Por uma reabilitação da filosofia moderna e do ceticismo

Já pude verificar abundantemente a conveniência de uma filosofia cínica contra o triunfo dos vários iluminismos humanos, como verificamos na avaliação do poder espiritual do enfoque moral sobre o epistemológico na sucessão do legado socrático.

Convém-nos, porém, avançar com uma mais generosa reabilitação da filosofia moderna, ou de partes dela, entendendo que tudo o que sucedeu ao império das luzes antigas e medievais se deveu a um desdobramento daquelas explorações filosóficas. Longe de um historicismo falacioso (post hoc ergo propter hoc, “depois de então por causa de”), essa visão deve nos levar a um equilíbrio ponderado que aceita erros em todos os tempos, sob a ótica muito razoável de que os seres humanos sempre foram mais ou menos do mesmo jeito, moral e intelectualmente. Vejam que com a rejeição de uma vantagem antiga ou moderna, o processo histórico não se revela como dedutivo e fatal, mas certamente como consequência no mínimo do ponto de vista da adaptação e evolução dos interesses humanos a respeito de determinado tema. Por exemplo, desanimados com a dispersão e quase futilidade da degeneração do período helenístico da filosofia antiga, os filósofos medievais tiveram legítimo interesse em renovar as investigações sob a inspiração da renovação da metafísica à luz da universalidade tanto do Evangelho quanto das redescobertas obras aristotélicas. Igualmente, depois os modernos, desanimados por sua vez com a aridez extrema dos últimos desdobramentos da escolástica medieval, puderam redirecionar seus interesses na direção de um reavivamento humanístico na revitalização da filosofia.

Mas para não cairmos numa questão impossível de resolução a respeito do sentido da História da Filosofia, podemos conciliar da forma mais simples a orientação que Jesus Cristo nos deu, de sermos “astutos como as serpentes”, no sentido da confirmação de certo ceticismo moderno, ao menos até certo ponto.

Encontramos suficientes absurdidades na defesa de certos teísmos extremos, talvez fundamentalistas do pior modo, como na supervalorização das aparências externas, ou na insuportável taxação dos códices moralistas. Todo esse modo de proceder denigre a vida humana, o ser feito à imagem e semelhança do Altíssimo para viver uma muito mais elevada realidade espiritual, não centrada nessas práticas fetichistas, totêmicas, animistas, etc., em uma palavra, práticas pagãs, no sentido de ignorantes.

Diante desses horrores que rebaixam a dignidade do ser humano, o Ceticismo prudente, que não seja extremo e dogmático ele mesmo, como na forma de Ateísmo, é um colaborador do espírito cristão verdadeiro que fica tão abalado quanto o de qualquer outro ao enxergar a decadência da religião.

Repito o que já disse antes: a maior invenção do diabo foi a Religião.

Responsável ele mesmo pela ruptura, já criou a alternativa da religação ao seu modo, isto é, colocando-se no lugar de Deus para o falso resgate da mesma raça que ele fez se perder. Bem típico.

É verdade que o Cientificismo moderno é uma nova forma de religiosidade, de culto dogmático, de justificação de uma casta sacerdotal cujas razões são inacessíveis ao laicato, e nesse sentido não configura a solução para o problema da Religião, sendo apenas o outro braço do mesmo mecanismo dialético, opondo a um mal outro simetricamente análogo, apenas com sinal invertido.

Um verdadeiro Ceticismo deve ser capaz de abalar a legitimação de toda presunção dogmática, seja do modo da antiga religião, ou de qualquer nova, e assim uma filosofia moderna que não pretenda demonstrar o que não pode –principalmente a inviabilidade de qualquer metafísica–, mas que queira somente questionar uma autoridade humana que se proponha definitiva, será sempre aliada do interesse cristão verdadeiro que consiste numa rendição à majestade divina, já que os dois processos, o filosófico e o espiritual, colaboram no sentido da realização da virtude da Humildade, cada qual ao seu modo.

Redenção vs. Normalização

Toda a perspectiva colaboracionista, de comprometimento e acordo com o espírito do mundo, deve ser entendida como componente do processo de Normalização dentro do Sistema da Besta, especialmente no desempenho da função do Bispo, como vemos, por exemplo, no papel das igrejas cristãs.

Qualquer Igreja Cristã verdadeira deveria ser em primeiro lugar isto mesmo: cristã.

O que isto quer dizer?

Cristão quer dizer Messiânico, a crença numa Unção especial designada para a Redenção de uma realidade decaída, desordenada, amaldiçoada e caótica.

Todo processo de Normalização vai no sentido contrário, o da justificação do estado caótico como derivação de um jusnaturalismo, isto é, de uma visão idólatra da natureza, de um naturalismo com sentido espiritual.

Ser cristão é o mesmo que ser Redencionista, crente numa Redenção, na consumação de um desígnio divino que implica na restauração do ideal criativo do Deus que ordena todas a coisas a sua finalidade ótima.

Deste modo entendemos, em confirmação com o que já pude explicar em A Coruscância a respeito do conservadorismo diabólico, que há uma perspectiva algo revolucionária na verdadeira visão cristã das coisas, embora esta revolução possa ser sempre pervertida ela mesma para uma finalidade equivocada, quando seu alvo é identificado fora da alma humana, ao invés de localizar seu objeto no interior do próprio ser humano.

Isto quer dizer que de todo modo a conservação do status quo sempre valida o Pacto Ouroboros com as suas consequências, ou seja, o governo de Satanás sobre este mundo, ao passo que a rejeição da traição contra o império de Deus não é inequívoca, sendo ambiguamente interpretável no sentido da revolução exterior do messianismo histórico, a reforma do mundo, ou no sentido da revolução interior do messianismo espiritual, a reforma do homem.

A ação de toda igreja “cristã” que serve apenas para a legitimação e normalização do governo do mal sobre o mundo é, assim, sempre equivocada, embora a solução de rompimento com esse estado de coisas não seja sempre inequívoca, conforme a exterioridade ou interioridade da ruptura com o Pacto Ouroboros se revele gnóstica e iniciática, com o objetivo de dominar o processo histórico na presunção da execução de um mandato divino (a origem das revoluções que implantam todo tipo de desordem no mundo, o alvo principal da iniciativa das defesas conservadoras), ou baseada na Humildade, com consciência e responsabilidade, com o objetivo de renunciar a todo poder que constitua traição ou usurpação contra a autoridade divina.

Vitória garantida: crie a Condenação e jogue os seus inimigos dentro dela

Como já disse várias vezes, a Arte da Guerra é a arte de mentir, de enganar o seu adversário, fazendo-o jogar o seu próprio jogo, onde a sua vitória é uma premissa do jogo todo, já que ele será disputado com as suas próprias regras que lhe darão toda a vantagem.

Este poder insidioso deveria ser considerado também, ou até principalmente, no cenário da guerra espiritual.

Uma prática que dá vitória garantida ao diabo é o de criar a certeza de uma Condenação, e depois jogar as almas humanas dentro dessa certeza, com o truque de forjar a aparência da verdade ou até da virtude naquele mesmo esquema onde mais tarde se revelará o truque.

Foi assim que o Cristianismo foi inventado pelo diabo, na forma das várias religiões cristãs que se espalham pelo mundo, trocando o objeto do culto espiritual verdadeiro, que é o Amor do Pai revelado pelo Filho, por objetos de idolatria e práticas condenáveis, como a adoração de imagens, santos, livros, relíquias, e a prática de sacrifícios de sangue, necromancia, magia na forma de sacramentos, etc.

Sei que tudo isso pode ser muito escandaloso, e peço a mim a proteção do Espírito Santo para que só uma alma madura persista na avaliação das coisas que escrevo e digo, contando para isso com a óbvia conveniência de que só me lê e me assiste quem quer, porque graças a Deus fui dispensado de qualquer falso papel de autoridade, ou da posse de um poder ilegítimo.

O ser humano nasce desde o Pecado Original, o Pacto Ouroboros, sob a Maldição e a Queda, e é criado em cativeiro sob a mentira do mundo, sendo tentado, assim, a considerar todas as coisas carnalmente.

Assim, o ser humano comum entende a sua relação com o Altíssimo, desconsiderado da pureza da sua santidade, como entende a relação entre um proprietário e um escravo, ou entre um negociante e um mercenário, comparando as coisas espirituais com as carnais com as quais foi condicionado a conviver desde que nasceu pelos seus pais. Também é deste modo que o ser humano aprende a ser idólatra, crente não só de relações de poder e troca, mas também de sinais e prodígios, menos disposto a ser afetado pela virtude e santidade das coisas de Deus do que pela impressão do sobrenatural.

Digo isso para que se entenda a realidade com o devido contexto, antes que caiamos na tentação de condenar o próximo que foi vendido como escravo ao diabo, sem chance de defesa senão a misericórdia divina da qual devemos ser os embaixadores neste mundo, se é que ousamos assumir a filiação adotiva do Pai em associação com Jesus Cristo como o Filho perfeito.

O que o diabo quer no fim das contas lhe será negado.

Porque não triunfará essa mentira toda, especialmente no caso dos cristãos que foram enganados pela invenção do Cristianismo, e isso pela intenção reta dos seus corações, que o Altíssimo experimentará infalivelmente.

Lembremos que por mais que a mentira tenha se insurgido no meio da veneração ao Deus verdadeiro, o testemunho legítimo da confiança no Amor de Deus nunca abandonou o seio da Igreja espiritual, o verdadeiro Corpo de Cristo. E isso porque o astuto inimigo do homem nunca foi capaz de produzir qualquer substituto da Verdade, dependendo sempre da parasitagem, o que o forçou a trabalhar a favor do plano divino para o esclarecimento daqueles fiéis que desejaram de fato a vida espiritual na Presença do seu Criador. É assim que todas as coisas serão justificadas no fim.

A vitória garantida no fim das contas se revelará uma derrota garantida: querendo corromper, perverter e subverter, o adversário apenas executou a providência divina que sempre odiou, servindo à força, para a sua maior humilhação.

A ousadia da verdade obrigatória por decreto humano

Se há algo forte o suficiente para se manter firme por sua própria virtude, é certamente a própria Verdade.

Resolvida qualquer confusão que possa haver entre a experiência subjetiva de uma verdade relativa e a necessidade de uma verdade objetiva, mesmo que esta escape completamente ao nosso domínio, resta-nos a tranquilidade do repouso de saber que o que é, é, e que o que não é, não é. Tiramos da autoevidência da supremacia da Verdade até mesmo os nossos princípios elementares de qualquer lógica possível, a saber, os de identidade, não-contradição, e terceiro excluso, razões supremas de qualquer conhecimento possível não produzidas como invenções, mas deduzidas como descobertas.

Vencida essa etapa epistemológica que ainda pode amolecer algumas mentes menos acostumadas com os rigores da ontologia geral, ou Filosofia Primeira, podemos entender como escapa obviamente ao domínio humano o poder de decretar que algo seja verdadeiro, de vez que a força da evidência torna o testemunho humano apenas um indicador de uma realidade transcendente a todo discurso possível. O papel humano não é o de produzir a verdade, mas de reconhecê-la e apontar para ela com maior ou menor eficiência. E faz parte desse recurso humano à investigação do império da Verdade que lhe é exterior e invencível, desnecessitada de defesa, a manutenção da liberdade de investigação e inquirição de tudo aquilo que não for universalmente considerado pacífico.

Assim, discute-se tudo o que é discutível, e o indiscutível não precisa ser defendido pela razão mesma –e exclusiva!– de que ninguém quer, ou consegue, fazer isso.

Mas quem segura a criatividade da nossa espécie para a propagação da mentira e para a perversão de todas as coisas?

Há “verdades” que são tão obviamente contestáveis, e diríamos que perigosamente contestáveis para determinados interesses de certos poderes, que precisam ser ridiculamente obrigadas por decretos humanos. A ousadia desse absurdo não precisaria ser explicada, é claro, mas aqui estamos nós, à beira do Fim do Mundo, tentando dar conta dos tempos em que vivemos.

Podemos usar como princípio elementar que qualquer verdade obrigatória por lei humana –e que fique claro que se trata de uma versão histórica da verdade, e não de um princípio moral necessário para a manutenção da ordem social– e cuja contestação incorra em punição, deve ser imediatamente considerada falsificável ainda mais do que o seria normalmente pelo método científico, justamente pelo agravante do uso do poder público para a sua proteção.

Quer fazer uma experiência para verificar que tipo de assunto entra nessa sistemática?

Experimente, por exemplo, gravar um vídeo no Youtube que verse claramente sobre quaisquer um desses temas:

  • Mudanças climáticas
  • Holocausto
  • Covid-19
  • Família Rothschild
  • Maçonaria
  • Atentados de 11/Setembro

Provavelmente você vai receber uma sinalização da plataforma indicando que há uma verdade estabelecida sobre o assunto, com a indicação, por exemplo, de um artigo no site Wikipedia.

Nosso dever de consciência é o de mantermos a mínima dignidade necessária à estatura da inteligência humana e recusar interiormente qualquer verdade imposta por vontade ou capricho de desejo de um grupo de interesses, qualquer que seja.

Reparem que não estou falando que esta ou aquela teoria da conspiração tenha embasamento real. Não é disso que se trata. Falo da absurdidade da proibição de um assunto como tema de investigação, pesquisa e entendimento.

O que honra realmente a Verdade na sua completude não é a sua imposição num molde acabado, mas a sua busca com a premissa de que ela nunca nos pertence completamente.

Projeto Mockingbird: recursos da falsa associação e redução ao absurdo para desmentir conspirações reais

Certamente sempre fez parte da sacola de truques do diabo, no intuito de manter e expandir o seu governo sobre este mundo, o recurso de contar com a sempre disponível estupidez humana em todas as formas possíveis, entre as quais a confusão entre as essências e os acidentes das coisas, o que sempre serviu para o maior proveito dos projetos diabólicos.

A verdade é que uma mente humana é uma máquina muito poderosa, capaz de produzir para si mesma a imagem da verdade com recursos sofisticadíssimos. Vai tão longe esse poder que somos capazes de dizer, com relativa segurança, que em nada o ser humano se aprofundou tanto quanto na arte de mentir para si mesmo.

O único recurso para o escape da mentira é a renúncia ao próprio poder cognitivo e raciocinante: a virtude da humildade, a renúncia ao psiquismo gnóstico e admissão da verdade da ignorância fundamental que é a base da nossa experiência da vida e do mundo.

Pois bem, a maior parte dos membros da nossa raça parece não ter muita disposição para essa experiência espiritual de rendição, preferindo avançar na técnica milenar do autoengano com todos os requintes possíveis.

Eis que faz parte desse repertório também o poder de simular a ignorância, ou de fingir que não se percebeu algo, usando para isso de todo tipo de alegação possível. Quando alertamos, por exemplo, para as perversidades das artes das trevas que governam o mundo decaído e amaldiçoado desta humanidade perdida, é comum encontrar a reação de indiferença ou de suposta prudência cética.

Até certo ponto é verdade, digamos utilitariamente, que não se deve dispersar os nossos escassos recursos com a consideração de coisas que escapam ao nosso controle. Mas se não somos apenas seres funcionais e se já não estamos dispostos a olhar as coisas funcionalmente, podemos entender o sentido da vida no sentido mais amplo, onde a indagação sobre a natureza da nossa realidade deve entrar no escopo da mente humana interessada em compreender realmente o mundo onde vive.

É aí que as mais diversas artes diabólicas estão prontíssimas para repelir os avanços da mente humana em direção a qualquer verdade relevante, por uma série de artifícios.

Como já falei no Capítulo 9 do meu livro Monadofilia, há o vasto caminho da escravidão das massas através do bolchevismo espiritual da coletivização da humanidade como gado, mas há também alguns caminhos particulares designados para almas mais interessadas em qualquer aprofundamento, onde a uma mente desavisada é permitido, saindo do grande engano geral, cair em qualquer engano particular que lhe seja mais atraente.

Num desses caminhos particulares se criou o Projeto Mockingbird, com a intenção de direcionar as almas eventualmente atraídas para a consideração da grande mentira deste mundo para uma saudável “correção de curso”.

Se a mente humana é atraída a descoberta do segredo através da denúncia de conspirações reais que evidenciam a natureza da realidade em que vivemos, iniciativas como a do Projeto Mockingbird atuam para a dispersão da sua atenção e finalmente para o alívio catártico que permite a essa mente voltar à “vida real” mais ou menos como uma pessoa volta para casa em segurança depois de assistir a um filme de terror no cinema.

Esse tipo de ação funciona muito bem porque por natureza nenhuma mente humana fica confortável diante do caos e da insegurança a respeito das suas crenças mais elementares sobre a natureza da realidade em que vive. Isto é, a mentira já está meio pronta na cabeça do enganado, porque ele deseja profundamente continuar enganado a ter que tolerar que o seu mundo não seja exatamente como acredita que seja.

A maneira mais fácil para se descreditar as denúncias a respeito da profunda perversidade que atua no governo deste mundo (o “Mistério da Iniquidade” de que fala o Apóstolo, que é o Culto Ouroboros) é misturá-las com outras muitas denúncias que sejam obviamente falsas.

As mentes mais comuns estarão muito mais dispostas a atribuir falsidade às denúncias reais em virtude da óbvia mentira das realmente falsas, já que isso convém ao seu desejo profundo, do que a operar uma análise fria e calma das razões de credibilidade de cada alegação, de forma justa e precisa.

O modo como as iniciativas do tipo do Projeto Mockingbird atuam é simples: é uma combinação entre as falácias da falsa associação e da redução ao absurdo.

Por um lado, faz-se uma associação incorreta entre conspirações diferentes, confundindo objetos distintos pela semelhança do gênero maior, que é o do questionamento de uma verdade estabelecida e aceita pela opinião pública. Por outro lado, feita a falsa associação, reduz-se o argumento conspiracionista ao absurdo, levando à rejeição da possibilidade de algumas idéias legítimas pela evidente absurdidade da aceitação de outras a elas falsamente associadas.

Assim pode-se, por exemplo, escapar com alívio da hipótese sinistra de que o pouso do homem na Lua tenha sido forjado, forçando uma associação incorreta com a hipótese terraplanista.

O ser humano comum, amedrontado com a suposição de que o seu mundo seja governado por mentirosos psicopatas, sente grande conforto com o truque que lhe permite descartar uma idéia perigosa usando de um truque falacioso obviamente enganador.

É por isso que o Annuit Coeptis funciona tão bem e nós não devemos protestar contra esse estado de coisas: porque é algo permitido pelo Altíssimo para que a liberdade humana se realize plenamente, com uma salvação maior em vista.

A dupla humilhação da Segunda Ressurreição

Diz-se que o Destino se realiza por bem ou por mal, pelo amor ou pela dor.

Talvez em nenhum caso isto seja tão óbvio como na comparação entre a Primeira Ressurreição e a Segunda Ressurreição.

A Segunda Ressurreição é um gesto vastíssimo de salvação da parte do Criador e amante de todas as coisas, o Deus verdadeiro que a tudo fez para o propósito da satisfação do seu Amor.

Já dissemos aqui que este momento, naquele Dia do Juízo Final, é o mais terrível de todos, quando abrir-se-ão os livros que condenarão, de maneira inequívoca e inapelável, todos os que recusaram o Amor de Deus. Isto porque abundarão as razões divinas que mostrarão as muitas oportunidades perdidas para se tomar uma decisão mais razoável e benéfica, e tudo por fraqueza, timidez, medos e vaidades mesquinhas, bobagens que serão muito humilhantes diante da majestade da Glória divina. O desprezo pela salvação se mostrará na sua total indignidade e tolice.

Este momento serve, porém, como já dissemos, para que num último suspiro de vida o ressuscitado se declare culpado sem reservas, atraindo assim, para si, o poder invencível da misericórdia divina, que ninguém tem autoridade ou poder para conter. Só escaparão dessa destinação designada pelo Amor divino as almas obstinadas na sua recusa, que persistirão na sua mentirosa alegação de inocência.

Pois bem, além de toda essa santa humilhação a que todos nós assistiremos, sem exceção, soma-se uma segunda razão humilhante que será revelada na leitura dos livros, quando se mostrará então o quanto foi possível ao poder divino converter todos os males humanos e demoníacos em uma solução aprazível ao Espírito Santo de Deus, de modo que serão revelados como servidores do Altíssimo mesmo aqueles todos que mais furiosamente se recusaram a aceitar o império do Eterno sobre todas as coisas.

Esta é a dupla humilhação: que além de ter recusado o maior de todos os bens, uma alma tenha servido de qualquer modo ao projeto divino de salvação universal, forçados por uma sabedoria providencial inigualável, que é a Arte Divina por excelência.

Não é pouca coisa. Será, de fato, muito humilhante, mas será maravilhoso ao mesmo tempo. Tudo estará pronto e acabado para que qualquer alma ainda capaz de alguma humildade consiga finalmente reconhecer, em seu último suspiro, a Glória do Criador de todas as coisas, e a grandeza do seu Amor.

Para quem quiser meditar mais sobre este tema, recomendo a leitura dos Capítulos 40 a 50 do livro do Gênesis, onde a história de José do Egito evidencia a vitória divina apesar de todas as perversidades humanas que tentam disputar inutilmente contra o triunfo do Bem.

A pedra rejeitada pelos construtores se tornou a pedra angular

Já vimos que os maçons, pedreiros ou templários são espiritualmente definidos pela sua associação com o projeto da construção do Templo de Jerusalém, no que se envolvem fraternalmente com a Sinagoga de Satanás contra a revelação da verdade do Amor de Deus.

O que ainda não vimos e talvez muito nos convenha é que sendo essa associação maligna uma organização a serviço do Príncipe deste mundo, a Velha Serpente, também é viável verificar o quanto o Culto do Ouroboros é representado nessa traição em outra forma de culto.

Isto é, sendo o corpo humano reconhecido pelo seu propósito espiritual, reconhecemos que serve como um templo onde o local mais sagrado é o coração, o altar do sacrifício, em que são queimadas as ofertas (a comida) à divindade adorada pelo administrador do templo, o que o mantém em funcionamento (o sangue bombeado que mantém vivo o corpo).

Ora, sendo assim, se o templo vivo do ser humano for criado em traição ao Espírito Santo, e as pessoas que guardam esses corpos viverem em cativeiro, alienadas da verdade de Deus e dirigidas ao culto dos ídolos e principalmente da Serpente do Mundo, então há uma função óbvia na reprodução humana em associação com essa perversão, desde que os encarnados num estado amaldiçoado e decadente são conduzidos ao culto, no templo de seus corpos e no altar de deus corações, aos falsos deuses deste mundo, entre os quais e em especial o próprio Ouroboros.

Os templários podem ser vistos, assim, como todos os construtores destes templos vivos dirigidos para a idolatria, de modo que os Avari continuem a usurpação do lugar de Deus no coração dos homens escravos da mentira do mundo.

Desde o Pecado Original a raça humana constituiu, assim, essa fraternidade de construtores de templos de idolatria, e traindo a Deus desde o início, rejeitaram a pedra angular, que era o Amor de Deus totalmente revelado mais tarde em Jesus Cristo, que encarnou justamente não do pecado humano, mas da virtude da santidade divina.

A pedra rejeitada pelos construtores, o Amor de Deus, que é o único legítimo Criador de todas as coisas para todo o sempre, se tornou a pedra angular, e isto é maravilhoso para nós, já que agora vivemos libertos da grande mentira do mundo e podemos reconstituir o culto verdadeiro nos altares dos nossos templos vivos.

Entendam que muito antes de qualquer organização templária ou maçônica querer erguer um edifício feito de pedras, o Terceiro Templo de Jerusalém, muito antes o Culto do Ouroboros ergueu milhões ou até bilhões de templos vivos dirigidos para o seu culto mentiroso e abominável, templos construídos pelos partícipes por omissão ou comissão do Pecado Original, como será feito até o fim do mundo.

O que a Sinagoga de Satanás ainda não entendeu

Olhando a história sob a perspectiva vantajosa da noção de Revelação contínua da vontade deliberada de um Deus Todo-Poderoso (Pantokrator Theos) que governa sobre todas as coisas, não é difícil enxergar a perspectiva judaizada de um Maimônides que viu, com o crescimento do movimento cristão, uma indicação da confirmação da profecia em favor do “seu lado da história”, por assim dizer.

O que a Sinagoga de Satanás ainda não entendeu, porém, é que a profecia pode ser vista dos dois modos, o antigo e o novo. Se a velha Aliança perdeu efeito com a flagrante desobediência dos seus subscritores, e as profecias apontaram para Jesus Cristo como o cumpridor perfeito da nova Aliança, as profecias não podem ser vistas justamente do modo novo, cristão?

Assim, Mashiach ben Yoseph e Mashiach ben David (respectivamente, Messias filho de José e Messias filho de David) não são pessoas diferentes com funções diferentes, mas são a mesma pessoa em posições diferentes no tempo, realizando aquilo que é designado pela providência divina de acordo com o componente fundamental do livre-arbítrio humano.

A visão de certo rabinato instruído pelas luzes de Maimônides é que a função de Jesus Cristo foi a de servir, como Mashiach ben Yoseph, para que através do seu sofrimento as nações fossem preparadas, convertidas ao messianismo a ser plenamente realizado pelo Maschiach ben David, para aceitar a revelação final da supremacia da Torá e do povo eleito para ensiná-la às nações. O sucesso da religião cristã indicaria a razão dessa interpretação, mostrando a revelação, através da História, da vontade de Deus.

Acontece que se as profecias de Isaías forem interpretadas de acordo com a Nova Aliança, o Filho de Deus se revela consecutivamente primeiro como o Messias sofredor, rejeitado pelo seu povo, para depois retornar como o Messias triunfante, conquistador do mundo.

Revelado primeiro como Cordeiro para os seus, convertidos pelo perdão e pela misericórdia, Jesus Cristo se revelaria então, ao Fim dos Tempos, como Leão para os que lhe rejeitaram, convertidos pela plena Revelação (ou Apocalipse).

Do mesmo modo, aqueles entre os gentios que interpretam o Cristianismo unicamente como uma conspiração para a destruição da independência das nações devem responder, em primeiro lugar, pela evidência da supremacia de tal projeto vitorioso, concedendo que se Deus não está com os judeus, pelo menos eles merecem vencer por sua grande capacidade; e então, em segundo lugar, devem responder pela hipótese de que a interpretação de Maimônides desde a validade da Antiga Aliança pode estar equivocada se, justamente como foi revelado pelo Evangelho, o que tem valor atual e que explica o sentido da História é a validade da Nova Aliança realizada pelo Filho de Deus.

Ou seja, incapazes de atribuir ao mero desígnio humano a consecução de tamanho projeto de conversão de boa parte dos povos do mundo, podemos aceitar a perspectiva de interpretação histórica de Maimônides, enxergando a História como plano de realização da vontade divina, porém deixando em aberto a dupla interpretação possível da validade da Antiga ou da Nova Aliança, conforme aceitamos ou não a validade da revelação evangélica.

Como o Novo Israel segue os passos do Antigo

Dada a realidade da individualidade ou singularidade da substância espiritual, segue que todo entendimento da salvação ou da recepção da Graça na forma de uma coletividade implica numa corrupção do desígnio divino.

O Um por natureza criou cada alma na sua unicidade peculiar para a experiência do Amor com a função do exercício da liberdade individual de responder livremente e com total responsabilidade pessoal.

Aliás, pessoalidade é uma característica fundamental da relação amorosa entre os seres, analógica ao Amor perfeito entre Pai e Filho, as Pessoas divinas. Este é um indicativo muito forte do modo elementar de realização dos seres espirituais.

Que sentido faz então afirmar que um povo foi eleito por Deus para a salvação ou recepção da Graça, senão para servir de referência simbólica para a união espiritual da Igreja? Além disso o que nos restaria é a presunção da eleição de uma coletividade contra a consciência de Deus, o que seria absurdo de de esperar como desejo do próprio Criador.

A dispersão na Multiplicidade implica na corrupção da forma da Unidade, a forma mesma escolhida por Deus para a realização do seu projeto de salvação. O que interessa é o assentimento de cada alma, uma por uma, ao Amor divino. A manifestação do conjunto da Igreja em adoração a Deus é um resultado posterior da conversão de cada uma das almas que compõe o Corpo Espiritual de Cristo.

É verdade que o conjunto dos fiéis compõe uma potência de testemunho e confirmação no Espírito Santo que pode atuar a qualquer momento, mas apenas como agente intermediário. Antes o que há é a ação do Deus que moveu essa Igreja, então há a abertura individual para a verdade que a Igreja pode testemunhar, e por fim há a conversão de cada alma que pode reagir livremente às impressões recebidas.

A agência intermediária da coletividade é sempre verificável, mesmo quando pareça ser de outro modo, pelos vários enganos no entendimento das várias relações de causalidade, onde já se tem por costume ignorar as maiores potências tanto da divindade quanto da alma humana como singularidades, como quando Deus, por moção remota dos fatores interferentes, é preterido pela figura mais evidente das causas próximas que foram movidas por aquela Graça original.

Sendo as coisas assim, convém reconhecer como é que o Novo Israel se assemelha ao Antigo Israel, quando justamente o corpo espiritual dos crentes em Deus quer se tornar algo maior que a soma das suas partes, como que tomando propriedade superior à que Deus mesmo definiu como o propósito da salvação de cada alma.

O que Deus desde sempre desejou foi a afirmação da individuação humana capaz de reconhecê-lo na sua majestade. No Dia do Juízo abrir-se-ão os livros: um para cada alma. Não há um livro para o povo eleito, mas para cada eleito, isto é, se realizar o destino da sua eleição.

Todas as igrejas cristãs institucionalizadas, isto é, materializadas na forma de um poder temporal, desde a Igreja Católica até a última denominação protestante inaugurada ontem, incorrem por costume no erro do Israel temporal, carnal, coletivista: o bolchevismo espiritual.

Só há uma Igreja de Cristo, a espiritual da qual Jesus é a cabeça e nós somos o corpo, os crentes de que ele é o Filho de Deus, e é por participação na confissão dessa Revelação que católicos, ortodoxos, evangélicos ou quaisquer outros vão estar lado-a-lado no momento em que a execução das Leis de Noé pedir pela sua morte. Podem ter se estranhado enquanto viviam nas suas peculiaridades, mas reconhecerão uns aos outros na hora do testemunho da verdade. Não o farão, porém, enquanto membros de um grupo religioso, mas a despeito disso, já que as lideranças religiosas, instigadas pelo Falso Profeta (um Papa?), direcionarão as suas ovelhas para que caiam nas garras do Anticristo.

Cada vez que um “cristão” se levanta, como membro de um grupo, para atestar a eleição sua e dos seus contra a perdição de todos os demais, este representa, como Novo Israel, o mesmo vício do Antigo Israel, aquela nação que assassinou seus Profetas até chegar ao cúmulo de pedir a morte do próprio Messias.

Não podeis suportar

É o próprio Deus Vivo quem condena a Teologia Dogmática de vez que nenhuma criatura poderia ter o poder de fechar o conhecimento das coisas sagradas num sistema definitivo, e a vida da Fé verdadeira requer uma concepção aberta em espírito de aprendizado e confiança sem garantias, ao modo típico da relação amorosa com o Criador.

Acontece que esse modo realista, necessariamente provisório, de viver em resposta contínua à direção do Espírito Santo, a vida na Presença, não pode constituir fonte de poder e autoridade para o governo da sociedade. Isto quer dizer que aqueles que são os descendentes dos traidores da Aliança de Deus, e que são tipicamente os continuadores desta Tradição de usurpação, têm o desafio de administrar uma sociedade cuja disposição à obediência pode ser muito convenientemente afetada pela presunção de autoridade espiritual. E tal situação leva o poder temporal a buscar suporte, usando de todos os elementos corruptores que lhes são comuns, no poder espiritual que deveria servir apenas para o convencimento das consciências dos homens livres.

Foi Jesus Cristo mesmo quem disse: “tenho muito mais a vos dizer, mas agora não podeis suportar“.

Reparem que ele não fala que teremos muito mais a descobrir, como num processo histórico de revelação contínua, como natural e temporal.

Não: ele diz que tem pessoalmente o que nos dizer como instrução direta, ensino, doutrina, capacitação espiritual, guiamento, magistério. E isto obviamente se dá pela ação do Espírito Santo, que já tinha prometido que nos enviaria para dizer-nos esse muito mais que precisaríamos saber, mas que então, à época apostólica, não seria suportável.

Isto quer dizer que não somente não é condenável, mas é ao contrário recomendável, que cada geração de cristãos esteja atenta ao seu momento de experiência da instrução do Espírito Santo. Essa experiência não invalidará nenhuma instrução anterior, obviamente, mas pode servir ao esclarecimento daquilo que foi experimentado antes por um viés que não continha a figura completa do seu sentido.

É assim que o verdadeiro respeito à Fé dos cristãos antepassados exige que eles sejam entendidos no seu contexto, o que não é historicismo, mas é justiça à correspondente incapacidade que cada geração tem de absorver o ensino do Espírito Santo sem incorrer no risco do escândalo. Ou seja, o insuportável aos apóstolos pôde ser melhor suportado pelas gerações seguintes que já teriam convivido com os desdobramentos históricos que eram indistintos para a mentalidade anterior.

Isto é desafiador, de vez que há uma percepção errônea do Pentecostes que confunde a missão específica da pregação às nações com infalibilidade dogmática, algo que contraria o próprio testemunho direto de Jesus Cristo, que é o único Mestre e autoridade realmente inquestionável. Quer dizer, ele mesmo já havia dito que aquela geração não poderia suportar uma verdade que desafiaria a fraqueza da sua Fé, e nisto foi, como em tudo, misericordioso, ao mesmo tempo em que provou que a comunhão daquela unção espiritual tinha um propósito específico que não tornava a teologia dos Apóstolos terminal como supõe a Tradição cristã.

Obviamente a supremacia do Espírito Santo na orientação de cada geração presente de cristãos supera infinitamente o testemunho indireto dessa orientação na expressão das gerações anteriores, mas como pode uma igreja institucional montada naquela forma anterior de testemunho passado estar ao mesmo tempo disposta a receber, de forma aberta, o testemunho presente? Não pode, porque o seu problema não é a vida na Presença de Deus –que é algo do domínio da substância monádica da vida espiritual, isto é, de cada indivíduo–, e sim a organização do poder temporal.

Em uma palavra: nas coisas espirituais o passado não é mais certo do que o presente. O mais certo é domínio divino, e o Espírito sopra onde, quando, como e a quem quiser.

Só que esta integridade espiritual está fora do controle dos domínios institucionais, sempre e por definição.

Se Deus quiser me revelar, por exemplo, a extensão da traição humana ancestral, e ao mesmo tempo a profundidade da mentira diabólica desde essa condição humana tão antiga, Ele dependerá de que eu primeiro me desarme dos meus dogmatismos que bloquearão essa nova consciência como proteção contra o risco do escândalo.

Por isso é que quando digo que é séria a hipótese de que o sacrifício de sangue tenha sido instituído, desde o início e muito coerentemente, pelos demônios e principalmente pelo Ouroboros, que é Lúcifer querendo tomar o lugar de Deus, isto obviamente viola a concepção religiosa que está ancorada naquela mesma consciência antiga.

A estes, como Jesus já dizia, diremos novamente hoje: não podeis suportar.