Penso que se algum tipo de preexistência fosse possível (no que aliás não acredito), eu escolheria a vida mais fácil possível em que, ao mesmo tempo, toda a dificuldade que eu tivesse que viver seria experimentada logo de uma vez no começo da vida, de modo que me bastasse aguentar a pior parte de início para daí viver um melhoramento contínuo até o momento de partir deste mundo.
Talvez essa seja a realidade dos Eunucos em geral, e aqui falo num sentido estritamente espiritual daqueles que não casam e não têm filhos por quaisquer razões imediatas e que relacionam providencialmente essa realidade ao desígnio do Amor divino.
Ou seja, Eunuco é aqui entendido como alguém que por qualquer razão não casou e não teve filhos e que decidiu relacionar esse fato com um desejo de Deus que tornou a sua vida diferenciada por esta razão especial, obedecendo àquela instrução divina que ensinou: em tudo e o tempo todo dai glória a Deus.
Ora, o cristão já é convidado por Jesus a viver sob um fardo leve, livre da taxação do diabo através da mentira das religiões que reproduzem o Culto do Ouroboros da Tradição Primordial.
O Eunuco, entre os cristãos, é assim convidado para um fardo mais leve ainda, imitando não só o próprio Filho de Deus quando este encarnou como Filho do Homem, mas também os mais excelentes entre os Profetas e Apóstolos, tornando assim a sua vida desembaraçada das várias formas de ônus carnal que obstruem a clareza de consciência e devoção da vida espiritual.
Um Eunuco, afinal, é alguém liberado da participação na perpetuação carnal do Pacto Ouroboros, que é o veículo da manutenção do poder da Antiga Serpente sobre este mundo.
Obviamente, não casar e não ter filhos não são fatos que constituem uma virtude por si mesmos, já que a participação no Pacto Ouroboros é sempre uma adesão espiritual a uma traição contra o Amor de Deus sob quaisquer formas. Já dei até, em outra oportunidade, o exemplo de um Padre ou Pastor que recomenda e celebra tanto o casamento quanto a reprodução e que assim, mesmo sendo solteiro, participa com grande profundidade no Pacto Ouroboros, atuando como o Bispo no Sistema da Besta.
Ser Eunuco não constitui virtude automática, mas facilita o caminho para quem busca o Amor de Deus, e por isso fiz alusão a um fardo mais leve ainda àqueles que decidirem viver na aceitação desse fato por motivos exclusivamente espirituais.
Temos evidências escriturais da preferência divina pela renúncia às Obras da Carne, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.
Vejamos uma referência do AT:
“Aos Eunucos que viverem na minha Presença, que escolherem o que me é agradável e se afeiçoarem à minha Aliança, eu darei na minha casa e dentro de minhas muralhas um monumento e um nome de maior valor que filhos e filhas; eu lhes darei um nome que jamais perecerá.” (Isaías 56:4-5)
E uma do NT:
“Seus discípulos disseram-lhe: ‘Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!’ Respondeu Jesus: ‘Nem todos são capazes de compreender o sentido dessa palavra, mas somente aqueles a quem foi dado compreender. Porque há Eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há Eunucos tornados tais pelas mãos dos homens, e há Eunucos que a si mesmos se fizeram assim por amor ao Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.’ Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: ‘Deixei vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos Céus é para aqueles que se lhes assemelham.'” (Mateus 19:10-14)
Se eu precisasse deixar as coisas ainda mais claras depois de tudo isso, acho que não conseguiria.
O que nos importa é a clareza com tranquilidade e serenidade que se baseia na experiência humana que nós já temos das coisas do mundo e das coisas de Deus. Não é preciso muito misticismo, ao contrário do que alguns possam pensar, para concluir, com pura lógica amparada na confiança plena no Amor de Deus, que o homem cria para si todos os seus problemas, e que a nossa salvação consiste na renúncia às nossas mentiras e à uma entrega total ao amparo do Pai.
Ser Eunuco não garante nada, mas facilita certamente, e quem se viu nesta condição pelo império de forças maiores pode ter mais confiança ainda de que isto se dá por um recurso extraordinário da Misericórdia divina.
Tudo é feito para o bem daqueles que amam a Deus, desde que o bem próprio do Eterno é a realização do benefício da sua Criação, sendo Ele mesmo livre de qualquer carência e tendo restante toda a sua potência voltada para a perfeição das suas criaturas.
Igualmente, é preciso dizer que nada é feito senão pela atividade divina que é a única capaz de trazer ao ser quaisquer possibilidades que o próprio Altíssimo percebe em si como convenientes para a atualização do maior grau de felicidade possível.
Dadas essas duas premissas, já é tempo de resolvermos uma questão que eventualmente vive ressurgindo, a saber, a da razão de ser de um sistema reprodutor nos seres humanos que, sendo tido como instrumento fundamental da traição contra Deus através do Pacto Ouroboros, precisa ser explicado na sua origem e na sua finalidade a tal ponto que não nos reste dúvida da sua justificação.
Ajudando-nos o próprio Criador como sempre foi o caso, parece que a solução não difere muito daquela que encontramos ao lidar com a questão do Antinatalismo (v. “Contra o Antinatalismo” em A Coruscância), tendo aliás os dois temas uma conexão muito óbvia e até mesmo essencial.
Tendo o Todo-Poderoso antevisto a necessidade que certas almas tinham de determinada experiência do mal para que a sua escolha pelo bem fosse a mais plena e perfeita possível (uma realidade por sua vez justificada no nosso estudo da Eleuteriodiceia), foi apropriado permitir que estas almas explorassem aquilo que não lhes era benéfico a priori, mas que constituiria um bem secundário em virtude da fraqueza do seu caráter, um elemento fundado na razão suficiente de que é melhor para estas almas sofrerem e causarem algum sofrimento e, não obstante, obterem com isso a grande felicidade da Vida Eterna, do que dispensar essa experiência limitada do mal e com isso desperdiçar um bem muito superior, tão superior que a proporção da sua vantagem é incalculável e imediatamente recomendável.
Vejam bem: não foi Deus quem instituiu a necessidade do mal e de qualquer espécie de sofrimento para a salvação de qualquer criatura, mas foi a própria criatura, perdida e obstinada, soberba e pretensiosa, que se propôs um caminho mais difícil para que a sua escolha pelo Amor de Deus fosse suficientemente qualificada.
Ora, tudo isso de algum modo já compunha o entendimento anterior daquele juízo contrário ao Antinatalismo. Mas poderia se realizar a decisão humana de procriar e, com isso, de experimentar certa medida do mal como reflexo de suas trevas interiores, sem que tivesse ao seu dispor os recursos necessários ao desempenho da sua vontade? É claro que não. E é por isso que enxergamos com clareza a conveniência espiritual do sistema reprodutor do ser humano como mera concessão de Deus para a realização do propósito maior da sua Obra.
Não foi de bom grado, ou por desígnio originário, que Deus concedeu ao ser humano um sistema mais complexo do que aquele que poderia refletir mais fielmente a simplicidade do seu Ser, mas para que esta criatura levasse a termo os seus propósitos e experimentasse a sua carência do Amor, de modo que pudesse voltar-se do seu pecado para a reconciliação com o Pai.
Este é o sentido da parábola do Filho Pródigo, que tem que viver a sua rebeldia para conhecer sua própria fidelidade no fim. O coração do Pai se contorce com a dor de ver essa decisão de rompimento com o seu Amor, mas aceita e deixa estar, e até contribui com a distribuição de parte da sua herança, porque sabe que isto tudo será necessário para o melhor resultado ao fim.
Há uma teologia rasteira que entende o ser humano como co-criador eleito como veículo de uma absurda dependência divina, como a que diz que a função da história é a salvação dos eleitos e inclui nisso, obviamente, a reprodução de novas safras de escravos, como se Deus precisasse do mal para fazer o bem. Este é o ser humano que aprendeu a mentir com o seu tutor, o próprio diabo, e finge que está executando um mandamento divino quando na verdade está apenas fazendo a sua própria vontade.
Deus nunca desejou a degeneração da sua Criação no aumento da complexidade dos entes manifestados, mas o ser humano quis experimentar as trevas, e isso lhe foi permitido para a realização de uma escolha perfeita pela verdade da luz divina.
Sendo assim, dizemos que o sistema reprodutor do ser humano foi feito por Deus, como não poderia deixar de ser, e com o propósito benéfico da salvação daqueles que, realizando a sua rebelião, poderiam assim escolher o Amor como seu destino final. Convém entender que este sistema foi criado em latência, dependendo de uma ativação pela vontade humana que resolve atualizar essa possibilidade, de modo que os Corpos de Queda são particularmente definidos como produtos dessa atualização da liberdade do homem. Assim, os Vanyar, por exemplo, teriam um sistema análogo preservado em latência e jamais ativado, mais ou menos como uma pessoa nascida Sindar pode viver uma vida inteira sem sofrer de pericoronarite (a inflamação e infecção decorrente da erupção de dente do siso) ou de apendicite.
Resta-nos apontar brevemente que o mesmo se dá por analogia em todos os seres vivos que se reproduzem de acordo com processos submetidos ao Princípio de Geração e Corrupção, a partir do momento em que estes seres existem num modo de reflexão da experiência da liberdade humana e vivem igualmente uma queda da simplicidade originária da criatividade divina, e aguardam igualmente pela sua redenção para se verem livres de seus próprios processos complexos de reprodução (assim como os de nutrição). Um mundo Vanyar, portanto, é povoado por todo tipo de ser vivo que experimenta a multiplicação de suas espécies e a sustentação nutritiva de seus membros sem que em nada isso constitua complexidade e corrupção, e portanto sem nenhuma experiência de dor ou sofrimento (como se promete sobre a realidade redimida em Is 11:6-9).
Por fim, a conexão essencial entre a justificação da rejeição do Antinatalismo com a da realidade do sistema reprodutor se dá obviamente pelo entendimento de que este sistema foi criado para realizar, como causa eficiente, o desígnio que permitiu a procriação como causa final de salvação.
Tudo isso deve servir para o desarmamento das idolatrias naturalista e antropocentrista que disputavam autoridade com Deus, já que a verdade não está em nenhuma razão subsidiária à simplicidade do Amor divino. As resoluções morais dos seres humanos que não se submetem à supremacia do Amor divino são decadentes e pervertidas, e em consequência os processos naturais que introduziram maior complexidade na Criação não resultam de um reflexo da Sabedoria divina, mas da medida de concessão da bondade de Deus com vistas ao melhor resultado possível.
Depois de várias horas de trabalho numa tentativa de fazer uma leitura comentada do livro Monadologia, de Leibniz, em vídeos para o meu Canal do Youtube, resolvi desistir dessa idéia e fazer uma apresentação mais simples neste texto.
A influência de Leibniz sobre o meu pensamento é enorme, e pude verificar recentemente que é até maior do que eu mesmo já estimava. Ocorreu então, naturalmente, que na tentativa de expôr as idéias leibnizianas no que elas podem contribuir ao meu próprio sistema eu acabei por abrir uma rede de significados complexíssima que daria tanto trabalho quanto tentar refazer toda a minha própria obra em alguns poucos vídeos. Era impraticável. Dado, como sou, a digressões muito vastas e múltiplas, a coisa toda logo se tornou impossível para o propósito em foco, que era apenas o de fazer uma leitura para incluir o filósofo alemão no rol do meu Livro das Tendências.
Tendo finalmente desistido daquele empreendimento hercúleo, resolvi portanto fazer uma exposição a mais simples possível, e que ainda fizesse justiça ao verdadeiro monumento intelectual que é a Monadologia.
Comecemos por considerar que Leibniz não é infalível e nem perfeito. Não tem a teologia sagrada de um Apóstolo Paulo, e nem mesmo em sua filosofia pode ser completo o suficiente para nos fazer dispensar o estudo do platonismo, do aristotelismo, ou das luzes de Agostinho, Plotino, Tomás de Aquino ou Duns Scot, para citar apenas alguns.
No que tem de mais fraco, sucumbe ao Racionalismo mecanicista que era o vício da sua época, não se permitindo pensar a sua própria Metafísica com a liberdade total que lhe seria mais conveniente. Mas possui o vigor e a firmeza de manter alta a visão transcendente, não deixando que a avaliação das coisas sob o ponto de vista moderno atrapalhasse as considerações superiores, lembrando assim a prudência do conceito de Analogia tão caro aos Escolásticos, ao qual certamente pôde honrar muito mais do que a média dos seus contemporâneos.
No seu otimismo, o autor também não dá conta do grau de comprometimento de algumas almas com a traição e usurpação do Amor de Deus, e do quanto isso repercutiu na experiência humana deste mundo em particular, e assim parece enxergar o ambiente humano com alguma ingenuidade, embora em nenhum ponto isso chegue a comprometer a consistência da sua visão de mundo.
Já do ponto de vista do gnosticismo tipicamente filosófico, Leibniz também não escapa de alguns problemas comuns: a consideração da necessidade de alguma alteridade num sentido negativo para a evidência do positivo (embora de maneira tênue, como veremos), a hipótese da imortalidade da alma, e de que a natureza bondosa em Deus é secundária ao conhecimento do bem próprio à Criação. Mas em nenhum caso essas eventuais falhas representaram um elemento constitutivo da sua filosofia, ao menos nesta obra.
A maior vantagem da visão monadológica como ensinada por Leibniz consiste na recuperação da substância metafísica como o sujeito real de toda experiência possível, resgatando a necessária Unidade por trás da experiência manifestada da Multiplicidade. Por outro lado, com a consideração da realidade moral das mônadas livres e racionais, Leibniz também retorna ao tema da individuação diante de Deus como finalidade da alma humana. Juntas, essas soluções já sugerem o que eu concebi como a forma da vida paradisíaca pela noção da criatividade monádica.
Ainda, a visão monadológica da realidade parece diminuir consideravelmente a importância da ciência da Física moderna, no que esta se incumbiu de explicar a realidade como totalidade, tornando mais fácil a admissão das hipóteses de simulação e holograma pela função analógica da manifestação da Multiplicidade na forma das percepções das mônadas.
Leibniz foi, afinal, um filósofo no sentido pleno da palavra, um metafísico generalista capaz de enxergar a experiência humana na sua unidade, e buscando do mesmo modo entender a coerência da unidade do próprio mundo. Quando especializava o seu pensamento, isso era feito com a intenção do enriquecimento da visão mais generosa e ampla possível.
Vejamos algumas passagens desta obra, que aliás é uma coleção de textos, começando por “A Monadologia, ou princípios da filosofia“:
Aqui temos o postulado da necessidade do simples como anterior para a manifestação posterior do complexo, bem como a referência clara à ação divina de produção ex nihil e de extinção total, por criação e aniquilação, em contraste com a complexidade das formações e corrupções dos compostos. É desta observação que derivamos, por exemplo, a distância total que existe entre o corpo humano preternatural ou paradisíaco produzido simpliciter (Corpos de Graça e de Glória, respectivamente) mantido na plenitude pela ação exclusiva da Graça, com relação ao corpo humano natural produzido secundum quid (Corpos de Queda) submetido ao Princípio de Geração e Corrupção.
Nesta sequência temos que se as mônadas não podem sofrer alternação por força de elementos exteriores, como elas experimentam tanto a multiplicidade quanto o movimento, devem haver princípios internos que dão origem a essa relação do simples com o que se lhe contrasta, e estes são os que Leibniz chama de Percepção e Apetição. Isto quer dizer que as mônadas experimentam qualquer universo como uma variação da Percepção do reflexo do seu próprio ser, movida sempre pela Apetição.
O sentido disto para a vida espiritual é o de que tudo o que é exterior à nossa alma pode ser considerado simulação ou holograma no sentido de que é uma manifestação da potência anímica concedida por Deus, de modo que cada singularidade criada à imagem e semelhança de Deus tem como destino reconhecer que a substância de todos os seres experimentados como reais é tão somente a manifestação da Glória divina ao nosso poder de testemunhá-la (a “apercepção”, na linguagem leibniziana). Seguindo nesta linha entendemos facilmente como a Vida Eterna é simples, sendo tão somente o resultado da liberação da potência das almas conforme a sua adesão voluntária à comunhão com o Espírito Santo. Tudo o que era bom sempre foi a experiência direta de Deus, e para sempre todo bem será uma experiência da qualidade de Deus.
Na diferença entre o limitado e o ilimitado, ou entre o finito e o infinito, já temos dada de imediato a finalidade amorosa de toda criação possível, sendo a Graça divina a fonte eminente dos seres e dos contingentes necessários à sua perfeição ou completude, restando a cada um o ser que é por si imperfeito por carência constitutiva da sua forma, como uma concavidade que atrai por sua natureza uma convexidade que lhe corresponde essencialmente. Todas as coisas foram feitas pelo e para o Amor de Deus, que constitui a sua origem e o seu destino, seu fundamento e a sua finalidade, e por isso o Criador diz de si mesmo: Eu Sou o Alfa e o Ômega.
Observamos em Leibniz um grande cuidado com a concepção de uma Harmonia Universal, reconhecendo a obra divina como o ordenamento de todos os seres para o melhor resultado estimado pela Sabedoria do Criador, o que o leva a exigir o reconhecimento de que de todos este seja o melhor universo possível.
É preciso esclarecer que as minhas hipóteses de Multiversos e do Omniverso não ficam excluídas, de vez que o que Leibniz exige é que um dado Universo de compossíveis seja constituído de tal forma que o seu conjunto seja o melhor possível dadas as combinações consideradas pelo entendimento divino deste particular. Cada Universo considerado em si mesmo deve possuir esse grau de perfeição interna. Quando, na minha avaliação das variações possíveis no conjunto das escolhas humanas de aceitação ou rejeição do Amor divino, que é a causa final de todas as realidades antes do Paraíso, elenquei para as almas humanas as variáveis dos Vanyar, Sindar, e Teleri, de modo que diferentes universos devessem comportar essas formas de escolha do Amor divino, considerei que cada um deles necessitasse do grau interno de perfeição exigido por Leibniz, razão mesma pela qual estas espécies de deliberações não poderiam coexistir coerentemente em uma mesma experiência espiritual (são incompossíveis). A existência do melhor é uma necessidade que não exclui a variância dos mundos paralelos que é determinada não pelo desejo divino, que de por si criaria apenas um único Universo Vanyar plenamente cheio de adesão ao seu Amor, mas pela imperfeição das mônadas livres que escolhem de forma precária, fazendo gerar uma mais conveniente pluralidade de mundos que comporte a realização da sua liberdade.
Que visão espetacular da Criação divina!
Pense-se no que isso representa à noção física de entanglement (“entrelaçamento”), para não falar de uma possível solução à teoria unificada que possa unir a gravitação universal da relatividade geral com o comportamento localizado das partículas na física quântica. Tudo sendo feito de mônadas que estão absolutamente conectadas por uma reflexividade ideal, não existe um caminho mais acessível –em uma palavra: mais fácil–, para a explicação da realidade?
Não sei dessas coisas que concernem à Física, mas na Filosofia Primeira, ou Teologia, observo a implicação imediata da particularidade da experiência de cada mônada cuja possibilidade tende ao infinito, mas que se concretiza na proximidade das Percepções mais distintas ou nítidas, estas movidas pelo princípio de Apetição que é o bonum próprio de cada ser, isto é, a realização do propósito amoroso determinado pela forma singular de cada mônada.
A nossa limitação não é uma carência de ser, mas é a própria forma da nossa felicidade, de modo que é bom para a criatura não ser Deus, porque assim se têm o Amor de Deus como causa da felicidade que se ajusta à nossa limitação. Bem-aventurança é, assim, a conformidade com o desígnio que já deu aos seres criados a medida total da sua realização na forma do seu limite constitutivo.
Temos aqui outro elemento condenável na visão de Leibniz, já que ele confunde o Criador de todas as coisas, sempre suficiente em si mesmo, e inclusive na sua natureza amorosa (como já pudemos demonstrar ao afirmar a necessidade da relação entre Pai e Filho no Ser de Deus), com um criador menor, deficiente e necessitado de um ser contingente que lhe conheça e admire para que se complete a sua dignidade divina. Deus tem sua Glória em si mesmo e de forma atual desde a Eternidade.
Em seguida temos outro texto, “Princípios da Natureza e da Graça“:
Metafísico por excelência, Leibniz verifica que não se pode jamais encontrar na série das causas materiais e eficientes a razão de qualquer ser no lugar do não-ser, sendo necessária uma causa externa a estas séries contingentes que torne atuais algumas possibilidades.
Do mesmo modo como Leibniz requer uma causa fundamental que tenha causado o primeiro dos movimentos, uma causa não causada alinhada com a visão aristotélica do Primeiro Motor Imóvel, ele também reconhece que nenhum movimento seria possível sem que tivesse uma finalidade que determinasse uma determinada escolha em função de outras alternativas, sendo essa razão o melhor em face do Bem, formalmente e finalísticamente alinhada com o Sumo Bem platônico. Como filósofo pleno, o alemão integra sua visão moderna com o ápice da metafísica antiga, sem deixar perder nenhum patamar anteriormente conquistado. Seu esforço de integração é notável e contrasta bastante com a ânsia de novidades e com o costume de ruptura da sua geração.
Reafirmando os entendimentos anteriores, Leibniz erra na afirmação da qualidade de “existência” atribuída a Deus, enquanto o existir só pode ser um predicado para os contingentes, mas de qualquer modo acerta na sua intenção geral de evidenciar a necessidade do Criador na justificativa da Criação, como aliás bem colocou o Apóstolo como um dever para qualquer cientista sério que avaliasse a natureza das coisas criadas e visse nesta a indicação da origem volitiva dos seres.
O autor nos introduz aos importantes conceitos de Nitidez e Confusão, embora como sempre não faça muita questão de determinar o detalhe dessas noções de maneira sistemática.
Por necessidade temos que cada mônada possui em potência o reflexo de todas as coisas, realizando porém esses reflexos em si mesma de modo particular, de acordo com a sua forma limitada de ser, movendo-se por Apetição de Percepção em Percepção para encontrar com maior nitidez os seres que correspondem ao seu maior bem, enquanto os demais mantém-se em algum grau inferior de confusão, embora a qualquer momento reconhecíveis por um interesse que justifique sua clareza, isto é, a partir de um movimento interior desde sua Apetição.
Em seguida temos outro texto chamado “Sistema Novo da Natureza e da Comunicação das Substâncias“:
Este é um testemunho que reflete, de certo modo, o drama da razão humana, e que prova inequivocamente o quanto é tola a presunção de que exista uma continuidade na forma de progresso do conhecimento. Leibniz está explicitamente indicando a trajetória que teve que percorrer, arriscando-se a violar os preceitos da ciência do seu tempo, para recuperar noções elementares já possuídas pelo pitagorismo, pelo platonismo, pelo aristotelismo, pelo neoplatonismo, pelo escolasticismo, etc.
Uma mente tão privilegiada quando a dele teve que passar por um percurso algo desafiador apenas para retomar pontos de vista que já eram possuídos anteriormente, não podendo se dar ao direito de receber uma herança pronta que lhe permitisse se dedicar exclusivamente ao avanço da pesquisa desde o ponto de evolução anteriormente alcançado. Se há uma força em ação no mundo do intelecto, é o da confusão e do esquecimento, contra o esclarecimento e a memória. Espiritualmente podemos atribuir isso a uma ação infernal designada para manutenção da situação humana de cativeiro. Algo que Leibniz não reconhece diretamente, mas que está implícito no enquadramento do seu pensamento na História da Filosofia, e mais ainda pelo desprezo moderno à sua própria contribuição.
Precisamos fazer algumas ressalvas importantes neste ponto.
A linguagem teológica de Leibniz não é muito apurada.
Para começar, nenhuma mônada, não importando a sua dignidade, possui um “raio de luz divina” dentro de si. Essa noção romperia com a ordem da Analogia. Também podemos dispensar a “punição dos maus” como uma confusão com a consequência do afastamento do Amor de Deus, uma necessidade para o arrependimento e para a conversão, e portanto uma dispensação graciosa para a felicidade até dos maus, o que culmina inclusive com a aniquilação daquelas mônadas que se obstinarem na rejeição do Amor, um ato também cheio de misericórdia até o fim. Deus não muda jamais, e sendo amoroso, seu Amor também não tem termo.
Por outro lado, ao afirmar que “tudo mais é feito para eles”, Leibniz acerta em cheio na causa final dos contingentes não livres quando estes são criados em qualquer mundo que seja habitado por mônadas livres (o que exclui os criados no Omniverso interior, ou anterior).
O que ele não afirma, mas podemos nós dizer partindo do seu raciocínio, é que toda a natureza criada para o exercício da liberdade das mônadas racionais e livres aguarda a sua redenção quando da completude da obra divina de santificação, ou separação. Significando isso que o termo da felicidade desses seres é constituído pelo resultado da liberdade das mônadas racionais. É claro que Leibniz não trabalha com a premissa de mundos ou realidades consecutivas, de modo que a exigência de que ele entendesse a progressão histórica em direção ao ideal divino seria excessiva da nossa parte.
Deste modo Leibniz expandiu a sua definição de mônada numa direção que eu entendo ser a mais conveniente, tendo eu mesmo proposto a minha definição como a de uma unidade metafísica, de ser capaz de ser sujeito e objeto da experiência do amor. Isso integra mais perfeitamente todos os seres com a sua origem na criatividade divina.
Mas observamos como o filósofo lutou contra outros tipos de problemas que lhe eram peculiares pela sua linha de pesquisa, isto é, a solução do problema da Dualidade cartesiana entre coisas extensas e coisas pensantes. Coerentemente, ele verificou que a solução do Materialismo não resolveria nada jamais, porque a definição da fisicalidade de qualquer corpo requer a sua potencial divisibilidade ao infinito. Tampouco, porém, o Racionalismo cartesiano propunha uma solução razoável, desde que o cogito nunca conseguiria alcançar o status de substância, possuindo apenas a reflexão (ou apercepção) posterior ao ser. Era preciso vencer essa aporia com o Idealismo que aceitava, com a recuperação da Metafísica, o conceito de substância simples, uma singularidade capaz de refletir o diverso, ou Unidade capaz de manifestar o Múltiplo. Leibniz reorganizou toda a bagunça.
À primeira vista este raciocínio pode parecer inconveniente por uma ilusão de complexidade, mas bem entendido o princípio criativo de Deus, a razão leva ao contrário, isto é, à observação da conveniência do esquema proposto como o mais simples possível, pensando-se na preservação da integridade das substâncias, o que é uma preocupação constante para Leibniz. Igualmente, seu pensamento está em perfeito acordo com a noção de criação analógica, e sua concordância com a idéia do ordenamento divino chega ao ponto de que o autor não teme o reconhecimento da concordância com um nome como o de Teresa de Ávila. Este é um espírito realmente livre de preconceitos, buscando a verdade onde a puder encontrar.
Convém ainda reconhecer o quanto Leibniz facilita o caminho, no seu pensamento monadológico, para as modernas teorias de simulação e holografia. De minha parte tenho uma alegação pronta para trabalhar, que trata da idéia da Mutualidade da Simulação, onde levaremos a hipótese ao ponto de reconhecer, junto com Leibniz e Teresa de Ávila, que só existe a Alma e Deus, e a realização ou a frustração do Amor conforme o desenvolvimento da liberdade da mônada racional. Quando tratei da idéia dos Periannath na vida paradisíaca, ou ainda antes, quando relatei que João ao amar Maria na verdade ama João na forma de Maria, foi a isso que quis me referir. Meu objetivo será mostrar, com a ajuda de Deus, que embora isso possa parecer levar à complexidade, realmente revela apenas a simplicidade das coisas divinas. Algo que já é confusamente intuído em algumas experiências místicas relatadas aqui ou ali, mas que podemos e devemos avançar com a busca do Discernimento, com a permissão de Deus.
Por fim convém notar a observação de que os corpos são feitos para os espíritos capazes de se associar a Deus e de o glorificar, o que evidencia a absurdidade da condenação ao inferno e invoca a razão divina de extinguir misericordiosamente os seres desinteressados do seu Amor por aniquilação, que é a “perdição” ou “segunda morte”.
Da imortalidade da alma já pude falar o suficiente, e é fácil entender como Leibniz cairia nessa forma de entendimento, embora não seja tão simples determinar as razões externas à sua lógica, como as psicológicas, para que ele tenha preferido fazer isso. O certo é que se quisesse ele poderia igualmente reconhecer a autoridade maior daquele poder primário que antes de tudo trouxe as mônadas à vida, e assim propor não que as almas sejam imortais em si mesmas, mas que o sejam por um desejo divino que a qualquer momento pode decidir diferentemente, quando o contrário for mais conveniente ao Amor divino.
É muito poderosa a invocação da separação total dos espíritos, com independência e autosuficiência, realizando aqui o filósofo a admissão metafísica da profecia divina de santificação ou separação, num sentido que animicamente implica na realização da individuação das singularidades. Esta é a Vida Eterna, e foi a isto que Jesus Cristo se referiu quando disse que o Reino de Deus está dentro de nós. Somente por esta razão, se não tivesse mesmo dito mais nada, Leibniz já deveria ser reconhecido como um príncipe entre os filósofos cristãos.
O que é incrível, e que evidencia certamente a Presença de Deus (muito mais apropriadamente do que a sua “existência”), é esse alinhamento nas manifestações das unidades em concurso com o Amor do Criador, como Leibniz mostrou. Essa é a Arte Suprema, a Arte Divina, e nada mais belo e mais sábio jamais será encontrado do que este ordenamento harmônico que o Criador providencia para levar todas as coisas à perfeição, justamente por computar na Providência todas as modificações por liberalidade das almas racionais, e todos os efeitos destas.
Em seguida temos outro texto, intitulado “Sobre a origem fundamental das coisas“:
Aqui Leibniz expõe com muita clareza e elegância o Princípio da Razão Suficiente que requer o reconhecimento da substância divina, ou do Criador, para justificar o ser de todos os contingentes. Parece que todo filósofo de fato, ou amante da sabedoria de fato, vai sempre circular em torno da necessidade de Deus e de seu Amor, como aqueles serafins que cantam ao redor do Trono e proclamam a respeito de Deus que é “Santo, Santo, Santo“.
Quem entenda isso como uma “repetição” ainda não entendeu a razão nem sequer da sua própria existência particular, quanto menos de todas as coisas criadas. Todas as alegrias particulares serão formas concretas de louvor e glorificação alinhadas com essa realidade espiritual elementar e subsidiária à toda a Criação.
Este é um excelente elogio da Humildade, o que é raro da parte de um filósofo e torna mais brilhante a sua contribuição ao legado moral da busca da verdade. É verdade que Leibniz já havia previsto essa realidade ao propor a intuição confusa de algumas das Percepções, mas aqui ele deixou marcada a limitação humana como constituição da nossa condição neste mundo. Evoca os ecos da sabedoria de Sócrates, e mesmo do platonismo do Mito da Caverna. Ao fim, a justificação de Deus, ou Teodicéia, sustenta-se suficientemente sobre este ponto, como apontou Agostinho contra o Paradoxo de Epicuro. Como pode uma criatura finita julgar seu Criador infinito? Não seria nem mesmo um milagre, pois é simplesmente impossível.
Aqui temos uma referência tênue à experiência do negativo para o proveito do positivo, embora isso não seja inequívoco. Penso que tratando-se de um filósofo ocupado com o rigor expressivo, a alternação não se refere a uma analogia entre bem e mal ou luz e trevas, mas entre diferenças num mesmo plano, ou entre espécies do mesmo gênero. Cabe-nos, generosamente, interpretar desta forma, embora ainda assim Leibniz seja limitado na sua visão teológica, como podemos constatar pelo que já pude expôr a respeito da garantia dos ânimos interiores por uma força espiritual concedida por Deus para a correção das subjetividades, de modo que o ser desgostoso e fadado a idiotice é este que ainda não tem aquela comunhão com o Espírito Santo que tornará toda e cada experiência única e perfeita na milésima vez, mesmo que em sequência direta, preservando a mesma qualidade como da primeira. E esta sim é a lei da alegria completa: o encontro da subjetividade plena com a objetividade perfeita, não restando hipótese que não seja ótima, e não sendo assim necessária a alternação dos estados e das circunstâncias, estando a alma mais livre do que nunca para escolher a sua próxima Percepção com total felicidade, e novamente a cada vez, para sempre.
Devo sustentar, contra a alegação de que Deus precisa do mal para fazer o que é bom, que a liberdade humana requer certa experiência do que está abaixo do ótimo e desejado pela Providência, para que possa então dirigir a sua escolha ao ideal desde a sua experiência, e isto é permitido em linha com o que Leibniz afirma, isto é, que há sempre um atalho garantido por Deus para a maior eficiência soteriológica do seu sistema, ou melhor, da sua obra de separação.
Temos em seguida a documentação da “Primeira carta a Nicolas Rémond“:
O que mais nos interessa aqui é o entendimento de que as realidades empíricas, inclusive o movimento dos corpos, são manifestações posteriores à substancialidade das mônadas, das quais toda multiplicidade experimentada subsiste apenas como manifestação para a realização da Percepção adequada a cada uma conforme o bem que corresponde ao objeto de sua Apetição.
Tudo o que entendemos como real e concreto, no sentido de material e físico, é secundário à substância verdadeira que não é composta, mas simples, e esse agregado manifestado atende apenas ao propósito do ser de cada singularidade, isto é, que Perceba o Múltiplo como reflexo da sua Unidade, e que se mova de uma Percepção a outra de acordo com o bem definido pela sua forma determinada de Apetição.
A relatividade das dimensões às quais atribuímos integridade, como Espaço e Tempo, é espantosa numa filosofia que antecedeu tanto aos avanços da Física futura. E mais espantosa ainda é a ignorância corrente dessa noção elementar, mesmo por várias mentes supostamente esclarecidas. Nem mesmo as observações mais óbvias da física quântica parecem ser suficientes para mostrar a eminência do Observador diante de uma realidade manifestada que é dócil ao seu ato cognitivo, exatamente como Leibniz postula que toda Multiplicidade é derivada e serviçal, por assim dizer, das Unidades.
Por isso é justo dizer que, embora no que concerne à infraestrutura da Criação tudo esteja de acordo para a alegada Confraternização das almas junto ao seu Criador, é mais fácil crer no fim deste mundo particular antes que a maior parte dos seres humanos possam reconhecer a simplicidade da obra divina que foi produzida para o seu próprio benefício.
Por fim, temos a “Segunda carta a Nicolas Rémond“:
Esta é a única passagem em toda a coleção de textos em que Leibniz dá a entender a sua plena ciência do estado circunstancialmente precário da situação humana, embora o faça de forma velada. Definitivamente, o dom de Vigilância não era o ponto mais forte do filósofo. Mas seus apontamentos são fortuitos: há uma necessidade especial de produzir discursos que evidenciem as realidades mais supremas, não porque estas sejam particularmente difíceis ou complexas, mas porque o entendimento humano está dissipado e distraído com os elementos do mundo. A “atenção” de que fala Leibniz não seria necessária se não fosse o estado decaído e amaldiçoado de um ser que herdou de seus pais a traição contra o Criador de todas as coisas. É claro que tal observação seria muito contraditória com o tom da obra do filósofo, mas não deixaria de concordar e explicar o fenômeno que ele observou. Justificando a necessidade de um esforço, Leibniz prova que a natureza humana não está mais inclinada ao reconhecimento da verdade, mas ao engano pelos erros que lhe fazem se perder.
Isso não deveria acontecer, se entendermos que com sua boa vontade Leibniz apenas precisa se defender daqueles que são incapazes de alcançar o nível das suas contemplações, como das de Platão ou Agostinho. Seria mais justo que o filósofo prestasse contas apenas àqueles que são realmente interessados na sua busca, isto é, que não tenham mais a necessidade de testar as imagens das coisas para verificar, finalmente, que há a garantia necessária do produtor delas. A discussão sobre a integridade geral das idéias considerando o mundo real que as manifesta particularmente é um objeto para almas limitadas, autocastradas na verdade, não dispostas ao reconhecimento da integridade formal da realidade. E isto se dá por uma razão moral, como bem o sabiam os filósofos que aprenderam com Sócrates, porque a transcendência das idéias em Deus só está disponível às almas que não tenham ainda a presunção da posse das mesmas na sua forma secundária e limitada de concepção, como produtos da racionalidade humana, por exemplo.
Qualquer teoria epistemológica de abstração opera no nível da causalidade eficiente do processo cognitivo, enquanto a tese da iluminação divina é requerida para dar assertividade a este processo por necessidade de acerto na intuição do que é tomado como autoevidente, a começar pelos princípios da própria Lógica. As luzes da razão natural são concedidas pela Graça divina sem a qual tudo o que o ser humano poderia fazer seria a quantificação dos dados da realidade, como um animal ou um computador, sem jamais aperceber-se da substância dos seres, e muito menos da necessidade das causas formal e final, para não falar da reflexão autoconsciente.
Leibniz, como um verdadeiro diplomata da filosofia, trouxe ao seu tratamento dos objetos intelectuais a arte da harmonia política da sua ocupação profissional, e em tudo buscou conciliar os antigos e os modernos, tentando realizar a sua visão de Comunidade de almas sob o governo divino da Cidade de Deus.
É um belo exemplo, mas entendo que teria sido mais eficaz se fosse mais assertivo no que diz respeito ao estado deste mundo em particular, o que talvez não estivesse tão disposto a fazer por ainda não poder trabalhar com níveis de profundidade secundários na sua Teodicéia.
Tal imperfeição é muito desculpável num filósofo que lidava com certa barbárie ao seu redor, seja da parte dos pensadores ou dos líderes religiosos. É muito compreensível que não quisesse entrar em confronto por estar um tanto isolado nos seus entendimentos sobre coisas sagradas que a humanidade que lhe cercava provavelmente não poderia aceitar. Na verdade, ainda hoje muitas dessas coisas são inaceitáveis, mas ao menos podemos contar com o benefício das luzes de um Leibniz para contribuir com o melhor entendimento da natureza da nossa realidade.
Nota Espiritual: 8,1
Humildade (representação ou intuição confusa das Percepções)
9
Presença (todas as substâncias criadas existem diante da Substância primordial)
10
Louvor (a felicidade das mônadas é a sua finalidade de reflexo da glória divina)
10
Paixão (este deve ser o melhor mundo possível, ou outro mais necessário existiria)
9
Soberania (racionalismo e mecanicismo, compensados por forte Metafísica)
O excelente diretor do ótimo filme O Barco (“Das Boot“) criou aqui uma história fraca, mas justa, que mostra o destino líquido e certo desse caçador violento e desalmado que é o ser humano: o fundo do Abismo.
Billy Tyne (George Clooney) é o capitão de um barco de pesca que anda frustrado com sua baixa performance. Assim como os membros de sua tripulação, Billy deseja um grande sucesso e, dito e feito, eles conseguem um que custa precisamente o preço mais alto possível, que é o das suas próprias vidas.
Há dois temas neste filme: a inclemência da natureza que faz os homens se lançarem aos maiores riscos e sacrifícios, e a estupidez do próprio ser humano que acrescenta, ao já pesado encargo da sua vida natural, o peso de seus próprios sonhos de felicidade.
A forma da felicidade é a vida familiar lastreada no impulso luxurioso, que neste filme possui muito mais força do que quaisquer deliberações mais avançadas. O homem é simplesmente um ser que quer trepar e que, com isso, arruma um casamento e filhos para cuidar. Eventualmente o sonho vai falhar quase sempre: só não existe frustração onde ainda não se passou tempo suficiente para a conta moral chegar. Quando o tempo já teve a oportunidade de causar seus estragos, os casamentos já foram devidamente dissolvidos pelo estilo de vida de um pescador.
Embora seja fraco, e isso por não trazer nenhuma grande questão humana à tona, o filme não mente, bem ao contrário disso: revela a realidade humana da escravidão da Maldição ou do Poder.
Há uma tentativa de mostrar o heroísmo dos caçadores, é claro. Uma menção da sua suposta honra de enfrentar os perigos da vida natural. Mas o fazem em nome do quê? Apenas da subsistência na condição amaldiçoada, já que não há Redenção do estado decaído e amaldiçoado. E ainda com o agravante da omissão de responsabilidade por trazer mais almas inocentes à mesma condição claramente desgraçada em que se encontram.
Não gosto do sofrimento humano, mas devo confessar que pelo menos uma parte de mim torcia pelo mar e pelos peixes, e de certo modo saí vingado.
Nota Espiritual: 3,7
Humildade
4
Presença
4
Louvor (ninguém é capaz de renunciar a qualquer benefício por razões espirituais)
O Cristianismo é o culto do Mashiach ben Yoseph para preparar o mundo para a chegada do Anticristo e a implantação das Leis de Noé.
Ou pelo menos é assim que parece que as coisas são quando associamos a probabilidade da ambiguidade bíblica entre o culto do Amor e o do Poder com a forma com que os cristãos religiosos estão sendo enquadrados pelos proponentes do noeísmo.
Digo por mim mesmo, neste blog já recebi comunicações de quem tivesse conexão com essa agenda, justamente para indicar que o que o cristão chama de “Graça” tem uma função religiosa bem diferente dentro do cabalismo, significando, etimologicamente, “Sacrifício”. A observação dessa alegação me fez prestar atenção à importância do sacrifício de sangue dentro da soteriologia cristã.
Se você procurar, como eu fiz, pela pergunta “Jesus tinha que morrer?“, ou “Did Jesus have to die?“, você só vai encontrar as expressões confirmativas, mesmo na forma de questão, como “Por que Jesus tinha que morrer?“, ou “Why did Jesus have to die?“, subentendendo sempre que essa necessidade está acima de qualquer suspeita.
Seria de se supor que as explicações fossem todas muito convincentes a esse respeito, porém o que encontramos é o atendimento à antiga Lei, chamada mosaica (já veremos como isso é questionável), principalmente com as indicações no Livro de Hebreus. Se o sacrifício de sangue for retirado da equação, toda essa “salvação” cai por terra imediatamente.
Mas convém que todo e qualquer cristão seja capaz de apelar imediatamente para as razões da sua Fé, como diria o Apóstolo Pedro, sem precisar fundar a sua crença num dogma inquestionável. Mistérios existem, sem dúvida, e devem ser aceitos na sua inefabilidade. Mas será que a Salvação é tão misteriosa assim? Será que não existe uma deliberada confusão religiosa com a intenção de manter como prisioneiros da mentira as vítimas do Ouroboros?
Podemos seguir uma linha simples e clara de raciocínio para verificar a viabilidade do sacrifício de sangue como pagamento pelos pecados. Lembrando que não se trata aqui de questionar a intercessão e a petição de salvação, quando estas coisas são puras, ou seja, baseadas com exclusividade na Graça divina. Estamos tratando da crença de que para que haja remissão dos pecados seja preciso derramar sangue (Heb 9).
E que o sim seja sim, e o não seja não, sem meias palavras.
Questão 1: Jesus tinha que morrer?
Sim ou não?
Se não, então já escapamos do paradigma do sacrifício de sangue. Jesus não tinha que morrer: ele tinha que ser reconhecido como o Filho de Deus e Rei dos Reis. Foi assassinado injustamente, e na Cruz sacrificou a sua majestade e provou duplamente tanto o Amor do Pai quanto a mentira assassina do Acusador. A Salvação não se dá por magia de sangue, mas pela aceitação do Amor de Deus, especialmente na forma de Misericórdia através de um arrependimento sincero por toda participação na traição contra Deus das Obras da Carne.
Se sim, cabe então uma próxima pergunta.
Questão 2: Quem matou Jesus tinha a liberdade de não fazê-lo?
Se não, então não é uma ação de responsabilidade imputável, de modo que isso equivaleria a dizer que Jesus se matou, ou ainda que não teve nenhum sentido a petição dele na Cruz quando disse “perdoa-os, eles não sabem o que fazem“. Se eles não sabiam o que faziam, praticavam um mal, ainda que ignorantes da natureza de seu ato. Em suma, se não fossem livres para decidir da forma que decidiram, os assassinos de Jesus não seriam assassinos, e sim executores da Justiça divina. Se a Crucificação foi real e moralmente substantiva, ela não pode ser uma farsa. Essa hipótese deve ser descartada como absurdo.
Se sim, cabe-nos então uma última pergunta.
Questão 3: Quem matou Jesus praticou o Bem?
Se não, então Jesus não tinha que morrer: sua execução foi um assassinato. Saímos novamente do paradigma.
Se sim, então voltamos ao absurdo da negativa anterior, ou até pior que isso. Pois não só Jesus seria novamente, neste caso, uma espécie de suicida, como também seria absurdo o seu pedido de perdão a favor dos seus assassinos, que não seriam homicidas, mas executores do Bem.
O Cordeiro de Deus não se entregou em sacrifício para a morte certa, como forma de Justiça, pois essa só poderia ser exigida por Deus mesmo.
Ele se entregou para ser reconhecido na majestade do Amor sem defesas, de modo que a crença na Graça fosse pura da parte dos fiéis, como é de fato até hoje e será até o Fim dos Tempos.
Uma questão final talvez se imponha como a decisiva:
Quem pediu pelo sangue de Jesus?
Se o sacrifício de sangue é legítimo, isto quer dizer que a divindade, como na pessoa do Pai, pediria pelo sangue de uma vítima de sacrifício, como o do Filho. E se assim fosse, novamente nos caberia reconhecer que a morte de Jesus não seria uma injustiça, e seus assassinos não seriam imputáveis.
Por outro lado, se o sacrifício não era legítimo, quem pediu pelo sangue de Jesus foi o Acusador, o Pai da Mentira, que se coloca diante dos homens no lugar de Deus.
A verdade do sacrifício da Cruz foi a da entrega de Jesus à condição de Filho de Homem para que pela sua inocência ficasse provada a bondade de Deus e a maldade do Acusador.
Satisfazendo-se injustamente com o sangue do Cordeiro de Deus, a Serpente do Mundo, o Ouroboros, expôs a sua verdadeira natureza, não a de Promotor de Justiça, mas de Mentiroso e Assassino.
Assim, a Religião Cristã, ou Cristianismo, independente de sua forma mais ou menos tradicional, está ligada ao culto do assassinato como ritual de sangue iniciado pelo Ouroboros desde o princípio dos tempos.
E, cabalisticamente, isso se conecta com o mito messiânico judaico que reconhece, com Maimônides e muitos outros, que em Jesus realizou-se a profecia concernente ao Mashiach ben Yoseph, com a função de converter as nações à Torá e preparar o mundo para a chegada do seu Maschiach ben David, o Messias Triunfante, que implantará então as Leis de Noé num mundo previamente preparado pelo Messias Sofredor.
A verdade é que o verdadeiro Messias é um só, e que ele já veio como Cordeiro Sofredor para os seus, até que os tempos se completem e ele volte como Leão Triunfante para o Juízo Final. É preciso que o trigo cresça junto com o joio, para que no tempo da colheita o agricultor possa fazer a separação entre eles.
Jesus disse que não veio abolir a Lei, mas levá-la a perfeição.
Mas de que Lei ele está falando?
Da Lei de Moisés, na forma dos Dez Mandamentos determinados diretamente pela autoridade divina, ou da Lei de Aarão, na forma da Legislação Levítica e Sacerdotal, inventada pelos homens a partir do que aprenderam com seus pactos com o Ouroboros, desde a Tradição Primordial?
Sendo a verdadeira Lei mosaica aquela que os judeus desprezaram, já que se amassem a ela, reconheceriam o seu verdadeiro Messias, o aperfeiçoamento que Jesus trouxe foi a revelação do Pai e do seu Amor, com os definitivos Mandamentos de amor a Deus e ao próximo.
O Cristianismo é o culto do Maschiach ben Yoseph para a conversão das nações à autoridade da Besta, o falso deus que instaurou o culto mentiroso do derramamento do sangue do Cordeiro de Deus como administração da Justiça. Revelando a sua própria verdade, o Anticristo reiniciará no Terceiro Templo as ofertas de sangue, até que estas sejam cessadas na Grande Tribulação, antes do Fim dos Tempos.
Durante muitos séculos e para muitos povos o Ouroboros pôde sustentar a legitimidade da continuidade da traição contra o Amor de Deus com base na mentira, com a anuência dos fiéis que viveram seus tempos de usurpação e miséria sustentados pelo culto do sacrifício do Cordeiro. E Deus assim o permitiu, até a consumação dos tempos, para que a sua colheita fosse a mais completa.
Nenhuma religião se sustenta espiritualmente, de vez que a substância da vida espiritual é a vida na Presença de Deus, a realidade individual de cada alma totalmente independente das aparências.
Muito menos ainda se sustenta o Cristianismo, na perfídia da mentira travestida de uma verdade muito próxima, mas sempre omitida.
Tire de qualquer Religião, inclusive da Cristã, as funções de lavanderia moral, validação da superstição e cultura sentimentalista, e o que sobrará? A ignorância equivalente a de qualquer paganismo.
O ponto central do entendimento desta verdade, para os cristãos, é a observação da pureza da santidade da Graça divina em contraste com a graça que não é divina justamente por não ser gratuita, mas somente um produto de troca na espelunca espiritual do diabo, esse farsante.
Já falamos antes da grande diferença que há entre as Obras da Carne, personificadas no mito por Adão e Eva, e as Obras do Espírito, personificadas por Jesus e Maria. E já falamos que pelos frutos se conhecerá a árvore: quem segue Adão e Eva os imita e produz o mesmo que eles produziram, e quem segue Jesus e Maria os imita e produz o mesmo que eles produziram.
Essa diferença dos dois tipos de destino humano já mostra tudo o que precisamos saber sobre a essência da vida espiritual: a escolha humana se dá entre a obediência e a rebelião, entre a dependência do Amor divino e a busca do Poder de emancipação. De um lado aceita-se a exclusividade da santidade divina de criar, e do outro presume-se poder criar vida por procuração, e não qualquer vida, mas o tipo mais sagrado que pode haver na corporeidade da carne e do sangue.
A decisão humana de tomar o lugar de Deus sempre me parecerá assombrosa, por todos os lados em que eu a possa considerar. Não só espiritualmente, aliás, mas também psicologicamente: cá entre nós, como pode uma personalidade livre de qualquer narcisismo se achar boa o suficiente para criar uma vida humana? Eu SEI que não sou competente nem para cuidar de um cachorro, e que vou fazer injustiça ao animal. Mas de algum modo presume-se que eu deveria ter grandes pretensões, do contrário a minha vida não serviria para nada, afinal, de que vale uma alma fraca que é apenas capaz de glorificar o santo Nome do Eterno e confiar na sua Providência? Isso parece pouco.
Mas voltemos ao tema central.
Um fato igualmente impressionante, e que novamente corrobora a opinião muito razoável de que a nossa raça é cheia de traição e mentira, é o quanto se dissocia a virtude da Sagrada Família dos fatos que a sustentam espiritualmente. Será que toda a religião cristã é uma forma de esquizofrenia?
Senão vejamos: a religião cristã parece adorar o valor simbólico e totêmico, ou fetichista, da Sagrada Família, e ao mesmo tempo detestar a imitação do seu exemplo.
Pensemos nesta época do ano. É difícil entrar em uma galeria comercial, ou um shopping center, neste período natalino, e não encontrar presépios montados para mostrar a reunião da Sagrada Família. Nas escolas e em várias comunidades encena-se a Natividade, com o mesmo cenário e os mesmos personagens de sempre. E, é claro, nas igrejas celebra-se de várias maneiras o Advento, seguindo o calendário das festas. Tudo muito tocante, e não fosse o fato de que provavelmente Jesus não nasceu nesta época do ano (talvez tenha sido em Setembro, e há quem diga Março), já que a data de 25 de Dezembro foi uma escolha romana para substituir as festas pagãs com a mitologia cristã, não teríamos muito o que observar a respeito.
Mas eis que tudo o que a cena do nascimento de Jesus aponta espiritualmente é diretamente desprezado pelas massas religiosas.
Aquela Sagrada Família é composta de pessoas obedientes a Deus de uma maneira bastante peculiar e não acidental.
Em primeiro lugar temos José e Maria, que renunciam à realidade de um casamento ao modo convencional (a Tradição de Adão e Eva ensinada pelo Ouroboros) para obedecer a um desígnio divino. A tão venerada (ou até adorada?) Virgem Maria é, afinal, e não casualmente, uma virgem, e isso por alguma razão especialíssima. Maria faz o que Eva jamais quis ou conseguiu fazer: renunciar à sedução do Pacto Ouroboros, ao poder das Obras da Carne. Maria aceitou viver somente pela Graça do Altíssimo. Eva quis poder sobre o seu marido e sobre os seus filhos. Não lhe bastava amar a Deus como Pai e a Adão como seu irmão. Não, ela precisava ser esposa e mãe, e tudo por “amor”, claro. E pelos frutos conhecereis a árvore: da obediência e virgindade de Maria nasceu Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus encarnado Filho do Homem; já de Eva nasceu a traição e o assassinato. E antes que digam que de Eva não nasceu apenas isso, atentem para a realidade de que a cada geração é o Espírito Santo quem converte as almas à adoração do Deus verdadeiro, e não o costume da carne, como Jesus mesmo declarou a Pedro quando este o reconheceu com o Filho de Deus, bendizendo-o porque somente o Espírito Santo do Pai o poderia ter revelado, e não a carne e o sangue.
Em segundo lugar, mas não por último, temos o próprio Jesus Cristo que viveu para realizar o crescimento e a multiplicação do Espírito, e não da Carne: ensinou, curou, perdoou, amou plenamente. E nos ensinou a amarmos uns aos outros como ele nos amou, como IRMÃOS que somos uns dos outros, e não como instrumentos de Poder. Jesus nunca casou e nunca teve filhos, mas cresceu e multiplicou no Espírito, e sendo o Caminho, abriu as portas da filiação espiritual ao Pai, a quem veio revelar. Ele dizia: a minha família são estes que acreditam em mim. E desprezou diretamente todos os méritos da carne e do sangue, humilhando os judeus ao afirmar que até de pedras Deus pode fazer filhos de Abraão. Jesus fez o que Adão jamais quis ou pôde fazer: renunciou a todo o poder sobre o mundo quando resistiu à última tentação da Serpente, poder o qual aliás ele tinha a autoridade real de reivindicar, bem ao contrário de Adão que fez pacto com a Serpente e traiu o Amor de Deus. A religião de Jesus era perfeita: não deixou viúva ou órfão, e amou até o fim quando deu à sua mãe o Apóstolo Amado como filho, e a este àquela como mãe.
Eis a Sagrada Família na sua virtude: Jesus, Maria e José, amantes verdadeiros e cheios do espírito de renúncia ao Poder ilegítimo.
Essa Sagrada Família é muito venerada na sua IMAGEM, já que como em qualquer religião, também na religião cristã o que se pratica é idolatria. Muitos “cristãos” louvam não o exemplo de virtude e santidade da Sagrada Família, mas a sua imagem de virtude e santidade, e para isso produzem todo tipo de arte humana que sustenta o poder da Tradição Primordial: esculpem, pintam, compõem músicas, cantam, atuam, etc.
Fazem tudo, tudo menos imitar a Sagrada Família.
O que importa é desprezado, isto é, a substância da vida espiritual, o viver na Presença de Deus com confiança na exclusividade do Amor divino.
Enquanto isso tudo o que tem a aparência e a imagem da santidade é adorado, venerado e louvado, como se por efeito mágico a conexão com esses ícones produzisse um efeito espiritual independentemente do sentido real da vida do crente, exatamente como ocorre com qualquer tipo de idolatria pagã, como com o totemismo, o fetichismo, etc., na total ignorância da realidade espiritual humana que diz respeito exclusivamente à crença livre no interior dos corações, independentemente das aparências das coisas.
Se aparecer uma pessoa pronta a viver de acordo com o exemplo real da Sagrada Família, enquanto desprezar o culto religioso de imagens, esta será considerada no mínimo estranha, senão mesmo como antagonista da vida cristã.
O que nos resta é amar a verdade e buscá-la incessantemente, desprezando as aparências e ligando-nos à realidade do sentido espiritual de tudo o que vivemos. Este é o meu conselho: saiamos dessa coletividade, desse grupo de mentirosos. Não temamos pela solidão.
Reparem bem: não estamos sozinhos quando confiamos no nosso Deus e nos movemos por amor à verdade. Os enganados são aqueles que se aglomeram, achando que sua imitação ao costume lhes empresta virtude por osmose. Estes estão muito mais sozinhos do que imaginam, e talvez suspeitem disso no fundo de suas almas, isto é, se não acreditam totalmente em sua própria mentira.
Entre as mais interessantes idéias da exploração de 2017 encontrei três delas boas o suficiente para uma reciclagem atual, a saber:
Que a Humildade é a chave do Coração, o Coração é a chave do Amor, e o Amor é a chave da Vida, assunto já tratado tanto neste blog quanto no meu canal do Youtube;
Que esta vida é uma grande lição de Humildade, cujo exame final é a velhice, um assunto ainda pendente de reciclagem;
Que a prece mais importante que eu aprendi além da Prece do Senhor foi aquela em que disse “livra-me do cativeiro e livrai de mim os meus cativos“, assunto que desejo trabalhar agora.
Convém-nos lembrar em primeiro lugar que nenhuma ação de prece pode mover a Deus que, em sua perfeição, não pode ser movido a qualquer disposição melhor do que a já informada pela santidade da sua própria Vontade.
Em segundo lugar que a realidade da prece é a da vida de oração, isto é, da consciência da vida na Presença de modo que qualquer movimento exterior da boca ou dos joelhos são apenas índices do movimento interior da alma, e que este tipo de movimento e não aquele é o que importa espiritualmente, de modo que a verdadeira boca e o verdadeiro joelho estão sempre no coração diante de Deus, a quem as aparências não podem enganar a realidade das substâncias.
Assim, toda e qualquer prece tem apenas duas outras duas funções possíveis, descartado o impossível melhoramento da disposição divina: (1) servir para o aumento da consciência humana a respeito da excelência divina, uma legítima função espiritual para a realização da vida na Presença e para o desenvolvimento do dom do Discernimento, e (2) servir para uma prática idolátrica, seja na tentativa de se ter poder sobre o Deus verdadeiro (antropolatria), ou na tentativa de se relacionar com qualquer entidade que usurpe o lugar de Deus, como para obter favores (a idolatria dos Avari).
Dito isso, aprendi em 2017 a pedir a Deus que me libertasse do cativeiro no qual vim a nascer, e isso de todas as formas possíveis (econômica, política, intelectual, e principalmente espiritual), ao mesmo tempo em que reconheci a validade simétrica do meu correspondente dever de libertar quaisquer vítimas que sofram em virtude de uma ambição de poder de minha parte, quer fosse de vontade de poder sobre elas, ou de poder sobre outro objeto que implicasse no uso delas como meios para uma conquista.
A qualidade dessa prece consiste, em primeiro lugar, da observação de que Deus não teve jamais a vontade de me ver nascido num mundo decaído e amaldiçoado, tanto que posso contar com a sua Graça para me libertar de tal estado, no mínimo através do decreto da morte deste Corpo de Queda.
Em segundo lugar, consiste na identificação da origem do mal no mundo na ambição humana de poder. E, nesta linha, na desproporção que há entre a luta contra o mal fora de mim, que resulta na impotência da Revolução Exterior, a utopia de reformar o mundo, e a luta contra o mal dentro de mim, que resulta na verdadeira vitória do Amor através da Revolução Interior, a reforma do homem.
Reconhece-se, assim, através desta prece, que apenas Deus tem a autoridade e o poder de derrotar o mal, cabendo-nos desejar uma salvação que parte sempre da sua Graça, e então negar a participação voluntária nas Obras da Carne através da renúncia de toda forma de poder originada da nossa ambição pretensiosa.
Essa prece nos permite viver de forma mais relaxada e dócil, aceitando e confiando na Providência com a segurança de quem já se desarmou interiormente de todo espírito de rebelião e de desejo desregulado de poder, isto é, de querer atuar para além do que é determinado pelo estado de coisas ditado pela circunstância governada pela mesma Providência na qual se decidiu confiar.
Essa é a justiça que os Noldor, os Príncipes, fazem ao reinado espiritual do Rei dos Reis, fiéis à promessa da sua eleição para um reinado junto ao seu soberano, no tempo e no modo corretos, conforme a pureza do desejo do Espírito Santo de Deus.
Já pudemos verificar antes o quanto o idealismo imanentista é pernicioso por esvaziar o poder da imaginação humana, um dom concedido para o Louvor a Deus, para objetos entrópicos de todo tipo de idolatria e causar, com isso, a dispersão das almas em direção ao Vazio.
Convém ampliar esse entendimento com o desenvolvimento de uma ferramenta espiritual e psicológica que corrija o idealismo do erro imanentista ao acerto transcendentalista, a Reflexão YX.
Esta experiência implica na estimativa da realização da nossa Esperança na Vida Eterna pelo encontro de uma subjetividade perfeita (X) com uma objetividade perfeita (Y).
O Eixo X se desenvolve observando a pureza da animação espiritual que Deus concede graciosamente para o aproveitamento de qualquer circunstância externa para a produção da melhor experiência ou, em termos simples, a comunhão com o Espírito Santo que nos torna infalíveis para a felicidade plena a que fomos designados pela Providência.
O Eixo Y se desenvolve observando quaisquer cenas ideais que podem ser acreditadas como manifestações da perfeição da vida, refletindo a expectativa do que seria a criatividade monádica em sua plena capacidade, orientada para a melhor felicidade esperada.
O foco da imaginação se dá no Eixo Y, já que aí é que se encontra o poder de produção de imagens da felicidade, e tal ação deve ser sempre desimpedida de quaisquer elementos da presente experiência de vida decaída e amaldiçoada, principalmente: a) a necessidade da escassez, b) a inviolabilidade das causas, e c) a irreversibilidade dos efeitos.
Já o Eixo X serve para o reconhecimento da total dependência ao Amor de Deus para a realização da imagem projetada no Eixo Y, de vez que não temos nem o poder de desejar o bem, nem o de aceitá-lo na sua perfeição, e nem o de criá-lo. A comunhão com Espírito Santo, representada por este Eixo X, implica tanto na infalibilidade dos nossos desejos e da capacidade de fruição dos mesmos, quanto no poder de atualizar aquela criatividade monádica que no Eixo Y é refletida apenas como virtualidade.
Em outras palavras: devemos imaginar justamente o que nos é impossível realizar, seja por pureza e bondade de intenção, ou por capacidade de criação ou experiência, mas que constitui justamente o objeto mais excelente como reflexo da maior felicidade que possamos intuir (Eixo Y), de modo que fique óbvio que apenas o Amor de Deus graciosamente concedido ao nosso ser nos permitirá experimentar a felicidade mais plena, tanto pela perfeição da nossa subjetividade, quanto pela perfeição da objetividade realizada pelo poder divino concedido para a realização da nossa criatividade monádica (Eixo X).
Qualquer pessoa que queira viver bem com Deus tem à sua disposição esse recurso de um idealismo sadio que não leva a nenhuma frustração com a vida no mundo presente, já que a experiência presente é secundada pela expectativa do ideal justificado pela crença mais perfeita que é a que se ampara no Amor divino.
Ao contrário, esse tipo de idealismo transcendental, bem ajustado ao seu objeto mais justo, que é a vida paradisíaca com Deus, permite um relaxamento mais pleno com a aceitação das limitações atuais, bem como um convívio mais caridoso e paciente com o próximo que pode ser a qualquer momento reconhecido como uma alma convidada à mesma promessa que recebemos.
É com o dom da Esperança plena que nos reconciliamos com Deus e com o Próximo, atentos ao que se prepara para o futuro, às expensas das imperfeições presentes que nos foram impostas por seres desarmoniosos e infelizes que rejeitaram a promessa do Amor divino.
Se atentarmos bem, veremos que o Apóstolo, em suas grandes exortações a favor do Amor e da Salvação, estava falando exatamente deste poder que temos de nos conectarmos imediatamente à perfeição do destino designado pelo Altíssimo. Igualmente, entendemos porque o Eterno é chamado de “A Rocha” por sobre a qual podemos finalmente repousar, desiludidos e desenganados a respeito da realidade do mundo em que nascemos. E assim tudo fica bem para quem confia no Bem, usando de recursos já disponíveis para a finalidade dessa Esperança.
É muito interessante observar como as duas ferramentas fundamentais do governo do diabo sobre este mundo, isto é, (1) a reprodução da próxima safra de escravos, e (2) a manutenção destas novas safras sob império das religiões, são corroídas com o desenvolvimento humano na forma de prosperidade material e então das liberdades civis correspondentes ao fortalecimento da classe média.
Por esta razão o Conservadorismo é a arma mais formidável do Ouroboros para governar o mundo (como já expliquei no meu livro A Coruscância, no capítulo “O diabo, esse conservador”), tornando toda possibilidade de liberdade absurda sob a falsa Revolução exterior gnóstica que promove valores anti-humanos, de modo a levar uma humanidade assustada a agarrar para sua proteção todo tipo de solução reacionária, na forma dos costumes que reforçam o Ouroboros, como uma tribo amedrontada se prostrando diante de seu totem.
Entre as nações que mais desafiam o império do Ouroboros encontramos o Japão.
Peço que observem os seguintes mapas:
A) Importância da Religião:
B) Importância da Religião:
C) Taxa de Natalidade:
D) Equidade econômica ajustada pelo Desenvolvimento Humano:
Com as ilustrações acima podemos visualizar duas informações importantes sobre os japoneses:
1) que eles não acham que a prática de uma religião seja algo importante para as suas vidas;
2) que eles não estão interessados em encarnar novas almas neste mundo amaldiçoado, já que taxa de natalidade média do país fica abaixo dos 2.0, que é a taxa mínima de reposição da população.
Inversamente, tanto a importância da religião quanto a taxa de natalidade são altas justamente nos países com menor desenvolvimento humano e econômico, como em boa parte da África, do Oriente Médio, e parcialmente na América Latina.
No Japão temos uma sociedade que já se desenvolveu por tempo suficiente para que as novas gerações tirassem as conclusões mais óbvias a respeito da condição humana, contra o Pacto Ouroboros, algo que lhes foi permitido justamente pelo encontro das duas variáveis em questão.
Vejam que em outras sociedades razoavelmente desenvolvidas também por tempo suficiente, e talvez até por mais tempo, principalmente como o caso dos Estados Unidos, não vemos o mesmo fenômeno. E isso pela razão muito simples de que os EUA foram fundados sob a forte influência da tradição do Cristianismo e da Maçonaria, braços da Tradição Primordial como desenvolvimentos posteriores do Judaísmo.
No caso do Japão, a invasão cultural da Tradição Primordial pela via do Cristianismo jesuítico foi bloqueada e exterminada pelo shogunato Tokugawa.
Dir-se-ia que o Shintoísmo, ou mesmo o Budismo, ambos presentes na cultura japonesa, são manifestações da mesma Tradição Primordial subordinada ao Ouroboros. Porém observamos pelos fatos mesmo que estas culturas não possuem a mesma força de submissão que o Cristianismo ou o Islamismo, por exemplo, já que o povo japonês flagrantemente prefere se abster tanto da prática religiosa quanto da reprodução de descendência, coisa que não se permitiria fazer se tivesse sido convertido por qualquer tradição abraâmica.
Isto quer dizer que se em outros países, como nos EUA, a redução da natalidade entra em choque contra uma resistência cultural provinda da religião, no Japão o Ouroboros não tem essa defesa à sua disposição, por causa da indiferença da população local com relação a esse tipo de poder (o papel do Bispo no Sistema da Besta).
Convém observar que em outras nações, como no caso da China e da Coréia do Norte, o comunismo ateístico não concede necessariamente liberdade contra o Ouroboros, já que a natalidade pode ser incentivada ou até mesmo exigida por força de um governo totalitário que tem entre as suas metas mais óbvias a conservação da sua existência. Porém, também aí o japonês sempre se destacou da média ao seu redor, sendo extremamente contrário a todo tipo de socialismo político importado do exterior, já que tem acesso a uma forma interna de amparo coletivo que funciona bem por si. É um país com uma das menores desigualdades sociais do mundo em relação ao seu desenvolvimento econômico (imagem D) e, ao mesmo tempo, um dos mais contrários a toda utopia política do tipo de revolução externa gnóstica e messiânica que contaminou as nações atacadas pelo comunismo. Os japoneses não querem fundar o paraíso na Terra: eles querem ir embora daqui.
O Japão pode, assim, maravilhosamente, escapar duplamente do Ouroboros, da sua dialética perversa, constituindo-se como uma nação disposta a aceitar espontaneamente a sua extinção voluntária como resultado de um progresso moral.
Dificilmente poderemos encontrar esse grau de renúncia voluntária ao poder na sua forma mais elementar, que é a da subsistência na condição decaída e amaldiçoada, em qualquer outra nação do mundo no mesmo grau, talvez com a exceção da Coréia do Sul, e mesmo assim nem tanto porque a Coréia do Sul sofreu uma maior invasão do Cristianismo.
Na Europa os países escandinavos são os candidatos mais óbvios a seguir o exemplo japonês, mas com o agravante da participação num organismo político maior, o da União Européia, o que dá alguma permeabilidade a influência de outras culturas através do processo migratório, especialmente na forma do Islamismo.
No Japão, além dos elementos culturais já assinalados, tem-se ainda uma forte cultura isolacionista contra a imigração.
Tudo isso junto leva ao provável cenário de um grande declínio populacional naquela nação.
Seria o Japão o primeiro país na fila da aceitação plena do sentido do decreto da Maldição de Gênesis 3? Uma nação disposta a voltar ao pó?
Uma coisa é certa: o Ouroboros não deve estar nada feliz com a liberdade japonesa contra os seus mecanismos de controle, o que nos leva a crer que a Nova Ordem Mundial deve querer agir contra o Japão de modo especial, no mínimo com a intenção de conter essa cultura de liberdade para que não se corra o risco de que ela se espalhe pelo mundo.
Toda vez em que o espírito do Anticristo, aquele que nega que Jesus Cristo seja o Filho de Deus, atua no mundo com uma nova proposta que obviamente viola a verdade revelada, nós aprendemos algo novo sobre como funciona o esquema da mentira.
É uma fatalidade para o inimigo que ele tenha que se mostrar toda vez que avança na conquista de novos poderes neste mundo. Bem acostumado às trevas que lhes são peculiares, o Adversário precisa se esconder não só porque é, como sempre foi, covarde diante do Espírito Santo, mas também porque, sendo mentiroso, a sua exposição à luz sempre evidencia a sua fraqueza, sua verdadeira natureza de perdedor e vencido, humilhado e rebaixado.
Ora, contemporaneamente temos o caso não só da proposta das Leis de Noé (Noahide Laws) pelo messianismo cabalista, como também o dos chamados Acordos de Abraão (Abraham Accords). O primeiro versa sobre a universalização da Torá para as Nações, especialmente na forma da condenação como idolatria, sob pena de capitação, para os cristãos que reconheçam Jesus Cristo como Filho de Deus. E o segundo versa sobre a paz e segurança no Oriente Médio, entre os povos que descendem dos filhos de Abraão, isto é, entre Ismael e Isaac.
Pois bem, nas duas situações judeus e muçulmanos muito convenientemente se irmanam com grande facilidade, podendo reconhecer facilmente o seu deus como o mesmo, tanto quanto reconhecem o seu ancestral comum como o mesmo, o velho Abraão, igualmente Patriarca de Israel e Profeta do Islam.
Na linha do que já investigamos antes a respeito de outros temas próximos, principalmente o da questão da instituição do sacrifício de sangue, é conveniente refletir sobre o que os cristãos verdadeiros têm a ver com essa linhagem judaico e muçulmana, ou melhor, e já indo à conclusão, refletir sobre tudo o que não há em comum entre essas mentalidades.
Se judeus e muçulmanos rejeitam Jesus Cristo como o Filho de Deus, essa decisão lhes associa ao espírito do Anticristo. É por esta razão que podem instalar com suposta justiça os tribunais para a sentença e execução dos cristãos como idólatras, o que aliás farão em associação com os falsos cristãos conduzidos pela maçonaria.
Do mesmo modo, com a sua paz em nome da descendência comum de Abraão, sob o poder da carne e do sangue, tanto judeus quanto muçulmanos rejeitam a descendência cristã de Abraão, sob o poder do Espírito Santo.
Aceitando que o Ouroboros vêm se colocando diante do homem no lugar de Deus desde o início dos tempos, se a exclusividade da libertação vem do Filho de Deus que é o único que pode revelar o Pai (“Eu Sou o Caminho, a Verdade, e a Vida, ninguém vai ao Pai senão por Mim“), é bem possível e até viável que o Deus dos cristãos não seja o mesmo que o dos judeus e muçulmanos, principalmente se verificarmos a negação de Jesus Cristo como o Filho de Deus, e a presunção das obras da carne contra as obras do Espírito na questão da filiação carnal ou espiritual de Abraão.
Muitos cristãos tradicionalistas, escravos do Culto do Ouroboros na forma do Cristianismo, negarão essa possibilidade, justamente pela necessidade da indicação da descendência de Jesus a partir de Abraão. Ora, Jesus mesmo desprezou essa descendência, já que ela servia, assim como o conhecimento da Lei mosaica, apenas para o reconhecimento da sua autoridade, coisa em que os judeus flagrantemente falharam. Ou seja, no que importava a associação com Abraão e Moisés, de nada adiantou que os judeus possuíssem o Antigo Testamento. Pode-se pensar diversamente com a alegação de que os Apóstolos foram os primeiros cristãos enquanto judeus, mas isso viola a realidade da supremacia do Evangelho sobre todas as nações, sendo uma corrupção da verdadeira universalidade da Salvação e do Amor de Deus. Os Apóstolos não aceitaram Jesus Cristo por serem judeus, mas apesar de o serem.
Em nada a escravidão da religião cristã institucionalizada ao Culto do Ouroboros é tão evidente quanto na aceitação do sacrifício de sangue como mandamento divino. E nisso os religiosos se associam, percebendo ou não, com os assassinos de Jesus, os mesmos que até hoje entendem o Cristianismo como manifestação da vontade de Deus de converter as nações ao messianismo judaico.
Aos descendentes carnais de Abraão, entre os quais podem se incluir ao lado dos descendentes de Isaac também os de Ismael, por associação ideológica e espiritual, Jesus disse como continua dizendo: “por isso não me ouvis, pois sois do vosso pai, o diabo“.
De que adiantou a descendência carnal, do sangue de Abraão, se a descendência espiritual daqueles que recusam Jesus Cristo como Filho de Deus os associa com o espírito do Anticristo?
Pior do que tudo isso, obviamente, é a perversão do Cristianismo que se associa com o culto de sangue do paganismo disfarçado.
Sendo assim, devemos condenar totalmente qualquer noção cultural ou histórica de sociedade “judaico-cristã”, bem como o valor da falsa paz dos Acordos de Abraão, já que tudo isso só serve para a execução das Leis de Noé, produzindo a confusão entre o Deus verdadeiro, revelado como Pai pelo Filho, com o falso deus dos judeus e muçulmanos, que é o Ouroboros que institui como principal ritual o assassinato.
Este é o Príncipe deste mundo, um mentiroso, ladrão e assassino: mente sobre ser deus quando não o é, rouba os méritos do Criador colocando-se no lugar santo, e legitima o assassinato de todos os que se opõe à sua maldade, como se isso fosse a obra de Deus.
O verdadeiro filho da promessa veio nos libertar do cativeiro do mundo decaído e amaldiçoado denunciando a traição cometida pelos nossos pais. Ele é quem deu a verdadeira alegria a Abraão, não sendo constituído pela virtude da carne e do sangue, mas da fidelidade espiritual que revelou da forma perfeita que o seu ascendente carnal não pôde fazer.
Do outro lado, o filho da falsa promessa da redenção pelo sangue não só executou o assassinato de Jesus Cristo na cruz, como vai levar o mundo à total apostasia sendo reconhecido no lugar de Deus sendo apenas um homem, filho do pecado, descendente da carne e do sangue de Abraão.
Os judeus dizem que Abraão foi sacrificar Isaac no Monte do Templo.
Os muçulmanos dizem que Abraão foi sacrificar Ismael no Monte do Templo.
Mas o Deus verdadeiro poupou Abraão de fazer o que não poupou a Si mesmo: o Filho de Deus se fez homem para entregar-se como Cordeiro de Deus para ser aceito pelos seus, submetendo-se à rejeição daqueles que o odiaram sem motivo e o executaram injustamente.
Realizou-se assim a Revelação perfeita: a da pureza do Amor de Deus, e ao mesmo tempo a da mentira do Acusador que não resistiu à tentação de condenar Jesus, revelando assim a sua verdadeira natureza assassina.
Do mesmo modo, quando os usurpadores se levantarem para a execução dos cristãos verdadeiros, pelos frutos conhecereis a árvore: os fiés a Deus aceitarão o martírio com a felicidade da confirmação da sua filiação espiritual, ao passo em que os traidores de Deus praticarão a injustiça confirmando a também a sua própria filiação espiritual.
No que Abraão repetiu o pecado de Adão, ele produziu a continuidade da traição contra Deus.
No que Abraão precedeu a virtude de Jesus, ele produziu o testemunho da verdade em favor de Deus.
Quanto aos cristãos religiosos, institucionalizados, principalmente associados com a prática do reconhecimento do ritual de sangue, digo-vos alinhado com a orientação já recebida antes: sai dela, povo meu.
Abraão não pôde sacrificar a sua obstinação por ter uma descendência carnal em imitação ao Pacto de Adão, do qual seu Criador quis lhe poupar. Mas Deus não se poupou de tomar a forma do Filho do Homem para trazer a Redenção a todos os prisioneiros da mentira e da injustiça que quisessem aceitá-lo como o executor do espólio espiritual de Abraão, o que o próprio Abraão não pôde fazer através da descendência do seu sangue.
Amplia-se, assim, o sentido das palavras de Jesus quando este revelou: “antes que Abraão fosse, EU SOU“.
Jesus Cristo é o filho da promessa para a verdadeira redenção que não é da carne nem do sangue, mas do espírito.