número maior de pessoas, mas de onde nós tiramos essa idéia? Essa própria concepção é arbitrada, já que ninguém pode demonstrar como não seria mais efetivo que cada um, Sócrates e Protágoras, seguisse o seu caminho, tornando-se o melhor que pudesse ser nos seus próprios termos, e como isso beneficiaria mais a totalidade da comunidade do que o acordo proposto por Hípias. O termo médio, afinal, é o que dá origem àquilo que chamamos de mediocridade. Supondo que qualquer um dos dois adversários tenha qualidades excelentes, nas quais se superam mutuamente, que vantagem ganhamos com o acordo para que eles restrinjam a sua melhor capacidade, apenas para a satisfação desse desejo de acordo?

Todos nós desejamos que a Verdade seja universalmente conhecida e reconhecida, mas precisamos abandonar o sonho humanista de uma posse coletiva da mesma.

A Verdade plena é propriedade divina, o que aliás é justamente o tema disputado por Sócrates e Protágoras, o primeiro defendendo a prerrogativa divina de possuir a bondade e a sabedoria, e o segundo defendendo a relatividade da subjetividade humana.

De certo modo os dois estão certos, cada um no que diz em particular.

Mas importa-nos mais saber que a Sabedoria que individualmente contemplamos de forma única, irredutível a esse mínimo denominador comum humanista (e neste ponto tanto Protágoras quanto Hípias estão equivocados), em si mesma é uma posse exclusiva de Deus.

The Chosen (Os Escolhidos, T1), série por Dallas JENKINS

Análise S0008-E01/08, The Chosen, série por Dallas JENKINS.

Na primeira temporada desta série acompanhamos a história de Jesus Cristo do ponto de vista dos seus Apóstolos.

Recapitulemos brevemente os pontos de destaque de cada um dos oito episódios:

  1. Eu o chamei pelo nome:

Aqui Jesus vai exorcizar os demônios de Maria Madalena, uma tarefa na qual o rabino fariseu Nicodemos falhou. Porém, ele está numa pista boa. Ele diz para sua esposa: “será que Deus não pode ser mais bonito e estranho do que imaginamos?”

Os problemas de Nicodemos, porém, são os bens mundanos que ele ama acima de Deus, como a vida matrimonial, o prestígio como religioso, etc. Sua esposa debocha de sua sinceridade: “este é um compromisso sério. Eles esperam um professor erudito, não um tolo duvidoso e blasfemo.”

  1. Shabat:

Nicodemos começa a ter algum Discernimento, embora a série faça ao seu modo uma grande valorização do Sábado e das Tradições, em detrimento de culturas supostamente inferiores, como a da brutalidade romana.

  1. Jesus ama as criancinhas:

Aqui encontramos um testemunho da Presença e da Vigilância contra mestres e família, e a valorização da simplicidade da fé das crianças.

  1. A rocha sobre a qual foi construída:

Neste episódio, acompanhamos a transição da falta de fé de Simão (Pedro) até a rendição ao poder divino. A esposa de Pedro com muita razão o censura por ele querer resolver tudo sozinho por si mesmo. Ao fim, por ser humilde, ele recebe o resgate, através do milagre da multiplicação dos peixes.

  1. O presente de casamento:

Num flashback, Jesus chama o Templo de Jerusalém de “casa do meu Pai”. Até certo ponto isto está bom, porque Deus usa o simbolismo das coisas humanas para uma finalidade pedagógica. Mas o símbolo do Templo é ambíguo para os cristãos, dependendo da linhagem, se é mais espiritual ou religiosa.

Jesus aparece muito envolvido na aprovação do matrimônio, no episódio das Bodas de Caná. Ele não está simplesmente presente, abençoando e perdoando, mas parece endossar o costume. É um abuso da linguagem bíblica.

Não se faz referência nenhuma ao sentido do milagre do vinho, ou seja, de que o melhor vem depois, que é a própria Vida Eterna. Mas esse sentido espiritual do melhor vinho ao fim da festa não faria sentido se a festa fosse considerada a própria consumação da felicidade humana.

Foi aqui que a série começou a mostrar o seu comprometimento mais sério com a Tradição Universal, o Culto do Ouroboros.

  1. Compaixão indescritível:

O discernimento de Nicodemos cresce, Deus é maior que o testemunho (os rolos da Lei), e a Liberdade supera a Tradição (por definição).

Enquanto isso Jesus faz milagres para os judeus não terem desculpas de recusa. Era mais perfeita a confiança sem sinais, mas dessa dependência judaica do Poder nem João Batista escapou. É uma característica do povo de “cerviz dura”.

  1. Convites:

Neste episódio Jesus chama o fariseu Nicodemos, e o publicano Mateus. Ele avisa aos Apóstolos para pararem de discriminarem, ou o trabalho espiritual vai ficar impossível. Quem não entender o Amor vai ficar para trás na compreensão da Obra divina.

  1. Eu Sou Ele:

Quanto mais se é investido na vida, menos chance se tem de seguir Jesus. O discipulado custa alguma coisa. Se não custasse, seria a mornidão de Laodicéia.

Vemos os dois casos mais emblemáticos: o da escravidão do rabino Nicodemos que deixa um punhado de ouro mas se recusa a acompanhar os discípulos, e o da liberdade de Mateus que larga tudo para seguir Jesus.

Com a samaritana, ao fim do episódio e da primeira Temporada, descobrimos a revelação de que Deus é adorado no coração humano, sem necessidade de montes nem de templos. Um grande testemunho da vida na Presença.

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Em geral a série é boa, porque o poder libertador do Evangelho supera todas as maquinações religiosas. Vemos a mesma coisa acontecer em todas as Igrejas cristãs.

O problema da série é a Ingenuidade, justamente na falta de distinção entre a virtude espiritual e o defeito religioso, na valorização dos costumes judaicos, do Templo de Jerusalém, etc.

Quem são, afinal, os “Escolhidos”?

É uma raça, uma nação, uma religião?

Ou são todos aqueles que amam a Deus acima de tudo?

São aqueles que possuem o conhecimento (Gnose) a respeito de quem Deus é, pela posse de uma Revelação determinada, ou são aqueles que amam a Deus porque confiam Nele?

Se o grande engano que vai ameaçar os cristãos no fim é o próprio Cristianismo, o Culto do Mashiach ben Yosef, o Jesus da série The Chosen pode ser exatamente esse Filho de José, o Messias Sofredor, preparando o caminho para o Mashiach ben David, o Filho de Davi, o Messias Triunfante, que é ninguém menos que o Anticristo.

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção7
Presença/Idolatria7
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,6